Cinema e Argumento

Os indicados ao Globo de Ouro 2016

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Carol lidera a lista de indicados ao Globo de Ouro com menções em cinco categorias.

Ontem perguntamos se todos estavam preparados para uma temporada de premiações cheia de emoções. Repetimos hoje o questionamento. Apesar da lista do Globo de Ouro apontar alguns caminhos (SpotlightA Grande Aposta são os filmes com os grandes elencos, enquanto produções menores como CarolO Quarto de Jack devem realmente chegar com notável força), a seleção divulgada hoje embolou o meio de campo principalmente em questões polêmicas, como a de Alicia Vinkander (A Garota Dinarquesa) e Rooney Mara (Carol), ambas “vendidas” como coadjuvantes (dois novos casos clássicos de fraude de categoria, como muitos apontam) e aqui lembradas como protagonistas. Nunca esqueçam de Kate Winslet em O Leitor, que ganhou todos os prêmios como coadjuvante e no final das contas chegou ao Oscar como atriz principal. Ou seja, tudo pode acontecer.

Na lista do Globo de Ouro, nomes preteridos pelo Screen Actors Guild Awards fazem sua primeira aparição na temporada, como Sylvester Stallone (Creed: Nascido Para Lutar), Jane Fonda (Youth) e Jennifer Jason Leigh (Os 8 Odiados), todos com chances significativas de chegar ao Oscar. Joy Os 8 Odiados, totalmente ignorados pela lista do SAG divulgada ontem, seguem sem muita expressividade na competição (o primeiro só concorre a filme e atriz de comédia em função do ano fraquíssimo no segmento e o segundo emplacou algumas categorias pelo prestígio de Quentin Tarantino e, claro, do compositor Ennio Morricone), enquanto belas surpresas surgiram aqui, como Mad Max: Estrada da Fúria, uma das grandes experiências do ano, que concorre a melhor filme e direção. O Brasil infelizmente não chegou lá com o belo Que Horas Ela Volta?, mas temos o que comemorar: Wagner Moura concorre como melhor ator em drama por seu desempenho no seriado Narcos (ué, e o sotaque ruim dele?).

Sobre os indicados a TV, temos um capítulo à parte. Se incomoda o fato do SAG demorar a se atualizar nos seus favoritos em seriados, o Globo de Ouro peca pela superficialidade com que abraça novos programas. Vejam The Affair, por exemplo, que ano passado ganhou os troféus de melhor série e atriz em drama por sua primeira temporada e este ano sequer concorre nestas categorias! No entanto, os indicados realmente deram uma significativa mexida na situação: existe uma infinidade de novos programas indicados, o que obviamente reflete o plural momento que a TV e os serviços de streaming vivem atualmente. A questão é se essas lembranças são realmente pensadas pelos votantes ou se o Globo de Ouro aposta, como sempre, no calor do momento para depois não ter fidelidade alguma com suas escolhas, mesmo quando os programas dão continuidade à boa qualidade que alcançam nas suas temporadas de estreia.

Bom, preparem-se porque a jornada vai ser longa: somente se tratando de cinema, o Globo de Ouro separou nada menos que 39 filmes entre os seus indicados. Quando não existe um grande favorito na temporada e nenhum filme domina as categorias de atuação, acabamos assim, com uma lista infinita de coisas para ver. Cabe a você julgar se isso é bom. Confira abaixo a lista completa de indicados:

CINEMA

MELHOR FILME DRAMA
Carol
Mad Max: Estrada da Fúria
O Quarto de Jack
O Regresso
Spotlight – Segredos Revelados

MELHOR FILME COMÉDIA/MUSICAL
Descompensada
A Espiã Que Sabia de Menos
A Grande Aposta
Joy: O Nome do Sucesso
Perdido em Marte

MELHOR ATRIZ DRAMA
Alicia Vikander (A Garota Dinamarquesa)
Brie Larson (O Quarto de Jack)
Cate Blanchett (Carol)
Rooney Mara (Carol)
Saoirse Ronan (Brooklyn)

MELHOR ATOR DRAMA
Bryan Cranston (Trumbo)
Eddie Redmayne (A Garota Dinamarquesa)
Leonardo DiCaprio (O Regresso
Michael Fassbender (Steve Jobs)
Will Smith (Um Homem Entre Gigantes)

MELHOR ATRIZ COMÉDIA/MUSICAL
Jennifer Lawrence (Joy: O Nome do Sucesso
Amy Schumer (Descompensada)
Melissa McCarthy (A Espiã Que Sabia de Menos)
Maggie Smith (A Senhora da Van
Lily Tomlin (Grandma)

MELHOR ATOR COMÉDIA/MUSICAL
Al Pacino (Não Olhe Para Trás)
Christian Bale (A Grande Aposta)
Steve Carell (A Grande Aposta
Mark Ruffalo (Sentimentos Que Curam)
Matt Damon (Perdido em Marte)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Alicia Vikander (Ex-Machina: Instinto Artificial)
Helen Mirren (Trumbo)
Jane Fonda (Youth)
Jennifer Jason Leigh (Os 8 Odiados)
Kate Winslet (Steve Jobs)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Idris Elba (Beast of No Nation)
Mark Rylance (Ponte dos Espiões
Michael Shannon (99 Homes
Paul Dano (Love & Mercy
Sylvester Stallone (Creed: Nascido Para Lutar)

MELHOR DIREÇÃO
Alejandro González Iñárritu (O Regresso)
George Miller (Mad Max: Estrada da Fúria
Ridley Scott (Perdido em Marte)
Todd Haynes (Carol)
Tom McCarthy (Spotlight – Segredos Revelados)

MELHOR ROTEIRO
Os 8 Odiados
A Grande Aposta
O Quarto de Jack
Spotlight – Segredos Revelados
Steve Jobs

FILME ESTRANGEIRO
The Brand New Testament (Bélgica)
O Filho de Saul (Hungria)
Cinco Graças (França)
O Clube (Chile)
The Fencer (Finlândia)

MELHOR ANIMAÇÃO
Anomalisa
Divertida Mente
Shaun: O Carneiro
O Bom Dinossauro
Snoopy & Charlie Brown: Peanuts, o Filme

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“Love Me Like You Do” (Cinquenta Tons de Cinza)
“One Kind of Love” (Love & Mercy
“See You Again” (Fast and Furious 7
“Simple Sound #3” (Youth
“Writing’s on the Wall” (007 Contra Spectre)

MELHOR TRILHA SONORA
Os 8 Odiados
Carol
A Garota Dinamarquesa
O Regresso
Steve Jobs

TV

MELHOR SÉRIE DRAMA
Empire
Game of Thrones
Mr. Robot
Narcos
Outlander

MELHOR SÉRIE COMÉDIA
Casual
Mozart in the Jungle
Orange Is the New Black
Silicon Valley
Transparent
Veep

MELHOR MINISSÉRIE/TELEFILME
American Crime
American Horror Story: Hotel
Fargo
Flesh and Bone
Wolf Hall

MELHOR ATOR DRAMA
Bob Odenkirk (Better Call Saul)
Liev Schreiber (Ray Donovan)
Jon Hamm (Mad Men)
Rami Malek (Mr. Robot)
Wagner Moura (Narcos)

MELHOR ATRIZ COMÉDIA
Gina Rodriguez (Jane the Virgin

Jamie Lee Curtis (Scream Queens)
Julia Louis-Dreyfus (Veep)
Lily Tomlin (Grace and Frankie)
Rachel Bloom (Crazy Ex-Girlfriend)

MELHOR ATOR COMÉDIA
Aziz Ansari (Master of None)
Jeffrey Tambor (Transparent)
Patrick Stewart (Blunt Talk)
Rob Lowe (The Grinder)
Will Forte (Last Man on Earth)

MELHOR ATRIZ DRAMA
Caitriona Balfe (Outlander
Eva Green (Penny Dreadful)
Robin Wright (House of Cards)
Taraji P. Henson (Empire
Viola Davis (How to Get Away With Murder

MELHOR ATRIZ MINISSÉRIE/TELEFILME
Felicity Huffman (American Crime
Lady Gaga (American Horror Story: Hotel)
Kirsten Dunst (Fargo
Queen Latifah (Bessie)
Sarah Hay (Flesh & Bone

MELHOR ATOR MINISSÉRIE/TELEFILME
David Oyelowo (Nightingale)
Idris Elba (Luther)
Mark Rylance (Wolf Hall)
Oscar Isaac (Show Me a Hero)
Patrick Wilson (Fargo)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE SÉRIE/MINISSÉRIE/TELEFILME
Joanne Froggatt (Downton Abbey)
Judith Light (Transparent)
Maura Tierney (The Affair)
Regina King (American Crime)
Uzo Aduba (Orange is the New Black)

MELHOR ATOR COADJUVANTE SÉRIE/MINISSÉRIE/TELEFILME
Alan Cumming (The Good Wife
Ben Mendelsohn (Bloodline
Christian Slater (Mr. Robot)
Damian Lewis (Wolf Hall)
Tobias Menzies (Outlander)

Os indicados ao Screen Actors Guild Awards 2016

 

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A lista repleta de surpresas do Screen Actors Guild Awards é capitaneada por Trumbo, que, além da indicação a elenco, traz Bryan Cranston e Helen Mirren na disputa por seus desempenhos individuais.

Preparados para uma temporada de premiações cheia de emoções? Julgando pelos indicados ao Screen Actors Guild Awards, é exatamente isso que podemos esperar. Provavelmente Joy: O Nome do SucessoOs 8 Odiados não foram exibidos em tempo para os votantes (o que não faz muita diferença: Christoph Waltz ganhou Oscar por Django Livre sem sequer ser indicado ao SAG exatamente por essa razão), mas é sempre bom para a carreira nos prêmios estar na mira das principais listas, não é mesmo? Ambos os filmes, em especial o de Tarantino (que, haja paciência, tem mais de três horas de duração!) vão precisar cruzar os dedos daqui para frente. À parte os dois casos, a lista divulgada hoje foi a mais surpreendente em muitos anos – e o melhor: a mais inesperada envolvendo qualquer premiação de cinema. (atualizando: Joy e Os 8 Odiados foram sim exibidos para os votantes do Screen Actors Guild Awards, o que só piora a situação de ambos…)

Com Joy Os 8 Odiados de fora, os votantes preferiram indicar Beasts of No Nation (mais uma vitoriosa produção do Netflix) e Straight Outta Compton a melhor elenco. Além disso, a lembrança de Trumbo nesta categoria, além de indicações individuais para Bryan Cranston em melhor ator e Helen Mirren em atriz coadjuvante, pode ser um forte indicador de que, ao contrário do que se esperava, o filme tem sim fôlego na temporada. Mirren, por sinal, confirmou o amor que desperta nos votantes com uma inesperada indicação a melhor atriz por A Dama Dourada, embolando de vez a disputa das protagonistas, cuja lista também não teve Charlotte Rampling indicada por 45 Anos nem Alicia Vikander ou Rooney Mara saindo das coadjuvantes para serem lembradas aqui, por exemplo. Quem se beneficiou com uma surpreendente inclusão foi Sarah Silverman, que concorre por I Smile Back.

Entre os atores coadjuvantes, a lista também foi quase inteiramente desmontada: o aparente favorito ao Oscar Michael Keaton não foi lembrado (e, sim, eles viram Spotlight – Segredos Revelados, que está, inclusive, indicado a elenco) e outros nomes bastante cotados como Tom Hardy (O Regresso) também ficaram de fora. Room ganhou força extra com a inclusão do jovem Jacob Tremblay aqui, e outros nomes entraram de vez na jogada: Christian Bale por A Grande Aposta, Idris Elba por Beasts of No Nation e Michael Shannon por 99 Homes.

Quando o assunto é TV, o SAG parece não se renovar: no elenco dos dramas, todas são veteranas, e nas indicações individuais apenas Bob Odenkirk (Better Call Saul) e Romi Malek (Mr. Robot) estão debutando. Surpreende no segmento a total ausência de Empire, um dos grandes hits de audiência do ano, que não conseguiu indicação nem para a ótima Taraji P. Henson (e é uma tremenda injustiça vê-la escanteada quando Julianna Margulies é indicada pela fase mais inexpressiva de The Good Wife). Quanto às comédias, fizeram justiça a Transparent, e a indicação para Ellie Kemper por Unbreakable Kimmy Schmidt é um frescor para uma lista que parece mostrar que os votantes não costumam mergulhar tão fácil em novos programas.

Confira abaixo a lista completa de indicados: 

CINEMA

MELHOR ELENCO
Beasts of No Nation
A Grande Aposta
Spotlight – Segredos Revelados
Straight Outta Compton
Trumbo

MELHOR ATRIZ
Brie Larson (O Quarto de Jack)
Cate Blanchett (Carol)
Helen Mirren (A Dama Dourada)

Saoirse Ronan (Brooklyn)
Sarah Silverman (I Smile Back)

MELHOR ATOR
Bryan Cranston (Trumbo)
Eddie Redmayne (A Garota Dinamarquesa)
Johnny Depp (Aliança do Crime)

Leonardo DiCaprio (O Regresso)
Michael Fassbender (Steve Jobs)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Alicia Vikander (A Garota Dinamarquesa)
Helen Mirren (Trumbo)
Kate Winslet (Steve Jobs)
Rachel McAdams (Spotlight – Segredos Revelados)

Rooney Mara (Carol)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Christian Bale (A Grande Aposta)
Idris Elba (Beasts of No Nation)
Jacob Tremblay (O Quarto de Jack)
Mark Rylance (Ponte dos Espiões)
Michael Shannon (99 Homes)

TV

MELHOR ELENCO DRAMA
Downton Abbey
Game of Thrones
Homeland
House of Cards

Mad Men

MELHOR ELENCO COMÉDIA
The Big Bang Theory
Key and Peele
Modern Family
Orange is the New Black
Transparent
Veep

MELHOR ATRIZ DRAMA
Claire Danes (Homeland)
Julianna Margulies (The Good Wife)

Maggie Smith (Downton Abbey)
Robin Wright (House of Cards)
Viola Davis (How to Get Away With Murder)

MELHOR ATRIZ COMÉDIA
Amy Poehler (Parks and Recreation)
Edie Falco (Nurse Jackie)

Ellie Kemper (Unbreakable Kimmy Schmidt)
Julia Louis-Dreyfus (Veep)
Uzo Aduba (Orange is the New Black)

MELHOR ATOR DRAMA
Bob Odenkirk (Better Call Saul)
Jon Hamm (Mad Men)
Kevin Spacey (House of Cards)
Peter Dinklage (Game of Thrones)
Romi Malek (Mr. Robot)

MELHOR ATOR COMÉDIA
Jeffrey Tambor (Transparent)
Jim Parsons (The Big Bang Theory)
Louis C.K. (Louie)
Ty Burell (Modern Family)
William H. Macy (Shameless)

MELHOR ATRIZ MINISSÉRIE/TELEFILME
Nicole Kidman (Grace of Monaco)
Queen Latifah (Bessie)
Christina Ricci (The Lizzie Borden Chronicles)
Susan Sarandon (The Secret Life of Marilyn Monroe)
Kristen Wiig (The Spoils Before Dying)

MELHOR ATOR MINISSÉRIE/TELEFILME
Idris Elba (Luther)
Ben Kingsley (Tut)
Ray Liotta (Texas Rising)
Bill Murray (A Very Murray Christmas)
Mark Rylance (Wolf Hall)

Chatô – O Rei do Brasil

Nós vamos entupir o rabo do Brasil de notícias!

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Direção: Guilherme Fontes

Roteiro: Guilherme Fontes, João Emanuel Carneiro e Matthew Robbins, baseado no livro homônimo de Fernando Morais

Elenco: Marco Ricca, Andréa Beltrão, Paulo Betti, Leandra Leal, Eliane Giardini, Gabriel Braga Nunes, Letícia Sabatella, Zezé Polessa, Walmor Chagas, José Lewgoy

Brasil, 2015, Comédia, 102 minutos

Sinopse: O magnata das comunicações Assis Chateaubriand (Marco Ricca) é a estrela principal de um programa de TV chamado “O Julgamento do Século”, realizado bem no dia de sua morte. É nele que Chatô relembra fatos marcantes de sua vida, como os casamentos com Maria Eudóxia (Letícia Sabatella) e Lola (Leandra Leal), a paixão não-correspondida por Vivi Sampaio (Andréa Beltrão), como manipulava as notícias nos veículos de comunicação que comandava e a estreita e conturbada ligação com Getúlio Vargas (Paulo Betti), que teve início ainda antes dele se tornar presidente. (Adoro Cinema)

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A novela dos bastidores todo mundo já conhece (caso não, eis aqui um resumo dela), mas o que ninguém esperava era que Chatô – O Rei do Brasil vencesse polêmicas e se revelasse uma obra surpreendente. O tempo não fez mal ao filme de Guilherme Fontes, cujo atraso no lançamento não empoeirou nem mesmo os rostos dos atores de 15 anos atrás. Aliás, é uma vitória ainda maior Chatô se mostrar inventivo até hoje, o que só comprova que, caso tivesse sido exibido na cronologia certa, essa produção teria sido um verdadeiro marco em termos criativos do nosso cinema. O cineasta Cacá Diegues já chegou a dizer que Fontes realizou o último filme tropicalista do Brasil, enquanto o crítico Luiz Carlos Merten definiu a experiência como Orson Welles sendo devorado por Macunaíma. Todas são comparações super coerentes e dizem muito sobre este filme que não merecia ter passado tanto tempo na geladeira – ou, nas palavras do próprio Fontes nos créditos finais, sendo censurado.

Ainda hoje faltam, no nosso cinema, filmes como Chatô. Ou seja, obras com sátiras afiadas, carnavalização certeira de situações e misturas transgressoras de comédia com cenários políticos e sociais. A produção cinematográfica brasileira se tornou praticamente estanque em termos de ousadia, além de acuada com a ideia de brincar com sistemas e figuras poderosas. Perceba: é bem provável que você sequer, por exemplo, consiga elencar em uma mão filmes sobre a política brasileira. A situação é pior ainda quando se trata de comédias, e Chatô vem com esse bem-vindo serviço de cutucar a caretice do cinema brasileiro ao transitar por política e jornalismo com uma fluidez invejável. Ajudam a dar o tom: a montagem propositalmente afetada, o histrionismo cômico e o elenco de braços abertos aos seus personagens (e ninguém teria se beneficiado mais com o lançamento de Chatô 15 anos atrás do que Marco Ricca, que está em um dos grandes momentos de sua carreira).

Guilherme Fontes surpreende como diretor ao fazer as parcerias certas para reconstituir época e fazer valer o investimento que cercou Chatô. Além disso, ele mostra bom tino para criação ao posicionar câmeras em lugares inusitados (e não de forma gratuita), encenando devaneios com destreza no humor e segurança na condução dos atores. É um grande feito conseguir com as hipérboles em direção e atuação não prejudiquem o filme, que conquista justamente por suas alegorias. O registro histórico, social e jornalístico do Brasil a partir das megalomanias de Assis Chateaubriand vem regado a várias críticas através do humor, o que, por outro lado, torna grande a decepção com o fato de Chatô não ser uma obra consistente em termos de conteúdo. O filme peca ao fazer com que o espectador leigo saia da sala de cinema sabendo pouco sobre seu protagonista e principalmente sobre quais foram as grandes manobras feitas por ele para se tornar uma poderosa figura do jornalismo.

A sensação de vazio proporcionada por Chatô ao nunca humanizar seu personagem é grande. Não que ele precisasse falar sobre passados traumáticos ou chorar copiosamente nos momentos derradeiros, mas o roteiro escrito por Fontes, João Emanuel Carneiro e Matthew Robbins o retrata como um homem asqueroso e descontrolado que administrava a vida pessoal e profissional de acordo com suas vontades sem considerar o próximo. Afinal, como alguém tão arrogante assim prosperaria justamente no universo da comunicação, que exige tanto bons relacionamentos e conexões? Não temos o outro lado da moeda Assis Chateaubriand, e isso prejudica Chatô na consistência de sua história. É um pecado que, caso a produção não tivesse tanta pegada, poderia destruir destruir a experiência, que já é um tanto atribulada por contemplar tantas tramas em uma curta duração. De qualquer forma, Marco Ricca diz que esta não é uma cinebiografia (isso eximiria Chatô de ter compromissos com o plausível?) – e, de certa forma, ele não deixa de ter razão porque, na realidade, Chatô não é um filme para se encaixar em definições fáceis, o que é um baita elogio!

Marília, o mundo não esqueceu você

43º Festival de Cinema de Gramado – Marília Pêra recebe o troféu Oscarito dos filhos: Ricardo Graça Mello, Esperança Motta, Nina Morena. Foto:Edison Vara/Agência Pressphoto – www.edisonvara.com.br

Em agosto deste ano, Marília Pêra recebeu dos três filhos o troféu Oscarito em homenagem a sua carreira no Festival de Cinema de Gramado. Foto: Edison Vara/Pressphoto

Não costumo ser um jornalista que se estremece ao entrevistar. Com Marília Pêra foi diferente. Lembro de estar com as mãos frias antes de conversar com ela para produzir seu perfil oficial como homenageada do Festival de Cinema de Gramado este ano. E a delícia desse nervosismo era das melhores: como conversar com uma atriz tão emblemática, uma profissional tão completa e uma dama tão digna quanto as reconhecidas veteranas britânicas? Muito se dizia sobre seu gênio complicado ou sobre como ela era uma pessoa de difícil acesso, mas o que me intimidava mesmo era a missão de falar sobre sua vida profissional, que lhe permitiu ir de Carmem Miranda à Coco Chanel no cinema e nos palcos. Elegante, respondeu tudo com a maior calma possível. Emocionada, não escondia a felicidade de ser homenageada pelo evento. Chegou até a revelar que este sempre foi um sonho dela, que todo ano aguardava ansiosamente a ligação que enfim lhe convidaria para a honraria. Falou com carinho dos amigos, agradecendo aos que ainda estão aqui e mandando energias positivas para os que já se foram. Foi realmente uma dama, fazendo com que meu nervosismo simplesmente desaparecesse ao longo da conversa.

Depois veio Gramado, onde os colegas jornalistas com longa trajetória no evento disseram que talvez nunca se tenha visto uma homenagem tão marcante no evento quanto a dela. Na roupa, no caminhar e na pose para as fotos, fez jus ao seu título de diva. Desfilou pelo tapete como se soubesse, sem arrogância alguma, que de certa forma aquilo lhe era muito merecido. No palco, foi surpreendida pela chegada de seus três filhos, que estavam na cidade para sua homenagem sem que ela soubesse. Entrevistei Ricardo, o garoto do trio, que dizia que “quem entende do balacobaco sabe que ela é demais” e que talvez não existisse atriz no mundo como sua mãe. São poucos os que conseguem realmente fazer o outro sentir o amor cultivado por alguém, escapando de discursos prontos ou frases fáceis. Hoje, quando acordei com a notícia da morte precoce de Marília Pêra (sim, aos 72 ainda há muito o que se fazer na vida), relembrei todos esses dias que fiquei de alguma forma submerso em sua vida. Afinal, ser jornalista tem disso: por um determinado espaço de tempo, nos intrometemos e mergulhamos no universo de nossos entrevistados. Por isso, pensei muito nos filhos de Marília e no seu legado indiscutível. Como é de triste praxe no Brasil, ela só trabalhava mesmo porque tinha em Miguel Falabella um fiel escudeiro. O tempo não é justo com os atores, independente de suas grandezas. A eternidade, pelo menos, consegue lhes dar o devido valor. E Marília ainda vai ficar conosco por muito tempo.

Deixo abaixo essa emocionante interpretação dela de um clássico de Roberto Carlos. A cena emociona porque mostra o quão completa e sensível Marília era como profissional. E, de repente, com sua despedida, a letra da música ganha contornos diferentes, mas com um adendo: não, Marília, o mundo não esqueceu nem nunca esquecerá você!

No Coração do Mar

Say it! Say it! Say you’re scared!

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Direção: Ron Howard

Roteiro: Charles Leavitt, baseado em história de Amanda Silver, Charles Leavitt e Rick Jaffa, e no livro “In the Heart of the Sea: The Tragedy of the Whaleship Essex”, de Nathaniel Philbrick

Elenco: Chris Hemsworth, Ben Whishaw, Cillian Murphy, Tom Holland, Brendan Gleeson, Charlotte Riley, Frank Dillane, Paul Anderson, Benjamin Walker, Michelle Fairley, Joseph Mawle, Jordi Mollà

In the Heart of the Sea, EUA, 2015, Aventura/Drama, 121 minutos

Sinopse: Inverno de 1820. O navio baleeiro Essex é atacado por uma baleia gigante e feroz, deixando toda a tripulação desesperada para encontrar uma forma de escapar da morte. (Adoro Cinema)

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Ron Howard nunca foi um diretor particularmente criativo. Inclusive, a maior consagração de sua carreira (Oscar de melhor filme e direção por Uma Mente Brilhante) veio por um filme que, por melhor que seja, segue um estilo para lá de tradicional. Entretanto, considerando os filmes mais recentes de sua carreira que seguem essa linha (e temos exemplares realmente excelentes como Frost/NixonRush – No Limite da Emoção), é difícil encontrar algum que seja executado de maneira tão clássica quanto No Coração do Mar, um longa guardado a sete chaves: além de ter sua estreia adiada de março deste ano para dezembro (com o objetivo de preservá-lo para a temporada de premiações), o filme ainda foi exibido em sessões para a imprensa com embargos, o que significa que jornalistas não poderiam publicar qualquer comentário até uma data estipulada (no caso, hoje, 2 de dezembro, um dia antes da estreia mundial). Passado o suspense, o que se constata é que No Coração do Mar é um dos filmes mais ambiciosos do ponto de vista técnico da carreira de Ron Howard, mas o que conta mesmo na avaliação é decidir até que ponto a narrativa assumidamente tradicional pesa como um ponto a favor ou contra o resultado. 

Marcando a segunda parceria entre Ron Howard e o galã Chris Hemsworth (o primeiro encontro da dupla foi em Rush), No Coração do Mar narra a história que inspirou o clássico da literatura Moby Dick usando as ferramentas mais simples possíveis, como o fato da trama ser contada sob o ponto de vista do novato da tripulação e da narração ficar a cargo justamente desse mesmo personagem agora envelhecido e ainda atormentado pelo passado. A condução da personalidade dos personagens também segue criações já conhecidas, onde o protagonista íntegro é colocado de escanteio por suas origens humildes, enquanto o antagonista rico, esnobe e de bom sobrenome rouba o cargo tão sonhado e, que por méritos, deveria ser de nosso herói. É tarefa das mais fáceis deduzir como se dará essa relação entre os dois e, principalmente, as consequências que ela trará para toda a equipe de tripulantes. Para colocar um pouco mais de drama na mistura, a história também coloca em cena a esposa grávida que espera pelo marido ao mesmo tempo em que reivindica o fato de ele ter um emprego perigoso que lhe deixa tão longe da família. Dessa forma, em termos narrativos, faltam novidades em No Coração do Mar, que, por outro lado, deve justamente acertar em cheio quem busca aventuras clássicas como essa – e conduzidas como tal.

Falar sobre a qualidade de efeitos visuais de um longa como No Coração do Mar já é repetição nos dias de hoje, o que significa que o filme de Ron Howard não desaponta nas cenas em alto-mar. A tecnologia joga a favor do filme, que tem seus melhores momentos quando a tripulação precisa enfrentar a lendária e imbatível baleia que aterroriza os mares. A aparição do animal é o que existe de melhor na trama em termos técnicos e também como exercício de tensão, já que o diretor consegue colocar o espectador dentro daquele barco como se também temêssemos a gigantesca baleia (e o sentimento pode ser pior ainda se você, assim como eu, tiver fobia de barcos em situações de risco como a vivida pelos personagens). A estruturação desses momentos compensa o problema de No Coração do Mar não saber lidar muito bem com seus personagens. Excetuando o Owen Chase de Hemsworth, o Thomas Nickerson do jovem Tom Holland e o capitão George Pollard de Benjamin Walker, é difícil memorizar, por nome, personalidade ou atributos do roteiro, qualquer outro dos tripulantes da jornada.

A situação do jeito clássico de No Coração do Mar incomodar mais do que ajudar se torna um tanto mais complicada quando o filme chega à metade e se torna um mero relato de sobrevivência em alto-mar. Não sei se é porque ainda não me recuperei do tédio causado por Angelina Jolie recentemente em Invencível, mas realmente faltou emoção na dura missão dos personagens tentando sobreviver a todos os tipos de adversidades em uma viagem de longos meses. Racionamento de água e comida e sofrimentos físicos já vimos aos montes, e o roteiro de Charles Leavitt (que tem como seu trabalho mais expressivo o bom Diamante de Sangue) segue toda cartilha envolvendo situações como essa vividas no limite. Novamente, vale ressaltar que é mesmo uma questão de gosto se entusiasmar ou não com No Coração do Mar, um longa que ao menos tem a dignidade de assumir que, sim, seu formato tradicional de aventura sempre foi a primeira escolha. O resultado dessa aposta certamente será refletido com altas cifras nas bilheterias – e, para um projeto que, independente de nosso julgamento, oficializa sua personalidade sem medo, essa é uma conquista das mais merecidas.