Os indicados ao Globo de Ouro 2021

Mank, de David Fincher, lidera a lista do Globo de Ouro 2021 com seis indicações.
Fazia certo tempo que o Globo de Ouro não era tão Globo de Ouro. Ou seja, o que vimos na lista de indicados revelada hoje para a edição 2021 do prêmio entregue pela Hollywood Foreign Press Association oscilou entre o lugar-comum e a bizarrice. Para não ser injusto, faço uma correção: é de lavar a alma ver nada menos do que três mulheres concorrendo na categoria de direção, algo importantíssimo e simbólico em inúmeros sentidos. E fica por aí. Na própria categoria de direção, por exemplo, a decepção já se faz presente com as indicações de David Fincher (Mank) e Aaron Sorkin (Os 7 de Chicago). Ambos são profissionais talentosos, mas, dessa vez, entregam trabalhos sem inspiração. Não deixa de ser reflexo de um grupo de votantes acomodado com os lançamentos da Netflix, que lidera a lista com 22 indicações, seguida muito de longe pela Amazon Studios com apenas sete.
Há outros fatos inexplicáveis, como James Corden concorrendo como melhor ator em comédia/musical pelo pavoroso A Festa de Formatura, enquanto sua colega Meryl Streep ficou de fora em uma categoria basicamente sem concorrência, onde ela também poderia ter emplacado por Let Them All Talk. Aliás, o segmento das comédias poucas vezes esteve tão fraco: para efeitos de projeção ao Oscar, é provável que nenhum dos indicados, sejam eles filmes ou atores, caiam nas graças da Academia. A ausência total do ótimo Destacamento Blood, de Spike Lee, também deixa um inegável gosto amargo por múltiplas razões, começando pelo fato de que a lista não incluiu filmes protagonizados por negros na categoria principal e sequer indicou Delroy Lindo como protagonista ou o próprio Spike Lee a diretor em um ano que, como já comentado, David Fincher e Aaron Sorkin são lembrados por trabalhos nada marcantes.
Ainda assim, o vexame maior fica com as indicações de melhor série e melhor atriz em comédia/musical para Emily in Paris, uma produção da Netflix repleta de clichês, tolas ingenuidades, fórmulas ultrapassadas e sem o mínimo de inspiração ou capacidade de dizer algo que já não tenha sido dito por outros programas. Seguindo linha semelhante, não há como defender a presença de Ratched em melhor série dramática, atriz e atriz coadjuvante. A série é, sem dúvidas algo exagerado e desconjuntado até mesmo para os padrões de Ryan Murphy. Tão inaceitável quanto tudo isso é o fato de I May Destroy You, da HBO, ter sido completamente ignorada, quando, na verdade, é uma minissérie que compreende como poucas os sentimentos, as relações, os traumas e as dinâmicas da juventude atual.
Para um ano que tanto nos exigiu garimpar filmes e séries diferentes devido aos efeitos da pandemia, o Globo de Ouro se limitou a fazer mais do mesmo. E com direito a ideias bastante indigestas. Os vencedores serão revelados no dia 28 de fevereiro. Confira abaixo a lista completa de indicados:
CINEMA
MELHOR FILME – DRAMA
Os 7 de Chicago
Bela Vingança
Mank
Meu Pai
Nomadland
MELHOR FILME – COMÉDIA/MUSICAL
Borat: Fita de Cinema Seguinte
A Festa de Formatura
Hamilton
Music
Palm Springs
MELHOR DIREÇÃO
Aaron Sorkin (Os 7 de Chicago)
Chloé Zhao (Nomadland)
David Fincher (Mank)
Emerald Fennell (Bela Vingança)
Regina King (Uma Noite em Miami…)
MELHOR ATRIZ – DRAMA
Andra Day (The United States vs. Billie Holiday)
Carey Mulligan (Bela Vingança)
Frances McDormand (Nomadland)
Vanessa Kirby (Pieces of a Woman)
Viola Davis (A Voz Suprema do Blues)
MELHOR ATOR – DRAMA
Anthony Hopkins (Meu Pai)
Chadwick Boseman (A Voz Suprema do Blues)
Gary Oldman (Mank)
Riz Ahmed (O Som do Silêncio)
Tahar Rahim (The Mauritanian)
MELHOR ATRIZ – COMÉDIA/MUSICAL
Anya Taylor-Joy (Emma.)
Kate Hudson (Music)
Maria Bakalova (Borat: Fita de Cinema Seguinte)
Michelle Pfeiffer (French Exit)
Rosamund Pike (Eu Me Importo)
MELHOR ATOR – COMÉDIA/MUSICAL
Andy Samberg (Palm Springs)
Dev Patel (A História Pessoal de David Copperfield)
James Corden (A Festa de Formatura)
Lin-Manuel Miranda (Hamilton)
Sacha Baron Cohen (Borat: Fita de Cinema Seguinte)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Amanda Seyfried (Mank)
Glenn Close (Era Uma Vez Um Sonho)
Helena Zengel (Relatos do Mundo)
Jodie Foster (The Mauritanian)
Olivia Colman (Meu Pai)
MELHOR ATOR COADJUVANTE
Bill Murray (On the Rocks)
Daniel Kaluuya (Judas e o Messias Negro)
Jared Leto (Os Pequenos Vestígios)
Leslie Odom Jr. (Uma Noite em Miami…)
Sacha Baron Cohen (Os 7 de Chicago)
MELHOR ROTEIRO
Aaron Sorkin (Os 7 de Chicago)
Chloé Zhao (Nomadland)
Christopher Hampton e Florian Zeller (Meu Pai)
Emerald Fennell (Bela Vingança)
Jack Fincher (Mank)
MELHOR FILME EM LÍNGUA ESTRANGEIRA
Druk: Mais Uma Rodada (Dinamarca)
La Llorona (Guatemala/França)
Minari (Estados Unidos)
Nós Duas (França/Estados Unidos)
Rosa e Momo (Itália)
MELHOR ANIMAÇÃO
A Caminho da Lua
Os Croods 2: Uma Nova Era
Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica
Soul
Wolfwalkers
MELHOR TRILHA SONORA
Alexandre Desplat (O Céu da Meia-Noite)
James Newton Howard (News of the World)
Ludwig Göransson (Tenet)
Trent Reznor e Atticus Ross (Mank)
Trenz Reznor, Atticus Ross e Jon Batiste (Soul)
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“Fight for You” (Judas e o Messias Negro)
Música de Dernst Emile II e H.E.R.
Letra de H.E.R. e Tiara Thomas
“Hear My Voice” (Os 7 de Chicago)
Música de Daniel Pemberton
Letra de Celeste Waite e Daniel Pemberton
“Io Sí” (Rosa e Momo)
Música de Diane Warren
Letra de Diane Warren, Laura Pausini e Niccolò Agliardi
“Speak Now” (Uma Noite em Miami…)
Música e Letra de Leslie Odom Jr. e Sam Ashworth
“Tigrees & Tweed” (The United States vs. Billie Holiday)
Música e Letra de Andra Day e Raphael Saadiq
SÉRIES, MINISSÉRIES, ANTOLOGIAS E TELEFILMES
MELHOR SÉRIE – DRAMA
The Crown
Lovecraft Country
The Mandalorian
Ozark
Ratched
MELHOR SÉRIE – COMÉDIA/MUSICAL
Emily in Paris
The Flight Attendant
The Great
Schitt’s Creek
Ted Lasso
MELHOR MINISSÉRIE/ANTOLOGIA/TELEFILME
O Gambito da Rainha
Nada Ortodoxa
Normal People
Small Axe
The Undoing
MELHOR ATRIZ – DRAMA
Emma Corrin (The Crown)
Olivia Colman (The Crown)
Jodie Comer (Killing Eve)
Laura Linney (Ozark)
Sarah Paulson (Ratched)
MELHOR ATOR – DRAMA
Al Pacino (Hunters)
Bob Odenkirk (Better Call Saul)
Jason Bateman (Ozark)
Josh O’Connor (The Crown)
Matthew Rhys (Perry Mason)
MELHOR ATRIZ – COMÉDIA/MUSICAL
Catherine O’Hara (Schitt’s Creek)
Elle Fanning (The Great)
Jane Levy (Zoey’s Extraordinary Playlist)
Kaley Cuoco (The Flight Attendant)
Lily Collins (Emily in Paris)
MELHOR ATOR – COMÉDIA/MUSICAL
Don Cheadle (Black Monday)
Eugene Levy (Schitt’s Creek)
Jason Sudeikis (Ted Lasso)
Nicholas Hoult (The Great)
Ramy Youssef (Ramy)
MELHOR ATRIZ – MINISSÉRIE/ANTOLOGIA/TELEFILME
Cate Blanchett (Mrs. America)
Daisy Edgar-Jones (Normal People)
Shira Haas (Nada Ortodoxa)
Nicole Kidman (The Undoing)
Anya Taylor-Joy (O Gambito da Rainha)
MELHOR ATOR – MINISSÉRIE/ANTOLOGIA/TELEFILME
Bryan Cranston (Your Honor)
Ethan Hawke (The Good Lord Bird)
Hugh Grant (The Undoing)
Jeff Daniels (The Comey Rule)
Mark Ruffalo (I Know This Much is True)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE – SÉRIE/MINISSÉRIE/ANTOLOGIA/TELEFILME
Annie Murphy (Schitt’s Creek)
Cynthia Nixon (Ratched)
Gillian Anderson (The Crown)
Helena Bonham Carter (The Crown)
Julia Garner (Ozark)
MELHOR ATOR COADJUVANTE – SÉRIE/MINISSÉRIE/ANTOLOGIA/TELEFILME
Brendan Gleeson (The Comey Rule)
Daniel Levy (Schitt’s Creek)
Donald Sutherland (The Undoing)
Jim Parsons (Hollywood)
John Boyega (Small Axe)
Os vencedores do Emmy 2020

Regina King conquista seu quarto Emmy em apenas cinco anos. Prêmio por Watchmen faz Regina empatar com Alfre Woodard com a atriz negra mais premiada na trajetória do Emmy.
Ao contrário do que as expectativas sugeriam e de tudo que tem sido realizado em nível mundial no tocante a realizações de festivais e premiações no formato online, o Emmy 2020 resolveu com grande esmero o desafio de fazer uma cerimônia interessante em circunstâncias tão atípicas. Tudo funcionou: com humor, dinamismo e interação, a premiação conseguiu reunir os indicados em uma grande videochamada e trouxe alguns nomes pontuais para o próprio palco onde Jimmy Kimmel apresentava. De casa, os vencedores recebiam suas estatuetas, o que rendeu momentos bastante divertidos, especialmente em surpresas como a de Zendaya em melhor atriz por Euphoria, por exemplo. Com essa vitória, aliás, Zendaya se torna a mais jovem atriz a se consagrar na categoria e a apenas a segunda intérprete negra a ganhar o prêmio (inacreditavelmente, a primeira foi Viola Davis, somente em 2015, por How to Get Away With Murder).
Por falar em surpresas, o Emmy 2020 nos reservou poucas. Além de Zendaya, vale a menção para a vitória de Nada Ortodoxa em melhor direção para uma minissérie, desbancando o trabalho brilhante de Stephen Williams no episódio “This Extraordinary Being”, de Watchmen. Por outro lado, não há o que se reclamar dos favoritismos que se confirmaram: tanto Watchmen quanto Succession são realmente as melhores produções da temporada em seus respectivos segmentos, inaugurando um novo momento de glória para a HBO, que, nos últimos anos, parecia refém de prêmios protocolares para Game of Thrones. Watchmen, em particular, marca época pela forma com que renova o exercício de adaptar uma história em quadrinhos e por trazer uma quarta estatueta para a maravilhosa Regina King, que agora empata com Alfre Woodard como a atriz negra mais premiada na história do Emmy.
História também foi feita entre as comédias com a celebração massiva de Schitt’s Creek. A série, que exibiu sua última temporada no início deste ano, faturou todos os prêmios principais: melhor série, direção, roteiro, elenco, atriz, ator, atriz coadjuvante e ator coadjuvante. Somente uma produção havia conquistado tal feito até então: a inesquecível minissérie Angels in America, dirigida pelo saudoso Mike Nichols e com um elenco formado por grandes nomes como Meryl Streep, Al Pacino e Emma Thomspon. Schitt’s Creek está definitivamente em excelente companhia.
Confira abaixo a lista de vencedores:
MELHOR SÉRIE DE DRAMA: Succession
MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE DRAMA: Zendaya (Euphoria)
MELHOR ATOR EM SÉRIE DE DRAMA: Jeremy Strong (Succession)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE DE DRAMA: Julia Garner (Ozark)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE DE DRAMA: Billy Crudup (The Morning Show)
MELHOR DIREÇÃO EM SÉRIE DE DRAMA: Andrij Parekh (Succession, pelo episódio “Hunting”)
MELHOR ROTEIRO EM SÉRIE DE DRAMA: Jesse Armstrong (Succession, pelo episódio “This is Not for Tears”)
MELHOR SÉRIE DE COMÉDIA: Schitt’s Creek
MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE COMÉDIA: Catherine O’Hara (Schitt’s Creek)
MELHOR ATOR EM SÉRIE DE COMÉDIA: Eugene Levy (Schitt’s Creek)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE DE COMÉDIA: Annie Murphy (Schitt’s Creek)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE DE COMÉDIA: Daniel Levy (Schitt’s Creek)
MELHOR DIREÇÃO EM SÉRIE DE COMÉDIA: Andrew Cividino e Daniel Levy (Schitt’s Creek, pelo episódio “Happy Ending”)
MELHOR ROTEIRO EM SÉRIE DE COMÉDIA: Daniel Levy (Schitt’s Creek, pelo episódio “Happy Ending”)
MELHOR MINISSÉRIE: Watchmen
MELHOR DIREÇÃO EM MINISSÉRIE: Maria Schrader (Nada Ortodoxa)
MELHOR TELEFILME: Bad Education
MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Regina King (Watchmen)
MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Mark Ruffalo (I Know This Much is True)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Uzo Aduba (Mrs. America)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Yahya Abdul-Mateen II (Watchmen)
Apostas para o Emmy 2020

Uma cerimônia atípica para um ano atípico: devido à pandemia do Coronavírus, o Emmy revelará os vencedores de 2020 através de um em evento inteiramente virtual. Caso siga o exemplo dos prêmios técnicos entregues até aqui, tudo não passará de chamadas dos indicados gravadas anteriormente, cenas de cada um dos concorrentes e anúncio seguido de discursos também gravados com antecedência (os boatos dão conta de que a organização pediu para que todos os indicados gravassem um agradecimento caso vençam). Tudo sem muita graça, mas seguindo o formato daquilo que é possível realizar em tempos tão complexos.
No que se refere a apostas, o favoritismo está mais do que declarado para Succession e Watchmen, ambas da HBO, líderes de indicações nos seus respectivos segmentos e merecedoras de toda e qualquer coração. Já entre as comédias, tudo indica que Schitt’s Creek seja reconhecida por sua última temporada, ainda que seja prudente não subestimar o carinho dos votantes por The Marvelous Mrs. Maisel. A TNT transmite a cerimônia virtual a partir das 21h deste domingo (20).
Confira a nossa lista de apostas:
MELHOR SÉRIE DE DRAMA: Succession / alt: Ozark
MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE DRAMA: Laura Linney (Ozark) / alt: Jennifer Aniston (The Morning Show)
MELHOR ATOR EM SÉRIE DE DRAMA: Brian Cox (Succession) / alt: Steve Carell (The Morning Show)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE DE DRAMA: Meryl Streep (Big Little Lies) / alt: Julia Garner (Ozark)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE DE DRAMA: Billy Crudup (The Morning Show) / alt: Matthew Macfadyen (Succession)
MELHOR SÉRIE DE COMÉDIA: Schitt’s Creek / alt: The Marvelous Mrs. Maisel
MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE COMÉDIA: Catherine O’Hara (Schitt’s Creek) / alt: Rachel Brosnahan (The Marvelous Mrs. Maisel)
MELHOR ATOR EM SÉRIE DE COMÉDIA: Ramy Yousseff (Ramy) / alt: Eugene Levy (Schitt’s Creek)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE DE COMÉDIA: Alex Borstein (The Marvelous Mrs. Maisel) / alt: Annie Murphy (Schitt’s Creek)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE DE COMÉDIA: Tony Shalhoub (The Marvelous Mrs. Maisel) / alt: Daniel Levy (Schitt’s Creek)
MELHOR MINISSÉRIE: Watchmen / alt: Mrs. America
MELHOR TELEFILME: Bad Education / alt: American Son
MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Regina King (Watchmen) / alt: Shira Haas (Unorthodox)
MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Mark Ruffalo (I Know This Much is True) / alt: Hugh Jackman (Bad Education)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Jean Smart (Watchmen) / alt: Toni Collette (Unbelievable)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Jovan Adepo (Watchmen) / alt: Yahya Abdul-Mateen II (Watchmen)
Os vencedores do Oscar 2020

Bong Joon-ho subiu quatro vezes ao palco do Dolby Theatre para receber os prêmios de melhor filme, direção, roteiro original e filme internacional para Parasita.
Novos tempos pareciam chegar em Hollywood quando o Oscar premiou Moonlight em 2017. Um filme independente, dirigido por um cineasta negro e preocupado com causas importantíssimas com a devida representatividade? Coisa rara. No entanto, eis que dois anos depois, o Oscar premiava Green Book, um longa incrivelmente empoeirado que discutia questões raciais como se estivesse nos anos 1970, trazendo novamente o white savior para aliviar a consciência das plateias brancas em relação ao racismo. De que adiantou, portanto, premiar Moonlight se, logo em seguida, houve tamanho retrocesso com Green Book?
A partir desse cenário, era de se esperar que o Oscar 2020 seguisse a tendência de todos os outros prêmios e consagrasse 1917, mais um filme de guerra estrelado por pessoas brancas e reverenciado pelo grandioso espetáculo técnico que Hollywood gosta de premiar. Contudo, eis que a Academia, em um surto raro de lucidez, dá a volta por cima e premia Parasita com as estatuetas de melhor filme, direção, roteiro original e filme internacional. Em 92 anos, o Oscar nunca havia celebrado uma produção de língua não-inglesa na categoria principal. História foi feita. E Hollywood, de repente, saiu de seu próprio umbigo para descobrir que cinema é uma linguagem universal, independentemente de legendas. Não nos iluda, Academia. Isso precisa ser o sinal de novos tempos.
O que tal vitória de fato significa para o futuro e para a própria indústria hollywoodiana só o tempo poderá dizer, mas, a curto prazo, a vitória de Parasita dita tendências muito claras quando coloca os Estados Unidos a reverenciar uma produção asiática que transita pelos mais diferentes gêneros. Foi a compensação perfeita para uma cerimônia esquizofrênica do ponto de vista de entretenimento. Como explicar, por exemplo, Eminem cantando Lose Yourself sem a menor explicação em pleno 2020? Ou então o número de abertura que tem a cara de pau de fazer referências a Midsommar, Nós e Meu Nome é Dolemite, filmes que sequer foram indicados em qualquer categoria? Excessivamente musical, assistir ao Oscar 2020 como um programa de TV foi uma tortura.
Na reta final, a situação mudou de cenário quando a cerimônia se dedicou mais aos prêmios e deixou os vencedores falarem (Renée Zellweger e, especialmente, Joaquin Phoenix deram discursos marcantes, desobedecendo o tempo limite de fala de 45 segundos). Ainda há muito o que se falar sobre o Oscar 2020, que, por exemplo, fez O Irlandês de Martin Scorsese sair de mãos abanando enquanto entregava duas estatuetas preguiçosas para Ford vs. Ferrari. Entretanto, por ora, a euforia com as vitórias sem precedentes de Parasita sintetiza muito bem as incríveis lembranças que ficam da cerimônia. Digam o que quiser do Oscar, mas, para o bem ou para o mal, ele segue sendo o prêmio mais autêntico e surpreendente da temporada.

Plateia do Oscar 2020 se mobiliza com a celebração de Parasita.
Confira abaixo a lista de vencedores:
MELHOR FILME: Parasita
MELHOR DIREÇÃO: Bong Joon-ho (Parasita)
MELHOR ATRIZ: Renée Zellweger (Judy: Muito Além do Arco-Íris)
MELHOR ATOR: Joaquin Phoenix (Coringa)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Laura Dern (História de Um Casamento)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Brad Pitt (Era Uma Vez Em… Hollywood)
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Parasita
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Jojo Rabbit
MELHOR FILME INTERNACIONAL: Parasita
MELHOR DOCUMENTÁRIO: Indústria Americana
MELHOR ANIMAÇÃO: Toy Story 4
MELHOR TRILHA SONORA: Coringa
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “(I’m Gonna) Love Me Again” (Rocketman)
MELHOR MONTAGEM: Ford vs. Ferrari
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: Era Uma Vez Em… Hollywood
MELHOR FOTOGRAFIA: 1917
MELHOR FIGURINO: Adoráveis Mulheres
MELHOR MIXAGEM DE SOM: 1917
MELHOR EDIÇÃO DE SOM: Ford vs. Ferrari
MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS: O Escândalo
MELHORES EFEITOS VISUAIS: 1917
MELHOR CURTA-METRAGEM: The Neighbors’ Widow
MELHOR CURTA-METRAGEM (ANIMAÇÃO): Hair Love
MELHOR CURTA-METRAGEM (DOCUMENTÁRIO): Learning to Skateboard in a Warzone (If You’re a Girl)
