Cinema e Argumento

Rapidamente

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Gena Rowlands brilha em Uma Mulher Sob Influência. O longa de John Cassavetes mostra que casamento e loucura podem muito bem andar lado a lado.

MOTHER – A BUSCA PELA VERDADE (Madeo, 2009, de Joon-ho Bong): Considerado um dos grandes trabalhos do cineasta coreano Joon-ho Bong, autor de outros célebres filmes como O Hospedeiro e do recente Expresso AmanhãMother – A Busca Pela Verdade realmente faz jus a esse título. Pode ser que a premissa pareça relativamente simples (uma mãe determinada a provar a inocência do filho preso por um homicídio), mas o roteiro de Bong, em parceria com Eun-kyo Park, surpreende pela sobriedade. Não é difícil criar empatia pela protagonista, interpretada com delicadeza por Hye-ja Kim (uma atriz pouco ativa, já que, fora Mother, ela só tem cinco trabalhos no currículo envolvendo cinema e TV), e, aos poucos, torcer por sua destemida jornada materna. Misturando o suspense da trama com doses de humor e drama familiar, o filme pode até resolver seu principal conflito de forma pouco inesperada, mas Mother volta a pegar o espectador desprevenido logo após essa revelação, lançando um instigante e até mesmo provocador desfecho para essa história extremamente bem articulada.

UMA MULHER SOB INFLUÊNCIA (A Woman Under the Influence, 1974, de John Cassavetes): Casamento e insanidade andam juntos em Uma Mulher Sob Influência que, muito mais do que ser uma das grandes referências da carreira de John Cassavetes, é o ponto alto da atriz Gena Rowlands. Ela não chegou a vencer o Oscar em 1975 (perdeu para Ellen Burstyn, por Alice Não Mora Mais Aqui), mas, como sempre, o tempo se revela o melhor prêmio possível, uma vez que o desempenho de Rowlands é, sem dúvida, muito mais lembrado – e com todos os méritos: como a complicada Mabel, ela dá uma verdadeira aula de interpretação, especialmente quando transita de sua doce e frágil faceta de mãe a um estado completamente descontrolado frente à família. A longa duração (155 minutos) e o tom assumidamente teatral presente em várias tomadas podem ser exaustivos, mas também são a fórmula ideal para que Rowlands brilhe a cada minuto. A tarefa de assistir a Uma Mulher Sob Influência também não é das mais fáceis porque a experiência é densa, e o olhar sob a vida conjugal do diretor não é nada positivo. No entanto, nada disso é obstáculo para que o filme impacte e seja um retrato atemporal de como existe uma linha muito tênue entre paixão e loucura.

SENTIDOS DO AMOR (Perfect Sense, 2011, de David Mackenzie): A ideia de Sentidos do Amor traz o que existe de mais interessante nos melhores filmes sobre epidemias: o foco no comportamento humano a partir de determinada tragédia desse gênero. Aqui é ainda mais instigante porque, ao contrário de Ensaio Sobre a Cegueira, por exemplo, os personagens estão fadados a perder não somente a visão, mas sim todos os sentidos. No centro dessa epidemia desconhecida e irremediável estão pessoas emocionalmente perdidas, mais especificamente um casal vivido por Eva Green e Ewan McGregor que começa a se apaixonar justamente em um cenário tão desesperançoso. Por outro lado, não ajuda Sentidos do Amor levar tanto tempo para engrenar, fazendo com que o espectador só se envolva com os personagens lá pela metade da história, quando o longa de David Mackenzie deixa de ser apenas um retrato convencional de cientistas tentando compreender uma epidemia que foge do controle da ciência. A partir do momento em que finalmente se entrega à relação dos protagonistas, Sentidos do Amor cativa e chega a culminar em um final incrivelmente belo e tocante – se é que isto é possível dada a condição da humanidade na trama. Parte da emoção se deve à belíssima trilha sonora de Max Richter, que recentemente também emocionou na TV com seu trabalho para o seriado The Leftovers.

Na TV… o cinema e a censura em “Magnífica 70”

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Magnífica 70 e o cinema em tempos de opressão: Marcos Winter é Vicente, censor da ditadura militar que descobre secretamente a paixão por fazer filmes.

É simples dizer que Magnífica 70 é uma série repleta de caricaturas e exageros, seja na construção de seus personagens ou até mesmo na forma como desenvolve e soluciona seus conflitos. Entretanto, essa nova produção da HBO brasileira está longe de ser tão tola assim. Na verdade, a história do atormentado Vicente (Marcos Winter), censor da ditadura militar que se apaixona pelo universo dos filmes da Boca do Lixo, é desenhada a partir de uma metalinguagem interessantíssima. Adotando basicamente os mesmos tons excessivamente acentuados – e por que não quase toscos – em interpretação, direção e texto das pornochanchadas que se consagraram com o público brasileiro na década de 1970, a série conquista pelo tom deliciosamente hiperbólico, mas também por fazer um recorte da ditadura brasileira a partir dos bastidores das produções cinematográficas daquela época. Ou seja, além de sua inteligente jogada narrativa, Magnífica 70 ainda é um retrato criativo desse conturbado período da nossa história exaustivamente explorado no cinema e na TV.

Dirigida em alternância pela dupla Carolina Jabor e Cláudio Torres (ele também é criador, roteirista e produtor), o seriado demanda certo tempo para que o espectador finalmente embarque em sua pegada de excessos. Afinal, não há duvidas de que hoje incomoda o uso carregado de uma trilha que faz questão de sublinhar cada momento da história ou as leituras de antagonistas que não possuem qualquer humanidade. Mais do que isso: a própria estrutura explicativa já é considerada um defeito atualmente, especialmente quando a série utiliza flashbacks a todo momento (inclusive em preto e branco!) para relembrar fatos de episódios anteriores essenciais ao que está sendo discutido, por exemplo. Se não analisássemos a concepção da trama a partir deste viés de homenagem a um cinema que um dia já produzimos, Magnífica 70 seria quase irritante. Reconstituindo com bom humor e dramaticidade as dificuldades de se fazer arte nos tempos de ditadura, o programa se torna gradativamente envolvente, fazendo com que perdoemos escolhas questionáveis em qualquer recorte de tempo, como o tratamento dado ao general vivido por Paulo César Pereio, um homem cuja única missão na história é fazer o mal em todas as formas possíveis.

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E o que falar das musas? Simone Spoladore é Dora Dumar, atriz que desponta no cinema da Boca de Lixo ao mesmo tempo em que administra uma conturbada e perigosa relação com seu irmão.

Aceitando que Magnífica 70 é divertida pela reprodução intencional desses cacoetes, encontramos uma excelente atração da HBO latino-americana. Da abertura que traz a irresistível canção Sangue Latino, do Secos e Molhados, aos próprios conflitos super novelescos, a série, que já foi renovada para uma segunda temporada, se sai muito bem ao evoluir seus conflitos a partir dos bastidores de um filme fictício chamado Minha Cunhada é de Morte. Entretanto, o texto também dá conta do recado até mesmo quando precisa colocar o protagonista Vicente no centro de discussões sobre quais aspectos determinavam a censura de obras no cinema ou sobre como se configuravam as relações de poder entre homens e mulheres naquele período. Isso tudo é encenado com fluidez porque Jabor e Torres compreenderam o tino cômico e os elementos dramáticos fundamentais para que tal homenagem aos tempos do cinema da Boca de Lixo funcionasse.

A jornada, claro, não poderia ser bem sucedida se o elenco também não estivesse totalmente em sintonia com a proposta de Magnífica 70. Felizmente, o grupo de atores reunido aqui é especial, começando pelo protagonista Marcos Winter, um ator que nunca chegou perto da quinta grandeza, mas que aqui funciona perfeitamente como um sujeito certinho e perturbado que finalmente encontra uma verdadeira vocação em sua vida – e pouco importa se, para as regras da época, ela apontava para o proibido. Enquanto pequenas participações como a de Stepan Necerssian dão conta do alívio cômico, as mulheres são as responsáveis por roubar a cena. E que mulheres! Simone Spoladore é ótima como a desejada (mas trambiqueira) estrela Dora Dumar, e Maria Luísa Mendonça tem um dos arcos dramáticos mais interessantes da primeira temporada como a esposa reprimida que aos poucos descobre os mais variados tipos de liberdade. São todos rostos certos para uma história bem conduzida em uma série que, fora seu valor histórico, sabe muito bem sobre o que e principalmente como está falando.

Os vencedores do Emmy 2015

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“A única coisa que separa mulheres de cor de qualquer outra pessoa é a oportunidade. Você não pode ganhar o Emmy por papeis que simplesmente não existem”. Viola Davis é a primeira mulher negra na história do Emmy a vencer na categoria de melhor atriz em série dramática.

Parece inacreditável, mas em 67 anos de história o Emmy nunca havia premiado uma atriz negra como protagonista no segmento dramático. Isso é reflexo, claro, de uma indústria ainda racista, o que foi dito com todas as letras por Viola Davis em seu vitorioso discurso por How to Get Away With Murder. “A única coisa que separa mulheres de cor de qualquer outra pessoa é a oportunidade. Você não pode ganhar o Emmy por papeis que simplesmente não existem”, disse a atriz. É fácil encontrar quem torça o nariz para a série (que, apesar do delicioso guilty pleasure que é, tem sim grandes fragilidades, especialmente no elenco), mas é emblemático o que ela faz. How to Get Away With Murder, como bem apontou sua protagonista, redefine o que é beleza, sensualidade e, principalmente, o que é ser uma mulher negra e protagonista na TV estadunidense. Viola é superlativa na série – e ainda mais fora dela. É um grande ser humano que mereceu quebrar uma barreira até então silenciosa da premiação.

Começo falando sobre a vitória de Viola Davis porque este foi o grande momento do Emmy 2015. Frequentemente surpreendente, a premiação ontem decepcionou por ser a mais previsível em muitos anos. Vale lembrar que não dá para confundir previsibilidade com falta de merecimento, mas o resultado foi cercado de questionamentos, especialmente no que se refere à consagração de Game of Thrones. Indiscutível sucesso de público e crítica, o programa simplesmente não vive um momento unânime, já que sua quinta temporada foi basicamente “ame ou odeie”. Foi curioso ver tantas estatuetas entregues ao seriado quando ele divide tantas opiniões e quando, principalmente, outros programas entregaram uma estabilidade muito maior, como Mad MenHouse of Cards. Optaram por Game of Thrones em um acerto de contas aparentemente tardio e excessivo (ninguém entendeu muito bem o prêmio para Peter Dinklage como coadjuvante, por exemplo). Para Mad Men, sobrou apenas o prêmio de melhor ator para Jon Hamm, que felizmente não se juntou a Amy Poehler (Parks and Recreation), Frances Conroy (Six Feet Under), Hugh Laurie (House) e Steve Carell (The Office) como mais um ator indicado merecidamente centenas de vezes e nunca premiado.

Já entre as comédias a situação foi bem mais coerente com o que o binômio público/crítica vem celebrando nesta temporada. Assim como Game of Thrones, a ótima Veep só veio a ser consagrada agora, mas este está longe de ser um mero momento de compensação: o programa estrelado por Julia Louis-Dreyfus realmente está em uma fase brilhante, e o melhor: totalmente em sintonia com as inflamadas eleições que começam a tomar conta dos Estados Unidos. Tem quem reclame de um quarto prêmio consecutivo para Dreyfus como atriz ou de uma segunda vitória de Tony Hale como coadjuvante pela série, só que não há muito o que se discutir: ambos são atores sempre excelentes e que também submeteram episódios certeiros para avaliação. 

Veep, a primeira série de canal fechado a vencer a categoria principal de comédia desde Sex and the City, dividiu a atenção da noite com a igualmente ótima Transparent, que levou o prêmio de melhor ator para Jeffrey Tambor (possivelmente a consagração mais justa da noite) e de melhor direção para Jill Soloway. A noite para as comédias serviu ainda para fazer uma varredura completa em antigos vícios intermináveis do Emmy como Modern FamilyThe Big Bang Theory, séries que finalmente desapareceram da lista de vencedores. Enquanto isso, no segmento das minisséries, tivemos mais (justas) previsibilidades com o total domínio de Olive Kitteridge. Tenho problemas com as lembranças para Richard Jenkins e Bill Murray, dois grandes atores que só venceram por nome ou falta de opção, mas a verdade é que não havia muito a ser feito em suas listas. Confira abaixo os vencedores nas categorias de drama, comédia e minissérie/telefilme:

MELHOR SÉRIE DRAMA: Game of Thrones
MELHOR SÉRIE COMÉDIA: Veep
MELHOR MINISSÉRIE: Olive Kitteridge
MELHOR TELEFILME: Bessie
MELHOR DIREÇÃO DRAMA: David Nutter (Game of Thrones)
MELHOR DIREÇÃO COMÉDIA: Jill Solloway (Transparent)

MELHOR DIREÇÃO MINISSÉRIE/TELEFILME: Lisa Cholodenko (Olive Kitteridge)
MELHOR ROTEIRO DRAMA: David Benioff e D.B. Weiss (Game of Thrones)

MELHOR ROTEIRO COMÉDIA: Armando Iannucci, Simon Blackwell e Tony Roche (Veep)
MELHOR ROTEIRO MINISSÉRIE/TELEFILME: Jane Anderson (Olive Kitteridge)
MELHOR ATOR DRAMA: Jon Hamm (Mad Men)
MELHOR ATOR COMÉDIA: Jeffrey Tambor (Transparent)
MELHOR ATOR MINISSÉRIE/TELEFILME: Richard Jenkins (Olive Kitteridge)
MELHOR ATRIZ DRAMA: Viola Davis (How to Get Away With Murder)
MELHOR ATRIZ COMÉDIA: Julia Louis-Dreyfus (Veep)
MELHOR ATRIZ MINISSÉRIE/TELEFILME: Frances McDormand (Olive Kitteridge)
MELHOR ATOR COADJUVANTE DRAMA: Peter Dinklage (Game of Thrones)
MELHOR ATOR COADJUVANTE COMÉDIA: Tony Hale (Veep)
MELHOR ATOR COADJUVANTE MINISSÉRIE/TELEFILME: Bill Murray (Olive Kitteridge)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE DRAMA: Uzo Aduba (Orange is the New Black)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE MINISSÉRIE/TELEFILME: Regina King (American Crime)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE COMÉDIA: Allison Janney (Mom)

Quem serão os vencedores do Emmy 2015?

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Na sua quarta indicação consecutiva, Veep finalmente faturou o prêmio de melhor elenco cômico no Emmy. A vitória eleva as chances da série para a grande premiação do próximo domingo (20).

Sempre longe de ser previsível, o Emmy já trouxe algumas surpresas neste fim de semana, quando anunciou os vencedores do chamado Creative Arts, que lista os melhores entre categorias técnicas, atores convidados e elencos. Se Transparent parecia uma barbada entre as comédias (definição de gênero questionável, diga-se de passagem), sua soberania agora já pode ser contestada: pela primeira vez em quatro anos Veep faturou o prêmio de melhor elenco, reforçando a ideia de que a série é sim muito mais do que apenas a maravilhosa Julia Louis-Dreyfus – e não será surpresa alguma se Tony Hale e Anna Chlumsky se consagrarem como coadjuvantes na próxima semana também, quando os demais vencedores serão revelados, já que ambos submeteram episódios onde protagonizam cenas de absoluto brilho individual.

De qualquer forma, tanto Veep quanto Transparent são séries de alto nível. Pela definição de comédia e pela qualidade acentuada a cada temporada, seria mais justo Veep vencer, só que, pela relevância temática e por apontar para o caminho das novas plataformas de streaming, Transparent, que abriu os trabalhos da Amazon como produtora de conteúdo audiovisual, salta na frente. Ainda entre as comédias, Transparent levou um merecido prêmio de ator convidado para a sensível participação de Bradley Whitford no episódio Best New Girl (o melhor da temporada), trazendo mais uma derrota para Jon Hamm, que concorria por seu ótimo momento em Unbreakable Kimmy Schmidt. Já Joan Cusack foi a melhor atriz convidada por Shameless, derrotando candidatas de peso que estão com indicações duplas este ano, como Christine Baranski e Gaby Hoffman.

Nas categorias de drama, outras surpresas: Game of Thrones pela primeira vez faturou o prêmio de melhor elenco – e é no mínimo inusitada a vitória em um ano que o seriado dividiu opiniões e entregou aquela que é unanimemente a sua temporada menos interessante. A lembrança não é brincadeira: no ano em que Mad Men se despediu da TV e supostamente viria com força total para reinar novamente no Emmy, a derrota surge como um forte sinal para a grande premiação da semana que vem, especialmente quando Orange is the New Black vive um grande momento e outras séries veteranas e mais focadas em trabalhos de interpretação seguem sendo lembradas, como House of Cards, que faturou a categoria de melhor ator convidado para Reg E. Cathey. A sempre maravilhosa Margo Martindale foi a melhor interpretação feminina mo mesmo segmento por The Americans, desbancando a veterana Cicely Tyson (ótima como a mãe de Viola Davis em How to Get Away With Murder), que já havia perdido um Emmy no ano passado pelo telefilme O Regresso Para Bountiful.

Para o próximo domingo, apenas duas apostas parecem realmente fáceis: Jeffrey Tambor como melhor ator de comédia por seu sensível desempenho em Transparent e Viola Davis fazendo história como a primeira atriz negra a vencer na categoria por How to Get Away With Murder. Muitos querem crer que Jon Hamm (Mad Men) e Amy Poehler (Parks and Recreation) finalmente serão corados na premiação, mas vale lembrar que o Emmy não se comove com despedidas: Steve Carell (The Office), Hugh Laurie (House) e Frances Conroy (Six Feet Under) foram alguns dos atores indicados várias vezes – e reconhecidamente merecedores da estatueta – que nunca subiram ao palco para receber honrarias individuais.

Entre as surpresas possíveis, não subestimar a sexta indicação consecutiva de Christine Baranski como atriz coadjuvante em drama por The Good Wife (a série sempre teve uma de suas atrizes premiadas a cada temporada e ela é a única que não passou um ano sem ser lembrada), Niecy Nash entre as atrizes coadjuvantes de comédia por Getting On (seria uma daquelas pequenas surpresas da categoria ao estilo Kristin Chenoweth por Pushing Daisies e Merritt Wever por Nurse Jackie) e Ben Mendelsohn, ótimo em Bloodline e favorecido por uma fraude de categoria (ele é obviamente protagonista ao lado de Kyle Chandler e não coadjuvante como o programa vendeu e o Emmy comprou). E o que mais vai acontecer na grande noite de premiação do Emmy? Abaixo as nossas apostas:

MELHOR SÉRIE DRAMA: Mad Men / alt: Game of Thrones
MELHOR SÉRIE COMÉDIA: Transparent / alt: Veep
MELHOR MINISSÉRIE: Olive Kitteridge / alt: American Horror Story: Freak Show

MELHOR ATOR DRAMA: Kevin Spacey (House of Cards) / alt: Jon Hamm (Mad Men)
MELHOR ATOR COMÉDIA: Jeffrey Tambor (Transparent) / alt: William H. Macy (Shameless)
MELHOR ATOR MINISSÉRIE/TELEFILME: David Oyelowo (Nightingale) / alt: Adrien Brody (Houdini)
MELHOR ATRIZ DRAMA: Viola Davis (How to Get Away With Murder) / alt: Taraji P. Henson (Empire)
MELHOR ATRIZ COMÉDIA: Julia Louis-Dreyfus (Veep) / alt: Amy Poehler (Parks and Recreation)
MELHOR ATRIZ MINISSÉRIE/TELEFILME: Frances McDormand (Olive Kitteridge) / alt: Queen Latifah (Bessie)
MELHOR ATOR COADJUVANTE DRAMA: Ben Mendelsohn (Bloodline) / alt: Jonathan Banks (Better Call Saul)
MELHOR ATOR COADJUVANTE COMÉDIA: Tituss Burgess (Unbreakable Kimmy Schmidt) / alt: Tony Hale (Veep)
MELHOR ATOR COADJUVANTE MINISSÉRIE/TELEFILME: Bill Murray (Olive Kitteridge) / alt: Michael Kenneth Williams (Bessie)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE DRAMA: Christine Baranski (The Good Wife) / alt: Uzo Aduba (Orange is the New Black)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE MINISSÉRIE/TELEFILME: Sarah Paulson (American Horror Story: Freak Show) / alt: Mo’Nique (Bessie)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE COMÉDIA: Niecy Nash (Getting On) / alt: Anna Chlumsky (Veep)

Love

Show me how tender you can be.

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Direção: Gaspar Noé

Roteiro: Gaspar Noé

Elenco: Karl Glusman, Aomi Muyock, Klara Kristin, Juan Saavedra, Vincent Maraval, Benoît Debie, Isabelle Nicou, Stella Rocha, Déborah Révy, Gaspar Noé, Xamira Zuloaga

França/Bélgica, 2015, Drama, 134 minutos

Sinopse: Murphy (Karl Glusman) está frustrado com a vida que leva, ao lado da mulher (Klara Kristin) e do filho. Um dia, ele recebe um telefonema da mãe de sua ex-namorada, Electra (Aomi Muyock), perguntando se ele sabe onde ela está, já que está desaparecida há meses. Mesmo sem a encontrar há anos, a ligação desencadeia uma forte onda saudosista em Murphy, que começa a relembrar fatos marcantes do relacionamento que tiveram. (Adoro Cinema)

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Nascido nos Estados Unidos, Murphy (Karl Glusman) está em Paris estudando cinema. Sua vontade como cineasta é fazer filmes sobre três coisas que, para ele, são as mais essenciais da vida: lágrimas, sangue e esperma. Esse não deixa de ser um resumo do cinema de Gaspar Noé, um diretor sempre cru e provocador, mas também da ideia de como somos guiados – para ou bem ou para o mal – pelos nossos instintos mais primitivos. Violência impactante já tivemos de sobra em Irreversível (obra que até hoje não tive estômago para rever), e agora, com Love, Noé se dedica a levar o sexo ao seu estado mais explícito – ainda que, na realidade, este seja um filme muito mais sobre lágrimas.

Não há dúvidas: Love foi feito para causar discussões – e isso não é nenhuma novidade se você já passeou por outros universos criados por Gaspar Noé. Há, entretanto, um mérito inegável já na proposta inicial do longa: o sexo explícito. É um mérito (e não uma “polêmica”, como a imprensa insiste em vender erroneamente) porque estamos carentes, tanto no plano artístico quanto no popular, de obras transgressoras nesta temática. Nunca tivemos tanta liberdade de expressão, mas também nunca fomos tão caretas – o que cada vez mais é refletido no cinema.

A maioria das obras supostamente sobre sexo é, na verdade, mero pretexto para causar rebuliço na mídia ou engordar bilheterias do que de fato para discutir algo de interessante em relação ao tema. Neste gaveta, entram filmes como o pavoroso Cinquenta Tons de Cinza, que dispensa credenciais sobre suas escolhas erradas, e até mesmo o irregular Ninfomaníaca, de Lars Von Trier, que chegou a prometer sexo de verdade para depois colocar digitalmente corpos de atores pornôs no lugar dos personagens principais. Em termos conceituais, Love vem para derrubar todos estes filmes, colocando na tela um sexo sem disfarces e que serve como narrativa para endossar a turbulenta vida emocional dos protagonistas.

O título não é uma brincadeira, já que Love é mesmo um triste relato focado na devastada vida amorosa de um jovem assombrado por escolhas erradas. Noé quer discutir, mais especificamente, “o amor perdido e nunca reencontrado”, como já definiu perfeitamente o crítico Luiz Carlos Merten, do Estadão. Em linhas gerais, eis a tragédia não tão atípica na vida: o protagonista Murphy, loucamente apaixonado por Electra (Aomi Muyock), trai a namorada e, neste desvio de percurso, engravida uma menina de 17 anos. Ele não é perdoado pela namorada, que o abandona sem pensar duas vezes, não deixando para Murphy outra saída a não ser assumir as responsabilidades ao lado da jovem grávida. Só que Electra, agora literalmente inalcançável em sua vida, é quem ficou na memória, e, anos depois, um telefonema despertará essas doloridas memórias e as feridas nunca cicatrizadas.

Faz todo sentido Love ter tanto sexo porque a própria história já nasce a partir dele. Lembrando: Murphy arruinou sua vida por um mero ímpeto sexual. Mais do que isso, Gaspar Noé, também autor do roteiro, faz questão reforçar a cada minuto a ideia de que o sexo é um importante fator do nosso comportamento – e não apenas diversão ou perversidade como o cinema costuma retratar. Em Love, sexo é prazer, mas também descoberta, intimidade, pedido de desculpas, extravasamento da raiva, afogamento das mágoas e, principalmente, o mais próximo que podemos chegar da geografia física e sentimental de outro ser humano. Ele é um importante pretexto para que o filme fale sobre tudo o que cerca a intensidade de um verdadeiro relacionamento e sobre como certas pessoas, independente do que a vida impõe, ficam conosco para a vida inteira.

Eventualmente Gaspar Noé deixa escapar suas pretensões e até mesmo seus narcisismos (precisava mesmo o filme ter personagens com os nomes de Gaspar e Noé?), fazendo com que Love se estenda mais do que deveria, especialmente em seus momentos finais, quando relata os dias em que o casal protagonista tenta achar, em aventuras sexuais cada vez mais transgressoras, uma solução para seus problemas sentimentais. Não demora muito para entendermos que, a partir de certo ponto, Murphy e Electra só se entendem na cama, mas o filme insiste em bater neste tecla, mesmo que não tenha mais nada de novo para comunicar. Mas Love joga com os sentidos (Noé é mestre no uso das cores em meio à escuridão e na escolha de suas imersivas trilhas sonoras) e isso, junto aos interessantes conflitos emocionais, é suficiente para compensar eventuais fragilidades ou limitações que o filme possa ter.

Inicialmente concebido para ser realizado antes mesmo de Irreversível, mas deixado de lado porque Monica Bellucci e Vincent Cassel não compraram a proposta do sexo explícito, Love obviamente não é um filme fácil ou muito menos para se recomendar sem cautela por aí. Só que o cinema de Noé é exatamente assim: feito para ser cheio de restrições e discussões. Concordando ou não com as escolhas do diretor ou com a entrega dos atores, é preciso concordar: você nunca viu um filme como Love. E considerando que, nos dias de hoje, é tão complicado encontrar obras autorais e desafiadoras, a experiência se torna ainda mais intrigante. Fico no time dos defensores.