Cinema e Argumento

Rapidamente: “Mommy”, “Tirando o Atraso” e “Wood & Stock”

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Anne Dorval brilha como a protagonista de Mommy, um dos filmes mais expressivos da carreira do canadense Xavier Dolan

MOMMY (idem, 2014, de Xavier Dolan): Tive um longo hiato com o cinema de Xavier Dolan até chegar a esse Mommy, drama de 2014 estrelado por uma magnífica Anne Dorval. O distanciamento foi proposital porque considero Eu Matei Minha Mãe, de 2009, um filme superestimadíssimo e frequentemente afetado, o que me levou a fugir da superexposição alcançada pelo cineasta posteriormente com obras com Laurence Anyways e Amores Imaginários. Não sei se o tempo fez realmente bem ao jovem canadense, mas Mommy é mesmo um filme mais comedido e regulado em seus exageros de tom e narrativa. É importante Dolan ter deixado o narcisismo de lado ao eventualmente abrir mão de protagonizar os próprios filmes porque, com isso, ele dá espaço para pensar mais como diretor e menos como um ator imaturo (e nada extraordinário) que procura apenas se fetichizar frente às câmeras como um símbolo jovem e gay do cinema “alternativo” falado em francês. Ao evoluir nesse sentido, ele dá chances para Anne Dorval, por exemplo, criar uma figura completa: envolvente como uma mãe linda, jovem e desbocada que nunca cai na caricatura, ela também de certa forma nos testa com suas irresponsabilidades maternas e sua negação frente aos problemas do filho. O elenco todo é muito bom (a vizinha vivida por Suzanne Clément é digna de nota), a trilha sonora se revela esperta e agridoce (o encerramento com Born to Die, da Lana Del Rey, é bastante simbólico) e o filme nunca chega a ser frágil ou superficial em suas análises dramáticas. Dolan ainda precisa regular o excesso de gritaria em discussões e outros maneirismos quando coloca seus personagens em colisão (algo que acontece com bastante frequência), mas, se continuar no ritmo de Mommy, talvez eu venha mesmo a fazer as pazes com ele.

TIRANDO O ATRASO (Dirty Grandpa, 2016, de Dan Mazer): Humor é algo sempre muito particular, e por isso é tão difícil fazer comédias, mas há um limite para tudo, como esse Tirando o Atraso, que chega a encenar uma piada sobre pedofilia ao sugerir que um Zac Efron praticamente nu estaria forçando uma criança a lhe fazer sexo oral no meio de uma praia. É realmente de um mau gosto tremendo e um caso específico de fundo do poço para seus dois protagonistas. Primeiro para Efron, que já chegou a ter desenvoltura e aptidão em comédias e musicais como 17 Outra Vez e Hairspray – Em Busca da Fama, além de chances importantes como trabalhar com Richard Linklater (Eu e Orson Welles) e ter até filme exibido na competição de Cannes (o desfocado Obsessão, de Lee Daniels). Só que a sede por holofotes falou mais alto do que a ambição cinematográfica, e hoje Efron só parece preocupado em tirar a camisa em filmes desastrosos como esse Tirando o Atraso. Segundo para Robert De Niro, um grande ator que tem se submetido a situações constrangedoras para… pagar as contas? Não se engane: ao passo que nem a nudez constante de Efron surge verdadeira (basta navegar um pouco no Google para descobrir que ele usou dublês e CGI ao supostamente tirar a roupa), a experiência de De Niro como ator parece inexistente aqui, já que ele repete, cena após cena, as suas caretas tão imitadas por humoristas. Às vezes, a história de Tirando o Atraso até tem certo fôlego ao discutir de forma civilizada as incoerências de um jovem que já parece ter encerrado seus sonhos em comparação a um senhor cheio de vontade de fazer as loucuras que bem entende por aí, mas é questão de tempo até o roteiro desgraçar tudo ao lançar mais uma piada física repleta de vômito, nudez, drogas, sexo ou palavrões no pior estilo imaginável.

WOOD & STOCK: SEXO, ORÉGANO E ROCK’N’ROLL (idem, 2006, de Otto Guerra): O gaúcho Otto Guerra desfrutava um dos grandes momentos de sua carreira quando colocou Wood & Stock: Sexo, Orégano e Rock’n’Roll nas telas do cinema em 2006. Recém vindo de um grande sucesso na TV com a campanha O Amor é a Melhor Herança, para a RBS TV, ele adaptou a ácida obra do chargista paulista Angeli para esse longa que chegou a contar com a dublagem de ninguém menos do que a cantora Rita Lee. Por costurar charges isoladas, obviamente ficam lacunas de ritmo e interesse na história, que, apesar de condensada em apenas 81 minutos, chega a se desgastar um pouco em sua reta final. Porém, Otto Guerra tem um olho muito clínico para a escolha de tramas e personagens diferenciados. Foi assim no universo particular de Até Que a Sbórnia nos Separe, seu longa posterior baseado no universo do espetáculo gaúcho Tangos e Tragédias, e também com o próprio Wood & Stock, que encontra, no carisma de seus protagonistas, uma simetria que talvez falte ao filme em si em termos de narrativa. Todos curiosos e divertidos em seus extremos, os personagens carregam críticas bastante atuais, como as de Rê Bordosa, que, recém saída de uma clínica de reabilitação, frequentemente questiona o que é esperado de uma mulher na sociedade. Pode até ser que Wood & Stock não seja uma grande animação, mas personalidade ela tem de sobra, o que já deve ser mais do que recompensador para um formato pouco explorado pelos brasileiros.

Jogo do Dinheiro

Without risk, there is no reward.

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Direção: Jodie Foster

Roteiro: Alan DiFiore, Jamie Linden e Jim Kouf, baseado em história de Alan DiFiore e Jim Kouf

Elenco: George Clooney, Julia Roberts, Jack O’Connell,  Dominic West, Giancarlo Esposito, Caitriona Balfe,  Christopher Denham, Lenny Venito, Chris Bauer, Condola Rashad, Aaron Yoo

Money Monster, EUA, 2016, Drama/Suspense, 98 minutos

Sinopse: Lee Gates (George Clooney) é o apresentador do programa de TV “Money Monster”, onde dá dicas sobre o mercado financeiro mesclando com performances típicas de um popstar. Um dia, um desconhecido (Jack O’Connell) invade o programa exatamente quando ele está sendo gravado e, com um revólver, obriga Lee a vestir um colete repleto de explosivos. Patty Fenn (Julia Roberts), a produtora do programa, imediatamente ordena que o mesmo saia do ar, mas o invasor exige que ele permaneça ao vivo, caso contrário matará Lee. Assim acontece e, a partir de então, tem início uma investigação incessante para descobrir quem é o sequestrador e algum meio de salvar todos os que permanecem no estúdio. Paralelamente, a audiência do programa sobe sem parar e todos passam a acompanhar o que acontecerá com o apresentador. (Adoro Cinema)

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Ao receber, em 2013, o troféu Cecil B. DeMille, a grande homenagem do Globo de Ouro para a contribuição de um artista ao cinema, Jodie Foster entregou o melhor discurso visto em anos durante qualquer cerimônia de premiação. O pronunciamento da atriz, entre outros tópicos, apontava discretamente para uma mudança em sua carreira: para bom entendedor, foi fácil perceber que Jodie, vencedora de dois Oscars, já estava desacelerando sua carreira de atriz nos últimos tempos e que, a partir dali, abandonaria maiores holofotes para se dedicar a outros projetos, muito possivelmente atrás das câmeras. Nosso instinto estava certo, pois desde Elysium, sua última investida como intérprete, ela procurou se esmerar como diretora ao comandar episódios de séries como Orange is the New Black e House of Cards. No cinema, àquela altura, já eram três os títulos que levavam sua assinatura, e o quarto chega agora com Jogo do Dinheiro, reforçando o desejo de Jodie Foster de agora ser exclusivamente uma contadora de histórias.

Levando em consideração mais o seu novo trabalho do que o anterior (o curioso Um Novo Despertar, protagonizado por Mel Gibson em 2011), não é muito difícil chegar a conclusão de que, caso Jodie Foster queira mesmo se tornar persona mais marcante no cinema como diretora do que atriz, precisa encontrar roteiros melhor lapidados daqui para frente. A experiência adquirida ao atuar em filmes cercados de tensão, sejam elas dramáticas ou policialescas, como Acusados e O Plano Perfeito, tem claro reflexo no que ela entrega aqui. Com bom domínio do ritmo de seu filme e especialmente do tom de suspense e até mesmo de bom humor que atribui a ele, a atriz-agora-diretora se mostra segura atrás das câmeras, o que faz um notável contraponto ao frágil roteiro escrito pelo trio Alan DiFiore, Jamie Linden e Jim Kouf. Se Foster consegue criar a tensão arquitetada em basicamente dois ambientes, o texto falha ao trazer abordagens mais consistentes ao cenário como um todo. Além das revelações dramáticas do sequestrador apenas seguirem a cartilha básica de humanização de personagens do tipo, decepciona como Jogo do Dinheiro prefere canalizar todas as suas críticas e resoluções a um personagem unidimensional que só aparece de fato no terço final da obra.

Contrabalançando a falta de discussões mais aprofundadas acerca do circo midiático e popular que se forma a partir de um programa que transmite um sequestro em tempo real, a reunião de dois atros do calibre de George Clooney e Julia Roberts reforça o prestígio de Jodie Foster como diretora e consequentemente do próprio filme. São os dois atores, em especial Clooney, que também conferem ao filme boa parte de seu envolvimento. Ele, por sinal, está impagável e dramático na medida certa como um apresentador que, ao se ver em uma situação complicadíssima de sequestro em rede nacional, acerta ao enrolar o sequestrador com todo o carisma que lhe tornou uma estrela e, em contramão, comete erros ao deixar visíveis as suas falhas como um sujeito rico, soberbo e excessivamente consciente do seu estrelato.

Clooney comanda o show porque, óbvio, está ótimo, mas porque Roberts fica apenas sentada atrás das câmeras tentando salvá-lo (e dizem as fofocas de bastidores que ela teria atuado boa parte do filme sem estar de fato no mesmo estúdio do ator em função de sua agenda complicadíssima) e porque Jack O’Connell (aquele ator que sofreu horrores no aborrecido Invencível), mesmo se esforçando, não tem, por natureza, uma presença intensa ou marcante. No balaio, coloque ainda um Dominic West que apenas repete – culpa do roteiro novamente! – o tipo difícil e cafajeste que vem desenvolvendo com grande competência no seriado The Affair. Ademais, bastante nervoso e divertido para os padrões de filmes dessa esfera sem maiores genialidades, Jogo do Dinheiro funciona, mas talvez marque mais caso seja encarado como uma breve diversão para um longo domingo chuvoso. 

Na TV… passando “American Crime” a limpo

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Felicity Huffman é a diretora que se vê diante de uma crise iminente: ela, como grande atriz que é,  mais uma vez se sai muito bem ao lidar com um dos papeis mais difíceis de American Crime.

John Ridley já tinha uma vasta mas despercebida carreira como roteirista quando ganhou o Oscar por sua adaptação de 12 Anos de Escravidão em 2014. Engana-se, no entanto, quem pensa que esse profissional nascido em Milwaukee, nos Estados Unidos, e afeito à literatura (até agora, já são sete romances publicados), sumiu do mapa e, principalmente, deixou de se dedicar às causas do racismo e do preconceito. Afinal, basta sair um pouco da cerca criada pelo Netflix ou do universo badalado de megaproduções como Game of Thrones para encontrar American Crime, programa criado e eventualmente roteirizado e dirigido por ele que tem a proposta de discutir tais questões a partir de crimes muito recorrentes não apenas no cotidiano norte-americano, mas também, por que não, em qualquer lugar do mundo. Para desenhar esse mapa de violência e preconceitos, Ridley optou pelo formato que Ryan Murphy popularizou recentemente com American Horror Story: a cada temporada, uma nova história protagonizada pelo mesmo elenco. 

A ABC tem levado muito a sério a inclusão em toda a sua programação, e American Crime vem reforçar esse conceito cada vez mais enraizado na emissora. É importante a lembrança porque estamos falando de um canal aberto que vem fazendo história com seriados populares como Scandal e How to Get Away With Murder, que desconstroem a ideia do que está reservado para atrizes negras na TV, por exemplo. Já com American Crime, a emissora escancarou de vez as discussões. Prefiro, no entanto, não me ater ao primeiro ano da série, que era óbvio em sua totalidade e não passava de um caldeirão temático frágil, desfocado e quase panfletário, mas sim me concentrar na segunda temporada, excepcional ao reunir sua equipe para repensar escolhas, descartar o que deu errado, maximizar potenciais e apostar em discussões mais delicadas e refinadas. American Crime foi passada a limpo – e as correções foram nada menos do que perfeitas. 

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Lili Taylor tem o desempenho de sua carreira como a problemática mãe que entra em uma jornada para defender o filho violentado.

É em uma escola de ensino médio que American Crime encena a violência de sua segunda temporada. No caso, na nebulosa noite em que Taylor Blaine (Connor Jessup, ótimo) participa de uma festa do time de basquete, bebe demais e acaba sendo fotografado em estado deplorável após o grande porre. Só que as imagens acabam vazando na internet e, conservadora por ser frequentada por jovens de classe alta, a escola acaba suspendendo Blaine. Anne, a mãe do garoto que tanto trabalha para lhe garantir um bom ensino, não se conforma e, após pressionar o filho sobre o que de fato aconteceu na fatídica noite, ouve algo mais perturbador: ele, entre as amnésias causadas pela bebida, acredita ter sido estuprado por um de seus colegas. Procurando imediatamente a escola, Anne não encontra apoio, uma vez que a diretora Leslie (Felicity Huffman) acredita que estupros só acontecem com meninas. Na realidade, Leslie só quer conter a crise para que ela não chegue aos ouvidos de uma comunidade rica e, como descobrimos posteriormente, repleta de preconceitos.

Propositalmente ou não, John Ridley parece ter se inspirado em exemplos muito dignos do cinema para construir a nova história de American Crime. É facilmente perceptível e bem-vinda a pegada dramática de Dúvida, filme estrelado por Meryl Streep e Philip Seymour Hoffman: assim como no longa de 2008, a temporada nunca encena o crime em questão e, a partir dos confrontos das relações de poder, deixa o espectador à deriva apenas com a palavra de cada um dos personagens. Ou seja, cabe a você escolher em quem acreditar. E se o programa é corajoso ao trazer uma importante ruptura em sua narrativa já revelando no quarto episódio o que de fato aconteceu, logo o segundo ano de American Crime pega o melhor de Gus Van Sant no controverso Elefante para falar sobre bullying no ambiente escolar e levar o cotidiano na Leyland Knights High School para caminhos cada vez mais tortuosos. Tudo sem parecer cópia, com personalidade própria e devidas doses de sutileza e intensidade.

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“Deus odeia bichas”. O preconceito, em maior ou menor grau, está literalmente estampado em todos os núcleos de American Crime.

O amadurecimento de Ridley ao pensar a série é notável aqui porque suas criações para discutir preconceitos são muito mais sofisticadas. Enquanto no primeiro ano tudo era muito óbvio (famílias ricas e brancas com filhos supostamente violentados por suspeitos latinos ou negros desprovidos de dinheiro), aqui o criador prefere inteligentemente inverter todos os clichês possíveis: o menino negro envolvido nas suspeitas, além de eventualmente preconceituoso, é criado por pais de boa posição financeira; o capitão do time que também levanta questionamentos da polícia não é o tradicional gostosão bem de vida que arranca suspiros das meninas; a escola é comandada por uma mulher, o que faz com que suas decisões mais firmes a coloquem como vilã diante de vários colegas; e o próprio menino supostamente violentado esconde outras questões íntimas que o tiram da mera vitimização. Ou seja, a segunda temporada de American Crime não tem construções fáceis, tocando em feridas não somente em fatos e acontecimentos, mas também no próprio contexto de cada um dos personagens.

Dando corpo e alma a essas figuras, o elenco do segundo ano é um acerto por estar na lista de tópicos repaginados pelo programa. É fundamental American Crime ter se livrado ou colocado para escanteio atores ruins que eram destacados em demasia na temporada passada porque obviamente isso tira o peso de estarmos vendo intérpretes problemáticos na tela e não personagens, ainda dando oportunidade para outros bons profissionais se engrandecerem aqui. É definitivamente o caso de Lili Taylor, atriz que nunca conseguiu se livrar da antipatia de sua Lisa Kimmel em Six Feet Under, mas que aqui entrega o melhor desempenho de sua carreira. Fazendo excelente dupla com o jovem Connor Jessup, ela é destemida e frágil como a mãe recém recuperada de um surto de depressão que busca, entre ímpetos, erros e acertos, estar presente para o filho depois de tantos anos. As mulheres, por sinal, são o melhor do elenco, passando ainda por uma Felicity Huffman que tira de letra um papel dificílimo (na primeira temporada ela já era um dos destaques com a polêmica Barb) e por Regina King, agora sim finalmente merecedora do Emmy de atriz coadjuvante que levou equivocadamente pela série em 2015.

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Assim como em The Leftovers, Regina King, premiada no Emmy pelo primeiro ano de American Crime, integra novamente um elenco repleto de ótimas interpretações femininas.

Inclusivo também atrás das câmeras com sua equipe, Ridley traz várias diretoras mulheres para assinar boa parte dos episódios, e é necessário dar destaque para o que Kimberly Peirce (a capitã do intenso drama Meninos Não Choram, que rendeu a Hilary Swank seu primeiro Oscar de melhor atriz) faz no oitavo episódio ao mesclar depoimentos de pessoas da vida real envolvidas em tragédias e preconceitos particulares com os intensos acontecimentos do capítulo anterior assinado por Ridley. É por ter essa reta final com dramas acentuados que o desfecho pode incomodar muitos espectadores, principalmente porque, na TV aberta, o público não aceita bem qualquer tom mais inconclusivo ou pessimista (The Good Wife só amargurou críticas ao optar por esse caminho recentemente), mas gosto de dizer que escolhas como essa representam a ideia de que os roteiristas nos tratam como adultos e que eles acreditam que dramas nem sempre precisam de finais felizes ou círculos perfeitos para alcançar a excelência – e American Crime, ao discutir com uma dignidade surpreendente questões delicadas como “sou gay, mas não sou bicha”, realmente aposta na nossa maturidade ao longo de todos os seus dez episódios.

I Smile Back

Nobody tells you that it’s terrifying to love something so much.

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Direção: Adam Salky

Roteiro: Amy Koppelman e Paige Dylan

Elenco: Sarah Silverman, Josh Charles, Skylar Gaertner, Shayne Coleman, Mia Barron, Thomas Sadoski, Sean Reda,  Cynthia Darlow, Terry Kinney, Clark Jackson,  Brian Koppelman, Emma Ishta,  Oona Laurence, Chris Sarandon,  Mia Katigbak

I Smile Back, EUA, 2015, Drama, 85 minutos

Sinopse: As coisas estão complicadas no subúrbio. Laney Brooks (Sarah Silverman), esposa e mãe, parou de tomar seus medicamentos, substituindo por drogas ilícitas e homens errados. Com a iminente destruição da família dela, Laney faz uma última e desesperada tentativa de redenção. (Adoro Cinema)

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É uma injustiça das mais tristes de se testemunhar: qualquer atriz à espera de um Oscar que entregasse exatamente o que Sarah Silverman entrega em I Smile Back varreria uma temporada de premiações e seria aplaudida mundo afora. O papel por si só já seria o sonho para qualquer intérprete aberta a desafios dramáticos: o da mulher suburbana que, casada com o marido perfeito e mãe de dois filhos, simplesmente não nasceu para cumprir tais papeis, constantemente se sabotando ao ser infiel e ao se drogar em qualquer banheiro. Imagine, então, o grande momento que I Smile Back representaria para a carreira de uma Laura Linney da vida, por exemplo, que certamente não seria nem sabotada pelo perfil altamente independente do filme de Adam Salky. Só que a protagonista Laney Brooks foi parar nas mãos da comediante de TV Sarah Silverman, o que automaticamente a desqualifica para receber maiores reconhecimentos, mesmo com uma importante indicação ao Screen Actors Guild Awards 2016 de melhor atriz. Realmente, uma triste injustiça. 

Por outro lado, dramaticamente falando, é muito esperto da parte de I Smile Back escalar uma atriz como Sarah Silverman para uma história como essa, já que, com tal escolha, nunca conseguimos prever o que ela pode fazer no gênero. Mais: temos em cena uma intérprete completamente livre de vícios de interpretação no drama e que, ao longo do filme, constantemente instiga o espectador ao levá-lo por caminhos que ele não imaginava que pudessem ser trilhados por ela. É com uma força para lá de discreta que Silverman, assim como o próprio I Smile Back, aos poucos nos imerge em sua dramaticidade. Existe um quê dos desesperos suburbanos frequentemente retratados pelo escritor estadunidense Tom Perrota (com destaque para Pecados Íntimos) na personagem, que tenta, a todo custo e apesar das repetidas falhas, cumprir os papeis que a sociedade impõe às mulheres. Mesmo tentando, nossa protagonista é, por natureza, incapaz de desempenhá-los, e é aí que mora o conflito mais angustiante da obra.

Pode até ser que o roteiro escrito pela dupla Amy Koppelman e Paige Dylan não tenha tanto esmero quanto os de outros representantes do cinema independente realizado nos Estados Unidos (é quase imperdoável, por exemplo, a total unilateralidade do marido vivido por Josh Charles, cuja perfeição como homem, pai e ser humano sequer chega a ser usada como mais uma forma de sufocar a protagonista), mas novamente a sobriedade reina, o que é essencial para conflitos que, em mãos descuidadas, seriam verdadeiros dramalhões, no pior sentido da referência. Felizmente, o diretor delineia bem as fronteiras dos tons dramáticos de I Smile Back, ganhando até mesmo momentos emocionantes quando toma o caminho oposto do esperado e reprime sentimentos que, em outras abordagens, renderiam uma infinidade de lágrimas e discussões, como na cena em que a personagem faz uma visita a uma antiga pessoa de seu conturbado passado. 

É somente nos minutos finais que Salky e os roteiristas saem da linha e pesam demais a mão em uma sucessão de acontecimentos repletos de infortúnios para tornar ainda mais nebuloso o fundo do poço em que se encontra a personagem. Não era necessário chegar a tantos extremos em um filme que se torna angustiante por justamente reprimir tanta coisa. Fora isso, ao saber dosar diversos temas como infidelidade, drogas, desarranjos familiares e matrimônio com as devidas proporções em uma duração de 85 minutos que poderia trazer superficialidade à história, I Smile Back é um acerto por, assim como tantos trabalhos de sua mesma natureza de produção, apostar no diálogo direto com a vida real, sem firulas cinematográficas – e isso é lindo, mesmo que custe ao próprio longa e a sua própria protagonista, em performance reveladora, um duro esquecimento que já pode ser notado: desde janeiro de 2015 rodando festivais como Sundance e Toronto, I Smile Back não tem previsão de lançamento no Brasil e, nos Estados Unidos, entrou em cartaz apenas em circuito limitado.

Três atores, três filmes… com Raquel Piegas

raqueltresMesmo em um curto espaço de tempo até aqui, o Jornalismo já me trouxe muitas experiências e trabalhos bacanas. Nada, no entanto, se compara às amizades tão especiais que vieram com o pacote. Na lista de encontros mais marcantes, o que tive com a Raquel Piegas está indiscutivelmente entre os mais importantes. Devido ao destino e à geografia, já não nos vemos pessoalmente há alguns anos, mas isso não é motivo para que nossas risadas, trocas e conversas fiquem menos relevantes do que quando convivíamos diariamente. Agora, trago a Raquel para um pouquinho mais perto de mim com a participação dela na coluna Três atores, três filmes. A seleção tem a cara da convidada, em especial a primeira escolha, que valoriza um desempenho luminoso e revelador e que eu já deduzia que pudesse estar entre seus desempenhos favoritos por dizer muito sobre quem a própria Raquel é. Fiquem abaixo, portanto, com a participação dessa amiga que admiro desde sempre.

Penélope Cruz (Volver)
Sou uma grande fã de Penélope. Foi um pouco difícil escolher qual atuação dela me é mais emblemática. Em todas suas personagens, Penélope leva um quê de si. Da mulher latina que não se entrega, que é intensa, que não se renega. Raimunda é uma matriarca, uma representação da força feminina, em uma lição de resistência diante de uma situação forte e impetuosa como o abuso sexual de sua filha e o assassinato em legítima defesa de seu marido, cometido pela filha abusada. Volta e meia me pego revendo a cena em que Raimunda interpreta a canção Volver, de Carlos Gardel. Essa parte do filme me traz a intensidade de quem está vivendo longe de sua terra, como eu. As lágrimas reais de Penélope nessa atuação me representam. É uma atuação a qual recorro em diversos momentos.

Julianne Moore (Para Sempre Alice)
Escolhi uma atuação atual dessa atriz, por recentemente ter assistido a esse filme. Um drama sem choros fantasiosos, sem atuações escrachadas, sem melodrama. Um drama real, uma família real, uma situação com a qual podemos nos deparar constantemente: a ilusão de que somos intocáveis por doenças ou males que nos parecem distantes e que surgem de maneira inesperada para nos ensinar a reviver. Julianne consegue transmitir mesmo com sua expressão serena, em uma atuação que comove somente pelo olhar.

John Cusack (Alta Fidelidade)
Alta Fidelidade é cultura pop até os ossos. Desde o livro, escrito por Nick Hornby, até sua trilha sonora, o filme é um ícone de uma geração que está perdida e sabe que está perdida. E faz disso um estilo de vida, claro. Rob Gordon é viciado em listas. Top 5. Cada aspecto de sua vida é avaliado com base em cinco itens que ele escolhe como sendo os mais emblemáticos. Alta Fidelidade é uma tentativa de Rob se reencontrar reparando seus cinco maiores erros e decepções amorosas, com mulheres claramente mais fortes e emblemáticas que ele. É um personagem que me apaixona pelos seus lugares comuns e com a forte identificação que promove ao nos despertar a certeza de que é necessário reconhecer e revisitar cada fracasso vivido como uma maneira de evolução.