Cinema e Argumento

Rapidamente: “Ave, César!”, “O Menino e o Mundo”, “Pelo Malo” e “Zootopia”

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Para fazer sessão dupla: assim como o ótimo Tomboy, da França, o venezuelano Pelo Malo retrata a infância sob à luz de gênero, sexualidade e expectativas acerca de expressões.

AVE, CÉSAR! (Hail, Caesar!, 2016, de Joel e Ethan Coen): A comédia é um terreno muito perigoso na carreira dos irmãos Coen. Ao longo dela, a dupla já assinou obras muito afiadas (O Amor Custa CaroQueime Depois de Ler e, claro, Fargo), mas também trabalhos bastante tediosos (Matadores de Velhinhas, Um Homem Sério), o que despertava certa curiosidade acerca de Ave, César!, filme que abriu o Festival de Berlim deste ano e que traz um elenco para ninguém botar defeito. De George Clooney (em sua quarta colaboração com os Coen) a Ralph Fiennes, a má notícia, no entanto, é que Ave, César! não passa de uma tremenda decepção, onde qualquer admiração maior por parte da crítica vem exclusivamente do fato do filme ser uma homenagem à era de ouro do cinema dos anos 1950. Excetuando o tributo à sétima arte e o inegável carisma dos atores (vale mencionar a cena musical com Channing Tatum, ator que vem, aos poucos, incrementando sua carreira), Ave, César! sofre do mesmo problema do recente Deadpool: referências de mais e história de menos. Em ambas as obras é possível sim se divertir, mas falta consistência e principalmente envolvimento. Os irmãos Coen entregam um filme bem produzido e beneficiado por ótimos intérpretes, só que vazio até mesmo para quem embarca aqui ou ali no humor dedicado aos bastidores do fazer cinematográfico.

O MENINO E O MUNDO (idem, 2013, de Alê Abreu): Primeira animação de língua portuguesa indicada ao Oscar de melhor animação, O Menino e o Mundo fez uma bela carreira no exterior. Além da merecida lembrança no prêmio da Academia, o filme de Alê Abreu se consagrou ao levar o prêmio Cristal e o troféu do público no festival de Annecy, realizado na França e um dos mais importantes do segmento de animação do mundo. É muito carinhoso o relato que o diretor faz sobre um garoto que viaja pelo mundo em busca do pai que foi embora de casa, transportando a ideia inicial do projeto de ser um documentário sobre a América Latina para o universo de uma animação extremamente criativa em detalhes e também na costura do visual com a própria narrativa. Muito próximo do que o Brasil realiza no gênero visualmente falando (para quem quiser fazer uma dobradinha, a dica é conferir Até Que a Sbórnia nos Separe, de Otto Guerra e Ennio Torresan Jr., que também concorreu no festival de Annecy no mesmo ano de O Menino e o Mundo), o resultado chega a ser tocante por sua delicada simplicidade. Abreu, que desenhou a próprio punho cada um dos desenhos da animação, não deixa de transparecer a vontade inicial do filme ser um documentário (quando o protagonista chega à metrópole, a pegada se torna outra, o que dá uma certa abalada no ritmo), mas os 80 minutos de metragem são sempre interessantes, seja pela narrativa ou pela estética – e isso é algo que boa parte das animações de orçamentos milionários sequer consegue alcançar.

PELO MALO (idem, 2013, de Mariana Rondón): Realizado quase paralelamente ao ótimo Tomboy, da França, o venezuelano Pelo Malo é outro drama muito necessário sobre a busca por uma identidade em plena infância. Enquanto em Tomboy acompanhávamos os dias de uma menina que se camuflava como menino em uma nova vizinhança, em Pelo Malo somos testemunhas da vida do pequeno Junior (Samuel Lange Zambrano), garoto de família humilde que sonha ter os cabelos lisos para reproduzir o visual de um famoso cantor. O que acontece é que a mãe não sabe lidar muito bem com a situação, acreditando que o filho, através dessa e de outras expressões, está colocando para fora a sua homossexualidade. Terceiro longa-metragem assinado por Mariana Rondón, Pelo Malo, assim como Tomboy, preza pelo naturalismo ao tratar com dignidade e delicadeza as confusões internas de uma criança que está começando a construir sua própria personalidade. Talvez o caso do filme venezuelano seja ainda mais complicado porque o protagonista tem a sua naturalidade podada por todos a sua volta – e até mesmo a avó, única figura que parece compreender (mesmo que com segundas intenções), os ímpetos do menino, tem uma relação extremamente conturbada com a família. Ainda assim, como vamos aos poucos descobrindo, Pelo Malo não é necessariamente sobre autodescoberta em relação à orientação sexual, mas sim em relação a qualquer identidade que vamos abraçar para a vida inteira, dos cabelos que queremos ter aos amigos que precisamos nos cercar. É inspirador vermos uma representatividade como essa registrada com grande sensibilidade no cinema. 

ZOOTOPIA – ESSA CIDADE É O BICHO (Zootopia, 2016, de Byron Howard, Jared Bush e Rich Moore): Seguindo no assunto diversidade, Zootopia é um belo exemplo de animação que ensina os pequenos a ter autenticidade desde sempre. Ao narrar a história de uma pequena e adorável coelhinha que tem o sonho de ir para a cidade grande e se tornar policial (profissão atribuída apenas a animais muito maiores e fortes, mas também menos espertos do que ela), a animação é belíssima ao envolver os pequenos nessa mensagem de que não devemos nunca nos acomodar com menos do que aquilo que queremos e precisamos ser. Até mesmo um discurso motivacional previsível ganha contornos emocionantes a partir dessa abordagem e, principalmente, da simpatia de nossa irresistível protagonista e também de seu agora-amigo raposo. Já a parte da trama em si não envolve tanto, mesmo com a admirável escolha de transformar Zootopia em um verdadeiro filme de investigação que envolve até corrupção política! Algo se perde na mistura e todo o recheio da história não é tão interessante quanto a cobertura. Talvez o problema seja o filme fazer mistério demais para chegar a revelações que não são particularmente consistentes, mas é fato que a animação fica no meio do caminho, caindo no velho defeito de ter uma ideia que renderia muito mais em um curta-metragem. 

Invocação do Mal 2

Does it feel like it’s coming from inside of you?

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Direção: James Wan

Roteiro: Carey Hayes, Chad Hayes, David Johnson e James Wan, baseado em história de Carey Hayes, Chad Hayes e James Wan

Elenco: Vera Farmiga, Patrick Wilson, Madison Wolfe, Frances O’Connor, Franka Potente, Lauren Esposito, Benjamin Haigh, Patrick McAuley, Simon McBurney, Maria Doyle Kennedy, Simon Delaney

The Conjuring 2, EUA, 2016, Terror, 134 minutos

Sinopse: Sete anos após os eventos de Invocação do Mal (2013), Lorraine (Vera Farmiga) e Ed Warren (Patrick Wilson) desembarcam na Inglaterra para ajudar uma família atormentada por uma manifestação poltergeist na filha. A trama é baseada no caso Enfield Poltergeist, registrado no final da década de 1970. (Adoro Cinema)

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Quando estreou em 2013, Invocação do Mal fez merecido barulho entre os fãs (e leigos) de terror. Simples, mas extremamente eficaz ao utilizar competentemente as ferramentas básicas do gênero para causar medo (a porta que bate, o pássaro que derruba um copo, a janela que quebra), o longa, que faturou nove vezes mais do que o seu orçamento de 20 milhões de dólares ao redor do mundo, alcançava tal excelência pelo gabarito de seu diretor, o malaio James Wan, responsável por outro marco recente do terror: o primeiro Jogos Mortais. Entre o Invocação do Mal original e este segundo que chega agora aos cinemas cercado de expectativas e boas críticas, Wan engordou a poupança com o sucesso financeiro estrondoso de Velozes & Furiosos 7. Ele chegou a ser convocado para o oitavo, mas recusou a fortuna que, segundo ele, “mudaria uma vida” para voltar às origens e realizar Invocação do Mal 2. É bom ter James Wan de volta, por mais que, nessa sequência, ele mostre muito mais do que deveria.

O terror é sempre uma viagem muito pessoal porque cada um se amedronta com aquilo que mexe com imaginários particulares. Do lado de cá, sou adepto a tudo aquilo que está escondido e que nossa mente está disposta a criar. Dessa forma, ainda que o primeiro Invocação do Mal trate de um tema, digamos, expositivo (as famosas possessões por espíritos), Wan conseguia deixar boa parte do serviço para a nossa própria paranoia, camuflando aquilo que de fato está atormentando os personagens. Era isso que engrandecia a produção original e que, curiosamente, não é retomado à risca nessa continuação. Em Invocação do Mal 2, o diretor segue se esmerando em cenas perfeitamente climáticas e envolventes, enquanto, por outro lado, perde pontos ao tornar sua história muitos mais verbal, barulhenta e visual se comparada ao que realizou em 2013 e a tantos exemplares do gênero que acreditam que a elevação do tom é garantia de pavor da plateia. Um erro no mínimo amador para um profissional tão esperto.

O contexto de Invocação do Mal 2 é basicamente o mesmo do filme anterior (e, nessa comparação, podemos dizer que essa é uma obra de poucas inovações), trocando apenas o cenário: dessa vez, vamos para a Inglaterra dos anos 1970, onde somos apresentados ao famoso (e verídico) caso de possessão de Enfield Poltergeist. O clima britânico ajuda bastante, uma vez que, das locações ao sotaque dos novos atores, tudo parece mais real ao nos distanciarmos do cinema estadunidense que tanto explora o terror. Claro que Patrick Wilson e Vera Farmiga continuam em cena (aliás, ela, que se especializou em conviver com o suspense e o bizarro na série Bates Motel, é particularmente eficiente), mas a sequência se torna mais realista ao fazer essa troca de ares. Invocação do Mal 2 ainda potencializa seu tino para o suspense ao colocar na tela um design de produção minucioso que as moradias europeias com uma leitura profundamente soturna e as cores sempre gélidas e nada aconchegantes da fotografia assinada pelo experiente Don Burgess (Forrest Gump – O Contador de HistóriasNáufrago, o primeiro Homem-Aranha de Sam Raimi) que casam perfeitamente com todas as outras ferramentas devidamente alinhadas por James Wan.

A ruptura que acontece rumo à excelência total está em um detalhe aparentemente corriqueiro, mas decisivo para Invocação do Mal 2 – e ele é, como já citado nesse texto, o tom mais elevado empregado aqui. Logo na ótima sequência de abertura já é possível constatar que James Wan decidiu ser mais expositivo, e a sensação só é reforçada dali em diante: ao longo de suas extensas duas horas de duração, o filme não hesita ao materializar na tela medos que deveriam ser desenhados pela nossa imaginação, como a construção de figuras digitais para nos assombrar (algo que destruiu o péssimo Mama, por exemplo). Isso acaba se refletindo na própria estrutura, que, já um tanto repetitiva ao mostrar constantemente uma noite repleta de acontecimentos estranhos na casa da família, se dilui ao mostrar, por exemplo, um boneco gigante feito em computador arrastando uma criança com um guarda-chuva. Na raiz desse gênero tão pessoal, Invocação do Mal 2 faz uma escolha comercial assumidamente óbvia (afinal, o grande público prefere a grandiloquência à discrição) e que pode ser bastante decisiva para espectadores como eu, que se distanciam do terror justamente pela previsibilidade e falta de identificação. James Wan continua grande como artista do medo em muitos aspectos. No entanto, é de se pensar que, criativamente, continuações possam amortecer sua visão artística.

Rapidamente: “Mommy”, “Tirando o Atraso” e “Wood & Stock”

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Anne Dorval brilha como a protagonista de Mommy, um dos filmes mais expressivos da carreira do canadense Xavier Dolan

MOMMY (idem, 2014, de Xavier Dolan): Tive um longo hiato com o cinema de Xavier Dolan até chegar a esse Mommy, drama de 2014 estrelado por uma magnífica Anne Dorval. O distanciamento foi proposital porque considero Eu Matei Minha Mãe, de 2009, um filme superestimadíssimo e frequentemente afetado, o que me levou a fugir da superexposição alcançada pelo cineasta posteriormente com obras com Laurence AnywaysAmores Imaginários. Não sei se o tempo fez realmente bem ao jovem canadense, mas Mommy é mesmo um filme mais comedido e regulado em seus exageros de tom e narrativa. É importante Dolan ter deixado o narcisismo de lado ao eventualmente abrir mão de protagonizar os próprios filmes porque, com isso, ele dá espaço para pensar mais como diretor e menos como um ator imaturo (e nada extraordinário) que procura apenas se fetichizar frente às câmeras como um símbolo jovem e gay do cinema “alternativo” falado em francês. Ao evoluir nesse sentido, ele dá chances para Anne Dorval, por exemplo, criar uma figura completa: envolvente como uma mãe linda, jovem e desbocada que nunca cai na caricatura, ela também de certa forma nos testa com suas irresponsabilidades maternas e sua negação frente aos problemas do filho. O elenco todo é muito bom (a vizinha vivida por Suzanne Clément é digna de nota), a trilha sonora se revela esperta e agridoce (o encerramento com Born to Die, da Lana Del Rey, é bastante simbólico) e o filme nunca chega a ser frágil ou superficial em suas análises dramáticas. Dolan ainda precisa regular o excesso de gritaria em discussões e outros maneirismos quando coloca seus personagens em colisão (algo que acontece com bastante frequência), mas, se continuar no ritmo de Mommy, talvez eu venha mesmo a fazer as pazes com ele.

TIRANDO O ATRASO (Dirty Grandpa, 2016, de Dan Mazer): Humor é algo sempre muito particular, e por isso é tão difícil fazer comédias, mas há um limite para tudo, como esse Tirando o Atraso, que chega a encenar uma piada sobre pedofilia ao sugerir que um Zac Efron praticamente nu estaria forçando uma criança a lhe fazer sexo oral no meio de uma praia. É realmente de um mau gosto tremendo e um caso específico de fundo do poço para seus dois protagonistas. Primeiro para Efron, que já chegou a ter desenvoltura e aptidão em comédias e musicais como 17 Outra VezHairspray – Em Busca da Fama, além de chances importantes como trabalhar com Richard Linklater (Eu e Orson Welles) e ter até filme exibido na competição de Cannes (o desfocado Obsessão, de Lee Daniels). Só que a sede por holofotes falou mais alto do que a ambição cinematográfica, e hoje Efron só parece preocupado em tirar a camisa em filmes desastrosos como esse Tirando o Atraso. Segundo para Robert De Niro, um grande ator que tem se submetido a situações constrangedoras para… pagar as contas? Não se engane: ao passo que nem a nudez constante de Efron surge verdadeira (basta navegar um pouco no Google para descobrir que ele usou dublês e CGI ao supostamente tirar a roupa), a experiência de De Niro como ator parece inexistente aqui, já que ele repete, cena após cena, as suas caretas tão imitadas por humoristas. Às vezes, a história de Tirando o Atraso até tem certo fôlego ao discutir de forma civilizada as incoerências de um jovem que já parece ter encerrado seus sonhos em comparação a um senhor cheio de vontade de fazer as loucuras que bem entende por aí, mas é questão de tempo até o roteiro desgraçar tudo ao lançar mais uma piada física repleta de vômito, nudez, drogas, sexo ou palavrões no pior estilo imaginável.

WOOD & STOCK: SEXO, ORÉGANO E ROCK’N’ROLL (idem, 2006, de Otto Guerra): O gaúcho Otto Guerra desfrutava um dos grandes momentos de sua carreira quando colocou Wood & Stock: Sexo, Orégano e Rock’n’Roll nas telas do cinema em 2006. Recém vindo de um grande sucesso na TV com a campanha O Amor é a Melhor Herança, para a RBS TV, ele adaptou a ácida obra do chargista paulista Angeli para esse longa que chegou a contar com a dublagem de ninguém menos do que a cantora Rita Lee. Por costurar charges isoladas, obviamente ficam lacunas de ritmo e interesse na história, que, apesar de condensada em apenas 81 minutos, chega a se desgastar um pouco em sua reta final. Porém, Otto Guerra tem um olho muito clínico para a escolha de tramas e personagens diferenciados. Foi assim no universo particular de Até Que a Sbórnia nos Separe, seu longa posterior baseado no universo do espetáculo gaúcho Tangos e Tragédias, e também com o próprio Wood & Stock, que encontra, no carisma de seus protagonistas, uma simetria que talvez falte ao filme em si em termos de narrativa. Todos curiosos e divertidos em seus extremos, os personagens carregam críticas bastante atuais, como as de Rê Bordosa, que, recém saída de uma clínica de reabilitação, frequentemente questiona o que é esperado de uma mulher na sociedade. Pode até ser que Wood & Stock não seja uma grande animação, mas personalidade ela tem de sobra, o que já deve ser mais do que recompensador para um formato pouco explorado pelos brasileiros.

Jogo do Dinheiro

Without risk, there is no reward.

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Direção: Jodie Foster

Roteiro: Alan DiFiore, Jamie Linden e Jim Kouf, baseado em história de Alan DiFiore e Jim Kouf

Elenco: George Clooney, Julia Roberts, Jack O’Connell,  Dominic West, Giancarlo Esposito, Caitriona Balfe,  Christopher Denham, Lenny Venito, Chris Bauer, Condola Rashad, Aaron Yoo

Money Monster, EUA, 2016, Drama/Suspense, 98 minutos

Sinopse: Lee Gates (George Clooney) é o apresentador do programa de TV “Money Monster”, onde dá dicas sobre o mercado financeiro mesclando com performances típicas de um popstar. Um dia, um desconhecido (Jack O’Connell) invade o programa exatamente quando ele está sendo gravado e, com um revólver, obriga Lee a vestir um colete repleto de explosivos. Patty Fenn (Julia Roberts), a produtora do programa, imediatamente ordena que o mesmo saia do ar, mas o invasor exige que ele permaneça ao vivo, caso contrário matará Lee. Assim acontece e, a partir de então, tem início uma investigação incessante para descobrir quem é o sequestrador e algum meio de salvar todos os que permanecem no estúdio. Paralelamente, a audiência do programa sobe sem parar e todos passam a acompanhar o que acontecerá com o apresentador. (Adoro Cinema)

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Ao receber, em 2013, o troféu Cecil B. DeMille, a grande homenagem do Globo de Ouro para a contribuição de um artista ao cinema, Jodie Foster entregou o melhor discurso visto em anos durante qualquer cerimônia de premiação. O pronunciamento da atriz, entre outros tópicos, apontava discretamente para uma mudança em sua carreira: para bom entendedor, foi fácil perceber que Jodie, vencedora de dois Oscars, já estava desacelerando sua carreira de atriz nos últimos tempos e que, a partir dali, abandonaria maiores holofotes para se dedicar a outros projetos, muito possivelmente atrás das câmeras. Nosso instinto estava certo, pois desde Elysium, sua última investida como intérprete, ela procurou se esmerar como diretora ao comandar episódios de séries como Orange is the New BlackHouse of Cards. No cinema, àquela altura, já eram três os títulos que levavam sua assinatura, e o quarto chega agora com Jogo do Dinheiro, reforçando o desejo de Jodie Foster de agora ser exclusivamente uma contadora de histórias.

Levando em consideração mais o seu novo trabalho do que o anterior (o curioso Um Novo Despertar, protagonizado por Mel Gibson em 2011), não é muito difícil chegar a conclusão de que, caso Jodie Foster queira mesmo se tornar persona mais marcante no cinema como diretora do que atriz, precisa encontrar roteiros melhor lapidados daqui para frente. A experiência adquirida ao atuar em filmes cercados de tensão, sejam elas dramáticas ou policialescas, como AcusadosO Plano Perfeito, tem claro reflexo no que ela entrega aqui. Com bom domínio do ritmo de seu filme e especialmente do tom de suspense e até mesmo de bom humor que atribui a ele, a atriz-agora-diretora se mostra segura atrás das câmeras, o que faz um notável contraponto ao frágil roteiro escrito pelo trio Alan DiFiore, Jamie Linden e Jim Kouf. Se Foster consegue criar a tensão arquitetada em basicamente dois ambientes, o texto falha ao trazer abordagens mais consistentes ao cenário como um todo. Além das revelações dramáticas do sequestrador apenas seguirem a cartilha básica de humanização de personagens do tipo, decepciona como Jogo do Dinheiro prefere canalizar todas as suas críticas e resoluções a um personagem unidimensional que só aparece de fato no terço final da obra.

Contrabalançando a falta de discussões mais aprofundadas acerca do circo midiático e popular que se forma a partir de um programa que transmite um sequestro em tempo real, a reunião de dois atros do calibre de George Clooney e Julia Roberts reforça o prestígio de Jodie Foster como diretora e consequentemente do próprio filme. São os dois atores, em especial Clooney, que também conferem ao filme boa parte de seu envolvimento. Ele, por sinal, está impagável e dramático na medida certa como um apresentador que, ao se ver em uma situação complicadíssima de sequestro em rede nacional, acerta ao enrolar o sequestrador com todo o carisma que lhe tornou uma estrela e, em contramão, comete erros ao deixar visíveis as suas falhas como um sujeito rico, soberbo e excessivamente consciente do seu estrelato.

Clooney comanda o show porque, óbvio, está ótimo, mas porque Roberts fica apenas sentada atrás das câmeras tentando salvá-lo (e dizem as fofocas de bastidores que ela teria atuado boa parte do filme sem estar de fato no mesmo estúdio do ator em função de sua agenda complicadíssima) e porque Jack O’Connell (aquele ator que sofreu horrores no aborrecido Invencível), mesmo se esforçando, não tem, por natureza, uma presença intensa ou marcante. No balaio, coloque ainda um Dominic West que apenas repete – culpa do roteiro novamente! – o tipo difícil e cafajeste que vem desenvolvendo com grande competência no seriado The Affair. Ademais, bastante nervoso e divertido para os padrões de filmes dessa esfera sem maiores genialidades, Jogo do Dinheiro funciona, mas talvez marque mais caso seja encarado como uma breve diversão para um longo domingo chuvoso. 

I Smile Back

Nobody tells you that it’s terrifying to love something so much.

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Direção: Adam Salky

Roteiro: Amy Koppelman e Paige Dylan

Elenco: Sarah Silverman, Josh Charles, Skylar Gaertner, Shayne Coleman, Mia Barron, Thomas Sadoski, Sean Reda,  Cynthia Darlow, Terry Kinney, Clark Jackson,  Brian Koppelman, Emma Ishta,  Oona Laurence, Chris Sarandon,  Mia Katigbak

I Smile Back, EUA, 2015, Drama, 85 minutos

Sinopse: As coisas estão complicadas no subúrbio. Laney Brooks (Sarah Silverman), esposa e mãe, parou de tomar seus medicamentos, substituindo por drogas ilícitas e homens errados. Com a iminente destruição da família dela, Laney faz uma última e desesperada tentativa de redenção. (Adoro Cinema)

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É uma injustiça das mais tristes de se testemunhar: qualquer atriz à espera de um Oscar que entregasse exatamente o que Sarah Silverman entrega em I Smile Back varreria uma temporada de premiações e seria aplaudida mundo afora. O papel por si só já seria o sonho para qualquer intérprete aberta a desafios dramáticos: o da mulher suburbana que, casada com o marido perfeito e mãe de dois filhos, simplesmente não nasceu para cumprir tais papeis, constantemente se sabotando ao ser infiel e ao se drogar em qualquer banheiro. Imagine, então, o grande momento que I Smile Back representaria para a carreira de uma Laura Linney da vida, por exemplo, que certamente não seria nem sabotada pelo perfil altamente independente do filme de Adam Salky. Só que a protagonista Laney Brooks foi parar nas mãos da comediante de TV Sarah Silverman, o que automaticamente a desqualifica para receber maiores reconhecimentos, mesmo com uma importante indicação ao Screen Actors Guild Awards 2016 de melhor atriz. Realmente, uma triste injustiça. 

Por outro lado, dramaticamente falando, é muito esperto da parte de I Smile Back escalar uma atriz como Sarah Silverman para uma história como essa, já que, com tal escolha, nunca conseguimos prever o que ela pode fazer no gênero. Mais: temos em cena uma intérprete completamente livre de vícios de interpretação no drama e que, ao longo do filme, constantemente instiga o espectador ao levá-lo por caminhos que ele não imaginava que pudessem ser trilhados por ela. É com uma força para lá de discreta que Silverman, assim como o próprio I Smile Back, aos poucos nos imerge em sua dramaticidade. Existe um quê dos desesperos suburbanos frequentemente retratados pelo escritor estadunidense Tom Perrota (com destaque para Pecados Íntimos) na personagem, que tenta, a todo custo e apesar das repetidas falhas, cumprir os papeis que a sociedade impõe às mulheres. Mesmo tentando, nossa protagonista é, por natureza, incapaz de desempenhá-los, e é aí que mora o conflito mais angustiante da obra.

Pode até ser que o roteiro escrito pela dupla Amy Koppelman e Paige Dylan não tenha tanto esmero quanto os de outros representantes do cinema independente realizado nos Estados Unidos (é quase imperdoável, por exemplo, a total unilateralidade do marido vivido por Josh Charles, cuja perfeição como homem, pai e ser humano sequer chega a ser usada como mais uma forma de sufocar a protagonista), mas novamente a sobriedade reina, o que é essencial para conflitos que, em mãos descuidadas, seriam verdadeiros dramalhões, no pior sentido da referência. Felizmente, o diretor delineia bem as fronteiras dos tons dramáticos de I Smile Back, ganhando até mesmo momentos emocionantes quando toma o caminho oposto do esperado e reprime sentimentos que, em outras abordagens, renderiam uma infinidade de lágrimas e discussões, como na cena em que a personagem faz uma visita a uma antiga pessoa de seu conturbado passado. 

É somente nos minutos finais que Salky e os roteiristas saem da linha e pesam demais a mão em uma sucessão de acontecimentos repletos de infortúnios para tornar ainda mais nebuloso o fundo do poço em que se encontra a personagem. Não era necessário chegar a tantos extremos em um filme que se torna angustiante por justamente reprimir tanta coisa. Fora isso, ao saber dosar diversos temas como infidelidade, drogas, desarranjos familiares e matrimônio com as devidas proporções em uma duração de 85 minutos que poderia trazer superficialidade à história, I Smile Back é um acerto por, assim como tantos trabalhos de sua mesma natureza de produção, apostar no diálogo direto com a vida real, sem firulas cinematográficas – e isso é lindo, mesmo que custe ao próprio longa e a sua própria protagonista, em performance reveladora, um duro esquecimento que já pode ser notado: desde janeiro de 2015 rodando festivais como Sundance e Toronto, I Smile Back não tem previsão de lançamento no Brasil e, nos Estados Unidos, entrou em cartaz apenas em circuito limitado.