A Teoria de Tudo
I did my best.

Direção: James Marsh
Roteiro: Anthony McCarten, baseado no livro “Travelling to Infinity: My Life with Stephen”, de Jane Hawking
Elenco: Eddie Redmayne, Felicity Jones, David Thewlis, Emily Watson, Maxine Peake, Simon McBurney, Thomas Morrison, Michael Marcus, Eileen Davies, Christian McKay, Guy Oliver-Watts, Charlotte Hope, Alice Orr-Ewing
The Theory of Everything, Reino Unido, 2014, Drama, 123 minutos
Sinopse: Baseado na biografia de Stephen Hawking, o filme mostra como o jovem astrofísico (Eddie Redmayne) fez descobertas importantes sobre o tempo, além de retratar o seu romance com a aluna de Cambridge Jane Wide (Felicity Jones) e a descoberta de uma doença motora degenerativa quando ele tinha apenas 21 anos. (Adoro Cinema)

Logo quando terminaram as filmagens de A Teoria de Tudo, Eddie Redmayne, ao consultar seu osteopata (o profissional de medicina alternativa que cuida de problemas da coluna vertebral), recebeu a notícia de que o alinhamento de sua espinha dorsal havia sofrido significativas alterações. O motivo? A dedicação de Redmayne em tentar reproduzir toda a condição física de Stephen Hawking, astrofísico cuja vida é encenada neste A Teoria de Tudo. Tal empenho lhe rendeu esta sequela que, segundo o ator, vem de um perfeccionismo profissional que ele mesmo não considera saudável. Prova disso é a decisão de Redmayne em, pelo menos nos últimos dias de filmagens, permanecer com a mesma posição contorcida e atrofiada em cima de uma cadeira de rodas durante todos os takes. Assim, para toda a equipe de A Teoria de Tudo, ele era de fato Stephen Hawking. E o ator pode ficar tranquilo: sua obsessão não tão saudável em busca da perfeição está plenamente reproduzida na tela com um desempenho que eleva o filme de James Marsh a uma emoção genuína que muitas vezes falta à história em si.
Não tão jovem como pode parecer (recentemente completou 32 anos), Eddie Redmayne já cultiva uma boa carreira como intérprete independente. No teatro, conquistou um Tony como ator convidado pelo espetáculo Red. No cinema, já foi o filho de Julianne Moore no polêmico Pecados Inocentes, apaixonou-se por Marilyn Monroe ao mesmo tempo que narrava seus breves dias de verão com ela em Sete Dias Com Marilyn e teve pequenos papeis coadjuvantes em longas de época como A Outra e Elizabeth – A Era de Ouro. Porém, foi recentemente que o britânico começou a alçar voos mais altos, especialmente em Os Miseráveis, onde, como o revolucionário Marius Pontmercy, conseguia se destacar com uma bela voz, uma presença repleta de carisma e até mesmo um momento emocionante ao fim do filme (aquele em que canta Empty Chais at Empty Tables). Mas a chance de sua carreira veio mesmo agora com A Teoria de Tudo, onde Redmayne, fora a impecável reprodução da esclerose lateral amiotrófica de Hawking, constrói com delicadeza um personagem que, mesmo enfrentando tantos infortúnios, nunca deixou de ver o lado bom da vida.
Ao mesmo tempo em que o ator impressiona com ao emular a doença de Hawking, A Teoria de Tudo também se beneficia com isso, já que é fácil simpatizar e torcer por este protagonista que tanto amou a sua companheira Jane (Felicity Jones, a primeira escolha para o papel) e sempre quis ganhar o mundo com uma diferenciada carreira profissional. Entretanto, a deficiência, para a dramaturgia (em especial o cinema), é um campo minado: se, por um lado, o filme já ganha pontos, adeptos e eventuais lágrimas por contar uma história de degradação física repleta de superação, por outro pode se perder conceitualmente ao sucumbir à irresistível tentação de abusar da doença para emocionar, esquecendo, em prol disso, outros assuntos infinitamente mais interessantes do que a enfermidade. É o que basicamente acontece com A Teoria de Tudo, que, ao invés de, por exemplo, mergulhar mais fundo na jornada também heroica de Jane ao ter permanecido com Stephen em uma juventude que poderia ter tomado rumos bem diferentes (e menos sofridos), prefere mostrar frequentemente o protagonista percebendo sua perda motora ao não conseguir mais realizar simples movimentos cotidianos, como pegar um garfo ou subir as escadas.
Ao contrário do que sugeria, é na inevitável derrocada física de Stephen Hawking que A Teoria de Tudo concentra a maior parte de sua atenção. Com isso, aspectos dramáticos importantes são mostrados corriqueiramente – ou, então, de forma exageradamente acelerada. O casamento, os filhos (incluindo aqueles que Jane e Stephen tiveram quando ele movia praticamente só a cabeça!) e a escalada profissional do protagonista são alguns dos tópicos que o filme infelizmente não chega a esmiuçar. Por isso, quando dizem que Stephen já é conhecido mundialmente, acreditamos porque determinado personagem diz e não porque acompanhamos suas vitórias. Outro fato extraordinário em possibilidades dramáticas é tratado com certo descaso: o do astrofísico ter recebido um diagnóstico desesperançoso de apenas dois anos de vida. Como sabemos, Stephen vive até os dias de hoje (ele já passa da casa dos 70 anos!), e sua a vitória ao ter superado qualquer expectativa negativa da doença parece não ser algo que tenha interessado o roteirista Anthony McCarten, que escreveu o longa com base no livro Travelling to Infinity: My Life with Stephen, de autoria da própria Jane Hawking.
À parte tais frustrações, A Teoria de Tudo é o típico filme inglês com história redonda e produção sofisticada. Para o bem e o para o mal, não existem maiores reviravoltas ou inventividades neste longa tradicional feito para agradar a todos e que deverá ser relativo sucesso de público aqui no Brasil. A razão é muito simples: com uma linda trilha sonora do islandês Jóhann Jóhannsson, é uma produção feita para emocionar (mas sem maiores apelações e com uma certa dose de elegância) em função da trajetória de superação de seu protagonista e, claro, do relacionamento entre ele e a esposa. Hawking, inclusive, aprovou o resultado e, após assistir ao filme, escreveu um e-mail para o diretor James Marsh dizendo que a fidelidade da obra foi tanta que, em determinados momentos, tinha a sensação de que estava vendo a si mesmo na tela.
Ainda que por vezes esticado demais, A Teoria de Tudo tem consciência de que é na figura de Redmayne que se concentra a sua maior força – talvez até demais, o que, em dados momentos, não deixa de limitar a criação do ator, que parece ter apenas a deficiência de Hawking para poder desenvolver em cena (e, nesse sentido, volta a questão de que seria mais interessante ter acompanhado outros momentos de sua vida, em especial a juventude, retratada de forma tão encantadora mas breve). Mas Redmayne sai plenamente inabalado, deixando uma forte impressão no espectador e a certeza de que, mais do que nunca, é um nome para ser acompanhado. Portanto, se dramaticamente A Teoria de Tudo não consegue criar lições mais consistentes e desenvolver emoções com grande criatividade (talvez fruto da veia bastante documental do diretor James Marsh, vencedor do Oscar 2009 de melhor documentário com O Equilibrista), pelo menos acertou ao se entregar ao talento de seu intérprete. Na agenda do ator, mais um projeto promissor já está em andamento: The Danish Girl biografia dirigida por Tom Hooper que mostra a vida do pintor dinamarquês Einar Wegener, o primeiro homem que, ao que tudo indica, foi o primeiro a fazer uma cirurgia de troca de sexo no século XX. Ao que tudo indica, Redmayne veio realmente para ficar.
Invencível
If you can take it, you can make it.

Direção: Angelina Jolie
Roteiro: Joel Coen, Ethan Coen, Richard LaGravenese e William Nicholson, baseado no livro “Unbroken: A World War II Story of Survival”, de Laura Hillenbrand
Elenco: Jack O’Connell, Domhnall Gleeson, Garrett Hedlund, Takamasa Ishihara, Finn Wittrock, Jai Courtney, Maddalena Ischiale, Vincenzo Amato, John Magaro, Luke Treadaway, Louis McIntosh, Ross Anderson, C.J. Valleroy
Unbroken, EUA, 2014, Drama, 137 minutos
Sinopse: O drama retrata a história real do atleta olímpico Louis Zamperini (Jack O’Connell), que sofre um acidente de avião e cai em pleno mar. Ele luta durante 47 dias para reencontrar a terra firme e quando consegue é capturado pelos japoneses em plena Segunda Guerra Mundial. (Adoro Cinema)

Existe um grande avanço de proporções e credibilidade envolvendo o fator Angelina Jolie na produção de Invencível. A atriz, que estreou na direção de longas-metragens de ficção em 2011 com Na Terra de Amor e Ódio, tem desacelerado sua carreira como atriz para se dedicar cada vez mais a causas humanitárias e ao relato de histórias que de alguma forma lhe encantam. De 2011 para cá, sua posição de diretora parece ter se consolidado, já que Invencível reúne muitos nomes consagrados do cinema. Do roteiro escrito a oito mãos pelos irmãos Coen, Richard LaGravenese (As Pontes de Madison) e William Nicholson (Gladiador) ao trabalho de fotografia do mestre Roger Deakins e de trilha sonora do francês Alexandre Desplat, o novo filme dirigido por Jolie, porém, sequer aproveita os talentos envolvidos com o projeto. Não adianta ter cacife para juntar as pessoas certas se a coordenação é errada. Por isso, ao final, invencíveis mesmo se tornam os espectadores por terem resistido a este longa convencional, cansativo, repetitivo e sem personalidade.
Explorando um pouco mais o seu fetiche com torturas, Angelina Jolie dessa vez aumenta a quantidade de violência em tempos de guerra com Invencível. Se no péssimo Na Terra de Amor e Ódio ela já demonstrava um certo masoquismo infundado com a relação entre torturados e torturadores, aqui a situação piora, com a diretora ambientando quase metade de seu longa em campos de detenção onde japoneses maltratam os estadunidenses durante praticamente 24 horas por dia – e durante longos minutos da história. Antes fosse a tortura uma ferramenta para engrandecer a heroica resistência do protagonista Louis Zamperini (Jack O’Connell, em bom desempenho), mas Invencível se utiliza apenas do choque pelo choque nas sequências envolvendo torturas, sem qualquer efeito dramático além, claro, do óbvio impacto visual das cenas físicas. É nesta eterna repetição de mostrar o sofrido dia a dia de Zamperini em terras inimigas que o filme se perde por completo, tornando-se incrivelmente arrastado e redundante.
Não fica muito evidente a razão que levou Angelina Jolie a ter se envolvido com esta história, especialmente quando ela, tão humanitária, faz um retrato unidimensional da trajetória do protagonista (e, aliás, por que só a história dele é heroica e também não a do seu amigo que passou basicamente pelas mesmas situações mas é esquecido ao longo da trama?). Em Invencível, mocinhos e vilões são perfeitamente identificáveis: enquanto os estadunidenses são os indefesos injustiçados, os japoneses são os crueis irracionais. Clint Eastwood sabe bem o poder de contar uma história abordando os dois lados da moeda (A Conquista da Honra e, principalmente, Cartas de Iwo Jima são exemplares nesta abordagem), mas Jolie parece não ter aprendido nada quando trabalhou com o veterano diretor em A Troca, fazendo de Invencível um filme sem qualquer complexidade em termos de guerra ou suas possibilidades dramáticas. Uma história como a de Louis Zamperini já é meio caminho andado rumo aos certos, mas o roteiro não está muito preocupado em ir além do óbvio – o que contradiz totalmente a chamada do longa, que promete contar uma história inacreditável.
Os erros de Invencível, contudo, começam já em seus primeiros momentos. É certo que a sequência inicial envolvendo um confronto aéreo é dotada de certa tensão, mas logo o filme começa a inexplicavelmente ir e voltar no tempo. Inexplicavelmente porque não existe sentido em se utilizar dessa ferramenta por duas razões bastante básicas: a) ela – ao contrário do também recente Livre, que se estrutura inteiramente de forma bem sucedida a partir de idas e vindas no tempo – não é uma tática que pontuará o filme, pelo contrário: não demora muito para que essa escolha seja abandonada; e b) construir este início de forma não linear sequer auxilia com que o presente do protagonista ganhe mais emoção ou seja melhor compreendido por meio de recortes passados. É óbvio que Invencível ganharia muito mais caso contado de forma sequencial porque, assim, se tivéssemos acompanhado a trajetória do protagonista desde a infância sem saber o que acontecerá depois, teríamos um envolvimento crescente com o personagem, e não constantemente interrompido com abordagens tão opostas (no presente, grandes confrontos aéreos em plena guerra; no passado, uma juventude marcada pela consagração profissional no atletismo). Dá até mesmo a sensação de que são dois filmes dentro de um.
O que dizer, então, da longa parte ambientada em alto-mar com três personagens tentando sobreviver durante dias a fio em dois pequenos botes? Se, depois do ótimo Até o Fim, fica complicado fazer algo realmente impressionante em uma circunstância como essa, pouco ajuda o fato de Invencível tomar tanto tempo de sua metragem para mostrar situações em alto-mar que já vimos em milhares de outros relatos envolvendo sobrevivência marítima. Por ser um capítulo bastante longo da trama, os desavisados podem até se confundir e achar que este é um filme sobre sobrevivência em alto-mar. Com uma técnica longe de ser inspirada (a trilha sonora de Alexandre Desplat é óbvia e nem Roger Deakins está em um momento notável na fotografia), o longa às vezes sobe o som, entrega frases prontas em despedidas na estação de trem, sugere metáforas fáceis (o protagonista levantando uma viga enquanto é maltratado por um soldado lembra preguiçosamente Jesus Cristo sendo açoitado com a cruz nas costas) e apela para querer emocionar com frases prontas, mas a comoção é zero. Nem nas emoções fáceis dá para defender Angelina Jolie. Sinal disso é que, quando a guerra chega ao fim em o alívio fica não pelo término do sofrimento dos personagens, mas pelo nosso, já que isso é sinal que o filme está prestes a acabar. Angelina Jolie ganha mais sendo atriz.
Whiplash: Em Busca da Perfeição
But I tried. I actually fucking tried. And that’s more than most people ever do.

Direção: Damien Chazelle
Roteiro: Damien Chazelle
Elenco: Miles Teller, J.K. Simmons, Paul Reiser, Melissa Benoist, Austin Stowell, Nate Lang, Chris Mulkey, Damon Gupton, Charlie Ian, Jayson Blair, C.J. Vana, Suanne Spoke, Max Kasch, Kavita Patil
Whiplash, EUA, 2014, Drama, 107 minutos
Sinopse: O solitário Andrew (Miles Teller) é um jovem baterista que sonha em ser o melhor de sua geração e marcar seu nome na música americana como fez Buddy Rich, seu maior ídolo na bateria. Após chamar a atenção do reverenciado e impiedoso mestre do jazz Terence Fletcher (JK Simmons), Andrew entra para a orquestra principal do conservatório de Shaffer, a melhor escola de música dos Estados Unidos. Entretanto, a convivência com o abusivo maestro fará Andrew transformar seu sonho em obsessão, fazendo de tudo para chegar a um novo nível como músico, mesmo que isso coloque em risco seus relacionamentos com sua namorada e sua saúde física e mental. (Adoro Cinema)

Logo quando o Brasil passou o vexame de ser derrotado pela Alemanha na semifinal da Copa do Mundo que sediava em 2014, era fácil encontrar análises atestando que a Alemanha demonstrou infinita superioridade por ser um time que prioriza o trabalho em equipe e, acima de tudo, a disciplina. Se Terence Fletcher (J.K. Simmons), o professor de jazz de Whiplash: Em Busca da Perfeição, existisse de verdade, certamente defenderia tal teoria, pois, para ele, de nada adianta o talento se não existe a extrema dedicação e um rígido direcionamento. Claro que, no filme comandado pelo estreante em longas Damien Chazelle, Fletcher chega realmente a extremos para tirar o máximo de perfeição musical de seus alunos, mas a mensagem é a mesma e Whiplash, ao buscar a potencialização dessa lógica por meio do cinema, cria uma experiência com níveis crescentes de angústia que culminam em um dos clímax mais hipnotizantes dos últimos anos.
A busca pela perfeição já havia sido mostrada com grande inovação anos atrás em Cisne Negro e é fácil encontrar semelhanças temáticas entre Whiplash e o filme estrelado por Natalie Portman, mas, apesar da aproximação, são produções bastante distintas porque tratam de artes diferentes (um é sobre dança, o outro sobre música) e porque o longa de Chazelle consolida muito mais a relação aluno/professor como pilar de sua história. O diretor, também autor do roteiro, é certeiro ao desenvolver quase todo o filme em cenas com as duras aulas do personagem de J.K. Simmons e ao transmitir toda a força destes momentos não só para o texto mas também para a técnica: percebam como a todo o momento a câmera está extremamente próxima aos rostos do personagens, além de capturar, com planos bastante fechados, toda a intimidação que o mestre passa quando fala incessantemente ao pé do ouvido do aprendiz Andrew (Miles Teller) na hora de um ensaio. Mas não se engane: para além da disciplina advinda da rigidez deste ambiente, os alunos também têm admiração e respeito bastante compreensíveis por aquela figura.
É óbvio que o desempenho visceral de J.K. Simmons (no auge de sua carreira prolífera mas até então fadada a papeis coadjuvantes corriqueiros) é peça fundamental para que Whiplash consiga fazer qualquer espectador se sentir um dos alunos, compartilhando da tensão criada pela disciplina quase militar dos ensaios. Só que a ótima atuação de Simmons é um belo complemento para o exemplar trabalho de direção de Chazelle que, ao gravitar constantemente em torno do professor na regência dos ensaios, compreende por completo o poder de uma câmera bem posicionada para fisgar o espectador sem uma palavra sequer. Exemplo disso é a cena envolvendo o primeiro ensaio quando nós, espectadores, ansiosos pelo suspense envolvendo a mitificação do professor, precisamos aguardar breves segundos para acabar com nossa angústia quando Chazelle se desloca da visão dos músicos para, em um mesmo movimento, se posicionar na mão do professor que finalmente dará o sinal para que o ensaio comece. É um silêncio de breves – mas cortantes – segundos.
Se por um momento Whiplash parece tratar o personagem de Simmons como uma figura unidimensional, aos poucos o roteiro nos apresenta justificativas e passagens de humanização dele, tudo sem qualquer pieguice. Questões importantes como o fato de Terence realmente ter um comportamento abusivo para um ambiente acadêmico também não são deixadas de lado. Por outro lado surgem conflitos pouco criativos para um roteiro tão cuidadoso, como a conveniente sucessão de problemas responsável por fazer o protagonista se atrasar para um importante compromisso. Sorte que tudo é compensado por um diretor ciente do que está fazendo atrás das câmeras. Chazelle, ainda certeiro na aposta de Miles Teller como protagonista (o jovem nunca pareceu promissor e não tem um rosto marcante, mas dá conta total do recado), prova de uma vez por todas o seu talento na sequência final que, fora a envolvente sintonia com o poder da música por si só, é uma aula de como orquestrar todas as ferramentas do cinema com puro brilhantismo, da excepcional montagem à excelente fotografia. É a técnica fazendo algo empolgante como há anos não víamos em uma sequência final. E também o próprio roteiro, resolvendo questões decisivas da trama sem uma palavra sequer – e sem precisar delas. Como o próprio filme sugere com a chegada dos créditos finais, as palmas ficam por nossa conta.
Rapidamente

Philip Seymour Hoffman vive um homem comum atormentado por compulsões sexuais em uma das várias histórias do excelente Felicidade
FELICIDADE (Happiness, 1998, de Todd Solondz): O título vende uma ideia diferente e Felicidade pode realmente ter um humor bastante específico e discreto, mas a verdade é que este longa de Todd Solondz é repleto de agruras, mostrando seres humanos problemáticos, infelizes e passando por extremos. Do psicólogo que tenta controlar a sua natureza pedófila (Dylan Baker, em um de seus melhores momentos) ao homem comum viciado em sexo mas que não consegue consumar relação com mulher alguma (Philip Seymour Hoffman), o roteiro, escrito pelo próprio Solondz e indicado ao Globo de Ouro, só não se torna depressivo porque tem esse humor crítico e ácido que, de certa forma, amortece as tantas tragédias pessoais contadas ao longo da história. Durante pouco mais de duas horas (que se desenrolam com um belo ritmo), Felicidade fala sobre questões bastante delicadas sem descambar para estereótipos ou muito menos para superficialidades. Tudo está na medida nesta experiência que se torna ainda mais eficiente com o ótimo elenco. Não é um filme necessariamente acessível por ter humor mas tampouco restrito como suas tramas cruas sugerem. Na realidade, é altamente recomendável, justamente, por achar um brilhante meio termo entre essas duas propostas.
LOCKE (idem, 2014, de Steven Knight): Volta e meia surgem filmes como esse, passados quase em tempo real em um único cenário. Um dos que mais me marcou foi o angustiante Enterrado Vivo e que, possivelmente, deve ter sido o mais recente neste formato que conferi. Retorno à proposta agora com este Locke, estrelado por Tom Hardy (em um de seus desempenhos mais relevantes), que coloca o ator durante pouco mais de 90 minutos em um carro pelas estradas da Inglaterra. Enquanto dirige, Ivan, o personagem vivido por Hardy, resolve várias questões que cotidianas pendentes enquanto se dirige a uma cidade para um compromisso inadiável. Dois aspectos particulares me incomodaram. Primeiro: percebam como o protagonista, apesar de um erro específico (e que move toda a trama), é o marido do ano, sujeito íntegro e ser humano admirável. Julgando pelo que acontece desenrolar da história, ele é perfeito. Segundo: não vejo como alguém consegue administrar milhares de problemas enlouquecedores ao mesmo tempo em que dirige sem tirar os olhos do retrovisor ou seque encostar o carro para pensar. É um bobo detalhe que me tirou um pouco do filme. Sem falar que todos os conflitos mostrados em Locke só se tornam mais extraordinários porque são resolvidos por telefone dentro de um carro. Se esquecermos a circunstância e analisarmos friamente os conflitos discutidos, o longa de Steven Knight pode ser até bem convencional.
OPERAÇÃO BIG HERO (Big Hero 6, de Don Hall e Chris Williams): Demora demais a engrenar esta nova animação da Disney que, caso não fosse tão prolixa em sua primeira metade e conseguisse ir direto ao ponto da aventura, seria realmente uma grande diversão. Só que Operação Big Hero se prolonga demais ao tentar criar um fundo dramático para o jovem Hiro (voz de Ryan Potter), confundindo um pouco o espectador sobre qual a verdadeira proposta em desenvolvimento. Mesmo terminado o filme é um tanto difícil explicar Operação Big Hero, o que não é muito estimulante. De qualquer forma, apesar também de alguns furos no roteiro, o filme comandado pela dupla Don Hall e Chris Williams tem seus momentos com uma aventura que chega a ser empolgante nos seus ápices. A história ainda tem um personagem já destinado a ser inesquecível entre as animação contemporâneas: o carismático robô Baymax (voz de Scott Adsit). Difícil dizer que algumas reviravoltas são particularmente interessantes ou críveis (a revelação da identidade do vilão não me fisgou) e que o filme tem um roteiro bem resolvido, mas os pequenos não devem se importar muito com isso – o que, dependendo do ponto de vista, pode ser um elogio ou uma grande crítica.
O ÚLTIMO CONCERTO (A Late Quartet, 2012, de Yaron Zilberman): Dá para notar a inexperiência do israelense Yaron Zilberman na direção de dramas com esse O Último Concerto (anteriormente, ele só havia comandado um documentário chamado Watermarks, em 2004). Tudo é muito frágil na história roteirizada pelo próprio Zilberman em parceria com Seth Grossman, uma vez que tudo é facilmente previsível, e vários conflitos desaparecem com a mesma rapidez com que surgem. No entanto, o que mais incomoda em O Último Concerto é como o personagem de Christopher Walken – o músico que descobre ter Mal de Parkinson e resolve realizar uma última apresentação para se despedir de seu grupo – se torna quase um figurante em um filme muito mais preocupado em mostrar a vida individual de cada um dos membros do quarteto do que de fato trabalhar a suposta grande amizade de 25 anos que existe entre eles. Por isso, logo ao final, quando o tal último concerto se aproxima, não existe muita emoção, pois mal nos lembrávamos da existência de Christopher Walken. O Último Concerto não um momento sequer que represente, de forma bonita e carinhosa, a supostamente forte relação dos amigos. Assim, é quase um desperdício ver nomes como Walken, Philip Seymour Hoffman e Catherine Keener em uma trama sobre dramas familiares e matrimoniais que em momento algum escapam da obviedade.
Os indicados ao BAFTA 2015

Se analisarmos com bastante atenção, a lista do BAFTA, apesar de não ter grandes surpresas, está cheia de sinais. De cara, já dá para perceber que A Teoria de Tudo é o filme destinado a ser odiado nessa temporada de premiações: ele representa o tipo de longa clássico que as premiações adoram premiar. A exemplo do que aconteceu no ano de O Discurso do Rei, é bem provável que, em 2015, voltemos a ver filmes de propostas diferentes e originais (Boyhood, Birdman e O Grande Hotel Budapeste) serem deixados de lado em detrimento de uma obra mais acadêmica. Ora, se chatear com isso não é errado, afinal, seria revigorante ver filmes inovadores em estética ou narrativo sendo premiados. Mas tampouco é certo se chatear com tal fato, pois, nessa altura do campeonato, já deveríamos saber que é exatamente isso que as premiações adoram – e que a temporada de prêmios nada mais é do que sobre quem se vende melhor para todos os públicos.
Retomo essa discussão porque, mesmo com O Grande Hotel Budapeste liderando a lista com 11 indicações, A Teoria de Tudo é claramente o queridinho dos britânicos (certamente ganha a categoria de filme britânico ou até mesmo a principal). Enquanto na temporada de O Discurso do Rei só se falava em A Rede Social até o filme de David Fincher começar a perder força a partir do BAFTA (que não poupou estatuetas para o longa de Tom Hooper), não se surpreenda se, agora, Boyhood for A Rede Social de 2015 e A Teoria de Tudo for O Discurso do Rei. Esse é o primeiro sinal claro de muitos que o BAFTA deu nessa lista divulgada hoje pela manhã. Não vale, porém, levar muito em consideração a esnobada de Meryl Streep como coadjuvante por Caminhos da Floresta, uma vez que ela aconteceu apenas para cumprir a cota de bairrismo com Imelda Staunton em Pride.
No que vale ficar de olho: Jennifer Aniston fora de competição Há dois anos consecutivos o Oscar ignora uma atuação amplamente indicada por outros prêmios – Helen Mirren por Hitchcock, Emma Thompson por Walt nos Bastidores de Mary Poppins – e Aniston não é uma atriz de grande nome para ser dada como certa, sem falar que é mais fácil indicar Amy Adams. Depois, a lembrança de Damien Chazelle em melhor direção por Whiplash (o Oscar adora novatos, vide o ano de Indomável Sonhadora), o posicionamento de Steve Carell como coadjuvante (o que é justo, e, em 2009, o BAFTA foi o único que colocou Kate Winslet como protagonista por O Leitor) e o fato de que, sim, O Grande Hotel Budapeste tem tudo para ser levado a sério nas categorias principais. A cerimônia de premiação do BAFTA acontece no dia 8 de fevereiro. Abaixo, a lista completa de indicados.
MELHOR FILME
Birdman
Boyhood: Da Infância à Juventude
O Grande Hotel Budapeste
O Jogo da Imitação
A Teoria de Tudo
MELHOR DIREÇÃO
Alejandro González-Iñárritu (Birdman)
Damien Chazelle (Whiplash – Em Busca da Perfeição)
James Marsh (A Teoria de Tudo)
Richard Linklater (Boyhood: Da Infância à Juventude)
Wes Anderson (O Grande Hotel Budapeste)
MELHOR ATOR
Benedict Cumberbatch (O Jogo da Imitação)
Eddie Redmayne (A Teoria de Tudo)
Jake Gyllenhaal (O Abutre)
Michael Keaton (Birdman)
Ralph Fiennes (O Grande Hotel Budapeste)
MELHOR ATRIZ
Amy Adams (Grandes Olhos)
Felicity Jones (A Teoria de Tudo)
Julianne Moore (Para Sempre Alice)
Reese Witherspoon (Livre)
Rosamund Pike (Garota Exemplar)
MELHOR ATOR COADJUVANTE
Edward Norton (Birdman)
Ethan Hawke (Boyhood: Da Infância à Juventude)
J.K. Simmons (Whiplash – Em Busca da Perfeição)
Mark Ruffalo (Foxcatcher – Uma História Que Chocou o Mundo)
Steve Carell (Foxcatcher – Uma História Que Chocou o Mundo)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Emma Stone (Birdman)
Imelda Staunton (Pride)
Keira Knightley (O Jogo da Imitação)
Patricia Arquette (Boyhood: Da Infância à Juventude)
Rene Russo (O Abutre)
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
O Abutre
Birdman
Boyhood: Da Infância à Juventude
O Grande Hotel Budapeste
Whiplash – Em Busca da Perfeição
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
As Aventuras de Paddington
Garota Exemplar
O Jogo da Imitação
Sniper Americano
A Teoria de Tudo
MELHOR FILME BRITÂNICO
71
As Aventuras de Paddington
O Jogo da Imitação
Pride
Sob a Pele
A Teoria de Tudo
MELHOR FILME ESTRANGEIRO
Dois Dias, Uma Noite (Bélgica)
Ida (Polônia)
Leviatã (Rússia)
The Lunchbox (Índia)
Trash (Reino Unido)
MELHOR DOCUMENTÁRIO
20.000 Dias na Terra
Citizenfour
A Fotografia Oculta de Vivian Maier
A Um Passo do Estrelato
Virunga
MELHOR ANIMAÇÃO
Uma Aventura Lego
Os Boxtrolls
Operação Big Hero
MELHOR TRILHA SONORA
Birdman
O Grande Hotel Budapeste
Interestelar
Sob a Pele
A Teoria de Tudo
MELHOR FOTOGRAFIA
Birdman
O Grande Hotel Budapeste
Ida
Interestelar
Sr. Turner
MELHOR EDIÇÃO*
O Abutre
Birdman
O Grande Hotel Budapeste
O Jogo da Imitação
A Teoria de Tudo
Whiplash – Em Busca da Perfeição
*Devido a empate, a categoria contempla seis indicados
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
O Grande Hotel Budapeste
Grandes Olhos
Interestelar
O Jogo da Imitação
Sr. Turner
MELHOR FIGURINO
Caminhos da Floresta
O Grande Hotel Budapeste
O Jogo da Imitação
Sr. Turner
A Teoria de Tudo
MELHOR MAQUIAGEM E PENTEADOS
Caminhos da Floresta
O Grande Hotel Budapeste
Guardiões da Galáxia
Sr. Turner
A Teoria de Tudo
MELHOR SOM
Birdman
O Grande Hotel Budapeste
O Jogo da Imitação
Sniper Americano
Whiplash – Em Busca da Perfeição
MELHORES EFEITOS VISUAIS
Guardiões da Galáxia
O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos
Interestelar
Planeta dos Macacos: O Confronto
X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido