Cinema e Argumento

O Garoto da Casa ao Lado

Let me love you, Claire!

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Direção: Rob Cohen

Roteiro: Barbara Curry

Elenco: Jennifer Lopez, Ryan Guzman, Kristin Chenoweth, John Corbett, Ian Nelson, Lexi Atkins, Hill Harper, Jack Wallace, Adam Hicks, François Chau, Bailey Chase, Kent Avenido, Travis Schuldt, Brian Mahoney, Raquel Gardner

The Boy Next Door, EUA, 2015, Suspense, 91 minutos

Sinopse: Após ser traída pelo marido, a professora Claire Peterson (Jennifer Lopez) está em vias de se divorciar. Ela vive sozinha com o filho adolescente, até perceber que um jovem acaba de se mudar para a casa ao lado. O sedutor Noah Sandborn (Ryan Guzman) rapidamente oferece ajuda nas tarefas da casa e se torna o melhor amigo do filho de Claire. Aos poucos, o vizinho passa a seduzi-la, levando a uma noite de amor entre os dois. No dia seguinte, a professora está decidida que tudo foi apenas um erro, mas Noah não pretende abandoná-la tão cedo. O caso de amor torna-se uma perigosa obsessão. (Adoro Cinema)

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Dizer que um filme é previsível está diretamente ligado com a bagagem da pessoa que faz tal afirmação. Se você considera algo óbvio é porque certamente já viu a mesma situação milhares de vezes – e mais: já deve ter visto também experimentos que servem como verdadeiras aulas sobre como escapar das armadilhas que afundam determinadas tramas em clichês e previsibilidades. Já Barbara Curry, a roteirista estreante de O Garoto da Casa ao Lado, não deve, no entanto, ter uma vida cinéfila muito dedicada, visto que seu trabalho para esse filme de Rob Cohen (Velozes e FuriososTriplo X) parece ser assinado por alguém que nunca viu sequer um suspense bobinho na vida. Para corroborar tal hipótese, listamos abaixo alguns elementos clássicos (no sentido ruim, claro) que estão amadoramente presentes no empoeirado O Garoto da Casa ao Lado:

a) Qual a necessidade de aprofundar personagens ao longo do filme? É melhor jogar tudo na tela de uma vez só

Nem bem o filme completou 10 minutos e todo o elenco de O Garoto da Casa ao Lado já foi apresentado com suas “personalidades” bem definidas. Da protagonista ao avô cadeirante do vizinho, os personagens já surgem com as suas personalidades escancaradas. Claire (Jennifer Lopez) é a professora bonitona carente, Noah (Ryan Guzman) é o novo vizinho cujos braços fetichizados com graxa e suor são mais atraentes para a câmera do que seu próprio rosto, Vicky (Kristen Chenoweth) é a melhor amiga engraçadinha que não tem vida pessoal e por aí vai… Acrescente à conta todo o histórico da nossa heroína condensado em diálogos incrivelmente simplistas e expositivos.

b) A protagonista está emocionalmente vulnerável

Não dá para fazer um suspense sem alguém viajando para curar uma mágoa ou buscando uma redenção. No caso de O Garoto da Casa ao Lado, Claire tenta superar a traição do marido, que dormiu com a secretária nove meses atrás. Ela ainda não assinou o divórcio, pois, no fundo, ainda gosta dele. O filho também é muito apegado ao pai, o que dificulta a situação. Mas não dá para apagar a traição da lembrança e Claire não consegue continuar com o marido assombrada por essa lembrança. Ela precisa de uma mudança na sua vida. E quem sabe o novo vizinho que acaba de se mudar para casa ao lado não pode ser o homem perfeito para mexer com a sua vida?

c) O novo pretendente é tudo aquilo que a protagonista precisava e o oposto de quem ela se relacionava

Se o marido de O Garoto da Casa ao Lado é um traidor, o vizinho é o romântico. Se o marido já é um homem de mais idade e de camisas sociais, o vizinho é o jovem sarado e irresistível de 20 anos que circula de regata. Os assuntos em um jantar já não são mais interessantes com o antigo cônjuge, enquanto com o novo interesse a paixão pela literatura é um belo afrodisíaco. O marido não soube preservar a família ao dormir com a secretária? Bom, o garoto ao lado se mudou para a cidade apenas para cuidar de seu avô doente. Tudo o que ela precisava! Clássico.

d) Os coadjuvantes basicamente não tem vida pessoal e servem apenas para morrer ou ouvir desabafos

O que a divertidíssima Kristen Chenoweth está fazendo nesse filme? Ela é um belo exemplo de um dos erros mais básicos dos filmes de suspense: a amiga sem personalidade e vida pessoal que serve apenas para dar conselhos à protagonista (Cissa Guimarães mandou lembranças aqui no Brasil). Faz uma piadinha aqui, outra ali, mas, no final das contas, não sabemos nada sobre sua personalidade. Enquanto isso, John Corbett vive o marido cuja missão é apenas aparecer insistentemente para dizer o quanto está arrependido e precisa do perdão da esposa. Nada mais. E o que dizer do avô do protagonista, que surge em duas cenas, sendo uma logo no início em uma cadeira de rodas e outra lá no final, onde está milagrosamente em pé perambulando pela casa só para dar um susto na protagonista?

e) As situações não prezam pela lógica e nunca aconteceriam na vida real

Como assim a protagonista transa com o tal vizinho e vira vítima de sua obsessão em silêncio? Tudo bem que ela não quer contar para o filho que dormiu com seu mais novo amigo ou muito menos arruinar sua carreira acadêmica, mas, espera… Será que essas desculpas são realmente suficientes quando o jovem se mostra cada vez mais psicopata colocando em risco a vida de todos? Não sei quanto a vocês, mas por mais que eu tenha cometido algum erro, prefiro não viver pensado que meus amigos e familiares podem por minha causa. E o que dizer, então, da cena em que Noah quase mata um aluno na frente de toda a escola (e da própria vice-diretora) e tudo o que ele ganha é… Uma expulsão? Ninguém denunciou essa tentativa de homicídio? 

f) A burrice dos personagens, o suspense óbvio e o clímax estapafúrdio completam a festa

Qual a primeira coisa que você pensa quando alguém joga gasolina em todo um ambiente com um isqueiro na mão? Empurrar essa pessoa? Para Claire, é claro que sim! É mais um detalhe tolo de O Garoto da Casa ao Lado que serve de suporte para cenas preguiçosas de suspense. Ah, e não pode faltar a protagonista deletando arquivos de um computador enquanto o vilão perigoso se aproxima da casa. Óbvio que, nesse exato momento, a lixeira vai demorar mais do que o normal para se esvaziar. É tudo preparação de terreno para aquele clímax espetaculoso, onde todos vão estar amarrados e confinados em um mesmo ambiente sob a ameaça do revólver do protagonista. Aí tem luta, gritos fogo, cortes, facadas, injeção no olho… E o final vocês devem deduzir sem maiores dificuldades.

Deixando de lado a brincadeira, O Garoto da Casa ao Lado realmente é um filme preguiçoso e conduzido sem qualquer senso de humor. Se você dá risada do que acontece, é involuntariamente – o que só comprova como o diretor Rob Cohen errou no tom empregado ao filme. Chega a assustar como é possível prever a consequência de cada ação da história, que em momento algum chega perto de ser um guilty pleasure. É a velha tentativa de reproduzir os méritos de Atração Fatal (e, para começo de conversa, aqui ninguém é uma Glenn Close da vida) que mais uma vez vai por água abaixo. Não funciona como diversão (mesmo que o filme se proponha a ser propositalmente tosco a piada já é velha) e basta apenas um passar de olhos no Facebook do seu celular após a sessão para já esquecer a sessão. Não vou ao cinema para isso. O Garoto da Casa ao Lado não mancha a carreira de ninguém – até porque toda a equipe não tem nada em jogo -, mas fica para aquela listinha de produções que servem para você definitivamente dar uma aula sobre como não se fazer um filme de suspense.

Rapidamente

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Vencedor do Oscar 2015 de melhor filme estrangeiro, o polonês Ida vai além da elegante fotografia e entrega uma história sutil sobre descobertas e transformações.

FORÇA MAIOR (Force Majeure, 2014, de Ruben Östlund): Em um mundo que se discute cada vez mais o papel do homem e da mulher a proposta de Força Maior cai como uma luva. Quando um pai de família foge ao ver uma avalanche vindo em direção ao hotel onde está de férias com sua esposa e filhos, deixando todos para trás, uma crise se instala no clã: afinal, o que cabia ao pai da família fazer nessa situação? Existia uma reação correta? Se sim, para quem? A discussão é pra lá de válida e esse filme sueco dirigido por Ruben Östlund tem várias cenas que pontuam questões importantíssimas sobre o que é esperado de um homem e de uma mulher em situações decisivas. O conflito, no entanto, é apresentado logo no início da projeção e todo o filme se sustenta a partir de reflexões resultantes desse acontecimento. E aí está o detalhe que parece limitar tanto Força Maior cinematograficamente: a história é mais uma longa (e quase interminável) discussão de relacionamento entre um casal do que propriamente uma obra completa e instigante em outros aspectos além do texto. Interessante e atual, mas talvez pare por aí.

IDA (idem, 2014, de Pawel Pawlikowski): Vencedor do Oscar 2015 de melhor filme estrangeiro, esse longa polonês entrou em cartaz no Brasil ainda em dezembro do ano passado, fazendo uma trajetória tímida por aqui até começar a temporada de premiações. Por mais que meu coração seja todo do argentino Relatos Selvagens, não dá para contestar os prêmios para o trabalho de Pawel Pawlikowski, que anteriormente havia dirigido Emily Blunt em Meu Amor de Verão e Kristin Scott Thomas em Estranha Obsessão. É admirável a disciplina que Pawlikowski imprime em sua direção sem nunca deixar que Ida se torne uma experiência fria ou distante. Basicamente um road movie sobre uma jovem que está prestes a fazer seus votos para se tornar uma freira e parte em uma viagem para descobrir um pouco mais sobre seus antepassados, Ida é filmado em um elegantíssimo preto e branco e sem uso de trilha sonora, estudando sutilmente as transformações e questionamentos da protagonista frente ao passado de sua família. Os contrastes desenhados a partir da relação entre a jovem Anna (Agata Trzebuchowska) e sua tia Wanda (Agata Kulesza, maravilhosa) são o ponto alto da obra, que frequentemente tem sua atenção roubada pela segunda. Menos difícil do que aparentava (o que é ótimo), Ida é bastante objetivo, mas nem por isso menos envolvente.

SIMPLESMENTE ACONTECE (Love, Rosie, 2014, de Christian Ditter): Tinha tudo para ser uma adorável comédia romântica com selo britânico dirigida a adolescentes, mas Simplesmente Acontece desaponta em todos os sentidos. Além da temática ultrapassada (os amigos que se gostam secretamente mas nunca confessam seus sentimentos), o filme dirigido por Christian Ditter tem um sério problema de ritmo e frequentemente descamba para o pastelão. Pior: utiliza ferramentas fáceis e amadoras para fazer com que o espectador torça para os protagonistas, como colocar novos pretendentes insuportáveis para cada um deles ao longo do filme. Sem no carisma da dupla protagonista e em sua própria execução, Simplesmente Acontece, portanto, apela para o exagero e para a caricatura quando precisa mostrar que o destino dos protagonistas é inevitavelmente um relacionamento amoroso entre eles – e não com as irritantes figuras que passam por seu caminho. No meio de tudo isso, há espaço também para alguns momentos constrangedoras (a camisinha perdida dentro da vagina, a corrida até a escola com um pedaço da cama presa ao braço algemado) e outras bastante questionáveis (será mesmo que a amizade dos dois é realmente tão forte a ponto da garota esconder a todo custo do amigo a sua gravidez e o filho recém nascido?). Interminável, Simplesmente Acontece é aborrecido, previsível e frequentemente desonesto com o espectador. Precisamos torcer por uma química genuína e não porque o filme quer nos obrigar a isso forçando a barra com situações e personagens extremados.

Dívida de Honra

I live uncommonly alone.

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Direção: Tommy Lee Jones

Roteiro: Kieran Fitzgerald, Tommy Lee Jones e Wesley A. Oliver, baseado no romance “The Homesman”, de Glendon Swarthout

Elenco: Hilary Swank, Tommy Lee Jones, Grace Gummer, Miranda Otto, Sonja Richter, Hailee Steinfeld, Meryl Streep, John Lithgow, James Spader, Jo Harvey Allen, Barry Corbin, David Dencik, William Fichtner, Evan Jones, Caroline Lagerfelt, Jesse Plemons

The Homesman, EUA/França, 2014, Western, 122 minutos

Sinopse: 1854. Por mais que seja forte e independente, Mary Bee Cuddy (Hilary Swank) guarda uma profunda mágoa devido à solidão que sente. Ela precisa levar três mulheres insanas até o Iowa, onde poderão viver em paz. No caminho ela encontra George Briggs (Tommy Lee Jones), um criminoso que tem sua vida salva por Mary Bee. Em retribuição, ele segue viagem ao lado dela e a ajuda em sua jornada. (Adoro Cinema)

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Poucos gêneros morreram tanto com o passar dos anos quanto o western. Pelo menos na safra mais recente do cinema é preciso forçar a memória para lembrar de exemplares deste nicho. E o pior: mais difícil ainda é se recordar de westerns recentes de grande qualidade. Uma vez ou outra surge uma diversão descompromissada como Os Indomáveis, mas é quase raro encontrar produções do gênero, que teve seu último momento realmente excepcional em 1992 com Os Imperdoáveis, de Clint Eastwood. Surpreendentemente, o western é agora oxigenado por Tommy Lee Jones com Dívida de Honra, um filme sensível, envolvente e bastante subversivo. Mesmo fracassando nas bilheterias estadunidenses (faturou apenas pouco mais de dois milhões de dólares), merece lugar cativo na agenda de todos os apreciadores do gênero e do cinema em geral.

Se a tarefa de elencar westerns recentes já é complicada, o que dizer, então, de um estrelado por uma mulher? Dívida de Honra, além de ser não ser centrado em uma figura masculina, inova por ter uma forte veia feminista. Em terras predominadas por homens, Mary Bee Cuddy (Hilary Swank, ótima) é uma mulher que foge dos padrões de seu tempo e espaço: com mais de 30 anos, é solteira e não tem filhos, administrando sozinha uma propriedade. Se deseja um casamento, não é por convenções sociais, e sim para preencher uma solidão que já a assombra há anos. Assim, as paisagens desérticas do filme dirigido por Tommy Lee Jones são mais do que apropriadas para ilustrar a vida da protagonista que, mais uma vez subvertendo as expectativas de uma sociedade, topa abraçar uma missão rejeitada covardemente por todos os homens da região: a de atravessar milhas até Iowa para levar três mulheres repudiadas pela cidade após surtos de loucura (uma delas por ter perdido três filhos em uma semana para a difteria, por exemplo) a um lugar onde possam ser devidamente tratadas e viver em paz.

Mary Bee Cuddy encontra no caminho George Briggs (Jones), que passa a ser seu companheiro na tal jornada, mas, mesmo quando não está em cena, a personagem permanece com o espectador. É resultado da presença marcante de uma mulher repleta de dúvidas como todos nós, mas forte e a frente de seu tempo. Ou seja, os holofotes de um western estão em uma mulher e só por isso Dívida de Honra, integrante da mostra competitiva do Festival de Cannes de 2014, já não merecia amargar fracasso ou muito menos esquecimento. O filme em si também é realmente muito bom, optando por deixar o bangue bangue ou as corridas a cavalo de lado para se focar na relação que se estabelece entre os dois protagonistas. A ambientação e as possibilidades de um western, portanto, servem justamente para falar sobre pessoas. O contraste entre Briggs e Cuddy (ele, apesar de mais experiente, não tem o pulso firme dela) ainda é fundamental para manter o interesse na história, ao mesmo tempo que Dívida de Honra ganha pontos em sua sustentação pela questão da loucura: como percorrer milhas em paisagens solitárias carregando três mulheres instáveis, surtadas e imprevisíveis?

Por mais que carregue sua dose de tensão em função de toda a circunstância dos protagonistas, o filme de Jones tem seus melhores momentos mesmo na relação e nas discretas transformações dos personagens. Dívida de Honra cumpre com louvor o mais básico conceito de um road movie: a de que nunca chegamos ao final da estrada da mesma forma que entramos nela. Com um excelente design de produção e uma bonita trilha sonora (é Marco Beltrami voltando ao mundo dos westerns com algo bastante diferente de Os Indomáveis), o longa pode não ter o desfecho mais revelador ou impactante como se poderia esperar, mas toda a construção até lá é riquíssima, sempre de forma sóbria e sem exposições escancaradas. Solenemente ignorado na temporada de premiações (nem uma esperada indicação a melhor atriz para Hilary Swank se concretizou), Dívida de Honra parece não ter sido compreendido muito bem nem pela crítica. Porém, assim como Mary Bee Cuddy, merece quebrar barreiras e ser lembrado com carinho por aqueles que o encontrarem.

Dois Lados do Amor

He went soft. I stayed hard. That was that.

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Direção: Ned Benson

Roteiro: Ned Benson

Elenco: Jessica Chastain, James McAvoy, Isabelle Huppert, Viola Davis, William Hurt, Ciarán Hinds, Bill Hader, Jess Weixler, Nina Arianda, Nikki M. James, Wyatt Ralff, Jeremy Shamos, Daron Stewart, June Miller, Julee Cerda, Johnathan Fernandez, Justine Salata

The Disappearance of Eleanor Rigby: Them, EUA, 2014, Drama, 123 minutos

Sinopse: Nova York, Estados Unidos. Connor Ludlow (James McAvoy) e Eleanor Rigby (Jessica Chastain) são casados, mas a incurável dor de um trágico acontecimento a faz deixar repentinamente o marido e a vida que levava até então. Enquanto ela tenta recomeçar e busca novos interesses, ele tenta reencontrar o amor desaparecido e entender o que de fato aconteceu. (Adoro Cinema)

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Certa vez li que Namorados Para Sempre é um filme que não funciona porque simplesmente é impossível se importar com um casal que já começa um filme separado. Tal afirmação é de uma tolice tremenda. Ora, desde quando precisamos acompanhar de forma linear todos os passos de uma cartilha romântica para que possamos nos importar com dois personagens? E será mesmo que, na desconstrução de um relacionamento, não conseguimos encontrar as forças que uniram duas pessoas? Sou um grande fã de histórias românticas que não deram certo e muitas delas (que não vou citar aqui para não estragar a surpresa de quem não as conferiu) ganham um lugar especial exatamente porque se aproximam da vida e mostram que as memórias pós-separação podem tornar momentos pregressos ainda mais significativos. Seguindo essa linha, Dois Lados do Amor (mais uma tradução brasileira equivocada e oportunista) evoca novamente a abordagem para falar sobre duas pessoas que vivem jornadas individuais em busca de um recomeço.

Concebido como um filme de duas partes, Dois Lados de Amor chegou a ser exibido comercialmente nos Estados Unidos com esse formato, onde cada um dos volumes explorava mais a percepção de um personagem do que de outro. A versão que chega ao Brasil, entretanto, condensa tudo em um longa de duas horas, também exibida no Festival de Cannes do ano passado. Não existem prejuízos nessa escolha, pois Dois Lados do Amor é bem sucedido ao se focar muito mais na versão de Eleanor (Jessica Chastain) do que na de Connor (James McAvoy). Isso porque ela tem os dilemas mais envolventes, trazendo a história de uma jovem que, após o afastamento, é salva de uma tentativa de suicídio. Figuras femininas por si só normalmente já se destacam em dramas dessa natureza, mas aqui o texto está a favor de Jessica Chastain, especialmente quando o diretor Ned Benson coloca em seu núcleo atores do calibre de Isabelle Huppert, William Hurt e Viola Davis, todos coadjuvantes com pelo menos algum tenro significado na trajetória de recuperação emocional da protagonista.

O início de Dois Lados do Amor pode facilmente enganar e fazer jus a sua equivocada tradução brasileira. Apostando em um tom popular, a história começa mostrando o casal protagonista em um dos maiores clichês de histórias românticas: a divertida fuga do restaurante quando ambos, recém descobrindo as alegrias de uma nova paixão, percebem que estão sem dinheiro para pagar a conta. Mas é apenas questão de tempo para que o tempo avance e encontremos duas pessoas distantes, de vidas separadas e que tentam encontrar algum tipo de recomeço. Aos poucos descobrimos que a tristeza que permeia a vida de Eleanor e Connor é muito mais complexa do simplesmente não terem dado certo como um casal. A partir do roteiro que ele próprio escreveu, o diretor Ned Benson, porém, não faz com que seus personagens explodam em cena ou teçam longos diálogos sobre culpas e arrependimentos. O que existe em Dois Lados do Amor é um tom pausado e melancólico para que adentremos ainda mais no emocional dos dois protagonistas.

Ainda que permeado por uma grande melancolia e um tratamento bastante intimista sobre os reflexos de um rompimento, o longa não chega, por exemplo, ao peso de Alabama Monroe, considerando histórias mais recentes sobre relacionamentos desconstruídos ou acometidos por uma tragédia. De certa forma isso chega a ser um alento (difícil algum filme superar a dor daquele longa sueco), mas não pense que Benson se exime de dar uma devida carga de intensidade ao resultado. A diferença é que aqui ela está focada muito mais nos pequenos momentos, onde Dois Lados do Amor prefere mastigar o mínimo possível para deixar a dor muito mais como uma atmosfera indissipável na vida dos personagens do que como algo escancarado. É nesse silêncio de conversas que sugerem ser sobre assuntos cotidianos mas que na realidade significam muito mais que a experiência se torna tão reflexivo.

A venda errada aqui no Brasil não deve ajudar essa obra atípica e preocupada em mostrar sobre como se sobrevive ou não a uma separação (e a outras tragédias pessoas também). O amor está ali sim, mas fatigado, dolorido e como apenas uma (boa?) memória que hoje já não parece fazer mais tanto sentido. É uma história bem contada, com excelentes atores (James McAvoy se sai bem e continua sendo um dos atores mais subaproveitados da atualidade, ao passo que o ponto alto fica mesmo na atuação de Jessica Chastain) e que não merecia ser disseminada com um viés que simplesmente não é o foco. Se o resultado cru já não é facilmente palatável para muitas plateias, imaginem, então, com as ideias erradas que a distribuidora adotou para levar o filme às salas. Já para quem souber onde está embarcando, certamente essa será uma experiência bastante diferente e recompensadora.

Annie

I’m putting on my best show under the spotlight.

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Direção: Will Gluck

Roteiro: Aline Brosh McKenna e Will Gluck, baseado nos desenhos “Little Orphan Annie” e no texto teatral homônimo de Thomas Meehan

Elenco: Quvanzhané Wallis, Jamie Foxx, Cameron Diaz, Rose Byrne, Bobby Cannavale, David Zayas, Adewale Akinnuoye-Agbaje, Zoe Margaret Colletti, Nicolette Pierini, Eden Duncan-Smith, Amanda Troya, Dorian Missick, Tracie Thoms

EUA, 2014, Comédia/Musical, 118 minutos

Sinopse: Annie (Quvenzhané Wallis) é uma jovem órfã que vive em um orfanato comandado com mão de ferro pela senhora Hannigan (Cameron Diaz). Sua vida muda ao ser escolhida para passar alguns dias na mansão de um milionário político (Jamie Foxx), onde acaba fazendo amizade com seus funcionários e sendo usada para fins eleitoreiros. (Adoro Cinema)

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Will Gluck é um diretor que sabe dialogar com o grande público. Ao criar obras previsíveis e até mesmo manjadas mas devidamente agradáveis, Gluck construiu certa linearidade em sua carreira com filmes como Amizade ColoridaA Mentira. É só você não exigir muito dele que a diversão está garantida. Por isso, ele parecia ser o nome certo para comandar a nova versão cinematográfica Annie, espetáculo da Broadway já adaptado anteriormente para o cinema em 1982 e para a TV em 1999. A teoria é endossada pelos primeiros minutos de filme, onde acompanhamos a protagonista Annie (Quvanzhané Wallis) em seu último dia de aula antes das férias cantando nas ruas de Nova York e no apartamento onde mora com suas amigas órfãs sob a tutela de uma impostora (Cameron Diaz). As passagens são repletas de graça e inocência, com uma linguagem que teria colocado Annie, anos atrás, como um verdadeiro clássico infantil da Sessão da Tarde. Tudo funciona até. Já quando o filme começa a construir uma história, o jogo inverte por completo.

Seria maravilhoso ver Annie se tornar uma fábula contemporânea para os pequenos, que estão cada vez mais carentes de obras populares com pequenas mas importantes lições. Também seria um alento curtir um musical descontraído, leve e inocente ao estilo Hairspray – Em Busca da Fama. Tudo isso era possível em Annie, mas é curioso ver como Gluck acerta no tom empregado em sua direção mas peca demais na adaptação do texto feita em parceria com Aline Brosh McKenna (cujo trabalho mais célebre no cinema foi o roteiro de O Diabo Veste Prada). A refilmagem, toda embalada para dar certo, frustra com um conteúdo frágil demais para sustentar a atenção de qualquer pessoa. Na jornada da garotinha órfã em busca dos pais que esbarra na vida de um candidato a prefeito (Jamie Foxx) sedento por uma novidade para impulsionar sua campanha, não existem grandes originalidades. O problema, porém, não é a ausência delas, mas sim a falta de consistência da história, que resulta vazia e desinteressante. 

Fora as transformações óbvias ou repentinas dos personagens,  pouco acontece em Annie – e isso é um verdadeiro problema para um longa de quase duas horas que pede ao espectador que compre a ingenuidade de uma trama infantil e, principalmente, toda a cantoria de um musical. Haja paciência. Com as situações rasas, a fragilidade se estende, infelizmente, ao lado musical, que não chega a ter canções particularmente empolgantes. Claro que aqui estamos falando de um musical que, mesmo tendo que conquistar os ouvidos (principalmente dos pequenos), utiliza a música basicamente como uma ferramenta narrativa, mas, dada a falta de força da história, a sensação é que os atores começam a cantar simplesmente do nada – e o pior: sobre trivialidades, com destaque para o tedioso dueto de Wallis e Foxx admirando Nova York em um voo de helicóptero.

Quem Annie pensou que agradaria com esse resultado? Os pequenos? Certamente não, pois o filme não chega a ser um passatempo infantil de bom ritmo para prendê-los frente à tela. Os adultos? Muito menos, pois para eles fica ainda mais evidente as a ausência de uma história interessante. Em termos de elenco, os atores também não ajudam: se a pequena Quvanzhané Wallis tem a graça necessária para o papel que nada exige além da já esperada naturalidade para alguém de sua idade, o resto do elenco sofre com uma das piores interpretações da carreira de Cameron Diaz (achando que, para interpretar uma vilã, precisa de infinitas caras e bocas – uma decisão que lhe valeu uma merecida indicação ao Framboesa de Ouro de pior atriz coadjuvante) e com a habitual repetição de Jamie Foxx, que, fora Django Livre, pouco fez de relevante em sua carreira depois do Oscar por Ray.

Frustra Annie alcançar esse resultado completamente irregular porque que existe um realizador ideal atrás das câmeras para uma história como essa. Dessa vez, no entanto, Will Gluck não colheu bons frutos: o musical não fez sucesso nos Estados Unidos (mesmo sendo um espetáculo bem sucedido na Broadway), foi lembrado entre os indicados do Framboesa de Ouro como pior remake e aqui no Brasil passou completamente despercebido pelas salas de cinema (decepcionando também a própria distribuidora, que resolveu lançar o filme apenas com cópias dubladas, em uma clara intenção de alcançar o grande público). Mereceu o fracasso. Aguentar uma história tão frouxa permeada por canções que pouco acrescentam narrativamente ou como diversão para os ouvidos é complicado. Uma chance desperdiçada.