Rio, Eu Te Amo

Direção: Vicente Amorim, Guillermo Arriaga, Stephan Elliott, Sang-Soo Im, Nadine Labaki, Fernando Meirelles, José Padilha, Carlos Saldanha, Paolo Sorrentino, John Turturro, Andrucha Waddington e César Charlone
Roteiro: Andrucha Waddington, Mauricio Zacharias, Paolo Sorrentino, Antonio Prata, Chico Mattoso, Stephan Elliott, John Turturro, Guillermo Arriaga, Sang-soo Im, Elena Soarez, Otavio Leonidio, Nadine Labaki, Rodney El Haddad, Khaled Mouzannar, Fellipe Barbosa
Elenco: Fernanda Montenegro, Eduardo Sterblitch, Emily Mortimer, Basil Hoffman, Vincent Cassel, Ryan Kwanten, Marcelo Serrado, John Turturro, Vanessa Paradis, Jason Isaacs, Laura Neiva, Rodrigo Santoro, Tonico Pereira, Wagner Moura, Bruna Linzmeyer, Cláudia Abreu, Cleo Pires, Harvey Keitel
Brasil/EUA, 2014, Drama/Comédia, 110 minutos
Sinopse: Novo episódio da série de filmes Cidades do Amor, Rio, Eu Te Amo reúne dez curtas de dez diretores brasileiros e internacionais. Cada uma das histórias revela um bairro e uma característica marcante da cidade maravilhosa. (Adoro Cinema)

De todos os curta-metragens realizados para a série Cities of Love, o que melhor sintetiza a proposta desta iniciativa cinematográfica que homenageia cidades apaixonantes do mundo é aquele de Alexander Payne para Paris, Te Amo. Em 14e Arrondissement, ele dirige Margo Martindale como uma solitária turista que, ao visitar Paris, encontra nas belas paisagens, monumentos e arquiteturas da cidade uma inspiração para esquecer sua solidão e voltar a amar a vida. Além do belo desempenho de Margo, o que mais encanta neste curta é justamente a sua capacidade de conectar a personagem à cidade e usar a geografia como fator fundamental para falar sobre sentimentos e descobertas.
É óbvio que, em um longa que reúne diversos curtas dos mais variados diretores, a falta de harmonia entre cada um deles seja o principal defeito. É difícil manter o nível. Mesmo Paris, o mais bem sucedido da série, tinha curtas bobos e irregulares, mas também os mais belos vistos até agora. Na sequência, veio a versão de Nova York, que conseguiu transformar a capital estadunidense em um completo tédio. Agora nós brasileiros temos o orgulho de ver nossa mais emblemática cidade turística ganhando o protagonismo deste projeto internacional.
Só que o orgulho, infelizmente, não se estende ao que é de fato visto na tela. Rio, Eu Te Amo é, sem dúvida, melhor que a versão novaiorquina, mas está longe de ter um curta sequer que se equipare ao que Alexander Payne ou até mesmo o Isabel Coixet fizeram no universo parisiense. E o exemplar brasileiro até que começa de forma respeitosa, trazendo a grande Fernanda Montenegro como uma moradora de rua que resolveu viver sem lar, contas e obrigações familiares – o que, segundo ela, é libertador. E a cena final dela com o filho é, sem dúvida, o momento mais bonito de Rio, Eu Te Amo.
Aos poucos, no entanto, o formato começa a cansar e, apesar das válidas e novas tentativas (como a de não mostrar os curtas de forma independente e sim adiantar a aparição de alguns personagens nas transições), Rio, Eu Te Amo se torna mais do mesmo e ainda comete o pecado de não explorar devidamente as paisagens e encantamentos da cidade-título. Frustra, por exemplo, ver o excesso de efeitos visuais para colocar Wagner Moura perto do Cristo Redentor no curta de José Padilha ou, então, a cafonice estética do momento em que Ryan Kwanten e Marcelo Serrado chegam encantados ao topo do Pão de Açúcar em determinado segmento.
Só que a relação dos personagens com o Rio de Janeiro se estabelece única e exclusivamente a partir de fracas tomadas que os colocam em cenários emblemáticos da cidade, e não a partir de sentimentos ou situações especiais na cidade. Outros elementos de ambientação como a trilha sonora também surgem óbvios e sem invenção. Por isto, é no mínimo bonita a cena em que Cláudia Abreu (a única que não tem um curta propriamente dito, mas que aparece em diferentes pontos do longa) reencontra um antigo amor ao som de um empolgante samba na lapa carioca. Ali, está a conexão como ela genuinamente deve ser: simples, sincera e relacionada com o clima da cidade.
Se for para destacar um curta especial, este certamente seria o dirigido por Nadine Labaki, que mostra como um casal, ao encontrar um menino morador de rua, resolve realizar um grande sonho do jovem. Texto, empatia dos atores (o garotinho é sensacional!) e a mensagem desta passagem revelam um carinho muito grande que falta ao filme como um todo. Preferindo esquecer completas bobagens como o curta protagonizado por Tonico Pereira ou o irritante texto comandado por John Turturro, saí da sessão com a impressão que vi apenas um conjunto de curtas genéricos sobre pessoas e circunstâncias – e não uma homenagem a uma cidade. Tomara que a próxima parada (Xangai) seja mais inspirada.
Magia ao Luar
When the heart rules the head, disaster follows.

Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen
Elenco: Colin Firth, Emma Stone, Eileen Atkins, Marcia Gay Harden, Jacki Weaver, Hamish Linklater, Simon McBurney, Catherine McCormack, Erica Leerhsen, Jeremy Shamos, Ute Lemper, Sébastien Siroux
Magic in the Moonlight, EUA, 2014, Comédia, 97 minutos
Sinopse: Stanley (Colin Firth), um falso mágico com talento para desmascarar charlatões, é contratado para acabar com a suposta farsa de Sophie (Emma Stone), simpática jovem que afirma ser médium. Inicialmente cético, ele aos poucos começa a duvidar de suas certezas e se vê cada vez mais encantado pela moça. (Adoro Cinema)

É errado pensar que filmes acontecem no vácuo, especialmente quando falamos de diretores que estão constantemente em atividade. Se um filme não nasce de fatos reais ou de inquietações referentes à política ou conflitos sociais, devem ser analisados dentro da filmografia de seu realizador. Afinal, o que determinado longa significa dentro de uma extensa carreira, por exemplo? E Woody Allen tem seus contextos. Com o passar dos anos, deixou bem claro que realiza filmes com muito mais afinco do que outros.
Certas produções como Match Point, Vicky Cristina Barcelona, Meia-Noite em Paris e Blue Jasmine são realmente mais relevantes, complexas e eficientes se comparadas a outras de Allen que chegam aos cinemas apenas porque ele realmente não quer parar de filmar. Desta forma, os filmes do diretor podem ser classificados como mais ambiciosos em suas discussões ou apenas como leves brincadeiras. No caso da segunda categoria, Para Roma, Com Amor era o exemplar mais recente até a chegada deste Magia ao Luar, que, mesmo agradável e simpático, deve ser o longa menos instigante de Allen em anos.
Justamente por ter esta subcategoria de filmes menores, virou moda falar de Woody Allen ou usar a clichê expressão de que “o pior de Woody Allen é melhor do que muita coisa por aí”. Mas até para o próprio universo de filmes medianos do diretor, Magia ao Luar decepciona, sendo uma obra que tem um grande problema de ritmo e que, em diversas partes, se torna quase entediante e repetitiva. E repetitiva não só em termos da história andar em círculos, mas também em sua própria estrutura que copia jogadas vistas recentemente em Blue Jasmine, por exemplo – como aquela em que induz o espectador a acreditar em mudanças muito fáceis dos personagens para, no final, desmontar tudo com uma revelação ou com uma guinada-surpresa.
O bom e velho Woody Allen está ali, com sua ironia, seu pessimismo e sua racionalidade, mas, dessa vez, para os que não gostam, pelo menos ele está mais disfarçado na pele de Colin Firth, que tem a seu favor o fato de não tentar emular os tiques tão característicos do próprio Woody (ao contrário de tantos atores como Larry David e Owen Wilson) e criar algo mais novo. Magia ao Luar tem boas sacadas e momentos divertidos, com destaque para aqueles da primeira metade, onde o mágico Stanley (Firth) finalmente se encontra com a médium Sophie (Emma Stone, sempre radiante e simpática, mas uma atriz que estranhamente nunca bombou como prometia) e tenta sutilmente desmascará-la. Só que apenas Stanley crê que a moça seja uma farsa e o novo filme de Woody Allen se torna uma reflexão sobre ceticismo e até que ponto nossa credulidade passa a vencer o bom senso ou simplesmente os fatos.
Porém, a partir do momento em que começa a induzir o espectador para as tais resoluções e mudanças fáceis demais para personagens tão sólidos, Magia ao Luar começa a se perder ao se revelar um samba de uma nota só. O filme perde o ritmo, a história se estagna e tudo parece mera variação do que já vimos antes no mesmo roteiro ou em outras obras mais recentes do diretor. O que resta apenas, neste meio tempo, é o carisma da jovem Emma Stone e a desenvoltura de Firth – além da ilustre presença da veterana Eileen Atkins, que, nos minutos derradeiros, tem uma cena inspiradíssima com o protagonista. Ah, e também é bom ver Woody Allen compensando todo aquele duro pessimismo de Blue Jasmine com esta trama mais leve e de mensagens mais positivas e aliviantes, mesmo que em um conjunto bastante carente de envolvimento.
O Mercado de Notícias

Direção: Jorge Furtado
Roteiro: Jorge Furtado
Elenco: Antônio Carlos Falcão, Eduardo Cardoso, Elisa Volpatto, Evandro Soldatelli, Irene Brietzke, Ismael Caneppele, Janaina Kremer, Marcos Contreras, Mirna Spritzer, Nelson Diniz, Sérgio Lulkin, Thiago Prade, Ursula Collischonn, Zé Adão Barbosa
Brasil, 2014, Documentário, 94 minutos
Sinopse: O Mercado de Notícias traz depoimentos de 13 importantes jornalistas brasileiros sobre o sentido e a prática da profissão, as mudanças na maneira de consumir notícias e o futuro do jornalismo. O filme reflete casos recentes da política brasileira, onde a cobertura da imprensa teve papel de grande destaque.

No caso específico de O Mercado de Notícias, é necessária uma ratificação particular: sou jornalista formado. Por isso, quando conferi este novo filme do gaúcho Jorge Furtado, não consegui me eximir de comparações e análises quanto ao meu próprio cotidiano como jornalista – e também quanto a tudo que discuti e aprendi em disciplinas teóricas na faculdade. A proposta de O Mercado de Notícias vem em um momento bastante simbólico no que se refere a forma como sinto e vivencio os momentos jornalísticos atuais.
Fora a óbvia desvalorização da profissão que aconteceu nacionalmente anos atrás com a decisão da ausência de diploma para se exercer a profissão e a intensa influência da internet na produção de notícias, inúmeros fatores contribuíram para a confusão conceitual que assombra a profissão nos dias de hoje. O reflexo se vê nas mais diferentes frentes. Recentemente, aqui no Rio Grande do Sul, o maior grupo de comunicação demitiu aproximadamente 100 jornalistas sem explicações muito convincentes. O jornal de maior referência em Porto Alegre também repaginou por completo suas diretrizes (de layout e conteúdo) após décadas de estilo consolidado – e o resultado não deu muito certo: foi quase unânime a rejeição do público. São tempos difíceis para o Jornalismo e um debate sobre a profissão precisava ser urgentemente suscitado.
Afastado da produção de longas-metragens para o cinema desde 2007, quando realizou o divertido Saneamento Básico, Jorge Furtado revela, logo no início de O Mercado de Notícias, que sua reflexão não se baseia em inquietações negativas sobre a profissão e sim em uma convocação pessoal de profissionais do ramo que admira para um panorama do Jornalismo atual. E é bem provável que seja exatamente neste ponto que o seu mais novo filme (o primeiro documentário em longa) não consiga sair de um certo lugar comum apesar das boas tentativas (muitas delas bem sucedidas). Como jornalista, percebo que os assuntos discutidos em O Mercado de Notícias não se distanciam muito dos tópicos levantados por meus professores ainda lá em 2009, quando comecei a cursar a faculdade.
Não que debater a relação jornalista X fonte ou valor-notícia não sejam mais iniciativas válidas (sempre serão), mas o problema é que estas questões, quando não colocadas na situação atual da profissão, se tornam extremamente genéricas. Terminou-se aquela idealização de repórter que só tem como missão sair às ruas atrás da verdade. Hoje o jornalista é um faz-tudo e se vira nos 30 em tempos que a convergência das mídias desnorteia cada vez mais os rumos da profissão. Desta forma, é particularmente um tanto decepcionante o fato de que, por exemplo, assuntos como o advento da internet e sua consequente indagação sobre o fim do jornal impresso cheguem ao filme apenas quando ele já está prestes a terminar.
Jorge Furtado tem ideias – e boas. Quando questiona valores-notícia e disseca manchetes curiosas (como uma denúncia infundada sobre o INSS ostentar um quadro de Picasso na mesma sala que pendurava um retrato do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva), O Mercado de Notícias alcança os seus melhores momentos. Também é bastante válida a ideia do diretor de não revelar a os veículos de comunicação de seus entrevistados, o que elimina a chance de alguém fazer qualquer acusação de que o filme toma lados políticos ou prioriza determinadas visões editoriais. O máximo que se deduz é que um determinado entrevistado seja da Folha de São Paulo devido a livros que aparecem ao fundo.
O filme de Furtado intercala seus depoimentos com trechos da peça The Staple of News, escrita pelo inglês Ben Jonson em 1625, e traduzida pelo próprio Furtado e Liziane Kugland. A comédia de Jonson, montada e encenada especialmente para a produção do filme, revela uma visão crítica sobre o surgimento da imprensa de notícias, com seus riscos e benefícios. A decisão de levar a peça para o filme é acertada, pois ela traz a irreverência e a originalidade que Furtado, de certa forma, não apresenta na parte academicamente documental.
Novamente, esta é uma obra que ganha um olhar completamente diferente de minha parte dado o fato de que exerço a profissão que é debatida ao longo dos 94 minutos de projeção. Tomando um pouco de distância desta identificação, o que consigo enxergar é um documentário simples mas eficiente e que, em seu discurso quase genérico, presta um bom serviço ao público em geral sobre a valorização de uma profissão cada vez mais desvalorizada e que está em busca de uma nova identidade. Sendo assim, Jorge Furtado continua com 100% de aproveitamento na sua carreira de longas.
Até Que a Sbórnia nos Separe
Cada um sabe a alegria e a dor que traz no coração…
Direção: Otto Guerra e Ennio Torresan Jr.
Roteiro: Rodrigo John e Tomas Creus
Elenco (vozes): Hique Gomez, Nico Nicolaiewsky, André Abujamra, Antônio Falcão, Arlete Salles, Caio Alves Pereira, Cláudio Levitan, Felipe Mônaco, Fernanda Takai, Heinz Limaverde Starkey, Marcos Kligman, Marina Mendo, Otto Guerra, Pedro Harres
Brasil, 2014, Animação, 91 minutos
Sinopse: O que acontece quando o muro que separa um pequeno país chamado Sbórnia do resto do mundo cai acidentalmente? Tranquilos e parados no tempo, o povo da Sbórnia é agora atingido pelos ventos da modernidade vindos da cidade grande. Os conflitos causados pelo violento choque cultural bagunçam a vida dos protagonistas Kraunus e Pletskaya, dois conhecidos músicos sbornianos. Como conseqüência da interferência continental nos arraigados hábitos da Sbórnia, alguns nativos fazem acordar velhas crenças adormecidas e se põem a resgatar sua identidade como sbornianos. O filme é baseado no espetáculo teatro-musical Tangos & Tragédias, criado por Hique Gomez e Nico Nicolaiewsky, e que tem sido apresentado pelos palcos do mundo com grande sucesso pelos últimos 20 anos, tendo sido visto por mais de 1 milhão de pessoas.

Até Que a Sbórnia nos Separe é, sem exageros, uma verdadeira preciosidade do cinema brasileiro contemporâneo. Nós, que não cultivamos tradição em animações, agora temos este trabalho singular em nosso currículo para se orgulhar. É uma alegria ver que podemos fazer uma animação tão bem acabada visualmente e ainda originalíssima em sua proposta com grande apuro. O encontro de três trajetórias de sucesso já anunciava o êxito do filme. Na direção, Otto Guerra, que há décadas realiza animações no Rio Grande do Sul e cuja empresa, Otto Desenhos Animados, já é uma grande referência no Estado. Ao lado dele na direção está Ennio Torresan Jr, que trabalha há quase 20 anos como animador na Dreamworks. A história contada por eles? Uma adaptação do clássico espetáculo musical Tangos & Tragédias, que, durante 30 anos, levou um milhão de gaúchos ao teatro. A união de tantas expertises não poderia dar errado. E não dá: Até Que a Sbórnia nos Separe, como já mencionado, é um caso raro em nosso cinema.
O roteiro escrito por Rodrigo John e Tomas Creus reconstrói o universo imaginado por Hique Gomez e Nico Nicolaiewsky em Tangos, com livres inspirações. Tudo muito particular, divertido e original, sobre um continente que está boiando por aí, com seus amores, jogos, músicas e particularidades. É sobre o direito de um lugar ser o que ele é, sem intervenções, tecnologias e influências capitalistas – o que torna o filme, consequentemente, também sobre o direito individual de cada um ter a sua personalidade. A trilha, claro, ajuda a dar o tom e é um dos destaques da animação, e não só as releituras das músicas do espetáculo ou as adaptações feitas por Hique e Nico (incluindo a bela Epitáfio, do Titãs), mas também a trilha instrumental que ficou a cargo de André Abujamra.
Previsto para ganhar os cinemas gaúchos ainda em 2014 com cópias 2D e 3D (é a primeira produção realizada no Estado com este segundo formato), Até Que a Sbórnia nos Separe já viajou o mundo, em mostras e competições que o colocaram ao lado de nomes como Hayao Miyazaki. Mas tudo começou aqui mesmo no sul, onde, em sua primeira exibição no Festival de Cinema de Gramado no ano de 2013, já se consagrou com o prêmio de melhor filme pelo júri popular. É um merecido reconhecimento para este trabalho meticuloso (mais de 100 desenhistas de diversos pontos do Brasil e 500 mil desenhos deram origem ao universo da Sbórnia), que é felicíssimo ao criar um universo particular mas nunca over ou fantasioso demais. E o melhor de tudo: não se restringe aos que conhecem a peça ou a cultura do Rio Grande do Sul.
Mesmo que a classificação indicativa direcione o filme a um público a partir de 10 anos de idade, é complicado afirmar que Até Que a Sbórnia nos Separe seja também um filme para os pequenos. Além dos problemas de ritmo em seu ato final, esta é uma animação que frequentemente faz alusões a assuntos bem adultos – incluindo uma lua de mel que se torna um verdadeiro pesadelo para uma jovem que foi obrigada a casar com um homem que a enojava. Fora isso, o resultado é envolvente e de técnica detalhista, contando com um excelente trabalho de dublagem, onde se destaca a voz Arlete Salles, que está perfeita como uma divertida vilã. Até Que a Sbórnia nos Separe, enfim, é uma daquelas animações que revelam, antes de mais nada, uma vontade de contar histórias. Existe uma perceptível paixão nesta animação. E isso é raro em qualquer lugar do mundo. Menos na Sbórnia.
Rapidamente

Em Vizinhos, Seth Rogen e Rose Byrne se divertem com uma excelente química, mas não sobrevivem às piadas físicas e aos extremos do roteiro
CHEF (idem, 2014, de Jon Favreau): Tinha tudo para ser um apetitoso e agradável filme sobre a vida de um chef de cozinha que, ao perder o emprego, resolve investir em um trailer de comidas e retomar a relação com o filho, mas termina mais como uma viagem egocêntrica de Jon Favreau. Fazia tempo que o cinema não entregava um filme independente com diálogos tão redundantes, repetitivos e explicativos. Se já é difícil crer que Favreau tenha sido casado com o furacão Sofia Vergara e atualmente tenha um caso romântico com Scarlett Johansson – em uma história que subutiliza por completo a segunda -, Chef ainda não sabe direito sobre o que deseja falar. É um longa completamente sem ritmo, que, ao contrário do divertido Julie & Julia, por exemplo, não usa a comida para fazer maiores reflexões sobre os prazeres da vida – e muito menos tem um protagonista tão fascinante quanto Julia Child. Para Chef, a comida em si não é o centro da felicidade de Carl Casper (Favreau): o que define sua satisfação é a possibilidade de fazer o que bem entende, quando e onde quiser. Totalmente diferente de Julia Child, que, para alcançar o sucesso, não abdicou de empregos por capricho e enfrentou todo tipo de obstáculo. O que vale mesmo é Sofia Vergara (!), que, pela primeira vez, está contida e sem o seu sotaque pesadíssimo (e proposital) que tanto lhe faz caricata. Mas é pouco para um filme que, além de tudo, se encerra com todos os clichês possíveis envolvendo redenção de vilões, acerto de contas e reencontros com o amor.
EDEN LAKE (idem, 2008, de James Watkins): Foi o primeiro filme de James Watkins, que, anos depois, teria relativa repercussão com o mediano A Mulher de Preto, estrelado por Daniel Radcliffe. Também era uma época onde Michael Fassbender não era quem é hoje. Apesar de tais curiosidades, este é um filme que, mesmo saudado como um thriller provocativo, não soa muito convincente. Particularmente, não acreditei muito na história de três ou quatro pré-adolescentes que conseguem raptar e prender à força um adulto do porte de Fassbender. O plot em si já é uma mistura de clichê com inconvincente: o casal que resolve passar um fim de semana em um local no meio da floresta (óbvio!) e que é atormentado por um grupo de jovens inconsequentes e claramente problemáticos. Eden Lake chega a extremos, o que não ajuda muito um filme que por si só já tem uma narrativa bastante frágil. Fassbender não tem muito o que fazer, já que passa boa parte do tempo amarrado ou torturado, deixando o protagonismo para a apenas regular Kelly Reilly (que foi a namorada alcoolista de Denzel Washington no recente O Voo). O final tem seu impacto e foge do convencional – o que é uma grande vitória -, mas nada que mude a sensação de decepção com o todo.
SEM ESCALAS (Non-Stop, 2014, de Jaume Collet-Serra): Impossível não lembrar do interessante Plano de Voo, de 2005, onde Jodie Foster investigava o desaparecimento de sua pequena filha dentro de um avião. A atmosfera de Sem Escalas é basicamente a mesma: o suspense envolvendo a identidade de um possível conspirador. No caso deste recente filme de Jaume Collet-Serra (responsável por bobagens como Casa de Cera e A Órfã), procuramos saber quem é o responsável por enviar mensagens a um policial (Liam Neeson) ameaçando matar tripulantes caso 100 milhões de dólares não sejam transferidos para uma determinada conta. Como um filme Supercine de sábado à noite, Sem Escalas segura bem as pontas e prende a atenção com um ritmo bastante ágil. De brinde, ainda existem participações de luxo (Julianne Moore, Michelle Dockery, Lupita Nyong’o). Porém, assim como em Plano de Voo, o desfecho não está à altura do eficiente desenrolar. A forma como Sem Escalas resolve uma tensão relativamente bem conduzida até então pode até ser convincente, só que não é necessário muito tempo para que o espectador logo a tenha esquecido após a sessão. Um filme pipoca bastante objetivo e que cumpre sua missão de divertir, mas que cai na armadilha de criar um mistério mirabolante e não ter respostas suficientemente marcantes para poder dizer que cumpriu por completo a sua missão.
VIZINHOS (Neighbors, 2014, de Nicholas Stoller): É divertido o contraste proposto por Vizinhos. De um lado, um grupo de jovens estudantes que realiza festas astronômicas e que acaba de se mudar para uma pacata vizinhança. De outro, um casal que acaba de ter uma filha e que, mesmo se amando, concorda que a rotina já caiu na monotonia. Em um primeiro momento, eles ficam temerosos com a bagunça que os novos garotos da vizinhança podem causar, mas basta a primeira festa para que ambos, secretamente, fiquem tentados a reviver épocas passadas de bebidas, música e agitação. É de se lamentar, no entanto, que esse vislumbre de esperteza do roteiro logo se perca em um descontrolado combate entre o casal e os novos vizinhos por paz e sossego. Descontrolado no sentido de que tudo seria perfeitamente resolvido com uma simples ligação para a polícia, mas desculpas esfarrapadas fazem com que tudo descambe para situações implausíveis e até socos e pontapés entre Seth Rogen e Zac Efron. Falando neles, o primeiro faz o mesmo de sempre (para o bem e para o mal). Já o segundo desaponta por nunca ter cumprido a promessa de ser o jovem galã com desenvoltura para comédia que vimos em 17 Outra Vez. No meio de tantas bobagens, quem se salva mesmo é Rose Byrne, que, desde Missão Madrinha de Casamento, tem provado que o seu ponto mais forte é fazer comédia – e não dramas, onde está sempre insossa, a exemplo de todas as temporadas do seriado Damages.