Cinema e Argumento

Os Suspeitos

Pray for the best, but prepare for the worst.

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Direção: Denis Villeneuve

Roteiro: Aaron Guzikowski

Elenco: Hugh Jackman, Jake Gyllenhaal, Melissa Leo, Paul Dano, Maria Bello, Viola Davis, Terrence Howard, Dylan Minnette, Kyla Drew Simmons, Zoe Borde, Erin Gerasimovich, Wayne Duvall, David Dastmalchian, Brad James

Prisoners, EUA, 2013, Suspense/Drama, 153 minutos

Sinopse: Boston, Estados Unidos. Keller Dover (Hugh Jackman) leva uma vida feliz ao lado da esposa Grace (Maria Bello) e os filhos Ralph (Dylan Minnette) e Anna (Erin Gerasimovich). Um dia, a família visita a casa de Franklin (Terrence Howard) e Nancy Birch (Viola Davis), seus grandes amigos. Sem que eles percebam, a pequena Anna e Joy (Kyla Drew Simmons), filha dos Birch, desaparecem. Desesperadas, as famílias apelam à polícia e logo o caso cai nas mãos do detetive Loki (Jake Gyllenhaal). Não demora muito para que ele prenda Alex (Paul Dano), que fica apenas 48 horas preso devido à ausência de provas contra ele. Alex na verdade tem o QI de uma criança de 10 anos e, por isso, a polícia não acredita que ele esteja envolvido com o desaparecimento. Entretanto, Keller está convicto de que ele tem culpa no cartório e resolve sequestrá-lo para arrancar a verdade dele, custe o que custar. (Adoro Cinema)

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Pelo menos dois diretores provaram, em 2013, que, ao contrário do que vozes mais radicais apontam, é possível sim deixar seu país de origem para trabalhar nos Estados Unidos sem perder a veia autoral – e ainda, de quebra, dar uma aula de como revitalizar gêneros aparentemente cansados. O primeiro foi o mexicano Alfonso Cuarón, que ensinou como a tecnologia ainda pode estar inteiramente a favor da narrativa de um blockbuster com o impressionante Gravidade. Já o segundo veio do Canadá, entregando esse suspense policial chamado Os Suspeitos. É Denis Villeneuve, que, anos atrás, concorreu ao Oscar por Incêndios e agora se aventura em terras estadunidenses sem qualquer sugestão que tenha se vendido ou se adaptado a padrões comerciais. Isso porque Os Suspeitos é um filme subversivo para o gênero e frequentemente inovador em pequenas decisões que, quando analisadas em conjunto, resultam em um dos filmes mais contundentes de 2013.

Os Suspeitos tem de tudo um pouco: do suspense policial ao drama familiar, da complexidade narrativa à simplicidade que não subestima a inteligência do espectador, do ritmo contemplativo à duração ágil… Mas o que existe de mais especial nesse longa é a forma como ele brinca com os limites de um filme policial, especialmente na figura de Keller (Hugh Jackman, em mais um desempenho marcante para a sua carreira, depois de Os Miseráveis), um protagonista totalmente anti-convencional. Seguindo basicamente a mesma lógica de que “eu não tenho provas, mas tenho a minha certeza” da freira maluca de Meryl Streep em Dúvida, Keller até tem a nossa compaixão pela situação angustiante que vive, mas também a nossa aversão, já que seu senso de justiça com as próprias mãos chega ao total descontrole. É na figura dele que está muito bem representado um dos maiores méritos de Os Suspeitos: o de que não existem respostas certas nessa trama e de que é difícil saber como agir em uma situação guiada por desespero.

Falar mais sobre a história é minar as surpresas desse longa consistente e repleto de surpresas, mas que em momento algum – ao contrário do recente Terapia de Risco – se apoia exclusivamente em excessivas reviravoltas para mostrar inteligência. Na realidade, elas são apenas parte de uma atmosfera bem construída, onde o roteiro muitíssimo bem elaborado de Aaron Guzikowski consegue mesclar várias histórias aparentemente sem ligação com total sentido, fechando cada ciclo sem deixar pontas soltas. A premissa por si só – o desaparecimento de um filho! – já é suficientemente angustiante, mas Os Suspeitos faz tudo (com êxito) para ampliar essa sensação. É uma vitória que vai além de um roteiro seguro e impactante, passando ainda por um grande trabalho de fotografia (o mestre Roger Deakins acerta mais uma vez, dessa vez tornando a história sempre nebulosa, sufocante, quase sem cores) e, claro, por uma direção extremamente no controle de cada um dos elementos, mas que não peca por se ater demais no rigor e menos na desenvoltura para alinhar todos os detalhes.

Muitos desaprovam o desfecho, que me parece ter incomodado justamente por ter uma revelação diferente e um teor que segue a linha das várias subversões narrativas do roteiro. Ao meu ver, ele só dá o fechamento ideal para essa história que permanece com o espectador depois do filme e que certamente instiga a revisões para que possamos perceber ainda mais outros detalhes da construção do quebra-cabeça. Muito além de Hugh Jackman, o elenco de Os Suspeitos é outro ponto forte da trama, visto que todos os atores possuem seu momento de brilho ou pelo menos personagens que estão ali para ter sua parcela de contribuição na solução/complexidade do suspense. O longa de Villeneuve, portanto, não é o policial de tiroteios, a investigação de resoluções desnecessariamente mirabolantes ou o drama de respostas fáceis. É melhor e mais envolvente do que isso, mas com a devida dose de sobriedade. Simples e completo, como há muito não víamos no gênero. Que venham mais exemplares assim, por favor.

FILME: 9.0

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Azul é a Cor Mais Quente

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Direção: Abdellatif Kechiche

Roteiro: Abdellatif Kechiche e Ghalia Lacroix, baseado na HQ “Le Bleu est Une Couleur Chaude”

Elenco: Adèle Exarchopoulos, Léa Seydoux, Salim Kechiouche, Benjamin Siksou, Mona Walravens, Alma Jodorowsky, Jérémie Laheurte, Catherine Salée, Sandor Funtek, Anne Loiret, Benoît Pilot, Samir Bella, Maelys Cabezon

La Vie d’Adèle, França/Bélgica/Espanha, 2013, Drama, 179 minutos

Sinopse: Adèle (Adèle Exarchopoulos) é uma garota de 15 anos que descobre, na cor azul dos cabelos de Emma (Léa Seydoux), sua primeira paixão por outra mulher. Sem poder revelar a ninguém seus desejos, ela se entrega por completo a este amor secreto, enquanto trava uma guerra com sua família e com a moral vigente. (Adoro Cinema)

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Azul é a Cor Mais Quente fez história no Festival de Cannes: pela primeira vez, a Palma de Ouro – prêmio máximo concebido pelo evento -, foi oficialmente destinada a outras pessoas além do diretor. No caso, o júri presidido por Steven Spielberg entregou a distinção também às atrizes Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux. Uma exceção justa e coerente para este filme cujos maiores méritos se concentram exatamente nessas três figuras que compreenderam plenamente a preciosidade de uma história extremamente fiel à vida, com suas dores e alegrias. Ao longo de três horas, o diretor Abdellatif Kechiche faz justamente isso: conduz as duas atrizes por momentos totalmente de acordo com a realidade, extraindo ainda momentos singulares de cada uma delas.

O título original, A Vida de Adèle (em uma tradução literal), apesar de genérico, diz muito mais sobre o filme. Isso porque Azul é a Cor Mais Quente acompanha diversos momentos da vida de Adèle (Exarchopoulos), da sua juventude heterossexual no colégio a sua vivência como uma professora adulta que cultiva um relacionamento com uma mulher. No meio disso tudo, as pequenas e grandes descobertas, o primeiro amor, a auto-aceitação, a construção de uma vida a dois, os erros e os acertos… É, literalmente, a vida de Adèle, contada inteiramente  a partir do ponto de vista da protagonista. Desta forma, a ambiciosa duração – que é sentida mas nunca um empecilho – se revela completamente condizente com a proposta do diretor: ela é essencial para que cada momento tenha a profundidade e o impacto necessários, como se vivêssemos tudo aquilo pela primeira vez junto com Adèle.

Ou seja, Azul é a Cor Mais Quente não se utiliza de quase três horas de duração somente para narrar o maior número de fatos possíveis, mas sim para dar a devida emoção e verossimilhança a eles. Isso nos leva às tais “polêmicas” cenas de sexo, que só são chamadas assim por aqueles que não compreendem que toda a nudez e a longa duração de cada uma delas vai ao encontro dessa proposta do diretor de fazer com que o espectador acompanhe tudo com a mesma dose de surpresa e novidade que a protagonista. E esse compromisso com a vida real também se reflete, claro, no trabalho das duas atrizes, em especial no da extraordinária Adèle Exarchopoulos, a grande revelação do ano. No cinema desde 2007, quando debutou em Boxes, ao lado de Geraldine Chaplin, Adèle alcança aqui uma merecida visibilidade. É limitado resumir sua atuação à grande entrega física com Léa Seydoux, já que sua precisa interpretação acompanha todas as fases da personagem sem qualquer hesitação. É, enfim, um nome para acompanhar.

A sensação que se tem ao final de Azul é a Cor Mais Quente é que passamos por um turbilhão de acontecimentos, mas a verdade é que a intensidade que sentimos é muito mais em função da imersão proporcionada pelo roteiro de Abdellatif Kechiche e Ghalia Lacroix, baseado na HQ Le Bleu est Une Couleur Chaude. Por estarmos tão próximos de Adèle, sentimos cada uma de suas dúvidas e angústias. O que também merece ser ressaltado é que o longa está muito longe de qualquer pretensão. Em Azul é a Cor Mais Quente não existe uma insistência em metáforas ou uma vontade de trazer grandes complexidades a cada uma das situações propostas por Kechiche. E isso é muito positivo, pois, desta forma, o filme se torna muito mais natural e sem constantes rimas visuais ou de roteiro – ao contrário do que o título brasileiro implica no nosso inconsciente: a vontade de procurar azul em todas as cenas e dar significados a isso.

Favorito para ganhar todos os prêmios de filme estrangeiro da temporada (menos o Oscar, já que não foi lançado nas salas francesas no prazo exigido pela Academia para torná-lo elegível na categoria de melhor filme estrangeiro), Azul é a Cor Mais Quente se revela ainda mais sincero até mesmo nas suas curiosidades extra-filme: no set, por exemplo, Adèle e Léa não tinham maquiadoras ou cabeleireiras, apresentando-se frente às câmeras com aquilo que elas realmente são fisicamente. São esses detalhes valiosos que estabelecem o longa de Kechiche como um dos relatos mais coerentes com a vida que vimos nos últimos anos. É provável que se estenda desnecessariamente no final (a história poderia ter acabado perfeitamente na cena da cafeteria, sem a sequência da exposição), mas é pouco perto de um filme que lida muito bem com a questão da homossexualidade e das angústias e expectativas humanas. Crescer acontece mais rápido do que a gente imagina, diz Emma (Seydoux) em certo ponto. Adèle aprenderá isso. E nós, se ainda não chegamos a esse estágio, teremos esse mesmo aprendizado com a sua jornada.

FILME: 8.5

4

Carrie – A Estranha

I don’t want you to get hurt…

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Direção: Kimberly Peirce

Roteiro: Roberto Aguirre-Sacasa, baseado no livro “Carrie”, de Stephen King

Elenco: Chloë Grace Moretz, Julianne Moore, Judy Greer, Gabriella Wilde, Portia Doubleday, Alex Russell, Zoë Belkin, Ansel Elgort, Samantha Weinstein, Karissa Strain, Barry Shabaka Henley, Demetrius Joyette, Arlene Mazerolle

Carrie, EUA, 2013, Terror, 100 minutos

Sinopse: Carrie retrata um grande desastre ocorrido na cidade americana de Chamberlain, Maine, destruída pela jovem Carietta White (Chloë Grace Moretz). Nos anos anteriores à tragédia, a adolescente foi oprimida pela sua mãe, Margaret (Julianne Moore), uma fanática religiosa. Além dos maus tratos em casa, Carrie também sofria com o abuso dos colegas de escola, que nunca compreenderam sua aparência, nem seu comportamento. Um dia, quando a jovem menstrua pela primeira, ela se desespera e acredita estar morrendo, por nunca ter conversado sobre o tema em casa. Mais uma vez, ela é ridicularizada pelas garotas do colégio. Aos poucos, ela descobre que possui estranhos poderes telecinéticos, que se manifestam durante sua festa de formatura, quando os jovens mais populares da escola humilham Carrie diante de todos. (Adoro Cinema)

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Sejamos bem francos: excetuando razões comerciais, não há motivo algum que justifique o remake de clássicos do cinema. Pelo menos não nas últimas décadas. Pare e pense: qual refilmagem de um filme icônico realmente deu certo? Ou melhor, qual teve pelo menos algo a dizer ou uma desculpa justificável para que determinada história ganhasse uma nova versão? Porque é isso mesmo: quase todos os remakes que vimos nos anos mais recentes foram completamente desnecessários, para dizer o mínimo. Por isso, é sempre preocupante quando anunciam a ideia de trazer um clássico para as novas plateias. Infelizmente, o caso mais recente, Carrie – A Estranha, não foge à regra. Mesmo com uma veterana que dispensa comentários e uma jovem promissora encabeçando o elenco, além de uma diretora competente, essa nova versão do filme de Brian de Palma (adaptado do livro de Stephen King) é outro exemplar que lamentavelmente fracassa em sua missão de releitura, provando, mais uma vez, que não se deve mexer com clássicos.

A execução nem chega a ser o mais decepcionante, já que os maiores problemas desse novo Carrie – A Estranha estão na própria concepção da história. O filme de Kimberly Peirce (responsável por um impactante filme chamado Meninos Não Choram, que rendeu o primeiro Oscar de melhor atriz para Hilary Swank) perde boa parte de suas chances ao se ajustar ao público jovem da atualidade. Com essa adaptação, a história ganha um viés completamente adolescente, perdendo aquilo que justamente tornava o longa de Brian de Palma tão especial: o estudo de todo o contexto psicológico da perturbada protagonista. Aqui, com o roteiro de Roberto Aguirre-Sacasa, Carrie vira um mero terror colegial protagonizado por adolescentes tolas. Tudo é jovem demais, seja dentro da própria história (câmeras de celular! Youtube!) ou do próprio tom, que reflete as corriqueiras bobagens sanguinolentas e estereotipadas dos filmes desse formato. É lamentável não encontrar aqui o que mais dava certo antes: a contextualização dramática, o devido mergulho na relação doentia entre Carrie (Chloë Grace Moretz) e sua mãe (Julianne Moore) e um passo a passo dramático que nos faça crer que as tragédias dos momentos finais eram realmente necessárias.

Com a ausência de tais abordagens, o longa de Peirce não passa de uma história teen com toques de terror, repleta de figuras extremas (a vilã é completamente unidimensional, uma doente psicopata), contextos questionáveis (essa é uma escola onde até os professores batem na cara dos alunos e os discriminam em uma apresentação de poesia) e desenvolvimentos rasos (a telecinesia é particularmente avulsa). Por isso, a indignação é maior com as bobagens do filme do que com a situação da protagonista, que sofre mas não tem contextos envolventes para conquistar nossa compaixão. Inclusive porque Carrie ainda peca em um ponto crucial: a escalação de Chloë Grace Moretz. Se a aparência frágil e atípica de Sissy Spacek já cumpria metade da missão de vitimizar Carrie no longa original, o oposto acontece na refilmagem: Moretz é uma menina bonita e o filme, ao tentar “enfeiar” a atriz, faz com que ela se limite a gestos e olhares forçados para transmitir essa sua isolação. O resultado? Não somos convencidos – e percebam como, quando ela surge produzida e maquiada para o baile, nem nos surpreendemos tanto com sua transformação, já que é fácil perceber que não era necessária uma mega produção para Carrie ficar, no mínimo, tão atraente fisicamente quanto suas colegas acéfalas.

Talvez o que exista de mais relevante em Carrie – A Estranha seja a figura de Julianne Moore. Como a mãe louca e religiosa, ela até que tem seus momentos. Entretanto, assim como várias outras personagens, não passa de uma maluca que vem só para infernizar a vida da protagonista. Sua obsessão pela bíblia e seu visual de bruxa (precisavam mesmo representar a loucura da personagem até nos cabelos da atriz?) nunca são explicadas – o que, convenhamos, daria um tom completamente diferente à personagem e também à dinâmica perigosa que ela estabelece com a filha. Abusando desnecessariamente de efeitos para mostrar sangue e mortes – algo que tira completamente o espectador da tensão que deveria ser realista e nervosa – Carrie chega a ser enxuto e distante de ofender, mas não o suficiente para diminuir os erros de uma narrativa pobre, vazia e despreocupada com a força dramática e psicológica que a história tanto necessita para a elaboração de seu suspense. Dá para ver um público para esse filme e, na hora em que os créditos finais sobes, a impressão que ele talvez nem seja tão ruim… Mas quanto mais se pensa no resultado e mais o tempo passa, as lembranças ficam piores. E isso não seria o contrário do que uma história clássica deveria causar?

FILME: 5.5

2*

Rapidamente

A diretora canadense Sarah Polley já é favorita para a temporada de premiações com o documentário "Histórias Que Contamos - Minha Família"

A diretora canadense Sarah Polley já é favorita para a temporada de premiações com o documentário Histórias Que Contamos – Minha Família

À PROCURA DO AMOR (Enough Said, 2013, de Nicole Holofcener): Basicamente a mesma brincadeira tinha sido contada anos atrás com Meryl Streep e Uma Thurman no simpático Terapia do Amor. Por isso, esse À Procura do Amor já não ganha em originalidade, principalmente com um roteiro tão morno e que nem no momento destinado a ser o clímax consegue realmente alcançar um grande nível. Talvez seja característica da própria diretora Nicole Holofcener, que tem uma excelente carreira na TV (já dirigiu episódios de A Sete Palmos, Sex and the CityEnlightened), mas que no cinema nunca chegou a apresentar obras mais especiais – como é o caso também de Amigas Com Dinheiro, outra comédia dramática bastante morna dirigida por ela. É válida a proposta de À Procura do Amor de mostrar personagens “gente como a gente”, mas várias pontos são decepcionantes: Toni Collette só serve para ser a amiga que ouve as confissões da protagonista, a forma como o roteiro coloca amizade e amor na balança em seus últimos momentos é um tanto questionável e tudo se desenvolve com várias previsibilidades. Quem se destaca mesmo é a dupla Julia Louis-Dreyfuss e James Gandolfini, com uma ótima sintonia. Sem eles, À Procura do Amor sairia do mediano para o entediante.

A RELIGIOSA (La Religieuse, 2013, de Guillaume Nicloux): A Religiosa, exibido no Festival de Berlim deste ano, é uma mistura de Em Nome de DeusDepois de Lúcia. Ou seja, um cotidiano simplesmente aterrorizante em um cenário religioso e também uma dolorosa via crucis de uma protagonista injustiçada. Narrando os dias de uma jovem que é confinada em um convento a mando de seus próprios pais, o filme de Guillaume Nicloux mostra toda as consequências que Suzanne (Pauline Etienne, muito segura) sofre quando nega, em 1796, sua promessa eterna a Deus perante autoridades da igreja e anuncia que está lá contrariada e sem vocação alguma para a vida religiosa. Ao contrário do que poderia se esperar, A Religiosa começa já com o alto sofrimento de Suzanne e pouco a pouco vai amortecendo os acontecimentos que narra (ao contrário do próprio Depois de Lúcia, que a cada minuto ficava ainda mais sufocante), até se encerrar de forma não tão interessante, apostando em uma storyline um tanto avulsa e forçada envolvendo uma freira lésbica vivida por Isabelle Huppert. Mas a discussão em torno das intolerâncias da igreja e como a vida religiosa se revela desde sempre um atraso na escala evolutiva humana são sempre instigantes. Por isso, mesmo que ambientado no século XVII, A Religiosa é sim um filme atemporal.

HISTÓRIA QUE CONTAMOS – MINHA FAMÍLIA (Stories We Tell, 2012, de Sarah Polley): Exibido no Festival do Rio em 2012, esse mais recente filme da canadense Sarah Polley já é favorito para conquistar as categorias de documentário da próxima temporada de premiações. E será especialmente justo, pois poucas vezes vimos – pelo menos nos últimos anos – um filme desse gênero tão pessoal e sincero. Aqui no Brasil, tivemos Elena recentemente, e História Que Contamos se apoia em uma proposta semelhante, onde a diretora faz uma homenagem a sua falecida mãe. Mas, ao mesmo tempo em que registra a influência dessa figura materna em sua família, Polley também descobre fatos que desconhecia, o que torna o filme também uma experiência cheia de novidades pessoais para ela – algumas, inclusive, decisivas para o modo como ela enxerga a vida e a dinâmica com seus entes queridos. O vasto material de arquivo pessoal ajuda História Que Contamos a se tornar ainda mais pessoal, colocando o espectador como parte daquela família. Se a diretora já havia demonstrando maturidade cinematográfica e sensibilidade apurada anos atrás com o belo Longe Dela, aqui tudo se confirma, com uma cineasta que, mesmo falando sobre sua vida e sua própria identidade, nunca restringe a história que conta ao seu próprio umbigo. Histórias Que Contamos não é egocêntrico. É sobre todos nós.

UM TIME SHOW DE BOLA (Metegol, 2013, de Juan José Campanella): Dada a proposta e o tema de Um Time Show de Bola, não seria necessariamente certo esperar uma animação com a mesma força emocional de O Filho da Noiva ou com o mesmo requinte narrativo de O Segredo dos Seus Olhos, mas era sim aguardado um roteiro melhor de Juan José Campanella. Com esse filme, ele realiza o trabalho mais desinteressante de sua carreira em termos de texto. É decepcionante como ele não consegue se decidir entre a homenagem ao futebol e as claras referências ao mundo de Toy Story. Essa indecisão afeta o ritmo de Um Time Show de Bola que, quando aposta nos brinquedos ganhando vida, fica sem foco algum, apostando apenas em situações cômicas nada originais. Por isso, mesmo quando decide falar de futebol (a partida final é, sem dúvida, o ponto alto do filme), tudo está muito atrasado depois de longos minutos insistindo em brinquedos falantes, cuja presença em nada influencia as grandes decisões dos personagens de carne e osso. Em tempos que realizadores de longas live action têm surpreendido em animações (Gore Verbinski com Rango, Tim Burton com Frankenweenie), Campanella decepciona com Um Time Show de Bola – seja pela maldição de ser um grande realizador que desde sempre nos desperta altas expectativas ou pelo simples fato do roteiro ser completamente desleixado.

Jogos Vorazes: Em Chamas

We don’t have to destroy her. Just her image.

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Direção: Francis Lawrence

Roteiro: Simon Beaufoy e Michael Arndt, baseado no livro “Catching Fire”, de Suzanne Collins

Elenco: Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Philip Seymour Hoffman, Woody Harrelson, Donald Sutherland, Elizabeth Banks, Stanley Tucci, Lenny Kravitz, Liam Hemsworth, Jena Malone, Jeffrey Wright, Amanda Plummer

The Hunger Games: Catching Fire, EUA, 2013, Aventura, 146 minutos

Sinopse: Segundo volume da trilogia Jogos Vorazes, baseada nos romances de Suzanne Collins. A saga relata a aventura de Katniss (Jennifer Lawrence), jovem escolhida para participar aos “jogos vorazes”, espécie de reality show em que um adolescente de cada distrito de Panem, considerado como “tributo”, deve lutar com os demais até que apenas um saia vivo. Neste segundo episódio da série, após a afronta de Katniss à organização dos jogos, ela deverá enfrentar a forte represália do governo local, lutando não apenas por sua vida, mas por toda a população de Panem. (Adoro Cinema)

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Não era por ser um filme meramente introdutório que o primeiro Jogos Vorazes não justificava todo o barulho que causou quando chegou aos cinemas. Ora, Harry Potter e a Pedra Filosofal, por exemplo, era igualmente didático nesse sentido, mas tinha um universo suficientemente fascinante e inovador para que entendêssemos o porquê de tanto encantamento. Só que basta analisar atentamente a premissa de Jogos Vorazes para perceber que nada ali é necessariamente novo. Pegue os jogos de vida ou morte em uma arena de Tron – Uma Odisseia Eltrônica e misture com o reality show manipulador de O Show de Truman para termos a premissa básica da história criada pela escritora estadunidense Suzanne Collins em 2008.

Se o primeiro volume da versão cinematográfica de Jogos Vorazes não conseguia ser nada além de uma mera introdução de personagens e situações, agora a franquia mostra finalmente ao que veio com essa continuação subtitulada Em Chamas, que surpreende ao ser exatamente tudo aquilo que o filme anterior deveria ter sido. Agora sim podemos dizer que Jogos Vorazes tem tudo para ostentar merecidamente o título de febre jovem sucessora de Harry Potter. Um fator crucial para que essa sequência tenha muito mais força e sentido é abater o problema que anos atrás também minou o drama Não Me Abandone Jamais: o de impor uma condição impensável e desumana aos personagens sem que eles movessem uma vírgula para mudar a tal circunstância que coloca suas vidas em risco. Existe reação em Jogos Vorazes: Em Chamas, o que já faz com que o filme dirigido por Francis Lawrence (substituindo Gary Ross) ganhe pontos aos se tornar muito mais crível e de acordo com a realidade.

O amadurecimento narrativo está claramente visível nessa nova adaptação, cujo roteiro, escrito pelos oscarizados Simon Beaufoy (Quem Quer Ser Um Milionário?) e Michael Arndt (Pequena Miss Sunshine), impressiona em sua precisa construção. Com uma primeira hora basicamente sem ação e desenvolvida toda a partir de diálogos, o texto é suficiente seguro para usar os diálogos como forma de imersão no novo mundo reacionário mas ditatorial protagonizado por Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence) e Peeta Mellark (Josh Hutcherson). Essa primeira parte é o ponto de partida ideal para situar o espectador nas novidades, apresentar novas figuras (Plutarch Heavensbee, vivido por Philip Seymour Hoffman, uma excelente aquisição) e preparar o terreno para as adrenalinas e reviravoltas da hora posterior.

Por falar em adrenalina, é igualmente gratificante ver que Jogos Vorazes se fortaleceu também nessa abordagem. A tensão se mostra muito mais elaborada e instigante, fazendo com que o espectador realmente se sinta dentro dos perigos da arena em que os personagens tentam a todo custo sobreviver. Por isso, pouco importa se Katniss vai ficar com Peeta ou Gale (Liam Hemsworth). Esse não é o foco da história, até porque Em Chamas está acertadamente muito mais preocupado em ser um filme de tons políticos e nervosos (tanto dramaticamente quanto em termos de ação), o que por si só já comprova a evolução do roteiro, que poderia facilmente se entregar aos desejos de ganhar os corações do público jovem se focando excessivamente em um triângulo amoroso.

O longa de Gary Ross é ainda uma experiência com excelentes reviravoltas (os últimos minutos são surpreendentes), onde o resultado nunca subestima o espectador e mostra que filmes desse gênero podem sim ser diferentes, ter ritmo dinâmico e ultrapassar o obstáculo da longa duração (que, neste caso, são 140 minutos extremamente ligeiros). Alguns aspectos ainda precisam ser ajustados, como a figura de Peeta, que precisa urgentemente deixar de ser o personagem praticamente indefeso e sem habilidades que só tropeça ou desmaia na hora da correria; a de Elizabeth Banks, ainda a boba da corte sem grandes dimensões; e a de Liam Hemsworth, que sofre com um personagem que não nos envolve e que precisa ter a nossa empatia para o conflito amoroso do filme. Mas, felizmente, nada disso inferioriza a consistência do texto de Beaufoy e Arndt.

A total reestruturação de Jogos Vorazes (pelo menos em direção e roteiro) sem dúvida fortaleceu a trama, introduzindo importantes adesões e se estabelecendo como um filme que vai muito além de uma mera transição. É uma empolgante preparação para os próximos capítulos (que, infelizmente, será dividido em duas partes, seguindo a nova moda de Hollywood). Fora ter Em Chamas como base, o filme seguinte (A Esperança) ainda guarda uma expectativa particular para o escriba que vos fala: a participação de Julianne Moore em um papel decisivo. Que essa futura continuação esteja à altura do capítulo que vimos este ano!

FILME: 8.5

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