Cinema e Argumento

Os piores filmes de 2013

A ordem para 2013 foi a mesma de 2012: tentar evitar qualquer filme que, para o meu gosto pessoal, parecesse uma bomba. Sofri menos no cinema durante o ano que passou, mas isso não quer dizer que me isentei de péssimas experiências. A lista que segue abaixo (dez filmes, em ordem alfabética) não tem, por exemplo, Até Que a Sorte nos Separe 2 ou Crô – O Filme (só um verdadeiro milagre para eu conferir e aprovar esses títulos, por exemplo) e sim produções que me decepcionaram profundamente e que poderiam ter sido muito, muito melhores – seja pela equipe envolvida ou pela proposta. No final do post, queremos a opinião de vocês na nossa enquete! Vamos, então, ao lado ruim de 2013…

pasajeros

Não é em função de A Pele Que Habito ter sido sensacional que OS AMANTES PASSAGEIROS decepciona. Independente de comparações, essa é uma comédia muito sem graça. Não sei o que Pedro Almodóvar quis com um longa excessivamente afetado e com pouco a dizer. É um desperdício de elenco e, principalmente, de uma ótima ideia. Não bastasse o constante histrionismo, Os Amantes Passageiros ainda descamba, em certo ponto, para um apelo sexual super desnecessário. Difícil acreditar que esse é um filme de um cineasta tão cuidadoso. Certamente, um dos piores longas do espanhol.

bigwedding

Tenho muita vontade de abraçar Susan Sarandon, Robert De Niro e Diane Keaton. Não só porque eles são ótimos atores mas porque, nos últimos anos, quase não tiveram papeis a sua altura. Só que isso não é desculpa para eles aceitarem vergonhas como O CASAMENTO DO ANO. De início, parece uma comédia bobinha e descompromissada, mas logo o filme de Justin Zackham aposta em vômitos, sexo, nudez e agressões físicas para fazer graça. Humor pobre, ausência de coerência narrativa e um elenco simplesmente perdido no meio da bagunça. Que lástima!

donjon

No cinema, Joseph Gordon-Levitt deixou de ser o jovem queridinho e simpático de filmes como (500) Dias Com Ela para virar um pegador com tanquinho que só se envolve com mulheres do tipo Scarlett Johansson. Não colou. Muito menos seu esse seu debut como diretor e roteirista de longas chamado COMO NÃO PERDER ESSA MULHER. O pior é que o filme não chega nem a ofender (e olha que seria muito fácil, já que é sobre um jovem viciado em pornografia), mas simplesmente o resultado não tem graça. A história vazia e sem qualquer inventividade tenta ser contemporânea e dialogar com certo público, mas o longa é frequentemente batido e muito limitado em seus conceitos (o protagonista é categórico: todos os homens se masturbam diariamente vendo pornografia).

improtta

Dirigido por José Wilker, GIOVANNI IMPROTTA foi o pontapé inicial para essa série de filmes protagonizados por personagens de novela da Globo que tem tudo para tomar conta dos cinemas nos próximos anos. Não vi Crô – O Filme – e nem pretendo -, já que Giovanni Improtta foi o suficiente para acabar com qualquer (mínima) esperança que eu tinha. Ora, o personagem vivido por Wilker em Senhora do Destino era divertido e um dos mais icônicos da carreira recente do ator, mas a versão cinematográfica não tem um fiapo de história. Uma experiência monótona, vazia e desnecessária.

mansteel

Um dos blockbusters mais promissores do ano, O HOMEM DE AÇO também foi um dos mais decepcionantes. O trailer era impecável, vários fatores contribuíram para dar certo (Amy Adams! Hans Zimmer!) e tudo acusava que o herói finalmente teria um filme à altura. Nada disso. O diretor Zack Snyder trouxe o que existe de pior nos blockbusters contemporâneos: ou seja, efeitos visuais em demasia, interpretações caricatas (alô, Michael Shannon!) e muito, muito barulho… Desde Transformers não saía de uma sessão com tanta dor de cabeça.

mama

Meu maior susto em relação a esse MAMA foi ver tantas pessoas elogiando e dizendo que saíram amedrontadas do cinema. Para ser bem sincero, eu ri bastante durante o filme. Não sei o que viram nesse terror super previsível que ainda comete o terrível erro de dar um rosto ao mistério: no caso, o tal bicho Mama do título, que parece um personagem saído de um jogo de videogame. Além de não saber que é sempre melhor insinuar o medo do que de fato explicitá-lo, o longa tem personagens caricatos e uma Jessica Chastain que não sabe o que fazer de tão deslocada que está.

Teria sido bem mais proveitoso se o diretor Lee Daniels tivesse feito um documentário sobre a trajetória dos negros no século XX do que esse O MORDOMO DA CASA BRANCA. Isso porque o novo longa do diretor começa contando a história de Cecil (Forest Whitaker) para depois se focar quase que exclusivamente na luta dos negros por um lugar digno na sociedade estadunidense. Mas a dramaturgia transborda obviedades e o desperdício de elenco chega a ser absurdo. Nem mesmo Whitaker e Oprah Winfey (que sabe-se lá porque já foi dada como favorita ao Oscar) apresentam algo de especial nesse longa bastante sonolento.

paperboy

Se em O Mordomo da Casa Branca Lee Daniels pecou pelo excesso de didatismo e pela falta de inventividades, em OBSESSÃO ele se perdeu justamente ao soltar na tela todas as suas loucuras. Mais preocupado em contemplar o corpo descamisado de Zac Efron e em explorar seus fetiches, o diretor conta milhares de histórias e não consegue se aprofundar em nenhuma. Impossível explicar sobre o que é Obsessão de forma objetiva. De válido mesmo só o deslumbre de Nicole Kidman, que é o ponto alto de um longa disléxico, perdido e prejudicado pelos cacoetes de seu realizador.

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Não quero acreditar que o humor de Kate Winslet, Naomi Watts e Hugh Jackman seja tão pavoroso assim para eles terem aprovado o roteiro de PARA MAIORES. Alguém chantageou cada um deles, só pode. Coletânea de curtas de extremo mau gosto, o filme traz um elenco repleto de estrelas em situações sexuais constrangedoras. Só o primeiro curta em que o personagem de Jackman tem testículos no pescoço já dá vontade de se contorcer na poltrona de tanta vergonha. Aguentar a sucessão de bobagens e piadas descabidas é para os fortes.

taojovens

Em um ano tão forte para o cinema nacional, é uma pena que a biografia de um dos maiores ícones da musica de nosso país tenha sido tão superficial. Pois é, SOMOS TÃO JOVENS desaponta por ser incrivelmente raso e amador. A ideia de contar a vida de Renato Russo antes da fama foge do convencional, mas o filme é cheio de maneirismos e clichês, com personagens que beiram o irritante. Todos os conflitos de Somos Tão Jovens desaparecem rapidamente (o descaso com a homossexualidade de Renato é gritante) e as referências musicais e culturais surgem gratuitamente como mera panfletagem. O músico merecia mais.

Adeus, 2013! (e as melhores cenas do ano)

Preciso fazer uma confissão: em 2013, estive mais distante do cinema em termos de leitura e escrita. Talvez isso não se reflita tanto aqui no blog, que continuou na ativa, mas, nos bastidores, a história foi bem diferente. Em 2013, não tive o tempo que tanto aprecio para pensar, escrever e revisar um texto.

Na maioria das vezes, escrevia em um dia e publicava no outro. Dessa forma, cambaleei e, sinceramente, pensei em desistir do Cinema e Argumento por tempo indeterminado. Não consegui. Amo demais isso aqui para simplesmente abandonar tudo depois de seis anos de história.

Só que essa situação toda se instalou porque 2013 foi, possivelmente, o ano mais movimentado de toda a minha vida. Por isso, me perdi no meio de tantas séries e não assisti a tantos filmes quanto gostaria. Mas a vida chamava, e eu tinha que atender. Profissionalmente e pessoalmente, foi um ano de mudanças. Radicais mesmo, sem exageros, em todas as instâncias. Algumas demandando tempo, outras, o meu coração e a minha força de espírito.

Foi cansativo, mas estou orgulhoso de tudo que alcancei no ano que passou. Por isso, que venha 2014! Um feliz ano novo a todos, repleto de felicidades e sonhos realizados! Fiquem, por enquanto, com as minhas cenas favoritas do ano. Um abraço a todos e obrigado pela companhia!

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Stéphanie (Marion Cotillard) relembra seus tempos de treinadora ao som de “Firework”, em Ferrugem e Osso

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Elizabeth Bishop (Miranda Otto) lê “Uma Arte” na última cena de Flores Raras

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A abertura de Indomável Sonhadora

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Fantine (Anne Hathaway) canta “I Dreamed a Dream” em Os Miseráveis

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O pôr-do-sol em Antes da Meia-Noite

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A primeira sessão de Freddie (Joaquin Phoenix) e Lancaster (Philip Seymour Hoffman) em O Mestre

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Ryan (Sandra Bullock) tenta chegar à Terra no final de Gravidade

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Phillips (Tom Hanks) é examinado por médicos em Capitão Phillips

As franquezas de Violet (Meryl Streep) no primeiro jantar de Álbum de Família

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Clécio (Irandhir Santos) canta “Esse Cara” em Tatuagem

Questão de Tempo

All the time traveling in the world can’t make someone love you. 

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Direção: Richard Curtis

Roteiro: Richard Curtis

Elenco: Domhnall Gleeson, Rachel McAdams, Bill Nighy, Lydia Wilson, Lindsay Duncan, Richard Cordery, Joshua McGuire, Tom Hollander, Margot Robbie, Will Merrick, Vanessa Kirby

About Time, Inglaterra, 2013, Romance, 123 minutos

Sinopse: Ao completar 21 anos, Tim (Domhnall Gleeson) é surpreendido com a notícia dada por seu pai (Bill Nighy) de que pertence a uma linhagem de viajantes no tempo. Ou seja, todos os homens da família conseguem viajar para o passado, bastando apenas ir para um local escuro e pensar na época e no local para onde deseja ir. Cético a princípio, Tim logo se empolga com o dom ao ver que seu pai não está mentindo. Sua primeira decisão é usar esta capacidade para conseguir uma namorada, mas logo ele percebe que viajar no tempo e alterar o que já aconteceu pode provocar consequências inesperadas. (Adoro Cinema)

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É impossível falar de romances contemporâneos sem citar o nome do britânico Richard Curtis. Ele só dirigiu três filmes até agora, mas fez grande carreira ao roteirizar sucessos como Um Lugar Chamado Notting Hill, O Diário de Bridget Jones e Quatro Casamentos e Um Funeral. Como diretor, debutou com o ótimo Simplesmente Amor, e, na sequência, realizou uma divertida comédia que não tinha nada de romântica: Os Piratas do Rock. Afastado da cadeira de direção desde 2009 (mas sem perder a prática de roteiros), agora ele volta aos cinemas comandando mais uma história de amor. Dessa vez, menos marcante e distante de se tornar candidata a marcar época, mas que também traz toda a desenvoltura de Curtis com o gênero e cuja essência vem muito a calhar neste final de ano. Isso mesmo: Questão de Tempo pode ser sim esse filme afetivo que você procura para terminar seu ano cinematográfico de forma bastante espirituosa.

A premissa não é o que podemos chamar de original: jovem descobre que pode viajar no tempo e usa esse poder para conquistar uma garota e fazer com que cada minuto de sua relação com ela seja perfeito. Mas Richard Curtis não se preocupa tanto com as piadas que pode fazer com essa mágica e sim com o romance mesmo. Com isso, Questão de Tempo é quase uma fábula sobre um garoto estranho mas sonhador que encontra a garota da sua vida. Em tempos tão pessimistas e cada vez mais distantes de afetos, é bom acompanhar uma história que preze justamente pelos pequenos momentos com a pessoa amada e pelo verdadeiro encantamento que é a paixão. As mensagens, que poderiam ser enfadonhas nas mãos de outro diretor, mostram-se eficientes e o resultado chega até mesmo a emocionar nos momentos finais – só que com outra figura: a de Bill Nighy, um ator que esbanja naturalidade e que representa toda a força familiar do filme.

Por falar em elenco, Questão de Tempo tem certamente a seu favor um grupo de atores bem escolhido, começando pela figura do protagonista. Aqui, nada de Hugh Grant ou Colin Firth. O mocinho da vez é vivido por Domhnall Gleeson, um jovem ruivo e magricelo que já passou discretamente por filmes como Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2Não Me Abandone Jamais e o novo Bravura Indômita. O fato de ele ser estranho e desengonçado faz toda a diferença para o filme, que ganha um tom muito mais realista com essa escolha. Todos são pura simpatia em Questão de Tempo, até mesmo Rachel McAdams, normalmente especialista em papeis de mulheres enjoadas e desagradáveis, que aqui surge encantadora.

Só que Questão de Tempo tem um problema facilmente irritante para alguns: a falta de conflitos. Qualquer problemática apresentada pelo roteiro dura no máximo cinco minutos até o protagonista decidir voltar no tempo e remendar a situação. Isso faz com que o filme não tenha um grande obstáculo a ser vencido ou um questionamento contínuo. Cabe a cada um decidir até que ponto esse detalhe altera o resultado do filme, que particularmente me envolveu e me encantou. Richard Curtis, ainda que em menor escala de originalidade e contundência, continua com sensibilidade para contar histórias de amor. E, em uma trama guiada por viagens no tempo, o que na realidade fica é: não existe tempo melhor que o agora. E Curtis consegue passar essa mensagem de forma bastante afetuosa. Para senti-la, basta se desarmar.

FILME: 8.0

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Álbum de Família

Life is very long.

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Direção: John Wells

Roteiro: Tracy Letts, baseado na peça “August: Osage County”, de autoria própria

Elenco: Meryl Streep, Julia Roberts, Julianne Nicholson, Margo Martindale, Ewan McGregor, Juliette Lewis, Abigail Breslin, Dermot Mulroney, Chris Cooper, Benedict Cumberbatch, Sam Shepard, Misty Upham, Newell Alexander

August: Osage County, EUA, 2013, Drama, 121 minutos

Sinopse: Barbara (Julia Roberts), Ivy (Julianne Nicholson) e Karen (Juliette Lewis) são três irmãs que são obrigadas a voltar para casa e cuidar da mãe viciada em medicamentos e com câncer (Meryl Streep), após o desaparecimento do pai delas (Sam Shepard). O encontro provoca diversos conflitos e mostra que nenhum segredo estará protegido. Enquanto tenta lidar com a mãe, Barbara ainda terá que conviver com os problemas pessoais, com difíceis relações com o ex-marido (Ewan McGregor) e com a filha adolescente (Abigail Breslin). (Adoro Cinema)

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Violet (Meryl Streep) disse tudo o que bem entendia em um jantar com a família. Sua veracidade foi tamanha que uma das filhas imediatamente questiona o porquê da matriarca estar sendo tão cruel com todos à mesa. Entretanto, Violet não vê a situação dessa maneira. Para ela, tudo não passa de uma sucessão de verdades sendo ditas cara a cara. Na realidade, o choque que a matriarca causa frente aos familiares é muito simples: ela não esconde o que pensa. Ao contrário de todos a sua volta, tão cercados de restrições afetivas e pensamentos nunca verbalizados, ela prefere ser franca com suas opiniões – nem que isso machuque os outros. Claro que esse comportamento é resultado de uma vida de insatisfações e de um longo vício em pílulas para amenizar as dores de um câncer (de boca, ironicamente), mas também diz muito sobre como se estabelece a dinâmica de Álbum da Família: se o desaparecimento de Bev (Sam Shepard) é o pretexto para reunir a família Weston durante um fim de semana, as verdades de Violet são as responsáveis por trazer à tona angústias e ressentimentos de um grupo que, mesmo tendo o mesmo sangue, há muito deixou de ser uma família.

Recebido com certo descaso lá fora, Álbum de Família foge do que estamos cada vez mais (mal) acostumados a procurar: filmes sempre revolucionários e que esbanjam originalidade. Parece que hoje não existe mais espaço para o tradicional, e isso é um grande problema. É também uma injustiça, pois, assim, filmes interessantíssimos não são devidamente valorizados, como é o caso desse longa de John Wells. O diretor, que fez carreira na TV ao produzir e dirigir episódios para séries como E.R. e The West Wing, entrega justamente um drama familiar convencional mas que, dentro de suas normalidades, tem atributos suficientes para ser admirado por fazer tanto com basicamente texto e atores. Não à toa é fácil se lembrar da era de ouro do seriado Brothers & Sisters. Ou seja, alguns estereótipos perfeitamente admissíveis, segredos familiares envolventes, ressentimentos previsíveis mas bem explorados, cenas dramáticas eficientes e até mesmo alívios cômicos divertidos. Inovador? Não, mas como uma (boa) trama novelesca deve ser, com histórias sobre a vida mesmo, facilmente identificáveis por todos nós.

O roteiro foi escrito por um sujeito chamado Tracy Letts, constante colaborador de William Friedkin (trabalharam juntos em Killer Joe – Matador de AluguelPossuídos), que adaptou a sua peça homônima. A direção sem grande personalidade de John Wells deixa transparecer em diversos momentos esse caráter teatral – em particular em uma das cenas finais, onde pratos são literalmente quebrados com um tom nada condizente com o cinema -, mas não é nada comparado a total histeria apresentada por Roman Polanski em Deus da Carnificina recentemente. Lá sim tudo era muito fake e descontrolado. Em Álbum de Família, o roteiro de Letts constroi um grande mosaico com figuras das mais variadas idades e tipos: a filha que abdicou da vida para não deixar os pais abandonados, a irmã quase fútil que troca de namorado a cada ano, a tia engraçadinha mas que também tem suas frustrações, a favorita do pai que – ao contrário do que todos pensam – não tem uma vida tão bem sucedida assim, e por aí vai… E a boa notícia é que o filme tem espaço para todos. Ninguém é superficial, cada um tem personalidade muito clara e nós compreendemos todos os membros da família Weston – o que só confirma a disciplina do roteiro, que, estivesse nas mãos de alguém mais inexperiente, perderia-se entre tantas storylines.

Já não bastasse o roteiro pontuar muito bem cada drama e distribuí-las com precisão ao longo do filme, o elenco estelar só amplia essa sensação do tradicional bem contado. A figura indiscutivelmente mais marcante é, sem dúvida, Violet, a matriarca vivida por Meryl Streep. Desprezando a dor dos outros simplesmente porque julga ter passado por situações bem mais penosas na vida, é uma personagem afiada que poderia cair facilmente na unidimensionalidade – como a irmã Aloysius, de Dúvida, outro papel bastante difícil e antipático de Meryl. Não é o que acontece aqui: ao mesmo tempo em que somos intimidados por sua presença, também compreendemos sua amargura – e a cena em que ela conta um episódio de sua infância envolvendo uma bota é particularmente tocante. Assim,  Meryl Streep, em mais um desempenho impressionante, nunca hesita com o sotaque e a voz de uma mulher que parece constantemente embriagada pelo uso excessivo de remédios. Vai do drama à comédia e do introspectivo ao explosivo com uma força que só ela tem. Mais um papel inteiramente novo para sua carreira e que, arrisco dizer, supera o nível do recente A Dama de Ferro por se tratar de um desempenho muito mais livre e aberto a criações. 

O grupo de atores ainda merece outra menção particular: Julia Roberts como Barbara,  a filha que mais recebe destaque na história. Sem glamour algum (o que é proposital e ótimo), a atriz prova que as comédias românticas já fazem parte de seu passado e que passou da hora de ser reconhecida por seus trabalhos dramáticos – e o Oscar por Erin Brokovich – Uma Mulher de Talento não chega a contar necessariamente como uma celebração dessa sua vertente. Desde Closer – Perto Demais (um de seus desempenhos mais subestimados) merece mais atenção nos dramas. Quando divulgava Espelho, Espelho Meu, Roberts chegou a chorar em uma coletiva do filme quando anunciou em primeira mão que estrelaria Álbum de Família ao lado de Meryl Streep, atriz que é sua grande referência na profissão. Posteriormente, também revelou que atuar ao lado da veterana foi o seu maior  desafio como intérprete. Pois fique tranquila, Julia, você não ficou devendo nada à Meryl. Formou com ela uma dupla excelente e de pura sintonia.

Com uma boa trilha do duplamente oscarizado Gustavo Santaolalla e ótimos créditos finais ao som de Last Mile Home, música escrita especialmente para o filme pela banda Kings of Leon, Álbum de Família faz jus à vida como ela é, mostrando que são os nossos sentimentos e atitudes que desencadeiam acontecimentos, e não o contrário. Nós somos responsáveis por aquilo que nos acontece. Somos, enfim, as escolhas que fazemos. É uma pena que essa simplicidade não tenha sido abraçada por todos e que Álbum de Família esteja fadado a ser lembrado como um mero drama repetitivo e até mesmo histriônico. Para mim, foi uma das melhores surpresas de 2013, especialmente depois de ter sido tratado com tanto descaso lá fora. Chegando aos 45 do segundo tempo de 2013, é um filme que acerta ao falar tudo com apenas um recorte, mais especificamente de um fim de semana… Dias que, certamente, os Weston não vão querer colocar em um álbum para lembranças posteriores.

FILME: 8.5

4

Rapidamente

Indicado ao Globo de Ouro de melhor atriz comédia/musical (Greta Gerwig), "Frances Ha" é o filme mais celebrado de Noah Baumbach desde "A Lula e a Baleia"

Indicado ao Globo de Ouro de melhor atriz comédia/musical (Greta Gerwig), Frances Ha é o filme mais celebrado de Noah Baumbach desde A Lula e a Baleia

FRANCES HA (idem, 2013, de Noah Baumbach): Não sou grande fã de Noah Baumbach, nem mesmo de seu celebrado A Lula e a Baleia, com Laura Linney e Jeff Daniels, lançado anos atrás. Mas esse Frances Ha foi particularmente uma surpresa, com uma história bastante jovem e otimista. Seria errado, no entanto, defini-lo como um feel good movie sem também falar de todos os questionamentos que ele traz sobre a juventude. As expectativas e inseguranças da vida aos 20 e poucos anos estão bem representadas por esse roteiro que se atém a pequenas situações do cotidiano para nos aproximar da protagonista (Greta Gerwig, ótima). Isso mesmo: não existe necessariamente um grande conflito ou maiores reviravoltas em Frances Ha, mas sim uma vida contada em momentos, seja com a ida ao dentista ou com uma mera conversa de final de noite ao lado de um melhor amigo. De vez em quando, Baumbach insiste demais no tom indie ou na própria homenagem à nouvelle vague colocando a protagonista desengonçada a correr na rua ao som de David Bowie, mas é impossível resistir ao carisma do filme. Para quem gosta de comparações, a adolescência nova-iorquina insegura e contemporânea também é retratada de forma similar por Lena Dunham na série Girls, da HBO.

O HOBBIT: A DESOLAÇÃO DE SMAUG (The Hobbit: The Desolation of Smaug, 2013, de Peter Jackson): Com O Hobbit, Peter Jackson passou a ser diretor exclusivo para o pior tipo de público que existe: aquele que é tão apaixonado por uma obra literária que não aceita a existência de liberdades cinematográficas em uma adaptação. Se tirou uma cena importante do livro, o filme não presta. Se alguém reclama de determinado aspecto, é porque na obra original tudo é melhor explicado. Enfim, um público que não entende que cinema é cinema e literatura é literatura. O resultado é esse engodo chamado O Hobbit, em especial essa continuação que recebe o subtítulo de A Desolação de Smaug. Nesse novo volume, estão os mesmos problemas do filme anterior, e o pior: em nível mais acentuado, já que esta é uma parte de transição da história. Não existe qualquer fator surpresa na continuação, que é mais aborrecida, enrolada, confusa e desinteressante que o volume anterior. Nem a parte técnica – com exceção do dragão, que é realmente impressionante -, chega a se sobressair. Tudo é muito igual e repetido, o que prova, mais uma vez, que a decisão de dividir um livro de aproximadamente 300 páginas em três longas de quase três horas foi completamente equivocada.

KICK-ASS 2 (idem, 2013, de Jeff Wadlow): Poucos viram essa mediana continuação do filme original, que era inspirado e divertido. Não que essa sequência tenha perdido seu senso de humor e entretenimento, mas o frescor já não existe mais. Aliás, exageraram na quantidade de violência – que, no final das contas, o próprio Jim Carrey (uma adesão passageira aqui) reclamou -, e no excesso de piadas colegiais. Aqui também já existe uma diferença bastante significativa: agora Kick-Ass (Aaron Taylor-Johnson) já transa em pelo menos duas cenas do filme e a Hitgirl (Chloë Grace Moretz) já olha com segundas intenções para o corpo descamisado do protagonista. Ou seja, se antes a aventura tinha sua graça por ser apenas sobre jovens super-heróis, agora a trama já começa a sair dos trilhos ao dar espaço para peripécias e para os clichês estudantis. Quem acha que a ação por si só já sustenta essa trama certamente vai gostar de Kick-Ass 2, que tem o triplo de adrenalina e sangue. No entanto, acredito que as raízes do protagonista e sua trupe não estejam aí. Em termos de referências ao mundo dos quadrinhos e de sacadas inteligentes com esse universo, a continuação decepciona – quando não aposta no exagero, que está representado nos fraquíssimos vilões, responsáveis pelos momentos de maior baixa do filme.

ÚLTIMA VIAGEM A VEGAS (Last Vegas, 2013, de Jon Turteltaub): Ao contrário do que aparenta, Última Viagem a Vegas não tem muito de Se Beber, Não Case!. Sim, o filme também conta a história de um solteirão (Michael Douglas) que reúne os amigos para uma viagem de despedida de solteiro que promete ser inesquecível, mas esse novo trabalho de Jon Turtelbaut é mais sobre a reunião de quatro atores veteranos em uma história completamente descompromissada do que qualquer outra coisa. Tanto que não é muito difícil perceber que, sem o quarteto, Última Viagem a Vegas não sobreviveria. Previsível do início ao fim – seja na história ou até mesmo na repetição de piadas -, o longa se apoia infinitamente no inegável carisma de seus atores, que conseguem sobreviver aos clichês de seus respectivos personagens. Essa é a boa notícia: eles fazem com que o filme funcione mesmo com tantas obviedades. Sim, Última Viagem a Vegas é dispensável e bem aquém do que poderia ser realizado com atores tão talentosos, mas é inofensivo – o que já se tornou marca registrada de Turtelbaut, diretor de outras obras bobas mas com certo entretenimento como A Lenda do Tesouro Perdido.

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