Cinema e Argumento

Dois Lados do Amor

He went soft. I stayed hard. That was that.

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Direção: Ned Benson

Roteiro: Ned Benson

Elenco: Jessica Chastain, James McAvoy, Isabelle Huppert, Viola Davis, William Hurt, Ciarán Hinds, Bill Hader, Jess Weixler, Nina Arianda, Nikki M. James, Wyatt Ralff, Jeremy Shamos, Daron Stewart, June Miller, Julee Cerda, Johnathan Fernandez, Justine Salata

The Disappearance of Eleanor Rigby: Them, EUA, 2014, Drama, 123 minutos

Sinopse: Nova York, Estados Unidos. Connor Ludlow (James McAvoy) e Eleanor Rigby (Jessica Chastain) são casados, mas a incurável dor de um trágico acontecimento a faz deixar repentinamente o marido e a vida que levava até então. Enquanto ela tenta recomeçar e busca novos interesses, ele tenta reencontrar o amor desaparecido e entender o que de fato aconteceu. (Adoro Cinema)

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Certa vez li que Namorados Para Sempre é um filme que não funciona porque simplesmente é impossível se importar com um casal que já começa um filme separado. Tal afirmação é de uma tolice tremenda. Ora, desde quando precisamos acompanhar de forma linear todos os passos de uma cartilha romântica para que possamos nos importar com dois personagens? E será mesmo que, na desconstrução de um relacionamento, não conseguimos encontrar as forças que uniram duas pessoas? Sou um grande fã de histórias românticas que não deram certo e muitas delas (que não vou citar aqui para não estragar a surpresa de quem não as conferiu) ganham um lugar especial exatamente porque se aproximam da vida e mostram que as memórias pós-separação podem tornar momentos pregressos ainda mais significativos. Seguindo essa linha, Dois Lados do Amor (mais uma tradução brasileira equivocada e oportunista) evoca novamente a abordagem para falar sobre duas pessoas que vivem jornadas individuais em busca de um recomeço.

Concebido como um filme de duas partes, Dois Lados de Amor chegou a ser exibido comercialmente nos Estados Unidos com esse formato, onde cada um dos volumes explorava mais a percepção de um personagem do que de outro. A versão que chega ao Brasil, entretanto, condensa tudo em um longa de duas horas, também exibida no Festival de Cannes do ano passado. Não existem prejuízos nessa escolha, pois Dois Lados do Amor é bem sucedido ao se focar muito mais na versão de Eleanor (Jessica Chastain) do que na de Connor (James McAvoy). Isso porque ela tem os dilemas mais envolventes, trazendo a história de uma jovem que, após o afastamento, é salva de uma tentativa de suicídio. Figuras femininas por si só normalmente já se destacam em dramas dessa natureza, mas aqui o texto está a favor de Jessica Chastain, especialmente quando o diretor Ned Benson coloca em seu núcleo atores do calibre de Isabelle Huppert, William Hurt e Viola Davis, todos coadjuvantes com pelo menos algum tenro significado na trajetória de recuperação emocional da protagonista.

O início de Dois Lados do Amor pode facilmente enganar e fazer jus a sua equivocada tradução brasileira. Apostando em um tom popular, a história começa mostrando o casal protagonista em um dos maiores clichês de histórias românticas: a divertida fuga do restaurante quando ambos, recém descobrindo as alegrias de uma nova paixão, percebem que estão sem dinheiro para pagar a conta. Mas é apenas questão de tempo para que o tempo avance e encontremos duas pessoas distantes, de vidas separadas e que tentam encontrar algum tipo de recomeço. Aos poucos descobrimos que a tristeza que permeia a vida de Eleanor e Connor é muito mais complexa do simplesmente não terem dado certo como um casal. A partir do roteiro que ele próprio escreveu, o diretor Ned Benson, porém, não faz com que seus personagens explodam em cena ou teçam longos diálogos sobre culpas e arrependimentos. O que existe em Dois Lados do Amor é um tom pausado e melancólico para que adentremos ainda mais no emocional dos dois protagonistas.

Ainda que permeado por uma grande melancolia e um tratamento bastante intimista sobre os reflexos de um rompimento, o longa não chega, por exemplo, ao peso de Alabama Monroe, considerando histórias mais recentes sobre relacionamentos desconstruídos ou acometidos por uma tragédia. De certa forma isso chega a ser um alento (difícil algum filme superar a dor daquele longa sueco), mas não pense que Benson se exime de dar uma devida carga de intensidade ao resultado. A diferença é que aqui ela está focada muito mais nos pequenos momentos, onde Dois Lados do Amor prefere mastigar o mínimo possível para deixar a dor muito mais como uma atmosfera indissipável na vida dos personagens do que como algo escancarado. É nesse silêncio de conversas que sugerem ser sobre assuntos cotidianos mas que na realidade significam muito mais que a experiência se torna tão reflexivo.

A venda errada aqui no Brasil não deve ajudar essa obra atípica e preocupada em mostrar sobre como se sobrevive ou não a uma separação (e a outras tragédias pessoas também). O amor está ali sim, mas fatigado, dolorido e como apenas uma (boa?) memória que hoje já não parece fazer mais tanto sentido. É uma história bem contada, com excelentes atores (James McAvoy se sai bem e continua sendo um dos atores mais subaproveitados da atualidade, ao passo que o ponto alto fica mesmo na atuação de Jessica Chastain) e que não merecia ser disseminada com um viés que simplesmente não é o foco. Se o resultado cru já não é facilmente palatável para muitas plateias, imaginem, então, com as ideias erradas que a distribuidora adotou para levar o filme às salas. Já para quem souber onde está embarcando, certamente essa será uma experiência bastante diferente e recompensadora.

Na TV… crime, castigo e traição em “The Affair”

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Dominic West e Ruth Wilson, os protagonistas de The Affair: enquanto ele não passou da indicação, ela se consagrou com uma vitória no Globo de Ouro 2015 por seu desempenho. A série também foi vitoriosa na categoria principal da premiação.

Se existe uma emissora que frequentemente surpreende com premissas inovadoras para o formato televisivo, essa é a Showtime. Quem não lembra de Dexter, que trazia Michael C. Hall como um inspetor forense que, na realidade, também era um serial killer? Ou de The Big C, onde Laura Linney interpretava uma professora de história que, após a descoberta de um câncer, resolve viver tudo o que protelou ao longo dos anos? Prêmios Homeland também teve de sobra ao mostrar as obsessões de uma agente do FBI na secreta investigação pelas verdadeiras intenções de um soldado estadunidense recém libertado por terroristas. Sim, todas tramas atípicas e diferenciadas – só que no bom e no mau sentido. Se por um lado é instigante acompanhar propostas que fogem do lugar-comum das opções na TV, por outro também existe uma certa preocupação ao acompanhá-las, já que são todas histórias que não parecem ter material suficiente para render várias temporadas. Dexter, The Big C e Homeland andaram de mãos dadas nesse sentido: começaram muito bem, mas perderam audiência e prestígio com o tempo porque patinaram em temas que não poderiam ser tão prolongados e que exigiam objetividade – ou melhor, uma vida curta. 

É interessante fazer esse retrospecto porque The Affair, a mais nova queridinha da Showtime, já começou sua trajetória com grande festa. Na última edição do Globo de Ouro, o programa criado pela dupla Hagai Levi e Sarah Treem conquistou os prêmios de melhor série dramática e melhor atriz para Ruth Wilson. A fórmula novamente é inovadora: um caso de traição contado a partir de diferentes visões. Primeiro, a de Noah Solloway (Dominic West), um escritor frustrado que anseia por escrever algo de relevante enquanto passa as férias na casa litorânea de seus sogros. Depois, a de Alison Bailey (Ruth Wilson), uma garçonete que tenta superar a trágica morte de seu filho de seis anos. Intercalando as duas abordagens e cenas do futuro onde Noah e Alison dão depoimentos a um investigador acerca de um misterioso assassinato, a proposta se revela pra lá de interessante, mas repete a dúvida: será que com ideias suficientes estruturar uma série com duração expressiva (episódios de quase uma hora) e em várias temporadas? Os criadores já anunciaram que pensaram o arco dramático para três temporadas, mas é possível esse programa escapar da máxima dos seriados da Showtime que arrancam bem mas não conseguem dar continuidade na inovação?

Complicado saber para onde The Affair caminhará depois do primeiro ano. Que fique registrado, no entanto, que, na temporada de estreia, o programa dá conta do recado, com a novidade felizmente se sustentando aqui. O terreno é delicado, mas os roteiristas saem ganhando ao falar sobre traição onde os dois envolvidos na relação são casados. Isso mesmo, não é sobre um homem de meia idade encantado por uma mulher mais nova. Muito menos sobre uma ninfeta carente que ficará implorando para que ele deixe a mulher e vá viver com ela. Ambos tem algo – e uma família inteira – a perder nesse envolvimento. Mesmo que fique claro que a vida de Noah é a menos interessante (ele é o típico homem em crise de meia idade que já não nutre mais entusiasmo pela mulher rica e pelos quatro filhos pequenos e adolescentes), fica claro que existem sim aspectos complexos a serem abordados, como a sua eterna vontade de significar algo para alguém em uma derrotada carreira como escritor e o fato de que, após uma longa vida seguindo todas as regras e realizando as vontades dos outros, ele finalmente sente o desejo de transgredir ou achar uma voz que seja realmente sua.

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Alison (Ruth Wilson) e o marido Cole (Joshua Jackson): nas costas dele, uma tatuagem que lembra a tragédia que abalou a relação. Na versão de Alison, os conflitos são mais complexos e densos.

Driblando as obviedades envolvendo Noah e encontrando diferentes possibilidades para esse personagem que não se revela necessariamente um cretino mas sim apenas um homem confuso, The Affair, no entanto, concentra a maior parte de sua complexidade em Alison. E não é só por ela estar vivendo um luto interminável que a personagem vivida por Ruth Wilson interessa mais dramaticamente. O luto em si funciona, na realidade, como influenciador direto nas decisões de Alison. Ela se envolve com Noah por carência? Por raiva da vida? Por amor mesmo? Ou simplesmente por atração sexual? Sua insegurança e principalmente seu comportamento inconstante são claras consequências de uma mulher que, após uma tragédia inimaginável como a que viveu, de repente já não se reconhece mais. Assim como Noah, Alison tenta achar algo de novo na vida. Talvez aí resida a crucial intersecção dos dois. 

Ter duas visões ao longo de um episódio enriquece The Affair porque a série não reprisa simplesmente as cenas, mas reconstrói diálogos e por vezes muda drasticamente a abordagem dependendo do personagem. Cabe a você decidir qual foi o tom de uma conversa e a intensidade de um acontecimento, por exemplo. The Affair nunca julga seus protagonistas e deixa para que o espectador o faça. Tais questões muitíssimo delicadas quase se diluem em uma ideia simplória: a de construir a trama a partir de um misterioso – e suposto – assassinato. Já vimos essas idas e vindas no tempo para explicar um crime várias vezes e aqui os roteiristas simplesmente não souberam lidar bem com a ideia. Não espere uma revelação instigante envolvendo a identidade da vítima ou muito menos resoluções mirabolantes para a situação, até por que ainda há muito a ser respondido na segunda temporada. Infelizmente, a investida frustra, tira tempo da série e nada acrescenta à construção dramática da história. 

The Affair ainda encontra fragilidades nos fáceis estereótipos que cria da mãe megera e indiferente ou da filha adolescente aborrecida que não se comunica com os pais. Na construção de cenas decisivas também tem seus deslizes, como quando coloca um personagem frente a uma arma que o faz tomar uma importante decisão que deveria acontecer de maneira menos extrema e mais inteligente. Coisa de novela mexicana. Mas muito além da decepção final envolvendo o desfecho e as bobeiras relacionadas aos personagens coadjuvantes, The Affair deixa boas lembranças quando vista como um todo. Ao passo que Dominic West e Ruth Wilson conduzem com segurança seus difíceis personagens (especialmente ela), a série, vale repetir, tem seu grande valor por escapar conceitualmente de escolhas fáceis. Agora, se o material rende outra temporada de qualidade como essa… Bom, aí é outra discussão. E o histórico da emissora não entusiasma.

Annie

I’m putting on my best show under the spotlight.

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Direção: Will Gluck

Roteiro: Aline Brosh McKenna e Will Gluck, baseado nos desenhos “Little Orphan Annie” e no texto teatral homônimo de Thomas Meehan

Elenco: Quvanzhané Wallis, Jamie Foxx, Cameron Diaz, Rose Byrne, Bobby Cannavale, David Zayas, Adewale Akinnuoye-Agbaje, Zoe Margaret Colletti, Nicolette Pierini, Eden Duncan-Smith, Amanda Troya, Dorian Missick, Tracie Thoms

EUA, 2014, Comédia/Musical, 118 minutos

Sinopse: Annie (Quvenzhané Wallis) é uma jovem órfã que vive em um orfanato comandado com mão de ferro pela senhora Hannigan (Cameron Diaz). Sua vida muda ao ser escolhida para passar alguns dias na mansão de um milionário político (Jamie Foxx), onde acaba fazendo amizade com seus funcionários e sendo usada para fins eleitoreiros. (Adoro Cinema)

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Will Gluck é um diretor que sabe dialogar com o grande público. Ao criar obras previsíveis e até mesmo manjadas mas devidamente agradáveis, Gluck construiu certa linearidade em sua carreira com filmes como Amizade Colorida e A Mentira. É só você não exigir muito dele que a diversão está garantida. Por isso, ele parecia ser o nome certo para comandar a nova versão cinematográfica Annie, espetáculo da Broadway já adaptado anteriormente para o cinema em 1982 e para a TV em 1999. A teoria é endossada pelos primeiros minutos de filme, onde acompanhamos a protagonista Annie (Quvanzhané Wallis) em seu último dia de aula antes das férias cantando nas ruas de Nova York e no apartamento onde mora com suas amigas órfãs sob a tutela de uma impostora (Cameron Diaz). As passagens são repletas de graça e inocência, com uma linguagem que teria colocado Annie, anos atrás, como um verdadeiro clássico infantil da Sessão da Tarde. Tudo funciona até. Já quando o filme começa a construir uma história, o jogo inverte por completo.

Seria maravilhoso ver Annie se tornar uma fábula contemporânea para os pequenos, que estão cada vez mais carentes de obras populares com pequenas mas importantes lições. Também seria um alento curtir um musical descontraído, leve e inocente ao estilo Hairspray – Em Busca da Fama. Tudo isso era possível em Annie, mas é curioso ver como Gluck acerta no tom empregado em sua direção mas peca demais na adaptação do texto feita em parceria com Aline Brosh McKenna (cujo trabalho mais célebre no cinema foi o roteiro de O Diabo Veste Prada). A refilmagem, toda embalada para dar certo, frustra com um conteúdo frágil demais para sustentar a atenção de qualquer pessoa. Na jornada da garotinha órfã em busca dos pais que esbarra na vida de um candidato a prefeito (Jamie Foxx) sedento por uma novidade para impulsionar sua campanha, não existem grandes originalidades. O problema, porém, não é a ausência delas, mas sim a falta de consistência da história, que resulta vazia e desinteressante. 

Fora as transformações óbvias ou repentinas dos personagens,  pouco acontece em Annie – e isso é um verdadeiro problema para um longa de quase duas horas que pede ao espectador que compre a ingenuidade de uma trama infantil e, principalmente, toda a cantoria de um musical. Haja paciência. Com as situações rasas, a fragilidade se estende, infelizmente, ao lado musical, que não chega a ter canções particularmente empolgantes. Claro que aqui estamos falando de um musical que, mesmo tendo que conquistar os ouvidos (principalmente dos pequenos), utiliza a música basicamente como uma ferramenta narrativa, mas, dada a falta de força da história, a sensação é que os atores começam a cantar simplesmente do nada – e o pior: sobre trivialidades, com destaque para o tedioso dueto de Wallis e Foxx admirando Nova York em um voo de helicóptero.

Quem Annie pensou que agradaria com esse resultado? Os pequenos? Certamente não, pois o filme não chega a ser um passatempo infantil de bom ritmo para prendê-los frente à tela. Os adultos? Muito menos, pois para eles fica ainda mais evidente as a ausência de uma história interessante. Em termos de elenco, os atores também não ajudam: se a pequena Quvanzhané Wallis tem a graça necessária para o papel que nada exige além da já esperada naturalidade para alguém de sua idade, o resto do elenco sofre com uma das piores interpretações da carreira de Cameron Diaz (achando que, para interpretar uma vilã, precisa de infinitas caras e bocas – uma decisão que lhe valeu uma merecida indicação ao Framboesa de Ouro de pior atriz coadjuvante) e com a habitual repetição de Jamie Foxx, que, fora Django Livre, pouco fez de relevante em sua carreira depois do Oscar por Ray.

Frustra Annie alcançar esse resultado completamente irregular porque que existe um realizador ideal atrás das câmeras para uma história como essa. Dessa vez, no entanto, Will Gluck não colheu bons frutos: o musical não fez sucesso nos Estados Unidos (mesmo sendo um espetáculo bem sucedido na Broadway), foi lembrado entre os indicados do Framboesa de Ouro como pior remake e aqui no Brasil passou completamente despercebido pelas salas de cinema (decepcionando também a própria distribuidora, que resolveu lançar o filme apenas com cópias dubladas, em uma clara intenção de alcançar o grande público). Mereceu o fracasso. Aguentar uma história tão frouxa permeada por canções que pouco acrescentam narrativamente ou como diversão para os ouvidos é complicado. Uma chance desperdiçada.

Rapidamente

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David Oyelowo em cena com o veterano Tom Wilkinson: seu desempenho como Martin Luther King é o ponto alto de Selma: Uma Luta Pela Igualdade, produção lembrada pelo Oscar 2015 apenas nas categorias de melhor filme e canção original

DOADOR DE MEMÓRIAS, O (The Giver, 2014, de Phillip Noyce): Tem ideias muito interessantes esse filme que entra na onda das adaptações de best sellers infanto-juvenis, mas que não rendeu o esperado nas bilheterias (mundialmente faturou apenas um pouco mais do dobro de seu orçamento de 25 milhões). É fácil entender o porquê: os conflitos que movem O Doador de Memórias são muito subjetivos para ganhar caráter popular. Na história, uma comunidade vive em um mundo preto-e-branco, onde os sentimentos foram extintos por meio de uma injeção diária em cada habitante. Ou seja, todos vivem sem saber e vivenciar o que é amor ou qualquer outra emoção. A situação muda quando a única pessoa detentora das memórias do que hoje inexiste nessa sociedade precisa passar adiante suas lembranças. O escolhido é o jovem Jason (Brenton Thwaites), que obviamente se encanta com as sensações que o seu mundo não sabe que existe e aos poucos passa a tentar introjetá-las nas pessoas em sua volta. As ideias são ótimas, mas O Doador de Memórias não vai muito além da teoria simplesmente porque a direção de Phillip Noyce é péssima. Optando pelo cafona no visual e na própria condução das cenas com frases prontas, efeitos visuais mal acabados e situações clichês, ele desperdiça o potencial do filme (não é qualquer trama dessa natureza que reúne Meryl Streep como antagonista e Jeff Bridges no elenco), que tinha tudo para ser uma saga bem sucedida se abordada de maneira mais sóbria e menos comercial. Lembrando que o livro original escrito por Lois Lowry ainda tem outras três obras complementares passadas no mesmo universo de O Doador de Memórias. Dado o fracasso do filme, são trabalhos que não devem ganhar vida no cinema.

SELMA: UMA LUTA PELA IGUALDADE (Selma, 2014, de Ava DuVernay): O maior mérito desse filme que despertou discussões sobre racismo no Oscar é justamente falar sobre a causa sem qualquer traço de panfletagem. Com muita dignidade, a diretora Ava DuVernay narra a trajetória de Martin Luther King (David Oyelowo) em 1965, quando ele organizou uma marcha da cidade-título até Montgomery, no Alabama, para protestar e garantir o direito de voto aos negros (que já existia mas era solenemente ignorado). Produzido por Oprah Winfrey (ela também tem uma pequena participação na história), Selma: Uma Luta Pela Igualdade chama atenção pela sobriedade e pela franqueza com que apresenta suas denúncias e reivindicações. O mesmo tom certeiro também está presente naquele que é o aspecto mais precioso do filme: a interpretação de David Oyelowo. Discreto mas intenso quando a história pede, o ator dá um show como Martin Luther King. Em momento algum duvidamos de sua sabedoria, de seu caráter e de sua integridade. Admiramos aquele personagem, o que é consequência direta do desempenho incrivelmente discreto e eficiente de Oyelowo. Já o filme como um todo não chega a empolgar, especialmente quando o ritmo arrastado faz com que Selma pareça ter o dobro da duração que realmente tem. Vale mais pela mensagem e pela dignidade com que fala sobre racismo do que propriamente como um filme envolvente. Destaque ainda para a bela canção Glory, vencedora do Oscar 2015 em sua respectiva categoria. 

SNIPER AMERICANO (American Sniper, 2014, de Clint Eastwood): Com exceção dos estadunidenses, que compareceram em massa às salas de cinema (são 330 milhões de dólares até agora nas bilheterias do país, sendo que o orçamento foi de apenas 58), não sei quem ainda aguenta ver filmes sobre as consequências do 11 de setembro, em especial as histórias passadas na guerra do Iraque. Esse é um tema já explorado à exaustão, mas agora o diretor Clint Eastwood (que não entrega uma obra verdadeiramente marcante desde Cartas de Iwo Jima, em 2006) resolveu entrar na lista dos cineastas que desenterram o assunto. E sinceramente? Clint não conta absolutamente nada de novo ou extraordinário. Apesar do sucesso estrondoso em seu país de origem, Sniper Americano repete a fórmula do herói estadunidense atormentado pela guerra. Novamente temos o sujeito em campo defendendo seu país (Bradley Cooper, indicado ao Oscar 2015 de melhor ator) que, aos poucos, começa a se tornar o soldado distante e até amedrontador para a esposa lacrimosa com um filho no colo. No meio disso tudo, idas e vindas ao Iraque, algumas cenas de tensão envolvendo a profissão do protagonista (Chris Kyle se “consagrou” como o maior franco-atirador dos Estados Unidos) e tomadas inegavelmente bem filmadas. Mas, infelizmente, Sniper Americano não deixa de ser uma obra frustrante e redundante dentro do tema que se propõe a discutir – e talvez até mesmo bastante atrasada. 

Na TV… Viola Davis e a rara oportunidade de “How to Get Away With Murder”

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Com duas indicações ao Oscar, Viola Davis é o ponto alto de How to Get Away With Murder. Sua interpretação já lhe valeu o Screen Actors Guild Awards 2015 de melhor atriz em série dramática.

Muito mais do que qualquer consagração ou número musical, o Oscar 2015 ficou marcado por uma efervescente safra de discursos contra sexismo, homofobia e racismo. Só que se engana quem acha que tais feridas só foram cutucadas nessa premiação. Poucas semanas antes, Viola Davis já havia roubado a cena no Screen Actors Guild Awards com um discurso muito honesto sobre as dificuldades em Hollywood para os atores negros. Ao ganhar o prêmio de interpretação feminina em série dramática por How to Get Away With Murder, ela agradeceu à equipe do seriado por ter confiado a ela, uma mulher negra de 49 anos, o protagonismo da história. E não estamos falando de qualquer protagonista: uma advogada poderosa, confusa, sexualizada, misteriosa e por vezes inescrupulosa. Em tempos que mulheres negras recebem em sua maioria papeis de escravas (Lupita Nyong’o em 12 Anos de Escravidão), empregadas (Octavia Spencer e a própria Viola em Histórias Cruzadas) e mães abusivas (Mo’Nique em Preciosa) é revigorante ver uma grande atriz como ela receber um papel que explore devidamente as suas possibilidades de criação. Ou seja, já na escolha de sua protagonista, How to Get Away With Murder prova que não veio para brincar.

Criado por Peter Nowalk, How to Get Away With Murder bebe exatamente das mesmas lógicas que fizeram outros programas produzidos por Nowalk alcançar o sucesso. Se você acompanha Grey’s Anatomy ou Scandal, é bem provável que também vá embarcar neste novo programa conduzido por ele. Não à toa o criador chamou sua colega Shonda Rhimes, criadora dessas duas últimas séries onde ambos trabalharam juntos, para também produzir seu programa. Portanto, temos aqui o DNA nato de uma série de TV aberta, com seus prós e contras. Dessa vez, acompanhamos a história de Annalise Keating, uma advogada responsável pela disciplina que dá título à série em uma faculdade. Observando seus alunos em aula, ela escolhe quatro deles para que sejam seus estagiários e a ajudem nos casos que defende paralelamente à vida acadêmica. No entanto, uma tragédia toma conta da vida do quarteto e a série, com idas e vidas no tempo, começa a juntar as peças de um intrigante quebra-cabeça envolvendo mortes, fugas e mentiras.

Só pela essência de How to Get Away With Murder já dá para perceber que a série não traz nada de novo. Quem acompanhou Damages anos atrás sabe exatamente o que é ver a história de uma advogada pontuada por um assassinato narrado de forma não-linear. Mais recentemente, as idas e vindas no tempo para explicar uma morte também já viraram moda em seriados com The Affair e True Detective. Mas o programa estrelado por Viola Davis funciona. E muito. É claro que os ganchos ao final de cada episódio não podem faltar, muito menos uma gama de personagens pensada para todos os gostos (o gay, o engraçadinho, o nerd, a sonhadora, a confusa, etc) e a narrativa ágil e pop, mas How to Get Away With Murder consegue resultar em um excelente guilty pleasure. Até mesmo os clichês e as obviedades são releváveis nessa série envolvente que chega a contar com participações especiais de Cicely Tyson (realizando um antigo sonho de Viola, que diz ter virado atriz por causa dela) e Marcia Gay Harden. 

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Annalise Keating (Viola Davis) e a sua turma de faculdade: mesmo com detalhes dramáticos que não condizem com a realidade, a série criada por Peter Nowalk é um suspense irresistível.

How to Get Away With Murder é instigante desde o primeiro episódio, mas frequentemente patina para achar sua verdadeira vocação. Se metade da temporada desperdiça inúmeras chances ao se focar excessivamente no quarteto jovem que assiste a protagonista em suas batalhas judiciais (e nenhum dos atores escolhidos é necessariamente talentoso), logo a série percebe que toda a sua força está mesmo em Annalise. Antes fosse Viola a razão exclusiva para isso, mas a personagem é sim bem escrita e desenvolvida sem escolhas fáceis. Impiedosa ao defender seus clientes no tribunal e respeitável professora, Annalise vive, no entanto, um momento complicado em sua vida pessoal – o que posteriormente interferirá diretamente em seu trabalho, tornando-a ainda mais imprevisível por colocar em confronto os princípios que prega na sua vida profissional e os seus instintos de uma simples mulher com um matrimônio em crise. Por sorte, a fama de “mãos de ferro” não a limita como uma personagem fria e sem coração: suas atitudes são frequentemente justificáveis ou pelo menos compreensíveis frente a uma vida profissional exigente e a uma turbulência de pressões e situações complicadas nas relações que estabelece intimamente.

Além de trazer uma mulher negra como a detentora de todo o poder da narrativa, How to Get Away With Murder ainda não hesita ao encenar cenas de sexo gay com frequência (e isso para a TV aberta é uma grande ousadia) e de colocar em xeque nossa adoração por determinados personagens quando eles tomam atitudes que normalmente não seriam tomadas em séries mais preguiçosas. Todos cometem erros graves e conscientes na série, o que quebra a barreira que costuma nos separar de programas onde o mocinho só faz o bem e o vilão só faz o mal. Fora o fato de nos deixar em dúvida sobre a culpa ou a verdadeira identidade de determinadas figuras até o último minuto (a revelação do assassino não é particularmente interessante, mas a série sabe lidar muito bem com o pós-revelação), How to Get Away With Murder ainda nos brinda, claro, com uma inspiradíssima Viola Davis em um dos melhores momentos de sua carreira até aqui. Novamente, uma grande atriz encontra uma bela chance na TV enquanto o cinema só reserva, em grande parte, papeis coadjuvantes ou estereotipados como os já citados.

Para criar e manter uma audiência fiel, How to Get Away With Murder precisa obviamente se utilizar de ferramentas fáceis. Altamente explicativo em certas passagens, o programa é por vezes desprovido de realidade: percebam como Annalise basicamente não perde um caso sequer, como só o quarteto protagonista se voluntaria para responder as perguntas da professora em aula, como a personagem de Marcia Gay Harden surge apenas para iniciar um suspense gratuito quando a série está pegando fogo (ela logo sai da trama sem qualquer um fechamento maior) ou como Annalise levanta o tom frequentemente em longos monólogos de acusação direta no tribunal sem que seja devidamente punida ou até mesmo interrompida. Fácil encontrar ainda arcos dramáticos clichês, como o do gay lindo e sedutor convicto que encontra o amor em um pretendente improvável e que passa a reavaliar sua vida de conquistador após não conseguir controlar o seu mais novo interesse. Coisas de TV aberta.

Entretanto, com 15 episódios de aproximadamente 45 minutos, How to Get Away With Murder oxigeniza o universo dos guilty pleasures. O resultado em si já desperta uma parcela de respeito por trazer um papel digno para uma atriz do calibre de Viola Davis e ela é, sem dúvida alguma, muito maior do que a série, mas, para quem se propor a embarcar no na proposta sem maiores julgamentos, a experiência pode ser uma das mais interessantes da atualidade. O público comprou a proposta (uma segunda temporada já foi encomendada) e, julgando pelo cliffhanger do último episódio, ainda existe muito a ser resolvido. Se continuar com a dosagem apresentada no primeiro ano, How to Get Away With Murder está no caminho para construir uma trajetória bem sucedida. Aqui no Brasil, a série ganha sua primeira exibição hoje às 21h30, na Sony.