Cinema e Argumento

Rapidamente

Gaspard Ulliel e Louis Garrel estrelam a segunda cinebiografia sobre Yves Saint-Laurent que chegou aos cinemas em 2014. Apesar da seleção para Cannes, o filme está longe de captar intimamente a lenda que era o estilista francês.

CAKE: UMA RAZÃO PARA VIVER (Cake, 2014, de Daniel Barnz): Vítima da antiga maldição dos atores de TV que não conseguem fazer carreira no cinema, Jennifer Aniston volta a provar que, dos seus colegas de Friends, ela é, sem dúvida, a que mais chegou longe. E isso não tem nada a ver com a infinidade de comédias (bobocas, diga-se de passagem) que Aniston protagonizou, mas com filmes sensíveis e que representam desafios para sua vida de atriz, como Por Um Sentido na Vida e A Razão do Meu Afeto. Só que fazia tempo que Aniston não participava de algo relevante, e Cake: Uma Razão Para Viver veio para mudar este cenário. Ainda que não seja uma injustiçada do Oscar 2015 (muitos reclamam que Marion Cotillard teria roubado a sua vaga com Dois Dias, Uma Noite), a atriz está particularmente bem aqui, conseguindo administrar uma personagem difícil e até mesmo desagradável. Já o filme não chega a engrenar e, com exceção da atuação de Aniston, da boa presença de Adriana Barazza e de uma ótima regravação de Halo, da Beyoncé, Cake pouco surpreende como um drama independente norte-americano.

A ESTRADA 47 (idem, 2014, de Vicente Ferraz): Gerou grande polêmica a vitória de A Estrada 47 no Festival de Cinema de Gramado ano passado. E não é só porque A Despedida, de Marcelo Galvão, era claramente o melhor trabalho em competição, mas também porque o filme de Vicente Ferraz está longe de ter qualquer brilho. Fora a história diferenciada (você sabia que o Brasil também lutou na Segunda Guerra Mundial?) não há absolutamente nada de novo – ou até mesmo envolvente – na execução em si. O comprometimento da equipe com a trama está explícito na tela, bem como a qualidade técnica: A Estrada 47 foi filmado no inverno italiano e os atores enfrentaram estas condições bravamente. O ritmo, entretanto, não ajuda, e o resultado é arrastado e nada instigante. Faltam conflitos pessoais consistentes (eles estão meramente abreviados em uma narração do protagonista Daniel de Oliveira) e envolvimento com a guerra. Ainda tento compreender o porquê desta história ter conquistado Gramado e, posteriormente, o Cine Ceará, onde também foi consagrado como melhor filme.

SAINT-LAURENT (idem, 2014, de Bertrand Bonello): Foram produzidas duas cinebiografias sobre o lendário estilista Yves Saint-Laurent em 2014. A primeira, realizada de forma mais tímida e com equipe pouco conhecida, já era decepcionante, o que nos levava a acreditar que Saint-Laurent, selecionada para a competição do Festival de Cannes daquele ano, pudesse suprir as lacunas deixadas sobre a vida do protagonista no cinema. A má notícia é que nada adiantou trazer dois jovens galãs contemporâneos da filmografia francesa para fazer este trabalho alçar voo. Infinitamente mais cansativo e decepcionante que o longa anterior sobre Laurent, o registro de Bertrand Bonello é confuso no desenho dos personagens e principalmente nos saltos temporais que faz ao longo de intermináveis 150 minutos. Continuamos sem saber quem era de fato Yves Saint-Laurent intimamente, e suas aventuras sexuais regadas a drogas pouco ajudam o espectador a se envolver com o confuso e problemático ser humano que ele era. Construindo um personagem muito mais afetado do que Pierre Niney na outra biografia, Ulliel é mais sedutor do que bom ator como Laurent – o que parece ser sua única arma para se destacar em um filme problemático, vazio e sem força. Somente na cena em que o protagonista mostra a uma mulher como ela pode se tornar alguém mais radiante com as roupas certas é que Saint-Laurent capta o estilista em sua profissão e espírito.

O som das trilhas

birdmanscoreBIRDMAN OU (A INESPERADA VIRTUDE DA IGNORÂNCIA), por Antonio Sánchez: Desclassificada para o Oscar 2015 por, segundo a Academia,  usar composições de outros músicos como Tchaikovsky e Rachmaninov, a trilha de Birdman é uma das mais interessantes do ano até aqui. Composto e executado pelo bateirista de jazz mexicano Antonio Sánchez, o álbum utiliza basicamente apenas bateria para construir a atmosfera do filme de Alejandro González Iñárritu. O resultado é imersivo e a trilha, frequentemente surpreendente, torna a já completa experiência de se assistir ao filme ainda mais instigante. Não deixe de ouvir: Dirty Walk, Internal War e The Anxious Battle for Sanity. 

breakingtwoscoreBREAKING BAD (Volume 2), por Dave Porter: A TV faz um magnífico trabalho em trilhas sonoras atualmente, mas nem todas as emissoras parecem dispostas a valorizar este setor devidamente. São poucos os programas que têm suas trilhas lançadas, e Breaking Bad felizmente é um deles. Nada mais justo, já que, neste segundo e último volume, Dave Porter se supera nas criações que embalam o universo do emblemático protagonista Walter White. Assim como a própria série, não espere escolhas fáceis aqui, já que as composições dedicadas aos momentos de suspense se tornam frenéticas ou nervosas não pelo mero básico bem feito, mas pela novidade de combinações e uso de diferentes instrumentos. Não deixe de ouvir: Follicles, Dead Freight e The Final Hat.

shadesgscoreCINQUENTA TONS DE CINZA, por Vários Artistas: Ainda vai levar um tempo para que este filme errado e tedioso seja superado, mas igualmente difícil vai ser deixar de dar play na ótima coletânea que embala a “história de amor” entre Anastasia (Dakota Johnson) e James Gray (Jamie Dorman). Começando com Annie Lennox dando voz à charmosa I Put a Spell On You, a trilha ainda traz relevantes nomes da música contemporânea para novas canções e releituras, como Beyoncé, que surpreende com uma Crazy in Love inteiramente nova e tão marcante quanto a original. Ellie Goulding e Sia também estão listadas aqui ao lado de Frank Sinatra e Rolling Stones. Um álbum para ninguém colocar defeito e que merecia estar a serviço de um filme infinitamente melhor. Não deixe de ouvir: I Put a Spell On You, Crazy in Love e Love Me Like You Do. 

homesmanscoreDÍVIDA DE HONRA, por Marco Beltrami: É um dos trabalhos mais inspirados do ano até agora para um filme que inclusive pode ser considerado incompreendido. Marco Beltrami, indicado duas vezes ao Oscar (por Guerra ao Terror ao lado do amigo Buck Sanders e Os Indomáveis) nunca foi grande compositor, mas neste álbum apresenta composições tão originais e condizentes com o próprio filme que já pode ser considerado um profissional de nova grandeza. Com algumas gravações realizadas ao ar livre nas paisagens onde o filme se desenvolve para capturar o próprio espírito deste western diferenciado, a trilha de Dívida de Honra entrega desde um tema marcante para o gênero a composições super melancólicas. Todos deveriam descobrir. Não deixe de ouvir: Main Title, Entering Town e Onto the Ferry.

empirescoreEMPIRE, por Vários Artistas: A música de Empire tem influência direta no sucesso estrondoso de audiência da série. Não se engane, contudo, ao pensar que a trilha estreou em primeiro lugar na Billboard só por preencher a lacuna do hip hop existente na TV estadunidense: o disco pensado e produzido por Timbaland é mesmo cheio de canções interessantes. Fácil ficar com Keep Your Money na cabeça ou então curtir um som mais calmo mas igualmente envolvente como Conqueror. É o hip hop em sua essência (as letras são, por vezes, nada inteligentes, por exemplo), mas você pode muito bem se surpreender e até mesmo se empolgar com o que Empire criou musicalmente. Não deixe de ouvir: Keep Your Money, Conqueror e Drip Drop.

maxfuryscoreMAD MAX: ESTRADA DA FÚRIA, por Junkie XL: Não é o tipo de trilha para necessariamente ser apreciada fora do filme. Sim, Junkie XL fez um trabalho espetacular para este filme que é um dos maiores espetáculos cinematográficos do ano, mas o álbum funciona muito mais como uma ferramenta narrativa para impulsionar e imergir o espectador em toda a ação deliciosamente frenética do longa dirigido por George Miller. Por acompanhar basicamente todos os momentos de Mad Max, a trilha ultrapassa duas horas de duração e eventualmente empolga tanto quanto o filme, mas se engrandece somente com ele, onde realmente é fundamental para criar a atmosfera da insana fuga protagonizada por Max (Tom Hardy) e Furiosa (Charlize Theron). Não deixe de ouvir: Brothers in Arms, Spikey Cars e Let Them Up.

Cássia Eller

Eu nunca conheci ninguém como a Cássia. Ela era diferente. Ela era melhor.

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Direção: Paulo Henrique Fontenelle

Roteiro: Paulo Henrique Fontenelle

Brasil, 2015, Documentário, 115 minutos

Sinopse: O documentário Cássia retrata o ícone do cenário musical brasileiro nos anos 90. Em sua breve trajetória, Cássia Eller deixou uma marca inegável na cultura do país. Além da projeção musical, sua história pessoal expos tabus e ganhou repercussão nacional após sua morte, quando a guarda de seu filho “Chicão” ficou com sua companheira Maria Eugênia. O filme descreve através dos depoimentos de amigos como Zélia Duncan, Nando Reis e de Maria Eugênia toda a sua trajetória desde o inicio da carreira; além de narrar a personalidade paradoxal de Cássia, contrastando sua timidez e delicadeza com a irreverência e personalidade nos palcos.

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Cássia Eller era um verdadeiro furacão nos palcos. Das performances explosivas à voz inconfundível, mostrou os seios diversas vezes, desafiou o público careta e abriu para todos a sua orientação sexual sem qualquer hesitação. Não era exclusivamente tanta “força”, entretanto, que a tornava única. O mais fascinante sobre Cássia era a sua capacidade de conseguir ser tudo isso e o oposto. Quando engravidou, abandonou as roupas rebuscadas para usar delicados vestidos. Se em determinada época não ligava para a opinião de quem dizia que ela gritava ao invés de cantar, logo mudou a diretriz da carreira quando ouviu a mesma avaliação do próprio filho, que revelou preferir Marisa Monte na época. Tinha opiniões fortes, mas era tímida e insegura frente à imprensa. Cantava Nirvana no Rock in Rio com uma fúria que impressionou David Grohl ao mesmo tempo que interpretava repertórios de Renato Russo e Édith Piaf. Cássia Eller era furacão e calmaria. Por isso, sintetizar em um único filme todo o seu espírito de conciliação era uma tarefa das mais difíceis. Felizmente, o documentário Cássia Eller, dirigido por Paulo Henrique Fontenelle, cumpre a missão com o mesmo intenso talento da cantora que retrata.

Uma das discussões mais clássicas é se a forma importa mais que o conteúdo. Cássia Eller está no lado do conteúdo, já que Fontenelle optou por realizar um documentário em uma forma clássica: depoimentos com pessoas sentadas frente a uma câmera, fotos, recortes de jornais e eventualmente trechos de consagradas apresentações musicais. E sabem o que é o mais interessante? O filme está longe de parecer um documentário quadrado tamanha a singularidade que Cássia Eller alcançou como pessoa e artista. Uma produção como essa nunca soaria tradicional tendo uma personagem tão complexa, rica e subversiva. E é exatamente isso o que acontece, mesmo que Cássia Eller tenha uma linearidade super óbvia que começa  nos dias de anonimato da cantora e segue até a sua morte prematura, estendendo-se ainda à batalha judicial que concedeu a guarda de seu filho Chicão à companheira Maria Eugênia – e esse é um dos pontos altos do documentário não só pela força emocional envolvendo a recém falecida cantora mas pela vitória que significou para a classe LGBT.

O passo a passo temporal quase não é percebido aqui, pois acompanhamos a vida de uma mulher que nunca cansava de (se) surpreender. Musicalmente falando, Cássia Eller só cresceu a cada ano e um de seus momentos mais marcantes nos palcos é amplamente registrado aqui: a gravação do Acústico MTV, onde, abandonando quase por completo a Cássia “furiosa” que todos conheciam, apresentou músicas e novas versões de seu repertório que chegavam a se aproximar da melancolia. Durante toda a vida, a cantora foi celebrada como unanimidade, e Fontenelle faz com que até o espectador mais leigo consiga sair de Cássia também admirando a artista. Inclusive, mesmo para quem tem um pouco de noção da vida da personagem-título irá se surpreender com alguns fatos apresentados, como o que desconstrói a ideia de que Cássia Eller teria morrido em função de uma overdose (ela já vinha sofrendo crises de pânico que culminaram em um infarto do miocárdio, conforme laudo do IML que foi distorcido pela imprensa). 

Contemplando o imenso ecleticismo da carreira da cantora, Cássia Eller nos faz lembrar de sucessos como Malandragem, Por Enquanto, Relicário e O Segundo Sol, e é impossível sair do filme sem querer ouvir novamente toda a discografia dela, que ainda hoje é lembrada por unificar os fãs dos mais variados gêneros. Poucos conseguem fazer música de qualidade para todos e o documentário de Fontenelle, além de completo e delicado ao passear pela vida da cantora, acerta na sua lição de casa ao explorar a contribuição musical da carioca que até os dias de hoje é considerada referência. Respeitoso, Cássia Eller nos leva ao íntimo de sua personagem com depoimentos de amigos e admiradores e também com um vasto material pessoal (as fotos, muito íntimas, são de uma beleza única, assim como as cartas lidas por Malu Mader). É ainda digno ao não se aproveitar das polêmicas envolvendo Cássia Eller, não se propondo a julgar qualquer uma de suas atitudes. Um belo tributo que todo artista relevante para qualquer arte deveria receber.

43º Festival de Cinema de Gramado apresenta filmes concorrentes

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Depois de receber menção honrosa em Sundance por sua atuação, Regina Casé levará para casa o Kikito? Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert, faz sua estreia nacional na competição do 43º Festival de Cinema de Gramado

O Festival de Cinema de Gramado, maior evento ininterrupto do gênero no Brasil, revelou na manhã desta terça-feira (30) as mostras competitivas de sua 43ª edição, que será realizada entre os dias 07 e 15 de agosto. É na cidade gaúcha – recentemente eleita o melhor destino turístico do Brasil segundo o TripAdvisor – que o longa Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert, faz sua estreia nacional. Ainda inédito no Brasil, o filme estrelado por Regina Casé chegou a receber uma menção honrosa no Festival de Sundance pela atuação da atriz. No Festival de Berlim, a produção ganhou o prêmio da Confederação de Cinemas de Arte e Ensaio na seção Panorama. Muylaert tem trajetória especial com Gramado: Durval Discos, seu trabalho de estreia, foi o grande vencedor do Festival em 2002, com os Kikitos de melhor filme, direção e roteiro. Entre os longas brasileiros selecionados por Eva Piwowarski, Marcos Santuario e Rubens Ewald Filho, mais sete títulos disputam o Festival. 

Internacionalizado desde 1992, quando passou a promover uma mostra de filmes de língua latina (e o primeiro vencedor do Kikito de melhor direção foi ninguém menos que Pedro Almodóvar com De Salto Alto), o Festival de Cinema de Gramado só incluiu uma estrangeira em sua curadoria ano passado. A estreia da argentina Eva Piwowarski foi considerada um tanto decepcionante, visto que a mostra estrangeira apresentava um título a menos do que os habituais seis concorrentes. Este ano, não há o que se reclamar: são sete títulos selecionados, uma pluralidade admirável de países. Colômbia, México, Argentina, Equador, Costa Rica, Cuba e Uruguai estão representados na 43ª edição do evento. O recente vencedor do Oscar Alejandro González Iñárritu produz um dos filmes em competição: En La Estancia, dirigido por Carlos Armella. Além dos longas, o Festival também apresentou os concorrentes entre os curtas brasileiros e gaúchos.

O Troféu Oscarito, distinção do Festival destinada a grandes atores do cinema brasileiro, completa 25 anos em 2015. A simbólica data terá uma homenageada à altura do prêmio: Marília Pêra. Com 24 filmes no currículo, a atriz já foi consagrada duas vezes no Festival com o Kikito de melhor atriz: em 1987, com Anjos da Noite, e em 1983 com Bar Esperança – O Último Que Fecha. Em 2007, ela esteve na serra gaúcha ao lado do saudoso Eduardo Coutinho para encerrar o Festival com Jogo de Cena, considerada uma das obras-primas do diretor. Já o diretor Daniel Filho receberá o troféu Cidade de Gramado, um agradecimento especial da cidade a figuras do meio cinematográfico. As outras homenagens (Kikito de Cristal, para personalidade latina, e Eduardo Abelin, para cineastas) serão divulgadas posteriormente. Confira abaixo a lista completa de filmes selecionados para o 43º Festival de Cinema de Gramado:

LONGAS BRASILEIROS
– Ausência, de Chico Teixeira (SP)
– Introdução à Música do Sangue, de Luiz Carlos Lacerda (RJ)
– O Fim e os Meios, de Murilo Salles (RJ)
– O Outro Lado do Paraíso, de André Ristum (DF)
– O Último Cine Drive-In, de Iberê Carvalho (DF)
– Ponto Zero, de José Pedro Goulart (RS)
– Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert (SP)
– Um Homem Só, de Cláudia Jouvin (RJ)

LONGAS ESTRANGEIROS
– Ella, de Libia Stella Gómez (Colômbia)
– En La Estancia, de Carlos Armella (México)
– La Salada, de Juan Martin Hsu (Argentina)
– Ochentaisiete, de Anahi Hoeneisen e Daniel Andrade (Equador)
– Presos, de Esteban Ramírez Jímenez (Costa Rica)
– Venecia, de Kiki Alvarez (Cuba)
– Zanahoria, de Enrique Buchichio (Uruguai)

CURTAS BRASILEIROS
– Bá, de Leandro Tadashi (SP)
– Como São Cruéis os Pássaros da Alvorada, de João Toledo (MG)
– Dá Licença de Contar, de Pedro Serrano (SP)
– Enquanto o Sangue Coloria a Noite, Eu Olhava as Estrelas, de Felipe Arrojo Poroger (SP)
– Haram, de Max Gaggino (BA)
– Heroi, de Pedro Figueiredo (SP)
– Macapá, de Marcos Ponts (MA)
– Miss & Grubs, de Camila Kamimura e Jonas Brandão (SP)
– Muro, de Eliane Scardovelli (SP)
– O Corpo, de Lucas Cassales (RS)
– O Teto Sobre Nós, de Bruno Carboni (RS)
– Quando Parei de Me Preocupar Com Canalhas, de Tiago Vieira (SP/GO)
– S2, de Bruno Bini (MT)
– Sêo Inácio (ou O Cinema Imaginário), de Helio Ronyvon (RN)
– Virgindade, de Chico Lacerda (PE)

PRÊMIO ASSEMBLEIA LEGISLATIVA – MOSTRA GAÚCHA DE CURTAS
– Arte da Loucura, de Karine Emerich e Mirela Kruel
– Atrás da Sombra, de Luciana Mazeto e Vinícius Lopes
– Bruxa de Fábrica, de Jonas Costa
– Consertam-se Gaitas, de Ana Cris Paulus, Boca Migotto e Felipe Gue Martini
– Da Vida Só Espero a Morte, de Júlia Ramos
– De Que Lado Me Olhas, de Carolina de Azevedo e Elena Sassi
– Entre Nós, de Maciel Fischer
– Ferro, de Giordano Gio

– Kaali, de Gabriel Motta Ferreira
–
Liga-Pontos, de Teresa Assis Brasil
– Madrepérola, de Deise Hauenstein
– O Movimento do Escuro, de Alexandre Rossi

– Nes Pas Projeter, de Cristian Verardi
– O Corpo, de Lucas Cassales
– O Sonho, o Limiar e a Porta que Metamorfoseia, de Gustavo Spolidoro
– Pele de Concreto, de Daniel de Bem
– Plano, de Virginia Simone, Carlos Dias e Matheus Walter
– Quanto Mais Suicida, Menos Suicida, de Maurício Canterle Gonçalves
– Rito Sumário, de Alexandre Derlam

Divertida Mente

I’m positive that you’ll get lost in there!

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Direção: Pete Docter e Ronaldo Del Carmen

Roteiro: Josh Cooley, Meg LeFauve e Pete Docter, baseado em história de Pete Docter e Ronaldo Del Carmen

Elenco (vozes): Amy Poehler, Phyllis Smith, Bill Hader, Lewis Black, Mindy Kaling, Kaitlyn Dias, Diane Lane, Kyle MacLachlan, Paula Poundstone, Bobby Moynihan, Paula Pell, Dave Goelz, Frank Oz

Inside Out, EUA, 2015, Animação, 101 minutos

Sinopse: Riley é uma garota divertida de 11 anos de idade, que deve enfrentar mudanças importantes em sua vida quando seus pais decidem deixar a sua cidade natal, no estado de Minnesota, para viver em San Francisco. Dentro do cérebro de Riley, convivem várias emoções diferentes, como a Alegria, o Medo, a Raiva, o Nojinho e a Tristeza. A líder deles é Alegria, que se esforça bastante para fazer com que a vida de Riley seja sempre feliz. Entretanto, uma confusão na sala de controle faz com que ela e Tristeza sejam expelidas para fora do local. Agora, elas precisam percorrer as várias ilhas existentes nos pensamentos de Riley para que possam retornar à sala de controle – e, enquanto isto não acontece, a vida da garota muda radicalmente. (Adoro Cinema)

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Dois trailers antecederam a minha sessão de Divertida Mente: os de Hotel Transilvânia 2 e Minions. E haja paciência, pois ambas as prévias já antecipam que ambas são animações que subestimam a inteligência de qualquer espectador. Só que há quem diga – levianamente, claro – que esse gênero existe com o propósito de apenas entreter crianças. Assim, a errada disseminação de tal lógica nos leva a produção de filmes que se utilizam somente de piadas físicas e nada criativas para arrancar risadas dos pequenos. No entanto,  é sim missão do gênero educar o olhar desta geração e, principalmente, diverti-la com histórias refinadas e suscetíveis a crescerem junto com ela. A Pixar, apesar da baixa em qualidade que teve nos últimos anos, foi pioneira em entretenimento inteligente para crianças e obras igualmente fascinantes para os adultos, mas com Divertida Mente alcança um patamar muito acima do esperado, fazendo um contraste gritante com os trailers da minha sessão. Sim, é verdade, inteligência também é fundamental e necessária para as animações. 

Antecedido pelo belo e sensível curta-metragem Lava (sobre um vulcão solitário cuja vontade de ser amado guia uma narrativa musical!), Divertida Mente é, sem dúvida alguma, o trabalho mais complexo já concebido pela Pixar. É, antes de qualquer coisa, uma obra que sintetiza o porquê do selo do estúdio ter alcançado notável reconhecimento: com a Pixar, há diversão para as crianças e material de sobra para que os adultos se envolvam tanto quanto elas. Ninguém é excluído de Divertida Mente, e o êxito do filme, que foi aplaudido em sua primeira sessão no Festival de Cannes este ano, também se reflete nas bilheterias: o trabalho da dupla Pete Docter e Ronaldo Del Carmen é a maior estreia de bilheteria de uma história inteiramente original, superado o até então recordista Avatar. Cannes e bilheteria. Todos aplaudem a Pixar. E não é exagero dizer que bastam 10 minutos de Divertida Mente para se entender as razões desta conquista. 

Mesmo se tratando de Pixar, é surpreendente que uma premissa tão atípica tenha saído do papel: aqui, a animação é passada toda dentro da mente de uma criança, onde os protagonistas são sentimentos! Alegria, Tristeza, Raiva, Medo e Nojinho ainda passeiam por lembranças, brincam com a imaginação, entram em pensamentos abstratos e descobrem detalhes de como são “produzidos” os sonhos. Há motivos de sobra para as crianças se entreterem com Divertida Mente, mas é somente com o tempo que elas conseguirão compreender o quão fascinante esse filme realmente é. Dos personagens adoráveis dentro e fora da mente ao plot pra lá de envolvente, a animação é assinada com impressionante segurança por Pete Docter, veterano da Pixar já responsável por Monstros S.A. e Up – Altas Aventuras, em parceria com o estreante na direção de longas Ronaldo Del Carmen. Além da direção, a dupla também tem os créditos da criação da história, o que comprova que a ousadia e a genialidade dos dois se estenderam para fora do papel.

Dosando humor e emoção em um universo constantemente surpreendente, Docter e Del Carmen ganham os pequenos com as cores, os personagens e as situações, mas fisgam o coração dos adultos com a escolha de falar sobre como a vida pode ser frustrante e imprevisível. Nós não temos controle sobre ela e às vezes não há otimismo que mude essa situação. Tão genial quanto parece ou quanto qualquer análise pode apontar, Divertida Mente recupera uma força criativa que parecia perdida na Pixar – e o faz transbordando criatividade e emoção em um roteiro atento a todos os detalhes, onde nenhum detalhe é esquecido. Porém, assim como em quase todos os filmes do estúdio, o que fica de mais válido é a série de ensinamentos deixados pela história em questão. No caso deste, é tudo muito claro e verdadeiro: sem alegria é difícil viver, mas a tristeza também faz parte das nossas vidas e é somente ela que nos amadurece e nos faz crescer. Uma reflexão super válida que norteia este novo clássico das animações que acaba de ganhar as telas do cinema.