Cinema e Argumento

O Jogo da Imitação

When people talk to each other, they never say what they mean. They say something else and you’re expected to just know what they mean.

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Direção: Morten Tyldum

Roteiro: Graham Moore, baseado no livro “Alan Turing: The Enigma”, de Andrew Hodges

Elenco: Benedict Cumberbatch, Keira Knightley, Matthew Goode, Rory Kinnear, Allen Leech, Matthew Beard, Charles Dance, Mark Strong, James Northcote, Tom Goodman-Hill, Steven Waddington, Ilan Goodman, Jack Tarlton, Alex Lawther, Jack Bannon

The Imitation Game, Reino Unido, 2014, Drama, 114 minutos

Sinopse: Durante a Segunda Guerra Mundial, o governo britânico monta uma equipe que tem por objetivo quebrar o Enigma, o famoso código que os alemães usam para enviar mensagens aos submarinos. Um de seus integrantes é Alan Turing (Benedict Cumberbatch), um matemático de 27 anos estritamente lógico e focado no trabalho, que tem problemas de relacionamento com praticamente todos à sua volta. Não demora muito para que Turing, apesar de sua intransigência, lidere a equipe. Seu grande projeto é construir uma máquina que permita analisar todas as possibilidades de codificação do Enigma em apenas 18 horas, de forma que os ingleses conheçam as ordens enviadas antes que elas sejam executadas. Entretanto, para que o projeto dê certo, Turing terá que aprender a trabalhar em equipe e tem Joan Clarke (Keira Knightley) sua grande incentivadora. (Adoro Cinema)

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É uma boa temporada para os fãs de biografias. Excetuando Foxcatcher, um trabalho realmente diferenciado no formato, vários outros filmes do gênero entraram em cartaz trazendo a velha fórmula segura que garante boa aprovação: história com início, meio e fim bem definidos, roteiro sem maiores ousadias, um bom trabalho técnico e atores empenhados em reproduzir com fidelidade as figuras reais em questão. Foi assim com A Teoria de TudoGrandes Olhos, os primeiros filmes a desembarcarem no Brasil entre janeiro e fevereiro. Agora, podemos colocar mais um nessa conta: O Jogo da Imitação, que segue os mesmos padrões dos filmes citados. Ou seja, bom para quem gosta, indiferente para quem busca algo novo. 

O que pontua as biografias desse ano é o agradecimento que a sétima arte faz para pessoas injustiçadas ou que trouxeram uma contribuição sem precedentes para a humanidade. Em Grandes Olhos, Tim Burton dá os devidos créditos para a pintora Margaret Keane, que, durante anos, foi vítima da pilantragem de seu marido aproveitador. Em A Teoria de Tudo, vimos a grande superação do físico Stephen Hawking ao enfrentar uma doença degenerativa ao mesmo tempo que construía uma família e dava continuidade a uma brilhante carreira profissional. Com O Jogo da Imitação, é a vez do diretor Morten Tyldum contar a vida do singular matemático Alan Turing, que ajudou o governo britânico em uma conquista decisiva na Segunda Guerra Mundial. Turing foi condenado por ser homossexual (era um crime, na época). A pena? Fazer um tratamento hormonal de dois anos para “conter” sua sexualidade, o que levou o matemático a depressão e ao suicídio.

Quando se concentra nas questões pessoais de Alan Turing, seja na sua infância como garoto prodígio zombado pelos colegas, no seu temperamento difícil (é cheio de si, mas ao mesmo tempo uma figura extremamente frágil) ou na relação de confiança que estabelece com a colega de trabalho Joan Clarke (Keira Knightley, devidamente simpática e contida), O Jogo da Imitação se liberta das tradicionais amarras de um tradicional relato biográfico. E não é só porque o britânico Benedict Cumberbatch, explorando mais o homem inseguro e perdido de Álbum de Família do que o gênio racional do seriado Sherlock, ganha chances maiores para detalhar sua ótima atuação, mas é porque aí que passamos a nos importar mais com Turing e a compreender como realmente funciona não apenas a sua mente, mas também o seu coração.

Turing é um personagem que por si só já seria suficientemente interessante para sustentar um filme como O Jogo da Imitação e talvez o fato do resultado não ser um sonífero se deva justamente a todo esse interesse que o protagonista desperta no espectador. Sem ele, seria uma batalha acompanhar o longa de Morten Tyldum. Ora, não bastasse ser uma biografia, O Jogo da Imitação ainda é ambientado em meio a uma grande guerra, o que aumenta exponencialmente as chances do diretor se entregar ao didático. E é fato: não existe qualquer sinal de que Tyldum, a partir do roteiro escrito por Graham Moore, com base no livro “Alan Turing: The Enigma”, de Andrew Hodges, tenha qualquer vontade de atingir outro espectador a não ser o mais acadêmico.

Previsível em toda a sua construção (óbvio que o texto não poderia deixar de mastigar a todo minuto a abordagem do gênio de ideias transgressoras a quem ninguém dá ouvidos e que no final se revelará o salvador da pátria) , O Jogo da Imitação também reserva espaço para o clichê da frase de efeito dita e repetida do início ao fim. Claro que a reconstituição de época é digna e a trilha sonora chega até a ser inspirada (Alexandre Desplat, de novo!), mas até para alguém como eu, que costuma ser um defensor de filmes com essa pegada, a onda de biografias convencionais já não comove mais. Nem todas precisam transbordar originalidade, só que às vezes pensar um pouquinho além das conhecidas fronteiras já traz um sabor pelo menos motivador. Novamente não é o caso.

Rapidamente

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Além da ótima presença de Tilda Swinton, Expresso do Amanhã se destaca pelo criativo design de produção e pelas ideias que escapam das previsibilidades de boa parte dos filmes de ficção

UMA AVENTURA LEGO (The Lego Movie, 2014, de Christopher Miller e Phil Lord): Conquistou uma legião de fãs esse filme que, para mim, resultou em uma grande dor de cabeça. Gosto do humor e das várias referências que a dupla Christopher Miller e Phil Lord trouxe para o ótimo visual do mundo Lego, mas construir um filme somente em cima dessas piadas não é, ao contrário do que pode parecer, uma jogada inteligente. O grande problema de Uma Aventura Lego é que, fora o humor subversivo e a imensa gama de personagens, situações e histórias referenciadas aqui, não existe uma trama consistente. Por isso, a animação parece ter o dobro da duração que realmente tem, se arrastando em uma jornada infinita de situações desconexas e histriônicas. Em cinco minutos, é possível ir de um submarino ao México, de Cleópatra a Batman – algo que resultaria genial em um filme que tivesse pensado em uma história realmente boa antes. Aqui, as divertidas aparições desses personagens e a construção de situações inimagináveis soam mais como um artifício forçado para conquistar a galera geek. De lembrança mesmo fica apenas o visual e Everything is Awesome, a canção mais divertidamente grudenta em sabe-se lá quantos anos.

EXPRESSO DO AMANHÃ (Snowpiercer, 2013, de Bong Joon Ho): Estreia do diretor coreano Bong Joon Ho (O HospedeiroMother) em um filme falando em inglês, Expresso do Amanhã é baseado na HQ francesa Le Transperceneige, que traz uma trama similar ao de José Saramago em Ensaio Sobre a Cegueira, por exemplo: uma comunidade sendo construída em uma circunstância extraordinária onde pessoas são isoladas por uma força maior. No caso do filme de Joon Ho, um enorme trem, que abriga os últimos sobreviventes de uma catástrofe climática que congelou o mundo. Fora as discussões envolvendo rebelião e construção de um novo modelo de sociedade, Expresso do Amanhã também é uma boa ficção, bastante gráfica e conceitual. Não é uma experiência fácil (aqui inexistem as previsibilidades do gênero, com personagens importantes morrendo ao longo da trama e referências bastante espertas, a exemplo da tirana antagonista vivida por Tilda Swinton que usa os mesmos óculos de Margaret Thatcher!). Enquanto até a metade o longa parece mais um (interessante) videogame em que os personagens precisam apenas avançar nos perigos de cada vagão do trem, logo a história traz uma reviravolta (com uma ótima sequência protagonizada por Alison Pill) e tudo ganha outra dimensão. Vale ressaltar ainda o excelente design de produção e a sensacional criação de Tilda Swinton como a ministra Mason. Se Oscar conta alguma coisa, são duas faltas bastante sentidas na cerimônia de 2015.

MESMO SE NADA DER CERTO (Begin Again, 2013, de John Carney): O diretor irlandês John Carney gosta mesmo de usar a música para falar sobre sentimentos. Mas, se em Apenas Uma Vez, o clima era incrivelmente melancólico, a situação já é diferente em Mesmo Se Nada Der Certo, uma produção bastante espirituosa. A lógica é a mesma: personagens com vidas pessoais bagunçadas ou despedaças encontram na música uma razão para esquecer os problemas e seguir em frente. Comparado ao filme anterior do diretor, este novo trabalho é menos inspirado, com canções agradáveis mas não tão fundamentais à construção da narrativa e um tanto repetitivo na mensagem que Carney parece querer seguir em longas com sua assinatura. Mark Ruffalo e Keira Knightley, a dupla protagonista, são o ponto alto da história, com destaque para ela, que, em seus últimos trabalhos, finalmente aprendeu a deixar as caras e bocas de lado. Alguns descuidos na história são perceptíveis (como o personagem de Ruffalo está quase falido e desabrigado se tem um grande amigo que diz dever sua fortuna de milhões a ele?), mas a boa vibe do filme compensa. Agradável aos ouvidos e à alma, Mesmo Se Nada Der Certo funciona facilmente como uma diversão despretensiosa.

A OUTRA TERRA (Another Earth, 2011, de Mike Cahill): Chegou a vencer o prêmio especial do júri em Sundance esse filme de estreia de Mike Cahill no universo de tramas de ficção (antes ele havia dirigido o documentário Boxers and Ballerinas). Cahill trabalhou em parceria com Brit Marling, a jovem protagonista que também escreveu o roteiro e produziu o longa com ele. Enigmático e bastante envolvente, A Outra Terra traz uma garota atormentada por uma tragédia pessoal que testemunha a descoberta de um novo planeta habitados por seres humanos com identidades iguais às nossas. Contudo, não pense que esta é uma trama de ficção no sentido clássico do gênero ou um suspense envolvendo alienígenas e coisas do gênero. Na realidade, toda a descoberta do outro planeta e a possibilidade de realmente ainda termos muito o que descobrir nesse vasto universo servem para ajudar a moldar a própria trajetória da protagonista em busca de redenção e algum tipo de paz. O final surpreendente, o roteiro bem lapidado dramaticamente e a simplicidade realista de uma produção alternativa fazem de A Outra Terra uma experiência interessantíssima e envolvente para quem procura obras que escapem de conceitos fáceis.

Cinquenta Tons de Cinza

My tastes are very singular. You wouldn’t understand.

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Direção: Sam Taylor-Johnson

Roteiro: Kelly Marcel, baseado no livro “Fifty Shades of Grey”, de E.L. James

Elenco: Dakota Johnson, Jamie Dornan, Jennifer Ehle, Eloise Mumford, Marcia Gay Harden, Rita Ora, Luke Grimes, Max Martini, Callum Keith Rennie, Andrew Airlie, Dylan Neal, Rachel Skarsten, Emily Fonda, Anthony Konechny, Bruce Dawson, Tom Butler

Fifty Shades of Grey, EUA, 2015, Drama, 125 minutos

Sinopse: Anastasia Steele (Dakota Johnson) é uma estudante de literatura de 21 anos, recatada e virgem. Uma dia ela deve entrevistar para o jornal da faculdade o poderoso magnata Christian Grey (Jamie Dornan). Nasce uma complexa relação entre ambos: com a descoberta amorosa e sexual, Anastasia conhece os prazeres do sadomasoquismo, tornando-se o objeto de submissão do sádico Grey. (Adoro Cinema)

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Cinquenta Tons de Cinza repete o efeito da saga Crepúsculo: é um filme-evento. Ou seja, todo mundo vê e comenta. Mesmo que o consenso seja de que o resultado é uma catástrofe, se você não o assistir, estará desatualizado nas rodas de conversa. Só que o caso dessa aguardada adaptação do romance homônimo escrito por E.L. James (que não li e nem preciso, pois cinema independe da literatura) é ainda mais grave do que Crepúsculo no sentido de disseminar ideias erradas. Isso porque Cinquenta Tons de Cinza é dirigido ao público adulto, que já deveria ter idade e vivência suficientes para perceber que basicamente tudo o que é pregado nessa história sintetiza o que existe de pior no machismo cada vez mais combatido e – por incrível que pareça – presente nos dias de hoje. Indo mais além, o filme de Sam Taylor-Johnson (do ótimo Os Garotos de Liverpool) não é só uma exposição de valores absurdos, mas também um produto cinematográfico realmente ruim e pobre em criações.

A inexistência de criatividade já fica mais do que evidente nos primeiros minutos de projeção. Não é preciso puxar muito a memória para perceber que o começo de Cinquenta Tons de Cinza apresenta exatamente a mesma construção de O Diabo Veste Prada: uma menina desglamourizada se veste (mal) para uma entrevista com uma figura poderosíssima, misteriosa e intimidante. Enquanto Anastasia (Dakota Johnson), a tal moça, parte para o destino em um singelo fusca azul, Christian Grey, o tal misterioso, chega ao trabalho em uma imponente limousine. A menina admira o prédio gigantesco quando acha o destino. Na sequência, a câmera acompanha a porta do elevador se abrindo quando ela adentra o local e, durante todo esse seu deslocamento, o filme intercala rápidos momentos de Grey se vestindo e se preparando para o momento, sem que seu rosto seja revelado com o objetivo de criar certo suspense. Anastasia chega, tropeça, gagueja, fala coisas erradas e o empresário, agora revelado como um homem lindo e deslumbrante, já trata de resumir o encontro ao ver a inexperiência da garota. Mas ela faz alguma coisa especial (que não é perceptível, ao contrário do ótimo momento em que a personagem de Anne Hathaway confronta Meryl Streep em Prada quando discursa sobre como seu talento deve falar mais alto do que suas roupas), fisgando a atenção do desejado Christian Grey. E os dois, em questão de poucos minutos, já estão secretamente apaixonados.

Como se não bastasse uma certa incoerência que se revelará mais tarde (por que mesmo ela foi tão mal vestida para uma importante primeira entrevista se, cenas depois, faz uma nova reunião com Grey usando salto alto, maquiagem e um vestido que realça sua beleza?) ou o fato de que nenhum jornalista – mesmo em formação – enviaria a amiga para substituí-lo em uma entrevista se hoje existe telefone e e-mail para que perguntas sejam respondidas, a sucessão de cópias desse primeiro momento ainda é precedida por outra metáfora absurdamente preguiçosa: óbvio que a menina, após a reunião supostamente cercada de tensão sexual, opta por tomar tranquilamente um banho de chuva ao invés de sair correndo para o carro afim de não se molhar. Que original, uma chuva para abrandar o fogo interno da protagonista! E o que dizer, então, de quando a câmera, minutos depois, detalha o “Grey” desenhado no lápis que Anastasia ganhou e que coloca em sua boca durante toda uma aula de literatura? Resumo da ópera: já nas cenas iniciais, Cinquenta Tons de Cinza anuncia que não é um filme inteligente e que muito menos compensará em ideias cinematográficas a premissa que por si só já é cercada de cheia de valores errados.

Se, na casa de Christian, o quarto sexual é decorado apenas com vermelho e o de Dakota estoura os olhos de tão branco, exaltando o pecado e pureza respectivamente (sério mesmo que até na direção de arte não resolveram criar um pouquinho além?), tal preguiça de pensamento se estende ainda à construção da relação dos personagens – que, aos poucos, sai da mera obviedade para o total desleixo. Ambos são figuras completamente desinteressantes. É implausível como ele, um homem tão lindo, desejado e poderoso, foi se interessar por ela – e isso não tem nada a ver com beleza ou conteúdo, mas com o fato de Christian repentinamente ter se encantado com a personalidade da menina sendo que ela não demonstrou nada minimamente aceitável para que sequer tivéssemos simpatia por sua figura. Já ela, uma garota virgem e que nunca teve um namorado, parece mais uma mercenária: percebam como Anastasia sempre é alegremente comprada por Christian, seja com um carro caríssimo para que ela finalmente tome uma importante decisão na relação dos dois ou com uma voltinha em um avião particular para que ela finalmente esqueça uma discussão.

São muitos os aspectos questionáveis da personalidade de cada um (e que serão discutidos mais adiante), mas o pior é o que se desenrola “sentimentalmente” a partir de quando Christian finalmente revela para Anastasia as suas “preferências singulares”. Pior porque todo e qualquer conflito originado a partir daí não tem qualquer consistência. Os personagens brigam por bobagens (como a protagonista quer insistentemente exigir de seu amado algum tipo de sentimento sendo que ele, desde o início, já deixou bem claro que não se envolve a ponto de sequer namorar?), outras vezes por questões simplesmente absurdas (como quando Christian, indignado, questiona Anastasia por ela simplesmente ter decidido ir visitar a mãe em outra cidade sem ter pedido sua permissão), e no fim fica difícil ter simpatia por personagens repetitivos, irritantes e com defeitos sem qualquer justificativa convincente (“eu sou assim!”, simplificam a figura de Christian no roteiro). 

Romantizar uma relação abusiva é um dos tantos problemas conceituais de Cinquenta Tons de Cinza. “Abusiva? Mas eles assinaram um acordo!”, justificam alguns fãs. Sejamos sinceros: uma garota de 21 anos, virgem e que nunca teve um namorado realmente tem a mesma dimensão do que é certo ou errado em uma relação com um homem já beirando seus 30, rico e que trancafiou até aquele momento mais de 15 mulheres em seu apartamento como suas escravas sexuais? O caos é que não existe uma discussão sobre a situação e sim uma romantização mesmo. São gritantes as bobagens românticas trabalhadas, como Christian dizer a todo momento que nunca dormiu com alguém depois de uma transa para, claro, com sua nova “vítima” (é mais adequado chamá-la assim), dormir ao seu lado em um sono profundo. Ou então afirmar veemente que não faz programas de casais como jantar ou ir ao cinema para, cenas depois, lá estar ele já se voluntariando para marcar um encontro desse tipo. Oh, o homem que fazia sexo só por consumismo agora teve o seu coração flechado a ponto de abandonar seus velhos hábitos!

Com o acúmulo de gigantes fragilidades em sua construção (a mãe inútil vivida inexplicavelmente por Marcia Gay Harden nada acrescenta), implausibilidade de situações e conflitos vindo de fiapos ao longo de pouco mais de duas horas de duração, Cinquenta Tons de Cinza é arrastado e interminável. O próprio sexo, que deveria ser o afrodisíaco ou o ponto alto da crítica e da mexida na ferida (dependendo do bom senso de quem vê), tampouco consegue ser excitante ou incômodo. O machismo do filme ainda se reflete na própria nudez vista no filme: enquanto Dakota Johnson surge com os seios à mostra a todo momento e eventualmente com quase nu frontal, Jamie Dornan contracena com a atriz apenas descamisado de calça jeans em praticamente todas as cenas, ressaltando o forte problema que o cinema estadunidense ainda tem com a nudez masculina. Mulher é um objeto que pode estar nu sem qualquer pudor. Já o homem se excita com suas práticas masoquistas vestindo calça jeans, tirando-a apenas para formalizar a cena do ato da penetração em si.

Os atores não têm muito o que fazer com o roteiro mal escrito. Enquanto Dakota Johnson é esforçada mas ineficiente (suas tentativas de ser sexy mordendo o lábio são puro humor involuntário), Jamie Dornan não tem nada o que fazer além de ostentar sua inegável beleza, pois seu Christian Grey tem sempre o mesmo tom de voz e é um personagem que não cansa de surpreender negativamente com atitudes capazes de indignar qualquer pessoa sã. Como, em pleno século XXI, um público adulto pode se comover e vibrar com uma relação onde o homem decide como a mulher deve transar, o que ela come, com quem ela fala, com que frequência ela bebe ou com quem ela pode transar além dele… Isso me parece um grande mistério. Antes Cinquenta Tons de Cinza levantasse questionamentos ou discussões a partir dessas situações, mas é tudo muito claro: a mulher é uma submissa, como o filme literalmente profere e romantiza. Se, em uma produção de duas horas, isso já assusta e entedia, é ainda mais preocupante saber que existem outros dois filmes mais adiante. Sucesso e comoção mundial para uma história como essa? Parem tudo porque quero descer. Tenho medo do futuro da humanidade.

Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)

A thing is a thing, not what is said of that thing.

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Direção: Alejandro González Iñárritu

Roteiro: Alejandro González Iñárritu, Alexander Dinelaris, Armando Bo e Nicolás Giacobone

Elenco: Michael Keaton, Edward Norton, Emma Stone, Naomi Watts, Amy Ryan, Zach Galifianakis, Andrea Riseborough, Merritt Wever, Jeremy Shamos, Clark Middleton, Lindsay Duncan, Catherine Peppers, Bill Camp, Joel Marsh Garland

Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance), EUA/Canadá, Drama, 119 minutos

Sinopse: No passado, Riggan Thomson (Michael Keaton) fez muito sucesso interpretando o Birdman, um super-herói que se tornou um ícone cultural. Entretanto, desde que se recusou a estrelar o quarto filme com o personagem sua carreira começou a decair. Em busca da fama perdida e também do reconhecimento como ator, ele decide dirigir, roteirizar e estrelar a adaptação de um texto consagrado para a Broadway. Entretanto, em meio aos ensaios com o elenco formado por Mike Shiner (Edward Norton), Lesley (Naomi Watts) e Laura (Andrea Riseborough), Riggan precisa lidar com seu agente Brandon (Zach Galifianakis) e ainda uma estranha voz que insiste em permanecer em sua mente. (Adoro Cinema)

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Folheava as últimas crônicas de Sete Anos escritas por Fernanda Torres durante minha ida ao trabalho no dia em que conferiria Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância). Falando sobre o falecimento de Dercy Gonçalves, Fernandinha disse que veio dela o maior elogio que já recebeu na vida. “Tive a honra de tê-la na plateia de A Casa dos Budas Ditosos. Na saída, ela me disse que eu havia entendido que um ator não pode representar. ‘Ele deve ser’, afirmou ela. Ser ou não ser. Foi o maior elogio que eu já recebi”, conta. Voltando algumas páginas, porém, encontramos, em No Dorso Instável de Um Tigre, uma longa e prazerosa reflexão da autora sobre qual o verdadeiro ofício do ator. Ela afirma que um intérprete não teme o palco ou a plateia e sim perder o sentido da profissão. Que razão há em fingir ser ou outro? Ou melhor, como bem pergunta o primeiro ato de Hamlet, quem está aí? Que feliz coincidência do destino ter lido as reflexões de Fernanda Torres horas antes de Birdman. Afinal, tudo o que ela escreveu também está, com uma com grande escalada de genialidade e inovação, neste novo filme do mexicano Alejandro González Iñárritu. São duas obras que se complementam com perfeição.

Quem está aí, afinal? Birdman, o icônico super-herói de uma trilogia bilionária de décadas atrás ainda lembrada por público e crítica, ou simplesmente Riggan Thomson, ator que nunca conseguiu provar ser um verdadeiro ator depois desse personagem marcante e que hoje tenta reerguer a carreira com uma peça de teatro que ele próprio dirige, produz e protagoniza? Independente da resposta, o mais brilhante de Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) é a busca interior do protagonista por essa resposta. Ao longo de quase duas horas, o personagem vivido por Michael Keaton, contando os dias para a estreia de seu espetáculo, encontrará em cada situação e em cada conversa alguma reflexão que o induzirá a tal pergunta. Quem está aí? Mais do que isso, seria sua peça de teatro uma vaidade para mostrar à crítica de que ele realmente tem alguma relevância? Seria uma jornada pessoal para ele próprio se livrar da sombra de Birdman? Ou um auto-convencimento de que ele, talvez, apesar de várias tentativas, será sempre apenas aquele super-herói de cifras estratosféricas?

Se logo no início Alejandro González Inárritu nos faz crer que Birdman será um filme excessivamente teatral, seja em termos de texto ou da forma como realmente estrutura seu filme, logo a teoria vai por água abaixo com uma obra que só evolui cinematograficamente e que dá conta por completo de todo o mosaico de personagens e dilemas que desenvolve ao longo da trama. Não é só o Birdman/Riggan Thomson de Keaton que terá seus dramas esmiuçados, mas também a atriz interpretada por Naomi Watts que estará na Broadway pela primeira vez, o instável ator de Edward Norton que acaba se tornando o grande atrativo da peça em questão e a filha de Thomson que ainda está se acostumando com sua vida após uma temporada em uma clínica de reabilitação. Mesmo Amy Ryan, como a ex-esposa do protagonista, está repleta de nuances em suas breves duas cenas. Por isso, Birdman pode até ser sobre os bastidores de uma peça de teatro, uma crítica à indústria do cinema e um relato sobre arte e o fazer dela, mas também é um filme bem sucedido quando passa a falar sobre jornadas pessoais. E é no mínimo surpreendente saber que a precisão do roteiro vem de nada menos do que quatro cabeças (dando uma aula ao também recente Invencível, que reunia o mesmo número de roteiristas em um resultado quase desastroso).

Construído todo a partir de admiráveis planos-sequência (que, dizem, às vezes desviam a atenção da história), o longa de Iñárritu só ganha pontos com essa escolha. Além de trazerem um realismo único para o conjunto, explorando toda uma fluidez e intimidade com os personagens, os planos também são obviamente uma chance extra para os atores brilharem. O diretor mexicano nunca esteve tão inventivo e ambicioso, com ideias muitíssimo bem planejadas e executadas, além de seguro para orquestrar cada detalhe sem que Birdman se torne uma experiência pretensiosa. Iñárritu sempre foi ótimo diretor de atores (aqui não é diferente), mas nunca entregou uma obra tão completa em temática e técnica como essa. É o auge de sua carreira. Dos meros bastidores de um teatro às calçadas da Times Square, sua câmera, aliada a uma ótima fotografia de Emmanuel Lubezki e a uma trilha difícil mas inovadora de Antonio Sanchez, está sempre surpreendendo, do primeiro a ao último plano (o final com Emma Stone na janela é excepcional).

Mais do que toda a metalinguagem envolvendo o protagonista e o próprio Michael Keaton, Birdman tem momentos realmente emocionantes que são resultado de toda essa beleza vinda da precisão de Inárritu atrás das câmeras. A cena em que Riggan Thomson sai voando por Nova York é um deles. Fora isso, o elenco, em plena harmonia, dá o tom certo para cada personagem. Aliás, são todos personagens que procuram não a razão que existe em fingir ser o outro, mas a razão que existe em ser eles mesmos, em especial quando estão fora do palco. Quando não estão em cena, os personagens de Birdman se perdem. Mas talvez o filme de Iñárritu seja mesmo sobre libertação. Dos palcos, da vida, desse medo de procurar tanto ser alguém e esquecer de ser fiel a sua própria identidade. Quem está aí, afinal? Tomara que Fernanda Torres tenha gostado dessa obra-prima.

Caminhos da Floresta

Children can only grow from something you love to something you lose…

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Direção: Rob Marshall

Roteiro: James Lepine, baseado em musical de autoria própria e de Stephen Sondheim

Elenco: Emily Blunt, James Corden, Meryl Streep, Anna Kendrick, Chris Pine, Johnny Depp, Christine Baranski, Tracey Ullman, Lilla Crawford, Daniel Huttlestone, Tammy Blanchard, Lucy Punch, Mackenzie Mauzy, Billy Magnussen, Joanna Riding

Into the Woods, EUA/Reino Unido/Canadá, 2014, Musical, 125 minutos

Sinopse: Um padeiro e sua mulher (James Corden e Emily Blunt) vivem em um vilarejo, onde lidam com vários personagens famosos dos contos de fadas, como Chapeuzinho Vermelho (Lila Crawford). Um dia, eles recebem a visita da bruxa (Meryl Streep), que é sua vizinha. Ela avisa que lançou um feitiço sobre o casal para que não tenha filhos, como castigo por algo feito pelo pai do padeiro, décadas atrás. Ao mesmo tempo, a bruxa avisa que o feitiço pode ser desfeito caso eles lhe tragam quatro objetos: um capuz vermelho como sangue, cabelo amarelo como espiga de milho, um sapato dourado como ouro e um cavalo branco como o leite. Eles têm apenas três dias para encontrar tudo, caso contrário o feitiço será eterno. Decididos a cumprir o objetivo, o padeiro e sua esposa adentram na floresta. (Adoro Cinema)

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Rob Marshall sempre dá um jeito de voltar aos musicais. Entre filmes como Memórias de Uma Gueixa e Piratas do Caribe: Navegando em Águas Misteriosas, sempre existiu uma nova investida do diretor no gênero. Nenhuma de suas realizações, entretanto, conseguiu sequer chegar perto do prestígio e do suposto brilhantismo de Chicago, longa-metragem de estreia de Marshall nos cinemas que, inclusive, chegou a lhe render uma indicação ao Oscar de melhor diretor. Já não compartilho qualquer entusiasmo pelo musical estrelado por Renée Zellweger e Catherine Zeta-Jones (lá já era possível ver os defeitos que afundariam outros trabalhos do diretor como a excessiva teatralidade e os números ambientados praticamente todos em um mesmo ambiente), mas é consenso geral que sua filmografia nunca mais decolou depois desse projeto. Infelizmente Caminhos da Floresta, outra investida em musicais de Marshall, é mais uma prova – e talvez a mais contundente delas – de que Chicago realmente foi um golpe de sorte. Ou de que o diretor foi, desde sempre, uma farsa que sabe-se lá como o mundo comprou entusiasmadamente.

Adaptado do tradicional espetáculo homônimo tão popular nos Estados Unidos, Caminhos da Floresta se tornou a maior estreia de uma versão cinematográfica da Broadway no país, faturando 46 milhões de dólares somente no primeiro final de semana. Claro que o sucesso está aliado ao fato de que o filme também é da Disney, tem apelo infantil e ainda brinca com várias figuras dos contos de fada, mas as grandes referências vêm mesmo da origem teatral, já que Caminhos da Floresta já foi encenado por muitas gerações nas escolas estadunidenses. Não se engane, no entanto, ao pensar que este é um filme meramente de fantasia que reúne várias figuras clássicas como Rapunzel e Cinderela. Não. Caminhos da Floresta é obviamente um musical nato, de diálogos cantados e canções que estão longe de serem melódicas ou grudentas (Sweeney ToddOs Miseráveis são os exemplares mais próximos conceitualmente deste filme no cinema recente). Ou seja, sente na poltrona com bastante paciência (caso você não curta o gênero) porque lá vem muita cantoria! Todas as referências de respeito, as possibilidades musicais e as ideias potencialmente criativas são, contudo, perdidas pela má direção de Marshall e pelo roteiro empoeirado de James Lepine (autor do espetáculo original ao lado de Stephen Sondheim).

Caminhos da Floresta é repleto de conceitos errados, indo totalmente contra a onda de subversão de ideias e valores que a Disney vinha trabalhando em produções como Frozen – Uma Aventura CongelanteMalévola. Enquanto no primeiro a mocinha da história descobria que o amor verdadeiro não precisa vir necessariamente de um homem, no segundo a vilã de A Bela Adormecida se humanizava e tinha seu outro lado da moeda revelado. Já em Caminhos da Floresta, se um personagem trai alguém, morre logo na cena seguinte (só se for uma mulher, claro). Na composição da família, o clã feminino serve só para cuidar dos filhos e faxinar. Quando começa uma batalha, os homens tomam as rédeas e as mulheres só ficam encolhidas embaixo da árvore sem qualquer utilidade. Se existe qualquer abordagem além desse sexismo, o filme vai a extremos: a ambição é algo descabido e caricatural como na personagem de Christine Baranski e a interessante superproteção de uma mãe em relação a filha vem apenas de uma bruxa velha e horrorosa. Tudo é um retrocesso gigantesco que em nada parece ter sido pensado para as plateias de hoje e, principalmente, para os padrões de conceitos que a Disney vinha quebrando.

O musical de Rob Marshall traz a sempre bem-vinda lógica de que é a música que deve guiar a história e não o inverso, mas nem isso ajuda Caminhos da Floresta a impressionar narrativamente. Tudo é muito antiquado (e não em um sentido de homenagem clássica, como poderia ser), com uma miscelânea de contos que curiosamente não instiga e muito menos se mostra prolífera em ideias. Encontrar Chapeuzinho Vermelho, João e seu pé de feijão, Rapunzel, a Bruxa, o Lobo Mau e tantas outras figuras icônicas não empolga em momento algum. Inclusive, agrupar todos em um mesmo filme deixa vários como coadjuvantes ou então figurantes (a pobre Rapunzel nada pode fazer além de dizer uma ou duas frases quando é trancafiada em casa pela mãe ou tentar chorar enquanto Meryl Streep arrasa com Stay With Me, uma das mais belas canções do repertório). O visual tampouco impressiona, dos figurinos à direção de arte – o que é um grande problema.

Em Caminhos da Floresta ainda existem dois filmes dentro de um: a partir do momento em que a trama se movimenta com o surgimento de uma gigante, a sensação é de que outro longa muito menos interessante se inicia, com conflitos bastante pobres, acontecimentos tratados com descaso (a morte de uma personagem sequer tem um pingo de dramaticidade) e obviamente o auge dos já comentados sexismos e moralismos. O elenco até que se esforça para segurar a barra e quem mais se garante entre os protagonistas é certamente a adorável dupla James Corden e Emily Blunt. Mas é fácil ver que Marshall também parece ter perdido o tino para dirigir atores (em Nine ele já desperdiçava Judi Dench e deixava Penélope Cruz fazer mais do mesmo, por exemplo) e aqui parece não ter estabelecido nenhum diálogo de criação com diversos atores, sendo o pior caso o de Chris Pine, que, além de ter o número musical mais vergonhoso da história (aquele em que canta Agony! na cachoeira), consegue ser incrivelmente canastrão em cada segundo de suas aparições.

Com esse acúmulo enorme de erros, só a presença de Meryl Streep já seria o suficiente para oxigenar Caminhos da Floresta em certas passagens.  Só que, independente do resto do filme, a atriz realmente ficou com as melhores músicas e os melhores momentos. Ela é o grande destaque do musical não só por ser uma cantora nata (desde criança já estava no mundo das artes fazendo aulas de canto), mas porque sua personagem é realmente a que tem o contexto mais marcante. Torcer por vilões já é fácil por si só e o que dizer, então, quando a antagonista da história é a personagem que tem o melhor arco? Não à toa, quando a Bruxa não está em cena, é bem provável que você se pegue ansioso por sua próxima aparição. Talvez seja Meryl a única responsável por nos dar força para continuar acompanhando Caminhos da Floresta até o final. Sem ela, este seria um dos musicais mais desastrosos em sabe-se lá quanto tempo. Novamente, Meryl veio para (quase) salvar o dia.