Cinema e Argumento

A Grande Aposta

Everyone, deep in their hearts, is waiting for the end of the world to come.

bigshortposter

Direção: Adam McKay

Roteiro: Adam McKay e Charles Randolph, baseado no livro “The Big Short”, de Michael Lewis

Elenco: Steve Carell, Christian Bale, Brad Pitt, Ryan Gosling, Marisa Tomei, John Magaro, Finn Wittrock, Jeremy Strong, Hamish Linklater, Wayne Pére, Melissa Leo, Margot Robbie, Selena Gomez, Tony Bentley

The Big Short, EUA, 2015, Comédia, 130 minutos

Sinopse: Michael Burry (Christian Bale) é o dono de uma empresa de médio porte, que decide investir muito dinheiro do fundo que coordena ao apostar que o sistema imobiliário nos Estados Unidos irá quebrar em breve. Tal decisão gera complicações junto aos investidores, já que nunca antes alguém havia apostado contra o sistema e levado vantagem. Ao saber destes investimentos, o corretor Jared Vennett (Ryan Gosling) percebe a oportunidade e passa a oferecê-la a seus clientes. Um deles é Mark Baum (Steve Carell), o dono de uma corretora que enfrenta problemas pessoais desde que seu irmão se suicidou. Paralelamente, dois iniciantes na Bolsa de Valores percebem que podem ganhar muito dinheiro ao apostar na crise imobiliária e, para tanto, pedem ajuda a um guru de Wall Street, Ben Rickert (Brad Pitt), que vive recluso. (Adoro Cinema)

bigshortmovie

Não é por não vivermos nos Estados Unidos que A Grande Aposta é um filme de temática complicadíssima. Até mesmo para os estadunidenses falar sobre o mercado imobiliário de Wall Street parece uma tarefa desafiadora. Uma prova disso é o fato da Paramount, distribuidora do filme, só ter embarcado nele depois do diretor Adam McKay concordar em assinar uma sequência da comédia O Âncora: A Lenda de Ron Burgundy. Ou seja, quiseram garantir um bom retorno financeiro caso o filme fracasse (e era exatamente isso o que o estúdio esperava). Além disso, a própria forma como McKay, em parceria com Charles Randolph, constrói o roteiro acusa a consciência de que o assunto é erudito: frequentemente, a história praticamente estaciona para colocar pessoas comuns como eu e você explicando, de forma simplista e comparada a ideias corriqueiras do cotidiano de qualquer pessoa, detalhes dos negócios imobiliários em questão.

É óbvio que não deixa de ser frustrante ter que acompanhar A Grande Aposta como uma aula de economia onde só falta você ter que usar um caderninho de anotações para não esquecer teorias importantes, mas, por outro lado, essa consciência de que não está lidando com um assunto fácil só ajuda o filme a se tornar mais digerível e, principalmente, a ter uma personalidade das mais autênticas. A Grande Aposta consegue achar um belo meio termo entre o inacessível (não é o caso de você sair da sala de cinema sem ter entendido coisa alguma) e o didático (muito menos ficamos com a sensação de que Adam McKay está ministrando um curso rápido de economia imobiliária), o que é consequência direta do tino cinematográfico do filme e da longa trajetória do diretor com as comédias. Um exemplo disso é que, em certo ponto, o narrador chega a nos perguntar se estamos entediados com tantas explicações sobre o assunto, o que simboliza tudo o que precisamos saber sobre a pegada cômica de A Grande Aposta.

Basicamente, sempre há algo de novo para se aprender em cada cena. Do início ao fim, o filme metralha novas siglas e teses para falar sobre a crise que afetou os Estados Unidos em 2008. Entretanto, por mais que não se capte tudo o que é explicado sobre o universo financeiro em que os personagens estão inseridos, isso não é fator decisivo para se compreender a dramaticidade e o humor essencial de A Grande Aposta. Isso mesmo, pode ser que depois da sessão ninguém mais lembre o que é subprime, mas a discussão moral sobre até que ponto se deve tirar proveito de uma crise e a inacreditável cruzada de personagens que apostaram em uma probabilidade quase ridícula são plenamente sentidas pelo espectador.

Além de ter esse mérito quase inalcançável de tornar tragável – e até mesmo divertido e dramático – esse texto tão desinteressante e distante de nossas vidas, McKay acerta em outros aspectos fundamentais. É admirável, por exemplo, o trabalho que ele firma com o montador Hank Corwin, tornando A Grande Aposta um filme rápido e dinâmico, mas nunca frenético e responsável por tontear ainda mais o espectador. No entanto, principalmente, o que que resume a maturidade do diretor é a forma como ele conduz seus personagens, tanto para o humor quanto para o drama. E não estamos falando apenas da piada intrínseca que existe em trazer alguém como a cantora pop Selena Gomez para explicar um dos tantos termos técnicos de economia imobiliária, mas dos próprios protagonistas mesmo.

Deixo de lado a performance celebrada de Christian Bale para falar de um injustiçado: Steve Carell. Enquanto Bale adicionou uma indefensável (e preguiçosa) indicação ao Oscar de coadjuvante por seu trabalho aqui, não há dúvidas que o verdadeiro show de A Grande Aposta é de Carell, que já era um grande ator muito antes do mundo descobri-lo dramaticamente em Foxcactcher – Uma História Que Chocou o Mundo (não deixem de procurar ou rever a força de sua sutileza em pequenos grandes filmes como Pequena Miss SunshineEu, Meu Irmão e Nossa Namorada). Ele rouba a cena aqui porque sintetiza todo o universo mostrado pelo filme: nervoso e irritado, seu Mark Baum parece sempre prestes a infartar tamanha a preocupação com os negócios. Elogiá-lo pela comédia é fácil (com o detalhe de que ele em nada repete trejeitos do seu clássico Michael Scott do seriado The Office) e aqui ainda existe espaço para que ele exercite novamente seu lado puramente dramático, já que o personagem é assombrado pelo suicídio do irmão e por sua parcela de responsabilidade em um negócio que tem o poder de abençoar ou destruir vidas.

O que mais influencia na avaliação final de A Grande Aposta é a discussão sobre até que ponto a falta de identificação com um tema pode minar o nosso interesse por um filme, mesmo que ele seja inegavelmente original e bem conduzido. É esse mesmo o caso da obra de Adam McKay, que, em sua forma é condução, dribla as complicações do tema que debate. Agora, se realmente vamos cair de amores por ele é uma história bastante diferente. Não deixo de lembrar de grandes professores que tive ao longo da minha trajetória acadêmica, em especial àqueles das ciências exatas que, de forma tão original e inovadora, descomplicavam as disciplinas já sabendo que elas eram extensivamente rejeitadas por boa parte dos estudantes. Apesar da minha admiração pelo talento deles, devo confessar: nunca tais professores me fizeram gostar de verdade do conteúdo que ensinavam mais do que eu apreciava uma aula convencional de português, inglês, história ou literatura. Às vezes, realmente é apenas uma questão de gosto. A Grande Aposta que me perdoe.

Joy: O Nome do Sucesso

Don’t ever think that the world owes you anything, because it doesn’t.

joyposter

Direção: David O. Russell

Roteiro: David O. Russell

Elenco: Jennifer Lawrence, Robert De Niro, Bradley Cooper, Virginia Madsen, Diane Ladd,  Isabella Rossellini,  Édgar Ramírez, Dascha Polanco, Elisabeth Röhm, Susan Lucci,  Laura Wright, Maurice Benard,  Donna Mills, Jimmy Jean-Louis, Ken Howard

Joy, EUA, 2015, Drama, 124 minutos

Sinopse: Criativa desde a infância, Joy Mangano (Jennifer Lawrence) entrou na vida adulta conciliando a jornada de mãe solteira com a de inventora e tanto fez que tornou-se uma das empreendedoras de maior sucesso dos Estados Unidos. (Adoro Cinema)

joymovie

Não deve ter sido fácil para David O. Russell, depois de uma escalada inabalável de sucesso nos últimos anos, ver Joy: O Nome do Sucesso fracassar diante de público e crítica, especialmente quando as premiações sugerem que somente Jennifer Lawrence é digna de nota em seu mais novo filme. Por outro lado, curiosamente, não há grandes razões para terem rebaixado tanto Joy, um longa que, sem dúvida, é menor e menos expressivo dentro da carreira do diretor, mas que sequer chega perto da irritabilidade causada por O Lado Bom da VidaTrapaça, obras anteriores assinadas por ele e misteriosamente celebradas pelo mundo inteiro. Ora, Joy realmente não faz nada de tão grave para ser o patinho feio da recente filmografia de David O. Russell. Ou talvez isso seja apenas consequência da expectativa zerada desse meu coração que nunca entendeu muito bem tanta festa para um diretor que não passa do mediano.

Joy já começa anunciando que é sobre a força feminina e uma celebração a histórias de mulheres como a personagem-título, que venceram adversidades e prosperaram na vida apesar das dificuldades. Também é logo após esse letreiro que O. Russell coloca na tela a cena de uma telenovela clichê e exagerada, sugerindo que é justamente o tom de quase-fábula que o filme pretende seguir. Ambas são intenções muito válidas, mas nunca desenvolvidas com firmeza. O que acontece é que Joy se prende demais aos fatos de um fiapo de história (a da mulher que inventou um esfregão que se retorcia sozinho!) do que na personalidade visionária e à frente de seu tempo da protagonista. Já no tom empregado, é curioso como O. Russell baixa o tom da caricatura em uma história que, para flertar com a fábula, precisava exatamente de alternativas como os barracos e as gritarias tão mal calibradas em seus longas anteriores.

É até estranho constatar que Joy seja um dos filmes mais pé no chão do diretor, já que não faz muito sentido com o que o roteiro propõe. Puxando a história para o realismo, David O. Russell evidencia os problemas que devem ter afastado seus fieis escudeiros. Afinal, se o diretor não utiliza sua veia cômica para brincar com a ideia de Joy Mangano (Jennifer Lawrence, novamente indicada ao Oscar) ser uma espécie de Gata Borralheira, não dá para engolir a unilateralidade de personagens como o pai da moça, basicamente um senhor insensível e interesseiro desprovido de senso paternal. Sem uma pegada mais criativa, também não é fácil levar na esportiva a série de abusos emocionais que a protagonista sofre passivamente de uma verdadeira família de urubus que se instalou em sua casa. Calcada no realismo, a dramaticidade de Joy não tem impacto, e um pouco de imaginação pop ou pueril só faria bem à saga de nossa heroína.

Conformados com a ideia de que Joy opta por seguir o caminho oposto do que o roteiro precisava para entregar algo diferente, encontramos um filme tradicional cozinhado em baixíssima fervura. Não há nada de muito especial na condução dessa história de uma mulher empreendedora que só passa a demonstrar personalidade de verdade quando o filme se encaminha para o final – e é aí que Jennifer Lawrence realmente tem algo diferente para trabalhar. A atriz é um capítulo à parte na discussão de Joy porque, em um espaço muito curto de tempo na carreira, conquistou a maior bênção e maldição que se pode ter em Hollywood: o estrelato. É inegável que a superexposição e até mesmo a supervalorização de sua figura (sou do time que considera seu Oscar de melhor atriz muito prematuro) dificultam diretamente a aceitação que temos de seu trabalho, já que precisamos sempre fazer um certo esforço para distinguir Jennifer Lawrence de um verdadeiro personagem em cena, mas a moça é boa e, apesar de ter sido erroneamente escalada para o papel só por ser a galinha dos ovos de ouro do diretor (uma atriz de idade mais avançada traria muito mais credibilidade ao papel), é quem eventualmente dá brilho a um filme de elenco subutilizado. Realmente, somente Lawrence é digna de alguma nota em Joy, o que, ainda assim, não quer dizer muita coisa.

Steve Jobs

I don’t want people to dislike me. I’m indifferent to whether they dislike me.

stevejobsposter

Direção: Danny Boyle

Roteiro: Aaron Sorkin, baseado no livro “Steve Jobs”, de Walter Issacson

Elenco: Michael Fassbender, Kate Winslet, Jeff Daniels, Seth Rogen, Michael Stuhlbarg, Katherine Waterston, Makenzie Moss, Ripley Sobo, Perla Haney-Jardine, Sarah Snook,  John Ortiz,  Adam Shapiro

EUA/Reino Unido, 2015, Drama, 122 minutos

Sinopse: Três momentos importantes da vida do inventor, empresário e magnata Steve Jobs: os bastidores do lançamento do computador Macintosh, em 1984; do NeXT, em 1989; e o do iMac, em 1998.

stevejobsmovie

Entre meus desafetos cinematográficos que vão na contramão do que público e crítica celebram, o nome de Aaron Sorkin está certamente entre os primeiros da lista. A falta de identificação é questão de longa data: já considero quadradíssima a estreia de Sorkin nos cinemas, quando ele adaptou, em 1992, Questão de Honra (sua própria peça) para a tela grande. No meio do caminho, vieram trabalhos tediosos e desinteressantes que nem elencos consagrados conseguiram salvar (Jogos do Poder, lamentavelmente o último filme assinado por Mike Nichols, é um dos maiores desperdícios de talentos do cinema recente) ou, então, histórias que, por pura questão de gosto pessoal, simplesmente não me envolviam, como o distante e verborrágico A Rede Social. Na TV, Sorkin ainda me decepcionou profundamente com The Newsroom, aquela série sobre jornalismo que chegou a render um Emmy de melhor ator para Jeff Daniels. O programa era uma zona porque obrigava o roteirista a trabalhar em cima daquele que considero o maior de seus problemas: a dificuldade em eventualmente abandonar a racionalidade e dar calor humano a qualquer personagem. Por isso, dado o histórico, nunca escondi minha falta de interesse por Steve Jobs, um filme que, entretanto, só me fez comemorar: às vezes é delicioso estar redondamente enganado.

Humanizar Steve Jobs (Michael Fassbender) faz toda a diferença para o filme de Danny Boyle porque é muito fácil odiar um personagem como ele. Sujeito vaidoso e irredutível, o criador da Apple dizia ser indiferente à ideia das pessoas gostarem dele ou não. Ele fazia por onde em todas as instâncias para corroborar eventuais aversões: no plano familiar, ignorava seu papel e suas responsabilidades mais básicas como pai; no círculo de amizades, não pensava duas vezes antes de dar adeus a um amigo quando esse reivindicava autoria criativa em um projeto; e, por fim, no convívio profissional, era ciente de sua inegável genialidade e usava tal poder para tratar qualquer pessoa como bem entendia. Assim, ao cercar o protagonista de figuras que clamam constantemente por sua humanidade, como Joanna Hoffman, a executiva de marketing da Apple vivida por Kate Winslet, Sorkin evita que nosso protagonista se torne aquele estereótipo de gênio insensível e quase unilateral em sua frieza que já vimos o roteirista construir na figura de Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg) em A Rede Social, por exemplo. Em essência, Steve Jobs é o bom e velho Sorkin de diálogos rápidos e incessantes, mas, dessa vez, com o bônus de se atentar a outros aspectos que não sejam relacionados apenas à simetria perfeita das suas construções frasais.

A escolha de ambientar Steve Jobs em três momentos pontuais (os lançamentos de produtos assinados pelo protagonista) obviamente traz repetições porque tudo parece conspirar contra Steve sempre minutos antes de ele subir ao palco para apresentar ao público e à imprensa suas mais novas criações. A fórmula é basicamente sempre a mesma: enquanto se prepara para o grande momento do dia, ele recebe uma visita bombástica atrás da outra nos bastidores (o antigo chefe aparece, a assistente resolve se revoltar, o amigo reivindica reconhecimento e até a ex-mulher aparece com a filha!). São coincidências demais que exigem certa boa vontade do espectador em acreditar que tudo aconteça de forma tão agrupada, mas, ao mesmo tempo, o roteiro ganha muitos pontos ao delimitar tal recorte de tempo. Primeiro porque não existe melhor maneira de um filme mostrar sua excelência em uma biografia do que extraindo toda a personalidade e história de seu biografado a partir de situações específicas. E segundo porque a fórmula obriga Sorkin a ser o mais objetivo possível ao lidar com a emoção de seus personagens (o que acabava com The Newsroom era justamente o roteirista inventando paixonites e dramas bobos para preencher dramaticamente um considerável espaço de tempo). Dessa forma, a concisão traz força maior a Steve Jobs, proporcionando momentos realmente emblemáticos, como a nervosa discussão entre Steve e John Sculley (Jeff Daniels, ótimo) que remonta a noite em que o protagonista foi surpreendentemente demitido da Apple.

O diretor Danny Boyle orquestra muito bem todos os elementos de Steve Jobs, trabalhando obviamente com um tom mais teatral (afinal, o filme se divide em três blocos ambientados quase em um único local), mas sem perder o senso cinematográfico. A forma como Boyle explora o design de produção para não cair em repetições e dar a dimensão temporal das evoluções e retrocessos do protagonista em três recortes diferentes é fundamental para que Steve Jobs não se torne uma mera sucessão de diálogos e discussões em cima ou atrás de um palco (literalmente). Fora isso, como era de se esperar, o elenco é parte decisiva desse processo, e todos estão em momentos especiais. Chama a atenção, particularmente, a forma como Michael Fassbender consegue se despir de sua marcante e inegável beleza para mergulhar sem medo nas angústias deste homem brilhante mas que, de um jeito ou de outro, é atormentado por uma eterna batalha consigo mesmo. E se Kate Winslet faz maravilhas com uma personagem sem qualquer história prévia para contar (só sabemos que sua Joanna é de origem polonesa), pequenas participações são certeiras pelo que o roteiro proporciona e pela composição de atores como Seth Rogen e Michael Stuhlbarg. Steve Jobs é, enfim, uma vitória, já que, ao contrário do que qualquer desânimo com o projeto possa indicar (não são todos que superaram o total e recente fracasso de Jobs, estrelado por Ashton Kutcher em 2013), estamos diante de um dos mais surpreendentes filmes deste início de ano.

Spotlight – Segredos Revelados

Everybody’s gonna be interested in this.

spotlightposter

Direção: Tom McCarthy

Roteiro: Josh Singer e Tom McCarthy

Elenco: Michael Keaton, Mark Ruffalo, Rachel McAdams, Liev Schreiber, John Slattery, Stanley Tucci, Billy Crudup, Gene Amoroso,  Doug Murray, Neal Huff, Billy Crudup,  Brian Chamberlain, Paul Guilfoyle,  Eileen Padua, Len Cariou, Robert B. Kennedy

Spotlight, EUA, 2015, Drama, 128 minutos

Sinopse: Baseado em uma história real, o drama mostra um grupo de jornalistas em Boston que reúne milhares de documentos capazes de provar diversos casos de abuso de crianças, causados por padres católicos. Durante anos, líderes religiosos ocultaram o caso transferindo os padres de região, ao invés de puni-los pelo caso. (Adoro Cinema)

spotlightmovie

Os jornalistas são heróis pelas razões certas em Spotlight – Segredos Revelados. Ao contrário do que Hollywood costuma maquiar, a profissão não é uma extensão da delegacia de polícia que dá credenciais para que os contratados de uma redação saiam a campo investigando crimes ou coletando verdades e mentiras da vida de alguém está com os dias contados no corredor da morte e precisa ser salvo. No filme de Tom McCarthy, esses profissionais são heróis porque expõem à sociedade uma denúncia que nada mais é do que resultado direto de seu comprometimento ferrenho com os princípios mais básicos da profissão, onde a devoção com a verdade, seja ela qual for, fala mais alto do que qualquer outro interesse. Por isso, pode até ser que Spotlight não seja necessariamente um grande filme como os prêmios e a crítica têm apontado, mas a experiência entrega, com boa carga dramática e certeira execução, essa necessária reconstrução do modo como o cinema eventualmente retrata a profissão.

É inevitável que comparações com Todos os Homens do Presidente permeiem a sessão do filme de Tom McCarthy, mas não é o caso de inferiorizá-lo por ele não ser tão sofisticado ou inovador quanto o clássico de 1976 estrelado por Robert Redford e Dustin Hoffman (e só cabe ao tempo julgar o quanto a excelência de Spotlight merece ter o montante certo de lembrança), até porque o roteiro é extremamente atual ao reacender discussões tão fundamentais para o jornalismo em tempos que a profissão se dilui e se descredita cada vez mais na era da internet e de tantos interesses – e, com essa abordagem, lembrei particularmente daqueles breves minutos de Leões e Cordeiros onde a jornalista Janine Roth (Meryl Streep) enfrenta seu editor ao se recusar a escrever uma reportagem política claramente tendenciosa e ao questioná-lo sobre onde, após tantos anos de profissão, foi parar a busca pela verdade e a coragem para publicar o que deveria ser realmente de interesse público. É fundamental que o filme nos coloque tais questões com o devido protagonismo, e, nesse sentido, qualquer comparação com outras obras em termos de estrutura se tornam avaliações quase preguiçosas. Spotlight é muito mais do que isso.

“Eles mandam em tudo!”, constata indignadamente um personagem ao descobrir cada vez mais detalhes da história que Spotlight, a equipe de jornalismo investigativo do jornal Boston Globe, se propôs a entrar de cabeça: o verdadeiro sistema de pedofilia instalado nas paróquias de Boston em meados dos anos 1990. A coragem do roteiro de Josh Singer e Tom McCarthy é a mesma do jornal em questão, visto que, nas telas ou no papel, a igreja, mesmo depois de tantos séculos, segue como uma instituição que, sim, faz um bem danado a várias pessoas espiritualmente, mas que também alimenta um lado cruel, manipulador e responsável por diversas atrocidades que nem todos têm coragem de discutir ou sequer colocar em pauta. Spotlight, assim como os jornalistas do Boston Globe, não amortece suas denúncias envolvendo os dolorosos relatos em Boston, onde, por exemplo, um único padre molestou mais de 130 crianças, entre elas um garoto de apenas quatro anos de idade – e detalhe: com o conhecimento das paróquias. Por isso, além de um relato digno do jornalismo, a veia de denúncia confere ao filme de Tom McCarthy uma bela dose de sentimentos pesados e incômodos, mas também muito necessários. 

Muito bem escrito no que se refere à estrutura de uma investigação jornalística e às etapas de discussão e checagem de dados que cercam uma investigação dessa natureza, Spotlight ganha força e impacto com a denúncia que se propõe a retratar. É simplesmente impossível ficar indiferente aos absurdos que cada cada um dos jornalistas encontra ao longo do caminho, o que também nos leva a ressaltar o ótimo trabalho de elenco do filme, que se preocupa muito mais em criar uma unidade sólida de interpretações do que em dar shows particulares a cada um dos atores (Mark Ruffalo talvez seja a única exceção). Por outro lado, a confiança quase exclusiva a esse material traz o detalhe que me leva a considerar Spotlight um filme necessário e bem executado, mas não necessariamente superlativo: a ausência de uma força maior ao explorar os sentidos do cinema. Isso passa desde a ideia do filme ter uma trilha mais inspirada do veterano Howard Shore até o roteiro se dedicar mais aos efeitos que essa investigação específica teve na vida pessoal de seus personagens. Afinal, Tom McCarthy prova que teria talento de sobra para dar um brilho extra à história sem que ela, indo na contramão de tantos veículos de comunicação da atualidade, descambasse para o sensacionalismo.

Rapidamente: Amy, Sr. Turner, Tomboy e A Visita

Filme menos acessível da carreira do celebrado Mike Leigh, Sr. Turner se destaca por compreender, inclusive na própria parte técnica, toda a arte de seu protagonista.

AMY (idem, 2015, de Asif Kapadia): Não tão cinematográfico quanto o ótimo Senna, outro documentário dirigido pelo britânico Asif Kapadia, Amy obviamente se beneficia por ter uma personagem muito forte. O estilo único das canções de Amy Winehouse e a a conturbada vida da cantora fora dos palcos de certa forma compensam o formato quase televisivo desse filme que também chega a ser um pouco extenso para um relato tão tradicional. Ou seja, é bem provável que os fãs da cantora se entusiasmem mais com o resultado e até se emocionem ao ouvir música clássicas dela como ValerieBack to BlackTears Dry on Their Own. Isso porque, em termos narrativos, o documentário carece de criação e desenvolve de forma bastante linear a trajetória de Winehouse. Todas as etapas de um relato de ascensão e queda de uma artista problemática são seguidas à risca, o que deixa Amy em um terreno muito seguro mas ao mesmo tempo cômodo demais. O que falta mesmo no documentário é justamente a intensidade cinematográfica de, por exemplo, Cássia Eller. É certo que ambos os filmes emocionam e são registros respeitosos, mas o trabalho de Paulo Henrique Fontenelle é melhor lapidado cinematograficamente e com uma linguagem muito mais alinhada com identidade de sua protagonista. 

SR. TURNER (Mr. Turner, 2015, de Mike Leigh): Com Sr. Turner, o celebrado Mike Leigh alcança dois extremos em sua carreira. O primeiro é relacionado à questão estética: nunca o britânico esteve com o senso técnico tão apurado, usando todas as ferramentas possíveis, em especial a bela fotografia de Dick Pope merecidamente indicada ao Oscar 2015, para dialogar com os processos artísticos do pintor William Turner (Timothy Spall), protagonista da história. O segundo é a especificidade: Sr. Turner termina como o longa mais difícil da carreira de Leigh, uma vez que seu ritmo é maçante (a duração de 150 minutos só amplia essa sensação) e a história é contada de um jeito muito tradicional. Leigh realmente nunca foi um diretor de filmes tão dinâmicos (mesmo os maravilhosos Segredos e MentirasO Segredo de Vera Drake trabalhavam contra um passo muito lento), mas Sr. Turner realmente se supera. Também é complicado ter paciência com o protagonista – não que isso seja algo essencial para uma trama ter o devido envolvimento -, um homem carrancudo, mal humorado, de pouquíssimas palavras e que passa quase todo tempo grunhindo e dizendo coisas praticamente incompreensíveis aos ouvidos que não dispõem de legendas. A boa notícia é que, pelo menos, Sr. Turner é, em sua essência, bastante digno no relato da vida pessoal e profissional de um pintor cheio de personalidade – e prova disso é a ótima cena em que ele recusa fortunas de um empresário apenas para que a suas obras sejam eternizadas em um museu público que não lhe pagará um tostão sequer.

TOMBOY (idem, 2011, de Céline Sciamma): Muito merecidamente, Tomboy fez sucesso no circuito alternativo e ainda hoje resiste ao tempo com exibições especiais em espaços do gênero. Não escondo meu arrependimento de só ter descoberto agora essa história delicada sobre uma garota de 10 anos que, ao mudar de cidade, assume a identidade de um menino no seu novo círculo de amizades. Sem cair em qualquer melodrama envolvendo a questão da identidade de gênero de sua protagonista, Tomboy traz o sempre bem-vindo naturalismo francês ao discutir ainda arranjos familiares e as descobertas da juventude. A diretora Céline Sciamma é bastante objetiva em seu relato (são breves 80 minutos de duração), mas ainda assim completa em discussões que se mostram cada vez mais contemporâneas – e felizmente Tomboy não precisa verbalizar nada para colocar em pauta os temas que se propõe a debater. Com um desfecho esperançoso, o filme obviamente vai entregar algumas etapas dramáticas que você espera desde o início, mas sem nunca elevar o tom ou sequer flertar com obviedades. Um pequeno grande filme.

A VISITA (The Visit, 2015, de M. Night Shyamalan): Ao mesmo tempo que é fácil rejeitar A Visita em função do histórico horroroso de M. Night Shyamalan, não é difícil para os corações mais bondosos, por outro lado, defenderem o filme, dizendo que, comparado ao que o indiano produziu nos últimos anos, esse até que tem certa graça. Mesmo com boa vontade e, de fato, A Visita sendo ligeiramente superior a desastres como O Último Mestre do Ar, não existe absolutamente nada que torne o filme interessante quando o colocamos na vitrine de seu respectivo gênero. Extremamente empoeirado (quem, em 2015, ainda faz filmes com a protagonista documentando toda a história com uma câmera?), A Visita já começa implausível: uma mãe envia seus filhos de 15 anos a uma cidade isolada para que eles conheçam os avós hoje completos estranhos e distantes há quase duas décadas. Assim, sem nem pegar um telefone para combinar qualquer coisa. Que senso maternal de proteção ela tem! Além da protagonista madura demais para alguém da sua idade e da completa falta química entre os jovens e os avós, o filme tem ideias já exploradas à exaustão no gênero, como a casa de difícil acesso no meio da floresta e personagens que precisam chegar a situações extremas para finalmente constatar o quão perigoso ou no mínimo sinistro é o lugar onde estão. A proposta de fazer um projeto mais comedido e menos ambicioso pode ser um mérito de Shyamalan, mas aí usar isso para ir à raiz do básico contando uma história manjada em tensão e ideias… Nem com a mudança de ares dá para se entusiasmar.