Cinema e Argumento

Melhores de 2014 – Direção

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Nunca tive uma boa relação com a filmografia de David Fincher. Apesar de respeitar seus trabalhos e compreender toda a adoração de público e crítica, nunca consegui ter um grande envolvimento com os longas realizados por este norte-americano de 52 anos. É uma questão de identificação, simples assim. Só que tudo mudou com Garota Exemplar, o primeiro filme de Fincher que realmente me arrebatou. Aqui ele é conciso ao criar suspense (ao contrário de seu Zodíaco, que me soa como uma história repleta de excessos) e extremamente envolvente ao desenvolver as facetas dos personagens (frequentemente me incomodava a forma gélida e racional com que ele tratava as figuras de A Rede Social e Millenium, por exemplo). Segurando com firmeza a total virada de foco que Garota Exemplar tem a partir de sua metade, Fincher entrega um dos trabalhos mais relevantes de sua carreira, especialmente porque está em perfeita sintonia com o texto de Gillian Flynn. Ainda disputavam esta categoria: Damián Szifrón (Relatos Selvagens), Felix Van Groeningen (Alabama Monroe), J.C. Chandor (Até o Fim) e Wes Anderson (O Grande Hotel Budapeste).

EM ANOS ANTERIORES: 2013 – Alfonso Cuarón (Gravidade) | 2012 – Leos Carax (Holy Motors) | 2011 – Darren Aronofsky (Cisne Negro) | 2010 – Christopher Nolan (A Origem) | 2009 – Danny Boyle (Quem Quer Ser Um Milionário?) | 2008 – Paul Thomas Anderson (Sangue Negro) | 2007 – Alejandro González Iñárritu (Babel)

Na coleção… Orações Para Bobby

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Quando esteve com seu filho caçula pela última vez, Mary Griffith (Sigourney Weaver) foi enfática ao confrontá-lo e se despedir dizendo: “Eu não vou ter um filho gay”. Esse era, até então, o auge dramático de uma família que presenciava, sem exageros, um verdadeiro embate entre mãe e filho. De um lado, Bobby (Ryan Kelley), o garoto perfeito que, ao se assumir gay, pela primeira vez trazia um “problema” para dentro de casa. De outro, Mary, a católica fervorosa que acreditava que poderia curá-lo com terapias e o poder da Bíblia. Bobby seguiu em frente: se mudou para Portland com a prima, conquistou um emprego e até arranjou um namorado. Já Mary permaneceu altiva até o último momento com o filho, quando o descreditou como sangue de seu sangue em função da homossexualidade. O jovem nunca superou o desafeto materno e, após ser traído pelo namorado (mais um golpe do destino em uma sucessão de rejeições), entrou em uma derrocada emocional que, permeada pelas lembranças de uma mãe incompreensiva e preconceituosa, culminou em seu suicídio.

É com toda essa angústia de um conturbado relacionamento familiar que o telefilme Orações Para Bobby, exibido pela primeira vez em janeiro de 2009 pelo canal Lifetime, norteia a primeira parte de sua história. Já a partir do suicídio do protagonista, o longa dirigido pelo diretor australiano assumidamente gay Russell Mulcahy transfere o drama para outro ponto de vista: o da mãe que, devastada pela perda do filho, passa a encontrar, nos diários de Bobby, as respostas que nunca quis ouvir enquanto ele ainda era vivo. E as conclusões que vêm a partir dessas descobertas não a confortam. Ora, Mary percebe – e admite – que o suicídio de Bobby foi consequência direta da ignorância dela e de sua família sobre o universo gay. Inclusive, a matriarca discursou sobre sua culpa diante do congresso estadunidense em 1995, quando passou a ser uma ativista das causas gays. A bonita mas devastadora jornada de transformação de uma mãe que precisou de uma tragédia fatal para poder compreender e aceitar o próprio filho é o que constrói a força dramática de Orações Para Bobby, um telefilme que pode não ser propriamente uma grande produção, mas que, com sua realidade repleta de impacto, alcança um nível único de emoção.

Para apreciar o filme da maneira correta, é bom saber que ele foi encomendado pela Lifetime, o que nos leva a duas questões. Primeiro: Orações Para Bobby segue um estilo televisivo bastante clássico, com blocos facilmente identificáveis (com direito a fade outs em suas transições) e uma duração enxuta de 90 minutos para se adequar à grade de programação da emissora. Segundo: a obra é pensada para atender ao público-alvo do canal, basicamente formado por mulheres e donas de casa dos Estados Unidos que preferem acompanhar histórias mais acessíveis em sua forma. Assim, com todas essas circunstâncias, não espere ver um filme bem elaborado ou repleto de escolhas, digamos, inteligentes. Orações Para Bobby, reiterando, não é superlativo se analisado friamente. O que acontece é que é simplesmente impossível ficar indiferente à força dramática do filme. A história é tão humana e transformadora que pode tocar até Marcos Feliciano ou Jair Bolsonaro – mesmo que eles, claro, não venham a admitir.

Baseado no livro Prayers for Bobby – A Mother’s Coming to Terms With the Suicide of Her Gay Son, de Leroy Aarons, o telefilme de Mulcahy, além do belíssimo serviço que faz em prol da causa gay (e o mais importante: sem sequer ser mera panfletagem), traz uma chance de ouro para Sigourney Weaver, uma atriz que, nos últimos anos, só amargurou papeis que em nada se aproximam da altura de seu talento. Pois Orações Para Bobby chega lá e entrega à atriz um dos papeis mais intensos de sua carreira. Weaver incomoda como a mãe religiosa (mas em momento algum a vilaniza) e momentos depois emociona como o ser humano arrependido em busca de alguma redenção frente ao evento trágico causado por ela. O jovem Ryan Kelley não fica atrás e torna Bobby uma das figuras mais críveis, transmitindo todas as dúvidas e angústias de um adolescente em descoberta que não tinha a quem recorrer em tempos que a AIDS começava a se espalhar e que Harvey Milk era assassinado por levantar a bandeira gay.

Mais de duas décadas se passaram desde que Bobby se suicidou e, mesmo depois de tanto tempo, Orações Para Bobby se revela um filme incrivelmente atual. Necessário, melhor dizendo, visto que, ao invés de evoluirmos como sociedade no que se refere aos direitos humanos, temos encontrado cada vez mais combatentes ao livre arbítrio das identidades sexuais. Quando Fernanda Montenegro e Nathália Timberg, duas damas da dramaturgia com mais de 80 anos, chegam ao horário nobre da TV brasileira interpretando lésbicas com a maior naturalidade do mundo, é no mínimo estranho constatar que ainda exista tanta rejeição a qualquer forma de amor. E o longa protagonizado por Weaver é um belo lembrete de como a intolerância é frequentemente uma consequência da ignorância. Por acompanhar essa jornada de compreensão com tanta humanidade, Orações Para Bobby se torna um filme especial. Mostrando com delicadeza o íntimo de um jovem homossexual incompreendido e com verossimilhança a total evolução de uma mãe que por sua própria definição já deveria amar o filho por o que quer ele fosse, esta se torna uma experiência das mais humanas e necessárias. Uma obra que certamente deveria passar toda semana na TV para tornar o mundo um lugar melhor.

Melhores de 2014 – Elenco

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O diretor e roteirista Damián Szifrón coloca todos os atores de Relatos Selvagens no mesmo patamar. Se você pensa que este é apenas mais um filme com Ricardo Darín cercado por coadjuvantes que não passam do interessante, logo terá uma grande surpresa. Obviamente pela própria estrutura (curtas com a mesma temática mas totalmente independentes), o resultado já não permite essa lógica, mas são fascinantes as escolhas de Szifrón. Enquanto o próprio Darín se sai muito bem como o homem comum que vê sua vida de pernas pro ar em função de um erro da prefeitura, a estrela da TV argentina Erica Rivas simplesmente arrasa como a noiva que faz com que o seu casamento se torne uma experiência muito peculiar para todos. Mesmo no curta mais fraco (o segundo, encenado em um restaurante) os atores dão conta do recado, seja nas vertentes dramáticas ou cômicas. Afinal, a graça e a crítica de Relatos Selvagens alcançam pleno êxito graças ao seu excepcional elenco. Ainda disputavam esta categoria: 12 Anos de Escravidão, O Grande Hotel Budapeste, O Lobo Atrás da Porta e Trapaça.

EM ANOS ANTERIORES: 2013 – Álbum de Família | 2012 – O Impossível | 2011 – Tudo Pelo Poder | 2010 – Minhas Mães e Meu Pai | 2009 – Dúvida | 2008 – Vicky Cristina Barcelona | 2007 – Bobby

Melhores de 2014 – Atriz

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Como fã de Julianne Moore, nunca pensei que fosse lamentar uma vitória sua em uma temporada de premiações. E não foi apenas porque em Para Sempre Alice ela está longe de ter um papel desafiador como tantos outros de sua carreira, mas porque tinha uma concorrente infinitamente superior: Rosamund Pike, reveladora e avassaladora em Garota Exemplar. Não há dúvidas de que o papel é o mais surpreendente de 2014, e a atriz, que elimina por completo o seu sotaque britânico, encarna com perfeição todas as fases da complexa Amy Dunne, transitando entre a linda e supostamente esposa indefesa a uma mulher forte e que não é tão delicada quanto aparenta. Pike é realmente um furacão em cena, e sua marcante atuação é incrementada por uma personagem repleta de leituras e, por que não, polêmicas. Ainda disputavam esta categoria: Charlotte Gainsbourg (Ninfomaníaca – Parte 2), Judi Dench (Philomena), Leandra Leal (O Lobo Atrás da Porta) e Veerle Baetens (Alabama Monroe).

EM ANOS ANTERIORES: 2013 – Adèle Exarchopoulos (Azul é a Cor Mais Quente) | 2012 – Tilda Swinton (Precisamos Falar Sobre o Kevin) | 2011 – Kirsten Dunst e Charlotte Gainsbourg (Melancolia) | 2010 – Carey Mulligan (Educação) | 2009 – Kate Winslet (Foi Apenas Um Sonho) | 2008 – Meryl Streep (Mamma Mia!) | 2007 – Marion Cotillard (Piaf – Um Hino ao Amor)

Três atores, três filmes… com Roberta Pinto

rtarobertatresPor aqui no Rio Grande do Sul, a cinéfila Roberta Pinto já teve passagens por importantes veículos de comunicação. Como gosta de dizer, é fã de cinema desde que se “conhece por gente” e encontrou no Jornalismo uma maneira de expressar o seu amor pela sétima arte. Já são mais de dez anos na profissão, passando por experiências em rádio, TV e online – entre os projetos dela, inclusive, esteve o blog Janela Indiscreta/Em Cartaz. Já quando o assunto é assistir a filmes, um “santíssima trindade” norteia a vida da nossa convidada. Suas escolhas para a coluna são, por isso, baseadas em longas dos três diretores que vocês vão descobrir logo abaixo. E que diretores! Todos os desempenhos escolhidos pela Roberta são inéditos aqui na coluna – e são ainda um excelente guia para quem está querendo começar a procurar interpretações no cinema de diretores clássicos.

Sou uma cinéfila inveterada desde que me conheço por gente. Aprendi a gostar de filmes antes de mesmo de aprender a ler ou escrever. O cinema acabou me levando de forma indireta ao jornalismo onde tive a oportunidade de comentar e escrever sobre….Adivinhou? Ci-ne-ma. E eis que tenho uma “santíssima trindade” quando se trata da sétima arte. São três cineastas que devoto: Alfred Hitchcock, Stanley Kubrick e Woody Allen. Acho que além do talento para contar histórias de uma forma muito particular (Hitchcock e Kubrick fazem amor com a câmera e Woody Allen com as palavras), os três cineastas também conseguiram extrair desempenhos memoráveis de seus atores.

James Stewart (Um Corpo Que Cai)
O ator encarna com perfeição o perturbado policial obrigado a se aposentar após um trauma e acaba prestando favores como detetive particular para um conhecido. Só que o personagem tem mais profundidade do que isso, e Stewart vai trazendo aos poucos com olhares, sutilezas, expressões, uma camada mais densa. A camada de uma homem obcecado e perturbado, que decide manipular e transformar uma mulher na outra que pensou ter perdido. Sempre gostei de pensar que o personagem tem muito de como o próprio Hitchcock via o feminino: como algo a ser manipulado para o seu prazer. Afinal, era assim que Hitchcock operava com suas estrelas: decidia seus penteados, a maneira de falar, sua postura, suas roupas e até se era ou não o momento de terem filhos (o papel de Kim Novak em Um Corpo que Cai era para ser de Vera Miles que OUSOU engravidar e perdeu para sempre o status de estrela de primeiro escalão no coração do mestre do suspense). James Stewart em Um Corpo que Cai é um perfeito Hitchcock.

Malcolm McDowell (Laranja Mecânica)
Partimos então para outro diretor exigente: Kubrick. Ele tinha mania de perfeição e costumava levar seus atores à exaustão até conseguir uma tomada perfeita. Se ele conseguiu o desempenho perfeito de Jack Nicholson em O Iluminado (já comentado aqui no blog), também extraiu o máximo de um ator que estava em início de carreira quando cruzou seu caminho: Malcom McDowell em Laranja Mecânica. A entrega de McDowell ao personagem foi tão intensa que durante a cena em que Alex é submetido ao tratamento Ludovico o ator teve a sua córnea arranhada pelos pequenos ganchos e ficou temporariamente cego. Num outro exemplo de sintonia entre o ator e seu ator, a cena clássica do estupro, onde Alex canta Singin´ in the rain foi filmada sem ser planejada. Stanley perguntou se McDowell sabia cantar e dançar e o ator improvisou a canção de Gene Kelly. Não precisa dizer que essa cena entrou para história do cinema. Pena que o projeto de Napoleão com direção de Kubrick e McDowell no papel título não saiu do papel. Teria sido interessante de assistir.

Gena Rowlands (A Outra)
Sei que ela já apareceu aqui no blog também, mas não posso deixar e registrar o desempenho de Gena Rowlands em A Outra, de Woody Allen. Woody escreve os melhores papeis que um ator pode desejar, e valoriza muito as atrizes com as quais trabalha. Em A Outra, filme que mostrava uma imersão mais bergminana do diretor nova-iorquino, Gena interpreta uma intelectual prestes a completar 50 anos que parece se concentrar na confecção de um livro aluga um apartamento vizinho a um consultório de psiquiatra. Pela ventilação, Gena escuta as consultas dos pacientes (uma mulher em particular chama a sua atenção) e passa a questionar as próprias escolhas que fez na vida. Uma atriz completa, Gena Rowlands descasca todas as camadas da personagem e termina o filme de uma maneira totalmente diferente de como iniciou, buscando uma sensibilidade que sempre esteve nela, porém adormeceu com o tempo. Sem dúvida um grande desempenho na carreira de uma das melhores atrizes de sua geração.