Cinema e Argumento

Os grandes desempenhos femininos de 2015

O ano de 2015 ainda não chegou ao fim (falta pouco!), mas, parando para analisar, já dá para perceber que a missão de escolher o melhor desempenho feminino desta temporada será um verdadeiro desafio! Temos mulheres protagonistas arrebentando em ação, comédia ácida, drama brasileiro, filme naturalista francês, adaptações e até mesmo em western (esse gênero tão esquecido nos dias de hoje)! Perdeu de conferir alguma delas? Pois resolvemos fazer um apanhado do que vimos de melhor até agora em 2015 envolvendo essas mulheres incríveis, todas em desempenhos que você não pode deixar passar. E também deixamos a pergunta: tem como escolher qual delas é a melhor? A ordem da lista é aleatória.

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Depois de anos e muitas injustiças, Julianne Moore finalmente ganhou um Oscar por Para Sempre Alice, mas seu grande desempenho de 2015 está em Mapas Para as Estrelas. O filme é difícil (e não foi muito bem recebido por aqui), mas sintetiza perfeitamente o tipo de cinema e interpretação que colocou a atriz entre as mais importantes de sua geração. Como a  perturbada atriz Havana Segrand, que vê a possibilidade de voltar a brilhar no cinema depois de anos amargando uma carreira decadente, Julianne Moore se despe de vaidades em um desempenho bastante corajoso. Se o Globo de Ouro inexplicavelmente deu o prêmio de melhor atriz em comédia para Amy Adams por Grandes Olhos, pelo menos temos como consolo (e que consolo!) o fato de Cannes ter premiado Moore por sua atuação no filme de David Cronenberg. Ela não era a melhor na disputa, mas, se tratando dela, isso não vem muito ao caso, especialmente em um filme como esse…

Voltando ao assunto de Cannes, quem realmente merecia o prêmio de melhor atriz no festival francês era Marion Cotillard, que tem mais uma atuação marcante em Dois Dias, Uma Noite. Merecia não só porque seu histórico em Cannes já é longo, mas porque a francesa tem a carreira mais exemplar da atualidade (qual atriz estrangeira equilibra com tanta qualidade trabalhos no seu país de origem e nos Estados Unidos?) e porque ela está realmente fantástica no mais recente filme dos irmãos Dardenne. Como Sandra, mulher que perde o emprego após uma votação que lhe exclui do ambiente para que seus colegas possam receber um bônus de final de ano, Cotillard eventualmente emociona quando não contem o choro, mas impressiona de verdade quando aposta na discrição de uma personagem extremamente crível. Se não fosse por Piaf – Um Hino ao Amor, que é coisa de outro mundo, este certamente seria seu momento mais marcante.

Ainda entre as francesas, Juliette Binoche esteve novamente superlativa em Acima das Nuvens, repetindo um nível de excelência cujo último marco deve ter sido Cópia Fiel. E não está sozinha: acompanhada de uma surpreendente Kristen Stewart, La Binoche forma com a jovem atriz uma das parcerias mais interessantes deste ano. Enquanto a francesa tem obviamente um papel muito mais complicado (a atriz que é chamada para fazer o remake de um filme de sucesso que protagonizou anos atrás, mas agora com um papel diferente), Stewart não se intimida frente à veterana e responde à altura, especialmente nas cenas de ensaio onde realidade e ficção constantemente se confundem. É um trabalho complementar e de pura sinergia que extrai o melhor de cada uma delas.

O cinema ganhou uma nova heroína nos filmes de ação e, de repente, o mundo se tornou um lugar melhor. A saudade dos tempos em que Sigourney Weaver marcou gerações como a forte protagonista da quadrilogia Alien já era grande, mas George Miller veio colocar ordem na indústria machista. Charlize Theron, que funciona muitíssimo bem quando comandada pelos diretores certos, é um verdadeiro ícone em Mad Max: Estrada da Fúria. Tom Hardy fica praticamente de escanteio quando Theron entra em cena e passa a movimentar toda a frenética trama deste filme que também é um marco do cinema contemporâneo. A atriz dá conta do trabalho físico e do drama, com uma interpretação cheia de personalidade e que mostra que a vida na sétima arte seria muito melhor se mais figuras femininas liderassem histórias como essa. Bravo!

A torcida para Regina Casé chegar ao Oscar é grande, e Que Horas Ela Volta? tem tudo para chegar entre os escolhidos da Academia pelo menos na categoria de filme estrangeiro. Só que, na boa, Casé pode até dar um show, mas é impossível lembrar de sua Val sem dar o devido reconhecimento à Camila Márdila como a jovem Jéssica. É mais um trabalho fantástico de duas atrizes na mesma cena em 2015, onde o roteiro de Anna Muylaert dá todas as chances para as duas brilharem: mãe e filha se conhecem e reconhecem em uma história muito brasileira mas ao mesmo tempo bastante universal. A química entre as duas é perfeita, o que proporciona ao filme – já inteligente por si só – momentos realmente belos, tocantes e até mesmo provocadores. No elenco de suporte, Karine Teles também faz bonito como a patroa Bárbara. Que Horas Ela Volta? é o show das mulheres!

Mais uma européia para a lista: a britânica Charlotte Rampling, que está marcante em 45 Anos. Ela foi a única concorrente ao Urso de Prata do Festival de Berlim deste ano que conferi, mas acho difícil contestar a honraria para Rampling, cujo papel é dos mais interessantes: a da agora atormentada esposa que precisa rivalizar com um fato inalcançável do passado de seu marido (Tom Courtenay, também premiado em Berlim como melhor ator). Como boa britânica, Rampling interioriza os sentimentos de sua Kate a cada cena, tornando a angústia da personagem – e consequentemente a nossa – ainda maior diante do novo comportamento do marido. É brilhantismo que talvez só veteranas como ela possam trazer, principalmente em sequências como a de encerramento, bonita por si só mas que ganha uma força inesperada nas mãos de Rampling.

MENÇÕES HONROSAS: Em Dívida de Honra, surpreendente western dirigido por Tommy Lee Jones, Hilary Swank sai da zona de sua zona de conforto para entregar um desempenho firme e ao mesmo tempo delicado | Quase não visto aqui no Brasil, Dois Lados do Amor traz uma Jessica Chastain inspirada na trágica história de um romance despedaçado Com Ricki and the Flash, Meryl Streep afirma (pela milésima vez) que não existe atriz mais camaleônica do que ela em atividade – e talvez na história! | Emily Blunt é excelente comediante, mas também manda muito bem no drama, e Sicario: Terra de Ninguém lhe dá um dos papeis mais importantes da sua carreira.

45 Anos

So full of history, you see?

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Direção: Andrew Haigh

Roteiro: Andrew Haigh, baseado no conto “In Another Country”, de David Constantine

Elenco: Charlotte Rampling, Tom Courtenay, Dolly Wells, Geraldine James, Richard Cunningham, Sam Alexander, David Sibley, Max Rudd, Michelle Finch, Kevin Matadeen, Camille Ucan

45 Years, Reino Unido, 2015, Drama, 95 minutos

Sinopse: Kate Mercer (Charlotte Rampling) está planejando a festa de comemoração dos 45 anos de casada. Porém, cinco dias antes do evento, o marido recebe uma carta: o corpo de seu primeiro amor foi encontrado congelado no meio dos Alpes Suíços. A estrutura emocional dele é seriamente abalada e Kate já não sabe se vai ter o que comemorar durante a festa. (Adoro Cinema)

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Nunca defina o britânico Andrew Haigh como um diretor para o público gay. Não é assim que ele quer ser reconhecido. Na realidade, essa nunca foi a sua intenção. É claro que o currículo aponta para um outro caminho: seus dois primeiros longas-metragens, Greek Pete e o ótimo Weekend, falam sobre relações homossexuais e, logo após a realização deles, Haigh foi para a HBO fazer Looking, seriado com a mesma temática. Pura coincidência, segundo ele. Haigh quer ser lembrado, na realidade, como um autor dedicado à complexidade das relações humanas, independente de qualquer definição ou sexualidade. Quem disse isso foi ele próprio, quando exibiu 45 Anos, seu mais recente trabalho, no Festival de Berlim deste ano. No evento, o filme saiu consagrado com os prêmios de melhor atriz e ator para os protagonistas Charlotte Rampling e Tom Courtenay, mas, embarcando na história, logo se percebe que, mesmo que o maravilhoso desempenho da dupla seja um marco, a franqueza dela só seria possível nas mãos de um diretor como Haigh, que compreende que uma simples viagem ao mais íntimo do ser humano pode ser a fonte inesgotável de dramas e reflexões que tantos procuram em circunstâncias mirabolantes. 

Assim como em Weekend, o novo filme de Haigh, baseado no conto “In Another Country”, de David Constantine, se utiliza de uma estrutura das mais inteligentes: a de ambientar todos os acontecimentos em um único recorte de tempo – no caso, os quatro dias que antecedem a festa de 45 anos de casamento de Kate (Rampling) e Geoff (Courtenay). É inteligente porque o diretor sabe que não precisamos acompanhar a vida inteira dos personagens na tela para realmente conhecê-los. O que basta é uma conversa onde Kate diz se arrepender não ter tirado mais fotos com o marido ao longo dos anos ou a forma carinhosa com que lembra da infinidade de animais de estimação que tiveram, fazendo uma clara referência ao fato do matrimônio não ter gerado filhos. 45 Anos se constrói e se explica por meio desses pequenos momentos, e a fórmula funciona ainda mais a partir do momento em que Geoff recebe uma carta que reativa lembranças de uma tragédia de anos atrás. Passando do inesperado romance jovem de Weekend para o relato maduro de um casamento de mais de quatro décadas que entra em uma intensa reflexão, Andrew Haigh não tropeça na significativa transição temática e entrega, em 45 Anos, uma sólida história onde o presente é reinterpretado a partir do passado rumo a um futuro agora incerto.

Sabendo o mínimo possível sobre os detalhes da trama, a experiência de mergulhar nesta repentina reavaliação matrimonial se torna ainda mais envolvente, principalmente porque o roteiro aborda o ponto de vista de Kate e não o de Geoff, que seria o escolhido por praticamente todos os diretores. Se, assim como a protagonista, descobrirmos aos poucos o que envolve a tal mensagem recebida e os efeitos que surgem a partir dela, é bem provável nos sentirmos parte desse mesma viagem incômoda e até mesmo dolorosa. O que basta saber sobre 45 Anos é que inicialmente este parece um filme apenas sobre um dilema envolvendo um anúncio entregue por correio, mas a verdade é que tudo toma proporções bem maiores e delicadas que nos levam a pensar que a vida pode ser simplesmente uma série de jogadas certas ou erradas em um universo de aleatoriedades. Entre coisas não ditas e memórias impossíveis de serem ignoradas, o roteiro também nos lembra da dura verdade que às vezes não há proximidade ou casamento que nos garanta conhecer o outro por completo. 45 Anos parte dessas desconstruções, arquitetando cada momento de forma sempre sutil e silenciosa, especialmente do lado de Kate, que é quem o roteiro e a câmera do diretor escolhem seguir em todas as cenas, sem exceção.

Ao mesmo tempo em que é crível ao mostrar como se configuram relações de longa data, o filme sabe lidar muito bem com cada um dos personagens isoladamente. Enquanto a obsessão de Geoff é perfeitamente compreensível (afinal, quem conseguiria deixar de lado as lembranças de um passado como o dele?), a angústia de Kate passa a tomar conta de nós porque a personagem vive praticamente em silêncio, tentando não demonstrar pensamentos e sentimentos que estão claramente lhe consumindo. E é aí que a experiência e o talento de atores como Courtenay e Rampling fazem toda a diferença. Ela, em especial, é quem domina a cena por ter obviamente mais destaque e o papel melhor explorado, mas vale lembrar que são poucas as intérpretes que conseguiriam interiorizar tantas coisas e ao mesmo tempo transparecer isso ao espectador através de somente um olhar ou um gesto. A condução que a britânica adota para o papel vai de acordo com o próprio filme, que sempre tem um certo nervosismo no ar. Isso é resultado da rotina minuciosa da pacata vida dos personagens, da ambientação em uma casa isolada no interior e do naturalismo com que Haigh imprime à história sem o uso de qualquer intervenção, nem mesmo de trilha instrumental.

45 Anos é destas experiências que ficam com o espectador após o desfecho e que só crescem com o passar do tempo. Ficam as lembranças também porque o filme reserva seu melhor para o último dia que acompanhamos da vida de Kate e Geoff. Faz todo sentido, por exemplo, que, nos momentos finais, eles dancem ao som de Smoke Gets in Your Eyes, do The Platters, uma canção que, inicialmente romântica, pode ganhar uma nova leitura sob à luz desse filme. Trechos dela como “Eles me perguntaram como eu sei que o meu amor verdadeiro é verdadeiro” e “Eles disseram que um dia você vai descobrir que todo o amor é cego” são a narração perfeita para este momento que, graças aos dois atores, torna-se repleto de significados – e o que Rampling faz nos exatos 10 segundos finais é de um verdadeiro assombro. Assim, apesar da decepção que é Looking, Andrew Haigh, pelo menos no cinema, continua como um nome para ficarmos sempre atentos – e, para quem vos escreve, fã de carteirinha de dramas sobre relacionamentos e suas complexidades, um cineasta que desde já cria imensas expectativas por seu próximo trabalho.

Três atores, três filmes… com Sheron Neves

sherontresDessa vez, a coluna deveria se chamar “Três atores, três séries”, mas vamos manter a tradição do título. Ela deveria ter nome diferente porque a convidada é uma grande pesquisadora de TV, segunda tela, storytelling e transmídia, e também porque a conheci justamente em um curso sobre séries (mais especificamente sobre as produções da HBO) anos atrás. Sheron Neves, mestre em Media Studies pela Birkbeck, University of London e professora na ESPM-Sul, PUCRS e Unisinos, vem hoje ao Cinema e Argumento para comentar, excepcionalmente, três grandes atuações da TV. As escolhas particularmente me fascinaram porque fogem do previsível, conforme ela mesma explica na introdução abaixo. E como não pular de alegria ao ver Six Feet Under, meu seriado favorito de todos os tempos, lembrado na seleção? Ah, e não deixem de conferir o trabalho da Sheron no Meditations in an Emergency!

Antes de listar minhas três atuações favoritas da TV, preciso fazer um parênteses: não incluí os britânicos, pois precisaria de uma lista bem maior do que a que me foi encomendada. Sejam eles jovens como Nicholas Hoult (Skins) ou tarimbados como Maggie Smith (Downton Abbey), são todos responsáveis por performances impecáveis. Falando em impecável, mais um parênteses: deixei de fora Bryan Cranston (Breaking Bad), um dos meus favoritos. Afinal, o que dizer que ainda não foi dito pela imprensa ou pelas inúmeras premiações que recebeu pelo papel? Optei, portanto, por três performances menos conhecidas, mas não menos extraordinárias.

Sofia Helin (The Bridge)
Para viver Saga Norén, a brilhante policial com síndrome de asperger de The Bridge, a atriz sueca optou por uma interpretação sem grandes afetações, mas extremamente convincente. Vários remakes do drama sobre um maquiavélico assassino em série já foram feitos, mas nenhuma atriz parece ser capaz de interpretar a personagem com tamanha naturalidade como Helin, cujo carisma conseguiu destronar a até então diva número um do nordic-noir, a atriz Sofie Gråbøl (da série sueca The Killing). Ao mesmo tempo em que ajuda a compor a dureza monocromática da série, a detetive criada por Helin faz também o perfeito contraponto. Como um Spock de saias, é seu distanciamento emocional e sua inabilidade social que a tornam uma boa observadora. É a sua honestidade brutal que a torna autêntica, e o seu caráter que a leva a construir a principal “ponte” do título: a amizade com seu parceiro, o passional detetive Rohde. Deliciosamente trágicos, os dois acrescentam um componente humano a um thriller gélido e cerebral.

Michael K. Williams (The Wire)
Natural do Brooklyn, o ator já possuía alguns pequenos papéis no currículo quando foi chamado para desempenhar Omar Little na premiada série The Wire (HBO, 2002-2008). Sua performance como o temido gangster/Robin Hood de Baltimore lhe rendeu inúmeros elogios da crítica, e até mesmo de Barack Obama, na época senador. O contraditório personagem parece ter sido feito sob medida para o ator que, com seu rosto carrancudo (marcado por uma enorme cicatriz obtida em uma briga no dia do seu 25º aniversário) pode parecer assustador à primeira vista. Entretanto, à medida que a trama se desenvolve, o ator consegue transmitir a complexidade deste que é um dos melhores personagens da série: apesar do rosto duro e dos atos inquestionavelmente cruéis, ele permanece a pessoa mais honesta e altruísta dentro de uma cidade repleta de políticos e policiais corruptos. Williams consegue transmitir esta dualidade com total sutileza e maestria.

Frances Conroy (Six Feet Under)
Formada pela prestigiada Juilliard School de Nova Iorque, a veterana atriz de teatro conquistou o grande público como a matriarca da família Fisher em Six Feet Under (HBO, 2001-2005). Mais conhecida até então no circuito independente, Conroy usou sua experiência nos palcos da Broadway para construir uma personagem absolutamente cativante e tragicômica. Uma das personagens mais imprevisíveis da série, Ruth Fisher surpreende desde uma das primeiras cenas do episódio piloto, quando atira longe uma travessa de comida ao receber um telefonema com más notícias. Inicialmente o retrato típico da esposa baby boomer, recatada, perfeccionista e submissa, na pele de Conroy a personagem ganha uma dimensão surpreendente. O fim abrupto de seu casamento de 35 anos é o estopim de uma transformação que irá confundir a seus filhos e a ela mesma. Acredito que poucas atrizes conseguiriam interpretar com tamanha sensibilidade a jornada de uma mulher que descobre, no auge de seus anos dourados, sua própria sexualidade e individualidade.

Os 33

Aim to miss.

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Direção: Patricia Riggen

Roteiro: Craig Borten, Michael Thomas e Mikko Alanne, baseado no livro “Deep Down Dark”, de Hector Tobar

Elenco: Antonio Banderas, Juliette Binoche, Rodrigo Santoro, Gabriel Byrne, Adriana Barraza, Bob Gunton, Paulina García, Lou Diamond Phillips, Juan Pablo Raba, Mario Casas, Naomi Scott, James Brolin, Kate del Castillo, Oscar Nuñez, Jacob Vargas

The 33, EUA/Chile, Drama, 120 minutos

Sinopse: Capiapó, Chile. Um desmoronamento faz com que a única entrada e saída de uma mina seja lacrada, prendendo 33 mineradores a mais de 700 metros abaixo do nível do mar. Eles ficam em um lugar chamado refúgio e, liderados por Mario Sepúlveda (Antonio Banderas), precisam racionar o alimento disponível. Paralelamente, o Ministro da Energia Laurence Golborne (Rodrigo Santoro) faz o possível para conseguir que os mineiros sejam resgatados, enfrentando dificuldades técnicas e o próprio tempo. (Adoro Cinema)

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Só pela composição do elenco se percebe que Os 33 não é um filme particularmente comprometido com suas raízes. Sejamos francos: escalar um espanhol (Antonio Banderas), uma francesa (Juliette Binoche), um irlandês (Gabriel Byrne) e um brasileiro agora praticamente estadunidense (Rodrigo Santoro) para protagonizar, falando inglês, uma história sobre o povo chileno é o primeiro indicador de que esta é uma produção motivacional de sobrevivência para norte-americano ver – e, quem sabe, arrecadar uma gorda bilheteria com as estrelas reunidas. Poderia ser pior: Binoche foi escalada de última hora para substituir Jennifer Lopez, que preferiu priorizar sua participação no reality show musical American Idol! Não entrando em maiores discussões sobre este mundo em que uma atriz do calibre de Binoche vem para compensar a ausência de Jennifer Lopez, concluímos, então, com tal panorama, que Os 33, apesar de não ser o que podemos chamar de um filme necessariamente oportunista, está mais preocupado com o possível espetáculo de sua extraordinária história do que com fazer um retrato marcante deste que foi o maior acidente envolvendo mineiros na história do Chile.  

Não dá para deixar de se impressionar com o que os 33 mineiros do título viveram. Preso a quase 700 metros de profundidade após um grande deslizamento dentro de uma mina na cidade de Capiapó, o grupo sobreviveu durante 17 dias sem ter contato algum com o exterior, dividindo uma caixa de comida pensada para satisfazer apenas 30 pessoas durante três dias. Como sabemos, todos saíram vivos de lá, o que é um feito simplesmente extraordinário. E quando se afirma que Os 33 não é necessariamente oportunista, isso é porque o filme dirigido por Patricia Riggen, mesmo com suas convencionalidades, não pesa a mão e muito menos parte para o implausível com a missão de tirar lágrimas do espectador. Neste sentido, o relato é respeitoso e entrega ao público menos exigente (ou em busca de um mero entretenimento baseado em fatos reais) a fórmula sempre certeira para fins comerciais que tanto caracteriza os novelões estadunidenses sobre superação do ser humano: o tradicional início, meio e fim, subtramas de descontração, redenções pessoais, reavaliações da vida e o final feliz inspirador.

Já para quem procura transgressão, Os 33 é bastante decepcionante. Ao contrário de Ensaio Sobre a Cegueira ou até mesmo do recente Expresso do Amanhã, o filme de Patricia Riggen não explora a construção de uma nova “sociedade” em um ambiente isolado e de condições impensáveis. Os 33 não é sobre o comportamento humano frente ao desespero – o que, diga-se de passagem, seria um caminho inteligentíssimo a ser seguido. Na realidade, o roteiro do trio Craig Borten, Michael Thomas e Mikko Alanne, que tem como base o livro “Deep Down Dark”, de Hector Tobar, é simplesmente sobre o racionamento de água e comida e a busca por possíveis saídas dentro da mina. Nada mais. Enquanto isso, do lado de fora, familiares reivindicam por mais buscas e as autoridades pouco a pouco começam a agir. É tudo muito inofensivo e linear, o que não dá à história a devida dimensão dramática que ela merecia, sem falar dos habituais cacoetes de filmes sobre tragédia, como o sujeito que, desde o início, avisa que a situação pode ser perigosa mas nunca é ouvido e o coadjuvante que entra na mina e, por alguma força desconhecida, já não se sente bem lá.

Nos tradicionais ingredientes do gênero que compõem a mistura de Os 33, coloque ainda alívios cômicos (muitos deles entregues a uma subaproveitada Adriana Barraza), soluções arquitetadas sem muita criatividade (óbvio que um importante passo para a solução do conflito principal surge de uma conversa motivacional e aparentemente passageira) e uma trilha sonora (a última do recém falecido James Horner!) que tenta reproduzir a latinidade ausente no restante da obra. Uma vez ou outra Patricia Riggen tenta dar o seu toque ao filme, como no momento em que encena um banquete entre os mineradores (não é a mais brilhante das ideias, mas pelo menos tira um pouco a história do didatismo), e consegue o mais difícil: não se perder nas dezenas de personagens que protagonizam o grande conflito da trama. Só que realmente não há como fazer diferente com um projeto que, na mais funda de suas raízes, já foi pensado como entretenimento para o cinemão dos Estados Unidos e não como uma verdadeira homenagem à brava história desses 33 homens chilenos.

Diário das minhas artes #2: sobre Schmidt e democracia cultural

artschmidtSempre digo que tenho dois filmes favoritos. O primeiro representa, digamos, a razão: As Horas, o trabalho mais coeso que já vi no cinema. O segundo fala pela emoção: As Confissões de Schmidt, que gosto de dizer que foi o filme que fez eu me apaixonar pela sétima arte. Ambas as produções são adaptações literárias e, por disponibilidade, li primeiro As Horas, de Michael Cunningham. Li o livro depois de ter visto o longa de Stephen Daldry, e só me apaixonei ainda mais pela versão cinematográfica, que é uma transposição perfeita e autoral de uma obra difícil e complexa. Não tenho dúvidas de que essa é a minha adaptação favorita de todos os tempos. Depois de muito procurar, sem sucesso, Sobre Schmidt, de Louis Begley, que inspirou As Confissões de Schmidt, o livro veio parar no meu colo por um feliz acaso do destino: um presente carinhoso e inesperado de aniversário. Confesso que, passado quatro meses, só agora o peguei para ler. A demora não foi só pela falta de tempo, mas também por receio, pois finalmente chegou a hora de eu conferir o material de origem do filme que injetou o cinema na minha veia.

Cinco páginas até agora e o susto já foi grande – a ponto de me fazer parar um pouco a leitura para organizar as ideias. Na versão de Begley, Warren Schmidt é advogado e não estatístico. Sua esposa, Mary, não morre em função de um derrame repentino, mas sim em pleno sofrimento enfrentando uma doença terminal. Já na primeira página o protagonista desata a chorar em frente à filha ao saber do casamento dela. No filme, as lágrimas de Schmidt chegam apenas ao final, em um momento emocionante justamente pela demonstração inesperada de uma humanidade escondida. É claro que sou irremediável defensor da ideia de que filmes e livros são independentes e que, mesmo que seja brilhante quando ambos são capazes de dialogar, não devem ser julgados um em função do outro. Só que dessa vez é mais delicado: não é fácil ver o meu filme favorito ser desconstruído dessa maneira. Na realidade, foi quase um desafio embarcar nestas cinco páginas e espero que, pelas próximas, consiga me desligar de comparações para poder aproveitar. Desejem-me forças.

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Saindo da temporada 2015 do espetáculo Ensina-me a Viver, já mergulhei profissionalmente em outro evento: a Oktoberfest de Igrejinha. Maior festa comunitária do Brasil (são cerca de 3 mil voluntários que fazem a função toda acontecer), a Oktoberfest transfere todo o lucro arrecadado para obras de melhorias na cidade. Uma iniciativa belíssima para uma comunidade apaixonada pelas raízes alemãs e por sua própria cidade. Neste terceiro ano fazendo a festa como parte da equipe de assessoria de imprensa, me peguei refletindo novamente sobre algo que todo ano me impressiona por lá: sempre existem culturas além dos nossos horizontes. Explico. No domingo da semana passada (18), o parque de eventos Almiro Grings, local onde acontece a Oktober, veio abaixo com o show da dupla sertaneja Marcos & Bellutti. Não os conhecia. Nem mesmo a tal Domingo de Manhã, que, descubro agora, foi a música mais tocada nas rádios brasileiras em 2014.

A moral da história é que, além de não conhecer a dupla, não curto sertanejo, mas faço justiça: nunca condeno ou julgo qualquer gosto de qualquer pessoa. Podemos criticar, desgostar ou odiar o que quisermos, mas nunca diminuir alguém por apreciar determinado artista ou obra. Afinal, o que significa a minha voz frente a outras 35 mil (o público esperado na Oktober naquele domingo) que grita, chora e canta junto a esta dupla? Para mim, ver Marcos & Belutti ao vivo pode ter sido uma experiência esquecível musicalmente, já que não me interesso pelo estilo musical deles. Já para boa parte dos igrejinhenses e dos moradores da região, é bem provável que tenha sido um dos shows de suas vidas. E que lindo testemunhar esse momento tão especial para eles. Com um choppe na mão, fiquei encantado pela plateia, e reconheci o apelo dos caras, que levaram o público ao delírio. Curti o momento porque, afinal, em algum outro recorte de tempo e espaço, eu sou eles assistindo com imensa comoção ao show do Keane em São Paulo ou do Philip Glass em Porto Alegre. E tenho certeza que nenhum deles julgaria as minhas lágrimas também. Vida eterna à democracia cultural!