Ator certo, Oscar errado – parte 2
Esta é a segunda parte do nosso especial sobre atores certos que ganharam Oscar pelo papel errado. Cabe reforçar e esclarecer aqui a proposta do post. Não estamos falando da probabilidade de outra pessoa ter vencido em determinado ano, questionando a qualidade do desempenho vencedor ou muito menos nos atendo apenas aos desempenhos indicados ao Oscar de determinado ator para julgar um prêmio equivocado. A lógica é simples: tudo parte do nosso gosto pessoal, da nossa escala de preferência em uma categoria e do quanto achamos que o Oscar em questão realmente simboliza algo para a carreira de um ator. Portanto, nessa seleção em particular, você pode dizer que o Oscar de George Clooney era inevitável (era mesmo, sem dúvida) ou que Morgan Freeman é ótimo ator e está bem em Menina de Ouro (as duas afirmações estão corretas), mas isso não quer dizer que, na nossa avaliação, ambos eram realmente merecedores de festa por esses papeis, seja qual for a “desculpa”. O que conta única e exclusivamente para o Cinema e Argumento nessa série de posts é a excelência dos desempenhos no ano em questão.
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George Clooney (Syriana – A Indústria do Petróleo, 2006): Como não premiar um astro que começava a dar rumos completamente diferentes para sua carreira? O problema é que, em 2006, George Clooney merecia um Oscar não por sua atuação no complicadíssimo Syriana – A Indústria do Petróleo, e sim pelo auge de sua sofisticação como diretor em Boa Noite, e Boa Sorte. No entanto, ele não tinha chances contra Ang Lee por O Segredo de Brokeback Mountain, e acabou levando a estatueta, como compensação, pelo filme de Stephen Gaghan. A pressa, como sempre, foi inimiga da perfeição: além do tempo ter mostrado que, de fato, Syriana não é nem de longe um dos momentos mais memoráveis do ator, Clooney teve chances muito mais dignas ao longo dos próximos anos. Mesmo que tenha vencido o prêmio como produtor por Argo, o galã poderia ter facilmente levado para casa uma estatueta de melhor ator por seu trabalho em Os Descendentes (Jean DuJardin só ganhou por O Artista justamente em função de Clooney já ter sido consagrado como intérprete) ou até mesmo como roteirista pelo inteligente Tudo Pelo Poder. Roubou o Oscar de: Paul Giamatti (A Luta Pela Esperança), considerando que Jake Gyllenhaal não é coadjuvante em O Segredo de Brokeback Mountain.
Judi Dench (Shakespeare Apaixonado, 1999): Sou defensor de praticamente todo e qualquer prêmio para Judi Dench, mas não dos que recebeu por Shakespeare Apaixonado. Embalada pelo sucesso do filme, a veterana recebeu a estatueta em mais um daqueles momentos em que o Oscar resolve consagrar, com atraso, uma grande atriz, custe o que custar. Não é exatamente um problema ela ser coroada por um desempenho de oito minutos em um filme de 123 (Viola Davis tem mais ou menos isso em Dúvida e me assombra até hoje), só que sua aparição em Shakespeare Apaixonado parece mais uma curiosidade do que algo fundamental para a construção da história. A própria atriz brincou, ao receber o Oscar, que merecia apenas um pedacinho da estatueta – e com toda razão. Entre tantos papeis diferenciados e dignos do prêmio, merecia ter na estante uma estatueta por um momento mais marcante, seja como a complexa professora de história Barbara Covett de Notas Sobre Um Escândalo (era minha favorita em um ano fortíssimo para as atrizes) ou pela transgressora Laura Henderson, a protagonista de Senhora Henderson Apresenta, que, nos anos 1930, choca toda Londres ao abrir um teatro com espetáculos de nudez (se fosse para perder, que pelo menos Felicity Huffman tivesse a honra de ser derrotada por um ícone como Judi Dench e não por Reese Witherspoon). Roubou o Oscar de: Rachel Griffiths (Hilary & Jackie), a única candidata que conferi e que, mesmo assim, já merecia mais a lembrança.
Morgan Freeman (Menina de Ouro, 2005): Talvez não seja o caso de colocá-lo em uma lista de grandes injustiças do Oscar, mas aí quando você pensa em papeis marcantes de Morgan Freeman, certamente não é Menina de Ouro que a memória puxa. Muito antes, tem Conduzindo Miss Daisy, Um Sonho de Liberdade e Seven: Os Sete Crimes Capitais, só para começo de conversa. Nem no próprio Menina de Ouro o ator é um dos aspectos que reverberam até hoje: o que fica mesmo com o espectador é a direção minuciosa de Clint Eastwood, a força emocional do trágico drama da protagonista e o desempenho excepcional de Hilary Swank. Novamente, lá atrás, vem a lembrança de Morgan Freeman. Por mais que a matemática apontasse uma vitória de Clive Owen por Closer – Perto Demais (ele levou o Globo de Ouro e o BAFTA por sua performance), a aposta em Freeman era uma das mais fáceis daquele ano, já que era uma nova oportunidade dos votantes finalmente darem atenção a um veterano há muito tempo querido pelo público e também pelo próprio Oscar (ele estava na quinta indicação). O ator faz muito bem o feijão com arroz em Menina de Ouro e não é possível dizer que sua performance é sem inspiração (especialmente em um ano não tão forte para a categoria), mas, verdade seja dita, em um filme de emoções complicadíssimas para qualquer um dos intérpretes, seu personagem basicamente não demanda maiores complexidades. Roubou o Oscar de: Clive Owen, que tem a árdua missão de encarnar o personagem mais antipático de Closer.
Jeff Bridges (Coração Louco, 2010): Pouco conheço a carreira de Jeff Bridges (tanto que não conferi nenhuma de suas outras indicações ao Oscar), mas reservo esse espaço para falar de um crime inafiançável que me bate de forma muito particular. Não é difícil constatar que Jeff Bridges ganhou o Oscar por ser um veterano que veio com o papel certo no momento certo para agradar os votantes, mas tanto o papel quanto o momento são altamente discutíveis. Primeiro porque não há novidade alguma no cantor decadente e alcoolista que resolve retomar as rédeas de sua vida, e segundo porque, independente do que a Academia supostamente devia a Jeff Bridges, não existia atuação mais indefectível naquele ano do que a de Colin Firth em Direito de Amar. Dilacerante, o filme representa até hoje o auge da maturidade de Firth como ator, que mergulha com perfeição na generosidade e na camuflada dor de um homem que raramente se mostra de verdade, seja pela sua própria sexualidade em uma época preconceituosa ou pela dor que julga ter que superar em silêncio. Não há correção de injustiça com qualquer ator que justifique a derrota do britânico, simples assim – e, por isso, nem preciso dizer de quem Jeff Bridges roubou o Oscar, certo?
Os vencedores do BAFTA 2016
Nunca escondi que sou um fiel escudeiro do BAFTA,
mas vou confessar que o prêmio tem me decepcionado bastante nos últimos tempos. Foi-se o tempo em que os britânicos demonstravam autenticidade (ou justa fidelidade ao seu próprio cinema) ao ignorar o circuito indicando um filme como O Segredo de Vera Drake em 11 categorias ou celebrando obras como Desejo e Reparação e A Rainha. Hoje em dia, o BAFTA vai conforme a maré e celebra o que está em voga na temporada. A premiação deste domingo (14) foi mais uma clara prova disso, já que ela se tornou mais uma das tantas que resolveram “reparar” a derrota de Birdman para Boyhood no ano passado. Ao que tudo indica, Alejandro González Iñárritu deve mesmo se tornar o maior diretor da história com O Regresso (afinal, quem conseguiu faturar as estatuetas de filme e direção em dois anos consecutivos ou cinco Oscars em apenas dois anos?), enquanto Brie Larson e Leonardo DiCaprio têm tudo para também levar o prêmio mais cobiçado do cinema para casa.
O que desaponta especificamente no BAFTA é o fato dos votantes terem esnobado por completo o delicado drama Carol, o recordista de indicações da edição deste ano. Primeiro porque o filme está longe de merecer essa esnobação toda do circuito (fraude por fraude, Rooney Mara merece infinitamente mais o favoritismo de coadjuvante do que Alicia Vikander) e segundo porque os britânicos estão acostumados a festejar obras mais “clássicas” e calcadas no emocional (o próprio Boyhood ganhava tinha um afeto indiscutível). O que ainda se conclui com a lista de vencedores é que Mad Max: Estrada da Fúria pode levar menos Oscars do que o esperado: Emmanuel Lubezki também já conquistou o sindicato de fotografia por O Regresso, a categoria de efeitos visuais deve ser o prêmio de consolação para Star Wars: O Despertar da Força e o a lembrança do filme de Iñárritu em melhor som pode muito bem se repetir entre os votantes. Sobre os coadjuvantes escolhidos pelo BAFYA, a consagração de Kate Winslet por Steve Jobs não significa muita coisa, pois Alicia Vikander concorria certeiramente como protagonista por A Garota Dinamarquesa, ao passo que Mark Rylance deve se contentar apenas com a distinção dos britânicos, já que Sylvester Stallone não concorria por Creed: Nascido Para Lutar. Confira abaixo os vencedores:
MELHOR FILME: O Regresso
MELHOR DIREÇÃO: Alejandro González Iñárritu (O Regresso)
MELHOR ATOR: Leonardo Dicaprio (O Regresso)
MELHOR ATRIZ: Brie Larson (O Quarto de Jack)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Mark Rylance (Ponte dos Espiões)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Kate Winslet (Steve Jobs)
MELHOR FILME BRITÂNICO: Brooklyn
MELHOR FILME ESTRANGEIRO: Relatos Selvagens
MELHOR ANIMAÇÃO: Divertida Mente
MELHOR DOCUMENTÁRIO: Amy
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Spotlight – Segredos Revelados
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: A Grande Aposta
MELHOR TRILHA SONORA: Os Oito Odiados
MELHORES EFEITOS VISUAIS: Star Wars: O Despertar da Força
MELHOR SOM: O Regresso
MELHOR MAQUIAGEM: Mad Max: Estrada da Fúria
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: Mad Max: Estrada da Fúria
MELHOR EDIÇÃO: Mad Max: Estrada da Fúria
MELHOR FOTOGRAFIA: O Regresso
MELHOR FIGURINO: Mad Max: Estrada da Fúria
A Garota Dinamarquesa
You are the only person who made sense of me.

Direção: Tom Hooper
Roteiro: Lucinda Coxon, baseado no romance “The Danish Girl”, de David Ebershoff
Elenco: Eddie Redmayne, Alicia Vikander, Ben Whishaw, Matthias Schoenaerts, Adrian Schiller, Amber Heard, Emerald Fennell, Henry Pettigrew, Jake Graf, Nicola Sloane, Pip Torrens
The Danish Girl, Reino Unido/EUA/Alemanha, 2015, Drama, 119 minutos
Sinopse: Cinebiografia de Lili Elbe (Eddie Redmayne), que nasceu Einar Mogens Wegener e foi a primeira pessoa a se submeter a uma cirurgia de mudança de gênero. Em foco, o relacionamento amoroso do pintor dinamarquês com Gerda (Alicia Vikander) e sua descoberta como mulher. (Adoro Cinema)

Na equação de A Garota Dinamarquesa, vários fatores contribuem para que metade do mundo já torça o nariz para o filme antes de vê-lo. O primeiro é Tom Hooper, que passou a ser odiado em função da paixão excessiva do Oscar por seu O Discurso do Rei e que, sim, investe em uma série de maneirismos infundados na tentativa de construir algum estilo. O segundo é Eddie Redmayne, ator que ninguém leva muito a sério por causa da idade e que até hoje é lembrado por ter roubado todos os supostos prêmios de Michael Keaton por Birdman com seu Stephen Hawking em A Teoria de Tudo. Já o terceiro e último é o fato de A Garota Dinamarquesa não ser inclusivo por preferir um jovem ator de Hollywood ao invés de um transexual para o papel principal.
O tema demanda grande delicadeza, e A Garota Dinamarquesa pode respirar aliviado: não é ofensivo ou sequer caricatural o roteiro escrito por Lucinda Coxon. Mesmo que não traga ao set pessoas que possam responder pela verossimilhança da história (ao contrário do seriado Transparent, por exemplo, que coloca transexuais em sua equipe para escrever roteiros e prestar consultoria), é respeitoso o retrato que o filme faz da transição do pintor Einar Wegener (Redmayne) para Lili Elbe, passando com dignidade por etapas importantes, como a primeira vez em que Einar desperta para o seu lado feminino e já mais tarde quando ele, agora Lili, finalmente começa a entrar na sociedade como mulher.
É cuidadosa, especialmente no princípio, a construção de A Garota Dinamarquesa em relação à personalidade de seus personagens e o que isso significa para o futuro deles: em questão de minutos, percebemos o quão frágil e inseguro é Einar, enquanto sua esposa Gerda (Alicia Vikander) é quem coordena as ordens da casa e até mesmo as decisões que o marido deve tomar na vida. Sutilmente, é aí que já percebemos toda a delicadeza de Einar, o que nos tira, em um sentido positivo, maiores surpresas quando a esposa, Gerda, forçando-o a posar para uma pintura de meia-calça e vestido, desabrocha no marido uma certa identidade que sempre esteve viva, mas até então adormecida.
A partir daí, é um caminho sem volta, e A Garota Dinamarquesa nos coloca nessa conturbada angústia do casal quanto à identidade do marido que agora quer assumir a identidade de uma mulher. O que era inicialmente brincadeira, logo se torna um dilema não apenas de identidade para Einar, mas para a própria Gerda, que, ao pintar a versão feminina de seu companheiro, estranhamente começa a ganhar inspiração e finalmente a ascender profissionalmente. Ou seja, o seu tão sonhado sucesso está diretamente ligado ao fato de seu marido ser agora uma mulher, o que torna impossível que a personagem tenha as duas coisas na vida. É um bom dilema para uma mulher que transborda humanidade ao sofrer por estar perdendo alguém, mas também por se dar conta de que não existe maneira de lutar contra aquilo, afinal, a libertação de Einar é o maior bem que ela pode fazer tanto por ela quanto por ele.
O trabalho da dupla protagonista se torna essencial para causar ainda mais empatia no espectador. Vikander começa A Garota Dinamarquesa com mais ênfase do que Redmayne, conquistando conflitos próprios e enfrentando questionamentos que são uma verdadeira saia justa. Ela é ótima ao transmitir a confusão de uma Gerda que parece não saber muito bem até que ponto vai a brincadeira do marido em se vestir de mulher ou muito menos quando ela deve parar de incentivá-la, principalmente quando sua arte ganha até exposições em Paris a partir dos belos quadros realizados com Einar inteiramente travestido de Lili. Vikander é consistente na hora de demonstrar fragilidade (a cena em que ela implora para Lili lhe devolver seu marido é um dos melhores momentos) e sensível ao externalizar a generosidade de uma mulher que coloca o outro em primeiro lugar.
O feito de Vikander conseguir chamar a atenção em cena é grande porque Eddie Redmayne é nada menos do que extraordinário como Einar Wegener/Lili Elbe. Em A Teoria de Tudo já era possível ver o quão impressionante Redmayne é no assunto trabalho corporal, mas aqui a sua transforação física é muito mais ampla dramaticamente porque, ao contrário da personificação de Stephen Hawking, ela dá mais possibilidades ao ator na construção dramática. Com um olhar, Redmayne, já um tipo um tanto andrógeno que facilita a confusão de gênero do personagem, transmite todo o universo de um homem quase-mulher que, de repente, se vê fascinado ao experimentar um vestido, ou a felicidade de uma agora-mulher que é finalmente aceita ao conquistar um emprego. A longa (e criticada) repetição dos mesmos gestos também surge claramente proposital, pois estamos acompanhando a jornada de uma pessoa que precisa reconstruir por inteiro a sua identidade emocional e física.
Tanto Vikander quanto Redmayne engrandecem o filme, procurando amortecer a série de problemas que se instalam a partir do momento em que Einar finalmente assume sua nova condição a partir da metade do filme. É nesse ponto que A Garota Dinamarquesa fica superficial, preocupando-se mais em trocar os vestidos do guarda-roupa desenhado por Paco Delgado a cada cena do que necessariamente discutir o que se passa na mente de Einar agora Lili. Desta forma, o roteiro de Coxon apenas reproduz questões já debatidas e retoma quase de forma displicente personagens esquecidos, como o Henrik de Ben Whishaw. Isso faz com que o filme patine, tornando pouco impactante até mesmo o tão esperado momento em que o protagonista, depois de diagnosticado esquizofrênico e até mesmo espancado nas ruas, finalmente encontra uma alma compreensiva que concorda em fazer a sua cirurgia de troca de sexo.
Tom Hooper, aqui mais comedido em relação a seus enquadramentos estranhos, é quem menos imprime alguma identidade ao resultado, o que é estranhamente positivo no caso dele, visto que o diretor constantemente tende a chamar mais atenção do que deveria quando tenta colocar na tela alguma identidade na tela. Com isso, o que fica na lembrança mesmo é que, apesar boa dignidade e respeito por seus personagens, A Garota Dinamarquesa vale mais como o show de dois jovens atores em papeis complicados, mas tratados por eles com o devido talento e sutileza. Isso por si só já deveria ser um incentivo para que os implicantes deixassem de lado suas eventuais birras e percebessem as pequenas mas significativas vitórias de A Garota Dinamarquesa.
A Grande Aposta
Everyone, deep in their hearts, is waiting for the end of the world to come.

Direção: Adam McKay
Roteiro: Adam McKay e Charles Randolph, baseado no livro “The Big Short”, de Michael Lewis
Elenco: Steve Carell, Christian Bale, Brad Pitt, Ryan Gosling, Marisa Tomei, John Magaro, Finn Wittrock, Jeremy Strong, Hamish Linklater, Wayne Pére, Melissa Leo, Margot Robbie, Selena Gomez, Tony Bentley
The Big Short, EUA, 2015, Comédia, 130 minutos
Sinopse: Michael Burry (Christian Bale) é o dono de uma empresa de médio porte, que decide investir muito dinheiro do fundo que coordena ao apostar que o sistema imobiliário nos Estados Unidos irá quebrar em breve. Tal decisão gera complicações junto aos investidores, já que nunca antes alguém havia apostado contra o sistema e levado vantagem. Ao saber destes investimentos, o corretor Jared Vennett (Ryan Gosling) percebe a oportunidade e passa a oferecê-la a seus clientes. Um deles é Mark Baum (Steve Carell), o dono de uma corretora que enfrenta problemas pessoais desde que seu irmão se suicidou. Paralelamente, dois iniciantes na Bolsa de Valores percebem que podem ganhar muito dinheiro ao apostar na crise imobiliária e, para tanto, pedem ajuda a um guru de Wall Street, Ben Rickert (Brad Pitt), que vive recluso. (Adoro Cinema)

Não é por não vivermos nos Estados Unidos que A Grande Aposta é um filme de temática complicadíssima. Até mesmo para os estadunidenses falar sobre o mercado imobiliário de Wall Street parece uma tarefa desafiadora. Uma prova disso é o fato da Paramount, distribuidora do filme, só ter embarcado nele depois do diretor Adam McKay concordar em assinar uma sequência da comédia O Âncora: A Lenda de Ron Burgundy. Ou seja, quiseram garantir um bom retorno financeiro caso o filme fracasse (e era exatamente isso o que o estúdio esperava). Além disso, a própria forma como McKay, em parceria com Charles Randolph, constrói o roteiro acusa a consciência de que o assunto é erudito: frequentemente, a história praticamente estaciona para colocar pessoas comuns como eu e você explicando, de forma simplista e comparada a ideias corriqueiras do cotidiano de qualquer pessoa, detalhes dos negócios imobiliários em questão.
É óbvio que não deixa de ser frustrante ter que acompanhar A Grande Aposta como uma aula de economia onde só falta você ter que usar um caderninho de anotações para não esquecer teorias importantes, mas, por outro lado, essa consciência de que não está lidando com um assunto fácil só ajuda o filme a se tornar mais digerível e, principalmente, a ter uma personalidade das mais autênticas. A Grande Aposta consegue achar um belo meio termo entre o inacessível (não é o caso de você sair da sala de cinema sem ter entendido coisa alguma) e o didático (muito menos ficamos com a sensação de que Adam McKay está ministrando um curso rápido de economia imobiliária), o que é consequência direta do tino cinematográfico do filme e da longa trajetória do diretor com as comédias. Um exemplo disso é que, em certo ponto, o narrador chega a nos perguntar se estamos entediados com tantas explicações sobre o assunto, o que simboliza tudo o que precisamos saber sobre a pegada cômica de A Grande Aposta.
Basicamente, sempre há algo de novo para se aprender em cada cena. Do início ao fim, o filme metralha novas siglas e teses para falar sobre a crise que afetou os Estados Unidos em 2008. Entretanto, por mais que não se capte tudo o que é explicado sobre o universo financeiro em que os personagens estão inseridos, isso não é fator decisivo para se compreender a dramaticidade e o humor essencial de A Grande Aposta. Isso mesmo, pode ser que depois da sessão ninguém mais lembre o que é subprime, mas a discussão moral sobre até que ponto se deve tirar proveito de uma crise e a inacreditável cruzada de personagens que apostaram em uma probabilidade quase ridícula são plenamente sentidas pelo espectador.
Além de ter esse mérito quase inalcançável de tornar tragável – e até mesmo divertido e dramático – esse texto tão desinteressante e distante de nossas vidas, McKay acerta em outros aspectos fundamentais. É admirável, por exemplo, o trabalho que ele firma com o montador Hank Corwin, tornando A Grande Aposta um filme rápido e dinâmico, mas nunca frenético e responsável por tontear ainda mais o espectador. No entanto, principalmente, o que que resume a maturidade do diretor é a forma como ele conduz seus personagens, tanto para o humor quanto para o drama. E não estamos falando apenas da piada intrínseca que existe em trazer alguém como a cantora pop Selena Gomez para explicar um dos tantos termos técnicos de economia imobiliária, mas dos próprios protagonistas mesmo.
Deixo de lado a performance celebrada de Christian Bale para falar de um injustiçado: Steve Carell. Enquanto Bale adicionou uma indefensável (e preguiçosa) indicação ao Oscar de coadjuvante por seu trabalho aqui, não há dúvidas que o verdadeiro show de A Grande Aposta é de Carell, que já era um grande ator muito antes do mundo descobri-lo dramaticamente em Foxcactcher – Uma História Que Chocou o Mundo (não deixem de procurar ou rever a força de sua sutileza em pequenos grandes filmes como Pequena Miss Sunshine e Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada). Ele rouba a cena aqui porque sintetiza todo o universo mostrado pelo filme: nervoso e irritado, seu Mark Baum parece sempre prestes a infartar tamanha a preocupação com os negócios. Elogiá-lo pela comédia é fácil (com o detalhe de que ele em nada repete trejeitos do seu clássico Michael Scott do seriado The Office) e aqui ainda existe espaço para que ele exercite novamente seu lado puramente dramático, já que o personagem é assombrado pelo suicídio do irmão e por sua parcela de responsabilidade em um negócio que tem o poder de abençoar ou destruir vidas.
O que mais influencia na avaliação final de A Grande Aposta é a discussão sobre até que ponto a falta de identificação com um tema pode minar o nosso interesse por um filme, mesmo que ele seja inegavelmente original e bem conduzido. É esse mesmo o caso da obra de Adam McKay, que, em sua forma é condução, dribla as complicações do tema que debate. Agora, se realmente vamos cair de amores por ele é uma história bastante diferente. Não deixo de lembrar de grandes professores que tive ao longo da minha trajetória acadêmica, em especial àqueles das ciências exatas que, de forma tão original e inovadora, descomplicavam as disciplinas já sabendo que elas eram extensivamente rejeitadas por boa parte dos estudantes. Apesar da minha admiração pelo talento deles, devo confessar: nunca tais professores me fizeram gostar de verdade do conteúdo que ensinavam mais do que eu apreciava uma aula convencional de português, inglês, história ou literatura. Às vezes, realmente é apenas uma questão de gosto. A Grande Aposta que me perdoe.
Joy: O Nome do Sucesso
Don’t ever think that the world owes you anything, because it doesn’t.

Direção: David O. Russell
Roteiro: David O. Russell
Elenco: Jennifer Lawrence, Robert De Niro, Bradley Cooper, Virginia Madsen, Diane Ladd, Isabella Rossellini, Édgar Ramírez, Dascha Polanco, Elisabeth Röhm, Susan Lucci, Laura Wright, Maurice Benard, Donna Mills, Jimmy Jean-Louis, Ken Howard
Joy, EUA, 2015, Drama, 124 minutos
Sinopse: Criativa desde a infância, Joy Mangano (Jennifer Lawrence) entrou na vida adulta conciliando a jornada de mãe solteira com a de inventora e tanto fez que tornou-se uma das empreendedoras de maior sucesso dos Estados Unidos. (Adoro Cinema)

Não deve ter sido fácil para David O. Russell, depois de uma escalada inabalável de sucesso nos últimos anos, ver Joy: O Nome do Sucesso fracassar diante de público e crítica, especialmente quando as premiações sugerem que somente Jennifer Lawrence é digna de nota em seu mais novo filme. Por outro lado, curiosamente, não há grandes razões para terem rebaixado tanto Joy, um longa que, sem dúvida, é menor e menos expressivo dentro da carreira do diretor, mas que sequer chega perto da irritabilidade causada por O Lado Bom da Vida e Trapaça, obras anteriores assinadas por ele e misteriosamente celebradas pelo mundo inteiro. Ora, Joy realmente não faz nada de tão grave para ser o patinho feio da recente filmografia de David O. Russell. Ou talvez isso seja apenas consequência da expectativa zerada desse meu coração que nunca entendeu muito bem tanta festa para um diretor que não passa do mediano.
Joy já começa anunciando que é sobre a força feminina e uma celebração a histórias de mulheres como a personagem-título, que venceram adversidades e prosperaram na vida apesar das dificuldades. Também é logo após esse letreiro que O. Russell coloca na tela a cena de uma telenovela clichê e exagerada, sugerindo que é justamente o tom de quase-fábula que o filme pretende seguir. Ambas são intenções muito válidas, mas nunca desenvolvidas com firmeza. O que acontece é que Joy se prende demais aos fatos de um fiapo de história (a da mulher que inventou um esfregão que se retorcia sozinho!) do que na personalidade visionária e à frente de seu tempo da protagonista. Já no tom empregado, é curioso como O. Russell baixa o tom da caricatura em uma história que, para flertar com a fábula, precisava exatamente de alternativas como os barracos e as gritarias tão mal calibradas em seus longas anteriores.
É até estranho constatar que Joy seja um dos filmes mais pé no chão do diretor, já que não faz muito sentido com o que o roteiro propõe. Puxando a história para o realismo, David O. Russell evidencia os problemas que devem ter afastado seus fieis escudeiros. Afinal, se o diretor não utiliza sua veia cômica para brincar com a ideia de Joy Mangano (Jennifer Lawrence, novamente indicada ao Oscar) ser uma espécie de Gata Borralheira, não dá para engolir a unilateralidade de personagens como o pai da moça, basicamente um senhor insensível e interesseiro desprovido de senso paternal. Sem uma pegada mais criativa, também não é fácil levar na esportiva a série de abusos emocionais que a protagonista sofre passivamente de uma verdadeira família de urubus que se instalou em sua casa. Calcada no realismo, a dramaticidade de Joy não tem impacto, e um pouco de imaginação pop ou pueril só faria bem à saga de nossa heroína.
Conformados com a ideia de que Joy opta por seguir o caminho oposto do que o roteiro precisava para entregar algo diferente, encontramos um filme tradicional cozinhado em baixíssima fervura. Não há nada de muito especial na condução dessa história de uma mulher empreendedora que só passa a demonstrar personalidade de verdade quando o filme se encaminha para o final – e é aí que Jennifer Lawrence realmente tem algo diferente para trabalhar. A atriz é um capítulo à parte na discussão de Joy porque, em um espaço muito curto de tempo na carreira, conquistou a maior bênção e maldição que se pode ter em Hollywood: o estrelato. É inegável que a superexposição e até mesmo a supervalorização de sua figura (sou do time que considera seu Oscar de melhor atriz muito prematuro) dificultam diretamente a aceitação que temos de seu trabalho, já que precisamos sempre fazer um certo esforço para distinguir Jennifer Lawrence de um verdadeiro personagem em cena, mas a moça é boa e, apesar de ter sido erroneamente escalada para o papel só por ser a galinha dos ovos de ouro do diretor (uma atriz de idade mais avançada traria muito mais credibilidade ao papel), é quem eventualmente dá brilho a um filme de elenco subutilizado. Realmente, somente Lawrence é digna de alguma nota em Joy, o que, ainda assim, não quer dizer muita coisa.