Cinema e Argumento

Melhores de 2023: “Assassinos da Lua da Flores” é o filme mais indicado da lista, seguido por “Oppenheimer”

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Se é fácil analisar e criticar listas alheias, acho que a figura muda de cenário quando nós próprios precisamos formular alguma seleção. É impossível atravessar essa tarefa apenas com os instintos: faltará lugar para filmes que pensávamos ser dignos de muito mais, entenderemos que nem sempre uma obra ter mais indicações do que outra significa necessariamente maior excelência e poderá ser até angustiante o dilema entre apenas escolher aqueles que mais gostamos ou também pensar em abrir mão de certos títulos em busca de uma composição mais ampla e diversa, de forma que a lista final seja também uma comunicação e um posicionamento.

Desde 2007 venho tentando equilibrar tudo isso quando escolho os meus “melhores do ano”, tendo em vista tudo o que tempo nos ensina e como o cinema passa a significar diferentes coisas para a gente. Nunca é uma tarefa fácil e, por isso, fecho as contas da seleção de 2023 com essa mesma sensação de ter vivido dúvidas árduas, mas também uma satisfação muito grande ao chegar a um resultado que definitivamente me representa. Em suma, no que tange o número de indicações, o topo é ocupado por Assassinos da Lua das Flores, o filme de Martin Scorsese que mais gostei de ver em anos, lembrado em 11 categorias, seguido de perto por Oppenheimer, de Christopher Nolan, outro longa que, ao meu ver, representa um ponto especial na carreira do diretor em questão.

Confira a lista completa, que considera os títulos lançados comercialmente no Brasil, seja nas salas de cinema ou em streaming:

MELHOR FILME
Acampamento de Teatro, de Molly Gordon e Nick Lieberman
Assassinos da Lua das Flores, de Martin Scorsese
Close, de Lukas Dhont
Entre Mulheres, de Sarah Polley
Monster, de Hirokazu Kore-eda
Noites Alienígenas, de Sérgio de Carvalho
Oppenheimer, de Christopher Nolan
Pedágio, de Carolina Markowiczc
O Peso da Dor, de Franz Kanz
Tia Virgínia, de Fabio Meira

MELHOR DIREÇÃO
Carolina Markowicz (Pedágio)
Christopher Nolan (Oppenheimer)
Hirokazu Kore-Eda (Monster)
Lukhas Dont (Close)
Martin Scorsese (Assassinos da Lua das Flores)

MELHOR ATRIZ
Carey Mulligan (Maestro)
Lily Gladstone (Assassinos da Lua das Flores)
Maeve Jinkings (Pedágio)
Mia Goth (Pearl)
Vera Holtz (Tia Virgínia)

MELHOR ATOR
Bill Nighy (Viver)
Cillian Murphy (Oppenheimer)
Colman Domingo (Rustin)
Eden Dambrine (Close)
Gael García Bernal (Cassandro)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Ann Dowd (O Peso da Dor)
Arlete Salles (Tia Virgínia)
Joana Gatis (Noites Alienígenas)
Louise Cardoso (Tia Virgínia)
Martha Plimpton (O Peso da Dor)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Ben Whishaw (Passagens)
Chico Diaz (Noites Alienígenas)
Jason Isaacs (O Peso da Dor)
Reed Birney (O Peso da Dor)
Robert De Niro (Assassinos da Lua das Flores)

MELHOR ELENCO
Acampamento de Teatro
Assassinos da Lua das Flores
Entre Mulheres
O Peso da Dor
Tia Virgínia

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Os Banshees de Inisherin
Close
Monster
Pedágio
O Peso da Dor

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Assassinos da Lua das Flores
Crescendo Juntas
Entre Mulheres
Noites Alienígenas
Viver

MELHOR MONTAGEM
Acampamento de Teatro
Assassinos da Lua das Flores
Monster
Oppenheimer
Retratos Fantasmas

MELHOR FOTOGRAFIA
Assassinos da Lua das Flores
Close
Decisão de Partir
Monster
Oppenheimer

MELHOR TRILHA SONORA
Os Banshees de Inisherin
Close
Godzilla Minus One
Império da Luz
Oppenheimer

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
Assassinos da Lua das Flores
Barbie
Oppenheimer
Tia Virgínia
Wonka

MELHOR FIGURINO
Assassinos da Lua das Flores
Barbie
Maestro
Viver
Wonka

MELHOR SOM
Assassinos da Lua das Flores
Godzilla Minus One
Oppenheimer
Tár
Tinnitus

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“Camp isn’t Home” (Acampamento de Teatro)
“Dance the Night” (Barbie)
“I’m Just Ken” (Barbie)
“What Was I Made For?” (Barbie)
“A World of Your Own” (Wonka)

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Godzilla Minus One
A Morte do Demônio: A Ascensão
Oppenheimer

MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS
A Baleia
Maestro
A Morte do Demônio: A Ascensão

Melhores de 2022: “Aftersun” é o grande vencedor, seguido por “Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo”

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Quando comecei a listar os meus filmes favoritos de 2023, percebi que sequer havia revelado por aqui os vencedores da lista de 2022. Para ganhar tempo e compensar o esquecimento, faço essa postagem única, ao contrário de anos anteriores, quando comentei categoria por categoria. Prometo que, na próxima leva, volto com o formato tradicional. Dito isso, relembre aqui a lista de indicados para os melhores de 2022, liderada por Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo, de Daniel Kwan e Daniel Scheinert.

Ainda que eu seja um grande defensor e entusiasta do alucinante liquidificador de gêneros comandado pelos Daniels, Aftersun foi o filme que mais conversou comigo entre os títulos lançados comercialmente no Brasil em 2022. Íntimo, memorialístico e estruturado com imensa sensibilidade, o longa vence nas categorias de melhor filme, direção, ator e roteiro original. Já Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo, como outra experiência ímpar, fica com melhor atriz, ator coadjuvante e montagem. 

Se as categorias principais foram relativamente fáceis de resolver, o cenário foi um pouco diferente nas técnicas, o que resultou em uma lista de vencedores bastante dividida. O único longa citado mais de uma vez nesse segmento foi Spencer, destaque nas categorias de melhor figurino e fotografia. A Novata em melhor trilha sonora, Moonage Daydream em melhor som e Pinóquio por Guillermo Del Toro em design de produção são, de certa forma, a minha singela reparação para trabalhos solenemente ignorados na temporada de premiações.

Confira a lista completa:

MELHOR FILME: Aftersun
MELHOR DIREÇÃO: Charlotte Wells (Aftersun)
MELHOR ATRIZ: Michelle Yeoh (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo)
MELHOR ATOR: Paul Mescal (Aftersun)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Dakota Johnson (Cha Cha Real Smooth – O Próximo Passo)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Ke Huy Quan (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo)
MELHOR ELENCO: Marte Um
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Aftersun

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Drive My Car
MELHOR MONTAGEM: Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo
MELHOR FOTOGRAFIA: Spencer

MELHOR TRILHA SONORA: A Novata
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “Naatu Naatu” (RRR: Revolta, Rebelião, Revolução)

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: Pinóquio por Guillermo del Toro
MELHOR FIGURINO: Spencer
MELHOR SOM: Moonage Daydream

MELHORES EFEITOS VISUAIS: Avatar: O Caminho da Água
MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS: Nada de Novo no Front

Melhores de 2022: líder de indicações, “Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo” concorre em 11 categorias

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Michelle Yeoh em Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo: filme dos Daniels lidera a lista de melhores de 2022 do blog com 11 indicações.

Montar listas é sempre uma tarefa divertida, mas, com o passar dos anos, torna-se cada vez mais difícil. Há muito tempo já não vejo tantos filmes quanto gostaria (ah, a vida adulta…), o que faz com que o meu critério na hora de escolher um filme para assistir seja consideravelmente maior. O resultado é um acúmulo de bons longas, dificultando a vida de um ansioso quando é chegada a hora de estabelecer qualquer recorte de comparações ou preferências. Não há jeito: aqui ou ali, é inevitável sair com o coração um tanto partido.

Contudo, abraço o desafio e novamente estou aqui com mais uma seleção que, no frigir dos ovos, acaba me representando bastante. Considerando os títulos lançados comercialmente no Brasil em 2022 tanto nas salas de cinema quanto em streaming, a lista dos meus melhores de 2022 traz Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo na dianteira com 11 indicações, seguido por Nada de Novo no Front com oito. Os vencedores serão conhecidos, como nas últimas edições, em três postagens com comentários. 

MELHOR FILME
Aftersun, de Charlotte Wells
Carvão, de Carolina Markowickz
Drive My Car, de Ryûsuke Hamaguchi
Marte Um, de Gabriel Martins
Moonage Daydream, de Brett Morgen
Nada de Novo no Front, de Edward Berger
Pinóquio por Guillermo del Toro, de Guillermo del Toro e Mark Gustafson
A Pior Pessoa do Mundo, de Joachim Trier
Spencer, de Pablo Larraín
Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo, de Daniel Kwan e Daniel Scheinert

MELHOR DIREÇÃO
Charlotte Wells (Aftersun)
Daniel Klein e Daniel Scheinert (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo)
Guillermo Del Toro (Pinóquio por Guillermo del Toro)
Edward Berger (Nada de Novo no Front)
Pablo Larraín (Spencer)

MELHOR ATRIZ
Emma Thompson (Boa Sorte, Leo Grande)
Isabelle Fuhrman (A Novata)
Kristen Stewart (Spencer)
Michelle Yeoh (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo)
Rebecca Hall (Resurrection)

MELHOR ATOR
Austin Butler (Elvis)
Franz Rogowski (Great Freedom)
Hidetoshi Nishijima (Drive My Car)
Paul Mescal (Aftersun)
Tony Ramos (45 do Segundo Tempo)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Dakota Johnson (Cha Cha Real Smooth – O Próximo Passo)

Jamie Lee Curtis (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo)
Janelle Monáe (Glass Onion: Um Mistério Knives Out)
Lashana Lynch (A Mulher Rei)
Stephanie Hsu (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Anders Danielsen Lie (A Pior Pessoa do Mundo)
Anthony Hopkins (Armageddon Time)
Ke Huy Quan (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo)
Mark Rylance (Até os Ossos)
Tim Roth (Resurrection)

MELHOR ELENCO
Carvão
O Clube dos Anjos
Marte Um
O Menu
Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Aftersun
Palm Springs
Pequena Mamãe
A Pior Pessoa do Mundo
Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Até os Ossos
O Clube dos Anjos
Drive My Car
O Enfermeiro da Noite
Nada de Novo Front

MELHOR MONTAGEM
5 Casas
Aftersun
Moonage Daydream
Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo
A Pior Pessoa do Mundo

MELHOR FOTOGRAFIA
Aftersun
Avatar: O Caminho da Água
Blonde
Não! Não Olhe!
Spencer

MELHOR TRILHA SONORA
Blonde
Pinóquio por Guillermo del Toro
Nada de Novo no Front
A Novata
Spencer

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“Ciao Papa” (Pinóquio por Guillermo del Toro)
“Hold My Hand” (Top Gun: Maverick)
“My Son” (Pinóquio por Guillermo del Toro)
“Naatu Naatu” (RRR: Revolta, Rebelião, Revolução)
“(You Made it Feel Like) Home” (Até os Ossos)

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
Avatar: O Caminho da Água
O Beco do Pesadelo

Nada de Novo no Front
Pinóquio por Guillermo del Toro
Spencer

MELHOR FIGURINO
O Beco do Pesadelo
Blonde
A Mulher Rei
Spencer
A Viagem de Pedro

MELHOR SOM
Avatar: O Caminho da Água
Moonage Daydream
Nada de Novo no Front
Não! Não Olhe!
Pinóquio por Guillermo del Toro

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Avatar: O Caminho da Água
Batman
Nada de Novo no Front
Top Gun: Maverick
Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo

MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS
O Beco do Pesadelo
A Mulher Rei
Nada de Novo no Front
Os Olhos de Tammy Faye
Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo

Melhores de 2021: roteiros, direção e filme

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MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Christopher Hampton e Florian Zeller (Meu Pai)

O que mais admiro em adaptações teatrais para o cinema é a capacidade de um roteiro conseguir tirar o melhor da natureza dos palcos e eliminar tudo o que poderia parecer um teatro filmado. Meu Pai faz isso com louvor. Transpondo um texto muito premiado na Europa — Lé Père, vencedor do prestigiado Moliére de melhor peça em 2014 — Christopher Hampton e Florian Zeller transformam o material original de autoria do próprio Zeller em uma grande imersão a partir de elementos que, nas mãos erradas, poderiam limitá-lo: um único cenário, pouquíssimos personagens, ação centrada em diálogos, etc. Zeller foi certeiro ao chamar Hampton para esse trabalho, visto que ele é um mago das adaptações — afinal de contas, não é qualquer roteirista de Hollywood que tem na conta filmes como Ligações Perigosas e Desejo e Reparação. Juntos, eles entregam um roteiro de grandes dimensões emocionais e de desdobramentos e surpresas que acompanham o espectador até o último minuto de projeção, quando Meu Pai encerra a sua dolorosa jornada com o momento de maior baque emocional de 2021.

DRUK

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Thomas Vinterberg e Tobias Lindholm
(Druk: Mais Uma Rodada)

Para o espectador mais desavisado, Druk: Mais Uma Rodada pode soar como uma divertida brincadeira, pois a arrancada se dá a partir da descoberta de um estudo sobre como precisamos compensar um déficit de álcool no sangue para equilibrar a vida cotidiana. Só que há uma virada de chave na euforia vivida pelos quatro amigos que abraçam essa teoria, e Druk passa a refletir sobre o que pode ter levado os personagens a buscarem por algum tipo de ânimo em seus dias. Para tanto, o roteiro escrito por Thomas Vinterberg e Tobias Lindholm mergulha nas crescentes doses alcoólicas de Martin (Mads Mikkelsen) e transforma brincadeira em melancolia. O âmago do roteiro é essa acertada decisão de tentar entender como os personagens foram descaracterizando as suas próprias vidas ao ponto de precisarem de alguns goles de vodka já no café da manhã para voltarem a brilhar. Vinterberg e Lindholm se movimentam por essa premissa com profundidade e humanidade, preocupados em manter a palpabilidade desses quatro homens entre o drama e a comédia, regadas pelas habituais inteligências do cinema dinamarquês.

directingcampion

MELHOR DIREÇÃO
Jane Campion (Ataque dos Cães)

Aproximando-se dos 70 anos de idade, a cineasta Jane Campion diz que já começa a pensar no seu legado. Mais do que olhar para trás, o que importa, segundo ela, é fazer filmes surpreendentes e sem amarras daqui para frente. Ataque dos Cães já é um deles. Não que outros trabalhos de Campion não o sejam, mas esse longa que lhe rendeu o Leão de Prata de melhor direção em Veneza e, posteriormente, o Oscar na mesma categoria representa algo novo em sua carreira: pela primeira, ela conta uma história centrada em uma figura masculina. E o faz, claro, surpreendendo, como bem quer fazer. Após conseguir viabilizar a adaptação do livro homônimo de Thomas Savage que já havia sido planejada pelo menos cinco vezes, Campion imediatamente procurou Annie Proulx, autora do conto que deu origem a O Segredo de Brokeback Mountain para apurar seu olhar sobre um projeto que gosta de enxergar como uma espécie de pós-western. Esse seu comprometimento com a inovação é o que faz de Ataque dos Cães um filme único. Campion recusa ferramentas fáceis e confia na capacidade do público de entrar na psique dos personagens, revelando-os pouco a pouco. Por meio de nuances e de uma rigorosa atmosfera, ela dá aula sobre como as reticências podem ser muito mais poderosas do que qualquer manipulação fabricada.

thefatherbmovie

MELHOR FILME
Meu Pai

Meu Pai pode muito bem ser considerado o filme definitivo sobre demência que o cinema de língua inglesa tenta fazer há muitos anos. Escapa à memória qualquer projeto tão devastador e imersivo como esse assinado pelo diretor Florian Zeller, adaptando um espetáculo teatral de autoria própria. Encharcado de terror ao colocar o espectador diante de um destino de vida do qual ninguém está livre, Meu Pai é um exercício de empatia executado com maestria, da interpretação magistral de Anthony Hopkins a detalhes técnicos que se revelam fundamentais para a narrativa, como a montagem e o design de produção. Também transfere um texto teatral para o cinema sem cacoetes tão comuns em adaptações dessa natureza, muito em função da parceria de Zeller com Christopher Hampton no roteiro. É o tipo de filme que perdurará como um relato avassalador da demência, mas, acima de tudo, como um verdadeiro exemplo de como ainda é possível revolucionar o relato de temas desgastados por fórmulas e impressionar cinematograficamente sem maneirismos ou distrações.

Melhores de 2021: categorias de intepretação

THE POWER OF THE DOG

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Kodi Smit-McPhee (Ataque dos Cães)

É praticamente impossível entender o que se passa na mente de Peter, o jovem vivido por Kodi Smit-McPhee que acaba girando as engrenagens de Ataque dos Cães. Alto e esguio, ele parece se movimentar em um universo próprio, revelando-se aos poucos para o espectador e comunicando muito através da linguagem corporal. Para além da questão física, Smit-McPhee brilha por compreender que seu personagem não tem um arco propriamente dito: o que ele faz é estimular e intrigar a plateia com um jovem cujas grandes transformações aconteceram na vida pregressa ao início do filme. Traumas, inseguranças e receios relacionados à sua essência já surgem resolvidos em Ataque dos Cães, e é justamente essa segurança de ser quem ele é que desestabiliza Phil (Benedict Cumberbatch). Entre a delicadeza de ser o filho que zela pela própria mãe e os movimentos sinuosos de uma personalidade bastante particular, o ator dá conta de várias questões sobre ideais de masculinidade ainda muito presentes e confere complexidade a um personagem laudatório das melhores qualidades de Ataque dos Cães.

sactressbuckley

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Jessie Buckley (A Filha Perdida)

Interpretando a mesma personagem, mas em momentos diferentes de vida, Jessie Buckley e Olivia Colman nunca sentaram para conversar ao longo de toda a realização de A Filha Perdida. Inclusive, elas não acreditavam em tal necessidade — o que muito agradou a diretora Maggie Gyllenhaal, que organizou os distintos recortes da protagonista Leda como se elas fossem ecos, previsões e reminiscências de uma vida marcada pela inadequação ao que a sociedade exige das mulheres, especialmente daquelas que se tornam mães. Buckley é uma maravilhosa escalação para a versão nova da personagem porque, claro, é boa atriz, e porque tem instintos parecidos com os de Olivia Colman no que tange escolha de projetos e o tipo de papeis que gosta de interpretar. Sem jamais julgar Leda, ela já dá pistas dos sentimentos e das circunstâncias que a moldaram, equilibrando-se nessa eterna corda bamba que a vida nos coloca de sermos capazes de fazer tanto escolhas boas quanto ruins. É mais um atestado bastante claro e instigante de que Jessie Buckley está entre as melhores atrizes de sua geração.

bactorhopkins

MELHOR ATOR
Anthony Hopkins (Meu Pai)

Anthony Hopkins disse em várias entrevistas que foi muito fácil fazer Meu Pai. Sua teoria é de que Florian Zeller e Christoper Hampton escreveram um roteiro tão extraordinário e Olivia Colman foi uma parceira tão ímpar em cena que tudo o que ele precisava fazer era se deixar levar. Se realmente foi tão fácil como Hopkins diz, só podemos deduzir que o foi porque, à parte o talento, há coisas que um ator conquista apenas com a experiência, entre elas, a capacidade de encarar desafios com naturalidade. Sem nunca ter tido uma experiência próxima envolvendo Alzheimer ou doenças do gênero, o ator, apesar disso, colocou-se na pele do protagonista como se tivesse acompanhado uma história como essa de perto. O olhar profundo e generoso com que ele abarca um complicadíssimo dilema do qual ninguém está livre (o que fazer quando as pessoas que você ama começam a perder as suas estruturas?) é de partir o coração, principalmente porque o protagonista, preso na ideia de que está seguro de si como sempre esteve a vida inteira, luta para tentar dar algum sentido ao que acontece já não consegue mais entender. Tenho sempre muita cautela ao afirmar que determinado desempenho é o melhor da carreira de alguém. No entanto, no caso de Anthony Hopkins em Meu Pai, a exceção pode ser feita sem qualquer medo.

THE LOST DAUGHTER. OLIVIA COLMAN as LEDA. CR. COURTESY OF NETFLIX

MELHOR ATRIZ
Olivia Colman (A Filha Perdida)

Resumidamente, a expressão norte-americana taken for granted seria como o ato de tomar algo como certo ou garantido, sem que fosse digno de maior atenção e celebração por já ter se consolidado o suficiente. Pode ser uma percepção prematura, mas desconfio que Olivia Colman, assim como tantas outras atrizes extraordinárias, já se encaixe no taken for granted por ter recebido um Oscar dos mais justos por A Favorita e por não ter errado a mira depois de tal celebração, participando de séries como The Crown e Fleabag ou do extraordinário Meu Pai, filme em que atuou ao lado de Anthony Hopkins. É apenas esse taken for granted que explica o fato de Olivia não ter varrido premiações e festivais com a sua performance em A Filha Perdida. Olivia traz entendimento e camadas a uma personagem difícil de definir e de gostar, evitando transformá-la em uma louca e, ao mesmo tempo, renegando a ideia de torná-la palatável ao público. A Leda mais madura da atriz e interpretada na juventude por Jessie Buckley carrega remorsos e (in)certezas traduzidos em cada inflexão de uma intérprete com a rara capacidade de sempre surpreender, impactar e fazer com que tudo pareça tão natural. Celebrar Olivia Colman nunca deve ser demais.

shivacast

MELHOR ELENCO
Shiva Baby

São muitas as variáveis que podem definir um bom elenco. Número de atores? Sinergia entre eles? Equivalência na grandeza de interpretações? Acertos em todas as escalações? Ao meu ver, não há uma resposta certa. Há elencos excepcionais que, formados por apenas três ou quatro pessoas, garantem aulas de atuação, como em Dúvida, premiado nessa respectiva categoria aqui no blog, e há casos como o de Shiva Baby, que conjuga de tudo um pouco, passando por um número volumoso de atores, pela excelente dinâmica estabelecida entre eles e por um grande equilíbrio de talentos. Encabeçado pela performance reveladora de Rachel Sennott (apenas em seu segundo longa-metragem, mas demonstrando um domínio singular), o elenco de Shiva Baby se engrandece ao tornar crível a dinâmica de uma família deveras particular e repleta de personalidades tão distintas quanto complementares, com particular também para Polly Draper, que interpreta a mãe da protagonista. Em pouco menos de 80 minutos, todos têm papel fundamental na construção do grande sentimento de claustrofobia que permeia o longa de estreia de Emma Seligman.