Cinema e Argumento

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A diretora canadense Sarah Polley já é favorita para a temporada de premiações com o documentário "Histórias Que Contamos - Minha Família"

A diretora canadense Sarah Polley já é favorita para a temporada de premiações com o documentário Histórias Que Contamos – Minha Família

À PROCURA DO AMOR (Enough Said, 2013, de Nicole Holofcener): Basicamente a mesma brincadeira tinha sido contada anos atrás com Meryl Streep e Uma Thurman no simpático Terapia do Amor. Por isso, esse À Procura do Amor já não ganha em originalidade, principalmente com um roteiro tão morno e que nem no momento destinado a ser o clímax consegue realmente alcançar um grande nível. Talvez seja característica da própria diretora Nicole Holofcener, que tem uma excelente carreira na TV (já dirigiu episódios de A Sete Palmos, Sex and the CityEnlightened), mas que no cinema nunca chegou a apresentar obras mais especiais – como é o caso também de Amigas Com Dinheiro, outra comédia dramática bastante morna dirigida por ela. É válida a proposta de À Procura do Amor de mostrar personagens “gente como a gente”, mas várias pontos são decepcionantes: Toni Collette só serve para ser a amiga que ouve as confissões da protagonista, a forma como o roteiro coloca amizade e amor na balança em seus últimos momentos é um tanto questionável e tudo se desenvolve com várias previsibilidades. Quem se destaca mesmo é a dupla Julia Louis-Dreyfuss e James Gandolfini, com uma ótima sintonia. Sem eles, À Procura do Amor sairia do mediano para o entediante.

A RELIGIOSA (La Religieuse, 2013, de Guillaume Nicloux): A Religiosa, exibido no Festival de Berlim deste ano, é uma mistura de Em Nome de DeusDepois de Lúcia. Ou seja, um cotidiano simplesmente aterrorizante em um cenário religioso e também uma dolorosa via crucis de uma protagonista injustiçada. Narrando os dias de uma jovem que é confinada em um convento a mando de seus próprios pais, o filme de Guillaume Nicloux mostra toda as consequências que Suzanne (Pauline Etienne, muito segura) sofre quando nega, em 1796, sua promessa eterna a Deus perante autoridades da igreja e anuncia que está lá contrariada e sem vocação alguma para a vida religiosa. Ao contrário do que poderia se esperar, A Religiosa começa já com o alto sofrimento de Suzanne e pouco a pouco vai amortecendo os acontecimentos que narra (ao contrário do próprio Depois de Lúcia, que a cada minuto ficava ainda mais sufocante), até se encerrar de forma não tão interessante, apostando em uma storyline um tanto avulsa e forçada envolvendo uma freira lésbica vivida por Isabelle Huppert. Mas a discussão em torno das intolerâncias da igreja e como a vida religiosa se revela desde sempre um atraso na escala evolutiva humana são sempre instigantes. Por isso, mesmo que ambientado no século XVII, A Religiosa é sim um filme atemporal.

HISTÓRIA QUE CONTAMOS – MINHA FAMÍLIA (Stories We Tell, 2012, de Sarah Polley): Exibido no Festival do Rio em 2012, esse mais recente filme da canadense Sarah Polley já é favorito para conquistar as categorias de documentário da próxima temporada de premiações. E será especialmente justo, pois poucas vezes vimos – pelo menos nos últimos anos – um filme desse gênero tão pessoal e sincero. Aqui no Brasil, tivemos Elena recentemente, e História Que Contamos se apoia em uma proposta semelhante, onde a diretora faz uma homenagem a sua falecida mãe. Mas, ao mesmo tempo em que registra a influência dessa figura materna em sua família, Polley também descobre fatos que desconhecia, o que torna o filme também uma experiência cheia de novidades pessoais para ela – algumas, inclusive, decisivas para o modo como ela enxerga a vida e a dinâmica com seus entes queridos. O vasto material de arquivo pessoal ajuda História Que Contamos a se tornar ainda mais pessoal, colocando o espectador como parte daquela família. Se a diretora já havia demonstrando maturidade cinematográfica e sensibilidade apurada anos atrás com o belo Longe Dela, aqui tudo se confirma, com uma cineasta que, mesmo falando sobre sua vida e sua própria identidade, nunca restringe a história que conta ao seu próprio umbigo. Histórias Que Contamos não é egocêntrico. É sobre todos nós.

UM TIME SHOW DE BOLA (Metegol, 2013, de Juan José Campanella): Dada a proposta e o tema de Um Time Show de Bola, não seria necessariamente certo esperar uma animação com a mesma força emocional de O Filho da Noiva ou com o mesmo requinte narrativo de O Segredo dos Seus Olhos, mas era sim aguardado um roteiro melhor de Juan José Campanella. Com esse filme, ele realiza o trabalho mais desinteressante de sua carreira em termos de texto. É decepcionante como ele não consegue se decidir entre a homenagem ao futebol e as claras referências ao mundo de Toy Story. Essa indecisão afeta o ritmo de Um Time Show de Bola que, quando aposta nos brinquedos ganhando vida, fica sem foco algum, apostando apenas em situações cômicas nada originais. Por isso, mesmo quando decide falar de futebol (a partida final é, sem dúvida, o ponto alto do filme), tudo está muito atrasado depois de longos minutos insistindo em brinquedos falantes, cuja presença em nada influencia as grandes decisões dos personagens de carne e osso. Em tempos que realizadores de longas live action têm surpreendido em animações (Gore Verbinski com Rango, Tim Burton com Frankenweenie), Campanella decepciona com Um Time Show de Bola – seja pela maldição de ser um grande realizador que desde sempre nos desperta altas expectativas ou pelo simples fato do roteiro ser completamente desleixado.

Jogos Vorazes: Em Chamas

We don’t have to destroy her. Just her image.

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Direção: Francis Lawrence

Roteiro: Simon Beaufoy e Michael Arndt, baseado no livro “Catching Fire”, de Suzanne Collins

Elenco: Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Philip Seymour Hoffman, Woody Harrelson, Donald Sutherland, Elizabeth Banks, Stanley Tucci, Lenny Kravitz, Liam Hemsworth, Jena Malone, Jeffrey Wright, Amanda Plummer

The Hunger Games: Catching Fire, EUA, 2013, Aventura, 146 minutos

Sinopse: Segundo volume da trilogia Jogos Vorazes, baseada nos romances de Suzanne Collins. A saga relata a aventura de Katniss (Jennifer Lawrence), jovem escolhida para participar aos “jogos vorazes”, espécie de reality show em que um adolescente de cada distrito de Panem, considerado como “tributo”, deve lutar com os demais até que apenas um saia vivo. Neste segundo episódio da série, após a afronta de Katniss à organização dos jogos, ela deverá enfrentar a forte represália do governo local, lutando não apenas por sua vida, mas por toda a população de Panem. (Adoro Cinema)

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Não era por ser um filme meramente introdutório que o primeiro Jogos Vorazes não justificava todo o barulho que causou quando chegou aos cinemas. Ora, Harry Potter e a Pedra Filosofal, por exemplo, era igualmente didático nesse sentido, mas tinha um universo suficientemente fascinante e inovador para que entendêssemos o porquê de tanto encantamento. Só que basta analisar atentamente a premissa de Jogos Vorazes para perceber que nada ali é necessariamente novo. Pegue os jogos de vida ou morte em uma arena de Tron – Uma Odisseia Eltrônica e misture com o reality show manipulador de O Show de Truman para termos a premissa básica da história criada pela escritora estadunidense Suzanne Collins em 2008.

Se o primeiro volume da versão cinematográfica de Jogos Vorazes não conseguia ser nada além de uma mera introdução de personagens e situações, agora a franquia mostra finalmente ao que veio com essa continuação subtitulada Em Chamas, que surpreende ao ser exatamente tudo aquilo que o filme anterior deveria ter sido. Agora sim podemos dizer que Jogos Vorazes tem tudo para ostentar merecidamente o título de febre jovem sucessora de Harry Potter. Um fator crucial para que essa sequência tenha muito mais força e sentido é abater o problema que anos atrás também minou o drama Não Me Abandone Jamais: o de impor uma condição impensável e desumana aos personagens sem que eles movessem uma vírgula para mudar a tal circunstância que coloca suas vidas em risco. Existe reação em Jogos Vorazes: Em Chamas, o que já faz com que o filme dirigido por Francis Lawrence (substituindo Gary Ross) ganhe pontos aos se tornar muito mais crível e de acordo com a realidade.

O amadurecimento narrativo está claramente visível nessa nova adaptação, cujo roteiro, escrito pelos oscarizados Simon Beaufoy (Quem Quer Ser Um Milionário?) e Michael Arndt (Pequena Miss Sunshine), impressiona em sua precisa construção. Com uma primeira hora basicamente sem ação e desenvolvida toda a partir de diálogos, o texto é suficiente seguro para usar os diálogos como forma de imersão no novo mundo reacionário mas ditatorial protagonizado por Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence) e Peeta Mellark (Josh Hutcherson). Essa primeira parte é o ponto de partida ideal para situar o espectador nas novidades, apresentar novas figuras (Plutarch Heavensbee, vivido por Philip Seymour Hoffman, uma excelente aquisição) e preparar o terreno para as adrenalinas e reviravoltas da hora posterior.

Por falar em adrenalina, é igualmente gratificante ver que Jogos Vorazes se fortaleceu também nessa abordagem. A tensão se mostra muito mais elaborada e instigante, fazendo com que o espectador realmente se sinta dentro dos perigos da arena em que os personagens tentam a todo custo sobreviver. Por isso, pouco importa se Katniss vai ficar com Peeta ou Gale (Liam Hemsworth). Esse não é o foco da história, até porque Em Chamas está acertadamente muito mais preocupado em ser um filme de tons políticos e nervosos (tanto dramaticamente quanto em termos de ação), o que por si só já comprova a evolução do roteiro, que poderia facilmente se entregar aos desejos de ganhar os corações do público jovem se focando excessivamente em um triângulo amoroso.

O longa de Gary Ross é ainda uma experiência com excelentes reviravoltas (os últimos minutos são surpreendentes), onde o resultado nunca subestima o espectador e mostra que filmes desse gênero podem sim ser diferentes, ter ritmo dinâmico e ultrapassar o obstáculo da longa duração (que, neste caso, são 140 minutos extremamente ligeiros). Alguns aspectos ainda precisam ser ajustados, como a figura de Peeta, que precisa urgentemente deixar de ser o personagem praticamente indefeso e sem habilidades que só tropeça ou desmaia na hora da correria; a de Elizabeth Banks, ainda a boba da corte sem grandes dimensões; e a de Liam Hemsworth, que sofre com um personagem que não nos envolve e que precisa ter a nossa empatia para o conflito amoroso do filme. Mas, felizmente, nada disso inferioriza a consistência do texto de Beaufoy e Arndt.

A total reestruturação de Jogos Vorazes (pelo menos em direção e roteiro) sem dúvida fortaleceu a trama, introduzindo importantes adesões e se estabelecendo como um filme que vai muito além de uma mera transição. É uma empolgante preparação para os próximos capítulos (que, infelizmente, será dividido em duas partes, seguindo a nova moda de Hollywood). Fora ter Em Chamas como base, o filme seguinte (A Esperança) ainda guarda uma expectativa particular para o escriba que vos fala: a participação de Julianne Moore em um papel decisivo. Que essa futura continuação esteja à altura do capítulo que vimos este ano!

FILME: 8.5

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CLOSE 2013: Mostra Competitiva II

Fernanda Montenegro está na mostra competitiva do CLOSE 2013 com o curta A Dama do Estácio

Fernanda Montenegro está na mostra competitiva com o curta A Dama do Estácio

As expectativas foram atendidas e essa segunda parte da mostra competitiva do CLOSE 2013 manteve o nível da primeira, com curtas de temáticas e estilos bastante variados – alguns até polêmicos e outros com grandes atrizes (caso de A Dama do Estácio, com Fernanda Montenegro). Confira o que rolou hoje nessa programação, que incluiu dois documentários e três ficções:

FILME PARA POETA CEGO, de Gustavo Vinagre: É um dos curtas mais polêmicos desta mostra pela grande miscelânea de temas difíceis que se concentram na figura de seu protagonista, o poeta Glauco Mattoso. Cego, gay, masoquista e podólatra, ele abre sua vida sem qualquer receio para o diretor Gustavo Vinagre, que documenta tudo desprovido de preconceitos e ainda experimenta um pouco (vamos preservar maiores surpresas) da vida do personagem que retrata. E aí está a benção e a maldição de Filme Para Poeta Cego: ao mesmo tempo em que sua coragem de mostrar os fetiches de Mattoso é um dos pontos altos do curta, não são todos que vão entrar na história e comprar a difícil proposta do documentário. Claro que cinema varia de pessoa para pessoa, mas certos filmes parecem feitos para causar divisões. Esse, ao meu ver, é um deles.

A DAMA DO ESTÁCIO, de Eduardo Ades: Este curta é uma homenagem ao longa A Falecida, de Leon Hirszman, que trazia uma mulher obcecada pela ideia da morte e ansiosa para ter um enterro de luxo. A mesma premissa é basicamente seguida por A Dama do Estácio, também com Fernanda Montenegro, agora vivendo uma prostituta que está com a ideia fixa de que vai morrer e que deseja comprar logo seu caixão. O problema é que, fora a sempre gratificante presença dessa atriz singular, o curta nunca deixa devidamente clara a sua premissa. Os planos longos (e sem razões para tal), o resto do elenco fora de tom (incluindo Nelson Xavier) e a falta de força de momentos intimistas mostram que, se Fernanda Montenegro tem seus momentos, é por ela mesma, e não pelas chances de A Dama do Estácio, um dos curtas mais decepcionantes da mostra competitiva deste ano.

LINDA, UMA HISTÓRIA HORRÍVEL, de Bruno Gularte Barreto: O título pouco diz sobre o clima melancólico do curta. “Me deu uma saudade de tudo”, diz o protagonista, quando chega de surpresa para visitar a mãe durante a madrugada. E é exatamente sobre isso que Linda, Uma História Horrível fala: saudades, arrependimentos, distâncias… Fernando (Rafael Régoli) tenta se aproximar da mãe (Sandra Dani), mas uma barreira entre os dois (obviamente o fato do filho ser homossexual) impede que maiores conexões se estabeleçam. Ele quer falar, mas ela não quer ouvir, em um relato que é fiel a essa condição tão corriqueira para filhos gays. Em apenas uma conversa, milhões de assuntos abordados com a devida sobriedade e pesar. Ainda que não seja revolucionário em termos de estrutura ou conteúdo, Linda, Uma História Horrível, baseado em conto homônimo de Caio Fernando Abreu, é de uma sinceridade admirável. Simplesmente a vida como ela é. Precisa pedir mais?

O OLHO E O ZAROLHO, de René Guerra e Juliana Vicente: O diretor René Guerra está duplamente presente no CLOSE 2013: primeiro na mostra paralela com Quem Tem Medo de Cris Negão? e, agora, na mostra competitiva com O Olho e o Zarolho, onde compartilha o trabalho de direção com Juliana Vicente. Aqui, ele mostra o cotidiano de duas mulheres que, juntas, criam um filho que já frequenta a escola. Tudo está aparentemente bem, até que uma delas começa a se preocupar com o fato de os desenhos do pequeno serem todos pretos, sem qualquer cor. Essa preocupação desencadeará várias outras, onde a protagonista chegará a questionar se cumpre bem ou não o papel de mãe. Com uma pequena participação da sempre ótima Léa Garcia, O Olho e o Zarolho tem seu foco maior nessa dinâmica familiar e menos em questões envolvendo a sexualidade das mães – o que é sempre uma boa escolha. Com isso, o curta só ganha em contemporaneidade e originalidade.

GAROTAS DA MODA, de Tuca Siqueira: Poderia ser apenas um mero documentário sobre um grupo de cinco travestis e transsexuais, mas Garotas da Moda tem uma circunstância que dá um leve diferencial a esse curta de Tuca Siqueira: a geografia. As garotas do título não estão na cidade grande e sim em Goiana, cidade distante 62 km de Recife, onde, segundo elas, tudo é atrasado – até mesmo o novo cd da Beyoncé, que só chega depois do novo álbum do Belo. É atípico porque elas marcam seu território em uma cidade que, devido ao seu tamanha, tem o dobro de fofocas e preconceitos de uma capital. As garotas têm uma clientela para as suas costuras, são estrelas da parada gay de Goiana e, dadas as limitações de alguns receios, procuram se integrar como qualquer outra pessoa. Como relato, não existe nada de novo, mas as personagens chamam a atenção e conquistam com grande simpatia – o que, para um documentário, é sempre um ponto a favor.

CLOSE 2013: Mostra Competitiva I

Antes de Palavras mostra  como o auto-descobrimento de um garoto afeta diferentes pessoas em uma escola

Antes de Palavras mostra como o auto-descobrimento de um garoto afeta suas dinâmicas pessoais e escolares

A mostra competitiva do CLOSE 2013 começou hoje com uma interessante média de qualidade entre os curtas-metragens apresentados. Histórias jovens e documentários foram os destaques dessa primeira leva, que já deixa certa expectativa para o que iremos conferir amanhã com mais cinco curtas. Resta saber como o júri vai se comportar com produções e propostas bem diferentes e eficientes – cada uma ao seu modo. Abaixo, nossos comentários.

CODINOME BEIJA-FLOR, de Higor Rodrigues: Escapando de qualquer discurso didático sobre a AIDS, esse intenso curta fala sobre a doença com uma abordagem extremamente humana. Isso porque o diretor Higor Rodrigues selecionou casos extremamente atípicos para falar sobre o tema. Aqui, não vemos homossexuais falando sobre como é a vida pós-descoberta da AIDS, e sim héteros, das mais variadas idades e circunstâncias. Duas histórias particularmente impressionam: a de um jovem garoto que traiu a namorada com alguém com suspeita de AIDS e que não quer fazer o teste para saber se tem a doença e a de uma senhora que nunca considerou que alguém como ela (uma mulher de idade) pudesse estar nessa situação. Concorrente da mostra gaúcha do 41º Festival de Cinema de Gramado, Codinome Beija-Flor impacta não só por sua utilidade pública, mas por seu alto valor humano e pela admirável decisão do diretor de fazer algo completamente fora do convencional. Que o CLOSE faça justiça a esse curta bastante especial.

TREVAS, de Will Domingos: É um estilo que particularmente não me agrada: o de usar o “nada” para falar sobre solidões, silêncios e reflexões. A diretora Sofia Coppola já se perdeu muito nesse formato e dá para dizer que o diretor Will Domingos quase cai na mesma armadilha de mostrar nada ao falar sobre…  nada. A sinopse já acusa um filme introspectivo – “Dois visitantes chegam a uma cidade do interior. Juntos no mesmo lugar, alguns mergulhos solitários” -, mas o problema é a duração de Trevas: são 25 minutos longos e, ao meu ver, frequentemente redundantes. A dupla principal está muito à vontade, o clima interiorano é bem explorado e o curta em si tem uma boa ambientação, mas parece que falta história – o que está diretamente ligado ao frequente problema mencionado anteriormente. Mas, assim como muitos apontam Sofia Coppola como injustiçada por retratar histórias desse estilo, pode ser que Will Domingos também tenha tido uma parcela de incompreensão por minha parte nesse caso.

O PACOTE, de Rafael Aidar: Filme que se estrutura a partir de um segredo a ser revelado pelo protagonista, O Pacote se sai muito bem primeiro ao construir o clima para a chegada dessa revelação ao espectador e depois para que o próprio personagem entregue a verdade para a pessoa mais interessada em sabê-la na trama. O final otimista incomoda – não por ser feliz (até porque essa escolha chega a ser inspiradora), mas por ser abrupto demais para um curta tão calmo ao esmiuçar seus conflitos e desenvolver as relações entre os personagens. O Pacote também é jovem, dinâmico e, acima de tudo, parecido com a realidade: percebam como todos os atores, por exemplo, estão muito distantes dos rostos e corpos idealizados em uma Malhação da vida. Essa aproximação deles como tipos que nós conhecemos em nossas próprias vidas, bem como a naturalidade de cada um ao desenvolver figuras gays nem um pouco estereotipadas, ajuda O Pacote a se firmar como um relato envolvente e recompensador.

O MELHOR AMIGO, de Allan Deberton: Chega a ser até angustiante o relato do dia de um menino (Jesuíta Barbosa) que está veraneando com o seu melhor amigo. Angustiante no sentido de que o curta sabe explorar muito bem o sofrimento silencioso do protagonista, que é apaixonado pelo amigo heterossexual. Muito desse resultado se deve ao ótimo desempenho do jovem Jesuíta Barbosa – recentemente visto no ótimo Tatuagem -, que se reafirma como uma das grandes promessas de sua geração. O curta é basicamente sobre esse seu sentimento reprimido e a escolha é acertada, uma vez que o roteiro prefere se centrar mais na interpretação de Jesuíta do que propriamente em sucessões de cenas que evidenciem essa atração. Ponto para o jovem e ator e para O Melhor Amigo, que ainda tem momentos bastante intimistas (gosto especialmente da cena do brigadeiro) e uma conclusão que não faz questão de trazer soluções para tudo.

ANTES DE PALAVRAS, de Diego Carvalho Sá: Um curta que merece reconhecimento pela sensibilidade com que lida com diversos temas delicados, como a auto-descoberta de um garoto que até então se considerava heterossexual e a de uma menina que precisa processar o fato de que seu namorado não gosta exclusivamente do sexo feminino. Delicadeza é a palavra-chave de Antes de Palavras, que tem uma estrutura muito funcional (o foco se alterna entre os três personagens centrais) e momentos realmente especiais, como a última conversa entre os personagens vividos por Maurício Destri e Marcela Arnulf, ambos ótimos. A sequência que menos envolve, entretanto, é a de Dario (Henrique Larré), seja pela falta de novidades de sua storyline (comparado aos outros, é uma figura unidimensional) ou pelo próprio ator, que ainda parece repetir o seu papel de Os Famosos e os Duendes da Morte na hora de construir figuras introspectivas e de poucas palavras. Mas nada que tire a bela simplicidade do curta, que ainda encerra sua história no momento exato.

CLOSE 2013: Mostra Paralela II

André Stern é o protagonista de Algumas Mortes, o melhor curta do segundo dia da mostra paralela

André Stern é o protagonista de Algumas Mortes, o melhor curta do segundo dia da mostra paralela

Em comparação ao primeiro dia da mostra paralela, essa segunda sequência de curtas do mesmo mesmo segmento do CLOSE 2013 certamente se saiu melhor com produções mais interessantes e bem resolvidas em termos de narrativa e estética. Tivemos pelo menos um curta realmente admirável nesta segunda parte da mostra, além de outros estilos bem variados, do suspense ao documentário. Fiquem abaixo com breves comentários sobre as produções. E, a partir de amanhã, acompanhem nossa cobertura da mostra competitiva do Festival – que terá seus vencedores anunciados no próximo domingo (08).

ALGUMAS MORTES, de Lucas Camargo de Barros: Pena que este curta esteja apenas na mostra paralela, quando merecia, sem dúvida, estar na competitiva. Pela sutileza e sobriedade com que trata de diversos temas e pela estética bem pensada (atenção para a fotografia nebulosa que diz muito sobre protagonista e para o excelente trabalho de som), Algumas Mortes conquista justamente porque é muito parecido com a vida real e também por ser de poucas palavras, distante da necessidade de ter que verbalizar e escancarar seus conflitos. A relação de um menino gay com a mãe, suas angústias próprias e os momentos introspectivos de dias reflexivos levam o espectador para dentro de um universo próximo da vida como a conhecemos. Tudo isso em meros dez minutos, onde menos é sinônimo de mais.

QUEM TEM MEDO DE CRIS NEGÃO?, de René Guerra: Nunca é fácil fazer um documentário sobre uma figura já falecida e relativamente desconhecida. Ela não está mais ali para que possamos investigá-la ou para estar, claro, presente na produção, dando ao espectador uma dimensão mais precisa de quem realmente é. Entretanto, Quem Tem Medo de Cris Negão?, sobre a última cafetina travesti da região da região da Amaral Gurgel, em São Paulo, consegue construir a imagem de sua personagem mesmo com todas essas supostas limitações. Ao longo de 25 minutos, conseguimos ter um panorama bem completo sobre a figura-título, já que todos os depoimentos selecionados pelo diretor René Guerra são categóricos para definir quem realmente era Cris Negão, aqui analisada por amigos e também por conhecidos que não estão ali necessariamente para saudar sua imagem. Não chega a ser inventivo como propõe nos primeiros minutos, mas cumpre sua função como documentário.

CARLITO, UM LUTADOR, de Luiz Cruz: Desta segunda e última leva de curtas da mostra paralela do CLOSE 2013, foi o curta que menos chamou a minha atenção. Mostrando o encontro de um sujeito que resolve ajudar Carlito, ex-boxeador que acaba de ser espancado na rua, o filme se concentra nesse encontro dois dois, onde ambos discutem fatos que evidenciam angústias, desejos e preconceitos. Mas a situação toda tem vários aspectos implausíveis (especialmente a parte em que o protagonista sai correndo do próprio apartamento deixando um estranho sozinho nele!), seja pelo desempenho dos atores ou pelas próprias tentativas dos diálogos de criar uma ponte entre os dois personagens com um confronto de personalidades bastante opostas.

FERIADO, de Alexander Siqueira: Existe uma linha muito tênue entre a paródia e o over. Linha essa que Feriado consegue mais ou menos equilibrar. Os exageros – sejam de interpretação ou da própria maneira como alguns personagens surgem estereotipados – se prestam a proposta desse curta de realizar um suspense/terror com protagonistas gays. O que limita Feriado é como a história em si não se sustentaria com o mesmo tom caso fosse encenada por heterossexuais. O velho final de semana em uma cabana isolada do mundo onde jovens bebem, riem e fazem sexo até algo misterioso começar a ameaçá-los já foi apresentado infinitas vezes, das mais variadas formas. Por isso, o resultado tem sua graça como paródia apenas por colocar garotos gays como protagonistas e não pela forma como se desenvolve ou se propõe a discutir algumas questões, que incluem, por exemplo, o velho debate de homossexualidade ser uma “opção” e uma lição de moral ao final que não combina com o clima do curta.

SOBRE A PELE E A PAREDE, de Laura Kleinpaul e Henrique Larré: São dois filmes dentro de um, o que reflete um resultado (problema?) muito frequente em filmes de direção compartilhada. De um lado, uma história jovem e pop, que chega quase a ter um tom de videoclipe. De outro, algo mais metafórico (claramente identificável com a tal caixa carregada pelo protagonista) e de complexidades. Visualmente interessante, Sobre a Pele e a Parede, para o meu gosto pessoal, ganha maiores pontos com o primeiro filme, especialmente nas cenas ambientadas dentro de uma festa e que dão o clima ideal a essa história de auto-descoberta. Já a outra proposta parece não casar muito com o curta dinâmico e contemporâneo que é dono dos melhores momentos. Tirando essas complexidades que soam mais como insistências indies em um contexto que poderia muito bem só ganhar sem elas, Sobre a Pele e a Parede é um curta envolvente sensorialmente.