Cinema e Argumento

43º Festival de Cinema de Gramado #8: noite de Marília Pêra e “Ausência”

43º Festival de Cinema de Gramado – Marília Pêra recebe o troféu Oscarito dos filhos: Ricardo Graça Mello, Esperança Motta e Nina Morena. Foto:Cleiton Thiele/Agência Pressphoto – www.edisonvara.com.br

Homenagem secreta: Marília Pêra recebeu o troféu Oscarito das mãos dos três filhos, que estavam em Gramado sem que a mãe soubesse. Foto: Cleiton Thiele/Pressphoto

Só tinha visto tamanha comoção no Festival de Cinema de Gramado, pelo menos nos últimos cinco anos, quando a lenda Fernanda Montenegro foi homenageada em 2011. Não à toa, o sentimento se repetiu com uma atriz de igual calibre agora em 2015: Marília Pêra. O próprio curador Rubens Ewald Filho revelou que não se cercava de tantas expectativas desde quando tinha entrevistado Elizabeth Taylor há muitos anos atrás. E a atriz fez jus às expectativas nesta terça-feira (11) quando desfilou pelo Tapete Vermelho e entrou no Palácio dos Festivais para receber o troféu Oscarito, destinado a grandes atores do cinema brasileiro. Foi a 25ª edição do prêmio, que, possivelmente, não poderia ter nome mais à altura para marcar a simbólica entrega.

Elegantíssima, Marília Pêra é uma “diva”, fazendo coro à definição repetida incansavelmente por público e crítica durante toda a sua passagem, seja nas telas ou fora dela. Do figurino impecável aos próprios gestos ao posar para as fotos, Marília, uma entertainer nata (ela canta, dança, dirige e atua), foi atenciosa e nada distante de quem clamava por sua atenção. A passagem dela por Gramado é para ficar na história do evento, até porque foi responsável pelo momento mais emocionante até aqui: Marília recebeu, emocionada, o troféu das mãos de seus três filhos, Nina, Esperança e Ricardo. Detalhe: a atriz não sabia que o trio viria à cidade para entregar a distinção.

43º Festival de Cinema de Gramado – Equipe do filme "Ausência", no tapete vermelho. Foto: Cleiton Thiele/Agência Pressphoto – www.edisonvara.com.br

Sem o diretor Chico Teixeira, que se recupera de um tratamento de câncer, elenco e produção de Ausência apresentaram o filme em Gramado. Foto: Cleiton Thiele/Pressphoto

Somos todos ausentes

É desolador o retrato feito pelo diretor Chico Teixeira em Ausência, o melhor longa até agora da mostra competitiva brasileira. O diretor não veio à Gramado por motivos de saúde (atualmente ele luta contra um câncer e enviou um vídeo ao Festival lamentando sua falta no evento), mas Teixeira pode ficar tranquilo: seu trabalho é, desde já, um forte candidato ao Kikito nas categorias principais. A experiência não é necessariamente fácil, mas o diretor conseguiu achar um perfeito ponto de equilíbrio entre o subjetivo e o erudito, acertando principalmente no ponto que afundou o Introdução à Música do Sangue no início do Festival: os silêncios, que aqui sim comunicam universos.

O título dá a impressão de resumir simploriamente a proposta da história, cujo relato se desenvolve a partir de um jovem de 15 anos que, ao ser abandonado pelo pai, precisa ser adulto antes do esperado já que a mãe tem problemas com bebida e o irmão é pequeno demais para compreender tudo o que acontece na disfuncional família. Entretanto, o ausência do título se refere a tudo que envolve a vida de Serginho (Matheus Fagundes, em uma performance reveladora). Este é um menino que não possui absolutamente nada, até porque tudo na vida lhe é negado, seja dinheiro, proteção materna, sexualidade bem definida e, claro, o suporte da figura de um pai. Ele é abandonado na vida em todos os sentidos e esse seu vazio torna Ausência triste e muitas vezes angustiante.

Chico Teixeira é artesanal ao construir as delicadezas cotidianas desse “não-mais menino, ainda-não homem”, preocupando-se em não estereotipar qualquer um dos personagens. A mãe alcoolista e desestruturada vivida por Gilda Nomacce, por exemplo, tinha tudo para cair na caricatura, mas a direção segura e o consistente desempenho da atriz tornam sua personagem passível de nossa compaixão tamanha a veracidade. O professor vivido por Irandhir Santos também é outro personagem que quase descamba para o clichê em determinado ponto (quando o protagonista lhe faz uma visita surpresa), mas novamente Teixeira tem delicadeza de sobra para controlar seu filme – e, assim como em toda a experiência, não com formalidades ou disciplina excessiva, e sim com um coração preocupado em mergulhar fundo em nós mesmos. Uma bela experiência.

43º Festival de Cinema de Gramado #7: “O Último Cine Drive-In”, de Iberê Carvalho

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Em seu longa-metragem de estreia, o diretor Iberê Carvalho faz uma homenagem ao cinema em uma história de acerto de contas com o passado. O Último Cine Drive-In chega aos cinemas brasileiros no dia 20 de agosto.

Originalidade não é o que você deve procurar na premissa de O Último Cine Drive-In. É o afeto que move o primeiro longa do curta-metragista brasiliense Iberê Carvalho. Saudado pelo curador Rubens Ewald Filho como o Cinema Paradiso brasileiro, o filme recicla vários elementos que outros projetos mundo afora já abordaram com maior criatividade.  Mas O Último Cine Drive-In esbanja naturalidade e, principalmente, sinceridade, o que faz com que esta se torne sim uma singela homenagem ao cinema, mesmo que, na realidade, ele seja apenas pano de fundo para uma história sobre acerto de contas com o passado.

Marlombrando (Breno Nina) leva a mãe para um importante exame em Brasília. Sozinho e sem a quem recorrer, decide procurar Almeida (Othon Bastos), seu pai ausente que segue administrando o último cine drive-in do Brasil. É em cima deste reencontro que Iberê Carvalho, em parceria com com Zepedro Gollo, desenvolve o roteiro de seu filme. Nada muito original, já que a retomada da discussão de feridas familiares e filmes sobre cinema já vimos aos montes. Porém, Carvalho trata ambos os temas com a maior dignidade possível, esquivando-se de escolhas que 4 em 5 roteiristas fariam, como esmiuçar – nem que fosse em breves diálogos – as razões que fizeram pai e filho se distanciar, por exemplo.

Sempre é importante valorizar sutilezas e O Último Cine Drive-In está repleto delas. Ao invés de tecer longos momentos sobre cinema afim de mostrar como é uma boa homenagem a esta arte, o filme prefere ilustrá-lo discretamente. E o mais importante: sua maior discussão em relação ao tema – o fato de um antigo formato de cinema não existir mais (o drive-in, onde era possível assistir filmes em um estacionamento) – não é panfletada. Sentimos toda a nostalgia por uma época que não existe mais e o carinho de Almeida por seu negócio (e também pelo cinema) está em pequenos detalhes, como quando ele, no hall de um cinema, devolve um óculos 3D bruscamente para um jovem que o deixou cair, simbolizando assim sua aversão às novas tecnologias que de certa forma exterminam a pureza de ir ao cinema.

Por optar pelo silêncio quando outros projetos verbalizariam cada conflito e por fazer uma homenagem sem precisar de grandes alegorias, é provável que O Último Cine Drive-In seja acusado de ser raso ou, então, leve demais. Quem o define assim certamente está na leva dos que não conseguem achar beleza nas entrelinhas, pois o que Iberê Carvalho realizou aqui, apesar de não ser particularmente marcante, se torna especial pelos detalhes. Nesta missão, o elenco tem papel fundamental, e todos o cumprem com louvor, especialmente Othon Bastos, com um papel que lhe dá as devidas chances em uma época em que ele, assim como outros atores veteranos, há tempos não vem recebendo papeis devidamente interessantes no cinema. Othon torna envolvente até mesmo algumas passagens mais forçadas e fechamentos óbvios de alguns conflitos. Um protagonista digno para uma história carinhosa que merecia um ator desse calibre. Precisa mais?

43º Festival de Cinema de Gramado #6: um pouco sobre o primeiro fim de semana

43º Festival de Cinema de Gramado - 08/08/2015. O diretor Daniel Filho recebe o troféu Cidade de Gramado. Foto:Cleiton Thiele/Agência PressPhoto – www.edisonvara.com.br

O ator, diretor, produtor e roteirista Daniel Filho abriu a série de homenagens do 43º Festival de Cinema de Gramado. Foto: Cleiton Thiele/Pressphoto

As estrelas foram poucas no primeiro fim de semana do 43º Festival de Cinema de Gramado, mas parece que praticamente todos entenderam que elas, apesar de um importante fator para o público sedento por fotos, não são as protagonistas de um festival de cinema. Assim, os dias iniciais programação de Gramado foram sobre… Cinema! E isso é realmente importante, já que o Festival, desde 2012, vem redesenhando sua trajetória após uma forte crise de ideias dentro e fora do Palácio dos Festivais. Que Horas Ela Volta? abriu o evento em grande estilo (este é um filme simplesmente imperdível que merece estar marcado na agenda de todos quando chegar aos cinemas) e o primeiro fim de semana deu sequência às discussões de cinema com um ritmo interessante. As homenagens, por sinal, já começaram a ser entregues. A estreia ficou com o troféu Cidade de Gramado para Daniel Filho.

Há quem torça o nariz para Daniel – e  deve ser quem, assim como eu, é de uma geração que só liga o diretor a comédias populares e obras de gosto duvidoso como Se Eu Fosse Você e Primo Basílio -, mas basta pesquisar um pouco a carreira do homenageado para ver sua grande contribuição ao cinema brasileiro. Ator, diretor, produtor e roteirista, o carioca tem mais de 40 filmes no currículo e diz que seu sonho é morrer atuando, mas ao mesmo tempo brinca que não é convidado tanto quanto gostaria para representar: “não sei se é porque sou mau ator mesmo ou se porque as pessoas têm medo que eu não aceite”. Mais simpático do que sua fama de inacessível propaga por aí, o homenageado não poupou elogios a Gramado e ainda comentou que o evento é o único que vem à sua cabeça quando pensa em longevos e resistentes festivais de cinema no Brasil.

43º Festival de Cinema de Gramado – Cerimônia de Entrega do Prêmio Assembleia Legislativa de Cinema - Mostra de Curtas Gaúchos – Os premiados da noite. Foto: Igor Pires/Agência Pressphoto – www.edisonvara.com.br

Os primeiros premiados do Festival foram conhecidos no domingo. O Prêmio Assembleia Legislativa elegeu os melhores curtas gaúchos em competição. Foto: Cleiton Thiele/Pressphoto.

Os vencedores do Prêmio Assembleia Legislativa – Mostra Gaúcha de Curtas

Já no domingo (09) foram conhecidos os primeiros premiados do 43º Festival de Cinema de Gramado. No caso, os melhores filmes do Prêmio Assembleia Legislativa – Mostra Gaúcha de Curtas, que, há 11 anos, celebra as mais recentes sagras do cinema gaúcho de curta-metragem. Como já havíamos comentado, não foi um grande ano para a mostra (assim como a de curtas nacionais até agora e que falaremos posteriormente), mas o júri foi coerente sem se perder no distributivismo medroso. Não há absurdos aqui – e tampouco surpresas, o que refletiu diretamente a média dos filmes apresentados. 

Quem saiu rindo mais do que o Kikito foi Lucas Cassales, diretor de O Corpo, curta que flerta com o cinema fantástico e que conta com a ilustre presença de César Troncoso. Não há como questionar a qualidade técnica e a maturidade da obra, mas, particularmente, as escolhas e o estilo narrativo não vão ao encontro do que necessariamente me envolve em termos de cinema. O contemporâneo Pele de Concreto levou os troféus de melhor montagem e edição de som, enquanto o apenas correto Consertam-se Gaitas levou o prêmio de exibição do grupo RBS para ser exibido regionalmente no canal no próximo domingo (uma escolha previsível, dada à proposta da distinção). A lista completa dos vencedores pode ser conferida aqui. 

43º Festival de Cinema de Gramado - 08/08/2015 - Equipe do filme "Introdução à Música do Sangue". Foto: Igor Pires/Agência PressPhoto www.edisonvara.com.br

O diretor Luiz Carlos Lacerda apresentou o inédito “Introdução à Música do Sangue” junto ao elenco e equipe.

Luiz Carlos Lacerda adapta Lúcio Cardoso com Introdução à Música do Sangue

Por falta de tempo, fôlego ou interesse, não consegui acompanhar ainda a mostra latina de longas, mas tenho mantido disciplina com os brasileiros. A competição, após a abertura hors concours de Que Horas Ela Volta?, começou com o inédito Introdução à Música do Sangue, longa recebido com maior rejeição do que sua coletiva de imprensa sugeriu. É mesmo uma decepção o retorno de Luiz Carlos Lacerda à serra gaúcha (em 1997 ele ganhou o Kikito de melhor filme por For All – O Trampolim da Vitória), especialmente porque sou um grande admirador de dramas familiares e esse não envolve ao adaptar um argumento do escritor mineiro Lúcio Cardoso.

A escalação de elenco é equivocada. Ney Latorraca, mais do que reconhecido por sua relação com a comédia, é a estrela desse drama como um perturbado pai de família que aos poucos enlouquece por reprimir seus conflitos e desejos. A bela dupla (literalmente) Greta Antoine e Armando Babaioff não têm muito o que fazer além de repetir incansavelmente cenas de sorrisos, limpeza da casa ou passeios por entre árvores. Introdução à Música do Sangue pode até ter lindas imagens (a fotografia de Allison Prodlik, que só utiliza luz natural, é o grande coringa do filme), mas, em suma, é vazio e confunde silêncio excessivo com introspecção.

Falta força nesse retrato de um Brasil bucólico e arcaico que o cinema parece ter esquecido. O roteiro de pouquíssimos diálogos escrito pelo Lacerda, como apontado pelos colegas de imprensa na coletiva, é fraco quando se utiliza de palavras e apenas gravita em torno de temas nunca devidamente aprofundados ou explorados. O diretor defende que nem tudo precisa de explicação, mas para uma obra lenta e quase carente de conflitos, maiores detalhes iluminariam intenções que não ficam tão claras. O clímax de Introdução à Música do Sangue não melhora a impressão que fica – pelo contrário: a cena crucial entre Latorraca e Antoine é prolongada demais e até mesmo constrangedora ao invés de incômoda. É difícil chegar até o fim, mas não pelo fato da obra ser exigente em termos de profundidade ou complexidades – o que é uma pena.

43º Festival de Cinema de Gramado - 09/08/2015 - Equipe do filme "O Fim e Os Meios", na Mostra Competitiva de Longas Brasileiros. Foto: Cleiton Thiele/Agência PressPhoto - www.edisonvara.com.br

Pela quinta vez em Gramado, Murilo Salles apresenta um caso raro na cinematografia brasileira: um filme centrado em política. Foto: Cleiton Thiele/Pressphoto

A política macro e cotidiana de O Fim e os Meios

O nível melhorou – mas não tanto quanto deveria – com a exibição de O Fim e os Meios no domingo (09). Esta é outra decepção muito particular que tenho no Festival de Cinema de Gramado este ano. Enquanto Introdução à Música do Sangue não é o intenso drama familiar que poderia ser, O Fim e os Meios não é o primeiro grande filme brasileiro sobre política. O curador Rubens Ewald Filho já reivindicou o cenário e aqui faço coro a ele: é impressionante termos uma política tão rica em termos de conflitos e ainda assim não produzirmos obras centradas na temática. Mas temos que admirar a coragem de Murilo Salles, que diz ser mesmo um cineasta político, ao não fazer escolhas simples em seu mais novo filme. É o gênero Murilo Salles, como o próprio reconhece. 

Não foram as discussões propostas pelo cineasta carioca ou muito menos o desenrolar da história que me incomodaram no resultado,  mas sim a artificialidade de toda a condução. Tenho particular aversão à forma como o cinema insiste em retratar o Jornalismo de forma megalomaníaca, com profissionais sempre cheios de ideologia e entusiasmados com a ideia de mudar o mundo em uma importante redação com furos de reportagem. Os diálogos também soam formais demais, trazendo aquela velha sensação de que ninguém fala dessaa mesma maneira na vida real. O Fim e os Meios já é por si só um filme distante e por vezes desafiador, mas tais aspectos não ajudam a história a se aproximar do espectador.

Por outro lado, não dá para passar batida a condução madura de Murilo Salles do delicado tema que é a política e seus bastidores, assim como a forma com que ele ambienta tecnicamente a trama. O uso da trilha é particularmente surpreendente, com uma economia admirável e inserções certeiras (nunca o som de um piano foi tão nervoso no cinema brasileiro recente). A fotografia, que torna o filme bastante escuro, tem tudo a ver com o tema sombrio debatido pelo diretor. Enxergando por este lado, dá para dizer que, clinicamente, O Fim e os Meios é um filme muito bem executado (e ajudado pela boa força trazida pela atriz Cíntia Rosa), mas, assim como no filme de Lacerda, a distância reinou, tornando a experiência para lá de incompleta.

43º Festival de Cinema de Gramado #5: os curtas gaúchos em competição

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De Que Lado Me Olhas e o bom momento dos documentários no cinema gaúcho: gênero se destaca em uma pouca impressiva mostra de curtas produzidos no Rio Grande do Sul.

Desde que o Festival de Cinema de Gramado se repaginou em 2012 e trouxe os curtas gaúchos de volta para o Palácio dos Festivais não víamos uma seleção tão passageira quanto a deste ano. Em 2015, não há Garry, 24 Horas Com Carolina ou muito menos algo tocante em narrativa e estética como o belíssimo Domingo de Marta. Os curtas selecionados, em uma análise geral, não impressionam e o que fica da mostra realizada pela Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul é a boa média de documentários.

Se muitos dos filmes desse gênero selecionados para competição cumprem apenas o básico como o mediano Consertam-se Gaitas, outros instigam pelos temas (Madrepérola, sobre meninas acima do peso ditado pela moda e que não se incomodam com o que são, e De Que Lado Me Olhas, sobre identidades de gênero) ou encantam pela própria execução (a dupla Karine Emerich e Mirela Kruel volta ao Festival com o inspirador Arte da Loucura, que retrata os dias em que uma trupe de atores italianos passa cinco dias em um hospital psiquiátrico de Porto Alegre). Foi um bom ano para os documentários entre os gaúchos, e isso está contemplado na seleção.

Entretanto, se, de resto, a mostra gaúcha de curtas não chega a impressionar, também temos que levar em consideração que a comissão de seleção fez um bom trabalho ao não selecionar filmes de gosto duvidoso (o único que destoa do conjunto é Liga-Pontos, um filme que faz jus à comparação pejorativa de um filme universitário). Praticamente todos os exemplares da mostra em 2015 são no mínimo bem produzidos. Curtas como Pele de Concreto, O Corpo, Rito Sumário, Bruxa de Fábrica e Ne Pas Projeter podem até dividir opiniões, mas são inegavelmente exemplares bem realizados e de ideias novas – afinal, mais vale errar pela tentativa de transgressão do que pela comodidade.

Reforçando o bom momento que vive o cinema gaúcho (este ano foram 12 produções realizadas no Estado que se inscreveram para a mostra competitiva de longas brasileiros), a mostra de curtas terá seus vencedores revelados neste domingo (09). Os agraciados, além de levarem para casa o Prêmio Assembleia Legislativa, também faturam prêmios em dinheiro (ao total, 30 mil reais serão distribuídos entre os agraciados). 

43º Festival de Cinema de Gramado #4: “Que Horas Ela Volta?”, de Anna Muylaert

01/2014 - Still longa metragem ' Que Horas Ela Volta' - De Anna Muylaert foto: Aline Arruda

Que Horas Ela Volta? é o auge da carreira de Anna Muylaert até aqui. No filme estrelado por Regina Casé, a diretora dá uma aula de discrição e delicadeza em um inteligente registro de uma sociedade.

Os melhores filmes são documentais e, inconscientemente, registros de uma sociedade. Em tempos que o cinema parece não saber muito bem qual o seu norte, são raras as produções que conseguem fazer essa reprodução de tempo e espaço com a devida elegância, discrição e inteligência. Que alegria, portanto, ver que o Brasil se atenta cada vez mais a esta ideia e que já fomos reconhecidos mundialmente por isso. Que Horas Ela Volta?, que estreou nacionalmente ontem em Gramado, chega ao circuito comercial no dia 27 de agosto com prêmios em Berlim e Sundance, e vem para dialogar tematicamente com outros dois importantes longas que fazem uma radiografia do nosso Brasil: O Som ao Redor e Casa Grande. O primeiro, inclusive, é tido pela diretora Anna Muylaert como uma influência direta para que ela tenha achado respostas a esse projeto que vinha desenvolvendo há 20 anos, especialmente no que se refere à ideia de uma história onde o oprimido de repente tem a força.

Muylaert sempre foi afeita às pequenas coisas da vida e como elas podem dizer muito sobre os seres humanos, mas ela parece realmente ter evoluído enormemente como contadora de histórias desde sua estreia com Durval Discos 13 anos atrás. Com Que Horas Ela Volta?, a diretora alcança um outro patamar e consegue o feito de ter realizado uma obra popular mas ao mesmo tempo inteligente – bem como o cinema argentino consegue fazer sempre e mais recentemente com o estrondoso sucesso de público e crítica Relatos Selvagens. Do apelo inegável de Regina Casé ao próprio retrato do conflito de classes no Brasil, Que Horas Ela Volta? é repleto de pitadas de humor que incrementam uma mistura crível, natural e envolvente. O tom naturalista da obra é resultado da própria proposta da diretora em todos os seus filmes: ela não permite que os atores simplesmente reproduzam as mesmas falas do roteiro. A palavra de ordem é improviso.

Se a comédia é irresistível e deve acertar em cheio o público brasileiro, também é bom olhar além e ficar atento a uma infinidade de detalhes que engradecem a experiência. Anna Muylaert, também autora do roteiro, diz que Que Horas Ela Volta? é um filme sobre a arquitetura dos afetos nas relações de poder brasileiras e que, mesmo partindo de um cenário específico de um país, tem abordagens comuns aos estrangeiros, que também convivem com empregados e funcionários muitas vezes imigrantes e distantes de suas realidades. O longa está mesmo imerso nessas leituras sobre a relação empregado/patrão, evocando demais todas as heranças da escravidão e subserviência que ainda repercutem no Brasil, além de estudar minuciosamente os sentimentos silenciosos que surgem a partir de uma relação aparentemente distante mas no fundo tão íntima – afinal, uma empregada faz parte do dia a dia e sabe basicamente tudo sobre seus empregadores.

Muylaert, discreta que é, não escancara a proposta de seu filme em diálogos, mas percebam como Val (Regina Casé, surpreendente e não menos que extraordinária), no dia do aniversário de sua chefe, presenteia a patroa com um conjunto de xícaras. As xícaras são simbólicas, já que nada mais são do que objetos que ampliam sua relação de servidão com a patroa, uma vez que a própria Val terá que servi-la com o presente que comprou. Mesmo quando ganha uma cocada, por exemplo, a protagonista não pensa duas vezes antes de compartilhá-la com a chefe, mostrando que não se acha digna de qualquer lembrança ou carinho sem ter que dar satisfações a sua “superior”. Ela se acha inferior a todos – inclusive à própria filha que deixou no nordeste anos atrás para trabalhar em São Paulo afim de sustentá-la -, o que é um interessante contraste com a figura de Bárbara (Karine Telles), sua empregadora, que se acha superior a todos, mas se vê incrivelmente abalada quando percebe que Val é quem detém um certo poder que lhe escapa como a verdadeira mãe de seu filho em termos de carinho.

Não há equiparações sentimentais ou de poder em Que Horas Ela Volta?, e é isso o que torna o filme de Anna Muylaert até mesmo angustiante, já que vemos Val sendo escanteada sem que ela própria se incomode com isso (repetindo: faz parte de sua natureza ser inferior em função de sua origem humilde). No entanto, a diretora e roteirista em momento algum vitimiza ou vilaniza qualquer um dos personagens. Assim como Regina Casé transmite com perfeição as filosofias de vida de uma mulher que diz que certas coisas “a gente já nasce sabendo”, Karine Telles é certeira ao ser altiva nos momentos certos e insegura quando vê que o controle não está mais ao seu alcance. Camila Márdila, a filha de Val, seduz não seduzindo com o papel mais difícil de todos: a filha que tem vergonha das condições da mãe e que vê nos patrões dela uma chance de escapar de um futuro que já lhe parece predestinado. Em suma, a força aqui é das mulheres e os homens são meros meninos, conferindo ainda a Que Horas Ela Volta? um grande impacto feminino. 

Fora as riquíssimas interações político-sociais desenhadas por Que Horas Ela Volta?, há outras pequenas contemporaneidades, como o momento em que a família está sentada na mesa de jantar sem se comunicar pois todos estão conectados em seus respectivos celulares. A educação dos filhos como papel primordial para construção da sociedade é outro ponto desenvolvido de forma inteligente pelo roteiro. Afinal, o que é mais importante: fazer filhos ou educá-los? Enquanto no Brasil a primeira resposta ainda parece a mais valorizada, o filme vem bem a calhar, pois mostra que, além da segunda afirmação ser indiscutivelmente a mais coerente, a mulher tem importância decisiva e subvalorizada no processo de formação de caráter e afeto de toda uma sociedade.

Mesmo com tantas “análises”, o longa nunca deixa de ser sentimental – a cena solo de Regina Casé em uma piscina é o ponto alto -, e também divertidíssimo. Com todos os méritos, Que Horas Ela Volta? deve fazer um notável sucesso de público por aqui e o abraço internacional comprova que esta é uma obra que pode – e deve – viajar o mundo. Escapa à memória a última vez que um filme tão simples e pequeno se engrandeceu tanto em seus detalhes. O Brasil e seu povo das mais variadas classes estão retratados nesta história executada sem qualquer artifício. Na verdade, nossa realidade está representada com a maior delicadeza, inteligência, contemporaneidade e verossimilhança possíveis. Aqui, Que Horas Ela Volta? funciona como entretenimento de grande reflexão. Lá fora, como veículo de importantes informações sobre um país que, para os estrangeiros, ainda está resumido aos retratos feitos em Cidade de Deus e Tropa de Elite. Mais do que nunca, chegou a hora de mudar essas credenciais. Bravo!