Cinema e Argumento

“O Caso Richard Jewell”: questionando quais são os verdadeiros tribunais em uma acusação, Clint Eastwood realiza o melhor longa de sua mais recente safra como diretor

I’m sorry the world has gone insane.

Direção: Clint Eastwood

Roteiro: Billy Ray, baseado no artigo “American Nightmare: The Ballad of Richard Jewell”, de Marie Brenner

Elenco: Paul Walter Hauser, Sam Rockwell, Kathy Bates, Jon Hamm, Olivia Wilde, Nina Arianda, Charles Green, Ian Gomez, Grant Roberts, Alan Heckner, Desmond Phillips

Richard Jewell, EUA, 2019, Drama, 131 minutos

Sinopse: A história real de Richard Jewell (Paul Walter Hauser), segurança que se tornou um dos principais suspeitos de bombardear as Olimpíadas de Atlanta, no ano de 1996. Na realidade, ele foi o responsável por ajudar inocentes a fugirem do local e avisar da existência de um dos explosivos. (Adoro Cinema)

A figura do protagonista inocente que é perseguido por autoridades ou pela imprensa de maneira injusta tem sido um interesse de Clint Eastwood desde os anos 1990 com Crime Verdadeiro. Entre Sobre Meninos e LobosA TrocaSully: O Herói do Rio Hudson, Clint questionou o julgamento, seja o real ou da opinião pública, com histórias provocadoras, ainda que nem sempre executadas com o esmero que consagrou a sua carreira. Agora, o diretor volta ao tema com O Caso Richard Jewell, que, remontando a história do personagem-título, pode ser considerado o seu trabalho mais instigante em uma carreira recente de grande produtividade, mas pouca assertividade.

O recorte se dá nas Olimpíadas de Atlanta em 1996, quando Richard Jewell (Paul Walter Hauser, ótimo), um segurança contratado para o evento, salva a vida de diversas pessoas após constatar que o lugar estava prestes a ser bombardeado. Tentando inutilmente achar o verdadeiro culpado pelo atentado, o FBI, desesperado por respostas, decide incriminar aos poucos o próprio Richard Jewell, aproveitando-se de uma série de fatos e circunstâncias que, quando ajustados, agem contra a sua imagem de herói. Junto a isso, uma jornalista sem escrúpulos e sedenta por conseguir uma capa de jornal entra na jogada para engrossar o caldo de acusações sem fundamentos.

Clint filma O Caso Richard Jewell de maneira formal e linear, sublinhando até mesmo os momentos mais dramáticos com os clássicos temas em piano que tanto gosta de usar na trilha sonora. E isso não é um problema, pois a trama é tão envolvente e bem interpretada que o espectador, assim como os próprios personagens, também se vê ansioso por algum tipo de justiça. É um trabalho que fala muito sobre a necessidade de imediatamente encontrarmos heróis ou vilões para situações trágicas e sobre como alguns profissionais, frustrados por falharem em seu próprio trabalho, não medem esforços para transferir qualquer culpa.

Sem colocar o espectador em dúvida sobre a inocência de Richard Jewell (o que é muito digno e respeitoso da parte de Clint), o longa cria, com simplicidade e eficiência, uma reflexão muito contemporânea sobre aquele tribunal que é o mais perigoso de todos: o da opinião pública, especialmente quando estimulado por autoridades e pela mídia. Ainda que não se passe na tenebrosa era das redes sociais, O Caso Richard Jewell fala muito sobre como sempre somos convencidos com facilidade pela migalha mais incerta e rasa de informação. O que importa, no final das contas, é apontar o dedo para confirmar convicções pessoais.

Nessa discussão, no entanto, há um calcanhar de Aquiles: a figura da jornalista vivida por Olivia Wilde. E o problema é anterior ao fato da representação envolvendo uma personagem feminina oportunista que veste roupas chamativas e transa com a fonte para conseguir informações privilegiadas. Além de Olivia Wilde apostar na caricatura, a subtrama em si é muito artificial e pouco produtiva, estereotipando discussões que já são bem abordadas por outros pontos de vista do roteiro. Sua humanização manjada ao final do filme também não contribui para uma storyline que, no mínimo, deveria ter sido sistematicamente reduzida nos tratamentos da história escrita por Billy Ray.

O que compensa esse deslize é o fato do lado injustiçado da história somar tantos pontos em naturalidade e boas nuances, muitos deles proporcionadas por excelentes coadjuvantes. A mãe vivida com extrema humanidade por Kathy Bates, por exemplo, rende alguns dos momentos mais emocionantes do filme e o advogado interpretado por um inspirado Sam Rockwell é a voz do espectador em busca de algum tipo de justiça e bom senso nas acusações estapafúrdias. Eles ancoram tudo o que existe de melhor em O Caso Richard Jewell, um filme que recupera a ideia de que o maior terrorismo segue sendo o da injustiça contra aqueles que supostamente não tem voz.

“Cats”: ao contrário dos melhores filmes ruins, musical de Tom Hooper sequer consegue divertir com o seu próprio desastre

I judge a cat by its soul.

Direção: Tom Hooper

Roteiro: Lee Hall e Tom Hooper, baseado na coleção de poemas “Old Possum’s Book of Practical Cats”, de T.S. Eliot, e no musical “Cats”, de Andrew Lloyd Webber

Reino Unido/EUA, 2019, Musical, 110 minutos

Sinopse: Uma tribo de gatos chamada Jellicles todo ano precisa tomar uma grande decisão em uma noite especial: escolher um dos gatos para ascender para o Heaviside Layer e conseguir uma nova e melhor vida. Cada um dos gatos conta a sua história para sua líder, a velha Deuteronomy (Judi Dench), na tentativa de ser o escolhido. (Adoro Cinema)

Determinados projetos não podem ser traduzidos para o cinema. Cats, o espetáculo que começou em Londres e se tornou um hit na Broadway durante mais de duas décadas, é um deles. No musical, os gatos jellicle, palavra cujo significado só os personagens conhecem, são reunidos uma vez por ano para que seu líder escolha aquele que terá a oportunidade de renascer. O espetáculo, que toma como base a coleção de poemas “Old Possum’s Book of Practical Cats”, de T.S. Eliot, obviamente não tem animais no palco, mas sim pessoas vestidas e maquiadas como gatos. Faz sentido, pois o teatro deixa para a plateia a missão de imaginar lugares, especificidades ou personagens impossíveis de serem reproduzidos em cena.

Já para fins cinematográficos, a ideia de uma adaptação sempre pareceu a receita perfeita para o desastre. Afinal, seria possível resolver o impasse de contar uma história tão específica onde pessoas interpretam gatos? Devemos ver animais ou seres humanos em cena? É bastante óbvio: pessoas vestidas de gatos só funcionam nos palcos. Por isso mesmo Cats é teatro e ponto final. Não há como torná-lo minimamente cinematográfico (talvez como uma animação, na melhor das hipóteses?). Pois não bastou a Universal fechar os olhos para todos os sinais da impossibilidade desse projeto desde a sua concepção: o estúdio foi além e resolveu chamar Tom Hooper para comandar uma versão live action. Antes já era preciso um milagre para fazer Cats dar certo. Com Hooper e sua carreira sem muita personalidade, a situação se tornou ainda mais difícil. E o milagre, claro, não aconteceu.

Empolgado com a ideia de fazer um musical após ter mexido com a mitologia de Os Miseráveis no longa-metragem homônimo de 2012, Tom Hooper, assim como a Universal (que inexplicavelmente lhe entregou 95 milhões de dólares para realizar o projeto), ignora o fato de que um exímio bailarino vestido de gato pode arrasar com um número de sapateado no teatro, mas que a mesma ideia não se aplica ao cinema, especialmente quando Cats opta por criar, através do uso de efeitos visuais, um híbrido entre atores reais e gatinhos. Ou seja, o tal número de sapateado se torna algo patético e fake na sala de cinema. A razão é simples: não vemos um bailarino. Muito menos sabemos o que está representado na tela: seria um humano, um gato ou um filtro de Instagram?

Tudo o que vem após a decisão mercadológica de permitir essa adaptação cinematográfica impossível é mera consequência. Nasce dessa mistura, por exemplo, uma concepção artística muito torta, duvidosa e descuidada. Indeciso sobre quem são os personagens em cena (não são gatos, pois todos têm mãos, pés e dentes humanos; também não são humanos, já que cada um desfila com pêlos e rabos), o filme carece de lógica interna. Por que alguns gatos usam tênis e outros não? Como um dos felinos bebe champanhe direto da garrafa como uma pessoa normal, mas outro só consegue lamber delicadamente um potinho de água? E como eles alternam tanto de tamanho e proporção em comparação aos cenários humanos?

Tecnicamente descuidado com qualquer coerência de escala (em determinado momento, uma ratoeira parece ter um tamanho cinco vezes maior do que um ratinho), Cats deixa expôr toda a confusão e o impasse de traduzir as particularidades do musical para o cinema e o fato de Tom Hooper ter aprovado o último corte do longa na manhã da primeira exibição mundial só comprova a falta de comprometimento da produção com a sua própria qualidade. A partir disso, a base de todo o filme é comprometida: os efeitos são mal realizados, o universo concebido é visualmente incoerente e a relação entre esses dois aspectos torna tudo muito bizarro, resultando em momentos difíceis de acreditar, como uma dança entre gatos e baratas logo nos primeiros momentos de projeção.

Não é má vontade, inclusive porque o atrapalhamento de Cats não se resume ao visual. A história em si também é mal construída, estendendo-se aos aspectos musicais. Há um conflito central (a competição pelo renascimento de um dos gatos), mas ele se dilui em uma sucessão de personagens que entram e saem de cena apenas para cantar ou dançar. Impossível deduzir quem são esses felinos e muito menos os seus propósitos (por conta dos efeitos, muitas vezes é até complicado identificar os atores). Sem um desenvolvimento para uma trama rasa, todos não passam de uma abreviação de características óbvias. A situação piora com um roteiro sem diálogos, nem mesmo cantados (como era o caso de Os Miseráveis, onde os personagens conversavam através da música). Resultado: nada em Cats acontece ou é dito sem um número musical.

Carente de uma costura, o filme tenta fazer algum sentido ao encadear uma música na outra. De primeira, a situação parece contornável com Jellicle Songs for Jellicle Cats, divertida canção capaz de, na medida do possível, desviar a atenção de todos os problemas listados até aqui. Entretanto, o repertório do consagrado compositor Andrew Lloyd Webber para o musical original não é unanimidade e, em questão de minutos, as músicas começam a cansar porque não compensam o vazio da trama e porque realmente não são memoráveis. Aí o pacote se completa: efeitos ruins, história sem vocação cinematográfica, falta de lógica visual, roteiro sem diálogos e músicas bem abaixo do que Webber já produziu para títulos como O Fantasma da Ópera.

Enquanto isso, os atores parecem distantes um dos outros, como se cada um fizesse a sua parte sem querer se envolver muito com o todo. É deprimente ver um ator grandioso como Ian McKellen quase isolado em cena, tentando, a partir de uma mínima participação, cantar uma canção que em nada contribui para a narrativa. Outro exemplo: Judi Dench, que já havia se envolvido em projetos pavorosos como A Batalha de RiddickNine para pagar as contas, faz dobradinha com McKellen como outra veterana deslocada (o número onde ela, olhando para a câmera, explica como os gatos devem ser tratados é um dos mais constrangedores). E se Jennifer Hudson passa o tempo inteiro chorando e se lamuriando sem entendermos exatamente a razão, ao menos ela interpreta a música mais marcante do repertório (Memory, o momento “I Dreamed a Dream” de Cats, ainda que essa seja uma comparação injusta).

Devastado pela crítica e pelo público, o novo longa de Tom Hooper tem despertado reações extremas, inclusive do próprio estúdio, que desistiu de fazer qualquer campanha para a temporada de premiações. Tom Hooper e a montadora Melanie Oliver (parceira do diretor desde os tempos do telefilme Elizabeth I) também voltaram para a sala de edição com o objetivo de ajustar efeitos visuais e até fazer novos cortes. Ignoram, contudo, que não há nada a ser feito nessa altura do campeonato. A solução não está no reparo de uma cena deslocada ou na concepção visual de um personagem específico. Cats como um todo é estranho e desencontrado. Para conseguir recuperar algum prejuízo, só haveria uma opção: começar do zero. Ou melhor: nem começar. Cats certamente é um dos eventos cinematográficos de 2019. O problema é que, ao contrário dos melhores filmes ruins, ele sequer diverte involuntariamente para ser lembrado como um pavoroso guilty pleasure.

“Dois Papas”: simplicidade, leveza e excelentes interpretações para resgatar o poder transformador do diálogo

When no one is to blame, everyone is to blame.

Direção: Fernando Meirelles

Roteiro: Anthony McCarten

Elenco: Jonathan Pryce, Anthony Hopkins, Juan Minujín, Luis Gnecco, Cristina Banegas, María Ucedo, Renato Scarpa, Sidney Cole, Achille Brugnini, Federico Torre, Germán de Silva

The Two Popes, Reino Unido/Itália/Argentina/Estados Unidos, 2019, Drama, 125 minutos

Sinopse: Buenos Aires, 2012. O cardeal argentino Jorge Bergoglio (Jonathan Pryce) está decidido a pedir sua aposentadoria, devido a divergências sobre a forma como o papa Bento XVI (Anthony Hopkins) tem conduzido a Igreja. Com a passagem já comprada para Roma, ele é surpreendido com o convite do próprio papa para visitá-lo. Ao chegar, eles iniciam uma longa conversa onde debatem não só os rumos do catolicismo, mas também afeições e peculiaridades da personalidade de cada um. (Adoro Cinema)

Dois homens de idade conversando durante mais de duas horas sobre fé e religião. A premissa de Dois Papas não é das mais estimulantes, mas o cineasta brasileiro Fernando Meirelles, em seu primeiro longa-metragem após o pouco visto e comentado 360, consegue elevar o projeto a uma bonita convocação ao diálogo em tempos que estamos cada vez mais intolerantes a opiniões e posicionamentos diferentes dos nossos. O poder transformador da escutatória e da compreensão, lembra Meirelles, precisa ser resgatado de alguma forma.

De um lado está o papa Bento XVI (Anthony Hopkins) com um perfil assumidamente conservador. De outro está o papa Francisco (Jonathan Pryce), figura mais aberta ao diálogo e a propostas para remodelar o catolicismo. O inusitado encontro entre os dois se dá no momento em que Bento decide renunciar ao cargo de papa, levando Francisco para uma breve temporada no Vaticano onde tentará compreender melhor esse homem que, ao que tudo indica, será o seu provável sucessor.

São realmente mais de duas horas centradas em diálogos, o que é tanto um empecilho para captar o grande público quanto um desafio para que a obra não caia na armadilha de se tornar um teatro filmado. Pois Meirelles dribla as duas circunstâncias apostando em uma câmera mais inquieta e dinâmica, sem que isso pareça maneirismo, amparado pelo espirituoso roteiro escrito por Anthony McCarten.

Dois Papas, aliás, é um claro marco de amadurecimento na carreira de McCarten, antes limitado a escrever roteiros quadrados e acadêmicos como os de A Teoria de TudoO Destino de Uma Nação. Dessa vez, ele navega entre momentos verídicos e situações mais imaginativas com bastante leveza, compreendendo que a homenagem a qualquer biografado não está apenas em seguir uma cartilha de fatos e formatos. Liberdades criativas também são bem-vindas.

Sem diminuir Bento XVI ao clichê do adorável rabugento ou Francisco ao alívio cômico de um divertido personagem que amolece corações, Dois Papas trata suas duas figuras históricas com reverência, aproximando ambos de maneira íntima e pessoal para discutir pontos pertinentes à fé e também ao modo como temos deixado de ouvir o próximo. Tudo é mais orgânico do que se pode imaginar, e Dois Papas se torna um filme fácil e agradável de ser assistido em função disso.

Com um texto bem resolvido no debate de ideias, é estranho Dois Papas ter permitido que longos flashbacks envolvendo o passado do papa Francisco chegassem ao corte final. Claro que se trata de uma tentativa de arejar uma história construída em diálogos, só que, além de serem longos e explicativos demais, os flashbacks não contam nada que justifique tanta encenação, muito pelo contrário: cada lembrança poderia ser perfeitamente verbalizada pelo personagem de Jonathan Pryce, dando ainda mais munição para a ótima interpretação do ator.

Esse problema evidencia uma linha muito tênue cujas fronteiras Dois Papas acaba não traçando com esmero. Ora, a intenção de dar linguagem cinematográfica a uma história de vocação teatral é válida. Igualmente sedutora, no entanto, é a opção de simplificar demais as coisas para não perder um número considerável de espectadores. Quando optam por desenvolver dois ou três flashbacks que ocupam um tempo significativo da trama, Meirelles e McCarten se excedem na vontade de tornar a experiência mais palatável.

Os flashbacks ainda deixam em modo de espera o aspecto mais fascinante do longa: a interação entre Hopkins e Pryce. Repertório e talento de sobra os dois atores têm, além de semelhanças físicas assombrosas com as figuras que interpretam, e cada momento entre eles é mesmo um deleite. Pryce, que há pouco foi coprotagonista de Glenn Close em A Esposa, confere grande humanidade para a personalidade compreensiva e comunicativa do papa Francisco, mas é Hopkins, na sua melhor aparição em muitos anos, que impressiona a cada palavra, gesto e expressão, com a classe e discrição que sempre lhe foram características.

Para efeitos comparativos, Dois Papas está distante de toda acidez e imponência de The Young Pope, série que a HBO realizou em parceria com a Sky e que retorna para uma segunda temporada em 2020 sob o título de The New Pope. No programa criado pelo italiano Paolo Sorrentino, o papado, a fé e o Vaticano são discutidos com mais crítica e provocação, enquanto o filme de Meirelles aborda temas espinhosos com mais cautela e parcimônia. E isso não chega a ser um problema, mas sim questão de estilo. Afinal, Dois Papas acerta na simplicidade com leveza e sinceridade, um feito que não costuma ser alcançado com tanta frequência.

Rapidamente: “Cadê Você, Bernadette?”, “Coringa”, “Entre Facas e Segredos” e “O Irlandês”

Quando um grande elenco faz a diferença: eficiente por si só, Entre Facas e Segredos só ganha pontos com os excelentes atores reunidos em cena.

CADÊ VOCÊ, BERNADETTE? (Where’d You Go, Bernadette, 2019, de Richard Linklater): Desde que foi amplamente premiado com Boyhood: Da Infância à Juventude, o diretor Richard Linklater tem apresentado projetos medianos e que pouco endossam o seu talento como o delicado contador de histórias que já nos entregou títulos como a trilogia Antes do Amanhecer, Antes do Pôr-do-Sol e Antes da Meia-Noite. Pois Cadê Você, Bernadette? é mais um exemplo da fase pouco inspirada que o diretor vem vivendo. Nem mesmo Cate Blanchett, limitada a interpretar uma versão genérica de sua marcante personagem em Blue Jasmine, consegue tirar o filme do marasmo. Tomando como base o livro homônimo de Maria Semple, Linklater conta a história de uma arquiteta que decide sumir para recuperar algum tipo de juízo ou esperança, abandonando um ideal de vida que não quer mais seguir. A premissa poderia render momentos interessantes, especialmente para Blanchett, mas Cadê Você, Bernadette? é banalíssimo e desperdiça todas as transformações internas da protagonista em uma viagem entediante que, desenvolvida com diálogos clichês e rasteiramente sentimentais, traz as conclusões mais manjadas possíveis para os conflitos de uma personagem que o filme insiste em desperdiçar.

CORINGA (Joker, 2019, de Todd Phillips): Maior especialista em neurocriminologia do mundo, o britânico Adrian Raine disse, em entrevista à revista Vanity Fair, que Coringa faz “uma representação surpreendentemente precisa do tipo de contexto e circunstâncias sociais que, quando combinadas, criam um assassino”. Entre os estudos fundamentados de Raine e a percepção da legião de críticos e espectadores que resolveram problematizar o filme por ele supostamente glamourizar a violência de modo irresponsável, faço coro à opinião de Raine, inclusive porque não acho que compreender a construção de uma mente criminosa seja sinônimo de celebrá-la. À parte as polêmicas que desviam a atenção da excelente experiência que é Coringa, não se revela nada justo, por exemplo, diminuir toda a força da interpretação de Joaquin Phoenix, que se distancia das celebradas personificações de Jack Nicholson e Heath Ledger parar compôr uma figura crível, cujas vivências resumem muito bem a era nada empática que vivemos. Brutal e nada apelativo, o longa é uma intensa imersão no mundo dos desassistidos, atmosfera também reverberada por uma excepcional parte técnica, com destaque para a fotografia de Lawrence Sher e para a trilha sonora de Hildur Guðnadóttir. Isso sem falar no fato de Coringa jamais se enquadra nas caixinhas de filmes baseados em HQ’s. Há aqui uma personalidade própria que deveria ser exercitada com mais frequência pelos blockbusters hollywoodianos.

ENTRE FACAS E SEGREDOS (Knives Out, 2019, de Rian Johnson): Nem mesmo a refilmagem de O Assassinato no Expresso do Oriente, que adaptou à risca o clássico homônimo de Agatha Christie em 2017, conseguiu chegar perto de capturar o senso de suspense e entretenimento da escritora como Entre Facas e Segredos, que, a partir de um roteiro inteiramente original do diretor Rian Johnson (Looper: Assassinos do Futuro, Star Wars: Os Últimos Jedi e Ozymandias, o melhor episódio de todas as cinco temporadas do seriado Breaking Bad), administrou com pique e envolvimento o tradicional mistério do “quem matou?”. A grata surpresa é que Entre Facas e Segredos avança na fórmula e, a partir de importantes revelações, desdobra uma série de comentários sociais e novas dinâmicas entre os personagens. Também faz toda a diferença o número de talentos reunidos no elenco: de Christopher Plummer a Michael Shannon, passando por Toni Collette, Jamie Lee Curtis e a revelação Ana de Armas, o filme se torna ainda mais prazeroso por conta dos atores, que estão divertidíssimos como um clã familiar de tipos muito específicos. A leitura social do longa não é tão robusta quanto a de outros títulos marcantes deste ano (ParasitaBacurau), o que não tira o brilho de uma proposta que deve ser sempre valorizada: a de que é saudável ver qualquer filme, seja ele de “mero” entretenimento ou não, convocando o espectador a refletir sobre os problemas e as contradições do nosso mundo.

O IRLANDÊS (The Irishman, 2019, de Martin Scorsese): Com o domínio e o talento de sempre, Martin Scorsese tem em O Irlandês aquele que é possivelmente o seu trabalho mais pessoal. Agora interessado no peso, nos arrependimentos e nas frustrações trazidas por uma vida errática e clandestina, Scorsese olha para a máfia com pesar, e para isso conta com amigos de longa data, como Robert De Niro e Joe Pesci, além de novas parcerias que sabe-se lá como nunca aconteceram antes (Al Pacino). A tão comentada duração do filme (189 minutos) não chega a ser um problema, mas sim o fato do roteiro escrito por Steven Zaillian, com base no livro “I Heard You Paint Houses”, de Charles Brandt, ser menos ambicioso do que a direção de Scorsese. As próprias interpretações, em muitos casos, são mais interessantes do que a história, com Joe Pesci e, especialmente, Al Pacino roubando a cena. De Niro tem uma cena grandiosa em detalhes ao final do filme (aquela em que, após um acontecimento fatídico, atende uma ligação ao chegar em casa), mas, no geral, não se equipara aos colegas de cena, já que é o mais prejudicado pelo uso de efeitos visuais, maquiagem e lentes de contato. Scorsese filma, claro, com imensa classe, o que leva seus fãs ao delírio. Já para outros espectadores que, assim como eu, não se envolvem tanto com o cinema do diretor, O Irlandês talvez seja menos imponente do que suas circunstâncias sugerem.

“O Juízo”, um suspense genérico e deslocado na recente safra do cinema brasileiro

Você já se perguntou por que nada em sua vida dá certo?

Direção: Andrucha Waddington

Roteiro: Fernanda Torres

Elenco: Felipe Camargo, Joaquim Torres Waddington, Carol Castro, Criolo, Kênia Bárbara, Fernando Eiras, Fernanda Montenegro, Lima Duarte

Brasil, 2019, Suspense, 90 minutos

Sinopse: Augusto Menezes (Felipe Camargo) muda-se com a mulher Tereza (Carol Castro) e o filho, Marinho (Joaquim Torres Waddington), para uma fazenda abandonada, herdada do avô, na esperança de colocar a vida nos trilhos. A propriedade, no entanto, carrega o carma da traição ao escravo Couraça (Criolo), que busca ao longo dos séculos a vingança contra a família de Augusto.

Todo contexto envolvendo a idealização de um filme pode ser fator crucial para definir a reação do público com o que é colocado na tela. Afinal, nada acontece no vácuo, nem mesmo o cinema. Podemos analisar O Juízo a partir dessa premissa: estreando nos cinemas em uma era onde o audiovisual brasileiro viu seus chamados filmes de gênero ressurgirem de maneira empoderada, o longa dirigido por Andrucha Waddington empalidece, por exemplo, perante As Boas Maneiras, O Animal Cordial e Mormaço, três títulos recentes que discutiram cicatrizes sociais de nosso país com identidade, bravura e inventividade.

Não tem a ver necessariamente com o nível de excelência alcançado por cada obra, mas sim com o contexto, como já mencionado. Em meio a essa nova corrente de longas de suspense/terror, O Juízo em nada se parece com os seus pares. Claro que isso poderia ser interpretado como um elogio caso o resultado não se assemelhasse, na verdade, com produções de 20 ou 30 anos atrás que não envelheceram bem e adotam fórmulas bastante ultrapassadas, sem tratar clichês em tom de homenagem ou com certa brincadeira.

As pitadas de frustração começam na premissa que ainda insiste em colocar uma família afundada em conflitos no meio do mato, isolada de toda a sociedade e de qualquer meio de comunicação. Lá, coisas estranhas começam a acontecer, espíritos surgem, barulhos passam a vir da floresta e os personagens, inevitavelmente, serão afetados por tudo isso, testemunhando, aos poucos, o desdobramento de um relato envolvendo conturbados episódios de seus antepassados. Tudo da forma como você supõe, entregue do jeitinho convencional que você já viu muitas vezes.

Era de se esperar astúcia maior de O Juízo porque o roteiro é escrito por Fernanda Torres, que, além de ser uma atriz de mão cheia, tornou-se uma autora genial nos últimos anos (seus dois romances, Fim A Glória e Seu Cortejo de Horrores, são obras-primas cercadas de fluidez, criatividade e esperteza) e já havia co-assinado o roteiro de Redentor, uma produção que escapava de ideias formulaicas. Uma teoria para justificar tamanha insipidez talvez seja a de que O Juízo estivesse engavetado há anos, sendo realizado somente agora com certo atraso, sem acompanhar a atual linguagem do cinema brasileiro.

Realizado em família, o filme tem o privilégio de contar com Fernanda Montenegro em um papel coadjuvante. Ela faz o que pode com uma personagem que cai na vala comum: uma médium que, em determinado momento, chega a dizer para um médico que ele precisa acreditar no poder da fé para tratar traumas hereditários, fazendo uma pequena menção ao clássico conflito entre ciência e fé. É um mero detalhe, mas também um elemento que exemplifica bem as abordagens tão antigas quanto o mundo que moldam a trama.

Marido de Fernanda Torres, o cineasta Andrucha Waddington trouxe ainda o filho do casal para integrar o trio de protagonistas. Joaquim Torres Waddington, assim como seus companheiros de tela Felipe Camargo e Carol Castro, navegam no suspense de O Juízo com visível envolvimento, mesmo que a direção de Andrucha não ajude no tema de casa. Tudo leva a crer, no entanto, que o problema esteja no casamento com o texto da vez, pois Andrucha já havia feito um ótimo trabalho com toques de suspense em Gêmeas, longa realizado em 1999 com base em uma obra do mestre Nelson Rodrigues.

Em breves 90 minutos, O Juízo mergulha em traumas transmitidos de geração para geração, fé, (in)sanidade, escravidão e incomunicabilidade, ancorado em um ajuste de contas do fantasma Couraça (Criolo) com a linhagem familiar que um dia lhe causou uma grande perda. A espinha dorsal do suspense, enfim, falha igualmente em surtir efeito. Ao não se apresentar como reflexão social ou como um relato lúcido o bastante para explorar as vertentes do gênero, o conflito central se esvai e, ocasionalmente, sequer desperta interesse. E o descaso, como sempre, é um dos piores sentimentos que qualquer filme pode despertar na plateia.