Cinema e Argumento

Quem serão os indicados ao Oscar 2017?

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É amanhã, a partir das 11h10 (horário de Brasília), que conheceremos os indicados ao Oscar 2017. A própria página oficial da Academia no Facebook (@TheAcademy) fará uma tramissão ao vivo do anúncio para ninguém ficar de fora. Enquanto isso, o Cinema e Argumento dá seus palpites para as categorias principais do prêmio. Confiram abaixo!

MELHOR FILME
Até o Último Homem
A Chegada
Estrelas Além do Tempo

La La Land: Cantando Estações
Um Limite Entre Nós
Lion: Uma Jornada Para Casa
Manchester à Beira-Mar
Moonlight: Sob a Luz do Luar
A Qualquer Custo

O que pode acontecer: Martin Scorsese surgir de última hora com Silêncio ou o Oscar realmente comprar a proposta de Animais Noturnos. Em um cenário ainda mais surpreendente, é possível até Deadpool chegar entre os finalistas, visto sua indicação aos sindicados de produtores e roteiristas. Com a possibilidade de até dez indicados fica difícil prever (vai entender como Carol não chegou lá ano passado!), mas é mais ou menos por aí…

MELHOR DIREÇÃO
Barry Jenkins (Moonlight: Sob a Luz do Luar)
Damien Chazelle (La La Land: Cantando Estações)
David Mackenzie (A Qualquer Custo)
Garth Davis (Lion: Uma Jornada Para Casa)
Kenneth Lonergan (Manchester à Beira-Mar)

O que pode acontecer: Denis Villeneuve realmente vingar com A Chegada. Mas, como sempre, subestimo a capacidade do Oscar de inovar e deixo Villeneuve de fora para arriscar em direções mais tradicionais do ponto de vista temático: David Mackenzie, que comanda uma mistura de drama, crime e western familiar em uma fazenda do Texas, e Garth Davis, responsável por um drama familiar sobre um garoto que decide ir atrás da família que o perdeu 25 anos atrás.

MELHOR ATRIZ
Amy Adams (A Chegada)
Emma Stone (La La Land: Cantando Estações)
Isabelle Huppert (Elle)
Meryl Streep (Florence: Quem é Essa Mulher?)
Natalie Portman (Jackie)

O que pode acontecer: Meryl Streep ficar de fora para entrar Emily Blunt (A Garota no Trem). Difícil saber até que ponto o Oscar So White do ano passado afetou os votantes (se conscientizou a Academia, pode surgir Ruth Negga com Loving), mas, pelas contas de outros prêmios, Emily Blunt está na frente como uma possível surpresa. Pena que por um filme tão ruim (e por uma indicação atrasada que deveria ter vindo por Sicario: Terra de Ninguém). Ainda assim, é improvável Meryl ficar de fora, principalmente depois do discurso no Globo de Ouro, que foi decisivo para a atriz se firmar em visibilidade entre as cinco finalistas.

MELHOR ATOR
Andrew Garfield (Até o Último Homem)
Casey Affleck (Manchester à Beira-Mar)
Denzel Washington (Um Limite Entre Nós)
Ryan Gosling (La La Land: Cantando Estações)
Viggo Mortensen (Capitão Fantástico)

O que pode acontecer: Viggo Mortensen ou Ryan Gosling não emplacarem. Ambos foram lembrados em todos os grandes prêmios até aqui, mas é importante lembrar: Viggo tem um papel contido demais em comparação ao que o Oscar normalmente costuma reconhecer e Ryan tem a maldição de homens em musicais para quebrar (recentemente, Richard Gere não emplacou indicação por Chicago, assim como Ewan McGregor por Moulin Rouge!). O que beneficia ambos é o fato da disputa não estar acirrada, abrindo margem apenas para Joel Edgerton ser lembrado por Loving ou, mais remotamente, para Tom Hanks dar a volta por cima no Oscar com Sully: O Herói do Rio Hudson.

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Michelle Williams (Manchester à Beira-Mar)
Naomie Harris (Moonlight: Sob a Luz do Luar)
Nicole Kidman (Lion: Uma Jornada Para Casa)
Octavia Spencer (Estrelas Além do Tempo)
Viola Davis (Um Limite Entre Nós)

O que pode acontecer: quase nada, visto que essa é a categoria aparentemente mais fechada entre as quatro de atuação. A seleção acima se repetiu basicamente em todas as listas divulgadas até aqui, o que deixa as cinco candidatas consolidadas na disputa. Em uma jogada de azar, chutaria como surpresa Nicole Kidman sendo novamente esquecida (lembram do ano de Obsessão?) para que Janelle Monáe entre aos 45 de segundo tempo. Lembrando que Monáe está em dois filmes que figuram nas bolsas de apostas: Estrelas Além do Tempo e Moonlight: Sob a Luz do Luar e que sua inclusão pode fazer algo histórico (colocar quatro atrizes negras concorrendo em uma mesma categoria). Ou seja, resta, novamente, saber até que ponto o Oscar So White surtiu efeito.

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Aaron Taylor Johnson (Animais Noturnos)
Dev Patel (Lion: Uma Jornada Para Casa)
Jeff Bridges (A Qualquer Custo)
Lucas Hedges (Manchester à Beira-Mar)
Mahershala Ali (Moonlight: Sob a Luz do Luar)

O que pode acontecer: o Oscar realmente comprar a farsa que é Hugh Grant ser considerado coadjuvante por Florence: Quem é Essa Mulher? Mesmo que o desempenho do ator seja surpreendente na comédia dirigida por Stephen Frears, nada justifica a fraude. Indicado a todos os prêmios, Grant pode repetir o efeito Daniel Brühl em 2014, quando o ator alemão, após uma carreira figurando em todas as listas da temporada, não chegou ao Oscar de coadjuvante por Rush  – No Limite da Emoção (ele também era protagonista em seu respectivo filme). E não vamos subestimar Aaron Taylor-Johnson, que ganhou um Globo de Ouro e, na semana seguinte, uma indicação ao BAFTA. A lembrança nesse segundo prêmio é particularmente sintomática, já que a academia britânica escolheu seus indicados antes do GG revelar seus vencedores.

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Capitão Fantástico
La La Land: Cantando Estações
Manchester à Beira-Mar
A Qualquer Custo
O Lagosta

O que pode acontecer: algumas surpresas, visto que a categoria de roteiro adaptado está muito mais acirrada do que a de original. Ainda assim, o ano parece de poucas alternativas até mesmo entre roteiros, o que pode ser reflexo do bom nível dos favoritos. Entre os originais, deixo de lado Jackie (que perdeu até o suposto fôlego que tinha para dar um segundo Oscar para Natalie Portman) para apostar em O Lagosta. A Academia costuma reservar uma ou mais vagas entre os roteiros para produções alternativas, então fica aí esse palpite.

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Animais Noturnos
A Chegada
Um Limite Entre Nós
Lion: Uma Jornada Para Casa

Moonlight: Sob a Luz do Luar

O que pode acontecer: uma substituição de Animais Noturnos por Estrelas Além do Tempo (representando a ala de escolhas mais tradicionais), Silêncio (se o filme de Martin Scorsese finalemente conseguir nascer nessa temporada) ou até mesmo Deadpool (que surpreendentemente foi indicado ao Writers Guild of America). O filme de Tom Ford é um verdadeiro mistério: enquanto o Globo de Ouro e, principalmente, o BAFTA caíram de amores pela história, o SAG não deu importância alguma – e isso é estranho, já que o ponto mais forte de Animais Noturnos é justamente o elenco. Fora isso, a categoria dá indícios de já estar fechada. 

Melhores de 2016 – Roteiro Original

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O Som ao Redor, longa de estreia do pernambucano Kleber Mendonça Filho, pode até ser mais afiado em determinadas leituras da contemporaneidade brasileira, mas isso não diminui o valor do grande roteiro de Aquarius. É, inclusive, mera questão de estilo. No filme estrelado por Sonia Braga, Kleber reforça sua total influência como uma das grandes vozes do cinema brasileiro. E isso não se deve apenas ao que o filme representou em um conturbado momento político do nosso país. O roteiro escrito por ele, na verdade, encontra sua real excelência em outros aspectos que ficaram em segundo plano na época do lançamento do flonga. Analisado mais isoladamente, Aquarius é, antes de qualquer coisa, um hino à força feminina, construindo, com intensidade e delicadeza, a bela história de uma mulher de meia-idade independente, forte, muito bem posicionada e ativa sexualmente. A partir da riquíssima personalidade de Clara (Sonia Braga), Kleber entrega um roteiro rico em interpretações e reforça, assim como o recente Elle, a ideia que, às vezes, basta uma grande personagem ser plenamente compreendida e lida de forma inteligente em suas mais diversas facetas para que o roteiro de uma obra seja suficientemente fascinante. Ainda disputavam a categoria: De Onde Eu Te Vejo, A Juventude, Spotlight – Segredos Revelados e Sinfonia da Necrópole.

EM ANOS ANTERIORES: 2015 – Que Horas Ela Volta? | 2014 – Relatos Selvagens |  2013 – Antes da Meia-Noite | 2012 – A Separação | 2011 – Melancolia | 2010 – A Origem | 2009 – (500) Dias Com Ela | 2008 – WALL-E | 2007 – Ratatouille

Melhores de 2016 – Figurino

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Com três Oscars na bagagem, Sandy Powell já foi figurinista de mais de 40 filmes e teve a oportunidade de ir do clássico (Shakespeare Apaixonado, A Jovem Rainha Victoria, O Aviador) ao mágico (Cinderela, A Invenção de Hugo Cabret e atualmente criando para Mary Poppins Returns). São muitos os figurinos de destaque em sua admirável carreira, e Carol certamente está entre eles. Antes da elegância incontestável dos casacos e vestidos de Carol (Cate Blanchett) ou da delicadeza e introspecção das roupas de Therese (Rooney Mara), os figurinos impressionam pela imensa inteligência em definir com precisão a personalidade de suas protagonistas e toda a jornada emocional que elas atravessam no filme dirigido por Todd Haynes. Se Therese usa roupas delicadas e de tons mais leves como o verde, representando sua identidade dócil, Carol é frequentemente vista usando vermelho, simbolizando a paixão vista pelos olhos da jovem interpretada por Rooney Mara. Quando se enamoram, ambas frequentemente trocam de cores, o que claramente denota o profundo conhecimento dos figurinos acerca do envolvimento emocional dessas duas mulheres. Já a sociedade que tanto impõe fronteiras às duas se veste com ternos marrons e beges, criando um padrão estético que leva o espectador imediatamente a associá-lós a um impedimento da paixão por qual tanto torcemos. É trabalho de sintonia rara. Ainda disputavam a categoria: Animais Fantásticos e Onde Habitam, Animais Noturnos, Brooklin e A Garota Dinamarquesa.

EM ANOS ANTERIORES: 2015 – Macbeth: Ambição e Guerra | 2014 – O Grande Hotel Budapeste | 2013 – Anna Karenina | 2012 – W.E. – O Romance do Século | 2011 – O Discurso do Rei | 2010 – A Jovem Rainha Victoria | 2009 – O Curioso Caso de Benjamin Button | 2008 – Elizabeth – A Era de Ouro | 2007 – Maria Antonieta

Melhores de 2016 – Design de Produção

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Uma das melhores decisões de Animais Fantásticos e Onde Habitam é criar uma personalidade própria ao invés de ser apenas uma extensão de Harry Potter. E quando falamos sobre personalidade própria, isso também se estende a toda técnica do filme, que, ao transportar sua história do Reino Unido para os Estados Unidos, já ganha uma nova roupagem. Mas Animais Fantásticos é mais ambicioso do que somente a ideia de trocar de país. Unindo a experiência de Stuart Craig no mundo bruxo (ele participou de todos os filmes de Harry Potter) com a competência de James Hambridge em aventuras contemporâneas (ele se junto ao time com Batman: O Cavaleiro das Trevas e 007 – Cassino Royale entre outros grandes trabalhos na bagagem), o design de produção de Animais Fantásticos consegue fazer uma mistura perfeita entre a magia dos bruxos e a normalidade dos trouxas (aos que não sabem: esse é o termo usado para definir quem não faz parte do mundo mágico). Por ambientar boa parte de sua história na vida dos que não desfrutam de feitiços, o longa precisa registrar uma época com fidelidade (a história se passa nos anos 1920), e o faz com grande frescor, além de mesclar tudo isso com a inventividade não menos impressiva de um realidade paralela repleta de cenários transformados pela magia e pela imaginação. Ainda disputavam a categoria: Ave, César!, A Bruxa, Carol e O Roubo da Taça.

EM ANOS ANTERIORES: 2015 – Expresso do Amanhã | 2014 – O Grande Hotel Budapeste | 2013 – Anna Karenina | 2012 – A Invenção de Hugo Cabret | 2011 – Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 | 2010 – O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus | 2009 – O Curioso Caso de Benjamin Button | 2008 – Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet | 2007 – Maria Antonieta

La La Land: Cantando Estações

Here’s to the ones who dream.

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Direção: Damien Chazelle

Roteiro: Damien Chazelle

Elenco: Emma Stone, Ryan Gosling, John Legend, Rosemarie DeWitt, J.K. Simmons, Finn Wittrock, Callie Hernandez, Jessica Rothe, Sonoya Mizuno, Jason Fuchs, Damon Gupton

La La Land, EUA, 2016, Musical/Romance, 128 minutos

Sinopse: Ao chegar em Los Angeles o pianista de jazz Sebastian (Ryan Gosling) conhece a atriz iniciante Mia (Emma Stone) e os dois se apaixonam perdidamente. Em busca de oportunidades para suas carreiras na competitiva cidade, os jovens tentam fazer o relacionamento amoroso dar certo enquanto perseguem fama e sucesso. (Adoro Cinema)

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Foi em setembro de 2014 que uma querida ex-professora do meu ensino fundamental conseguiu colocar em palavras algo que considero fundamental – e, muitas vezes, até pouco praticado, dependendo de quem está no lado de cá da tela – sobre o ato de ir ao cinema. Ela, que tanto me ensinou sobre História, participou da coluna Três atores, três filmes aqui do blog e falou sobre uma trilogia de desempenhos de uma única atriz: a grande Meryl Streep. Dois deles seriam os escolhidos por boa parte do público: A Escolha de Sofia e As Pontes de Madison. Já outro causa ligeira surpresa: Mamma Mia!. Mas os argumentos usados pela Raquel Cirne não só embasam muito bem sua escolha pelo musical de Phyllida Lloyd como também nos trazem ao que La La Land: Cantando Estações agora proporciona mundo afora. “Para ter valor, nem sempre um filme precisa ser questionador, enigmático ou difícil de entender. Também ter que ter música luminosa, leveza, beleza, como aquela linda celebração do casamento com velas penduradas nas árvores… Cinema é magia, e deve ter a função de inspirar, de estimular os sonhos, de colorir a vida”, escreveu. E, realmente, não há descrição mais certeira do que essa para explicar a qual estado de espírito o musical de Damien Chazelle nos leva durante pouco mais de duas horas de projeção.

Não surgem no vácuo a criatividade e a paixão pelo cinema que Chazelle imprime em seu La La Land. Basta retroceder até 2014, mais especificamente aos últimos dez minutos de Whiplash: Em Busca da Perfeição, para lembrar que, desde lá, o diretor não estava de brincadeira. Seria pelo momento final do filme estrelado por Miles Teller e J.K. Simmons armar uma hipnotizante sequência movida a jazz? De certa forma, pois a música é novamente um dos pilares do novo trabalho do diretor. Entretanto, o que impressionava mesmo era como Chazelle orquestrava aquele grand finale: a montagem era habilidosa ao acompanhar os incessantes movimentos dos instrumentos musicais, o som aguçava ainda mais os nossos ouvidos para a grandiosidade da apresentação, os atores passavam por transformações sem praticamente dizer uma palavra sequer e o diretor, entre tantos outros elementos, costurava tudo como se já tivesse uma larga experiência atrás das câmeras, quando, na verdade, Whiplash era apenas o seu segundo longa-metragem aos 29 anos de idade. Se fizermos uma ponte entre os minutos finais daquele filme aos primeiros de La La Land, a lógica de chegar aos sentidos segue a mesma (e isso não é algo ruim): em um (aparente) plano sequência, esse novo musical une coreografia, música, cor, dança, humor, graça e nostalgia com grande vitalidade, deixando muito claro e sem cerimônias que essa é uma experiência sobre sonhos e leveza.

Tratando-se de um longa que se presta a fazer uma homenagem aos musicais, faz total sentido que o número de abertura já jogue o espectador na alegoria porque os títulos do gênero costumam jogar o espectador no centro da musicalidade logo no início. É assim nos clássicos como A Noviça Rebelde (Julie Andrews correndo nas montanhas com “The Sound of Music”) ou em obras mais recentes como o singelo Hairspray – Em Busca da Fama (Nikki Blonsky cantando “Good Morning Baltimore” nas ruas com a maior felicidade do mundo), mas o importante é que isso ilumina o extenso conhecimento que o diretor de La La Land tem acerca dos musicais, inclusive trazendo para sua narrativa referências assumidas como o cinema de Jacques Demy em Os Guarda-Chuvas do Amor e outras pequenas brincadeiras que (nem tão) discretamente nos remetem, por exemplo, a um certo Gene Kelly se apoiando em um poste para cantar “Singin’ in the Rain”. Contudo, curiosamente La La Land é um filme com menos músicas do que o esperado. Isso é um problema? De forma alguma. Primeiro porque o filme também quer encenar um romance à moda antiga (e, para isso, a música não é obrigatória) e segundo porque Chazelle não se restringe a ela para homenagear o gênero – e é fácil perceber a eficiência de demais aspectos que abrangem desde uma ótima trilha instrumental composta por Justin Hurwitz a outras características emblemáticas dos musicais, entre elas, um irresistível número de sapateado. Com ou sem música, La La Land é sempre um deleite.

Homenagens surgem de tempos em tempos, mas o que diferencia La La Land de O Artista, por exemplo, é que o primeiro tem a esperteza de homenagear o clássico no plano contemporâneo, enquanto o segundo, esse sim, era apenas a “mera” homenagem que os contrários ao filme de Damien Chazelle tanto apontam (e desde quando uma obra se prestar a fazer “apenas” um tributo é um problema decisivo?). Capturando a vida de quem tem dificuldades em se tornar artista mesmo quando o mundo está todo na tela de um iPhone, La La Land flerta com o passado, mas se estabelece no presente ao criar coreografias nos famosos engarrafamentos de Los Angeles inclusive com street dance e ao abarcar a contemporaneidade em todos os detalhes da parte técnica, com destaque para o mágico design de produção e para os coloridos figurinos, ambos bem sucedidos ao mesclar a delicadeza da nostalgia com o frescor dos novos tempos. Através da atmosfera, Chazelle leva o espectador por uma viagem sensorial e cativante. E quando cito atmosfera é para justificar a ideia de que o roteiro de La La Land, apesar de estar um pouco acima da média dos roteiros de musicais, não é um aspecto grandioso do conjunto. Toda graça e emoção vem do trabalho de direção que, com o bom uso das ferramentas cinematográficas, torna encantador até mesmo aquele primeiro beijo que nunca acontece porque o celular toca ou porque a luz se apaga na hora errada. 

Essencialmente concentrado em apenas dois personagens, o musical cresce ao entregar grandes responsabilidades a Emma Stone, que está no auge de uma carreira prolífera e que vem ganhando mais espaço nos últimos tempos (até indicação ao Oscar de melhor atriz coadjuvante ela teve por Birdman!). É o segundo musical da atriz, que ganhou o papel em La La Land justamente porque o diretor a viu nos palcos da Broadway com Cabaret. Ela está encantadora como sempre e, agora, reveladora na técnica, com direto até a um número solo onde condensa talento vocal e emoção genuína (“Audition (The Fools Who Dream)”). Emma é, sem dúvida alguma, o tipo de estrela que La La Land precisava. Enquanto isso, Gosling, que andava um pouco econômico em projetos nos últimos anos depois de dramas como Half Nelson, A Garota Ideal e Namorados Para Sempre, surge menos radiante que a colega, mas em momento algum deixa escapar o carisma. O romance entre os dois é especial a partir dos contornos dados por um diretor que reconhece o valor dos sonhos e que, mesmo compreendendo que muitas vezes é necessário abrir mão de alguns em detrimento de outros supostamente mais importantes, nenhum deve perder seu valor diante dos obstáculos impostos pela vida. La La Land termina com o clássico The End, mudando um pouco a pegada do que décadas atrás indicava a proximidade desse letreiro (mais uma atualização do filme!), mas sem jamais abandonar a certeza de que sonhar é sempre um lindo estado de espírito. Mesmo quando precisamos manter os pés bem firmes no chão.