Cinema e Argumento

Rapidamente

Praia do Futuro é um dos filmes mais difíceis do ano, mas também um dos mais recompensadores para quem conseguir embarcar na proposta do diretor Karim Aïnouz

Praia do Futuro é um dos filmes mais difíceis do ano, mas também um dos mais recompensadores para quem embarca na proposta do diretor Karim Aïnouz

A 100 PASSOS DE UM SONHO (The Hundred-Foot Journey, de Lasse Hallström): O sueco Lasse Hallström, ao contrário do que as premiações já celebraram, nunca foi um grande diretor, mas é verdade que ele tem capacidade de fazer coisas muito melhores do que esse A 100 Passos de Um Sonho. Ok, o filme estrelado por Helen Mirren (indicada ao Globo de Ouro 2015 de atriz comédia/musical por seu trabalho aqui só para completar a fraca lista) é leve e inofensivo, só que não custava o roteiro ser pelo menos um pouquinho mais original. Previsível do início ao fim, o longa de Hallström cai no velho clichê da família indiana que muda de país sem nada na bagagem além de sonhos, boas intenções e um filho primogênito cheio de talento para culinária. Na França, eles se instalam frente ao restaurante de uma mulher rica que, após a morte do marido, controla os negócios com mãos de ferro e, claro, não deseja que ninguém ameace o seu negócio. Só que a família indiana, claro, vai movimentar as águas do local e, principalmente, a vida da tal senhora. O ritmo por si só já é arrastado e o fato de A 100 Passos de Um Sonho seguir todos os passos da cartilha de um filme com essa premissa não ajuda. Hallström não chega a abusar da paciência do espectador com grandes melodramas ou forçações de barra como em outros filmes que já realizou, mas bem que poderia, pelo menos, mostrar que ainda tem um pouquinho das habilidades que anos atrás lhe trouxeram tanto prestígio. Isto porque o Hallström de Regras da VidaChegadas e PartidasChocolate pode até ser subestimado, mas é, sem dúvida, melhor do que esse nada inspirado de Querido JohnAmor Impossível e, agora, A 100 Passos de Um Sonho.

PRAIA DO FUTURO (idem, de Karim Aïnouz): Só mesmo a desinformação – aliada ao conservadorismo – fez com que pessoas assistissem a Praia do Futuro e pedissem o ingresso de volta em função das cenas de sexo gay. Até porque basta investigar um pouco a filmografia de Karim Aïnouz para deduzir que este seu novo filme tinha grandes chances de não ser uma experiência fácil ou comercial. E de fato não é. Para muito além das cenas de sexo envolvendo dois homens (que estão longe de ser o escândalo apontado por aí), Praia do Futuro é um filme bastante lento e complexo – mas também um dos mais recompensadores que o cinema brasileiro entregou em 2014. Wagner Moura está especialmente bem aqui, distanciando-se um pouco do cinema mais acessível que tem cercado suas últimas escolhas. Ele enfrenta um dos personagens mais desafiadores de sua recente carreira, e, como o grande ator que é, não desaponta. O filme em si é estruturado em três capítulos, todos separados por avanços no tempo. Isso não quer dizer, porém, que Praia do Futuro seja um filme sobre grandes acontecimentos ou mudanças que se intercalam em cada um deles. Pelo contrário. Todas as transformações dos personagens acontecem de forma sutil e silenciosa – o que faz com que o resultado seja para um público bem específico. Entretanto, mesmo entre quem supostamente gostaria, Praia do Futuro não foi muito bem sucedido. Ao mesmo tempo em que a reação seja de certa forma compreensível, também era de se esperar maior boa vontade com o filme, que tem diversos méritos inegáveis (a cena final é um deles, permanecendo com o espectador durante um bom tempo).

YVES SAINT-LAURENT (idem, de Jalil Lespert): Antes de Saint-Laurent estrear na competição de Cannes trazendo os galãs Gaspard Ulliel e Louis Garrel no elenco, o mundo já havia conferido – também em 2014 – outra cinebiografia do famoso estilista francês. Yves-Saint Laurent chegou ao Brasil, por exemplo, bem antes, ainda que seja uma produção idealizada após as tratativas do filme com Ulliel e Garrel. Certamente fizeram uma corrida para ver quem chegaria aos cinemas primeiro e se este longa dirigido por Lespert achou que apressar o calendário para estrear antes era sinônimo de sucesso, o tiro saiu pela culatra. Isto porque Yves Saint Laurent passou timidamente pelos cinemas e foi definido apenas como uma biografia convencional e pouco ousada. De fato, o filme protagonizado por um satisfatório Pierre Niney acerta no diálogo entre elegância e simplicidade de visual, mas não é nada consistente na parte em que precisa desenvolver a vida conturbada de Laurent. Se a transição de um menino talentoso mas jovem demais e inseguro para um verdadeiro ícone da moda funciona, sua vida após não chega a ser bem desenvolvida em termos dramáticas. A tardia libertação pessoal e sexual de um homem que assumiu responsabilidades muito cedo não ganha a devida profundidade dramática – e, neste sentido, a breve duração de 105 minutos é um problema pois deixa a sensação de que Yves Saint-Laurent poderia se estender mais um pouco para dar detalhes que fazem muita falta. Não chega a ser animador ter que ver outra biografia de Laurent futuramente (a versão protagonizada por Ulliel já passou rapidamente por aqui recentemente), mas, dada a incompletude do filme de Lespert em seu terço final, talvez seja uma chance de entender melhor a vida do icônico estilista.

Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1

It’s the things we love most that destroy us.

hungermockinposter

Direção: Francis Lawrence

Roteiro: Danny Strong e Peter Craig, com adaptação de Suzanne Collins, baseado no livro “Mockingjay”, de Suzanne Collins

Elenco: Jennifer Lawrence, Julianne Moore, Philip Seymour Hoffman, Liam Hemsworth, Donald Sutherland, Elizabeth Banks, Josh Hutcherson, Jeffrey Wright, Stanley Tucci, Woody Harrelson, Willow Shields

The Hunger Games: Mockingjay – Part 1, EUA, 2014, Aventura, 123 minutos

Sinopse: Após ser resgatada do Massacre Quaternário pela resistência ao governo tirânico do presidente Snow (Donald Sutherland), Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence) está abalada. Temerosa e sem confiança, ela agora vive no Distrito 13 ao lado da mãe (Paula Malcomson) e da irmã, Prim (Willow Shields). A presidente Alma Coin (Julianne Moore) e Plutarch Heavensbee (Philip Seymour Hoffman) querem que Katniss assuma o papel do tordo, o símbolo que a resistência precisa para mobilizar a população. Após uma certa relutância, Katniss aceita a proposta desde que a resistência se comprometa a resgatar Peeta Mellark (Josh Hutcherson) e os demais Vitoriosos, mantidos prisioneiros pela Capital. (Adoro Cinema)

hungermockingmovie

O salto de qualidade que Jogos Vorazes: Em Chamas deu em relação ao primeiro filme foi fundamental para que eu finalmente conseguisse embarcar na história de Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence). Se do primeiro filme para o segundo as minhas expectativas eram baixíssimas, o oposto aconteceu entre Em ChamasA Esperança – Parte 1, mesmo sabendo que este novo filme dirigido por Francis Lawrence poderia ser prejudicado pela nova moda de dividir últimos capítulos de franquias. Quem, assim como eu, se entusiasmou com o longa anterior, é bom conferir a primeira parte de A Esperança com as expectativas moderadas, já que o tom da saga muda completamente aqui e o resultado passa a trazer um novo tipo de abordagem para o universo da jovem Katniss.

Para começo de conversa, já fica dado o aviso: Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1 sequer se passa dentro das arenas que tanto traziam tensão nos filmes anteriores (no meu caso, só no segundo capítulo). Todos os conflitos agora estão do lado de fora, onde a protagonista passa a ser a líder da revolução de seu distrito contra a repressora capital comandada pelo presidente Snow (Donald Sutherland). Mesmo com a mudança, a série continua mantendo a boa média impulsionada por Em Chamas, mas aqui  de forma bastante diferente, com um tom mais sóbrio em termos de ação e mais intenso em conflitos políticos e sociais. Desta forma, A Esperança – Parte 1 reduz a marcha para contextualizar uma guerra, um confronto de ideais. Ao mesmo tempo que ganha muitos pontos dramaticamente com tal escolha, também pode frustrar quem espera uma história tão movimentada quanto a dos outros filmes.

A divisão do capítulo final ajuda a trazer a sensação de um tom mais pausado, até porque o longa, às vezes, parece se repetir, reforçando os tradicionais problemas de uma obra de transição como essa. Ainda assim, impressiona como Jogos Vorazes mantem sua reputação e qualidade mesmo com uma passagem menos movimentada e que se encontra em uma verdadeira enxurrada de adaptações de best sellers infanto-juvenis. A febre começou com Vorazes e muitos filmes foram produzidos desde então, mas, com A Esperança – Parte 1, fica a certeza de que nenhum chegou ao nível de seriedade e respeito que essa franquia em questão conquistou. Inclusive porque não é qualquer saga que traz Donald Sutherland, Philip Seymour Hoffman e Julianne Moore em papeis coadjuvantes bem aproveitados e com funções importantes na história.

O clima que se instala no segundo filme de Jogos Vorazes dirigido por Francis Lawrence é muito parecido com o que tomou conta dos últimos capítulos de Harry Potter no sentido de trazer um mundo cada vez mais confuso, perigoso e difícil para seus protagonistas. É certo que a guerra travada entre os distritos contra a capital aqui está mais na teoria do que na guerra propriamente dita (o que deve ficar para o próximo longa). Só que é fácil perceber grandes méritos como a  bem sucedida questão da construção de uma líder, a reinvenção de algumas figuras (Elizabeth Banks, agora controlada e abandonando o papel de boba da corte) e o sólido desenvolvimento dos personagens diante da nova situação quase desesperançosa.

A protagonista Jennifer Lawrence segue conduzindo muito bem a trama, especialmente aqui, quando a história lhe exige mais em termos dramáticos do que físicos. Ela tem total segurança frente a monstros da atuação como Moore e Hoffman – este segundo um pouco menos aproveitado agora, mas uma figura sempre envolvente (e a quem o filme é dedicado logo quando a tela escurece para os créditos finais). O problema no elenco ainda se concentra em Josh Hutcherson, que, no capítulo anterior, já era reduzido ao coadjuvante indefeso que só se machucava e atrasava a jornada dos outros. Seu personagem neste capítulo é a chave para desencadear diversas situações – especialmente no final -, mas ator e personagem continuam subutilizados proporcionalmente falando (são duas horas de duração onde Hutcherson deve aparecer apenas três ou quatro vezes).

Ademais, toda e qualquer falha que possa existir no filme de Francis Lawrence (que, lembremos, demonstra exímia segurança ao transitar da aventura para o drama sem cambalear nos tons empregados) deve ser perdoada, pois vem unica e exclusivamente da decisão comercial de dividir a parte final em dois capítulos. Se tudo der certo, o segundo capítulo deve concluir com chave de ouro o pensamento deste que, sim, funciona isoladamente, mas de forma menos eficiente. Resta saber, no entanto, o quanto de A Esperança – Parte 1 vai ficar na memória até a estreia da conclusão, que está programada para chegar aos cinemas apenas em novembro de 2015.

Grace: A Princesa de Mônaco

The idea of my life as a fairytale is itself a fairytale.

gracemonacoposter

Direção: Olivier Dahan

Roteiro: Arash Amel

Elenco: Nicole Kidman, Tim Roth, Frank Langella, Paz Vega, Parker Posey, Milo Ventimiglia, Derek Jacobi, Geraldine Somerville, Nicholas Farrell, Robert Lindsay, Olivier Rabourdin, Roger Ashton-Griffiths, Jeanne Balibar

Grace of Monaco, EUA/França/Bélgica/Itália/Suíça, 2014, Drama, 97 minutos

Sinopse: O casamento de Grace Kelly (Nicole Kidman) e o príncipe Rainier III (Tim Roth) foi considerado um conto de fadas na vida real quando aconteceu, em 1956. Entretanto, cinco anos mais tarde e com dois filhos, a verdade é que Grace está insatisfeita com a vida no palácio e o distanciamento do marido. A chance de novamente sentir-se útil surge quando seu velho amigo, o diretor Alfred Hitchcock (Roger Ashton-Griffiths), a convida para retornar ao cinema como protagonista de seu próximo filme: “Marnie – Confissões de uma Ladra”. O problema é que Rainier é terminantemente contra e, ainda por cima, está envolvido com uma ameaça vinda do presidente francês Charles de Gaule (André Penvern): caso Mônaco não pague impostos à França e acabe com o paraíso fiscal existente, o principado será invadido em seis meses. Em meio às inevitáveis tensões, Grace e Rainier buscam resolver seus problemas tentando evitar que eles causem o divórcio. (Adoro Cinema)

gracemonacomovie

A própria Nicole Kidman declarou que Grace: A Princesa de Mônaco não é uma cinebiografia ou um documentário, mas sim uma busca da vulnerabilidade e humanidade da icônica atriz Grace Kelly. Só que, ao ver o primeiro corte do diretor Olivier Dahan, Harvey Weistein não gostou do que viu. Para que deixasse o filme ser distribuído, adiou o lançamento a fim de realizar mudanças, solicitou cortes e alterou vários pontos da estrutura proposta pelo diretor francês. A polêmica ganhou a mídia e o desgosto de Dahan pelo total controle do distribuidor em cima de seu filme foi escancarado para o mundo inteiro. Dahan deve ter suas razões porque, conferindo este resultado final que abriu o último Festival de Cannes ao som de vaias, fica a impressão de que se, para Weinstein, esta é a versão que merece chegar aos cinemas, é bem provável seus conceitos sobre o que é um bom filme sejam bem questionáveis. Essa sensação vem à tona porque Grace: A Princesa de Mônaco é tão decepcionante, sem personalidade e vazio quanto outra recente cinebiografia: Diana, que, ao invés de ser o tão esperado Oscar de Naomi Watts, revelou-se um filme conceitualmente errado em todos os sentidos.

A verdade é que não tem dado muito certo essa história de “humanizar” figuras históricas. Ao mesmo tempo em que realizadores tentam se esquivar das já fatigadas e quadradas fórmulas de biografias, os resultados apostam em um caminho nobre mas que até agora não foi executado de maneira envolvente. Grace até consegue reconstruir o ícone Grace Kelly, só que é insosso nos dramas pessoais da atriz, além de desinteressante na forma como apresenta seus questionamentos. O recorte escolhido já não é um dos mais interessantes: o início dos anos 1960, quando Grace havia abdicado da carreira de intérprete para se dedicar ao marido, príncipe de Mônaco. Usando como pano de fundo os conflitos com o estadista francês Charles de Gaulle, o longa de Dahan (ou de Weinstein?) opta erroneamente por dedicar boa parte de sua atenção à política, desviando-se da proposta de ser um retrato de uma mulher que, apesar da vida cheia de glamour, tinha problemas iguais aos nossos.

Se a disputa política fosse de certa forma uma influência dramática interessante na vida de Grace Kelly, a produção ganharia contornos realmente complexos. Porém, tanta atenção ao assunto resulta como tempo perdido e a política sempre fica longe de atrair o espectador. Paralelo a isso, o roteiro de Arash Amel traz uma leitura quase machista da vida de uma mulher que anseia voltar ao cinema mas que desiste de uma proposta de ouro (trabalhar novamente com Hitchcock!) para colocar os interesses do marido frente aos dela. Talvez fosse assim na vida mesmo, mas Grace – que logo em sua abertura diz ser um relato ficcional de uma história real -, mostra as desistências da protagonista de forma tão rasa e entediante que a relação dela com o marido resulta apenas inverossímil. Todas estas situações ainda são sublinhadas por uma trilha extremamente invasiva de Christophe Gunning – que é, de longe, um dos piores aspectos do filme.

Nicole Kidman há tempos não recebia uma responsabilidade como essa: protagonizar a cinebiografia de uma figura icônica e ser dirigida por um profissional que anos atrás revelou uma grande atriz ao mundo (a francesa Marion Cotillard). E o curioso aqui é que Nicole se esforça e tem bom resultado, mas contra a sua interpretação está o fator beleza. Grace Kelly tinha uma aparência singular. Só que Nicole também tem. Ou seja, ao mesmo tempo em que os closes de Olivier Dahan e o endeusamento da protagonista evidenciam uma mulher belíssima, em momento algum ela chega perto de ser… Grace Kelly! Nós vemos uma Nicole Kidman esbanjando beleza, não Grace Kelly. Escolher uma beleza forte para emular outra beleza forte não foi uma escolha acertada. Resumindo, nada é plenamente bem sucedido neste filme. Afinal, o que aconteceu com Dahan, que anos atrás realizou Piaf – Um Hino ao Amor, uma das biografias mais completas e relevantes dos últimos anos? Se ele quer se especializar em contar histórias de pessoas da vida real, é bom rever várias escolhas, já que Grace: A Princesa de Mônaco é fraco e decepcionante. Aqui no Brasil, pelo menos, não verá a luz do dia antes de 2015, mesmo já tendo rodado dezenas de países .

Boyhood: Da Infância à Juventude

You know how everyone’s always saying seize the moment? I don’t know, I’m kind of thinking it’s the other way around, you know, like the moment seizes us.

boyhoodposterDireção: Richard Linklater

Roteiro: Richard Linklater

Elenco: Ellar Coltrane, Patricia Arquette, Ethan Hawke, Lorelei Linklater, Steven Chester Prince, Jamie Howard, Libby Villari, Ryan Power, Andrew Villarreal, Bonnie Cross, Elijah Smith, Sydney Orta, Tess Allen

Boyhood, EUA, 2014, Drama, 165 minutos

Sinopse: O filme conta a história de um casal de pais divorciados (Ethan Hawke e Patricia Arquette) que tenta criar seu filho Mason (Ellar Coltrane). A narrativa percorre a vida do menino durante um período de doze anos, da infância à juventude, e analisa sua relação com os pais conforme ele vai amadurecendo. (Adoro Cinema)

boyhoodmovie

Eventualmente somos tomados na vida por uma sensação de que nada acontece… Até olharmos para trás e perceber que tudo está diferente. Ao contrário do que muitas vezes esperamos de um filme na sala de cinema, por exemplo, a vida não se desenvolve apenas a partir de grandes momentos. É o conjunto de pequenas situações e aprendizados que, em sua maioria, nos faz evoluir. E o diretor Richard Linklater, um grande fã desta lógica, aplica literalmente tal proposta em Boyhood: Da Infância à Juventude, longa que filmou durante 12 anos acompanhando o crescimento de seu protagonista Ellar Coltrane. Se na trilogia Antes… Linklater já baseava a história de seus personagens em momentos do dia a dia e conversas corriqueiras, em Boyhood ele acentua ainda mais essa investida com esse filme extremamente cotidiano que prefere olhar para a beleza dos detalhes que quase passam despercebidos na vida.

Talvez o registro da realidade tão vendido por Boyhood pare mesmo na proposta em si, já que o filme, que supõe ser quase um documentário sobre a história de vida de um garoto desconhecido, escala os famosos Patricia Arquette e Ethan Hawke como os pais – o que, de certa forma, tira o espectador deste senso de registro documental. Mas Boyhood, apesar do que aparenta e repercute, é mesmo uma ficção, onde Linklater se encontrava anualmente com o elenco para gravar novas cenas de um roteiro escrito por ele próprio. Ou seja, não se engane: este não é um reality show sobre a vida do jovem ator Ellar Coltrane. A verdade é que os 12 anos percorridos pelo diretor servem apenas para que, ao vermos o crescimento do protagonista Mason, nos afeiçoemos a ele como os seus próprios pais.

Boyhood, como já mencionado, foi desenvolvido durante 12 anos, mas a equipe só filmou mesmo durante 45 dias ao total. Neste meio tempo, Linklater fez suas adaptações a fatores exteriores, incluindo atender o insistente pedido de sua filha para colocá-la em cena. A escolha se mostrou errada por dois motivos: Lorelei Linklater não é boa atriz e ela ainda se cansou do projeto, pedindo para sair. Este é um exemplo de como deve ter sido difícil para o diretor administrar tantas mudanças de sua equipe ao longo dos anos (especialmente quando ele lida o tempo inteiro com crianças e adolescentes), mas o resultado está certamente bem pontuado na tela. O que existe de mais precioso em Boyhood é como não percebemos o nosso crescente afeto pelo protagonista até o longa chegar, por exemplo, a sua formatura no ensino médio. Neste momento, nos comovemos com sua conquista como se fossemos parte de sua família. Ou seja, a evolução do personagem de Coltrane ultrapassa a curiosidade do natural crescimento físico para também conquistar no emocional – e este é, ao meu ver, um dos grandes méritos de Boyhood.

Já quanto ao filme como um todo, não sou um dos grandes entusiastas. O experimento me comoveu diversas vezes mas algumas fragilidades são perfeitamente notáveis. O primeiro ato envolvendo os primeiros anos da infância de Mason não são lá muito inspirados, em especial a parte que traz um pai violento e autoritário que passa a intimidar todos os personagens em cena. É como se Liklater quisesse fugir do mero relato cotidiano para inserir algum tipo de dramaticidade na história – o que resulta bastante artificial diante de toda a naturalidade que guia a proposta de Boyhood. Se Ethan Hawke surge muito bem nesta parte do filme tirando de letra a representação do pai distante que passa a tentar alguma conexão com os filhos, Patricia Arquette fica meio de escanteio – o que não favorece a atriz (que só vai ter seus melhores momentos lá para o final) nem a trama em si.

É fácil, no entanto, se envolver com a fase adolescente de Mason (Coltrane), principalmente porque é aí que, como todos sabemos, estão algumas das descobertas mais importantes da vida. O amadurecimento da relação com o pai, a saída de casa, a entrada na faculdade e os primeiros casos amorosos pontuam a parte mais fluida de Boyhood, que dá o devido tom reflexivo para que a história se encerre como uma experiência inspiradora. Em 165 minutos nada cansativos, vemos o protagonista crescer sem que necessariamente percebamos suas transformações físicas e emocionais. Quando nos damos conta, do nada, lá está Mason, já de barba no rosto, independente e com uma vida inteira pela frente. Totalmente diferente do que ele era uma hora antes na projeção. E, dadas as proporções de tempo e espaço, tudo não é exatamente assim tão repentino e surpreendente na vida?

Interestelar

Our greatest accomplishments cannot be behind us…

interstellarposter

Direção: Christopher Nolan

Roteiro: Christopher Nolan e Jonathan Nolan

Elenco: Matthew McCounaghey, Anne Hathaway, Jessica Chastain, Michael Caine, Matt Damon, John Lithgow, Bill Irwin (voz), Wes Bentley, Topher Grace, Ellen Burstyn, Timothée Chalamet, William Devane, David Gyasi

Interstellar, EUA/Reino Unido, 2014, Ficção Científica, 169 minutos

Sinopse: Após ver a Terra consumindo boa parte de suas reservas naturais, um grupo de astronautas recebe a missão de verificar possíveis planetas para receberem a população mundial, possibilitando a continuação da espécie. Cooper (Matthew McConaughey) é chamado para liderar o grupo e aceita a missão sabendo que pode nunca mais ver os filhos. Ao lado de Brand (Anne Hathaway), Jenkins (Marlon Sanders) e Doyle (Wes Bentley), ele seguirá em busca de uma nova casa. Com o passar dos anos, sua filha Murph (Mackenzie Foy/Jessica Chastain) investirá numa própria jornada para também tentar salvar a população do planeta. (Adoro Cinema)

???????????????????????

A lógica que guia os melhores filmes musicais é a de que as músicas surgem a partir da história – o que não temos visto muito atualmente, quando longas como Mamma Mia! ou Across the Universe, por exemplo, frequentemente falham por primeiro selecionar canções de determinado artista para depois criar a trama. O resultado? Narrativas frágeis e histórias rasas não acompanham a cuidadosa seleção musical. A mesma lógica parece ter sido aplicada por Christopher Nolan neste Interestelar – com a diferença, claro, de que as músicas aqui dão lugar para a física quântica. Intensificando cada vez mais um vício que lá em Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge já se mostrava um tanto preocupante (o de complicar demais tramas essencialmente simples), Nolan, em seu mais novo filme, dá a entender que, durante um belo dia, folheou um livro de física quântica, elencou teorias que poderiam ser realmente aplicáveis na realidade e, a partir daí, construiu a história de Interestelar. E, assim como os musicais que se preocupam mais em homenagear alguém do que de fato desenvolver uma trama consistente, o diretor sai dos trilhos e se sufoca dentro de suas próprias pretensões.

Só que o caso de Interestelar é ainda mais grave porque estamos falando de um filme que custou nada menos que 165 milhões de dólares e que, em tese, como um blockbuster, deveria fazer altas bilheterias e dialogar de alguma forma com o grande público. Entretanto, Nolan aposta em um filme tão complicado, complexo e explicativo que fica difícil acreditar que as plateias esperadas se comunicarão por completo com o resultado. O britânico está se envolvendo em uma perigosa rede: seus filmes são grandiosos e de alto custo, mas suas histórias estão cada vez mais complicadas.  A pergunta é: com viagens que só evoluem neste sentido, o grande público continuará cativo? E até quando os estúdios confiarão em Nolan para seus filmes, cujas propostas estão bem longe de garantir o resultado seguro que os investimentos em questão pedem? Não seria nenhuma surpresa ver Nolan ficando na geladeira pelos próximos anos ou realizando obras menos ambiciosas caso Interestelar aponte algum tipo de fracasso. E, julgando pelo que é aqui, o diretor, caso queira continuar nessa escalada de complexidade, precisa urgentemente achar suas devidas proporções. Não dá para ser tão restrito com orçamentos estratosféricos. Principalmente quando os trailers claramente escondiam o perfil complexo e difícil de Interestelar.

Na ânsia de apresentar teorias, o longa se perde logo no primeiro ato, justamente o momento em que é necessário fazer a plateia se conectar com os personagens. Só que o roteiro que Nolan escreve em parceria com o seu irmão Jonathan é muito mais cuidadoso com a física quântica e com explanações envolvendo a preocupante situação do planeta Terra do que com as personalidades dos personagens, sejam eles protagonistas ou coadjuvantes. Por isso, despedidas não são tão tristes, motivações são quase inconvincentes e os elos entre cada uma das figuras em cena resultam extremamente frágeis. Querendo acertar na física, erra no básico do drama, o que dificulta com que nos importemos com o destino do personagens. É firula demais para uma história essencialmente simples – e que, curiosamente, sequer define muito bem a raiz de seu drama. Por isso, em certo ponto, fica quase impossível ter boa vontade para acompanhar e compreender tantas teorias que só servem para… trazer mais teorias. Toda essa complexidade, na verdade, pouco se desdobra em conflitos – o que significa que, em um palpite, apenas 10% das voltas que Nolan dá implicam em alguma consequência consistente para o filme.

O descuido com detalhes básicos do roteiro em prol dos rodeios quânticos segue durante toda a projeção. O melhor exemplo disso é o personagem de Matt Damon, que, em um primeiro momento, sugere ser a virada que Interestelar tanto precisava mas logo se apresenta como uma guinada tola ao estilo Marion Cotillard em Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge. Uma total perda de tempo para um filme que custa a engrenar e que, neste momento, parecia disposto a finalmente trabalhar algo mais envolvente. Ledo engano. O “conteúdo” se abarrota cena após cena, culminando em um final quase absurdo de tão implausível (pelo menos dramaticamente, já que sou um leigo em física e apenas fã de dramaturgia), com resoluções que realmente beiram o desastre ou o cafona – afinal, precisava mesmo Jessica Chastain fazer uma descoberta, jogar os papeis para o alto, gritar “eureca!” e beijar o primeiro que aparece? Christopher Nolan continua mestre na experiência sensorial, sabendo utilizar como poucos a união de bons efeitos visuais, trilha emblemática (mais uma vez de Hans Zimmer, um dos pontos altos do filme) e todas as possibilidades do orçamento nas cenas que pedem grandes proporções, mas, infelizmente, está se afundando na própria pretensão.

Para quem deseja ignorar a complexidade e procurar por emoção, Interestelar também será profundamente frustrante. Esta é uma experiência vazia. Não tem romance, ação empolgante ou suspense intrigante – e, para um longa desta proporção, que depende tanto do retorno do grande público,  esta carência é bastante prejudicial. Não que o filme de Nolan precisasse ser lacrimoso ou repleto de adrenalina, mas aí resultar apenas tedioso, desnecessariamente longo e repleto de excessos é outra história. Não bastasse tudo isso, Interestelar carregava ainda a difícil missão de ser filme o primeiro grande filme passado no espaço depois de Gravidade ter revolucionado por completo o tema. E, em todas as instâncias, Nolan fracassou em ser um sucessor ou pelo menos mais uma vertente da inegável excelência apresentada por Alfonso Cuarón no longa protagonizado por Sandra Bullock. Em Interestelar, o impacto visual do espaço não é o mesmo, os atores nunca parecem 100% entregues ou confortáveis (Jessica Chastain e Casey Affleck, principalmente, fazendo o que podem com papeis mal aproveitados) e o que realmente toca (a distância, a passagem do tempo, o que se perde entre quem está na galáxia e quem está na Terra) não é devidamente explorado. É hora de parar um pouco e repensar, Christopher Nolan. É inacreditável que um dos piores filmes do ano carregue a sua assinatura.