Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)
A thing is a thing, not what is said of that thing.

Direção: Alejandro González Iñárritu
Roteiro: Alejandro González Iñárritu, Alexander Dinelaris, Armando Bo e Nicolás Giacobone
Elenco: Michael Keaton, Edward Norton, Emma Stone, Naomi Watts, Amy Ryan, Zach Galifianakis, Andrea Riseborough, Merritt Wever, Jeremy Shamos, Clark Middleton, Lindsay Duncan, Catherine Peppers, Bill Camp, Joel Marsh Garland
Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance), EUA/Canadá, Drama, 119 minutos
Sinopse: No passado, Riggan Thomson (Michael Keaton) fez muito sucesso interpretando o Birdman, um super-herói que se tornou um ícone cultural. Entretanto, desde que se recusou a estrelar o quarto filme com o personagem sua carreira começou a decair. Em busca da fama perdida e também do reconhecimento como ator, ele decide dirigir, roteirizar e estrelar a adaptação de um texto consagrado para a Broadway. Entretanto, em meio aos ensaios com o elenco formado por Mike Shiner (Edward Norton), Lesley (Naomi Watts) e Laura (Andrea Riseborough), Riggan precisa lidar com seu agente Brandon (Zach Galifianakis) e ainda uma estranha voz que insiste em permanecer em sua mente. (Adoro Cinema)

Folheava as últimas crônicas de Sete Anos escritas por Fernanda Torres durante minha ida ao trabalho no dia em que conferiria Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância). Falando sobre o falecimento de Dercy Gonçalves, Fernandinha disse que veio dela o maior elogio que já recebeu na vida. “Tive a honra de tê-la na plateia de A Casa dos Budas Ditosos. Na saída, ela me disse que eu havia entendido que um ator não pode representar. ‘Ele deve ser’, afirmou ela. Ser ou não ser. Foi o maior elogio que eu já recebi”, conta. Voltando algumas páginas, porém, encontramos, em No Dorso Instável de Um Tigre, uma longa e prazerosa reflexão da autora sobre qual o verdadeiro ofício do ator. Ela afirma que um intérprete não teme o palco ou a plateia e sim perder o sentido da profissão. Que razão há em fingir ser ou outro? Ou melhor, como bem pergunta o primeiro ato de Hamlet, quem está aí? Que feliz coincidência do destino ter lido as reflexões de Fernanda Torres horas antes de Birdman. Afinal, tudo o que ela escreveu também está, com uma com grande escalada de genialidade e inovação, neste novo filme do mexicano Alejandro González Iñárritu. São duas obras que se complementam com perfeição.
Quem está aí, afinal? Birdman, o icônico super-herói de uma trilogia bilionária de décadas atrás ainda lembrada por público e crítica, ou simplesmente Riggan Thomson, ator que nunca conseguiu provar ser um verdadeiro ator depois desse personagem marcante e que hoje tenta reerguer a carreira com uma peça de teatro que ele próprio dirige, produz e protagoniza? Independente da resposta, o mais brilhante de Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) é a busca interior do protagonista por essa resposta. Ao longo de quase duas horas, o personagem vivido por Michael Keaton, contando os dias para a estreia de seu espetáculo, encontrará em cada situação e em cada conversa alguma reflexão que o induzirá a tal pergunta. Quem está aí? Mais do que isso, seria sua peça de teatro uma vaidade para mostrar à crítica de que ele realmente tem alguma relevância? Seria uma jornada pessoal para ele próprio se livrar da sombra de Birdman? Ou um auto-convencimento de que ele, talvez, apesar de várias tentativas, será sempre apenas aquele super-herói de cifras estratosféricas?
Se logo no início Alejandro González Inárritu nos faz crer que Birdman será um filme excessivamente teatral, seja em termos de texto ou da forma como realmente estrutura seu filme, logo a teoria vai por água abaixo com uma obra que só evolui cinematograficamente e que dá conta por completo de todo o mosaico de personagens e dilemas que desenvolve ao longo da trama. Não é só o Birdman/Riggan Thomson de Keaton que terá seus dramas esmiuçados, mas também a atriz interpretada por Naomi Watts que estará na Broadway pela primeira vez, o instável ator de Edward Norton que acaba se tornando o grande atrativo da peça em questão e a filha de Thomson que ainda está se acostumando com sua vida após uma temporada em uma clínica de reabilitação. Mesmo Amy Ryan, como a ex-esposa do protagonista, está repleta de nuances em suas breves duas cenas. Por isso, Birdman pode até ser sobre os bastidores de uma peça de teatro, uma crítica à indústria do cinema e um relato sobre arte e o fazer dela, mas também é um filme bem sucedido quando passa a falar sobre jornadas pessoais. E é no mínimo surpreendente saber que a precisão do roteiro vem de nada menos do que quatro cabeças (dando uma aula ao também recente Invencível, que reunia o mesmo número de roteiristas em um resultado quase desastroso).
Construído todo a partir de admiráveis planos-sequência (que, dizem, às vezes desviam a atenção da história), o longa de Iñárritu só ganha pontos com essa escolha. Além de trazerem um realismo único para o conjunto, explorando toda uma fluidez e intimidade com os personagens, os planos também são obviamente uma chance extra para os atores brilharem. O diretor mexicano nunca esteve tão inventivo e ambicioso, com ideias muitíssimo bem planejadas e executadas, além de seguro para orquestrar cada detalhe sem que Birdman se torne uma experiência pretensiosa. Iñárritu sempre foi ótimo diretor de atores (aqui não é diferente), mas nunca entregou uma obra tão completa em temática e técnica como essa. É o auge de sua carreira. Dos meros bastidores de um teatro às calçadas da Times Square, sua câmera, aliada a uma ótima fotografia de Emmanuel Lubezki e a uma trilha difícil mas inovadora de Antonio Sanchez, está sempre surpreendendo, do primeiro a ao último plano (o final com Emma Stone na janela é excepcional).
Mais do que toda a metalinguagem envolvendo o protagonista e o próprio Michael Keaton, Birdman tem momentos realmente emocionantes que são resultado de toda essa beleza vinda da precisão de Inárritu atrás das câmeras. A cena em que Riggan Thomson sai voando por Nova York é um deles. Fora isso, o elenco, em plena harmonia, dá o tom certo para cada personagem. Aliás, são todos personagens que procuram não a razão que existe em fingir ser o outro, mas a razão que existe em ser eles mesmos, em especial quando estão fora do palco. Quando não estão em cena, os personagens de Birdman se perdem. Mas talvez o filme de Iñárritu seja mesmo sobre libertação. Dos palcos, da vida, desse medo de procurar tanto ser alguém e esquecer de ser fiel a sua própria identidade. Quem está aí, afinal? Tomara que Fernanda Torres tenha gostado dessa obra-prima.
Caminhos da Floresta
Children can only grow from something you love to something you lose…

Direção: Rob Marshall
Roteiro: James Lepine, baseado em musical de autoria própria e de Stephen Sondheim
Elenco: Emily Blunt, James Corden, Meryl Streep, Anna Kendrick, Chris Pine, Johnny Depp, Christine Baranski, Tracey Ullman, Lilla Crawford, Daniel Huttlestone, Tammy Blanchard, Lucy Punch, Mackenzie Mauzy, Billy Magnussen, Joanna Riding
Into the Woods, EUA/Reino Unido/Canadá, 2014, Musical, 125 minutos
Sinopse: Um padeiro e sua mulher (James Corden e Emily Blunt) vivem em um vilarejo, onde lidam com vários personagens famosos dos contos de fadas, como Chapeuzinho Vermelho (Lila Crawford). Um dia, eles recebem a visita da bruxa (Meryl Streep), que é sua vizinha. Ela avisa que lançou um feitiço sobre o casal para que não tenha filhos, como castigo por algo feito pelo pai do padeiro, décadas atrás. Ao mesmo tempo, a bruxa avisa que o feitiço pode ser desfeito caso eles lhe tragam quatro objetos: um capuz vermelho como sangue, cabelo amarelo como espiga de milho, um sapato dourado como ouro e um cavalo branco como o leite. Eles têm apenas três dias para encontrar tudo, caso contrário o feitiço será eterno. Decididos a cumprir o objetivo, o padeiro e sua esposa adentram na floresta. (Adoro Cinema)

Rob Marshall sempre dá um jeito de voltar aos musicais. Entre filmes como Memórias de Uma Gueixa e Piratas do Caribe: Navegando em Águas Misteriosas, sempre existiu uma nova investida do diretor no gênero. Nenhuma de suas realizações, entretanto, conseguiu sequer chegar perto do prestígio e do suposto brilhantismo de Chicago, longa-metragem de estreia de Marshall nos cinemas que, inclusive, chegou a lhe render uma indicação ao Oscar de melhor diretor. Já não compartilho qualquer entusiasmo pelo musical estrelado por Renée Zellweger e Catherine Zeta-Jones (lá já era possível ver os defeitos que afundariam outros trabalhos do diretor como a excessiva teatralidade e os números ambientados praticamente todos em um mesmo ambiente), mas é consenso geral que sua filmografia nunca mais decolou depois desse projeto. Infelizmente Caminhos da Floresta, outra investida em musicais de Marshall, é mais uma prova – e talvez a mais contundente delas – de que Chicago realmente foi um golpe de sorte. Ou de que o diretor foi, desde sempre, uma farsa que sabe-se lá como o mundo comprou entusiasmadamente.
Adaptado do tradicional espetáculo homônimo tão popular nos Estados Unidos, Caminhos da Floresta se tornou a maior estreia de uma versão cinematográfica da Broadway no país, faturando 46 milhões de dólares somente no primeiro final de semana. Claro que o sucesso está aliado ao fato de que o filme também é da Disney, tem apelo infantil e ainda brinca com várias figuras dos contos de fada, mas as grandes referências vêm mesmo da origem teatral, já que Caminhos da Floresta já foi encenado por muitas gerações nas escolas estadunidenses. Não se engane, no entanto, ao pensar que este é um filme meramente de fantasia que reúne várias figuras clássicas como Rapunzel e Cinderela. Não. Caminhos da Floresta é obviamente um musical nato, de diálogos cantados e canções que estão longe de serem melódicas ou grudentas (Sweeney Todd e Os Miseráveis são os exemplares mais próximos conceitualmente deste filme no cinema recente). Ou seja, sente na poltrona com bastante paciência (caso você não curta o gênero) porque lá vem muita cantoria! Todas as referências de respeito, as possibilidades musicais e as ideias potencialmente criativas são, contudo, perdidas pela má direção de Marshall e pelo roteiro empoeirado de James Lepine (autor do espetáculo original ao lado de Stephen Sondheim).
Caminhos da Floresta é repleto de conceitos errados, indo totalmente contra a onda de subversão de ideias e valores que a Disney vinha trabalhando em produções como Frozen – Uma Aventura Congelante e Malévola. Enquanto no primeiro a mocinha da história descobria que o amor verdadeiro não precisa vir necessariamente de um homem, no segundo a vilã de A Bela Adormecida se humanizava e tinha seu outro lado da moeda revelado. Já em Caminhos da Floresta, se um personagem trai alguém, morre logo na cena seguinte (só se for uma mulher, claro). Na composição da família, o clã feminino serve só para cuidar dos filhos e faxinar. Quando começa uma batalha, os homens tomam as rédeas e as mulheres só ficam encolhidas embaixo da árvore sem qualquer utilidade. Se existe qualquer abordagem além desse sexismo, o filme vai a extremos: a ambição é algo descabido e caricatural como na personagem de Christine Baranski e a interessante superproteção de uma mãe em relação a filha vem apenas de uma bruxa velha e horrorosa. Tudo é um retrocesso gigantesco que em nada parece ter sido pensado para as plateias de hoje e, principalmente, para os padrões de conceitos que a Disney vinha quebrando.
O musical de Rob Marshall traz a sempre bem-vinda lógica de que é a música que deve guiar a história e não o inverso, mas nem isso ajuda Caminhos da Floresta a impressionar narrativamente. Tudo é muito antiquado (e não em um sentido de homenagem clássica, como poderia ser), com uma miscelânea de contos que curiosamente não instiga e muito menos se mostra prolífera em ideias. Encontrar Chapeuzinho Vermelho, João e seu pé de feijão, Rapunzel, a Bruxa, o Lobo Mau e tantas outras figuras icônicas não empolga em momento algum. Inclusive, agrupar todos em um mesmo filme deixa vários como coadjuvantes ou então figurantes (a pobre Rapunzel nada pode fazer além de dizer uma ou duas frases quando é trancafiada em casa pela mãe ou tentar chorar enquanto Meryl Streep arrasa com Stay With Me, uma das mais belas canções do repertório). O visual tampouco impressiona, dos figurinos à direção de arte – o que é um grande problema.
Em Caminhos da Floresta ainda existem dois filmes dentro de um: a partir do momento em que a trama se movimenta com o surgimento de uma gigante, a sensação é de que outro longa muito menos interessante se inicia, com conflitos bastante pobres, acontecimentos tratados com descaso (a morte de uma personagem sequer tem um pingo de dramaticidade) e obviamente o auge dos já comentados sexismos e moralismos. O elenco até que se esforça para segurar a barra e quem mais se garante entre os protagonistas é certamente a adorável dupla James Corden e Emily Blunt. Mas é fácil ver que Marshall também parece ter perdido o tino para dirigir atores (em Nine ele já desperdiçava Judi Dench e deixava Penélope Cruz fazer mais do mesmo, por exemplo) e aqui parece não ter estabelecido nenhum diálogo de criação com diversos atores, sendo o pior caso o de Chris Pine, que, além de ter o número musical mais vergonhoso da história (aquele em que canta Agony! na cachoeira), consegue ser incrivelmente canastrão em cada segundo de suas aparições.
Com esse acúmulo enorme de erros, só a presença de Meryl Streep já seria o suficiente para oxigenar Caminhos da Floresta em certas passagens. Só que, independente do resto do filme, a atriz realmente ficou com as melhores músicas e os melhores momentos. Ela é o grande destaque do musical não só por ser uma cantora nata (desde criança já estava no mundo das artes fazendo aulas de canto), mas porque sua personagem é realmente a que tem o contexto mais marcante. Torcer por vilões já é fácil por si só e o que dizer, então, quando a antagonista da história é a personagem que tem o melhor arco? Não à toa, quando a Bruxa não está em cena, é bem provável que você se pegue ansioso por sua próxima aparição. Talvez seja Meryl a única responsável por nos dar força para continuar acompanhando Caminhos da Floresta até o final. Sem ela, este seria um dos musicais mais desastrosos em sabe-se lá quanto tempo. Novamente, Meryl veio para (quase) salvar o dia.
O Oscar é de Eddie Redmayne

Estrela em ascensão, prêmio de moda na GQ, ensaio na Vanity Fair e na Elle, entrevistado de vários programas de audiência e – o principal, claro – um papel infalível para conquistar prêmios. É possível alguém bater a campanha e todos os fatores a favor de Eddie Redmayne na corrida ao Oscar?
Lá no início de dezembro de 2014, escrevi um post sobre como Julianne Moore já podia, antes mesmo do início da temporada de premiações, ser considerada a franca favorita ao Oscar de melhor atriz. A teoria deve mesmo se concretizar, já que Moore conquistou todos os grandes prêmios até agora como o Cricits’ Choice, o Globo de Ouro e o Screen Actos Guild Awards. Ninguém está em seu caminho. E, ao que tudo indica, o mesmo está acontecendo com o jovem Eddie Redmayne. Sua interpretação em A Teoria de Tudo, assim como a de Moore em Para Sempre Alice, também já era comentada antes dos prêmios começarem, mas de forma muito mais tímida em função de Redmayne ser um ator relativamente desconhecido. Com uma significativa vitória no SAG recentemente, derrotando o até então franco favorito à estatueta Michael Keaton, o jovem britânico agora já é quase uma aposta certa para o Oscar – e por razões que vão muito além da mera matemática.
Não escondo meu apreço pelo desempenho de Redmayne em A Teoria de Tudo e por ele próprio, mas, de qualquer forma, excetuando minha simpatia pelo ator, os fatos estão a favor dele. Tudo começa já com o papel infalível: o de um garoto brilhante que descobre ter uma doença degenerativa incurável responsável por atrofiar todo o seu corpo enquanto a mente permanece intacta. De bônus, a trama é baseada em uma famosa figura mundial (o físico Stephen Hawking). Junte a deficiência, a biografia e uma boa interpretação e o resultado é muito claro: você tem a fórmula perfeita para qualquer ator vencer o Oscar. O que poderia trabalhar contra Redmayne é o fato de ele ser “novato”, mas basta olhar a carreira do ator e sua idade para ver que não é de hoje que ele passa pelos nossos olhos. Sem falar que já tem outros projetos de ouro para o futuro (The Danish Girl, conforme mencionei no meu texto de A Teoria de Tudo). Ou seja, estrela em ascensão. E isso é irresistível. Jennifer Lawrence deve concordar.
O mais importante de tudo, no entanto, e talvez o que menos é levado em consideração pela maioria na hora de analisar o cenário de possibilidades, é a chamada “campanha”. Pode parecer tolo, mas o fato de Redmayne estampar a capa da Elle britânica, ser eleito o homem mais bem vestido do ano pela GQ (e estar na capa de várias versões internacionais da revista), ter um ensaio na tradicional Hollywood Issue da Vanity Fair (ao lado de Benedict Cumberbatch, onde ambos são saudados como as estrelas das maiores biografias da temporada) e comparecer a vários programas de entrevista como o popular talkshow de Ellen DeGeneres para divulgar o filme é simplesmente fundamental para que ele dispare na corrida. Quem não é visto não é lembrado. E, dos atores indicados ao Oscar este ano, ele é o que mais está aproveitando o momento. Mesmo não sendo o tipo galã ou muito menos que aparentemente pode interpretar todos os tipos de papeis devido a idade (tem 33 anos, mas parece um adolescente), é bem provável que um nome promissor esteja nascendo. Um nome para se acompanhar de perto.
O ator mais jovem a ganhar o Oscar de protagonista foi Adrien Brody, aos 29 anos, em 2002 com O Pianista. Se Brody, na época, foi uma alternativa lógica para a batalha de gigantes entre Daniel Day-Lewis por Gangues de Nova York e Jack Nicholson por As Confissões de Schmidt, não parece existir uma situação parecida este ano. Após a vitória no SAG, fica claro o prestígio do protagonista de A Teoria de Tudo com os seus colegas de profissão (nos últimos 10 anos, os vencedores deste prêmio de melhor ator se repetiram no Oscar e é complicado esse colegiado, que vota em peso no prêmio da Academia, mudar de ideia). Em termos de concorrência, Michael Keaton parece repetir bastante da situação de Mickey Rourke com O Lutador. Mesmo não tendo uma carreira decadente como Rourke, a Academia não deve nada a Keaton: ele nunca foi grande ator e, mesmo que esteja fantástico em Birdman, um desempenho não fala por si só, como já apontou Meryl Streep em várias ocasiões (ela foi outra que só foi ganhar um novo Oscar fazendo forte campanha). A celebração de Keaton parou no Globo de Ouro (antes ele tinha vencido vários prêmios em associações de críticos – o que nada significa, já que os votantes dos grandes prêmios são outros), e não dá sinais de se reavivar: é óbvio que o BAFTA também celebrará Redmayne no próximo domingo (08).
Recentemente, passou a se falar muito em uma possível vitória-surpresa de Bradley Cooper, mas como um ator venceria o Oscar sendo que a sua única indicação a qualquer prêmio na temporada foi… ao Oscar?! Isso já aconteceu com Marcia Gay Harden, em 2001, com Pollock, mas a situação era um tanto diferente pois aquela era uma fraude de categoria – e uma interpretação protagonista colocada em coadjuvante é sempre uma jogada esperta (Jennifer Connelly manda lembranças). E uma pergunta final: qual foi a última grande surpresa que vimos nas categorias de interpretação nos últimos anos? O Oscar não contraria mais a matemática (escrevi um pouco sobre isso tempos atrás para o blog Uma Dose de Cinema). Levando em consideração todos estes fatores, bem como os elencados para Julianne Moore, o Cinema e Argumento não tem maiores dúvidas: o Oscar já é de Eddie Redmayne.
Rapidamente

Jake Gyllenhaal pode até não ter conseguido uma indicação ao Oscar 2015 de melhor ator por O Abutre, mas, com esse filme, ele novamente reafirma a excelente fase que vive em uma carreira agora repleta de boas escolhas.
O ABUTRE (Nightcrawler, 2014, de Dan Gilroy): Jake Gyllenhaal não conseguiu uma indicação ao Oscar 2015 por sua interpretação em O Abutre, mas quem perde mesmo é a Academia por não ter reconhecido este que é, provavelmente, o melhor momento da carreira do ator. Cada vez mais envolvido com projetos diferentes e autorais, Gyllenhaal tem se aperfeiçoado e, neste filme de Dan Gilroy (sim, o irmão do já conhecido Tony, diretor de Conduta de Risco), dá até para dizer que ele é o responsável por trazer à trama um mistério e uma força que o conjunto todo não tem. Se O Abutre é um longa bem conduzido em termos técnicos e de direção – em especial nas cenas em que o protagonista filma acidentes ou assassinatos para vender a um programa televisivo – o mesmo entusiasmo não é compartilhado pelo roteiro, que justamente perde tempo demais na caçada de Lou Bloom (Gylenhaal) a fatos extraordinários para ganhar dinheiro do que em seus visíveis e por vezes amedrontadores problemas mentais. Por isso, quando O Abutre se concentra na dinâmica de Bloom com os personagens coadjuvantes que percebem seus distúrbios (destaque para o jantar com Rene Russo), o filme ganha uma complexidade que, caso fosse o foco da história, tornaria O Abutre uma experiência mais intrigante.
O AMOR É ESTRANHO (Love is Strange, 2014, de Ira Sachs): É bem diferente do que pode parecer este filme que traz Alfred Molina e John Lithgow como dois homens que mantém um relacionamento de décadas e finalmente podem/decidem oficializar a relação legalmente. Diferente porque O Amor é Estranho não é sobre dois homens já beirando os 70 anos que compartilham uma vida juntos, mas sim sobre as dificuldades financeiras deles e como ela faz com que ambos percam o apartamento e tenham que ficar separados durante algum tempo morando de favor na casa de amigos e parentes. Ou seja, decepciona como o filme de Ira Sachs não se dá conta de que os melhores momentos da história que escreveu em parceria com Mauricio Zacharias são justamente aqueles em que Molina e Lithgow – ambos levando os papeis com bastante dignidade e humanidade – estão juntos em cena. Só que O Amor é Estranho insiste em narrar suas vidas separadamente e em nada a trama parece preocupada em abordar a distância como fator dramático para o recém firmado casamento. Do jeito que ficou, o filme é apenas sobre dois homens interferindo o dia a dia dos outros, observando o cotidiano corriqueiro dessas pessoas e eventualmente se tornando empecilhos para elas. Uma chance desperdiçada.
O JUIZ (The Judge, 2014, de David Dobkin): Considerando os filmes lançados em circuito comercial no Brasil em 2014, O Juiz é a experiência mais aborrecida do ano ao lado de A 100 Passos de Um Sonho. A construção dos personagens já seria suficiente para justificar toda a previsibilidade do filme, mas o diretor David Dobkin dá razões de sobra para que o resultado transborde obviedades em todos os setores. Robert Downey Jr. interpretando o seu papel habitual de homem ácido e sarcástico é o menor dos problemas em uma história repleta de escolhas fáceis. Não existe nada de novo no retorno do filho que há anos não fala com o pai mas se vê obrigado a conviver com ele após uma tragédia pessoal. Também não instiga o velho arco dramático do senhor rabugento e irredutível que, óbvio, em algum momento vai se humanizar com uma doença terminal. Além do desperdício de bons nomes no elenco de suporte (Billy Bob Thornton, Vera Farmiga), O Juiz tem uma duração exagerada para uma história que se sustenta no julgamento de um crime perfeitamente corriqueiro e nada aberto a complexidades. São 140 minutos arrastados que fazem questão de sempre adicionar pitadas de clichês – e até mesmo de cafonices – em uma trama que por si só já pede desesperadamente por novidades.
Grandes Olhos
Eyes are the windows to the soul.

Direção: Tim Burton
Roteiro: Larry Karaszewski e Scott Alexander
Elenco: Amy Adams, Christoph Waltz, Krysten Ritter, Jason Schwartzman, Danny Houston, Terence Stamp, Jon Polito, Elisabetta Fantone, James Saito, Guido Furlani, Delaney Raye, Madeleine Arthur
Big Eyes, EUA/Canadá, 2014, Drama, 106 minutos
Sinopse: O drama apresenta a história real da pintora Margaret Keane (Amy Adams), uma das artistas mais comercialmente rentáveis dos anos 1950 graças aos seus retratos de crianças com olhos grandes e assustadores. Defensora das causas feministas, ela teve que lutar contra o próprio marido no tribunal, já que o também pintor Walter Keane (Christoph Waltz) afirmava ser o verdadeiro autor de suas obras. (Adoro Cinema)

Tim Burton precisava de um filme como Grandes Olhos. Após fracassar em qualidade com dois filmes consecutivos em live action (Alice no País das Maravilhas e Sombras da Noite), seria saudável ele abandonar um pouco as fantasias que tanto lhe marcaram e fincar os pés no chão. Às vezes tomar certa distância traz uma nova perspectiva, e Grandes Olhos pode até não ser um filme que vá repaginar a carreira de Burton ou muito menos que tenha um estilo que o diretor queira reproduzir futuramente, mas funciona como um bom exercício para alguém que necessitava urgentemente pensar fora de suas já conhecidas fronteiras. Tim Burton aceitou o desafio, dispensou Johnny Depp e Helena Bonham Carter (este é o seu primeiro filme desde Marte Ataca! em 1996 que não conta com nenhum dos dois atores no elenco) e resolveu fazer uma produção mais comedida em conceitos e tamanho, mostrando que, ao contrário do que anunciaram seus últimos filmes, ele ainda sabe contar histórias de forma satisfatória.
É curioso, contudo, como Grandes Olhos é de certa forma um diferencial para a carreira de Tim Burton mas não para os seus protagonistas Amy Adams e Christoph Waltz. Enquanto o diretor explora outros terrenos ao conduzir com agradável convencionalidade a história da pintora Magaret Keane e o seu casamento com o impostor Walter, Adams e Waltz fazem o mesmo de sempre, expondo os dois maiores problemas do filme: a errada escalação de elenco e a indiferente direção de atores. Livres em cena e sem maiores orientações, a dupla não traz nada de novo para seus respectivos repertórios, o que impede o espectador de realmente ver os personagens. Quem está em cena é a repetição de Amy Adams e Christoph Waltz. Enquanto ela segue com sua expressão chorona de voz mansa e seu papel de mulher ingênua facilmente enganável, ele, frequentemente descontrolado, prova que realmente não funciona com ninguém além de Quentin Tarantino. O tipo sarcástico com um eterno sorriso debochado no rosto criado pelo ator é o que existe de mais incômodo em Grandes Olhos.
Com uma boa fotografia de Bruno Delbonell e uma nova e interessante parceria com Danny Elfman na trilha sonora, Grandes Olhos é um filme linear conduzido sem maiores ousadias. O que torna a experiência agradável, por outro lado, é que essa previsibilidade do roteiro escrito pela dupla Larry Karaszewski e Scott Alexander não subestima a paciência do espectador. É um filme simples e ponto. E tem consciência disso. O que não permite que o filme de Tim Burton seja mais interessante, além da dupla protagonista em eterna repetição, é o fato da história se ater mais ao carisma (?) do marido pilantra que seduz a esposa a abandonar a autoria de seus quadros do que justamente às razões que fizeram Margaret comprar a proposta enganadora do marido. Ela era simplesmente tola? Para uma mulher divorciada nos anos 1950, não parecia ser. Mas infelizmente Grandes Olhos prefere ficar mais com a teatralidade cômica da interpretação de Christoph Waltz.
Em meio à convencionalidade, Tim Burton encontra espaço para aplicar controladamente algumas de suas referências sem que pareçam avulsas. O ponto alto é a ótima cena em que a protagonista vai ao supermercado e imagina todas as pessoas com os famosos grandes olhos que tanto pinta secretamente em suas telas. Assim, é correto dizer que este filme marca mais como uma oxigenação para a carreira até então em franca derrocada de Tim Burton do que propriamente como uma biografia linear e agradável. Em ambos os casos, entretanto, a interessante história de Margaret Keane é minada por seus atores. Bem como Adams e Waltz, volto a me repetir ao afirmar que Grandes Olhos, uma produção com basicamente tudo no lugar no que se refere a biografias convencionais mas satisfatórias, já ganharia uma roupagem completamente diferente com atores mais versáteis. Adams, que chegou a absurdamente vencer o Globo de Ouro 2015 de melhor atriz em comédia/musical quando concorria com uma impressionante Julianne Moore em Mapa Para as Estrelas, já provou em outros filmes que consegue se reinventar. O oposto acontece com Waltz, que, após ganhar dois Oscars (ambos justamente por filmes de Tarantino), tem se revelado, assim como o seu exagerado Walter Keane, uma verdadeira enganação.