Cinema e Argumento

Whiplash: Em Busca da Perfeição

But I tried. I actually fucking tried. And that’s more than most people ever do.

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Direção: Damien Chazelle

Roteiro: Damien Chazelle

Elenco: Miles Teller, J.K. Simmons, Paul Reiser, Melissa Benoist, Austin Stowell, Nate Lang, Chris Mulkey, Damon Gupton, Charlie Ian, Jayson Blair, C.J. Vana, Suanne Spoke, Max Kasch, Kavita Patil

Whiplash, EUA, 2014, Drama, 107 minutos

Sinopse: O solitário Andrew (Miles Teller) é um jovem baterista que sonha em ser o melhor de sua geração e marcar seu nome na música americana como fez Buddy Rich, seu maior ídolo na bateria. Após chamar a atenção do reverenciado e impiedoso mestre do jazz Terence Fletcher (JK Simmons), Andrew entra para a orquestra principal do conservatório de Shaffer, a melhor escola de música dos Estados Unidos. Entretanto, a convivência com o abusivo maestro fará Andrew transformar seu sonho em obsessão, fazendo de tudo para chegar a um novo nível como músico, mesmo que isso coloque em risco seus relacionamentos com sua namorada e sua saúde física e mental. (Adoro Cinema)

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Logo quando o Brasil passou o vexame de ser derrotado pela Alemanha na semifinal da Copa do Mundo que sediava em 2014, era fácil encontrar análises atestando que a Alemanha demonstrou infinita superioridade por ser um time que prioriza o trabalho em equipe e, acima de tudo, a disciplina. Se Terence Fletcher (J.K. Simmons), o professor de jazz de Whiplash: Em Busca da Perfeição, existisse de verdade, certamente defenderia tal teoria, pois, para ele, de nada adianta o talento se não existe a extrema dedicação e um rígido direcionamento. Claro que, no filme comandado pelo estreante em longas Damien Chazelle, Fletcher chega realmente a extremos para tirar o máximo de perfeição musical de seus alunos, mas a mensagem é a mesma e Whiplash, ao buscar a potencialização dessa lógica por meio do cinema, cria uma experiência com níveis crescentes de angústia que culminam em um dos clímax mais hipnotizantes dos últimos anos.

A busca pela perfeição já havia sido mostrada com grande inovação anos atrás em Cisne Negro e é fácil encontrar semelhanças temáticas entre Whiplash e o filme estrelado por Natalie Portman, mas, apesar da aproximação, são produções bastante distintas porque tratam de artes diferentes (um é sobre dança, o outro sobre música) e porque o longa de Chazelle consolida muito mais a relação aluno/professor como pilar de sua história. O diretor, também autor do roteiro, é certeiro ao desenvolver quase todo o filme em cenas com as duras aulas do personagem de J.K. Simmons e ao transmitir toda a força destes momentos não só para o texto mas também para a técnica: percebam como a todo o momento a câmera está extremamente próxima aos rostos do personagens, além de capturar, com planos bastante fechados, toda a intimidação que o mestre passa quando fala incessantemente ao pé do ouvido do aprendiz Andrew (Miles Teller) na hora de um ensaio. Mas não se engane: para além da disciplina advinda da rigidez deste ambiente, os alunos também têm admiração e respeito bastante compreensíveis por aquela figura.

É óbvio que o desempenho visceral de J.K. Simmons (no auge de sua carreira prolífera mas até então fadada a papeis coadjuvantes corriqueiros) é peça fundamental para que Whiplash consiga fazer qualquer espectador se sentir um dos alunos, compartilhando da tensão criada pela disciplina quase militar dos ensaios. Só que a ótima atuação de Simmons é um belo complemento para o exemplar trabalho de direção de Chazelle que, ao gravitar constantemente em torno do professor na regência dos ensaios, compreende por completo o poder de uma câmera bem posicionada para fisgar o espectador sem uma palavra sequer. Exemplo disso é a cena envolvendo o primeiro ensaio quando nós, espectadores, ansiosos pelo suspense envolvendo a mitificação do professor, precisamos aguardar breves segundos para acabar com nossa angústia quando Chazelle se desloca da visão dos músicos para, em um mesmo movimento, se posicionar na mão do professor que finalmente dará o sinal para que o ensaio comece. É um silêncio de breves – mas cortantes – segundos.

Se por um momento Whiplash parece tratar o personagem de Simmons como uma figura unidimensional, aos poucos o roteiro nos apresenta justificativas e passagens de humanização dele, tudo sem qualquer pieguice. Questões importantes como o fato de Terence realmente ter um comportamento abusivo para um ambiente acadêmico também não são deixadas de lado. Por outro lado surgem conflitos pouco criativos para um roteiro tão cuidadoso, como a conveniente sucessão de problemas responsável por fazer o protagonista se atrasar para um importante compromisso. Sorte que tudo é compensado por um diretor ciente do que está fazendo atrás das câmeras. Chazelle, ainda certeiro na aposta de Miles Teller como protagonista (o jovem nunca pareceu promissor e não tem um rosto marcante, mas dá conta total do recado), prova de uma vez por todas o seu talento na sequência final que, fora a envolvente sintonia com o poder da música por si só, é uma aula de como orquestrar todas as ferramentas do cinema com puro brilhantismo, da excepcional montagem à excelente fotografia. É a técnica fazendo algo empolgante como há anos não víamos em uma sequência final. E também o próprio roteiro, resolvendo questões decisivas da trama sem uma palavra sequer – e sem precisar delas. Como o próprio filme sugere com a chegada dos créditos finais, as palmas ficam por nossa conta.

Os indicados ao Oscar 2015

Em uma lista repleta de (boas) surpresas, a francesa Marion Cotillard finalmente voltou a ser lembrada pelo Oscar por seu desempenho em Dois Dias, Uma Noite

Em uma lista repleta de (boas) surpresas, a francesa Marion Cotillard finalmente voltou a ser lembrada pelo Oscar por seu desempenho em Dois Dias, Uma Noite

Quem esperava previsibilidade dos indicados ao Oscar 2015 teve belas surpresas na manhã desta quinta-feira (15). Há tempos a Academia não trazia tantas indicações ignoradas em outros prêmios e várias surpresas inesperadas. Difícil reclamar da lista. Entre as interpretações, dei pulos de felicidade com a lembrança para Marion Cotillard por Dois Dias, Uma Noite. Além do desempenho extraordinário, é também uma reparação com a atriz, que há anos merecia várias lembranças no prêmio e era solenemente ignorada. Também é gratificante a indicação para Laura Dern, uma grande atriz esnobada por todas as outras listas da temporada com Livre e merecidamente lembrada aqui. Nos estrangeiros, a Argentina mais uma vez conseguiu chegar entre os finalistas com uma indicação para Relatos Selvagens, um dos grandes filmes de 2014 que também era estranhamente esnobado anteriormente.

Outra imensa felicidade que tive ao conhecer os indicados foi a dupla indicação para Alexandre Desplat, sendo uma delas por O Grande Hotel Budapeste. Sem falar que, ao contrário do que aparenta, a lembrança por O Jogo da Imitação também é merecidíssima. Foxcatcher foi lembrado em direção (outra escolha inesperada que muito me agrada) mas estranhamente não conseguiu ficar entre os oito indicados da categoria principal. Enquanto isso, alguns longas voltaram à vida, como SelmaSr. Turner, enquanto outros nomes falharam em chegar na lista, como Jennifer Aniston e Jake Gyllenhaal. Quem perde força com a lista é A Teoria de Tudo, um filme que, até então, era a minha aposta para bater Boyhood em melhor filme. Mas, ao que tudo indica, as surpresas param entre os indicados e Richard Linklater deve mesmo levar a melhor com seu projeto de 12 anos. Conversaremos mais sobre a lista futuramente. Abaixo, a lista completa de indicados.

MELHOR FILME
Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)
Boyhood: Da Infância à Juventude
O Grande Hotel Budapeste
O Jogo da Imitação
Selma
Sniper Americano
A Teoria de Tudo
Whiplash: Em Busca da Perfeição

MELHOR DIREÇÃO
Alejandro González Iñárritu (Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância))
Richard Linklater (Boyhood: Da Infância à Juventude)
Bennett Miller (Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo)
Wes Anderson (O Grande Hotel Budapeste)
Morten Tyldum (O Jogo da Imitação)

MELHOR ATOR
Steve Carell (Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo)
Bradley Cooper (Sniper Americano)
Benedict Cumberbatch (O Jogo da Imitação)
Michael Keaton (Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância))
Eddie Redmayne (A Teoria de Tudo)

MELHOR ATRIZ
Marion Cotillard (Dois Dias, Uma Noite)
Felicity Jones (A Teoria de Tudo)
Jullianne Moore (Para Sempre Alice)
Rosamund Pike (Garota Exemplar)
Reese Witherspoon (Livre)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Robert Duvall (O Juiz)
Ethan Hawke (Boyhood: Da Infância à Juventude)
Edward Norton (Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância))
Mark Ruffalo (Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo)
J. K. Simmons  (Whiplash: Em Busca da Perfeição)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Patricia Arquette (Boyhood: Da Infância à Juventude)
Laura Dern (Livre)
Keira Knightley (O Jogo da Imitação)
Emma Stone (Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância))
Meryl Streep (Caminhos da Floresta)

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)
Boyhood: Da Infância à Juventude
Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo
O Grande Hotel Budapeste
O Abutre

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Sniper Americano
O Jogo da Imitação
Vício Inerente
A Teoria de Tudo
Whiplash: Em Busca da Perfeição

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
O Grande Hotel Budapeste
O Jogo da Imitação
Interestelar
Caminhos da Floresta
Sr. Turner

MELHOR MONTAGEM
Sniper Americano
Boyhood: Da Infância à Juventude
O Grande Hotel Budapeste
O Jogo da Imitação
Whiplash: Em Busca da Perfeição

MELHOR FOTOGRAFIA
Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)
O Grande Hotel Budapeste
Ida
Sr. Turner
Invencível

MELHOR FIGURINO
O Grande Hotel Budapeste
Vício Inerente
Caminhos da Floresta
Malévola
Sr. Turner

MELHOR MAQUIAGEM
Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo
O Grande Hotel Budapeste
Guardiões da Galáxia

MELHOR MIXAGEM DE SOM
Sniper Americano
Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)
Interestelar
Invencível
Whiplash: Em Busca da Perfeição

MELHOR EDIÇÃO DE SOM
Sniper Americano
Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)
O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos
Interestelar
Invencível

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Capitão América: O Soldado Invernal
Planeta dos Macacos: O Confronto
Guardiões da Galáxia
Interestelar
X-Men: Dias de um Futuro Esquecido

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
Ida (Polônia)
Leviatã (Rússia)
Tangerines (Estônia)
Timbuktu (Mauritânia)
Relatos Selvagens (Argentina)

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“Everything is Awesome” (Uma Aventura Lego)
“Glory” (Selma)
“Grateful” (Além das Luzes)
“I’m Not Gonna Miss You” (Glenn Campbell: I’ll Be Me)
“Lost Stars” (Mesmo Se Nada der Certo)

MELHOR TRILHA SONORA
O Grande Hotel Budapeste
O Jogo da Imitação
Interestelar
Sr. Turner
A Teoria de Tudo

MELHOR ANIMAÇÃO
Big Hero 6
The Boxtrolls
Como Treinar o seu Dragão 2
Song of the Sea
The Tale of the Princess Kaguya

MELHOR DOCUMENTÁRIO LONGA-METRAGEM
Citizenfour
Finding Vivian Maier
Last Days in Vietnam
The Salt of the Earth
Virunga

MELHOR DOCUMENTÁRIO CURTA-METRAGEM
Crisis Hotline: Veterans Press 1
Joanna
Our Curse
The Reaper (La Parka)
White Earth

MELHOR CURTA DE ANIMAÇÃO
The Bigger Picture
The Dam Keeper
Feast
Me and my Moulton
A Single Life

MELHOR CURTA-METRAGEM
Aya
Boogaloo and Graham
Butter Lamp (La Lampe au Beurre De Yak)
Parvaneh
The Phone Call

Oscar 2015: quem serão os indicados?

oscar

Hora de brincar novamente de apostas. A temporada de premiações está aí e o calendário não dá trégua. Amanhã, é dia de finalmente conhecer os indicados ao Oscar 2015. Este ano a disputa parece mais previsível e morna do que o habitual (se é que isso é possível), mas nunca vale subestimar o prêmio, que frequentemente reserva pelo menos algumas surpresas nas categorias principais. A briga pela liderança de indicações deve ficar entre BirdmanO Grande Hotel Budapeste, com leve vantagem do segundo, que tem a seu favor uma técnica simplesmente excepcional. Abaixo, nossas apostas nas categorias principais e breves comentários!

MELHOR FILME
Birdman
Boyhood: Da Infância à Juventude
Foxcatcher – Uma História Que Chocou o Mundo
Garota Exemplar
O Grande Hotel Budapeste
O Jogo da Imitação
A Teoria de Tudo
Whiplash – Em Busca da Perfeição

FIQUE DE OLHO EM: Sniper Americano. É Clint Eastwood, indicado ao DGA. Ponto. No mais, é sempre um mistério o número de filmes que serão indicados. Desde que se abriu a possibilidade para 10 indicados, somente nove chegaram à disputa. Pela matemática, creio que os oito listados acima são os que têm reais possibilidades de chegaram à disputa, com menores possibilidades para SelmaCaminhos da FlorestaLivre.

MELHOR DIREÇÃO
Alejandro González-Iñárritu (Birdman)
Damien Chazelle (Whiplash – Em Busca da Perfeição)
James Marsh (A Teoria de Tudo)
Richard Linklater (Boyhood: Da Infância à Juventude)
Wes Anderson (O Grande Hotel Budapeste)

FIQUE DE OLHO EM: Clint Eastwood (Sniper Americano). Nunca subestime o poder do veterano, que ontem chegou entre os finalistas do DGA e é um querido da Academia (no ano de Cartas Para Iwo Jima só o Oscar o indicou a melhor filme). De qualquer forma, é nesta categoria que devem se concentrar as maiores surpresas, dado os excelentes trabalhos e a infinidade de estilos apresentados no ano que passou. Também é uma categoria tumultuada por si só (quem não lembra de Ben Affleck e Kathryn Bigelow sendo esnobados em 2013?). Não levo tanta fé na indicação de Wes Anderson, que me parece um diretor com carreira alternativa demais, mas a matemática está toda a seu favor. Damien Chazelle é o novato do ano que comanda um filme altamente elogiado (ele foi lembrado na categoria de direção no BAFTA) e, se os votantes realmente abraçarem A Teoria de Tudo, ainda rola uma indicação para James Marsh – que já tem em casa um Oscar de documentário por O Equilibrista.

MELHOR ATRIZ
Amy Adams (Grandes Olhos)
Felicity Jones (A Teoria de Tudo)
Julianne Moore (Para Sempre Alice)
Reese Witherspoon (Livre)
Rosamund Pike (Garota Exemplar)

FIQUE DE OLHO EM: Jennifer Aniston (Cake – Uma Razão Para Viver). Não incluí a atriz na lista porque além de já ter sido esnobada anos atrás com Por Um Sentido na Vida, ainda tem muitos preconceitos para quebrar: é atriz de comédia vinda da TV que nunca conseguiu firmar carreira no cinema, atuando basicamente em comédias que variam da indiferença ao mau gosto. Além disso, nos últimos dois anos, duas atrizes indicadas a todos os prêmios (Helen Mirren por Hitchcock e Emma Thompson por Walt nos Bastidores de Mary Poppins) não chegaram à corrida do Oscar, e Aniston é a que mais tem chances de repetir o “feito”. Sem falar que é zona de conforto indicar Amy Adams. Minha torcida fica (de novo) com a injustiçada Marion Cotillard por Era Uma Vez em Nova York ou Dois Dias, Uma Noite (muito mais pelo segundo).

MELHOR ATOR
Bradley Cooper (Sniper Americano)
Benedict Cumberbatch (O Jogo da Imitação)
Eddie Redmayne (A Teoria de Tudo)
Jake Gyllenhaal (O Abutre)
Michael Keaton (Birdman)

FIQUE DE OLHO EM: Ralph Fiennes (O Grande Hotel Budapeste). Vibraria horrores se Fiennes fosse lembrado, já que está em um dos melhores momentos de sua carreira. Mas é papel cômico e a jornada desse gênero em indicações a prêmios não é fácil. Ao mesmo tempo, parece irresistível não indicar Bradley Cooper, estrela em redenção e aceitação que está na cabeça dos votantes há dois anos (O Lado Bom da Vida e Trapaça), sem falar que protagoniza um filme de Clint Eastwood. Fora Cooper e Fiennes, todos os outros são apostas certas, com Steve Carell, ao meu ver, sendo transferido para os coadjuvantes como fez certeiramente o BAFTA.

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Emma Stone (Birdman)
Jessica Chastain (O Ano Mais Violento)
Keira Knightley (O Jogo da Imitação)
Meryl Streep (Caminhos da Floresta)
Patricia Arquette (Boyhood: Da Infância à Juventude)

FIQUE DE OLHO EM : Laura Dern (Livre). Das categorias de interpretação, é a que parece a mais fechada. A dúvida é se Meryl Streep realmente será lembrada por um papel que normalmente não estaria listado aqui caso não tivesse a assinatura de uma veterana como ela. Se ficar de fora, é possível que Laura Dern seja lembrada por Livre. Antes das primeiras listas saírem, ela era cotada por seu ótimo desempenho no filme, mas foi solenemente esquecida. Ainda vale lembrar que esse é um filme de Jean-Marc Vallé, que ano passado chegou aos indicados de melhor filme com Clube de Compras Dallas, além de ter Reese Witherspoon já concorrendo como protagonista.

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Edward Norton (Birdman)
Ethan Hawke (Boyhood: Da Infância à Juventude)
J.K. Simmons (Whiplash – Em Busca da Perfeição)
Mark Ruffalo (Foxcatcher – Uma História Que Chocou o Mundo)
Steve Carell (Foxcatcher – Uma História Que Chocou o Mundo)

FIQUE DE OLHO EM: Robert Duvall (O Juiz). Nunca levei fé na indicação de Duvall e, se Carell realmente for lembrado aqui e não entre os protagonistas, ele é certamente o nome que ficará de fora. A matemática indica a sua lembrança, mas acho muito mais fácil Carell merecidamente chegar entre os coadjuvantes por seu ótimo desempenho em Foxcatcher. Uma vidada como essa já aconteceu anos atrás com Kate Winslet, celebrada como coadjuvante por O Leitor mas vencedora do Oscar como protagonista. Se Selma ainda tiver alguma vida na disputa, também vale ficarmos atentos ao veterano Tom Wilkinson.

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
O Abutre
Birdman
Boyhood: Da Infância à Juventude
Foxcatcher – Uma História Que Chocou o Mundo
O Grande Hotel Budapeste

FIQUE DE OLHO EM: Selma. Com Whiplash sendo considerado adaptado pelo Oscar, é bastante possível que Foxcatcher, lembrado pelo WGA, consiga chegar aqui. Todos os outros são praticamente apostas certas, formando uma disputa interessante de acompanhar. Novamente, se Selma sobreviver, também é uma opção aqui.

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Garota Exemplar
O Jogo da Imitação
Sniper Americano
A Teoria de Tudo
Whiplash – Em Busca da Perfeição

FIQUE DE OLHO EM: Livre. Não há muito o que duvidar dessa lista, mas um bom filme motivacional sempre pode ganhar o coração dos votantes.

Rapidamente

Philip Seymour Hoffman vive um homem comum atormentado por compulsões sexuais em uma das várias histórias do excelente Felicidade

Philip Seymour Hoffman vive um homem comum atormentado por compulsões sexuais em uma das várias histórias do excelente Felicidade

FELICIDADE (Happiness, 1998, de Todd Solondz): O título vende uma ideia diferente e Felicidade pode realmente ter um humor bastante específico e discreto, mas a verdade é que este longa de Todd Solondz é repleto de agruras, mostrando seres humanos problemáticos, infelizes e passando por extremos. Do psicólogo que tenta controlar a sua natureza pedófila (Dylan Baker, em um de seus melhores momentos) ao homem comum viciado em sexo mas que não consegue consumar relação com mulher alguma (Philip Seymour Hoffman), o roteiro, escrito pelo próprio Solondz e indicado ao Globo de Ouro, só não se torna depressivo porque tem esse humor crítico e ácido que, de certa forma, amortece as tantas tragédias pessoais contadas ao longo da história. Durante pouco mais de duas horas (que se desenrolam com um belo ritmo), Felicidade fala sobre questões bastante delicadas sem descambar para estereótipos ou muito menos para superficialidades. Tudo está na medida nesta experiência que se torna ainda mais eficiente com o ótimo elenco. Não é um filme necessariamente acessível por ter humor mas tampouco restrito como suas tramas cruas sugerem. Na realidade, é altamente recomendável, justamente, por achar um brilhante meio termo entre essas duas propostas.

LOCKE (idem, 2014, de Steven Knight): Volta e meia surgem filmes como esse, passados quase em tempo real em um único cenário. Um dos que mais me marcou foi o angustiante Enterrado Vivo e que, possivelmente, deve ter sido o mais recente neste formato que conferi. Retorno à proposta agora com este Locke, estrelado por Tom Hardy (em um de seus desempenhos mais relevantes), que coloca o ator durante pouco mais de 90 minutos em um carro pelas estradas da Inglaterra. Enquanto dirige, Ivan, o personagem vivido por Hardy, resolve várias questões que cotidianas pendentes enquanto se dirige a uma cidade para um compromisso inadiável. Dois aspectos particulares me incomodaram. Primeiro: percebam como o protagonista, apesar de um erro específico (e que move toda a trama), é o marido do ano, sujeito íntegro e ser humano admirável. Julgando pelo que acontece desenrolar da história, ele é perfeito. Segundo: não vejo como alguém consegue administrar milhares de problemas enlouquecedores ao mesmo tempo em que dirige sem tirar os olhos do retrovisor ou seque encostar o carro para pensar. É um bobo detalhe que me tirou um pouco do filme. Sem falar que todos os conflitos mostrados em Locke só se tornam mais extraordinários porque são resolvidos por telefone dentro de um carro. Se esquecermos a circunstância e analisarmos friamente os conflitos discutidos, o longa de Steven Knight pode ser até bem convencional.

OPERAÇÃO BIG HERO (Big Hero 6, de Don Hall e Chris Williams): Demora demais a engrenar esta nova animação da Disney que, caso não fosse tão prolixa em sua primeira metade e conseguisse ir direto ao ponto da aventura, seria realmente uma grande diversão. Só que Operação Big Hero se prolonga demais ao tentar criar um fundo dramático para o jovem Hiro (voz de Ryan Potter), confundindo um pouco o espectador sobre qual a verdadeira proposta em desenvolvimento. Mesmo terminado o filme é um tanto difícil explicar Operação Big Hero, o que não é muito estimulante. De qualquer forma, apesar também de alguns furos no roteiro, o filme comandado pela dupla Don Hall e Chris Williams tem seus momentos com uma aventura que chega a ser empolgante nos seus ápices. A história ainda tem um personagem já destinado a ser inesquecível entre as animação contemporâneas: o carismático robô Baymax (voz de Scott Adsit). Difícil dizer que algumas reviravoltas são particularmente interessantes ou críveis (a revelação da identidade do vilão não me fisgou) e que o filme tem um roteiro bem resolvido, mas os pequenos não devem se importar muito com isso – o que, dependendo do ponto de vista, pode ser um elogio ou uma grande crítica.

O ÚLTIMO CONCERTO (A Late Quartet, 2012, de Yaron Zilberman): Dá para notar a inexperiência do israelense Yaron Zilberman na direção de dramas com esse O Último Concerto (anteriormente, ele só havia comandado um documentário chamado Watermarks, em 2004). Tudo é muito frágil na história roteirizada pelo próprio Zilberman em parceria com Seth Grossman, uma vez que tudo é facilmente previsível, e vários conflitos desaparecem com a mesma rapidez com que surgem. No entanto, o que mais incomoda em O Último Concerto é como o personagem de Christopher Walken – o músico que descobre ter Mal de Parkinson e resolve realizar uma última apresentação para se despedir de seu grupo – se torna quase um figurante em um filme muito mais preocupado em mostrar a vida individual de cada um dos membros do quarteto do que de fato trabalhar a suposta grande amizade de 25 anos que existe entre eles. Por isso, logo ao final, quando o tal último concerto se aproxima, não existe muita emoção, pois mal nos lembrávamos da existência de Christopher Walken. O Último Concerto não um momento sequer que represente, de forma bonita e carinhosa, a supostamente forte relação dos amigos. Assim, é quase um desperdício ver nomes como Walken, Philip Seymour Hoffman e Catherine Keener em uma trama sobre dramas familiares e matrimoniais que em momento algum escapam da obviedade.

Os vencedores do Globo de Ouro 2015

O excelente O Grande Hotel Budapeste desbancou Birdman na categoria de melhor filme comédia/musical ganhando força na temporada de premiações

O excelente O Grande Hotel Budapeste desbancou Birdman na categoria de melhor filme comédia/musical. A vitória impulsiona a já boa trajetória do filme de Wes Anderson na temporada de premiações

As surpresas do Globo de Ouro 2015 ficaram muito mais na parte de TV do que na de cinema. Como tenho acompanhado pouco das novas séries, me limito a comentar brevemente apenas o que me traz comoção particular, como a excelente Transparent, que ganhou os prêmios de melhor série e ator de comédia. Sou grande fã do desempenho repleto de sutilezas de Jeffrey Tambor e também da série em si, que, com grande dignidade, fala de forma humana e singela sobre o mundo LGBT – e o melhor de tudo: com foco total no ser humano e não na panfletagem. Também fiquei contente com a vitória de Matt Bomer como coadjuvante, já que, em The Normal Heart, sua beleza grega não é obstáculo para que possa entregar um desempenho realmente comovente (e que só foi celebrado aqui).

Ainda em TV, surpreendentes mesmo foram as derrotas de Viola Davis como atriz em série dramática por How to Get Away With Murder e Frances McDormand como atriz em minissérie por Olive Kitteridge. Não conferi as vencedoras, mas é bom elas terem feito um trabalho excepcional mesmo, já que Viola e Frances estão maravilhosas em seus respetivos desempenhos. No mais, o Globo de Ouro continua tendo um grande fraco por séries novatas (percebam que programas veteranos dificilmente ganham), o que resulta em vitórias que, pelo que li em fóruns e nas redes sociais, não são lá tão merecidas, como a total consagração de The Affair e a lembrança de Gina Rodriguez como atriz em série de comédia por Jane the Virgin.

Já em cinema, três nomes se consolidam de vez como os favoritos absolutos desta temporada de premiações: Julianne Moore como melhor atriz por Para Sempre Alice, J.K. Simmons como melhor ator coadjuvante por Whiplash – Em Busca da Perfeição e Patricia Arquette como atriz coadjuvante por Boyhood: Da Infância à Juventude (essa última beneficiada por mais uma dessas ondas irreversíveis de favoritismos meio injustificáveis e imbatíveis que os prêmios adoram inventar). Outros nomes também ganharam relativa força com vitórias ontem: Eddie Redmayne na categoria de melhor ator com A Teoria de Tudo (não subestimem o papel infalível que ele tem para desbancar Michael Keaton) e O Grande Hotel Budapeste, que agora já deverá ser realmente o possível recordista de indicações ao Oscar com a vitória surpreendente em melhor filme de comédia, deixando de escanteio o favoritíssimo Birdman. Como sou um grande fã do filme de Wes Anderson, não reclamo nadinha.

Mais brevemente: fiquei muito contente com a vitória da belíssima trilha de A Teoria de Tudo (provavelmente também deve levar o Oscar) e surpreso com a vitória de Leviatã, responsável por desbancar o favorito Ida (se bem que uma lista sem Relatos SelvagensDois Dias, Uma Noite me desperta desânimo). Por fim, o Globo de Ouro este ano ainda se despediu da dupla Amy Poehler e Tina Fey. Não dá pra dizer que o adeus delas foi em grande estilo (a piada com a Coréia se estendeu muito além do necessário), mas certamente são figuras que os produtores vão ter dificuldade em substituir. Próxima parada: Screen Actors Guild Awards no dia 25 de janeiro. Abaixo, a lista completa de vencedores.

CINEMA

MELHOR FILME DRAMA: Boyhood: Da Infância à Juventude
MELHOR FILME COMÉDIA/MUSICAL: O Grande Hotel Budapeste
MELHOR ATOR EM DRAMA: Eddie Redmayne (A Teoria de Tudo)
MELHOR ATOR EM COMÉDIA/MUSICAL: Michael Keaton (Birdman)
MELHOR ATRIZ EM DRAMA: Julianne Moore (Para Sempre Alice)
MELHOR ATRIZ EM COMÉDIA/MUSICAL: Amy Adams (Grandes Olhos)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: J.K. Simmons (Whiplash – Em Busca da Perfeição)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Patricia Arquette (Boyhood: Da Infância à Juventude)
MELHOR DIREÇÃO: Richard Linklater (Boyhood: Da Infância à Juventude)
MELHOR ROTEIRO: Birdman
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “Glory” (Selma)
MELHOR TRILHA SONORA: A Teoria de Tudo
MELHOR FILME ESTRANGEIROLeviatã (Rússia)
MELHOR ANIMAÇÃOComo Treinar Seu Dragão 2

TV

MELHOR SÉRIE DRAMA: The Affair
MELHOR SÉRIE COMÉDIA/MUSICAL: Transparent
MELHOR MINISSÉRIE/TELEFILMEFargo
MELHOR ATOR EM SÉRIE DRAMA: Kevin Spacey (House of Cards)
MELHOR ATOR EM SÉRIE COMÉDIA/MUSICAL: Jeffrey Tambor (Transparent)
MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Billy Bob Thornton (Fargo)
MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DRAMA: Ruth Wilson (The Affair)
MELHOR ATRIZ EM SÉRIE COMÉDIA/MUSICAL: Gina Rodriguez (Jane the Virgin)
MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Maggie Gyllenhaal (The Honourable Woman)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE/MINISSÉRIE/TELEFILME: Matt Bomer (The Normal Heart)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE/MINISSÉRIE/TELEFILME: Joanne Fragott (Downton Abbey)