Cinema e Argumento

Carol

I miss you… I miss you…

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Direção: Todd Haynes

Roteiro: Phyllis Nagy, baseado no romance homônimo de Patricia Highsmith

Elenco: Cate Blanchett, Rooney Mara, Kyle Chandler, Sarah Paulson, Jake Lacy, John Magaro, Cory Michael Smith,  Kevin Crowley,  Nik Pajic, Carrie Brownstein, Trent Rowland, Sadie Heim

Reino Unido/EUA, 2015, Drama/Romance, 118 minutos

Sinopse: A jovem Therese Belivet (Rooney Mara) tem um emprego entediante na seção de brinquedos de uma loja de departamentos. Um dia, ela conhece a elegante Carol Aird (Cate Blanchett), uma cliente que busca um presente de Natal para a sua filha. Carol, que está se divorciando de Harge (Kyle Chandler), também não está contente com a sua vida. As duas se aproximam cada vez mais e, quando Harge a impede de passar o Natal com a filha, Carol convida Therese a fazer uma viagem pelos Estados Unidos. (Adoro Cinema)

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Todd Haynes sempre contou histórias de personagens em busca de suas verdadeiras identidades. Logo quando estreou no cinema em 1978, o diretor já falava, no curta The Suicide, sobre um garoto maltratado e abandonado pelo pai que tentava começar uma nova vida ao mudar de escola. Desde então, foram muitas as vezes em que a sexualidade e a identidade de gênero passaram a ser fatores decisivo nessa sua íntima investigação de pessoas em plena construção existencial: do efervescente mundo glamrock de Velvet Goldmine, passando pela vida de uma dona-de-casa nos anos 1950 que descobre ser casada com um homossexual em Longe do Paraíso às múltiplas leituras da vida e arte de Bob Dylan em Não Estou Lá, Haynes agora volta à ativa com Carol, mais um filme sobre pessoas que se reinterpretam sob a luz de uma natureza sexual repleta de questionamentos – e o melhor: o resultado não é uma versão genérica de qualquer outra experiência que o diretor já tenha nos proporcionado.

É lamentável constatar que quase nunca testemunhamos verdadeiros romances de temática gay no cinema. Mesmo grandes e celebrados filmes como O Segredo de Brokeback MountainAzul é a Cor Mais Quente são dramas focados muito mais no arco de um personagem se familiarizando com sua própria sexualidade ou nos fatores que tornam impossível uma determinada paixão. Já Daniel Ribeiro diz ter feito  Hoje Eu Quero Voltar Sozinho para trazer um alento ao tema e ir contra a corrente, mostrando que, de um jeito ou de outro, relações homossexuais também merecem ter finais felizes na sétima arte. Retomo tais filmes porque Todd Haynes consegue conciliar justamente as duas abordagens: em Carol, existe sim a impossibilidade do amor ser gritado em alto e bom tom (afinal, são duas mulheres apaixonadas nos preconceituosos anos 1950), mas nele também mora, de forma muito mais presente, a delicadeza, a verossimilhança e a força sentimental que marcam os romances que mais conquistam os nossos corações e sentidos.

A vibe esperançosa que Carol deixa é super valiosa, especialmente em uma história que envolve tanto como essa. Filmado com uma elegância de dar inveja – o que não é mérito exclusivo da indefectível parte técnica, mas também da habilidade do diretor em acompanhar com a câmera a vida das duas mulheres em questão -, o filme é irrepreensível ao construir toda a atmosfera de envolvimento gradual das protagonistas. Assim como a inexperiente Therese Belivet (Rooney Mara, vencedora do prêmio de melhor atriz em Cannes 2015 por seu desempenho aqui), também nos apaixonamos facilmente pela elegância, maturidade e beleza (mas também sutil fragilidade) de uma mulher como Carol Aird (Cate Blanchett). O contrário se aplica: Therese pode até ser uma jovem que não sabe muito bem o que quer, mas é exatamente essa sua ideia de ser cercada de infinitas possibilidades em uma vida ainda facilmente aberta a todas elas que mexe com Carol e todos nós. Dessa forma, a demora em finalmente consumir o sentimento das duas é escolha muito acertada, pois é como se fossemos gradualmente entrando no universo de cada uma e nos apaixonando no mesmo timing que o delas.

A roteirista Phyllis Nagy, em seu primeiro trabalho para o cinema (ela só havia roteirizado até então o mediano telefilme Mrs. Harris para a HBO), adapta o romance de Patricia Highsmith com muita dignidade e respeito ao material da autora, que publicou o livro originalmente em 1953 com o título de The Price of Salt e sob o pseudônimo de Claire Morgan devido a sua homossexualidade e o preconceito da época (cinco anos antes de morrer, Highsmith conseguiu finalmente relançar a obra com o título Carol e assiná-la com o seu nome verdadeiro). O que Nagy entrega, no entanto, é um material que, nas mãos erradas, poderia se tornar um filme dos mais novelescos. Por sorte e talento, Haynes não sucumbe a nada disso e, assim como em Longe do Paraíso, utiliza todas as ferramentas de um filme de época para criar um clima nostálgico e de homenagem ao estilo de fazer romances à moda antiga em Hollywood – e, neste sentido, é fundamental a colaboração do compositor Carter Burwell na trilha sonora, que reproduz a elegância das imagens de Haynes e cria um tema marcante que reverbera após a sessão.

Entregues em pleno espírito às personagens, Cate Blanchett e Rooney Mara constroem personagens bastante distintas no seus estilos de vida mas semelhantes na delicadeza que as une. Blanchett, que nunca esteve tão bem produzida e fotografa, tem um dos melhores momentos de sua carreira e tira de letra cenas decisivas como aquela em que enfrenta o marido para decidir o destino de sua filha. Já Mara, apesar do papel relativamente mais convencional e de conflitos atenuados, imprime sensibilidade a sua Therese, atuando à altura do ícone que é a sua colega de cena. As duas são ótimas juntas e surgem como as grandes estrelas do passado, radiantes e cheias de classe. Sem tirar nem por, são as escolhas perfeitas para um filme que nos desperta essa vontade de querer fugir por alguns dias para viver um grande amor. Entre os críveis conflitos familiares e sociais que trazem à tona preconceitos ainda pulsantes no mundo mesmo depois de cinco décadas, sempre existe, como na própria vida, a esperança de um final feliz, mas também a mensagem de que o primeiro passo para que ele possa se tornar uma realidade está nas nossas próprias mãos ou, quem sabe, em um simples sorriso.

Star Wars: O Despertar da Força

Chewie, we’re home!

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Direção: J.J. Abrams

Roteiro: J.J. Abrams, Lawrence Kasdan e Michael Arndt

Elenco: Daisy Ridley,  John Boyega,  Adam Driver, Harrison Ford, Domhnall Gleeson, Carrie Fisher,  Oscar Isaac, Max Von Sydow, Lupita Nyong’o, Andy Serkis, Mark Hamill,  Anthony Daniels, Peter Mayhew, Kiran Shah, Simon Pegg

Star Wars: The Force Awakens, EUA, 2015, Aventura/Ficção Científica, 115 minutos

Sinopse: Décadas após a queda de Darth Vader e do Império, surge uma nova ameaça: a Primeira Ordem, uma organização sombria que busca minar o poder da República e que tem Kylo Ren (Adam Driver), o General Hux (Domhnall Gleeson) e o Líder Supremo Snoke (Andy Serkis) como principais expoentes. Eles conseguem capturar Poe Dameron (Oscar Isaac), um dos principais pilotos da Resistência, que antes de ser preso envia através do pequeno robô BB-8 o mapa de onde vive o mitológico Luke Skywalker (Mark Hamill). Ao fugir pelo deserto, BB-8 encontra a jovem Rey (Daisy Ridley), que vive sozinha catando destroços de naves antigas. Paralelamente, Poe recebe a ajuda de Finn (John Boyega), um stormtrooper que decide abandonar o posto repentinamente. Juntos, eles escapam do domínio da Primeira Ordem. (Adoro Cinema)

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O testamento da influência definitiva de Star Wars é mesmo esse novo capítulo chamado O Despertar da Força. Ora, mesmo com a unanimidade de que A Ameaça FantasmaO Ataque dos ClonesA Vingança dos Sith, os filmes realizados por George Lucas entre 1999 e 2005, foram o quase suicídio artístico da franquia, ninguém deu muita bola: O Despertar da Força já causava alvoroço muito tempo antes de sua estreia e hoje quebra recordes mundo afora. Não é por ser fácil faturar gordas bilheterias hoje em dia que o filme está por todos os lados, mas por resgatar elementos clássicos da série a partir do olhar de um realizador que sabe como ninguém preservar o passado sob a luz da contemporaneidade. A missão era difícil e carregada de responsabilidades sem precedentes, mas J.J. Abrams, mais uma vez, mostra que a força e, claro, o talento estão ao seu lado.

Não dá para afirmar que J.J. Abrams tem 100% de aproveitamento em sua carreira porque nela existe algo chamado Lost. Entretanto, não é difícil colocar o diretor entre os melhores realizadores de sua escala atualmente. Depois das mil maravilhas que fez com Star Trek, ele mais uma vez se mostra superlativo atrás das câmeras com O Despertar da Força, o filme que precisávamos ter visto dez anos atrás no lugar de A Ameaça Fantasma. Isso mesmo, é sem qualquer receio de exageros que podemos ser categóricos: o novo filme de Star Wars elimina do mapa a trilogia anterior comandada por George Lucas (que, convenhamos, tem seus méritos como a mente por trás do universo, mas raramente é grande como diretor). Mais do que um filme muito bem executado, O Despertar da Força cumpre com louvor a missão de ser um resgate para os antigos fãs e uma bela introdução para os leigos que venham a abraçar a história daqui para frente. Não é nem referencial demais nem excessivamente zerado, reproduzindo o mesmo conceito que fez dos novos Star Trek aventuras tão bem recebidas.

É importante mencionar o respeito que J.J. Abrams preserva em O Despertar da Força não apenas com o estilo e com os elementos clássicos que fizeram de Star Wars um fenômeno, mas também com a construção da história, que traz ao palco antigos personagens – e muitos deles, a exemplo de Han Solo (Harrison Ford), em funções realmente decisivas, e não em participações curiosas aqui ou ali. A nova história se constrói com a ajuda de figuras como Solo e introduz heróis que, além de funcionais para o drama e a ação de O Despertar da Força, representam uma grande vitória para o momento cada vez mais combativo à desigualdade que assola Hollywood. Sim, no filme de J.J. Abrams o protagonista é negro, e se reclamarem só um pouquinho logo ele se junta a uma mulher que, nos momentos finais, ainda é decisiva para que os conflitos sigam em frente. George Miller e sua Imperatriz Furiosa de Mad Max: Estrada da Fúria devem estar muito orgulhosos.

No que se refere a novas ideias para o desenvolvimento em si, O Despertar da Força talvez seja menos criativo do que os dois exemplares recentes de Star Trek. O zelo um tanto excessivo à fórmula clássica é compreensível dada a dimensão das expectativas, mas o forte apego às raízes da trilogia não deixa de eventualmente despertar a curiosidade em ver um Star Wars mais renovado na linguagem. Afinal, algumas saídas, apesar de muito eficientes, não são necessariamente criativas, como a criação de BB-8, mais um robozinho adorável que claramente vem para tomar a dianteira de R2-D2 e C-3PO. Essa é uma observação particular que em nada chega a prejudicar o excelente resultado alcançado pelo filme, que tem um clímax à altura, excelente doses de humor, uma técnica digna a seu favor e ainda um final surpreendentemente triste envolvendo um importante personagem. Não é porque os filmes anteriores decepcionaram: O Despertar da Força é mesmo a continuação que precisávamos.

Os Oito Odiados

When you get to hell, John, tell them Daisy sent you…

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Direção: Quentin Tarantino

Roteiro: Quentin Tarantino

Elenco: Samuel L. Jackson, Kurt Russell, Jennifer Jason Leigh, Walton Goggins, Demián Bichir, Tim Roth, Michael Madsen, Bruce Dern,  James Parks,  Channing Tatum, Dana Gourrier, Zoë Bell, Lee Horsley,  Gene Jones, Craig Stark

The Hateful Eight, EUA, 2015, Drama, 187 minutos

Sinopse: Durante uma nevasca, o carrasco John Ruth (Kurt Russell) está transportando uma prisioneira, a famosa Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh), que ele espera trocar por grande quantia de dinheiro. No caminho, os viajantes aceitam transportar o caçador de recompensas Marquis Warren (Samuel L. Jackson), que está de olho em outro tesouro, e o xerife Chris Mannix (Walton Goggins), prestes a ser empossado em sua cidade. Como as condições climáticas pioram, eles buscam abrigo no Armazém da Minnie, onde quatro outros desconhecidos estão abrigados. Aos poucos, os oito viajantes no local começam a descobrir os segredos sangrentos uns dos outros, levando a um inevitável confronto entre eles. (Adoro Cinema)

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Em entrevista à jornalista Isabela Boscov, Quentin Tarantino reforçou o fato: Django Livre é o maior sucesso de toda a sua carreira em termos de bilheteria. Segundo o diretor, o desempenho do longa contrariou, particularmente fora dos Estados Unidos, as previsões de que os westerns eram fadados a fracassar com o público. “Reescrevemos os livros de história nesse aspecto”, disse ele. Não é só pela declaração um tanto pretensiosa (quem deveria dizer isso era qualquer pessoa menos ele) que tenho a impressão de que, justamente desde Django Livre, Tarantino tem sido vítima de seu próprio ego. Assim como Christopher Nolan, que realizou a maluquice que bem entendeu com Interestelar depois de adquirir total liberdade criativa visto o abraço de crítica e principalmente de público para A Origem, Tarantino indica que tem tudo para seguir o mesmo rumo de seu colega. Afinal, Os Oito Odiados é refém dessa certa megalomania do diretor que parece lhe ter feito esquecer o poder da síntese.

Todos os elementos que fizeram de Quentin Tarantino um diretor admirável e de estilo facilmente reconhecível estão presentes em Os Oito Odiados. O que acontece é que, assim como em Django, eles soam apenas como complementos para uma história excessivamente prolongada e de base rasa. Por mais divertido e até mesmo revolucionário tematicamente que fosse Django ao narrar a história de um negro que faz a sua própria história, não ajudava o fato da produção se estender em 165 minutos que davam a impressão de a história ter dezenas de finais. Aí vem Os Oito Odiados, onde a duração salta para 187 minutos com uma trama muito menos movimentada. Ou seja, ainda que os diálogos divertidíssimos e inteligentes de Tarantino estejam ali, é missão árdua chegar à metade do filme, quando a trama finalmente melhora em todos os sentidos. Até lá, a introdução dos personagens parece não ter fim, alguns coadjuvantes servem apenas como alívio cômico (caso de Jennifer Jason Leigh, que só se revela uma personagem complexa mais tarde) e, dependendo do ponto de vista, o roteiro pode até decepcionar quem cria expectativas por uma grande ação, já que, em certo ponto, ele simplesmente estaciona a história em um único cenário até o final do filme. 

Os Oito Odiados tem um claro problema de edição que leva o espectador à melhor parte do filme já com a paciência um tanto esgotada. É complicado achar um editor com culhões para questionar alguém da mitologia de Tarantino (principalmente se esse alguém é Fred Raskin, que estreou na cadeira de edição dos filmes do diretor fazendo justamente Django Livre), mas não é preciso um bom senso tão apurado para perceber que Os Oito Odiados merecia ser mais conciso. Com uma narrativa mais enxuta, chegaríamos ao que realmente interessa no filme de braços mais abertos. Os excessos prejudicam porque fica aquela sensação de que as revelações que o filme nos reserva não são assim tão mirabolantes para justificar toda a espera e a sanguinolência quase infantil do terceiro ato. Tenho minhas dúvidas se o público reagirá positivamente a Os Oito Odiados nas bilheterias da mesma forma que respondeu a Django.

Excetuando esse problema que chegou muito perto de minar por completo a minha relação com Os Oito Odiados, Tarantino não deixa de ser um sujeito brilhante em seus melhores momentos. Grande diretor de atores (não há um ator do elenco que transpareça atuação), ele também segura com habilidade essa opção ousada de narrar metade de sua história em uma única cabana que abriga os oito personagens do título. Além da cuidadosa mise-en-scène, fundamental para a criação do suspense, são inteligentes, como de praxe, os diálogos escritos pelo diretor, que prefere não criar necessariamente mocinhos ou bandidos para seu filme.

Quanto aos personagens, destaca-se a forte personalidade de cada um deles, com menção especial para a escolha genial do diretor de colocar como figura mais imprevisível justamente a única mulher entre os homens – e Jennifer Jason Leigh é impecável todas as vezes em que o roteiro finalmente lhe dá alguma chance além de apenas apanhar de Kurt Russell. Frequentemente irreverente e delicioso de se assistir em seu último ato devido ao humor , à crítica e à acidez com que Tarantino vai de temas como o racismo ao vício de trapaça do ser humano, Os Oito Odiados fica perto de ser mais um excelente represante da retomada do western. Só faltou alguém dar aquele tão bem-vindo conselho para o capitão da história: menos costuma ser sempre mais.

Rapidamente

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Helen Mirren é sempre ótima, mas A Dama Dourada é um filme sem emoção e que ainda faz com que a atriz tenha que contracenar com um inexpressivo Ryan Reynolds.

BEM CASADOS (idem, 2015, de Aluízio Abranches): Não tem sido bem recebido nem pelo público esta comédia brasileira que, comparada a tantos outros desastres comerciais que tomam as salas de cinema no final de ano, pode até ser considerada uma diversão leve e descompromissada. É bem verdade que a história se esgota muito cedo e que seus rumos são perfeitamente previsíveis, mas o elenco segura bem as pontas, em especial Camila Morgado, que, devidamente bem dirigida, usa os exageros certos para compôr uma personagem deliciosamente maluca. Aluízio Abranches, dirigindo a primeira comédia de sua carreira (para quem não lembra, ele é o responsável pelos “polêmicos” dramas Um Copo de CóleraDo Começo ao Fim), não consegue esconder que este é um produto sem fins criativos e meramente financiado pelas Lojas Americanas e outras marcas, o que faz com que a história frequentemente ganhe um tom de novela com a escancarada aparição das marcas e situações avulsas criadas apenas para evidenciar os patrocinadores. É novelesco também o modo com que Abranches amarra seu filme nos momentos finais, esquecendo-se que é com o carisma do elenco (que ainda tem Alexandre Borges como um bom canastrão e Bianca Comparato sendo uma graça como a estagiária que se acha subvalorizada) que Bem Casados tem seus momentos mais divertidos.

A DAMA DOURADA (Woman in Gold, 2015, de Simon Curtis): Só foi pela paixão do Screen Actors Guild Awards por Helen Mirren que a veterana conseguiu uma indicação a melhor atriz na lista do prêmio este ano. Ora, é claro que Mirren é sempre ótima, mas é preciso um pouco mais de bom senso na hora de julgar quando ela está de fato superlativa. Em A Dama Dourada ela faz o tema de casa como uma judia que tenta recuperar uma obra de arte que foi tirada de sua família pelos nazistas. Por outro lado, o filme simplesmente não coopera com ela: todos os momentos bons da atriz são méritos exclusivamente de Mirren, e não do roteiro previsível de Alexi Kaye Campbell ou da direção no piloto-automático de Simon Curtis. É meio imperdoável A Dama Dourada ser um filme sem emoção e maior sensibilidade justamente quando conta a história de uma mulher que busca na arte a preservação de seu passado e até mesmo a reparação de seus erros. Agravando a situação, atrapalha a presença de Ryan Reynolds, que nunca foi bom ator e que aqui está naquelas clássicas situações constrangedoras onde um ator veterano dá um baile no principiante. Os flashbacks funcionam porque Tatiana Maslany é ótima atriz e a reconstituição de época está à altura, mas, mesmo falando sobre o nazismo a partir de um ponto de vista diferenciado, A Dama Dourada não acerta na construção dos dramas contemporâneos dos protagonistas, que, conforme manda o roteiro, tentam a todo custo emular a jornada do esse sim caloroso Philomena.

DESCOMPENSADA (Trainwreck, 2015, de Judd Apatow): O gênero que mais tenho dificuldade em discutir e encontrar afinidades com outras pessoas é a comédia. Tomo como maior exemplo Judd Apatow, que tem uma legião de fãs conquistada depois de filmes como O Virgem de 40 AnosLigeiramente Grávidos. Humor cada um tem o seu e é por isso que me parece tão difícil falar sobre comédia e dizer que considero Apatow um sujeito pra lá de superestimado. A impressão que sempre tive dele foi reforçada nesse tedioso Descompensada, onde o diretor une forças com Amy Schumer, atriz que agora é a moda do momento e parece tão supervalorizada quanto ele. Schumer, inclusive, é a autora desse roteiro egocêntrico (a protagonista nada mais é do que uma versão dela própria e ainda recebe o nome de… Amy!) sobre uma mulher supostamente orgulhosa de seu status de solteira que transa com quem bem entende. Só que Descompensada tem clichês dos grandes e, como uma história de romance, é extremamente entediante. Fora questões altamente discutíveis sobre o que certos personagens passam a simbolizar (a própria protagonista tem uma virada inadmissível quando, em certo ponto, passa a criticar a poligamia que tanto defendia), o filme se utiliza das saídas mais fáceis para unir um casal que em momento algum parece realmente apaixonado. Haja paciência. Felizmente, Descompensada ainda não tem previsão de lançamento no Brasil.  

A ESPIÃ QUE SABIA DE MENOS (Spy, 2015, de Paul Feig): Paul Feig é um ótimo diretor de comédias, e só não é um dos mais importantes porque não é um contador de histórias objetivo. Na TV, tem um currículo dos mais respeitáveis em comédias (dirigiu The OfficeNurse JackieParks and Recreation e Weeds), enquanto no cinema alçou voo somente em 2011 quando fez o divertidíssimo Missão Madrinha de Casamento. Assim como o filme estrelado por Kristen Wiig, A Espiã Que Sabia de Menos deixa de ser uma experiência mais marcante por ter um roteiro repleto de excessos. Sempre é complicado sustentar uma comédia por mais de duas horas, especialmente essa mais recente com a assinatura do diretor, já que, além das piadas, o roteiro se desenvolve a partir de uma história de investigação. Caso fosse um pouco mais conciso, A Espiã Que Sabia de Menos seria uma comédia imperdível, já que os personagens cativam, as situações são divertidas, as referências funcionamem e até Melissa McCarthy, que ainda não me convenceu de verdade, está em um de seus melhores momentos. E o maior elogio de todos: o filme de Paul Feig consegue, inclusive, ser um entretenimento mais envolvente do que o recente 007 Contra Spectre.

Macbeth: Ambição e Guerra

So foul and fair a day I have not seen.

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Direção: Justin Kurzel

Roteiro: Jacob Koskoff, Michael Lesslie e Todd Louiso, baseado na peça “Macbeth”, de William Shakespeare

Elenco: Michael Fassbender, Marion Cotillard,  Paddy Considine, David Thewlis, David Hayman, Jack Reynor, Lochlann Harris, Sean Harris, Ross Anderson,  James Harkness,  Maurice Roëves

Macbeth, Reino Unido/França/EUA, 2015, Drama, 113 minutos

Sinopse: Macbeth (Michael Fassbender) é um general do exército escocês que trai seu rei após ouvir um presságio de três bruxas que dizem que ele será o novo monarca. Ele é altamente influenciado pela esposa Lady Macbeth (Marion Cotillard), uma figura manipuladora que sofre por não poder lhe dar filhos. (Adoro Cinema)

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Somente no IMBb, a pesquisa por Macbeth rende quase 200 resultados entre episódios de TV, telefilmes, curtas e longas-metragens, o que nos leva a pensar se ainda existe algo de novo a ser mostrado no cinema em relação a este que é um dos textos mais consagrados de William Shakespeare. Em contrapartida, não deixa de ser injusto exigir inovação desta nova versão estrelada por Michael Fassbender e Marion Cotillard já que existe essa infinita quantidade de leituras já produzidas pelo cinema e pela TV. Afinal, é possível um realizador conferir esse montante monstruoso de adaptações e ainda pensar algo realmente inédito? Do lado de cá, como espectador, também me abstenho de falar sobre Macbeth considerando a falta de conhecimento em relação a outras de suas literais centenas de adaptações. Já em uma avaliação isolada, o filme de Justin Kurzel – que, reza a lenda, foi aplaudido durante dez minutos no Festival de Cannes deste ano -, é uma das experiências mais interessantes de 2015 por transmitir com a devida densidade e apuro estético a obscura viagem de poder e corrompimento de um general do exército escocês assombrado por profecias sombrias e, principalmente, por uma esposa altamente manipuladora.

Não é só por ser tão sombrio e pesado que Macbeth se torna um filme de nicho. O que não populariza esta adaptação – e o que obviamente fará com que o longa fique pouquíssimo tempo em cartaz – é a ideia do roteiro escrito a seis mãos por Jacob Koskoff, Michael Lesslie e Todd Louiso adaptar o texto de Shakespeare mantendo seu estilo original. Tomar a decisão de preservar a linguagem de Shakespeare é arriscado também para o próprio tom do filme, uma vez que exige muita disciplina de um diretor não transformar a experiência em um mero teatro filmado. Por sorte, o australiano Justin Kurzel, em seu segundo longa-metragem, conduz Macbeth com destreza e, junto a um notável trabalho técnico, dá a dimensão necessária para que o filme realmente seja… um filme! É assombrosa, por exemplo, a trilha sonora de Jed Kurzel, que intensifica o lado já sombrio da história do protagonista, ao passo que a fotografia de Adam Arkapaw, uma das mais belas do ano, negrita as sensações dos personagens com uma intensidade expressiva de cores, criando cenas ao mesmo tempo lindas e angustiantes de serem vistas (o último plano submerso em um vermelho amedrontador é impressionante nesse sentido).

Fora a parte técnica, que em momento algum nos remete aos clichês dos filmes de época com figurinos esdrúxulos e locações megalomaníacas, Macbeth é um filme envolvente em sua dramaticidade com um roteiro que sabe arquitetar a suja ascensão do protagonista e a eventual paranoia que toma conta de sua vida após a conquista do poder. É mais instigante ainda o arco da esposa de Macbeth, vivida por Marion Cotillard (ela diz sempre ter sonhado interpretar esse papel), que manipula facilmente o protagonista para que ele se torne uma figura poderosa e relevante, custe o o que custar. A culpa por não poder lhe dar filhos está ali, e, ao mesmo tempo em que Macbeth chega a boa parte de suas conquistas graças a esposa, também é nítida a angústia da esposa ao vê-lo se tornar uma figura gradativamente perigosa e até fora de seu controle durante a escalada. A proposta é encenada até os dias de hoje (Claire Underwood não seria uma espécie de lady Macbeth no seriado House of Cards?), mas nunca deixa de ser densa essa viagem sem escrúpulos rumo ao poder e incômodo o pavor ao constatarmos o quanto o ser humano é suscetível a se transformar quando passa a ser expressivamente dominante. Uma história como essa já teria impacto por si só, imagine, então, com o peso do texto de William Shakespeare!

Vícios teatrais, entretanto, ainda deixam seus resquícios no filme de Justin Kurzel. Frequentemente Macbeth entrega aos atores longos monólogos em lindas paisagens, flertando, então, com esse problema de remeter demais aos palcos, seja na câmera estática no corpo dos atores ou na própria formalidade com que eles interpretam cada palavra. Certamente é um belo presente para que Fassbender e Cotillard tirem o máximo de proveito, mas se torna um tropeço para o filme em si. Deixando de lado o deslize, dá gosto, por outro lado, ver atores tão talentosos quanto eles brilhando nesses momentos (e abençoado seja quem teve a ideia de juntá-los em um filme!). Enquanto Fassbender capta com precisão as oscilações entre insegurança e ganância de um homem inicialmente comum que aos poucos se corrompe, Cotillard surge inofensiva e perigosa na espreita dos bastidores como a mulher que, na realidade, é a grande responsável pelo marido ser quem realmente é. O diretor e os atores se reunirão futuramente em um projeto inusitado: Assassin’s Creed, a adaptação do videogame homônimo lançado em 2007. Julgando pela ideia, não é bem difícil criar expectativas, mas, considerando esse ótimo resultado de Macbeth, quem sabe?