Cinema e Argumento

Os desajustes humanos da terceira temporada de Transparent

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Um dos personagens de Transparent começa a terceira temporada dizendo ter encontrado amor, estabilidade na família e um emprego fantástico. Por outro lado, “se eu tenho tudo o que preciso, então por que sou tão infeliz?”, reflete. Ironicamente, após dez episódios, a história se conclui com um número musical onde um outro personagem leva aos palcos a canção Hand in My Pocket, da cantora canadense Alanis Morissette. A letra é repleta de contrapontos, bem como a cena que citamos, mas a lógica é inversa, já que, nela, as infelicidades são minimizadas pelas alegrias: “Estou perdida, mas estou cheia de esperança (…) Isso quer dizer que ninguém tem tudo desvendado até agora (…) e que tudo se resume, meus amigos, à ideia de que tudo ficará bem”. É linda essa simetria entre o início e o fim da terceira temporada porque ela sintetiza com grande sensibilidade o mote da história contada: se, nos primeiros anosTransparent era sobre uma família se ajustando à ideia do patriarca ter se revelado transgênero, agora o programa é sobre a jornada muito particular de personagens que são obrigados a ficar cada vez mais de frente com suas próprias insatisfações.

Repetindo a proposta de ser um seriado representativo também em sua realização (são seis mulheres na direção dos episódios contra apenas um homem, além de uma infinidade de personagens transexuais e negros na trama), Transparent apresentou, desde a primeira temporada, uma maturidade narrativa que reflete tudo o que Jill Solloway aprendeu sobre alta sofisticação dramática ao produzir e roteirizar diversos episódios da clássica Six Feet Under. À medida em que se distancia naturalmente dos relatos envolvendo a transição do protagonista Mort para Maura Pfefferman (Jeffrey Tambor), ela transforma o programa em um importante registro dos afetos em suas múltiplas (des)construções e das relações em suas infinitas formas e expressões. É possível uma mulher construir laços românticos com um homem mesmo que ele opte por uma vaginoplastia? Seria provável também uma mulher bissexual morar com o ex-marido e ainda ser atraída por ele enquanto se aventura em sessões pagas de dominação sexual com uma lésbica? E existe algum problema na ideia de uma mulher de idade avançada bancar as despesas do mais recente namorado desempregado em tempos que homens quase não sofrem o mesmo julgamento quando financiam garotas com metade de suas idades?

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O que torna Transparent tão especial, no entanto, é justamente não problematizar a natureza sexual ou afetiva das relações em si, mas sim encená-las com naturalidade e trabalhar os dilemas que surgem a partir dessa necessidade humana de sempre estar em constante troca com o próximo. É importante a série não virar um mero caldeirão temático sobre expressões sexuais porque os roteiristas abraçam uma missão ainda mais difícil: a de não fazer concessões quando colocam na tela todas as imperfeições de seus personagens. Com exceção de Maura – que também não deixa de ter um histórico de erros como péssimo pai, marido e irmão -, é difícil acompanhar a jornada de cada Pfefferman, já que, no terceiro ano, eles são cada vez mais vistos sob à luz de suas dúvidas e contradições. O comportamento inconstante dos personagens – que nada mais é do que a busca natural deles por algum tipo de alento em meio ao peso da vida – desafia o espectador, que não está nada errado ao detestar, por exemplo, o Josh de Jay Duplass, capaz de ir da compreensão à total falta de sensibilidade em questão de segundos. Só que Transparent não conflita cada membro da família pelo simples rebuliço dramático: o que a série quer por trás disso tudo é simplesmente mostrar as pessoas como elas são.

Tendo como ponto de partida a decisão de Maura de finalmente ser feliz independente de pessoas, julgamentos ou consequências (ainda há muito do que se libertar após a “saída do armário”), a terceira temporada de Transparent sublinha a lógica de não ser um relato de grandes acontecimentos. No programa de Jill Solloway, as imperfeições humanas são estudadas nas pequenas coisas do cotidiano. Dessa vez, a sensação é particularmente angustiante porque a história se centra cada vez mais na busca dos personagens por eles mesmos – e na dor que é essa espera de finalmente se encontrar (ou quem sabe nunca chegar a esse ponto). Uma figura que simboliza perfeitamente isso é a rabina Raquel, vivida com a sensibilidade habitual da subestimada Kathryn Hahn. Afinal, não é muito difícil deduzir que sua religiosidade é a perfeita fuga de uma vida calejada e frequentemente vazia. Se, na totalidade, ela é a figura feminina mais consistente e com momentos mais expressivos, Gaby Hoffman e Judith Light arrebatam pontualmente: a primeira com um episódio revelador sobre o passado de Maura que explora sua versatilidade e a segunda com um verdadeiro show na season finale (e não ficaria surpreso se Light finalmente faturasse alguns prêmios pelo episódio).

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Por falar em prêmios, faz cada vez menos sentido a categorização de Transparent como uma série de comédia. Não há absolutamente nada no terceiro ano, assim como nos outros, que a enquadre no gênero. Beirando o pessimismo em boa parte de seu desenvolvimento, o programa é novamente impecável do ponto de vista estrutural, começando com um episódio-solo arrebatador para depois, em sua reta final, estacionar a história e ambientar um episódio inteiro na década de 1950. Esses dois capítulos representam a sofisticação de roteiro sempre encontrada em Transparent, pois nunca soam como experiências avulsas dentro da unidade da temporada. Pelo contrário, tanto Elizah quanto If Were a Bell, respectivamente, utilizam-se de formatos à parte para costurar ou completar o que vemos ao longo de todo terceiro ano, entregando, possivelmente, dois dos auges mais criativos da série. Ainda que a questão da religião envolvendo a rabina Raquel tome tempo demais ou que Sarah venha se repetindo em conflitos que não estão necessariamente à altura da ótima atriz que é Amy Landecker, o terceiro ano de Transparent mantem o alto nível dramático da impecável temporada anterior. E quanto ao grande Jeffrey Tambor? Quando parece impossível que ele venha a fazer algo ainda mais incrível, lá está o ator para tirar o nosso chão. Além de descobrir uma série incrível, quando você embarcar em Transparent, você encontrará a melhor interpretação em qualquer programa da atualidade.

De Onde Eu Te Vejo

Sabe o que eu descobri? Que as histórias infelizes é que são todas iguais. As felizes não. São felizes cada uma a sua maneira.

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Direção: Luiz Villaça

Roteiro: Leonardo Moreira e Rafael Gomes

Elenco: Denise Fraga, Domingos Montagner, Manoela Aliperti, Marisa Orth, Laura Cardoso, Juca de Oliveira, Fúlvio Stefanini, Laila Zaid, Théo Werneck, Marcello Airoldi

Sinopse: Ana Lúcia (Denise Fraga) e Fábio (Domingos Montagner) decidem se separar após vinte anos de casamento e ele se muda para um apartamento do outro lado da rua. Além da separação, eles passam por uma crise no trabalho e precisam enfrentar a iminente mudança de cidade da filha. Com todas essas mudanças, eles precisam aprender a viver essa nova realidade e reinventar o amor. (Adoro Cinema)

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Conforme o tempo passa, é cada vez mais comum, como cinéfilos dedicados, prezarmos pelo novo ou pelo menos por aquilo que procura se distanciar da normalidade. Considerando os filmes sobre separações de casais, por exemplo, são infinitos os relatos dramáticos e até mesmo trágicos sobre o fim de relações amorosas. Não que, dessa forma, filmes como Alabama Monroe ou Namorados Para Sempre se tornem menores (eles sempre serão grandes por suas respectivas franquezas), mas, quando surge uma experiência como a proporcionada pelo belo De Onde Eu Te Vejo, voltamos a lembrar que precisamos de mais produções como essa assinada por Luiz Villaça e estrelada por Denise Fraga e pelo agora saudoso Domingos Montagner. Partindo do divórcio de um casal que dividia o mesmo teto há 20 anos, o longa acompanha os protagonistas sob a luz desse desfecho. Até aí, nenhuma novidade, pois o que torna De Onde Eu Te Vejo tão especial vem em seguida: é verdade que Ana (Fraga) e Fábio (Montagner) se separaram, mas, com o convívio próximo mesmo após a ruptura, eles encontrarão, por vontade do destino e deles próprios, uma nova forma de amar um ao outro.

De Onde Eu Te Vejo, contudo, não é sobre um casal que vira amigo e divide a cama de vez em quando. Ao fazer um morar de frente para o outro em apartamentos de uma mesma rua de São Paulo, o roteiro escrito pela dupla Leonardo Moreira e Rafael Gomes encena sutilezas mais cotidianas e individuais, como o exercício interno que Ana faz quando a filha prefere estar com o pai – e, ao invés de sentir ciúmes da relação dos dois, ela só volta a lembrar o quanto seu ex-marido é um pai querido, devotado e atencioso. O filme faz coro à ideia de um dos personagens de que finais também podem simbolizar recomeços, utilizando situações e sentimentos corriqueiros para revelar que, no fundo, alguns rituais são necessários para compreender que o amor por si só nem sempre consegue compensar os percalços de uma convivência que não dá mais certo. É preciso maturidade para encarar essa verdade, e é exatamente isso o que não falta à equipe de De Onde Eu Te Vejo para colocar tal discussão na tela com uma abordagem muito nostálgica e agridoce.

Alegria e tristeza se misturam em função dessa consciência dos protagonistas em relação ao amor em comum e à necessidade de um afastamento. Existe algo de muito bonito em reconhecer o fim sem cortar laços, o que é plenamente compreendido por Denise Fraga e Domingos Montagner. Eles, que contracenam com um elenco coadjuvante de luxo (Juca de Oliveira, Laura Cardoso, Marisa Orth, Fúlvio Stefanini), são perfeitos ao transitar, da primeira à última cena, pelas memórias e pelo presente de pessoas que – não temos dúvida – sempre se amarão. Montagner, falecido há pouco tempo durante as gravações da novela Velho Chico, fica com uma fatia maior da comédia (o que não é um problema, pois, como diz a Ana de Denise Fraga, as melhores comédias são, na realidade, tristíssimas), enquanto ela, uma das nossas melhores atrizes, entrega sua humanidade de sempre para uma mulher em conflito com a ideia de querer sempre novidade ao mesmo tempo em que, inconscientemente, não se desapega do que já passou – e o fato da poltrona já gasta e esquecida de sua mãe nunca descartada da mobília do novo apartamento é uma simbólica prova disso.

É importante não confundir a leveza e o bom humor presentes em De Onde Eu Te Vejo com superficialidade, pois isso seria uma injustiça com o roteiro e a direção do longa, que, além das leituras que fazem sobre relações amorosas e familiares, entregam uma interpretação muito interessante e contemporânea de São Paulo. Normalmente retratada pelo cinema brasileiro recente como uma cidade imensa que isola pessoas, aqui a capital ganha contornos nostálgicos para a personagem de Fraga, que, através do seu relacionamento com o marido, até deixou de lado a falta que sentia do mar, antes tão importante em sua vida no Rio de Janeiro. Os restaurantes, as janelas e os cinemas paulistanos ajudam a construir o mapa de uma cidade repleta de mudanças (em suas construções, em suas profissões, em suas relações), mas também de um casal que se transformou junto e, simbolicamente, desenhou um mapa próprio com tantas histórias vividas em pontos específicos dessa capital gigante. Com sutileza, De Onde Eu Te Vejo percorre todos esses temas e lugares sem qualquer sinal de dispersão, encerrando sua história no auge, com um emocionante diálogo entre Denise Fraga e Domingos Montagner que é a síntese da maturidade desse filme indiscutivelmente precioso. 

Na coleção… Johnny & June

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Tanto Johnny Cash (Joaquin Phoenix) quanto June Carter (Reese Witherspoon) eram estranhos dentro de suas próprias casas antes de alcançarem o estrelato no mundo da música. Ele, que vivia com uma mãe submissa, um pai alcoolista e à sombra do bondoso irmão, teve que abandonar o convívio familiar em uma longínqua fazenda do estado de Arkansas, nos Estados Unidos, para construir sua própria história depois da trágica e precoce morte do irmão, cuja culpa sempre lhe foi atribuída equivocadamente pelo pai. Já June Carter não veio de um ambiente tão conturbado, pois, desde criança, já sabia o que era o sucesso cantando com a irmã Anita nas rádios. O senso de não pertencimento, no entanto, era o mesmo que consumia Cash, uma vez que June sempre soube que a agraciada com grande talento vocal na família era a irmã, o que, segundo ela, levou-lhe a “fazer graça” nos palcos para que fosse notada de alguma forma. Não há dúvidas de que Johnny & June é infinitamente mais sobre Johnny Cash do que sobre June Carter, mas é a partir do encontro dessas duas histórias que o filme de James Mangold constrói a sua maior força: a de que o amor – o verdade mesmo, não o nascido a partir de conveniências ou do que os outros esperam – é realmente capaz de transformar carreiras, caminhos e pessoas.

Assim como o próprio filme, a mensagem não deixa de ser batida, mas tudo em Johnny & June é bem executado, o que se revela uma ótima surpresa quando é difícil encontrar biografias que assumam uma personalidade tradicional e ainda assim consigam empolgar de alguma forma. Tudo o que já conhecemos a respeito de uma produção nesse formato está presente aqui: a vontade de abarcar a maior quantidade de fatos possíveis, a clássica pegada motivacional para falar sobre um sujeito de origem humilde que conquista a fama aparentemente impossível, os percalços com drogas e bebidas e até a jogada de começar o filme pelo desfecho. Por isso faz a diferença ter um diretor como James Mangold atrás das câmeras. Com uma carreira marcada por vários projetos interessantes (IdentidadeOs Indomáveis Garota, Interrompida), Mangold nunca construiu uma assinatura em seus trabalhos, mas a experiência nos mais diversos gêneros influencia diretamente a segurança narrativa encontrada nesse filme. Ele, que também escreveu o roteiro em parceria com Gill Dennis, nunca torna Johnny & June um relato atropelado da vida de Johnny Cash, especialmente porque o longa dá conta por completo da personalidade do cantor norte-americano.

A duração excessiva permite que Johnny & June transpareça suas formalidades e seus eventuais descuidos, como o de nunca apresentar devidamente a dupla que começa a carreira com o protagonista e depois simplesmente some ou a verdadeira personalidade da primeira esposa do cantor, reduzida a ser a filhinha do papai cuja única função dramática é cuidar da casa e chorar pelo afastamento do marido. Tudo é amplamente compensado por um longa bem sucedido na construção de seu repertório musical (são apenas 11 as músicas interpretadas pelos protagonistas, e quase todas executadas apenas parcialmente) e que a todo momento nos leva ao que mais impressiona em todo o conjunto: a impecável interpretação de Joaquin Phoenix. Em mais um dos tantos momentos que nos lembram das razões de seu nome ser considerado um dos melhores em atividade, Phoenix dá literalmente voz e alma para um Johnny Cash extremamente crível e que ultrapassa qualquer acomodação envolvendo a mera reprodução de trejeitos tão corriqueira em cinebiografias. Reese Witherspoon, que, assim como Phoenix, também canta e toca todos os instrumentos em cena, é uma graça e tem sua parcela de contribuição para o ótimo romance do filme (o que, por outro lado, em nada justifica seu equivocado Oscar de melhor atriz). Entretanto, o show é mesmo de Phoenix nesse longa de emoções sinceras e que ainda segue um pouco mais com o espectador após a sessão, já que é impossível não recorrer à trilha sonora de tempos em tempos.

Na coleção… À Deriva

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Crianças e adultos sentem o tempo de forma muito diferente, e esse é um material riquíssimo para qualquer dramaturgia. À Deriva, dirigido por Heitor Dhalia em 2009, captura bem a tese ao trabalhar dois pontos de vista bastante distintos nesse sentido. Enquanto um veraneio em Búzios, no Rio de Janeiro, pode ser apenas uma pequena temporada de reflexões e discussões para que Clarice (Débora Bloch) e Matias (Vincent Cassel) tentem ajustar os ponteiros de um casamento em pedaços, é bem provável que a jovem Filipa (Laura Neiva), de 14 anos, sinta as semanas veranis como uma difícil e inconsciente jornada de amadurecimento rumo a respostas que só as dores da vida podem trazer. Os pais da garota não se atentam tanto a essa disparidade de tempos enquanto vivem momentos derradeiros de um casamento falido, mas Filipa, cercada por todos os questionamentos da transição para a vida adulta, sabe muito bem o que acontece em casa, o que só amplia a confusão emocional de uma temporada na praia que, em alguns dias, sintetiza o emocional de todos os membros da família.

Exibido na mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes, À Deriva é o exemplo máximo da sofisticação estética e narrativa do diretor pernambucano Heitor Dhalia, que, antes desse filme estrelado pela estreante Laura Neiva e pelos já conhecidos Débora Bloch e Vincent Cassel, havia dirigido NinaO Cheiro do Ralo. No roteiro escrito por ele, com colaboração de Vera Egito, o contexto e a desintegração familiar ganham frescor porque são narrados a partir do ponto de vista da filha do casal. Ao mesmo tempo em que acompanha o atrito entre os pais e secretamente descobre a infidelidade de um deles, a jovem precisa lidar uma adolescência que cada vez mais lhe impõe interesses amorosos e o inevitável desabrochar sexual. Muito à frente do tempo de seus amigos, ela, por de certa forma tomar consciência dessa sua evolução, acha que entende tudo da vida – e essa interpretação errada do que é de fato conhecer a vida lhe coloca equivocadamente a missão de tentar fazer alguma diferença dentro de casa, onde pensa que pode – e deve – influenciar determinadas resoluções que simplesmente estão fora de seu alcance.

Heitor Dhalia, que, logo após a realização de À Deriva viajou aos Estados Unidos para fazer o já esquecido 12 Horas com Amanda Seyfried, só ganha ao transferir a interpretação dos dramas para os olhos de Filipa, até porque, caso contado a partir de visões independentes dos núcleos, o resultado poderia ser dos mais mornos. E o saldo positivo não é apenas na questão do texto: Laura Neiva é espetacular como a garota que pode até não ter a nossa simpatia, mas cujos conflitos nunca despertam indiferença. Em seu primeiro trabalho no cinema (ela, infelizmente, não alcançou o reconhecimento que merecia, inclusive na TV), tira de letra um papel repleto de desafios e não fica devendo nada aos também ótimos Débora Bloch e Vincent Cassel. De estética impecável (não são apenas as belíssimas paisagens de Búzios que engrandecem a fotografia do já falecido Ricardo Della Rosa), À Deriva ecoa após a sessão, claro, pela linda e inesquecível trilha sonora de Antonio Pinto, e, acima de tudo, pela forma franca e natural com que transforma temas essencialmente convencionais em momentos pequenos, mas únicos em suas particularidades.

Questão de golpe

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Que vergonha Aquarius não ter sido escolhido para representar o Brasil no Oscar. De verdade.

Não há como amenizar a situação. Muito menos com o discurso de que ainda não vimos Pequeno Segredo para julgar (e isso também não foi por acaso). A Despedida, por exemplo, que estava no páreo, por mais belo que fosse, não merecia desbancar o filme de Kleber Mendonça Filho.

E é muito simples o porquê. Estamos falando de um Aquarius que concorreu em Cannes (nada menos que o festival de cinema mais importante do mundo) e que, desde lá, consagrou-se como um grande filme, inclusive com torcidas para dar uma indicação ao Oscar de melhor atriz para Sonia Braga.

Ah, e também tem Sonia Braga, ícone de nosso cinema que se tornou nome internacional e há 25 anos mora em Nova York. Essa mesmo que a imprensa internacional saudou como a dona da melhor interpretação feminina de Cannes em 2016 (e que o júri resolveu ignorar).

Pode ser que Pequeno Segredo realmente seja bom, mas, para um filme que ninguém conhece e que até os cinéfilos mais dedicados tiveram que fazer uma pesquisa no Google para conhecê-lo, suas credenciais em nada se assemelham com as de “Aquarius”.

Essa escolha não é exclusivamente questão de qualidade do filme, mas também de chances, estratégias e venda no mercado exterior. Já no caso do Brasil, é questão de golpe mesmo, mais do que nunca. Ou vocês acham que, caso concorresse esse ano, Que Horas Ela Volta?, dedicado aos ex-presidentes Lula e Dilma pela diretora Anna Muylaert, também não seria esnobado? Fora Temer!