King Cobra
Let’s fuck!

Direção: Justin Kelly
Roteiro: Justin Kelly, baseado no livro “Cobra Killer”, de Andrew E. Stoner e Peter A. Conway
Elenco: Garrett Clayton, Christian Slater, James Franco, Keegan Allen, Alicia Silverstone, Molly Ringwald, Spencer Rocco Lofranco, Sean Grandillo, James Kelley, Edward Crawford, Rosemary Howard
EUA, 2016, Drama, 91 minutos
Sinopse: Brent Corrigan (Garrett Clayton), também conhecido como Sean Paul Lockhart, é uma estrela do mundo pornô gay. Apesar da ascensão rápida, as coisas começam a mudar quando o ator decide trabalhar por conta própria. A partir daí, uma dupla de produtores vê em Corrigan uma oportunidade de lucrar e alavancar a carreira na indústria pornográfica, e faz de tudo para não perder esta chance. (Adoro Cinema)

Um filme como King Cobra já nasce cercado de expectativas. E também de responsabilidades. As expectativas são para descobrir qual será a abordagem de um tema compartilhado tão cotidianamente na intimidade mundial, mas raramente revelado em uma conversa casual: a pornografia. Já a responsabilidade vem por essa pornografia ser exclusivamente a gay, o que dá aos realizadores o desafio de pensar o retrato de um tema basicamente inédito no cinema e de tentar reparar a covardia de filmes que não sabem lidar com as especificidades da nudez e da sexualidade masculina (ainda acho imperdoável um filme panfletário como Magic Mike ser tão tímido nesse sentido, principalmente por ter uma sequência que não corrigiu os tropeços do filme original). Mais do que despertar a curiosidade de uma significativa parte do público ao trazer para as telas um recorte da vida de Brent Corrigan – que, ainda hoje é considerado um dos mais icônicos atores da história da pornografia gay – King Cobra tinha esses tabus para superar. E o que decepciona no filme dirigido por Justin Kelly não é vê-lo caindo na vala comum de se esquivar de todos eles, mas sim de se atentar apenas racionalmente aos fatos e não ao enorme potencial psicológico e emocional dos personagens.
O momento encenado por King Cobra é delicado: aquele em que o jovem aspirante a cineasta Sean Paul Lockhart (Garrett Clayton) entra no mundo da pornografia gay, ascende no meio como um verdadeiro astro e se vê envolvido em uma relação cheia de vícios com Stephen, dono do estúdio que o coloca no mercado. A situação complica quando Stephen é encontrado morto, o que, segundo os investigadores do caso, foi consequência dos conturbados bastidores de sua vida pessoal e profissional com o ator debutante. A identidade dos assassinos é revelada em King Cobra, mas isso não quer dizer muita coisa, uma vez que o roteiro escrito pelo próprio diretor Justin Kelly com base no livro “Cobra Killer”, de Andrew E. Stoner e Peter A. Conway, captura de forma muito rasa as dimensões dessa tragédia. Para que tivesse o devido impacto, teríamos que compreender melhor as razões que fizeram de Lockhart o ícone Brent Corrigan (somente a beleza é constantemente mencionada, mas não é essa qualidade exclusiva que leva um jovem a estourar como um furacão no mercado pornográfico) e até aprender sobre a dinâmica da indústria, aqui reduzida a produções caseiras de um homem mais velho com uma pequena câmera na mão. Afinal, o que ele e Corrigan fazem de tão especial para ganhar tanto dinheiro? Julgando pelo que é explicado no filme, a questão fica em aberto. Nesse sentido, a referência mais óbvia vem à cabeça: o insuperável Boogie Nights – Prazer Sem Limites, de Paul Thomas Anderson, soberano em todas essas questões.
Quando afirmo que King Cobra é um filme que se desvia da missão de enfrentar os tabus envolvendo a nudez e o sexo masculino, estendo essa crítica à inexplicável economia do diretor e roteirista ao mostrar muito pouco do fazer cinematográfico na pornografia gay e principalmente do sexo também como motivação básica para o universo encenado atrás das câmeras. Ou não é estranho um filme com um tema tão específico se limitar a reproduzir a timidez das cenas de sexo da TV aberta, onde qualquer momento com esse teor acontece embaixo dos lençóis ou com a câmera posicionada bem distante do ponto de ação? Não há dúvidas de que um Azul é a Cor Mais Quente surge muito raramente e que é complicado chegar a uma transgressão quando também é preciso desconstruir a imagem de um astro teen da Disney como Garrett Clayton. Ainda assim, não é justo King Cobra ser um filme tão cheio de amarras, mesmo quando James Franco resolve jogar confetes no projeto (é só o que ele tem feito ultimamente: menos empenho na atuação e mais na polêmica) e quando o tema tem apelo para um público específico. O resultado se reflete na própria distribuição do longa, uma vez que a seleção para o festival de Tribeca parece não ter ajudado a carreira de King Cobra, que estreou em circuito limitado nos Estados Unidos simultaneamente com plataformas on demand como iTunes e Amazon.
O pudor da história poderia ser contornado se King Cobra se propusesse a fazer um relato mais complexo da vida de Brent Corrigan, que, a partir do texto apresentado pelos roteiristas, não passa de um jovem deslumbrado e facilmente seduzível por compras, dinheiro e oportunidades mais interessantes na carreira. A rasteira dramaticidade se perpetua nos outros personagens: enquando o Stephen de Christian Slater é um mero produtor ganancioso que eventualmente pincela um passado infeliz em diálogos fáceis e expositivos (nunca suficientes para que tenhamos qualquer envolvimento com sua figura), os namorados gays vividos por James Franco e Keegan Allen descambam para caricatura ao serem construídos apenas como dois trambiqueiros destrambelhados, quando, na verdade, são seres humanos completamente perdidos e sabotados por suas equivocadas visões de mundo. Pode até ser que o drama simplificado de King Cobra (ainda vale citar a mãe de Corrigan vivida por Alicia Silverstone, amargando duas cenas quase constrangedoras tamanha a falta de mergulho do texto em suas percepções quanto ao filho) não quisesse dar tanta voz aos dilemas de seus coadjuvantes, mas era obrigatório que fosse mais digno com a viagem emocional de um protagonista que, tão jovem, passou por tanta coisa, indo da fama instantânea ao verdadeiro inferno quando se viu envolvido em um assassinato também resolvido de forma simplista pelo filme.
A abreviação dos dramas frustra, claro, a força do relato e limita, a todo o momento, até o trabalho dos atores. Dois deles, entretanto, acertam tanto em suas criações que conseguem superar as cercas impostas por King Cobra. Destaca-se, por exemplo, como Keegan Allen nunca entra na batida histérica de seu colega James Franco e procura se apoiar em toda a confusão interna de um personagem constantemente manipulado pelo namorado. Enquanto isso, é preciso tirar o chapeu para a interpretação de Garrett Clayton como Brent Corrigan. Seu trabalho não deixa de ser um tanto mais fácil já que o longa pouco coloca o personagem à frente das câmeras como uma estrela pornô (o que exigiria um trabalho muito maior de reprodução de gestos e trejeitos), mas isso não tira os méritos de Clayton, que surpreende ao segurar muito bem o filme com todo o vigor de um jovem em plena descoberta. O ápice da criação do ator é a cena final, que, apesar de tentar emular o momento derradeiro de Boogie Nights em que finalmente é revelado o grande atributo físico de sua estrela pornô, também faz desse o melhor registro de King Cobra: nele, compreendemos quem é a estrela Brent Corrigan, os bastidores de uma produção pornográfica e toda a personalidade de um personagem nunca devidamente explorado. São, enfim, as contextualizações e justificativas que fariam de King Cobra uma experiência mais instigante e menos frustrante.
Inferno
The greatest sins in human history were committed in the name of love.

Direção: Ron Howard
Roteiro: David Koepp, baseado no livro homônimo de Dan Brown
Elenco: Tom Hanks, Felicity Jones, Ben Foster, Omar Sy, Irrfan Khan, Sidse Babett Knudsen, Ana Ularu, Ida Darvish, Jon Donahue, Christian Stelluti, Francesca Inaudi, Attila Árpa
EUA/Japão/Turquia/Hungria, 2016, Ação, 121 minutos
Sinopse: Florença, Itália. Robert Langdon (Tom Hanks) desperta em um hospital, com um ferimento na cabeça provocado por um tiro de raspão. Bastante grogue, ele é tratado por Sienna Brooks (Felicity Jones), uma médica que o conheceu quando ainda era criança. Langdon não se lembra de absolutamente nada que lhe aconteceu nas últimas 48 horas, nem mesmo o porquê de estar em Florença. Subitamente, ele é atacado por uma mulher misteriosa e, com a ajuda de Sienna, escapa do local. Ela o leva até sua casa, onde trata de seu ferimento. Lá Langdon percebe que em seu paletó está um frasco lacrado, que apenas pode ser aberto com sua impressão digital. Nele, há um estranho artefato que dá início a uma busca incessante através do universo de Dante Alighieri, autor de “A Divina Comédia”, de forma a que possa entender não apenas o que lhe aconteceu, mas também o porquê de ser perseguido. (Adoro Cinema)

James Bond da História, das artes e da religião, Robert Langdon (Tom Hanks) veio ao mundo em 2000, quando o escritor norte-americano Dan Brown lançou Anjos e Demônios, seu segundo livro após o divertido Fortaleza Digital. Nas páginas, o famoso simbologista de Harvard, no entanto, só virou febre três anos depois, quando O Código Da Vinci ganhou as livrarias e começou a ser traduzido para mais de 50 idiomas com polêmicas envolvendo teorias religiosas como aquela em que Brown versa sobre Jesus Cristo ter sido casado com Maria Madalena. De escrita simples, mas incrivelmente funcional para uma leitura leve, cheia de pesquisa e com tino para entretenimento, o escritor, apesar de outras obras protagonizadas por diferentes personagens como Ponto de Impacto e O Símbolo Perdido, volta e meia recorre a Robert Langdon, sujeito que, sempre com um emblemático relógio do Mickey no pulso, costuma salvar o mundo ao substituir armas e disputas físicas por inteligência na hora de desvendar as mais diversas e perigosas charadas históricas. Ou seja, Langdon pode até não ser um agente 00 a serviço do sistema de espionagem britânico, mas a concepção de suas histórias muito se assemelha ao que James Bond vive na literatura e no cinema: viagens internacionais, conspirações, corriqueiras perseguições e alguns interesses amorosos no caminho.
A proposta de Dan Brown virou febre (com toda razão), trazendo ao escritor uma carreira prolífera e duradoura que também se reflete nas 200 milhões de cópias vendidas ao redor do mundo a partir dos cinco livros lançados por ele desde Anjos e Demônios – e mais um já está a caminho para aumentar a cifra: Origin, previsto para 2017 e novamente protagonizado por Langdon. Já no cinema, mesmo com significativos trocados no caixa, a situação já é bem diferente. Com apenas três filmes em dez anos (esse espaçamento é complicado, uma vez que hoje Dan Brown já não goza da mesma influência e do fator novidade de antes), a saga do personagem na tela grande nunca chegou perto de alcançar a mesma força das discussões levantadas pelos livros ou até o mesmo senso de entretenimento deles. Gosto mais de O Código Da Vinci do que a média, mas reconheço que a direção tradicional de Ron Howard academiza toda e qualquer discussão, o que deixa a experiência para lá de didática. Já em Anjos e Demônios, que desaprovo mais do que a maioria, Howard tentou dar mais lugar à ação, mas pesando muito a mão ao transformar o Vaticano no lugar mais inverossímil e cheio de caos do planeta.
E, agora, chegamos a Inferno. Todo essa retrospectiva é importante para considerarmos o amontoado de obstáculos que uma nova aventura baseada no universo de Dan Brown precisa enfrentar, como a literatura agora menos expressiva de seu autor, o histórico nada favorável de críticas à saga no cinema e o fato de que o formato já conhecido das aventuras segue sob a tutela de Ron Howard, diretor, que, julgando pelos filmes anteriores, não encontrou o tom certo para as adaptações. Ainda há espaço e paciência para filmes dessa natureza? Sim e não. Inferno é, sem dúvida alguma, o trabalho mais bem resolvido em termos de personalidade quando comparado a O Código Da Vinci e Anjos e Demônios. Entretanto, fica evidente o problema da equipe em não conseguir solucionar problemas básicos de adaptação mesmo com a troca de roteirista (sai Akiva Goldsman, entra David Koepp). E o maior deles é novamente faltar fluidez na transição entre cenas altamente expositivas e a ação, já que, enquanto a correria desenfreada dilui todas as explicações e referências dos personagens, o conteúdo apresentado por eles nunca parece suficientemente crível para movimentar tantos conflitos.
Talentoso roteirista, Koepp, que escreveu de Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros a Missão: Impossível deixa a impressão de que está no piloto automático ao adaptar as exposições do livro, o que contamina o filme como um todo. É particularmente preguiçosa a forma como o protagonista precisa explicar tudo ao espectador até mesmo na hora da correria, onde frequentemente narra a ação ao dizer coisas como “agora nós vamos descer essa escada, atravessar uma ponte, entrar na porta à direita e chegar a uma sala onde estaremos a salvo”. Não é mais interessante simplesmente mostrar essa ação? O curioso é que, por mais que seja eventualmente esquemática, a entrada de Koepp é o que torna Inferno um entretenimento mais palatável do que os filmes anteriores. Por ter assinado o roteiro de icônicos filmes de aventura, ele compreende o poder do entretenimento, fazendo de Inferno uma experiência dinâmica e frequentemente divertida. Ajudam, claro, as lindas locações italianas devidamente aproveitadas por Ron Howard e as boas ideias do material original, em especial uma reviravolta que acontece no terço final e que compensa momentos que até então pareciam descuidos da história. Se o longa termina como um bom passatempo, isso é mérito quase todo de Koepp, que consegue disfarçar até o fato de Tom Hanks já não ter mais o físico para correr e lutar tanto como um Daniel Craig da vida.
Compensando, Hanks mais uma vez empresta simpatia e naturalidade ao protagonista, que, dessa vez, está acompanhado de Felicity Jones como sua bondgirl. Se a jovem atriz britânica ainda precisa mostrar ao que veio após uma esquecível indicação ao Oscar de melhor atriz por A Teoria de Tudo, o elenco de suporte dá uma base sólida ao grupo de atores de Inferno. Trazendo nomes mais conhecidos como o indiano Irrfan Khan, o francês Omar Sy e o estadunidense Ben Foster, os coadjuvantes do longa empregam credibilidade à experiência mesmo em papeis que, caso melhor explorados, só teriam a agregar aos dramas pessoais que faltam ao filme, a exemplo da Elizabeth Sinskey de Sidse Babett Knudsen, que é muito boa como uma antiga história de amor mal resolvida do protagonista. De resto, passada uma década desde o lançamento de O Código Da Vinci, é possível constatar que pouco evoluiu no cinema baseado na obra de Dan Brown, o que não deixa de nos levar à teoria de que, talvez, assim como a literatura do escritor, o momento desse formato também já tenha passado no cinema. A diversão está mais presente, é verdade, mas o investimento é grande demais (em escala de produção, em orçamento e em aplicação de tempo e dedicação dos envolvidos) para ser somente isso.
O Bebê de Bridget Jones
I can always find time to save the world. And, Bridget, you’re my world.

Direção: Sharon Maguire
Roteiro: Dan Mazer, Emma Thompson e Helen Fielding
Elenco: Renée Zellweger, Colin Firth, Patrick Dempsey, Gemma Jones, Jim Broadbent, Shirley Henderson, Sally Phillips, Kate O’Flynn, Sarah Solemani, Agni Scott, Ben Willbond, Ed Sheeran, Jessica Hynes
Bridget Jones’s Baby, Reino Unido/EUA/Irlanda/França, 2016, Comédia, 123 minutos
Sinopse: Estável no emprego como produtora de TV, Bridget Jones (Renée Zellweger) continua solteira. Depois de aceitar o convite de uma amiga do trabalho para ir a um festival de música pop, lá ela acaba “acidentalmente” dormindo com o desconhecido e sedutor Jack Quant (Patrick Dempsey). Mas ela não é mais a mesma neurótica e nem se preocupa com o paradeiro do moço. Pouco depois, em um batizado, a verborrágica inglesa reencontra Mark (Colin Firth), seu amor do passado. E eles acabam… dormindo juntos. Mais algumas semanas se passam, e Bridget se encontra grávida. E, sem ter certeza de quem é o pai da criança, adia a “revelação”, enquanto ambos acreditam ser o verdadeiro pai do bebê de Bridget Jones. (Adoro Cinema)

O que Renée Zellweger conquistou entre o final dos anos 1990 e o início dos anos 2000 não é bobagem. Filmes como Um Amor Verdadeiro, A Enfermeira Betty, Jerry Maguire, Deixe-Me Viver e Chicago, para citar alguns de seus trabalhos expressivos em termo de repercussão e qualidade, revelaram a atriz como uma das mais prolíferas e consistentes de sua geração. O fenômeno Renée Zellweger, entretanto, foi se diluindo com o tempo, por uma série de variáveis que são difíceis de constatar. Teria sido a sua persona, que, de repente, passou a ofuscar os próprios personagens? Ou foi a influência negativa de seu prematuro e equivocado Oscar de melhor atriz coadjuvante pelo irregular Cold Mountain? De qualquer maneira, após realizar trabalhos cada vez menos expressivos, a atriz estacionou a carreira em 2010, voltando somente agora aos cinemas com um de seus papeis mais marcantes: o da atrapalhada Bridget Jones.
Alcançando feitos raros com a personagem criada na literatura por Helen Fielding (quem consegue ser indicada ao Oscar de melhor atriz por uma popular comédia romântica?), Renée pode até ter ficado afastada das telas, mas seu retorno com O Bebê de Bridget Jones comprova o quanto a personagem nunca saiu do imaginário dos espectadores. E pode até ser que esse novo filme não tenha lá muito frescor, mas é o tipo de experiência que não deixa de revigorar a carreira de uma atriz em baixa e proporcionar, através da nostalgia, uma ótima diversão para a plateia, além de, em termos de representatividade, apresentar-se como um marco por configurar a primeira trilogia da história do cinema dirigida exclusivamente por mulheres.
Só faz bem o retorno de Sharon Maguire à cadeira de direção após o criticado trabalho de Beeban Kidron no filme anterior porque ela preserva todas as acertadas ideias que projetaram a protagonista junto ao grande público. Não apenas é importante colocar novamente em pauta, através da comédia, questões julgadas pela sociedade em relação ao mundo feminino (é absurdo pensar que mulheres acima dos 40 ainda são cobradas por não terem filhos ou maridos!) como também trazer de volta o humor mais clássico de Bridget Jones, distanciando-se da certa histrionia presente no longa anterior. Sharon Maguire compreende a essência da personagem, e isso é fundamental para que O Bebê de Bridget Jones funcione.
Não deixa de ser frustrante constatar que Bridget Jones tenha chegado aos 43 anos agindo de forma inexperiente demais para alguém dessa idade. Porém, o terceiro capítulo capta tudo o que existe de melhor na conversa da personagem com o espectador, desde a encenação cômica de pequenos momentos já vividos por todos nós (quem nunca se encheu de nervosismo ou viu sua espontaneidade desaparecer ao reencontrar um caso amoroso mal resolvido do passado?) a outros mais específicos às mulheres e às expectativas criadas em torno delas. O tino cômico de O Bebê de Bridget Jones é clássico, quase ingênuo, indo na contramão das majoritárias comédias femininas de humor mais afiado ou transgressor. Caso mal executado, o resultado poderia soar antiquado, o que definitivamente não é o caso aqui, onde tudo soa atraente por sua leveza.
Na prática, O Bebê de Bridget Jones não inova em qualquer aspecto, mas isso não diminui a graça dessa produção amplamente impulsionada pelo carisma de Renée Zellweger e pela boa complementariedade que existe entre o inegável charme britânico de Colin Firth (e a idade só faz bem ao ator em todos os sentidos) e a representação de Patrick Dempsey como um homem que, apesar do sucesso, se revela tão comum quanto qualquer outro. Adicione ainda o tempero de uma trilha sonora deliciosa (o que não é novidade se tratando da franquia), as divertidas participações de Emma Thompson (que também assina o roteiro ao lado de Dan Mazer e Helen Fielding) e discussões centradas muito mais em quem os personagens descobrem ser a partir da gravidez da protagonista do que no mistério sobre quem é o pai (e não se preocupe: existe resposta para o grande dilema). O Bebê de Bridget Jones faz o espectador sair da sala de cinema com um sorriso no rosto. E já que a vida anda tão difícil, isso não é ótimo?
De Onde Eu Te Vejo
Sabe o que eu descobri? Que as histórias infelizes é que são todas iguais. As felizes não. São felizes cada uma a sua maneira.

Direção: Luiz Villaça
Roteiro: Leonardo Moreira e Rafael Gomes
Elenco: Denise Fraga, Domingos Montagner, Manoela Aliperti, Marisa Orth, Laura Cardoso, Juca de Oliveira, Fúlvio Stefanini, Laila Zaid, Théo Werneck, Marcello Airoldi
Sinopse: Ana Lúcia (Denise Fraga) e Fábio (Domingos Montagner) decidem se separar após vinte anos de casamento e ele se muda para um apartamento do outro lado da rua. Além da separação, eles passam por uma crise no trabalho e precisam enfrentar a iminente mudança de cidade da filha. Com todas essas mudanças, eles precisam aprender a viver essa nova realidade e reinventar o amor. (Adoro Cinema)

Conforme o tempo passa, é cada vez mais comum, como cinéfilos dedicados, prezarmos pelo novo ou pelo menos por aquilo que procura se distanciar da normalidade. Considerando os filmes sobre separações de casais, por exemplo, são infinitos os relatos dramáticos e até mesmo trágicos sobre o fim de relações amorosas. Não que, dessa forma, filmes como Alabama Monroe ou Namorados Para Sempre se tornem menores (eles sempre serão grandes por suas respectivas franquezas), mas, quando surge uma experiência como a proporcionada pelo belo De Onde Eu Te Vejo, voltamos a lembrar que precisamos de mais produções como essa assinada por Luiz Villaça e estrelada por Denise Fraga e pelo agora saudoso Domingos Montagner. Partindo do divórcio de um casal que dividia o mesmo teto há 20 anos, o longa acompanha os protagonistas sob a luz desse desfecho. Até aí, nenhuma novidade, pois o que torna De Onde Eu Te Vejo tão especial vem em seguida: é verdade que Ana (Fraga) e Fábio (Montagner) se separaram, mas, com o convívio próximo mesmo após a ruptura, eles encontrarão, por vontade do destino e deles próprios, uma nova forma de amar um ao outro.
De Onde Eu Te Vejo, contudo, não é sobre um casal que vira amigo e divide a cama de vez em quando. Ao fazer um morar de frente para o outro em apartamentos de uma mesma rua de São Paulo, o roteiro escrito pela dupla Leonardo Moreira e Rafael Gomes encena sutilezas mais cotidianas e individuais, como o exercício interno que Ana faz quando a filha prefere estar com o pai – e, ao invés de sentir ciúmes da relação dos dois, ela só volta a lembrar o quanto seu ex-marido é um pai querido, devotado e atencioso. O filme faz coro à ideia de um dos personagens de que finais também podem simbolizar recomeços, utilizando situações e sentimentos corriqueiros para revelar que, no fundo, alguns rituais são necessários para compreender que o amor por si só nem sempre consegue compensar os percalços de uma convivência que não dá mais certo. É preciso maturidade para encarar essa verdade, e é exatamente isso o que não falta à equipe de De Onde Eu Te Vejo para colocar tal discussão na tela com uma abordagem muito nostálgica e agridoce.
Alegria e tristeza se misturam em função dessa consciência dos protagonistas em relação ao amor em comum e à necessidade de um afastamento. Existe algo de muito bonito em reconhecer o fim sem cortar laços, o que é plenamente compreendido por Denise Fraga e Domingos Montagner. Eles, que contracenam com um elenco coadjuvante de luxo (Juca de Oliveira, Laura Cardoso, Marisa Orth, Fúlvio Stefanini), são perfeitos ao transitar, da primeira à última cena, pelas memórias e pelo presente de pessoas que – não temos dúvida – sempre se amarão. Montagner, falecido há pouco tempo durante as gravações da novela Velho Chico, fica com uma fatia maior da comédia (o que não é um problema, pois, como diz a Ana de Denise Fraga, as melhores comédias são, na realidade, tristíssimas), enquanto ela, uma das nossas melhores atrizes, entrega sua humanidade de sempre para uma mulher em conflito com a ideia de querer sempre novidade ao mesmo tempo em que, inconscientemente, não se desapega do que já passou – e o fato da poltrona já gasta e esquecida de sua mãe nunca descartada da mobília do novo apartamento é uma simbólica prova disso.
É importante não confundir a leveza e o bom humor presentes em De Onde Eu Te Vejo com superficialidade, pois isso seria uma injustiça com o roteiro e a direção do longa, que, além das leituras que fazem sobre relações amorosas e familiares, entregam uma interpretação muito interessante e contemporânea de São Paulo. Normalmente retratada pelo cinema brasileiro recente como uma cidade imensa que isola pessoas, aqui a capital ganha contornos nostálgicos para a personagem de Fraga, que, através do seu relacionamento com o marido, até deixou de lado a falta que sentia do mar, antes tão importante em sua vida no Rio de Janeiro. Os restaurantes, as janelas e os cinemas paulistanos ajudam a construir o mapa de uma cidade repleta de mudanças (em suas construções, em suas profissões, em suas relações), mas também de um casal que se transformou junto e, simbolicamente, desenhou um mapa próprio com tantas histórias vividas em pontos específicos dessa capital gigante. Com sutileza, De Onde Eu Te Vejo percorre todos esses temas e lugares sem qualquer sinal de dispersão, encerrando sua história no auge, com um emocionante diálogo entre Denise Fraga e Domingos Montagner que é a síntese da maturidade desse filme indiscutivelmente precioso.
A Intrometida
Who doesn’t love love?

Direção: Lorene Scafaria
Roteiro: Lorene Scafaria
Elenco: Susan Sarandon, Rose Byrne, J.K. Simmons, Jerrod Carmichael, Cecily Strong, Lucy Punch, Michael McKean, Jason Ritter, Sarah Baker, Amy Landecker, Casey Wilson, Billy Magnussen
The Meddler, EUA, 2016, Comédia/Drama, 100 minutos
Sinopse: Para Marnie Minervini (Susan Sarandon) a maternidade não é um dever, mas sim uma vocação. Mesmo após a recente morte do marido, ela não deixa de ser alegre, sempre mandando mensagens, ligando e aparecendo sem avisar na casa da filha, Lori (Rose Byrne). Almejando algum controle sobre sua vida, principalmente após o término de um relacionamento, Lori tenta sair das asas da mãe, mas Marnie segue a filha até Los Angeles e acaba desenvolvendo uma conexão com um policial (J.K. Simmons). (Adoro Cinema)

As situações são facilmente identificáveis e comicamente aplicáveis aos dois lados da moeda: enquanto os filhos enxergam, com muito humor, o superprotecionismo expansivo e natural de todas as mães, as progenitoras compreendem perfeitamente as necessidades de presença e carinho que tanto movem alguém como Marnie (Susan Sarandon), a protagonista de A Intrometida, que, ainda lidando com a morte do marido, encontra, na filha, uma forma de não ter seus dias tão vazios. Surpreendentemente, o filme escrito e dirigido com muita simplicidade por Lorene Scafaria se desapega da diversão envolvendo as barreiras (ou falta delas) que se estabelecem a partir de laços familiares e opta por narrar as cotidianidades de uma mulher que, após a mudança da filha para outra cidade, precisa aprender a recomeçar, na meia-idade, uma vida que já lhe parecia tão certa.
Não há comparações depreciativas que possam diminuir o valor simbólico que tem um filme como A Intrometida. Cada vez mais discutimos a representatividade no cinema, e é bom ver que roteiros que contemplem esse nicho tão frequentemente esquecido pelo cinema que é o público de meia-idade. Sempre reforço que os europeus sabem tratá-lo como ninguém, o que deveria ser uma aula para os norte-americanos, que costumam colocar personagens de idade mais avançada apenas como os pais coadjuvantes sem vida pessoal que só servem para ouvir histórias e dar conselhos aos filhos, especialmente em comédias de gosto altamente duvidoso. Por isso é de se celebrar um projeto com a proposta de A Intrometida: aqui, esse público é o centro das atenções em uma história que não chega a ser necessariamente sofisticada, mas que compensa amplamente essa limitação com uma boa dose de afeto.
É a partir de pequenos momentos da vida de sua protagonista – a amizade com o vendedor de uma loja, a dificuldade em se relacionar com as novas tecnologias, o sentimento de solidão que surge entre uma risada ou outra com uma conhecida qualquer – que o roteiro estrutura a construção de uma personagem simplesmente adorável. Claro que sempre achamos as mães dos outros um máximo, mas a Marnie de Susan Sarandon é realmente especial em sua generosidade eventualmente excessiva que não deixa de ser questionada por sua psicóloga vivida por Amy Landecker. Afinal, tanta dedicação ao próximo não deixa de ser uma desculpa para não ter que olhar para a própria vida? Como na maioria dos filmes sobre mulheres de meia-idade em pleno recomeço, A Intrometida tem uma intérprete das mais impecáveis. Se Diane Keaton tem um dos melhores momentos de sua carreira em Alguém Tem Que Ceder e Meryl Streep se diverte à beça no fragilíssimo Simplesmente Complicado, Susan Sarandon (que, sabe-se lá como, não envelhece e fica mais bela a cada dia) tem sua melhor chance em anos, transmitindo uma humanidade que é muito característica do seu arsenal de talentos.
Não deixa de ser frustrante, contudo, que relatos sobre o público de meia-idade simplifiquem tanto as coisas para suas protagonistas. Ou não é um tantinho mais fácil sofrer quando a Erica Barry de Alguém Tem Que Ceder viaja a Paris com o dinheiro de sua carreira vitoriosa na dramaturgia, a Jane Adler de Simplesmente Complicado se vê dividida entre dois amores enquanto reforma sua confeitaria de grande sucesso e, agora, a Marnie Minervini de A Intrometida procura uma nova vida enquanto se diverte ao bancar casamentos alheios com a fortuna deixada pelo falecido marido? Isso não deixa de reduzir todos esses filmes ao velho drama de que ricos também sofrem, e é assim que falta complexidade ao carinhoso mundo da personagem vivida por Susan Sarandon porque tudo acaba se resumindo a circunstâncias que desviam a atenção do que realmente merece ser contado. Quando A Intrometida permite que Marnie finalmente considere um novo amor ou que ela dê sinceras gargalhadas com a filha após um incidente que constrói um novo momento de aproximação entre as duas, o resultado ganha o sentido de que agora sim estamos realmente vendo a representatividade ideal de seu público-alvo.