Cinema e Argumento

Melhores de 2016: indicados

carolmelhores

Lembrado em oito categorias, o drama Carol é o líder de indicações da lista de melhores do ano do Cinema e Argumento em 2016. As produções A BruxaA JuventudeAquarius e Ponto Zero aparecem em segundo lugar com cinco indicações cada.

Essa é uma lista de escolhas guiadas basicamente pelo coração. Também é uma lista que tenta, na medida do possível, conciliar os filmes de viagens profundamente pessoais com aqueles que, aqui ou ali, conquistaram nossa admiração cinematográfica em determinados aspectos. Quando se pensa prioritariamente com o coração, muita coisa legal pode ficar de fora (Boi Neon, por exemplo, que é um ótimo filme), mas nada é melhor do que a autenticidade em um momento como esse. Liderando a nossa seleção de melhores filmes de 2016, o drama Carol concorre em oito categorias (filme, direção, atriz para Cate Blanchett e Rooney Mara, roteiro adaptado, trilha sonora, design de produção e figurino), seguido de perto pelos brasileiros AquariusPonto Zero, representando o ano marcante para produções realizadas no nosso país (De Onde Eu Te VejoA DespedidaSinfonia da Necrópole ainda são lembradas em categorias pontuais) e por A Bruxa A Juventude, todos com cinco indicações cada. Os vencedores serão divulgados nos próximos posts aqui do blog. Enquanto isso, não deixe de conferir na aba melhores do ano os nossos vencedores desde 2007.

MELHOR FILME
Aquarius
Carol
Elle
A Juventude
Ponto Zero

MELHOR DIREÇÃO
José Pedro Goulart (Ponto Zero)
Kleber Mendonça Filho (Aquarius)
Paul Verhoeven (Elle)
Robert Eggers (A Bruxa)
Todd Haynes (Carol)

MELHOR ATRIZ
Cate Blanchett (Carol)
Denise Fraga (De Onde Eu Te Vejo)
Isabelle Huppert (Elle)
Rooney Mara (Carol)
Sonia Braga (Aquarius)

MELHOR ATOR
Domingos Montagner (De Onde Eu Te Vejo)
Hugh Grant (Florence: Quem é Essa Mulher?)

Jacob Tremblay (O Quarto de Jack)
Michael Fasbender (Steve Jobs)

Nelson Xavier (A Despedida)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Anya Taylor-Joy (A Bruxa)
Jane Fonda (A Juventude)
Jennifer Jason Leigh (Os Oito Odiados)

Juliana Paes (A Despedida)
Kate Winslet (Steve Jobs)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Aaron Taylor-Johnson (Animais Noturnos)
Humberto Carrão (Aquarius)
Michael Shannon (Animais Noturnos)
Steve Carell (A Grande Aposta)
Tom Hardy (O Regresso)

MELHOR ELENCO
A Juventude
Animais Noturnos
Aquarius
De Onde Eu Te Vejo
Spotlight – Segredos Revelados

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Aquarius
De Onde Eu Te Vejo
A Juventude
Sinfonia da Necrópole

Spotlight – Segredos Revelados

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Carol
A Chegada
Elle
Steve Jobs

O Quarto de Jack

MELHOR MONTAGEM
O Contador
A Grande Aposta
Ponto Zero
Spotlight – Segredos Revelados
Steve Jobs

MELHOR FOTOGRAFIA
A Bruxa
A Chegada

Fogo no Mar
Ponto Zero
O Regresso

MELHOR TRILHA SONORA
A Bruxa
A Chegada
Carol
Ponto Zero
O Regresso

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
Animais Fantásticos e Onde Habitam
Ave, César!
A Bruxa
Carol
O Roubo da Taça

MELHOR FIGURINO
Animais Fantásticos e Onde Habitam
Animais Noturnos
Brooklin
Carol
A Garota Dinamarquesa

MELHOR SOM
A Chegada
O Contador

Ponto Zero
O Regresso
O Silêncio do Céu

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“Canção da Metrópole” (Sinfonia da Necrópole)
“None of Them Are You” (Anomalisa)
“Simple Song #3” (A Juventude)
“Still Falling for You” (O Bebê de Bridget Jones)

“Try Everything” (Zootopia – Essa Cidade é o Bicho)

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Animais Fantásticos e Onde Habitam
Deadpool
Doutor Estranho

MELHOR MAQUIAGEM E PENTEADOS
Ave, César!
Florence: Quem é Essa Mulher?
A Garota Dinamarquesa

Adeus, 2016! (e as melhores cenas do ano)

Tem virado rotina: ao final de cada ano, encerro os trabalhos do blog dizendo que vi menos filmes do que gostaria (o que se reflete, claro, na quantidade de textos que publiquei aqui). Não foi diferente em 2016, que foi, como muitos já disseram, um período difícil para praticamente todo mundo. No entanto, se não assisti a tantos filmes quanto planejava, pelo menos estar no escuro do cinema me trouxe momentos altamente recompensadores. Poucas foram as vezes em que conferi uma quantidade tão restrita de produções, mas que me comovi tanto com a maioria delas. Gosto de acreditar que também vem um pouco da experiência: com o passar dos anos, dispensei filmes em que era fácil identificar, pelo trailer ou pelo que era repercutido do projeto, o gosto duvidoso ou a péssima qualidade das obras em questão. Tentando regular a falta de tempo com o que poderia ver de melhor, fui bastante arrebatado e tento sintetizar na lista abaixo, os momentos que mais ficaram comigo ao longo de 2016. As minhas cenas favoritas do ano estão elencadas por ordem de preferência, e espero que vocês gostem da seleção. Em 2017, quero continuar contando com a melhor companhia para curtir o cinema: vocês. Feliz ano novo e até lá!

carolscene

#1 – Um sorriso na multidão (Carol)

Filmes como O Segredo de Brokeback MountainAzul é a Cor Mais Quente, citando obras mais célebres do universo LGBT, são sempre bem-vindos, mas também precisamos de mais experiências como a de Carol, onde o romance se sobrepõe ao drama. O filme de Todd Haynes não se exime de discutir questões importantíssimas do ponto de vista dramático, porém, o foco aqui é outro. No maravilhamento de descobrir o amor e na felicidade de finalmente realizá-lo, a história de Carol (Cate Blanchett) e Therese (Rooney Mara) encanta do início ao seu emblemático fim, que é o nosso momento favorito do cinema em 2016. É reconfortante, esperançoso e até mesmo de tirar o fôlego, seja por aquilo que comunica ou por sua concepção estética (como esquecer a trilha de Carter Burwell?). Impecável.

pzeroscene

#2 – Os astronautas e a piscina (Ponto Zero)

Destaque no grupo de filmes que mexeram intimamente comigo em 2016, Ponto Zero não poderia deixar de estar presente nessa lista, tanto pelo fator emoção quanto pelo apuro técnico. Não é preciso pensar duas vezes: a cena que abre o filme – e depois se repete ao final dele com importantes complementos narrativos – impacta sensorialmente (reforço aqui meu apreço pela trilha sonora assinada por Leo Henkin) e deixa o recado: certas distâncias são dolorosas, mas somente nós podemos suportar os nossos próprios pesos e juntar forças para jogá-los ao alto. Aos olhos, esse momento de Ponto Zero é puro encantamento. Ao coração, será sempre uma forma de remontar nossos pedaços.

aquariuscene

#3 – Clara (Sonia Braga) diz a Diego (Humberto Carrão) que só sairá morta de seu apartamento (Aquarius)

Há quem prefira a cena final (também maravilhosa), mas possivelmente não exista sequência que sintetize com tanta maestria as discussões de Aquarius do que essa em que Clara chega no limite de sua paciência com Diego e afirma categoricamente que só sairá morta de seu apartamento. No tenso encontro (conduzido de forma extremamente simples no texto e na direção, o que só amplia sua veracidade), o diretor e roteirista Kleber Mendonça Filha dá um tapa de luva em muita gente, em especial nas pessoas que, como bem diz a protagonista, acham que dinheiro define caráter. Sem qualquer proselitismo, a cena mexe em muitas feridas de um Brasil contemporâneo – e, de quebra, entrega o melhor momento de Sonia Braga em toda a projeção.

tevejoscene

#4 – “Você pediria em casamento a pessoa que eu sou hoje?” (De Onde Eu Te Vejo)

Distribuindo sensibilidade em cada uma de suas cenas, De Onde Eu Te Vejo alcança um novo patamar nos seus minutos derradeiros quando une dois momentos de forma impecável. Primeiro, a viagem de Fábio (Domingos Montagner) por lugares de São Paulo que marcaram seu relacionamento com Ana (Denise Fraga) a partir de uma carta em forma de gravação escrita por ela. Segundo, o emocionante encontro da dupla, quando, em poucas palavras, ambos reconhecem a beleza de uma história de amor e também da maturidade em reconhecer o fim dela. Tanto Denise quanto Domingos combinam perfeitamente e são fundamentais para a emoção que uma cena como essa é capaz de transmitir.

youthscene

#5 – “Simple Song #3” (A Juventude)

Como conferir as duas horas de A Juventude sem criar expectativas pela execução da canção “Simple Song #3”? E não é apenas pela beleza musical de uma ópera que o momento emociona, mas principalmente porque muito da história do maestro Fred Ballinger (Michael Caine) se ilumina a partir dele. A soprana sul-corena Sumi Jo é um arraso ao interpretar a canção, ampliando de forma natural a dramaticidade de uma cena que, assim como tantas outras do longa dirigido pelo italiano Paolo Sorrentino, comove tanto pela emoção propriamente dita quanto pela beleza com que é capturada.

roomscene

#6 – Encontro com o céu (O Quarto de Jack)

A primeira metade de O Quarto de Jack dá um baile na segunda, e é a transição entre elas que reserva o momento mais emblemático do filme. Elogiar o garotinho Jacob Tremblay é chover no molhado, mas não custa reforçar: seu trabalho aqui é coisa de gente grande (e de deixar a celebrada Brie Larson muitas vezes em segundo plano), especialmente nessa cena que, muitíssimo bem dirigida por Lenny Abrahamson, pula de uma crescente tensão para uma inegável beleza dramática em questão de segundos. Presenciar Jack (Tremblay) contemplando um céu limpíssimo com olhos de puro encantamento é de arrepiar.

brooklynscene

#7 – “Não há nada que você possa fazer além de resistir” (Brooklin)

Carinhoso drama de forma clássica, Brooklin carrega boa parte de seu charme na ótima interpretação de Saoirse Ronan ao mesmo tempo em que a direção de John Crowley extrai elegância e delicadeza de situações que, analisadas essencialmente pelo texto, poderiam muito bem descambar para o clichê. Um reencontro da protagonista nos minutos finais da projeção comprovam essa tese. É impossível não se emocionar com o que é visto na tela, mesmo que o espectador já tenha deduzido minutos antes o que estava prestes a acontecer. A narração é sincera, o tom é sutil e a emoção surge irresistível.

anomalisascene

#8 – “Girls Just Wanna Have Fun” (Anomalisa)

Anomalisa é uma experiência emocionalmente marcante. Com uma excepcional dublagem onde se destaca o delicado trabalho de Jennifer Jason Leigh, o filme da dupla Charlie Kaufman e Duke Johnson transforma uma divertida canção como Girls Just Wanna Have Fun em algo profundamente tocante. O momento em que a música de Cindy Lauper ganha vida sintetiza toda a maturidade e a delicadeza dessa obra que discute, com muito talento, questões íntimas que volta e meia soam até superficiais em inúmeros dramas com pessoas de carne e osso.

nocturnalscene

#9 – Mesa para dois? (Animais Noturnos)

Filme que divide opiniões, Animais Noturnos tem muitos momentos que só poderiam levar a assinatura do estilista e cineasta Tom Ford. O meu favorito, no entanto, tem menos a ver com apuro estético e mais com apuro emocional. Lindamente vestida (óbvio) para um aguardando encontro, Susan (Amy Adams) chega a um restaurante, pede uma bebida e… aguarda. Ford captura com maestria o que acontece nessa espera, e a trilha de Abel Korzeniowski só engrandece tudo o que se passa internamente com a protagonista em um momento aparentemente corriqueiro mas interminável. Um deslumbre de dramaticidade!

despedidacena

#10 – Almirante (Nelson Xavier) acorda (A Despedida)

São simplesmente arrebatadores os primeiros minutos de A Despedida, onde o veterano Nelson Xavier se despe (literalmente) de qualquer vaidade para mostrar a via crucis enfrentada por seu personagem para simplesmente levantar da cama, escovar os dentes e se vestir. O trabalho físico do ator é irretocável, mas também existe muito vindo de dentro para fora. Mais do que isso, a sequência de abertura impressiona pela ousadia de sua condução (são longos minutos que transcorrem sem pressa alguma) e pelo apuro dos sentidos (o trabalho de som é fantástico e fundamental para a imersão do espectador). Uma bela abertura para um grande filme.

Rapidamente: “Águas Rasas”, “O Contador”, “Neruda” e “Nós Duas Descendo a Escada”

nerudamovie

Poesia e realidade se misturam nos melhores momentos de Neruda, que se engrandece em todos os sentidos ao deixar de lado as formalidades históricas.

ÁGUAS RASAS (The Shallows, 2016, de Jaume Collet-Serra): O desafio que existe em assistir a Águas Rasas é o mesmo de todos os outros filmes do diretor espanhol Jaume Collet-Serra: saber até que ponto devemos nos desprender de coincidências e exageros para realmente curtir a experiência. O cinema realizado por ele é indiscutivelmente comercial (levam sua assinatura os suspenses de gosto duvidoso A Casa de CeraA Órfã, além de outras obras mais inofensivas mas igualmente esquecíveis como Sem Escalas), estilo que está novamente impresso em Águas Rasas, que não consegue se esquivar de comparações com o indie Mar Aberto e com (obviamente) o clássico Tubarão. Ou seja, nada de muito novo é contado aqui, e o jeito é não levar a situação muito a sério para embarcar na proposta que, quando encarada dessa forma, diverte e prende a atenção. Tecnicamente, Águas Rasas capta o realismo da tensão vivida pela protagonista, o que é fundamental para não tirar o espectador do filme. O problema é que, assim como em todos os filmes do diretor, a situação sai do controle nos momentos derradeiros, abusando da boa vontade do espectador de todas as formas possíveis. Águas Rasas não escapa disso, construindo um clímax de resoluções hiperbólicas para uma história que, de repente, passa a ser sobre a implicância pessoal de um tubarão com uma surfista. Aí sim, em um momento tão crucial, o longa dá uma daquelas rasteiras que desprendem a plateia por completo da experiência. 

CONTADOR, O (The Accountant, 2016, de Gavin O’Connor): Cinco anos após o extraordinário Guerreiro, o diretor Gavin O’Connor volta a misturar ação e drama em uma receita, que, dessa vez, prioriza o primeiro gênero ao segundo. Particularmente, prefiro a composição inversa (é ela que me faz ser tão fã de Guerreiro), o que não chega a tirar os méritos de O Contador, um filme bem executado e que reforça a mão firme de O’Connor atrás das câmeras. Mas, nesse caso, é uma questão de gosto: ao conduzir uma trama essencialmente investigativa, o longa, cujo roteiro é escrito por Bill Buduque (que estreou mal no cinemas em 2014 com o tedioso O Juiz), termina por se emaranhar em uma série de situações e complicações desnecessárias, tornando a história embolada demais em vários momentos. E quando não há nada de muito revelador saindo dessa cerimônia toda, fica a impressão de que tudo não passou de um capricho (algo que tem se tornado a especialidade de Christopher Nolan desde Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge). A situação é exatamente essa com O Contador, que tem um elenco de suporte digno de nota (J.K. Simmons, John Lithgow, Jeffrey Tambor), mas parece não sacar que é no confronto – inclusive físico – do protagonista com seu passado, seus fantasmas e suas raízes familiares que O Contador ganha uma força que vai além da mera testosterona que Gavin O’Connor tem inegável facilidade em colocar na tela.  

NERUDA (idem, 2016, de Pablo Larraín): Já de fora da lista de pré-selecionados ao Oscar 2017 de melhor filme estrangeiro, Neruda marca a nova parceria entre o diretor Pablo Larraín e o astro Gael García Bernal, que trabalharam juntos no excelente No. O resultado aqui é mais irregular porque Neruda traz dois filmes dentro de um: enquanto a primeira parte não passa de um correto relato histórico (que, dependendo da disposição, pode ser até um pouco sonolento), a segunda esbanja criatividade ao se apropriar da poesia chilena de Pablo Neruda para costurar a trama. A quebra narrativa do filme é clara, e é de se perguntar porque Larraín perde tanto tempo com as cerimônias de contextualização histórica ao invés de simplesmente traduzir, desde o início, a bela obra do poeta para toda a narrativa do filme. Quando se torna um filme mais poético do que histórico, Neruda entrega momentos genuinamente emocionantes do ponto de vista não apenas emocional, mas também cinematográfico (as cenas finais de Gael na neve são impecáveis). Com essa libertação, o longa fascina ao misturar realidade e ficção e ao refletir sobre o protagonismo de cada personagem na trama (e, por que não, na vida). É aí que está o verdadeiro DNA do cinema de Larraín: no olhar criativo e diferenciado que lança para todo e qualquer tema – até mesmo os aparentemente banais. 

NÓS DUAS DESCENDO A ESCADA (idem, 2016, de Fabiano de Souza): Se Nós Duas Descendo a Escada tem um mérito inegável, esse é o de não problematizar a questão sexual de suas duas protagonistas. Ao contrário do que se vê nos filmes mais rasteiros de temática LGBT, a obra assinada por Fabiano de Souza não se preocupa em radiografar preconceitos para ter algum estofo dramático. Professor e critico de cinema, o gaúcho prefere contar uma história muito cotidiana sobre duas mulheres que se apaixonam e que, depois, precisam aprender a lidar com a desconstrução desse amor. A forma quase caseira com que Nós Duas Descendo a Escada é filmado poderia ser um ganho em realismo caso o roteiro e as ideias não fossem tão frágeis. Abarrotado de referências literárias, musicais e cinematográficas que saltam de forma gratuita e pouco orgânica na tela, o longa aposta em obviedades até na concepção de suas personagens: enquanto a Mona de Carina Dias é a clássica mulher madura, experiente e bem resolvida, a Adri de Miriã Possani é a jovem insegura em questões, pessoais, sexuais e profissionais, evidenciando um contraponto que já foi insistentemente explorado em produções memoráveis como Azul é a Cor Mais QuenteCarol. Como vitrine para duas boas atrizes e um bom passeio por Porto Alegre, Nós Duas Descendo a Escada tem seu valor. Já todo o resto está muitos degraus abaixo.

Animais Noturnos

When you love someone, you have to be careful with it. You might never get it again.

nocanimalsposter

Direção: Tom Ford

Roteiro: Tom Ford, baseado no livro “Tony & Susan”, de Austin Wright

Elenco: Amy Adams, Jake Gyllenhaal, Michael Shannon, Aaron Taylor-Johnson, Armie Hammer, Laura Linney, Isla Fisher, Jena Malone, Andrea Riseborough, Robert Aramayo, Karl Glusman, Ellie Bamber

Nocturnal Animals, EUA, 2016, Drama/Suspense, 116 minutos

Sinopse: Susan (Amy Adams) é uma negociante de arte que se sente cada vez mais isolada do parceiro (Armie Hammer). Um dia, ela recebe um manuscrito de autoria de Edward (Jake Gylenhaal), seu primeiro marido. Por sua vez, o trágico livro acompanha o personagem Tony Hastings, um homem que leva sua esposa (Isla Fisher) e filha (Ellie Bamber) para tirar férias, mas o passeio toma um rumo violento ao cruzar o caminho de uma gangue. Durante a tensa leitura, Susan pensa sobre as razões de ter recebido o texto, descobre verdades dolorosas sobre si mesma e relembra traumas de seu relacionamento fracassado. (Adoro Cinema)

NOCTURNAL ANIMALS

Por exercício e vocação, Tom Ford é, sem trocadilhos, um sujeito de estilo. Ao resgatar a Gucci de uma trajetória decadente, fez com que a marca se tornasse um negócio bilionário. Anos depois, comprou a Maison Yves Saint-Laurent, onde assumiu o cargo de comandante do negócio após a saída do lendário estilista francês em 2002. Isso é o que, em linhas muito gerais, resume todo o poder de Tom Ford no mundo da moda. Por outro lado, o que ninguém esperava é que ele, aos 48 anos, decidisse se tornar cineasta (sem abandonar a indústria da moda, claro). E um cineasta dos mais incríveis: lançado em 2009, Direito de Amar representa um trabalho muito íntimo de Ford, mas que revela um diretor cujo talento ultrapassa todas as fronteiras relacionadas a sua mera identificação pessoal com o material original (o livro A Single Man, de Christopher Isherwood). Obviamente, tanto em Direito de Amar quanto agora em Animais Noturnos, a estética é elemento primordial para o estilista no cinema. A diferença é que, enquanto no primeiro ela exaltava as pequenas belezas de um cotidiano essencialmente morto, no segundo a situação se inverte com requintes que representam desde profundos vazios existenciais até interessantes provocações sobre um mundo de aparências.

Com um pulsante vermelho, Animais Noturnos descortina seus contrapontos logo na sequência de abertura, onde mulheres obesas aparecem nuas dançando como cheerleaders. Ford, apoiado pela trilha orquestral sempre impressiva do polonês Abel Korzeniowski, faz questão de endeusá-las como mulheres dignas de uma obra de arte. E elas realmente são: poucos minutos depois, o filme revela que todas fazem parte de uma exposição multimídia promovida por Susan (Amy Adams), a riquíssima dona de uma galeria de arte que leva uma vida onde belos saltos altos, impecáveis maquiagens e irresistíveis armações de óculos não conseguem camuflar a tristeza de uma mulher incompleta. Se Susan impacta em um primeiro momento com tanta elegância para depois se mostrar um ser humano insatisfeito, seu marido não fica muito atrás: a beleza de Hutton (Armie Hammer) soa quase artificial e, à beira da falência, tudo o que ele pode fazer é se agarrar ao que tem de mais sedutor no exterior para conseguir manter novos casos extraconjugais. O belo é feio (ou pelo menos desesperançoso) em Animais Noturnos, o que certamente é uma bela oportunidade para uma atriz talentosa como Amy Adams. A incompletude da protagonista se agrava quando ela recebe um manuscrito de seu ex-marido, que, ao escrever um romance violento e perturbador, dá a entender que ainda há algo a ser dito para a mulher que partiu seu coração e o abandonou anos atrás.

A partir desse manuscrito, que será lido da forma mais dramática possível por Susan (um dos maneirismos equivocados de Tom Ford), Animais Noturnos passa a narrar a história desse material, tentando desvendar o quanto ele pode ter relações com a vida real da protagonista. Nesse universo paralelo onde Tony (Jake Gyllenhaal) vive uma noite de terror com a mulher e a filha na beira da estrada, a beleza inexiste. O que importa nele – e com toda a razão – é a crueza dos fatos e, principalmente, dos personagens, todos basicamente homens que se entregam a emoções conturbadas como a covardia, o masoquismo e o senso cego de fazer justiça com as próprias mãos. É nessa fatia de Animais Noturnos que se revela o talento de Tom Ford em conseguir impactar sem qualquer alegoria estética, já que existe uma constante tensão na história, seja pela imprevisibilidade de todos os personagens (do sádico marginal vivido por Aaron Taylor-Johnson ao xerife anti-convencional de Michael Shannon, ambos ótimos) ou pela própria forma como o diretor captura o nervosismo de cada momento (a perseguição na estrada é uma das sequências mais tensas do ano). Sem dúvida, esse livro lido por Susan ganha contornos muito mais interessantes pelas leituras de Tom Ford.

Todavia, como se espera na maioria dos casos, Animais Noturnos se enfraquece ao ter que lidar com a estrutura de dois filmes dentro de um. E isso tem menos a ver com a lógica de que uma história é mais interessante do que outra (até no excepcional Relatos Selvagens temos as nossas preferências entre os capítulos) e mais com a forma com que o longa costura as duas tramas. A história da personagem de Amy Adams depende diretamente da que é contada no livro lido por ela para que o círculo possa se completar com mais sentido, e é aí que o roteiro escrito por Tom Ford não tem o mesmo refinamento da direção. Se não bastassem as transições óbvias entre um universo e outro para mostrar o quanto os dois universos conversam (o barulho de um tiro no livro repercute em um pássaro na janela assustando Amy Adams, por exemplo), ainda é preciso que o cineasta force um pouco a barra em soluções visuais para abrir os olhos do espectador quanto ao que está sendo discutido nas entrelinhas, como se a história não se bastasse por si só. Isso está claramente refletido na cena em que Ford faz uma personagem desfilar em um corredor onde está pendurado um quadro imenso com a palavra “vingança”. E mais: ainda a coloca para contemplar a obra. É certo que o paralelo entre os dois mundos já não é o mais revelador, mas o fato do diretor arranjar soluções pouco criativas para a conversa deles dá mais uma leve amortecida na situação.

De qualquer forma, Animais Noturnos, mesmo com eventuais fragilidades, é um filme perfeitamente eficiente, muito em função da mão segura de Tom Ford como diretor. Seu nome ainda revela outro prestígio: o que alcançou dentro do círculo de atores em Hollywood. Afinal, são poucos os diretores que conseguem reunir tantos profissionais de prestígio como Amy Adams, Jake Gyllenhaal, Michael Shannon e Aaron Taylor-Johnson em um elenco que ainda conta com grandes atores como Laura Linney em pontas reveladoras do ponto de vista dramático. O elenco é um dos grandes méritos de Animais Noturnos, o que não deixa de ser uma ramificação do bom trabalho de Tom Ford atrás das câmeras. Afinal, de nada adianta atores talentosos se não existe alguém com uma clara noção do que quer para direcioná-los. No fim, pode ser que a mais nova investida do diretor-roteirista-estilista não tenha a mesma potência que o seu trabalho de estreia. Isso não quer dizer, contudo, que Animais Noturnos não preserve grande parte de sua reconhecida e admirável assinatura, estampada também na cena final, que, assim como em Direito de Amar, induz ao alento para em seguida nos despedaçar de alguma forma. Coisas de Tom Ford. Há quem compre. Outros que detestem. Particularmente, com uma ressalva aqui e outra ali, sigo aprovando.

Sully: O Herói do Rio Hudson

Everything is unprecedented until it happens for the first time.

sullyposter

Direção: Clint Eastwood

Roteiro: Todd Komarnicki, baseado no livro “Highest Duty: My Search for What Really Matters”, de Chesley ‘Sully’ Sullenberger e Jeffrey Zaslow

Elenco: Tom Hanks, Aaron Eckhart, Laura Linney, Anna Gunn, Valerie Mahaffey, Delphi Harrington, Mike O’Malley, Jamey Sheridan, Holt McCallany, Katie Couric, Blake Jones, Molly Bernard

Sully, EUA, 2016, Drama, 95 minutos

Sinopse: 15 de janeiro de 2009. Logo após decolar do aeroporto de LaGuardia, em Nova York, uma revoada de pássaros atinge as turbinas do avião pilotado por Chesley “Sully” Sullenberger (Tom Hanks). Com o avião seriamente danificado, Sully não vê outra alternativa senão fazer um pouso forçado em pleno rio Hudson. A iniciativa é bem sucedida, com todos os 150 passageiros a bordo sendo salvos. Tal situação logo transforma Sully em um grande herói nacional, o que não o isenta de enfrentar um rigoroso julgamento interno coordenado pela agência de regulação aérea nos Estados Unidos. (Adoro Cinema)

Faz parte das afirmações dolorosas de serem feitas, mas é impossível se esquivar: Clint Eastwood tem se tornado um cineasta cada vez mais irrelevante. Se, entre 2003 e 2006, os anos foram de ouro para o veterano diretor (Sobre Meninos e LobosMenina de OuroCartas de Iwo Jima!), a situação só desandou dali em diante: apesar das atividades ininterruptas, sua carreira vem oscilando entre a inexpressividade (Invictus), o tédio (Além da Vida) e o mero patriotismo (Sniper Americano). O que parecia ser um caminho sem volta realmente se confirma com a estreia de Sully: O Herói do Rio Hudson, longa que, para piorar, reúne todos os aspectos negativos que pautaram a filmografia recente de Eastwood.

Os problemas cruciais de Sully começam ainda em sua concepção. Afinal, como expandir para quase 100 minutos a dramaturgia de um evento real que durou aproximadamente três minutos e meio? Além: onde está o conflito de uma trama centrada em um evento que, fadado a terminar em tragédia, acabou preservando a vida de mais de 150 pessoas? Dessa forma, o roteiro escrito por Todd Komarnicki faz de tudo para dar algum estofo dramático à jornada do protagonista, um piloto veterano que, ao confiar mais na sua experiência e nos seus sentidos humanos, reescreveu o destino ao pousar um grande avião no rio Hudson dos Estados Unidos para salvar seus tripulantes com sucesso. Só que a missão de problematizar esse feito heroico é falha, pois basta uma pequena perspectiva para perceber que não há nada a ser problematizado ali.

Tentando compensar a base dramática fragilíssima de Sully, erram tanto Kormanicki quanto Eastwood. O primeiro sobrecarrega o filme com firulas desnecessárias como os flashbacks da adolescência do protagonista que, aleatórios, não iluminam nada sobre o presente dele ou como os diferentes pontos de vista que o longa adota na hora de encenar seu grande evento (superficialmente, acompanhamos as histórias individuais de alguns passageiros antes de eles embarcarem no avião). Enquanto isso, o diretor frequentemente força a barra no tom dramático que dá aos eventos, indo de cenas dignas de novela quando perturba Sully (Tom Hanks) com falas de outros personagens que pipocam em sua mente ao conceito que aplica no comportamento da equipe de Segurança Aérea cuja única missão parece ser inexplicavelmente destruir a carreira do protagonista. 

Tom Hanks, um cara bacana até quando atua no piloto-automático, é o sujeito perfeito para um papel como o de Sully: homem correto e de carreira respeitável, o protagonista exalta o retrato do cidadão norte-americano íntegro que os Estados Unidos adoram ver nas telas. Em contramão, o filme subutiliza duas grandes atrizes, aqui escaladas para papeis rasteiros para seus respectivos talentos. A primeira é Laura Linney, que dispensa comentários, mas nada tem a fazer a não ser falar ao telefone com o marido sem nunca contracenar com ele. A segunda é Anna Gunn, a eterna Skyler White de Breaking Bad, reduzida ao papel unidimensional da única investigadora feminina do time que quer derrubar o heroico piloto. Fica a dúvida: por que selecionar intérpretes tão talentosas para papeis esquecíveis como esse? Talvez seja mais uma jogada para desviar a atenção do fato de que o que mais falta em Sully é uma história.