“Big Little Lies”, segunda temporada: como a dificuldade em aceitar o conceito de minissérie é capaz de arruinar um projeto

Após adaptar por completo o livro homônimo de Liane Moriarty, Big Little Lies avança na vida das Cinco de Monterey sem o refinamento narrativo e estrutural que o seu incomparável elenco merecia.
Quando o conceito de minissérie deixa de ser respeitado, chegamos a experiências vazias como a da segunda temporada de Big Little Lies. Por definição, minisséries deveriam durar um único ciclo, e a decisão de prolongá-las carrega um risco muito grande, pois significa que determinada emissora ou plataforma poderá esticar além da conta uma história inicialmente idealizada para ter início, meio e fim. No caso de Big Little Lies a situação é ainda mais complicada, uma vez que a primeira temporada adaptava por completo o livro homônimo de Liane Moriarty, material que deu origem à atração. São raríssimos os projetos que conseguem avançar com excelência em uma história já transposta por completo para as telas (The Leftovers, que durou três temporadas, foi impecável nesse sentido). Praticamente todos os casos, como a segunda temporada de The Handmaid’s Tale, citando outro programa recente, atestam que, mesmo com as melhores munições, tornar-se exceção à regra é missão quase impossível. Ainda assim, poucas frustrações são tão grandes como a trazida por Big Little Lies, que, neste segundo ano, ultrapassa o mero problema da expansão irregular de um universo para, em todos os aspectos, deixar um irremediável gosto amargo na boca.
A HBO nega, assim como as protagonistas/produtoras Nicole Kidman e Reese Witherspoon, mas não é necessário um olhar muito clínico para perceber que faz total sentido a notícia de que a diretora Andrea Arnold teria tido sua visão criativa mutilada na pós-produção para que Big Little Lies voltasse a se parecer com o que Jean-Marc Vallée fez na primeira temporada. Aliás, Arnold, que aqui não imprime marca alguma de seu estilo, dificilmente teria topado embarcar em um projeto que nada faz além de tentar emular os tiques da primeira temporada e do próprio Vallée. A incômoda insistência em duplicar o extenso número de flashbacks e em instalar algum tipo de suspense ou engenhosidade derruba Big Little Lies de uma maneira amadora, onde a montagem entrecorta tudo o que passa pela frente e deixa o conjunto (ou até mesmo um único episódio) sem muita sequência, unidade ou conexão.

Laura Dern como Renata Klein: a atriz segue arrasando, mas a personagem tem pouca conexão e proximidade com as demais mulheres do seriado.
Se nas telas e nos bastidores o seriado se transformou em uma colcha de retalhos, o mesmo se aplica ao centro dramático da trama (ou mais precisamente à falta dele). São sete episódios que jamais se justificam, uma vez que nada descobrimos de novo sobre essas mulheres cuja amizade deveria ter uma gama extra de nuances após os acontecimentos da última temporada. Ao invés disso, os roteiristas colocam uma em cada canto, sob a justificativa de que as Cinco de Monterey, movidas pelo trauma, entraram em uma crise coletiva. A partir daí, Big Little Lies imagina um conflito qualquer para as trajetórias individuais das personagens, de modo que todas se sustentem com seus próprios arcos. Ora, verdade seja dita: por mais que Laura Dern continue um arraso como Renata Klein, os dilemas envolvendo a falência dessa mulher que não cabe dentro de si própria sequer se conectam com o ano anterior, onde ela era vista como uma semi-antagonista nada receptiva com as demais personagens. Algo não se encaixa: Renata finalmente se integrou ao círculo de mães, porém, sua presença, agora avulsa em termos dramáticos, parece irrelevante para suas companheiras.
Entre as protagonistas, Celeste (Nicole Kidman) anda em círculos ao ainda nutrir sentimentos contraditórios pelo marido — e as sessões com a terapeuta, antes tão reverenciadas pela crítica e pelo público, agora beiram a bobagem tamanha a forma irresponsável como a psicóloga tenta ditar os rumos da vida de sua paciente. Já Madeline (Reese Witherspoon) se vê enroscada em um erro do passado capaz de ameaçar seu casamento e a própria paciência do espectador, que precisa testemunhar o desperdício de uma personagem tão interessante e o desenvolvimento de um conflito que se prolonga de maneira inexplicável. Há pouco para se falar de Jane (Shailene Woodley), agora reduzida a um romance que parece cilada e mal aprofundada em relação ao que sempre foi a sua maior força como mãe solteira: a relação de cumplicidade e delicadeza com o filho pequeno. No mais, a tentativa de dar nova amplitude a Bonnie (Zoë Kravitz) é pífia e duvidosa, já que ela traz estereótipos de misticismo e abusos familiares para o plot da única personagem negra da trama.

Vivida por Meryl Streep, Mary Louise é a nova personagem de Big Little Lies que nem mesmo os próprios roteiristas compreenderam.
Deixo para citar por último a personagem Mary Louise não por ela ser vivida por Meryl Streep, em uma de suas raras aparições em seriados, mas porque talvez esse seja o maior pecado de Big Little Lies. Promovida como um grande acontecimento tanto para o programa quando para o universo televisivo em si, a participação de Meryl está muito aquém do que poderia se esperar para alguém de seu calibre, e pior: a personagem sequer foi compreendida pelos próprios roteiristas. Relatos dão conta de que Meryl recebia orientações para interpretar Mary Louise, a mãe de Perry (Alexander Skarsgård), como uma espécie de vilã, definição imediatamente rejeitada pela atriz. E ela estava corretíssima: por mais que o seriado insista em explorar o lado passivo-agressivo da personagem e decida colocá-la em colisão com todas as outras mães da vizinhança, pouco foi abordado sobre a trágica e tortuosa negação que ela compartilha com Celeste em relação a Perry e sobre como isso é tanto o que une quanto o que separa essas duas mulheres. Se há bons momentos para a personagem, é por causa de Meryl e não por méritos da série, que equivocadamente induziu o público a detestar Mary Louise e não a entendê-la.
Para arrematar o ciclo e conferir uma tração de suspense/mistério como na temporada anterior, Big Little Lies, em seus capítulos derradeiros, recorreu ao drama de tribunal. Por mais que o artifício traga os melhores momentos de Nicole Kidman e Meryl Streep neste segundo ano, tudo é muito frágil, quando não implausível: a juíza que conduz o tribunal parece estar em seu primeiro dia de profissão, deixando que advogados, testemunhas e réus tomem conta da sessão, assim como determinadas reviravoltas, a exemplo de um vídeo descoberto de forma milagrosa e conveniente demais, reforçam a percepção de um roteiro escrito com displicência. Para quem gosta de novela, a conclusão da segunda temporada também traz todo tipo de resposta com reconciliações, explicações e até uma cerimônia de casamento. A única porta que fica aberta é, vejam só, a mais preocupante: aquela que, a partir da decisão de uma personagem na última cena, deixa a ligeira sensação de que Big Little Lies poderá ter uma terceira temporada. A HBO e os produtores não confirmam — e tampouco descartam oficialmente a possibilidade, para a completa angústia de quem sofreu com o total vazio de uma segunda temporada que definitivamente não precisava existir.
47º Festival de Cinema de Gramado #8: o que esperar da premiação?

Equipe de Pacarrete na noite de estreia em Gramado: filme de Allan Deberton estrelado por Marcélia Cartaxo é o favorito para dominar a noite de premiação do Festival.
O Festival de Cinema de Gramado encerra hoje a sua 47ª edição. Após três perdas recentes (o apresentador Leonardo Machado e os curadores Eva Piwowarski e Rubens Ewald Filho), o evento serrano trouxe, em 2019, uma seleção menos instigante em comparação a outros anos. À parte a exibição fora de competição do aguardado Bacurau, o único ponto realmente alto da mostra competitiva foi Pacarrete, longa cearense dirigido por Allan Deberton que despertou uma comoção como poucas vezes vista no Palácio dos Festivais. Não só o prêmio de melhor atriz parece mais do que garantido para a veterana Marcélia Cartaxo como o filme em si, desde já uma pérola do cinema brasileiro, tem tudo para levar para casa uma grande quantidade de Kikitos.
O júri, na verdade, tem uma tarefa árdua: a de fazer a matemática inversa e pensar, na verdade, quais os prêmios não dar para Pacarrete. Isso porque os demais concorrentes não se equiparam ao título cearense, que é a experiência mais encantadora, completa e comovente da edição. É de se imaginar que a lista de vencedores guarde uma ou outra estatueta para O Homem Cordial, alguns prêmios técnicos para Hebe – A Estrela do Brasil e até alguma menção honrosa do júri como consolação para um dos concorrentes. De resto, sobram obras medianas para baixo, que dividiram opiniões na Serra Gaúcha ou que certamente seriam uma surpresa em qualquer categoria principal, como Veneza, Raia 4 ou Vou Nadar Até Você.
É importante, contudo, nunca subestimar o que pode acontecer em uma reunião de júri. Temos três decisões polêmicas na história recente de Gramado: Colegas, em 2012, tirando o prêmio de melhor filme de O Som ao Redor; A Estrada 47, em 2014, sendo consagrado o melhor longa de uma edição que premiou o belo A Despedida em direção, ator, atriz e fotografia; e 2018, quando Benzinho, o melhor filme pelo júri popular e da crítica, perdeu o Kikito para Ferrugem. Ainda assim, é um tanto inconcebível Gramado consagrar qualquer outra obra que não seja Pacarrete. Já entre os curtas-metragens brasileiros e os longas-metragens estrangeiros, a situação é mais aberta, ainda que se perceba, pelo menos nos curtas concorrentes, um forte protagonismo de temáticas sobre diversidade (Marie, que acompanha a história de uma transexual; Sangro, sobre um jovem lidando com a descoberta de HIV; e Menino Pássaro, ambientado em um condomínio paulista que fica em polvorosa com a chegada de um jovem morador de rua negro na calçada do prédio).
Rumo aos seus 50 anos, o Festival de Cinema de Gramado segue como a mais prestigiada tela do Brasil e como palco da estreia nacional de marcantes títulos brasileiros como Aquarius, Que Horas Ela Volta?, Benzinho, Como Nossos Pais, O Som Ao Redor e, agora, Bacurau. A mostra estrangeira, que um dia já premiou Pedro Almodóvar, Juan José Campanella, Norma Aleandro e Javier Bardem, certamente precisa ser revista, mas o Festival, que não teve uma sessão sequer sem protestos por parte dos realizadores contra o governo Bolsonaro, tem sempre aberto novas portas (em 2017, inaugurou o Gramado Film Market, programação inteiramente voltada à discussão do audiovisual como indústria e mercado), o que logo nos cria boas expectativas pelo que vem por aí com a aproximação da meia década de história do evento.
A premiação do 47º Festival de Cinema de Gramado acontece hoje (24), a partir das 21h, com transmissão pelo Canal Brasil e pela página oficial do evento no Facebook.
47º Festival de Cinema de Gramado #7: “Hebe – A Estrela do Brasil”, de Maurício Farias

Sem seguir o beabá tão comum das cinebiografias brasileiras, Hebe – A Estrela do Brasil faz seu registro da inesquecível apresentadora com dignidade e reverência.
Falecida em setembro de 2012, Hebe Camargo é considerada, ainda hoje, a grande rainha da televisão brasileira. Difícil imaginar uma apresentadora de brilho equivalente no Brasil e muito menos quem possa um dia ocupar esse título com tamanha mitologia. Nas diversas emissoras em que trabalhou, Hebe sempre preservou uma alegria e uma autenticidade que cativava tanto a plateia quanto os incontáveis entrevistados que recebia em seu famoso sofá. De figuras religiosas a transexuais, ela deu voz para diversas causas e pensamentos em plena rede nacional, cultivando uma legião de adoradores que hoje parece impossível ser alcançada no âmbito televisivo. Por essa e outras tantas razões, o desafio é imenso: afinal, de que maneira é possível fazer jus a uma figura como Hebe Camargo sem cair na vala tão comum de frágeis relatos que, presos à ânsia de abranger todos os momentos marcantes da vida de determinado biografado, renderiam, na verdade, ótimos documentários?
Pois Hebe – A Estrela do Brasil, que fez sua estreia nacional no 47º Festival de Cinema de Gramado, consegue escapar do formato hiper engessado de cinebiografias porque conta com Carolina Kotscho, talentosa roteirista que fez a diferença em outras duas cinebiografias brasileiras: 2 Filhos de Francisco e Flores Raras. O que esses dois títulos e Hebe têm em comum? Todos entendem que é contraprodutivo querer condensar a vida de uma icônica figura da vida real em meras duas horas, preferindo escolher um determinado recorte de tempo ou fases pontuais dos biografados. No caso de Hebe, acompanhamos a estrela durante a sua transição da TV Bandeirantes para o SBT, justamente quando ela, tão direta e aberta sobre assuntos considerados tabus à época, como a epidemia da AIDS, sente a censura bater em suas canelas. Já perto de seus 60 anos, a Hebe retratada pela roteirista também enfrenta turbulências na relação com o marido e na sua falta de comunicação com o filho adolescente.
Segundo Kotscho, a família e os fãs de Hebe disponibilizaram um acervo com mais de três mil matérias de revistas e jornais para a pesquisa do longa. Desse imenso arquivo, saem todas as falas oralizadas protagonista durante o filme, sem tirar nem pôr. O trabalho, entretanto, faz seus ajustes, o que é perfeitamente aceitável para uma obra de ficção (novamente, não estamos falando de um documentário), lógica que o diretor Maurício Farias transferiu inclusive para o plano da direção. A escalação de Andréa Beltrão é uma prova disso: ainda que devidamente caracterizada e maquiada como Hebe Camargo, a atriz pouco dedica sua atuação a imitações, tiques e trejeitos. Beltrão está preocupada em buscar a energia e a desenvoltura desse ícone televisivo com o talento e as habilidades que, todos nós sabemos, ela tem de sobra. E o resultado é ótimo justamente por priorizar o interior da personagem e não a reprodução de gestos, visuais ou movimentos.
Ganhando nova dimensão em tempos onde a voz da imprensa é questionada, a liberdade de expressão passa a ser perigosamente ameaçada e pessoas voltam a ser condenadas por ser quem são, Hebe registra a relação da biografada com o público, e não o inverso: tudo o que se vê da apresentadora durante os programas é a partir dos bastidores, inclusive momentos emblemáticos como o de Dercy Gonçalves mostrando os seios ao vivo em rede nacional. É outra decisão bacana porque exime o filme de ter que emular milimetricamente as cenas como elas estão gravadas na memória do público. A perspectiva, afinal, é a de Hebe Camargo, não dos espectadores. Ainda que imperfeito, o filme lida bem com elementos que poderiam ser apenas um fan service, a exemplo da rapidíssima aparição de Nair Bello e Lolita Rodrigues, que diz muito sobre a cumplicidade e a espontaneidade que a protagonista tinha com suas amigas. Aliás, vai além: ao ignorar o beabá das cinebiografias, Hebe até cativa com a sua protagonista-furacão, principalmente nessa fase retratada onde a apresentadora, antes uma mulher ligada à ideia da TV como veículo restrito ao entretenimento, enfim compreende o poder do microfone que tem em mãos.
47º Festival de Cinema de Gramado #6: “Pacarrete”, de Allan Deberton

Pacarrete, de Allan Deberton, traz desempenho memorável de Marcélia Cartaxo.
Às vésperas de seus 200 anos, a cidade de Russas, no interior do Ceará, prepara uma grande celebração. E Pacarrete (Marcélia Cartaxo), uma peculiar bailarina já na casa dos 60, quer fazer parte dos festejos: como seu presente para o povo, ela prepara uma apresentação de ballet pensada como o número de uma mulher só. No entanto, Pacarrete, que de fato existiu na vida real, é tida como a louca da cidade, e a Secretaria Municipal de Cultura não a quer de jeito nenhum na festa, com a desculpa de que ballet é tedioso para o povo e que essa senhora supostamente desvairada seria vaiada em pleno palco caso chegasse a se apresentar. Mas a bailarina, outrora professora e artista atuante em Fortaleza, não desistirá de seu objetivo, mesmo que tudo seja tão difícil (para ela e para todos).
É importante grifar o supostamente desvairada porque Pacarrete, longa-metragem de estreia do cineasta Allan Deberton, jamais julga sua personagem, e sim convida o espectador a entrar em seu universo, mais lúcido que os demais, propondo a tese de que talvez, no final das contas, ela seja vítima de uma sociedade intolerante a tudo aquilo que lhe parece diferente. Sem optar pela panfletagem, o filme dá voz a uma senhora que, representando os tantos oprimidos que gritam e jamais são ouvidos, é marginalizada pela própria cidade onde vive. Ela resiste através da arte: não há nada mais desolador para Pacarrete do que ver uma fita VHS de ballet estragar ou então do que não ter como plateia nem mesmo a sua irmã ou a sua empregada em um momento improvisado de ensaio. Quando indagada sobre o que fez ao longo da vida, ela enche o peito para dizer que foi artista e professora. E isso é muito bonito.
Como estudo de personagem, Pacarrete descortina a vida da protagonista basicamente dentro de sua própria casa, utilizando-se de raros momentos na cidade ou na vizinhança apenas para dar novas e importantes pinceladas nesse retrato muito humano que preza pela objetividade, sem se dispersar com qualquer outra subtrama, ainda que existam personagens suficientemente interessantes para gerar mais material. Um deles é o amigo vivido por João Miguel, que representa o sopro de esperança e generosidade em uma comunidade hostil. Já dentro de casa, Pacarrete conta com a irmã Chiquinha (Zezita Matos) e a empregada Maria (Soia Lira), em um convívio que captura todo o afeto de um universo feminino ao mesmo tempo muito particular e universal.
Para registrar a rica gama de sentimentos da protagonista e de todos os personagens que estão em sua órbita, o diretor Allan Deberton mergulha em camadas inegavelmente teatrais, mas que nunca destoam do conjunto. Pelo contrário: lúdico, colorido, cômico e por vezes assumidamente exagerado, Pacarrete vai de um gênero a outro e de uma abordagem a outra com uma naturalidade impressionante e com uma delicadeza tremenda ao estender o tapete vermelho para a alma feminina, para a força da arte e, por que não, para o fascínio que é ver um ser humano em toda suas qualidades, fraquezas e incompletudes. Tão cômico quanto dramático, o longa faz essa inflexão entre gêneros com afetividade, o que é no mínimo surpreendente, considerando que temos quatro pessoas envolvidas na criação do roteiro (André Araújo, Natália Maia, Samuel Brasileiro e o próprio Deberton).
A veterana Marcélia Cartaxo, responsável por dar vida à Pacarrete de maneira assombrosa, teve aulas de ballet e francês para interpretar uma protagonista que, assim como a rainha Anne de Olivia Colman no recente A Favorita, poderia cair na histeria por justamente ter uma certa insanidade como matéria-prima para desdobramentos cômicos e dramáticos. Entretanto, em um tour de force que abarca ainda questões inerentes ao envelhecimento e ao eterno saudosismo pela juventude e pelos aplausos, Cartaxo cria uma personagem que ficará para a posteridade não só na sua carreira, mas também no cinema brasileiro. Durante o 47º Festival de Cinema de Gramado, onde o filme fez a sua estreia nacional, a atriz foi ovacionada desde a primeira cena projetada no Palácio dos Festivais, sendo comparada, em nível internacional, à grandiosidade de outras atrizes como Giulietta Masina, Gloria Swanson e Meryl Streep. Marcélia merece. E graças a um filme que é tão memorável quanto ela.
47º Festival de Cinema de Gramado #5: “Vou Nadar Até Você”, de Klaus Mitteldorf

Bruna Marquezine em Vou Nadar Até Você: atriz encara a sua primeira protagonista no cinema.
Por falta de outra definição, Vou Nadar Até Você é um road movie, mas com um conceito mais peculiar: ao invés da jovem Ophelia (Bruna Marquezine) pegar a estrada para ir em busca do homem que acredita ser seu pai, ela opta por cruzar a nado o trecho de Santos a Ubatuba, em São Paulo. Sabemos pouco sobre a protagonista, uma menina introspectiva e de poucas palavras que, entre um trecho e outro, passa a se revelar para o espectador assim como talvez para ela própria. No mar, sua vida parece fazer sentido. Atrás das câmeras também, já que ela registra cada momento da curiosa viagem. Mas é com os pés firmados no chão e em contato direto com as pessoas que ela precisa encontrar seu propósito e sua verdadeira identidade.
Vou Nadar Até Você, que estreia nacionalmente na competição do 47º Festival de Cinema de Gramado, tem a proposta de fazer uma leitura muito particular desse momento decisivo na vida de Ophelia — e o faria com bastante excelência, caso o diretor Klaus Mitteldorf, a partir do roteiro escrito por Nina Crintzs, não optasse por tantos desvios na trama, cometendo o pecado de tirar o protagonismo absoluto de Ophelia. O tropeço começa na própria concepção: narrando paralelamente a história do pai que recebe a notícia de que sua filha até então desconhecida está a caminho, Vou Nadar Até Você tira tempo demais do desabrochar emocional de Ophelia para dar todas as explicações sobre quem é esse homem que gerou a garota.
O filme embola ainda mais o meio de campo ao criar uma subtrama envolvendo o pai e um assistente vivido por Fernando Alves Pinto que passa a seguir Ophelia antes que ela chegue a seu destino. Mitteldorf, que fez carreira como premiado fotógrafo e publicitário, deixa transparecer alguns vícios de suas experiências pregressas em Vou Nadar Até Você, como a de carregar a trama com uma bela, mas excessiva trilha sonora, e a de registrar cada momento aquático da protagonista em slow motion. Ao final, os desvios da trama e o embelezamento dos takes imediatamente nos jogam para a ideia de que o filme é mais longo do que deveria e que tudo acontece para preencher um pouco mais essa história que, na verdade, só teria a ganhar com mais concisão.
Bruna Marquezine, que assume aqui o seu primeiro trabalho no cinema como protagonista, é delicada como Ophelia, e todas as cenas bem exploradas de sua personagem garantem os melhores momentos de Vou Nadar Até Você. Suas eventuais transformações e descobertas são sutis, escapando de armadilhas comuns em road movies. Mesmo as frequentes tomadas aéreas são mais simbólicas quando a protagonista está em cena, pois representam a pequenez de uma garota perdida em meio à imensidão (a sua e a do mar). É por isso que as ramificações de Vou Nadar Até Você tiram o refinamento dessa obra que, aqui e ali, distante de sua protagonista, cai em um certo vazio emocional e cinematográfico.