Com o furacão La La Land: Cantando Estações de fora da categoria principal, o drama Manchester à Beira-Mar é o favorito e líder de indicações ao Screen Actors Guild Awards 2017.
Seguindo a primeira semana movimentada da temporada de premiações, hoje foi o dia de conhecermos os indicados ao Screen Actors Guild Awards, prêmio cujo corpo de jurados é formado exclusivamente por atores. Com a exclusão não tão inesperada de La La Land: Cantando Estações da categoria de melhor elenco (não há nomes tão expressivos entre os intérpretes fora Emma Stone e Ryan Gosling, ambos lembrados em suas respectivas categorias), o que surpreendeu mesmo foi a inclusão de Um Limite Entre Nós, visto que ele segue a mesma lógica de La La Land: aparentemente, parece que esse é um show apenas da dupla Viola Davis e Denzel Washington. De resto, ao que tudo indica, a briga pela categoria de melhor elenco está entre Manchester à Beira-Mar (líder de indicações e favorito na categoria de melhor ator) e Moonlight, os dois dramas mais celebrados da temporada.
Nas categorias individuais, a que sofreu uma boa mexida foi a de melhor atriz: com a exclusão de Annette Benning (20th Century Women), quem surpreendentemente ganhou a vaga foi Emily Blunt, que é ótima em A Garota no Trem, mas é feio vê-la concorrendo por um filme ruim, especialmente quando Isabelle Huppert (Elle) ficou de fora da disputa. Dando continuidade a sua boa semana, Florence: Quem é Essa Mulher? carimbou mais uma indicação para Meryl Streep (que cada vez mais se aproxima de uma vigésima indicação ao Oscar, já que a atriz também tem tudo para ganhar uma indicação ao BAFTA) e viu seu movimento de fraude para Hugh Grant dar certo com a nomeação do ator na categoria de coadjuvante. Entre os homens, quem ganha força é Andrew Garfield (Até o Último Homem), estabelecendo-se de vez em uma seleção já consolidada. Confira abaixo os indicados nas categorias de cinema:
MELHOR ELENCO Capitão Fantástico Estrelas Além do Tempo
Um Limite Entre Nós Manchester à Beira-Mar Moonlight
MELHOR ATRIZ Amy Adams (A Chegada) Emily Blunt (A Garota no Trem) Emma Stone (La La Land: Cantando Estações) Meryl Streep (Florence: Quem é Essa Mulher?) Natalie Portman (Jackie)
MELHOR ATOR Andrew Garfield (Até o Último Homem) Casey Affleck (Manchester à Beira-Mar) Denzel Washington (Um Limite Entre Nós) Ryan Gosling (La La Land: Cantando Estações) Viggo Mortensen (Capitão Fantástico)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE Michelle Williams (Manchester à Beira-Mar) Naomie Harris (Moonlight) Nicole Kidman (Lion) Octavia Spencer (Estrelas Além do Tempo) Viola Davis (Um Limite Entre Nós)
MELHOR ATOR COADJUVANTE Dev Patel (Lion) Hugh Grant (Florence: Quem é Essa Mulher?) Jeff Bridges (A Qualquer Custo) Lucas Hedges (Manchester à Beira-Mar) Mahershala Ali (Moonlight)
O musical La La Land concorre em sete categorias do Globo de Ouro. Dirigido por Damien Chazelle, o filme estreia dia 19 de janeiro de 2017 nos cinemas brasileiros.
Após ter dominado as vitórias do Critics’ Choice Awards na noite do último domingo (11), o musical La La Land: Cantando Estações, de Damien Chazelle (Whiplash: Em Busca da Perfeição), teve uma manhã de glória ao liderar a lista de indicados do Globo de Ouro 2017 na manhã de hoje (12). Com sete indicações, o filme estrelado por Emma Stone e Ryan Gosling é seguido pelos dramas Moonlight e Manchester à Beira-Mar, com seis e cinco indicações respectivamente. Assinado pelo estilista Tom Ford (Direito de Amar), Animais Noturnos surgiu como uma relativa surpresa, principalmente se considerarmos as menções em direção, roteiro e ator coadjuvante (Aaron Taylor-Johnson tomando para si a vaga que supostamente era de Michael Shannon por esse filme). Estranhamente, o longa não foi lembrado na categoria de melhor filme, e não há lógica nisso se percebermos que Animais Noturnos foi lembrado em categorias cruciais da lista.
Pelo menos quatro longas perdem a força na temporada de premiações com a lista do Globo de Ouro: A Chegada, que ontem ganhou o Critics’ Choice de melhor roteiro adaptado e aqui não foi finalista na categoria (e nem em direção ou filme, como esperado); Um Limite Entre Nós, que precisou se contentar com as indicações de interpretação para Denzel Washington e Viola Davis quando o primeiro também era favorito para conquistar uma indicação também como melhor diretor; Jackie, que só ganhou lembrança para o desempenho de Natalie Portman (o que certamente já enfraquece a tese de que ela vencerá um segundo Oscar); e Silence, aguardado longa de Martin Scorsese que chegou a ser exibido aos votantes mas não entrou em uma categoria sequer. Surpresa na lista, Florence: Quem é Essa Mulher? não apenas estragou o bolão de todo mundo com a indicação de ator coadjuvante para Simon Helberg como se tornou o filme com mais indicações nas categorias de interpretação (Meryl Streep e Hugh Grant também são finalistas pelo longa de Stephen Frears).
Mesmo com Aquariusde fora (sério mesmo que não havia um espaço para o Brasil em uma seleção de filmes estrangeiros que conta com três produções da França?) e com a jornada aparentemente irrefreável de La La Land rumo ao Oscar, ainda há de se esperar algumas surpresas do Globo de Ouro, que não poupou algumas delas já nessa sua primeira etapa. A cerimônia de premiação acontece no dia 8 de janeiro de 2017, homenageando Meryl Streep pelo conjunto de sua obra com o troféu Cecil B. DeMille. Confira abaixo a lista de indicados na categoria de cinema:
MELHOR FILME DRAMA Até o Último Homem Lion Manchester à Beira-Mar Moonlight A Qualquer Custo
MELHOR FILME COMÉDIA/MUSICAL 20th Century Women
Deadpool
Florence: Quem é Essa Mulher?
La La Land: Cantando Estações Sing Street
MELHOR ATRIZ DRAMA Amy Adams (A Chegada) Isabelle Huppert (Elle) Jessica Chastain (Miss Sloane) Natalie Portman (Jackie) Ruth Negga (Loving)
MELHOR ATRIZ COMÉDIA/MUSICAL Annette Bening (20th Century Women) Emma Stone (La La Land: Cantando Estações) Hailee Steinfeld (The Edge of Seventeen) Lily Collins (Rules Don’t Apply) Meryl Streep (Florence: Quem é Essa Mulher?)
MELHOR ATOR DRAMA Andrew Garfield (Até o Último Homem) Casey Affleck (Manchester à Beira-Mar) Denzel Washington (Um Limite Entre Nós) Joel Edgerton (Loving) Viggo Mortensen (Capitão Fantástico)
MELHOR ATOR COMÉDIA/MUSICAL Colin Farrell (O Lagosta) Hugh Grant (Florence: Quem é Essa Mulher?) Jonah Hill (Cães de Guerra) Ryan Gosling (La La Land: Cantando Estações) Ryan Reynolds (Deadpool)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE Michelle Williams (Manchester à Beira-Mar) Naomie Harris (Moonlight) Nicole Kidman (Lion) Octavia Spencer (Estrelas Além do Tempo) Viola Davis (Um Limite Entre Nós)
MELHOR ATOR COADJUVANTE Aaron Taylor-Johnson (Animais Noturnos) Dev Patel (Lion) Jeff Bridges (A Qualquer Custo) Mahershala Ali (Moonlight) Simon Helberg (Florence: Quem é Essa Mulher?)
MELHOR DIREÇÃO Barry Jenkins (Moonlight) Damien Chazelle (La La Land: Cantando Estações) Kenneth Lonergan (Manchester à Beira-Mar) Mel Gibson (Até o Último Homem) Tom Ford (Animais Noturnos)
MELHOR ROTEIRO Animais Noturnos La La Land: Cantando Estações
Manchester à Beira-Mar Moonlight A Qualquer Custo
MELHOR ANIMAÇÃO Kubo e as Cordas Mágicas Moana: Um Mar de Aventuras My Life as a Zucchini Sing: Quem Canta Seus Males Espanta Zootopia: Essa Cidade é o Bicho
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL “City of Stars” (La La Land: Cantando Estações) “Can’t Stop the Feeling” (Trolls) “Faith” (Sing: Quem Canta Seus Males Espanta) “Gold” (Gold) “How Far I’ll Go” (Moana: Um Mar de Aventuras)
MELHOR FILME ESTRANGEIRO O Apartamento (Irã) Divines (França) Elle (França) Neruda (Chile) Toni Erdmann (Alemanha)
MELHOR TRILHA SONORA A Chegada Estrelas Além do Tempo La La Land: Cantando Estações Lion Moonlight
If you could see your life from start to finish, would you change things?
Direção: Denis Villeneuve
Roteiro: Eric Heisserer, baseado no conto “Story of Your Life”, de Ted Chiang
Elenco: Amy Adams, Jeremy Renner, Forest Whitaker, Michael Stuhlbarg, Mark O’Brien, Jadyn Malone, Abigail Pniowsky, Tzi Ma, Julia Scarlett Dan, Anana Rydvald, Russell Yuen
Sinopse: Quando seres interplanetários deixam marcas na Terra, a Dra. Louise Banks (Amy Adams), uma linguista especialista no assunto, é procurada por militares para traduzir os sinais e desvendar se os alienígenas representam uma ameaça ou não. No entanto, a resposta para todas as perguntas e mistérios pode ameaçar a vida de Louise e a existência de toda a humanidade. (Adoro Cinema)
Não há diretor mais interessante para se acompanhar atualmente do que o canadense Denis Villeneuve. Após repercussão internacional com o ótimo Incêndios, em 2010, ele conseguiu um feito raro: se lançou em Hollywood com personalidade e provocação, o que obviamente lhe trouxe admiradores e detratores na mesma proporção. Por outro lado, é curioso perceber como o diretor, ao contrário de Christopher Nolan, por exemplo, amplia suas ambições em forma e conteúdo sem se perder na pretensão. Basta olhar em retrospecto: o magnífico Os Suspeitos, de 2013, hoje soa quase simples nas questões que suscita se comparado a O Homem Duplicado, Sicario: Terra de Ninguém e, agora, A Chegada, longas consideravelmente mais complexos, mas jamais eruditos. Villeneuve veio para Hollywood querendo mexer com zonas de conforto, o que ganha novas dimensões nessa nova obra assinada por ele e estrelada pela pentacampeã em indicações ao Oscar Amy Adams. A diferença é que agora, o cineasta chega à ficção científica, um terreno infinitamente mais popular e consequentemente mais suscetível a polêmicas junto às plateias
Vendido de forma oportunista por trailers equivocados, A Chegada, desde os primeiros segundos de abertura com os acordes de On the Nature of Daylight, composição do grande Max Richter cedida para o filme, já renega o convencional ao abraçar uma profunda melancolia para introduzir sua heroína, uma linguista que guarda uma história pessoal calejada e despedaçada. É simbólico o filme começar tão próximo da intimidade de Louise Banks (Adams) porque todo o restante da trama se desenvolverá a partir do seu olhar particular, quebrando a expectativa de espectadores sedentos por pirotecnias e espetáculos visuais imediatos. As lembranças da protagonista permearão toda sua jornada como a profissional designada a compreender o idioma de alienígenas que estacionaram no planeta Terra sem motivo aparente, e é importante se atentar a elas não como meros relatos para dar algum embasamento dramático à personagem, mas sim como importantes ferramentas narrativas e imersivas. Compreender que a trajetória de Louise é tão grande quanto a da humanidade frente ao desconhecido é fator-chave para absorver o real sentido de A Chegada.
Preferindo o silêncio à qualquer hipérbole audiovisual para criar o fascínio do suspense envolvendo o pouso dos alienígenas na Terra, Villeneuve sabe que é importante entregar uma ficção com uma pegada de reflexões em tempos que produções megalomaníacas na técnica, mas rasteiras no conteúdo chegam aos cinemas em grande quantidade. Ao conjugar com precisão todas as ferramentas audiovisuais a sua disposição, o cineasta também exige o mesmo tino para o diferente de cada um dos profissionais envolvidos no projeto em suas respectivas áreas – e é impossível não destacar a trilha eficiente e frequentemente perturbadora do islandês Jóhann Jóhannsson e a fotografia assinada por Bradford Young, que é capaz de explorar a beleza e o horror das situações vividas por Louise. Por abandonar muitos dos vícios do gênero, seja na estética mais refinada ou na história mais contemplativa, a sensação é de estranhamento ou pelo menos de readaptação a um nível de sofisticação que não encontramos nesse tipo de cinema com muita frequência. Entretanto, a partir do momento em que se compra a proposta de A Chegada, o estado pode muito bem ser de maravilhamento, especialmente quando as peças finalmente se encaixam nos momentos derradeiros.
A ficção, que tem se beneficiado e dado sorte com protagonistas femininas (Gravidadee Mad Max: Estrada da Fúriaarrasaram como unanimidade entre crítica e público), novamente aposta em uma mulher como estrela de uma trama. Com uma vida vazia e aparentemente dedicada apenas à profissão, Louise Banks hesita, tem pesadelos e às vezes não é levada a sério, mas tem conhecimento e principalmente sensibilidade de sobra para mostrar que o diálogo e o estudo da comunicação são ferramentas tão complexas quanto subestimadas – e é na provocação dessa necessária reflexão que reside sua vitória como heroína. Conduzindo o roteiro de Eric Heisserer, que adapta o conto “Story of Your Life”, de Ted Chiang, o diretor, portanto, tem também a delicada missão de fazer com que discussões humanas dialoguem com elementos fantásticos da ficção. Nesse sentido, A Chegada apresenta lá seus tropeços, pois o estofo sci-fi vem mais pelo bom uso dos elementos técnicos do que pela concepção visual do universo em si (tanto as naves quanto os alienígenas não chegam a ser imponentes ou criativos aos olhos), além da parte dramática discutir de forma óbvia questões como a intolerância e a agressividade humana em situações de ameaça.
O caminho a passos lentos é constante em A Chegada, e a boa notícia é que a resolução compensa tanto o miolo por vezes repetitivo quanto as falhas nas relações que tenta estabelecer de forma mais prática entre o plano humano e fantástico. São poucos os filmes que, em uma resolução criativa, colocam automaticamente todo o filme em retrospectiva na cabeça do espectador para iluminar detalhes que até então pareciam aleatórios ou desconexos. A Chegada é exatamente assim, alcançando ainda níveis emocionantes quando, ao final, se propõe a versar sobre as escolhas que sabe fazemos ao longo da nossa existência e o quanto presumir ou saber os desfechos dela não anulam tudo o que pode existir de fascinante nesse caminho. Verdade seja dita que não são poucos os rodeios que o filme dá para dar simetria total a seu ciclo e chegar a toda emoção de seu terço derradeiro, mas a precisão a partir daí é admirável e o que vem a partir dela é muito íntimo. A Chegada reverbera muito além da sessão. Sorte de quem consegue perceber essa beleza.
Debater cinema com quem gosta de filmes é uma coisa. Já falar sobre o assunto com quem está ligado na indústria, em prêmios e nos bastidores dessa arte é uma história bem diferente. De Woody Allen a Catherine Deneuve, o meu amigo Eduardo Fernando Gomes Filho se encaixa no segundo grupo, e por isso é tão entusiasmante tê-lo por perto (mesmo que virtualmente). É do tipo de pessoa que me lembra que gostar tanto de cinema não é coisa tão louca. Pois a participação dele aqui no blog reflete justamente essa pluralidade que é realmente curtir de verdade a sétima arte: escolhendo três atrizes emblemáticas e de estilos de interpretação diferentes, o Eduardo, claro, destacou a sua predileção por desempenhos femininos, mas também fez uma seleção de filmes que são simplesmente indispensáveis. Ah, e não deixem de dar uma conferida no trabalho que ele faz como editor lá do Cine Eterno!
Faye Dunaway (Rede de Intrigas) O longa de Sidney Lumet é quase que premonitório na questão de degradação constante da imprensa. Uma obra-prima completa no qual é difícil escolher um único atributo que torna Rede de Intrigas tão memorável. Num elenco estrelado, aquela que mais me marcou foi justamente Faye Dunaway, que faz a chefe de uma emissora em busca de audiência. Ela encarna com voracidade a síntese da argumentação, não cai no maniqueísmo tolo e apresenta camadas que tornam sua personagem Diane incrivelmente vasta. Em dado momento, inclusive, um personagem diz a ela “Você é a televisão encarnada Diane: indiferente ao sofrimento, insensível à alegria. Sua vida se resume a banalidade da vida”. O trabalho de Dunaway merece não só aplausos, como muitas discussões. É difícil ficar indiferente ao filme e sobretudo a sua personagem, até porque há muitas “Dianes” no nosso cotidiano.
Catherine Deneuve (Os Guarda-Chuvas do Amor) Sou grande fã da maravilhosa Catherine Deneuve, musa do cinema francês. Já não bastasse sua beleza encantadora, ela se mostrou uma atriz poderosa desde seu primeiro trabalho. Em Os Guardas Chuvas do Amor, um filme todo musical do diretor Jacques Demy, há um teatralismo que torna o longa uma experimentação única: uma trágica ópera sobre o fatalismo do ato de amar. Cantada com maestria por Deneuve que consegue em um olhar nos desarmar, passar a sensação de plenitude ao mesmo tempo que desespero. É uma performance sensível e bela, com canções compostas por ninguém mesmo que Michel Legrand, cantadas na voz de Deneuve. Impossível não se apaixonar.
Dianne Wiest (Hannah e suas Irmãs) Woody Allen é um diretor que sabe dirigir atrizes. Na vastidão de sua carreira, ele consagrou várias “divas”, e é difícil escolher a que mais me marcou, principalmente por carregá-las muito delas em mim. Porém, o trabalho de Dianne Wiest em Hannah e suas Irmãs, como a insegura Holy, é um dos trabalhos que mais me identifico. Wiest é uma atriz encantadora que sabe gerar empatia fazendo muito pouco, mas, com um roteiro afiado, ela abraça a personagem e a torna encantadora ao mesmo tempo que questionável. Holy é sonhadora, folgada, transloucada, insegura, humana. Gente como a gente. E é isso que torna sua personagem e sua atuação tão marcante pra mim. Inclusive, saudades de Dianne Wiest, que já denunciou a dificuldade de papeis desafiadores para atrizes mais velhas, uma injustiça gigantesca se tratando de uma atriz tão gabaritada assim.
Roteiro: David Birke, baseado no livro “Oh…”, de Philippe Djian
Elenco: Isabelle Huppert, Laurent Lafitte, Anne Consigny, Charles Berling, Virginie Efira, Judith Magre, Christian Berkel, Jonas Bloquet, Alice Isaaz, Vimala Pons, Raphaël Lenglet, Arthur Mazet
Sinopse: Michèle (Isabelle Huppert) é a executiva-chefe de uma empresa de videogames, a qual administra do mesmo jeito que administra sua vida amorosa e sentimental: com mão de ferro, organizando tudo de maneira precisa e ordenada. Sua rotina é quebrada quando ela é atacada por um desconhecido, dentro de sua própria casa. No entanto, ela decide não deixar que isso a abale. O problema é que o agressor misterioso ainda não desistiu dela. (Adoro Cinema)
O plano inicial era ambientar Elle nos Estados Unidos com os personagens, claro, falando inglês. No entanto, o diretor Paul Verhoeven sofreu para encontrar uma protagonista que topasse embarcar no projeto. E isso não é exagero: você consegue imaginar um filme recusado por Julianne Moore, Nicole Kidman e Kate Winslet, atrizes reconhecidas por eventuais papeis despidos de vaidade e atraídas por projetos transgressores? Segundo Verhoeven, que, junto aos produtores, ainda abordou nomes como Cate Blanchett e Sharon Stone, a situação que se repetia na maioria dos casos era a seguinte: as atrizes recusavam o roteiro já em uma primeira leitura ao invés de, como é de praxe, esperar alguns dias para dar um retorno negativo.
Com tantas recusas, Elle foi transferido para a França, onde finalmente encontrou Isabelle Huppert, atriz que, antes mesmo de chegar ao roteiro, havia lido a obra original (o romance “Oh…”, escrito por Philippe Djian) e acreditava que aquele era um papel que precisava interpretar. Pode ser que outras atrizes tenham rejeitado o projeto simplesmente por questão de agenda (o que seria uma coincidência tremenda, dada a declaração de Verhoeven sobre o roteiro ser muitas vezes descartado já em um primeiro contato), mas o nome de Huppert aponta para uma tese clara: talvez somente ela, a atriz mais corajosa da Europa, teria mesmo aceitado personificar Michèle Leblanc, a protagonista incrivelmente desafiadora de Elle.
Ironicamente, no final das contas, Elle é um trabalho de pegada muito mais européia do que norte-americana, começando pela ideia de que, como define a própria Huppert, o filme se apoia não em uma história, mas em uma personagem, traço muito característico do cinema europeu. Essa categorização é fundamental para compreender que, antes do thriller que estabelece envolvendo a desconhecida identidade de um estuprador, Elle é sobre as múltiplas e contraditórias facetas de uma mulher que já é um mistério por si só: deixando de lado a necessidade de causar simpatia no espectador para apostar nas imperfeições do realismo (e não é aí que residem os grandes papeis?), Michèle Leblanc se apresenta como uma pessoa que, ao reagir de forma inesperada após um ato de violência, é imprevisível em atos e pensamentos, desde a convivência com seus funcionários no trabalho até os julgamentos que faz acerca da vida sexual da mãe.
Sem nunca utilizar o estupro como ferramenta de vitimização para uma personagem de conduta frequentemente questionável, Elle se engrandece menos quando quer fazer mistério sobre o ato de violência em questão e mais quando documenta os dias de uma mulher que vive a partir de suas próprias regras. Um exemplo disso é como a agressão pode ser vista sob a luz do próprio passado da protagonista, que esconde um grande trauma envolvendo o pai ausente. Não seria a atípica reação de Michèle ao estupro uma forma de ela também tentar entender a conturbada índole de seu progenitor? A violência está frequentemente em pauta no roteiro de David Birke, e ela funciona melhor como uma forma de enriquecer as complexidades de uma mulher madura e solitária cujos ímpetos sexuais ainda são decisivos em suas atitudes (algo que raramente o cinema gosta de discutir em personagens como essa).
Só que Michèle Leblanc é uma figura que, na vida real, causaria aversão em quase todos nós. Ao passo em que é vitoriosa na vida profissional como a prestigiada executiva-chefe de uma empresa de videogames (o que não a livra de ter que às vezes levantar a voz para lembrar seus funcionários sobre quem manda no recinto, iluminando a questão de gênero no ambiente de trabalho), a protagonista encara as relações humanas a partir de um modelo próprio e que julga ser o ideal. Intolerante, não economiza ironias para desprezar as decisões do filho, abre mão de cerimônias e pesos de consciência para admitir erros e traições e diz qualquer coisa que venha à cabeça, o que a torna uma figura bela (e quem sabe evoluída) pela inabalável franqueza ou profundamente desumana por não considerar outros sentimentos que não sejam os dela.
Não há redenção para a protagonista de Elle – nem mesmo com a questão do estupro vindo à tona -, o que torna a missão de interpretá-la um desafio dos mais complexos. E Isabelle Huppert, atriz especialista em personificar tipos “difíceis” (definição que ela rejeita) como esse, sabe transformar Michèle Leblanc em uma mulher fascinante do ponto de vista dramático (e até cômico, já que o longa também é munido de um humor muito peculiar) ao invés de simplesmente reduzi-la ao status de ser humano desprezível por suas atitudes desregradas. Hoje é difícil imaginar qualquer atriz em seu lugar, pois o trabalho realizado aqui é de quinta grandeza e principalmente de total imersão em uma personagem que nunca é (e nem precisa ser) justificada ou redimida pelo roteiro. Huppert, que nunca busca tornar sua personagem palatável ao público, traz uma belíssima adição ao rol de papeis femininos fortes de 2016. Não à toa, ela e Sonia Braga (Aquarius) foram as divas mais aplaudidas no último Festival de Cannes por suas atuações.
Em um filme onde o fascínio se encontra no mundo feminino (todos os homens são fracos ou medíocres), outra qualidade se sobressai na construção dramática de Elle: a do diretor Paul Verhoeven em nunca armar um circo a partir dos inúmeros acontecimentos propostos pelo roteiro. São várias as tragédias pessoais vividas pela protagonista, o que felizmente não torna o conjunto implausível ou inverossímil. Pelo contrário: tudo serve para complementar as complexidades de um relato que, assim como o recente O Silêncio do Céu, parte de um estupro, mas nunca se torna necessariamente um filme sobre estupro. Experiência bastante desafiadora para a plateia, Elle, no entanto, é plenamente recompensador para quem aceita ser provocado. Se esse for o seu caso, pode acreditar: teremos longas e instigantes conversas sobre a obra durante um bom tempo.