Rapidamente: “Mommy”, “Tirando o Atraso” e “Wood & Stock”

Anne Dorval brilha como a protagonista de Mommy, um dos filmes mais expressivos da carreira do canadense Xavier Dolan
MOMMY (idem, 2014, de Xavier Dolan): Tive um longo hiato com o cinema de Xavier Dolan até chegar a esse Mommy, drama de 2014 estrelado por uma magnífica Anne Dorval. O distanciamento foi proposital porque considero Eu Matei Minha Mãe, de 2009, um filme superestimadíssimo e frequentemente afetado, o que me levou a fugir da superexposição alcançada pelo cineasta posteriormente com obras com Laurence Anyways e Amores Imaginários. Não sei se o tempo fez realmente bem ao jovem canadense, mas Mommy é mesmo um filme mais comedido e regulado em seus exageros de tom e narrativa. É importante Dolan ter deixado o narcisismo de lado ao eventualmente abrir mão de protagonizar os próprios filmes porque, com isso, ele dá espaço para pensar mais como diretor e menos como um ator imaturo (e nada extraordinário) que procura apenas se fetichizar frente às câmeras como um símbolo jovem e gay do cinema “alternativo” falado em francês. Ao evoluir nesse sentido, ele dá chances para Anne Dorval, por exemplo, criar uma figura completa: envolvente como uma mãe linda, jovem e desbocada que nunca cai na caricatura, ela também de certa forma nos testa com suas irresponsabilidades maternas e sua negação frente aos problemas do filho. O elenco todo é muito bom (a vizinha vivida por Suzanne Clément é digna de nota), a trilha sonora se revela esperta e agridoce (o encerramento com Born to Die, da Lana Del Rey, é bastante simbólico) e o filme nunca chega a ser frágil ou superficial em suas análises dramáticas. Dolan ainda precisa regular o excesso de gritaria em discussões e outros maneirismos quando coloca seus personagens em colisão (algo que acontece com bastante frequência), mas, se continuar no ritmo de Mommy, talvez eu venha mesmo a fazer as pazes com ele.
TIRANDO O ATRASO (Dirty Grandpa, 2016, de Dan Mazer): Humor é algo sempre muito particular, e por isso é tão difícil fazer comédias, mas há um limite para tudo, como esse Tirando o Atraso, que chega a encenar uma piada sobre pedofilia ao sugerir que um Zac Efron praticamente nu estaria forçando uma criança a lhe fazer sexo oral no meio de uma praia. É realmente de um mau gosto tremendo e um caso específico de fundo do poço para seus dois protagonistas. Primeiro para Efron, que já chegou a ter desenvoltura e aptidão em comédias e musicais como 17 Outra Vez e Hairspray – Em Busca da Fama, além de chances importantes como trabalhar com Richard Linklater (Eu e Orson Welles) e ter até filme exibido na competição de Cannes (o desfocado Obsessão, de Lee Daniels). Só que a sede por holofotes falou mais alto do que a ambição cinematográfica, e hoje Efron só parece preocupado em tirar a camisa em filmes desastrosos como esse Tirando o Atraso. Segundo para Robert De Niro, um grande ator que tem se submetido a situações constrangedoras para… pagar as contas? Não se engane: ao passo que nem a nudez constante de Efron surge verdadeira (basta navegar um pouco no Google para descobrir que ele usou dublês e CGI ao supostamente tirar a roupa), a experiência de De Niro como ator parece inexistente aqui, já que ele repete, cena após cena, as suas caretas tão imitadas por humoristas. Às vezes, a história de Tirando o Atraso até tem certo fôlego ao discutir de forma civilizada as incoerências de um jovem que já parece ter encerrado seus sonhos em comparação a um senhor cheio de vontade de fazer as loucuras que bem entende por aí, mas é questão de tempo até o roteiro desgraçar tudo ao lançar mais uma piada física repleta de vômito, nudez, drogas, sexo ou palavrões no pior estilo imaginável.
WOOD & STOCK: SEXO, ORÉGANO E ROCK’N’ROLL (idem, 2006, de Otto Guerra): O gaúcho Otto Guerra desfrutava um dos grandes momentos de sua carreira quando colocou Wood & Stock: Sexo, Orégano e Rock’n’Roll nas telas do cinema em 2006. Recém vindo de um grande sucesso na TV com a campanha O Amor é a Melhor Herança, para a RBS TV, ele adaptou a ácida obra do chargista paulista Angeli para esse longa que chegou a contar com a dublagem de ninguém menos do que a cantora Rita Lee. Por costurar charges isoladas, obviamente ficam lacunas de ritmo e interesse na história, que, apesar de condensada em apenas 81 minutos, chega a se desgastar um pouco em sua reta final. Porém, Otto Guerra tem um olho muito clínico para a escolha de tramas e personagens diferenciados. Foi assim no universo particular de Até Que a Sbórnia nos Separe, seu longa posterior baseado no universo do espetáculo gaúcho Tangos e Tragédias, e também com o próprio Wood & Stock, que encontra, no carisma de seus protagonistas, uma simetria que talvez falte ao filme em si em termos de narrativa. Todos curiosos e divertidos em seus extremos, os personagens carregam críticas bastante atuais, como as de Rê Bordosa, que, recém saída de uma clínica de reabilitação, frequentemente questiona o que é esperado de uma mulher na sociedade. Pode até ser que Wood & Stock não seja uma grande animação, mas personalidade ela tem de sobra, o que já deve ser mais do que recompensador para um formato pouco explorado pelos brasileiros.








