Cinema e Argumento

Rapidamente: “A Crônica Francesa”, “King Richard”, “Não Olhe Para Cima” e “No Ritmo do Coração”

codamovie

Indicado em três categorias do Oscar 2022, incluindo melhor filme, No Ritmo do Coração comove por sua simplicidade e pelas emoções genuínas atribuídas aos personagens.

A CRÔNICA FRANCESA (The French Dispatch, 2021, de Wes Anderson): Se Christopher Nolan realizou Tenet, Wes Anderson fez A Crônica Francesa. Ou seja, dois célebres diretores tornando-se caricaturas deles próprios com filmes em que exploram à exaustão e de forma consciente os elementos que os alçaram ao sucesso. Tenho lá meus altos (O Fantástico Sr. Raposo, Moonrise Kingdom, O Grande Hotel Budapeste) e baixos (Viagem a Darjeeling, A Vida Marinha) com a filmografia de Anderson, mas poucas vezes o vi fazendo algo tão abarrotado de personagens, atores, histórias, ideias, cores, elementos cênicos, etc. É um filme hiperbólico até mesmo para os padrões do diretor, que acaba se perdendo em um emaranhado de possibilidades, embolando um projeto já de estrutura potencialmente dispersa. Para completar, tudo é ensaiado em excesso, tanto ponto de vista técnico, que costuma ser uma obsessão milimétrica do cineasta, quanto da parte do próprio elenco. Como talentosos intérpretes, Benicio Del Toro, Léa Seydoux e Frances McDormand conferem personalidade às suas respectivas tramas e são o destaque de um elenco extenso onde certos atores aparecem apenas para dar o ar da graça, muitas vezes quase como figurantes. Ainda assim, eles também sintetizam o problema de excessos de A Crônica Francesa. Várias das características citadas aqui sempre marcaram o estilo de Wes Anderson e, inclusive, tornaram-no quem ele é. A questão é essa tomada de consciência que torna tudo tão prejudicial, revelando a certeza de que a verdadeira inspiração deve vir naturalmente, e não de forma calculada ou sob encomenda.

KING RICHARD: CRIANDO CAMPEÃS (King Richard, 2021, de Reinaldo Marcus Green): Típica cinebiografia motivacional, King Richard endeusa Richard Williams (Will Smith) como o grande responsável pela carreira triunfante das tenistas Venus (Saniyya Sidney) e Serena Williams (Demi Singleton). Sim, ele teve papel preponderante neste processo, mas pintá-lo como um maioral tem lá seus problemas, a começar pela constatação de que, na vida real, Richard estava longe de ser a grande figura apresentada pelo filme, tendo, inclusive, abandonado os cinco primeiros filhos de seu casamento. E não se trata apenas de questões orbitantes ao projeto: dentro do próprio King Richard fica difícil simpatizar com uma história que explora muito mal as vontades, os dilemas e as complexidades das meninas destinadas a se tornaram estrelas. Não faria mal o roteiro sair um pouco do umbigo de Richard para mostrar a visão das garotas, especialmente quando a história se arrasta para chegar até o final. Prova disso é King Richard registrar suas melhores passagens quando mostra, por exemplo, Venus em conflito sobre assinar ou não um contrário milionário de exclusividade com a Nike ou ela própria lidando com uma importante partida que será decisiva na sua carreira. Enquanto isso, o protagonista é quase unidimensional e responsável por propagar um discurso tradicional do american way of living, mas já defasado frente a tantas questões debatidas nos dias de hoje: o de que todo e qualquer sacrifício é aceitável para se alcançar o sucesso. É uma mensagem reverenciada em demasia por um longa dirigido sem nenhuma inspiração e pouco capaz de ir além da superfície em discussões pertinentes no que tange família, sucesso e destino.

NÃO OLHE PARA CIMA (Don’t Look Up, 2021, de Adam McKay): Poucos previram que esta comédia dirigida por Adam McKay se tornaria um hit, muito menos um dos filmes mais vistos de toda a trajetória da Netflix. Espécie de um novo “isso é muito Black Mirror” da plataforma, Não Olhe Para Cima dá razões de sobra para justificar tamanho sucesso, a começar pela sátira muito clara e acessível que faz um apanhado de absurdos vividos no Brasil em termos sociais e políticos. Talvez lhe falte certo timing, visto que o resultado tem mais proximidade com a era Trump do que com a era Biden, o que não o impede de preservar sua atualidade porque o lastro deixado por governos problemáticos (para dizer o mínimo) é muito grande. Isso quando ainda não são uma realidade pulsante, como neste nosso Brasil de Jair Bolsonaro. Há quem critique Não Olhe Para Cima por ser escancarado demais e sem sutilezas, como se a realidade já não o fosse, mas essa é uma ideia abraçada sem restrições pelo filme. Ponto positivo, portanto. O que não me empolga no roteiro escrito pelo próprio McKay é ele se apoiar demais em acontecimentos da vida real para formular seus conflitos, sem ter ideias próprias, digamos assim. No desenrolar da trama, vemos apenas uma dramatização de fatos e leituras já amplamente presentes na vida real. Do ponto de vista cômico, isso basta até certo ponto, mas, dados os 140 minutos de duração, não chega a conferir a musculatura necessária para suas ambições e para o elenco estelar reunido aqui. São os atores que seguram as pontas quando, como um todo, Não Olhe Para Cima eventualmente perde parte do seu gás. Abraçado e repelido pelo público nas mesmas proporções, o filme, no frigir dos ovos, não vai nem ao céu nem ao inferno.

NO RITMO DO CORAÇÃO (CODA, 2021, de Sian Heder): Sem ter conferido o francês A Família Bélier, tudo foi novo para mim em No Ritmo do Coração, refilmagem do longa de 2014 assinado por Eric Lartigau. Não sei até que ponto isso contribuiu para a minha relação com os personagens, mas foi muito fácil se conectar com a jornada de Ruby (Emilia Jones, excelente), a única pessoa ouvinte de uma família de surdos. Valorizo muito essa conexão porque No Ritmo do Coração trilha caminhos previsíveis sem impedir a história de envolver e comover com grande naturalidade. Ao compreendermos o quanto a paixão pela música será um nó a ser desatado na vida de uma menina cuja vida se resume aos pais devido à dependência que eles nutrem por ela, os pequenos momentos acabam ganhando significados ainda mais afetivos, seja pelos dilemas muito críveis de uma protagonista iluminada ou pelos anseios de uma família que nos ganha pouco a pouco. Os conflitos de No Ritmo do Coração comovem porque são construídos em cima do afeto, o que talvez complique ainda mais as coisas, já que é sempre complicado questionar e enfrentar aqueles que mais amamos. E, quando o longa toma a simplicidade como conceito e recruta um elenco em estado de graça, com direito performances tocantes de Troy Kotsur e Marlee Matlin, a emoção se potencializa em qualquer momento corriqueiro. Não há apelação aqui, e sim uma grande dose de compreensão e generosidade, algo que, com o passar da vida, acaba tendo um significado muito maior do que qualquer situação mirabolante ou devastadora.

“Licorice Pizza” revela o lado solar, afetivo e muito pessoal de Paul Thomas Anderson

You’re always thinking things, you thinker!

lpizzaposter

Direção: Paul Thomas Anderson

Roteiro: Paul Thomas Anderson

Elenco: Cooper Hoffman, Alana Haim, Sean Penn, Bradley Cooper, Benny Safdie, Tom Waits, Will Angarola, Griff Giacchino, James Kelley, Milo Herschlag, John Michael Higgins, Yumi Mizui, Skyler Gisondo, Christine Ebersole, Greg Goetzman

EUA, 2021, Comédia, 133 minutos

Sinopse: Licorice Pizza é a história de Alana Kane (Alana Haim) e Gary Valentine (Cooper Hoffman) crescendo, correndo e se apaixonando no Vale de San Fernando, 1973. Os dois iniciam vários negócios, flertam, fingem que não se importam um com o outro e, inevitavelmente, se apaixonam por outras pessoas para evitar se apaixonar um pelo outro. Mas há um detalhe entre os dois: ela tem 25 e ele 15. (Adoro Cinema)

lpizzamovie

Gary (Cooper Hoffman) tem certeza de que ama Alana (Alana Haim) desde o primeiro minuto em que a vê. Mais do que isso, sai da primeira conversa com ela acreditando que o destino dos dois é o matrimônio. Detalhe: Gary tem apenas 15 anos, dez a menos que Alana, e não é levado a sério por sua mais nova paixão. Licorice Pizza poderia ser a clássica história de um amor não correspondido que, ao final, dá certo após uma longa jornada de altas e baixos, mas quem está atrás das câmeras é Paul Thomas Anderson, diretor de obras-primas do cinema contemporâneo e do meu coração, como Boogie Nights, Magnólia, Sangue Negro, O Mestre e Trama Fantasma. Um cineasta com um currículo como esse jamais se limitaria ao óbvio.

Licorice Pizza não deixa de ser uma guinada na carreira de Anderson, diretor comumente denso e inquieto que, neste filme, dá lugar a um contador de histórias solar, leve e afetivo, como nunca havíamos visto. Para tanto, ele não perde traços tão característicos seus, exemplificados já na primeira cena, um longo plano-sequência ao som de Nina Simone que ilustra com grande habilidade as personalidades muito peculiares de dois protagonistas livres de estereótipos. Do lado pop explorado com louvor em Boogie Nights às camadas tortuosas de uma vida vivida a dois em Trama Fantasma, é fácil reconhecer Anderson em Licorice Pizza, mesmo que com um estilo diferente do habitual.

A composição do casal protagonista se destaca de imediato, uma vez que Gary e Alana são abraçados com todas as suas imperfeições e contradições, várias delas não muito agradáveis. Ainda que mais velha, Alana parece se equivaler a Gary neste jogo de morde e assopra que revela dois jovens confusos sobre eles próprios como dupla e como indivíduos no mundo. Gary, por exemplo, parece ter a ânsia de canalizar várias ideias e vontades, levando-o ao mundo do empreendedorismo de colchões de água ou de máquinas de pinball. Alana, por outro lado, chega aos 25 anos sem o desejo de ir para a faculdade e tampouco sem saber o que fará da vida. Não é exatamente o caso de afirmar que opostos se atraem, mas há algo de magnético nessa dinâmica de duas pessoas contrárias em vários sentidos.

Ao permitir que os protagonistas sejam vistos sem qualquer julgamento, Licorice Pizza constrói uma atmosfera bastante pé no chão para um filme trabalhado na nostalgia. Aqui, a Califórnia dos anos 1970 é claramente vista sob uma perspectiva muito pessoal e afetiva de Anderson, quase como um livro de memórias em que Gary e Alana passeiam por diferentes sentimentos, trabalhos, cenários familiares e conflitos sendo quem realmente são, mesmo quando tentam se encaixar em algum tipo de normalidade, como na parte em que Alana passa a atuar nos bastidores de uma campanha política. A estrutura quase episódica contribui para testemunharmos o passar do tempo e a maneira com que os dois reagem a ele.

Se Licorice Pizza lida muito bem com seus dois protagonistas em qualquer circunstância, o mesmo não pode ser dito de outros personagens escolhidos para orbitar a história. O problema começa quando o William de Sean Penn entra em cena, desviando quase toda a atenção para o aproveitamento desse personagem. A participação é relativamente longa e, logo descobrimos, um recurso a ser replicado dali em diante: após Sean Penn, também entram em cena personagens vividos por Bradley Cooper e Bennie Safdie, ocupando uma parcela de tempo grande demais e que seria melhor aproveitada com os protagonistas. É por essa barrigas fáceis de identificar que o roteiro se estica além da conta quando, na verdade, tinha tudo para ser mais polido e assertivo.

Outro fator que pode ampliar essa percepção depende do repertório e da identificação de cada espectador. É o de Licorice Pizza ter um diretor assumidamente familiar e enamorado com o recorte de tempo e espaço trabalhado. Anderson faz um filme que toca em cheio na nostalgia de quem viveu tudo aquilo — e, em boa parte, ele consegue fazer com que a plateia também tenha esse sentimento —, mas as referências e citações internas parecem ser elementos importantes para que determinadas piadas, por exemplo, ganhem a devida graça e revelem sua esperteza. Neste coming of age bastante pessoal, com escolhas fora do habitual, bem interpretado por dois protagonistas e embalado por uma seleção maravilhosa de músicas, o ponto final da costura pode estar, portanto, nessa conexão afetiva e nostálgica que regula a maneira como cada um reage ao longa.

“Pequena Mamãe” é a mais nova pérola de uma infalível Céline Sciamma

pmamanposter

Direção: Céline Sciamma

Roteiro: Céline Sciamma

Elenco: Joséphine Sanz, Gabrielle Sanz, Nina Meurisse, Stéphane Varupenne, Margot Abascal, Florès Cardo, Josée Schuller, Guylène Péan

França, 2021, Drama, 75 minutos

Sinopse: Nelly acaba de perder sua avó e está ajudando o pais a limpar a casa de infância de sua mãe. Ela explora a casa e o bosque ao redor. Um dia, ela conhece uma garota de sua idade construindo uma casa na árvore.

pmamanmovie

Ainda estamos por ver algo minimamente decepcionante da cineasta francesa Céline Sciamma. Claro que sou suspeito para falar porque tenho grande admiração por seu estilo delicado, naturalista e, por vezes, imaginativo, mas Pequena Mamãe, filme assinado por ela e exibido no último Festival de Berlim reafirma essa sensação. Após o emblemático Retrato de Uma Jovem em Chamas, Sciamma volta a um tema bastante recorrente na sua filmografia: a infância, agora sob a perspectiva do luto. No centro da história, está Nelly (Josephine Sanz), uma menina de oito anos que acaba de perder a avó e tenta lidar com essa despedida através do vínculo com sua mãe. Simples na essência. Surpreendente nos detalhes.

Assim como em Tomboy, onde discutiu identidade de gênero, e no roteiro de Minha Vida de Abobrinha, em que abordou orfandade e abandono, a diretora olha para a vida adulta por meio das possibilidades e das imaginações presentes na vida infantil. E trata-se de um formato muito difícil de administrar, visto que é muito comum encontrar filmes que tratam crianças como mini-adultos ou, então, como personagens que só expressam suas angústias e contradições através de comportamentos que testam a paciência e os ouvidos da plateia. Sciamma passa longe disso, e o faz com inteligência, debruçando-se com delicadeza sobre os verdadeiros traços que orbitam essa faixa etária e fazendo com que eles sejam complexos sem perder a identidade inerente a personagens com curtas trajetórias de vida.

No caso de Pequena Mamãe, o luto fornece elementos para compreendermos a pequena Nelly, tanto na sua jornada individual quanto na relação estabelecida com uma mãe de função muito mais complexa do que aparenta. Ao abordar sentimentos decorrentes das perdas, Sciamma aproveita para explorar também o amor, a inocência e os interessantes prismas com que os pequenos enxergam o mundo. E não estamos falando de qualquer criança: a Marion de Petite Maman é especial, quase mágica, e o fato de ela eventualmente parecer um tanto mais madura do que o esperado para a sua idade é plenamente justificado com o desenrolar da trama.

Temos, portanto, um longa-metragem melancólico que encontra maturidade não na ideia de uma infância pura e simples, mas nas remanescências dela, particularmente nas de nós próprios. Feito de camadas desdobradas de maneira quase imperceptível, Pequena Mamãe pode ser uma ghost story, o retrato de um rito de passagem, uma fábula, um conto sobre como se (re)conhecer no luto e uma mistura disso tudo, o que não é problema algum para uma contadora de histórias como Sciamma. Ela cria a atmosfera ideal para que o filme se complemente e não se pulverize com suas tantas possibilidades de interpretação.

Em que pese um ponto de virada construído sem maiores surpresas, Pequena Mamãe é o caso de filme que alcança o subestimado e dificílimo feito de ser conciso em tudo que se propõe, a começar pela própria duração de meros 72 minutos. Há, no projeto, um universo rico e repleto de leituras poucas vezes encontradas em obras que acreditam na ideia de que quanto mais tudo — tempo, elenco, técnica — melhor. Com Sciamma, tudo flui naturalmente em uma experiência breve e plena em sua objetividade. Do ponto de vista formal e emotivo, a cineasta, com apenas cinco longas no currículo, já é mesmo uma grande e, até aqui, infalível referência. Estou desde já ansioso por seu próximo projeto.

Festival de Sundance 2022: “Cha Cha Real Smooth”, de Cooper Raiff

chachasundance

Sucesso no Festival de Sundance, onde foi agraciado com o prêmio do público, Cha Cha Real Smooth promove um encontro entre dois personagens que, em diferentes pontos de suas vidas, compartilham um certo sentimento de desorientação. Enquanto Andrew (Cooper Raiff) chega aos 22 anos ainda tendo que compartilhar o quarto com o irmão caçula e trabalhar em um emprego qualquer porque não encontrou uma vocação, Domino (Dakota Johnson) vive dias solitários com sua filha autista enquanto o noivo, um homem que ela escolheu se relacionar para ter uma vida “adulta” e “responsável”, passa dias fora da cidade a trabalho. Quando Andrew vai a um bar mitzvá e se descobre um party starter — espécie de animador de festas —, esses dois caminhos se cruzam, dando início a uma relação tão delicada quanto impossivelmente apaixonante.

Cha Cha Real Smooth é contado do ponto de vista de Andrew, esse garoto gentil e sentimental que chega para abrilhantar a vida de uma mãe feliz com sua estabilidade, mas que carrega um desejo melancólico pela liberdade e pela novidade da juventude usufruída por Andrew. A conexão imediata entre os dois, no entanto, não faz deste filme um emaranhado de conflitos sobre diferenças geracionais ou a impossibilidade de uma relação. Na verdade, o que há em Cha Cha Real Smooth é um relato muito sensível, afetivo e que, apesar dos traço indie do cinema norte-americano, dispensa a todo momento qualquer maneirismo para soar cool. Além de ator, Cooper Raiff dirige e roteiriza o longa como uma história de amor que não trilha os caminhos imaginados no desenrolar do primeiro terço, o que é uma ótima notícia.

Afeito aos pequenos momentos de uma relação, seja ela de qualquer natureza — amorosa, familiar ou de amizade —, Cha Cha Real Smooth reserva bons espaços para coadjuvantes que, mesmo em papeis bastante pequenos, complementam a imagem apresentada de Andrew. É o caso da mãe vivida por Leslie Mann, cujas aparições são breves, mas assertivas em cada observação sobre o filho. Há também o adorável irmão caçula vivido por Evan Assante, capaz de enxergar no primogênito uma sabedoria e um companheirismo que o protagonista não é capaz de enxergar em si mesmo. E não dá para deixar em branco a presença de Vanessa Burghardt, responsável por dar vida a uma personagem autista que, de fato, é interpretada por uma atriz autista, mostrando como representatividade importa e só tem a contribuir para uma história.

Com tantos coadjuvantes bacanas orbitando a história, Cooper Raiff e Dakota Johnson são generosos com todos eles e, claro, com a relação afetiva que precisam estabelecer como os dois protagonistas. Ambos trilham os caminhos tortuosos e realistas de Andrew e Domino nessa busca pelo que eles significam um para o outro. Cooper esbanja carisma do início ao fim (desafio qualquer pessoa a não querer guardar Andrew em um potinho e levar para casa) e Dakota Johnson confirma as excelentes escolhas de sua carreira recente, mais uma vez vivendo uma mãe jovem e bonita que coloca em pauta diversas e importantes questões maternas, assim como vimos há poucos meses em A Filha Perdida. A química entre os dois é apaixonante, mas, no sorriso de ponta a ponta deixado pelo filme, faço minha maior reverência a Raiff mesmo, que, como ator, diretor, roteirista e produtor, jamais faz de Cha Cha Real Smooth uma egotrip — e sim um ato generoso que celebra a beleza e a melancolia das relações cotidianamente humanas.

Cha Cha Real Smooth review

A success at Sundance Film Festival, where it won the U.S. Dramatic Audience Award, Cha Cha Real Smooth promotes an encounter between two characters who, at different points in their lives, share a certain feeling of disorientation. While Andrew (Cooper Raiff) reaches the age of 22 sharing a room with his younger brother and workgin at a random job because he still hasn’t found a vocation, Domino (Dakota Johnson) goes through lonely days with his autistic daughter while her fiancé, a man that she chose to relate to in order to have an “adult” and “responsible” life, spends days out of town for work. When Andrew goes to a bar mitzvah and turns himself into a “party starter” — a kind of party entertainer —, these two paths cross, beginning a very special relationship.

Cha Cha Real Smooth is told from the point of view of Andrew, this gentle and sentimental boy who comes to brighten the life of a happy mother with his stability, but who carries a melancholic desire for the freedom and novelty she sees in Andrew. The immediate connection between the two, however, does not make this film a tangle of conflicts over generational differences or the impossibility of a relationship. In fact, Cha Cha Real Smooth is a very affective story that dispenses any mannerism to sound cool. In addition to being an actor, Cooper Raiff is the director and the screenwriter, facing the feature as a love story that does not follow the obvious.

Used to the small moments of any relationship — love, family or friendship —, Cha Cha Real Smooth saves good spaces for supporting actors who, even in very small roles, complement the image presented by Andrew. This is the case of the mother played by Leslie Mann, whose appearances are brief, but assertive in every observation about her son. There is also the adorable younger brother played by Evan Assante, able to see in his older brother wisdom and companionship that the leading character is not able to see in himself. And you can’t miss Vanessa Burghardt. She gives life to an autistic character who is actually played by an autistic actress, showing how representation matters.

With so many cool supporting actors orbiting the story, Cooper Raiff and Dakota Johnson are generous with all of them and, of course, with the delicate relationship they need to establish as the two leading characters. They both walk the crooked and down-to-earth paths of Andrew and Domino in their quest for what they mean to each other. Cooper oozes charisma from start to finish (I dare anyone not to want to keep Andrew in a pot and take it home) and Dakota Johnson confirms the excellent choices of her recent career, once again playing a young and beautiful mother who puts several maternal issues in discussion, as we saw a few months ago in The Lost Daughter. The chemistry between the two is passionate, but, in the end-to-end smile left by the film, I pay my biggest bow to Raiff himself, who, as an actor, director, screenwriter and producer, never makes Cha Cha Real Smooth an egotrip. Actually, it is a generous act that celebrates the beauty and melancholy of everyday human relationships.

Festival de Sundance 2022: “Dual” e “After Yang”, dois filmes com visões díspares sobre um futuro habitado por clones e robôs

Por coincidência, dois filmes que assisti sequencialmente no Festival de Sundance convergem em temáticas. Tanto Dual, de Riley Stearns, quanto After Yang, de Kogonada, exploram realidades em que é possível comprar robôs ou encomendar clones de nós próprios. Os dois filmes se utilizam de elementos sci-fi para pensar condições e conflitos humanos, sem o desejo de criar realidades mirabolantes ou tecnológicas. Entretanto, a proximidade estaciona aí porque Dual e After Yang não se equivalem em qualidade e são separados por uma diferença abismal na maneira com quem aproveitam as boas ideias de cada uma de suas premissas.

DUAL - Still 1

No primeiro, o diretor Riley Stearns mostra o que acontece quando Sarah (Karen Gillan) recebe o diagnóstico de uma doença terminal e resolve encomendar um clone de si própria para substituí-la futuramente, assumindo o seu lugar junto à família e de modo que eles não saibam da sua condição de saúde e, claro, da sua eventual morte. O ponto de virada está na notícia de que, tempos depois, a doença de Sarah regrediu e de que ela não irá mais morrer. De imediato, a protagonista toma providências para desativar o clone já em treinamento. Tarde demais. Ele já se apropriou de muitos pontos da vida da protagonista e até conquistou afetivamente o namorado e a mãe da menina. Segundo as leis vigentes, caso o clone construa vida e consciência próprias, só há uma saída: um duelo de vida ou morte entre elas para resolver o impasse.

A atmosfera trabalhada por Stearns em Dual é eficiente, onde os tons da fotografia assinada por Michael Ragen são apropriadamente gélidos e os personagens agem com poucas emoções, o que é um excelente contraste para uma ideia de futuro que o filme constrói com realismo e com personagens que já carregam traços quase robóticos em seus comportamentos. Stearns tem bom pulso para conduzir esse estilo, e a protagonista Karen Gillan é interessante para reproduzir a tônica central do universo em questão. O ponto alto, portanto, fica com o momento em que Sarah, absorta em uma vida anestesiada, de repente percebe que seu namorado e sua mãe preferem uma outra versão sua, obrigando-a a agir com emoções, e não mais no piloto-automático.

Quando coloca a protagonista em confronto com sentimentos e situações que clamam algum tipo de reação, Dual se torna instigante e intrigante, já que o conflito central é rico ao ponto de nos colocar no lugar de Sarah e nos fazer imaginar o que ela fará com tamanha saia-justa. Só que o filme segue outro caminho quando misteriosamente transfere o foco para longa preparação física e estratégica da protagonista rumo ao tão aguardo duelo. A entrada do treinador vivido por Aaron Paul traz certa expectativa, mas a interação entre os dois não reserva surpresa alguma. A estranha decisão de escantear os conflitos existenciais para ensaiar um morno jogo de matar ou morrer é das mais inexplicáveis e termina minando até mesmo o desfecho que teria a devida potência caso Dual houvesse compreendido a verdadeira essência de sua vocação.

ayangsundance

O mesmo problema não está presente em After Yang, drama exibido pela primeira na mostra Um Certain Regard do Festival de Cannes e que chegou ao Festival de Sundance para uma segunda projeção. Não há dúvidas de que o diretor Kogonada, tomando como base o conto “Saying Goodbye to Yang”, lançado por Alexander Weinstein, em 2016, sabe muito bem aonde quer chegar com este longa estrelado por Colin Farrell. Ele valoriza a coesão de um filme mesmo quando a premissa é desdobrada em baixa fervura, com tom comedido e sem maiores catarses ou revelações como acontece aqui. Essa disciplina é admirável e faz a diferença em um relato que propõe reflexões existenciais e nada dispersas sobre os possíveis lados humanos de um robô.

Em After Yang, a família de Jake (Farrell) é abalada pela repentina pane sofrida por Yang, robô adquirido há muitos anos por eles e que era tratado por todos como um verdadeiro ser humano, especialmente pela filha caçula. Yang, assim como a pequena irmã, tem traços orientais e foi encomendado com tais características para que a ela, uma menina adotada, pudesse encontrar nele algum tipo de identificação. Desde muito cedo, Kogonada estabelece a consolidada relação da família, o que está ilustrado com imenso carisma em uma sequência muito divertida de créditos iniciais. A delicadeza com que ele costura os momentos daquele núcleo é outro fator preponderante para nossa compreensão e proximidade.

Kogonada nasceu em Seul, na Coreia do Sul, e foi criado em Kentucky, nos Estados Unidos, mantendo uma vida pessoal bastante privada. Ainda que radicado na América do Norte, ele traz muito do cinema oriental para After Yang, fazendo uma leitura familiar com ritmo contemplativo e de identidade extremamente humana. Não há hipérbole alguma no filme, e Kogonada dá grande valor ao estudo do comportamento dos personagens. Isso não é novidade se também dermos uma olhada rápida na carreira do diretor, que já fez incontáveis curtas e documentários em formato de ensaio, com destaque para meditações sobre diferentes trabalhos de cineastas como Ingmar Bergman, Richard Linklater and Yasujiro Ozu. Ou seja, as camadas e as entrelinhas são os verdadeiros objetos de interesse de Kogonada.

O que se apresenta em After Yang é exatamente isso: um drama de minúcias. A parte majoritária do filme se concentra nas memórias do robô-título revisitadas pelo personagem de Colin Farrell após a sua pane. Enquanto tenta consertar Yang, sabendo que ele é peça afetiva muito importante da família, Jake descobre muito mais do que o ponto de vista de Yang para o que eles já viveram juntos: o que emerge são gestos e atitudes desconhecidas do robô, incluindo histórias que ele mantinha em segredo e que, ao invés de serem tratadas como artifícios de roteiro ou como pequenas catarses, dizem muito sobre a sua humanidade. Tanto foco nas lembranças de Yang torna o filme reiterativo aqui e ali, mas revela um olhar integral e sutil sobre um futuro que cada vez mais deveria nos interessar: aquele por trás dos algoritmos e capaz de valorizar o que verdadeiramente nos conecta como seres humanos.

Two films I watched sequentially at the Sundance Film Festival converge in themes. Both Dual, by Riley Stearns, and After Yang, by Kogonada, explore realities in which it is possible to buy robots or order clones of ourselves. Both films also use sci-fi elements to think about human conditions and conflicts, without the desire to create fancy or technological realities. However, the proximity stops there because Dual and After Yang are not equivalent in quality and are separated by an abysmal difference in the way in which they take advantage of the good ideas of each of their premises.

Dual review

In Dual, director Riley Stearns shows what happens when Sarah (Karen Gillan) is diagnosed with a terminal illness and decides to order a clone of herself, taking her place with her family, who is unaware of her health condition and her eventual death. The turning point lies in the news that, some time later, Sarah’s illness regressed and that she will no longer die. Immediately, the leading character takes steps to disable the clone already in training. Too late. The clone has already dominated her life and has even affectionately won over the girl’s boyfriend and mother. According to current laws, if the clone builds its own life and consciousness, there is only one way out: a life or death duel between them.

The atmosphere created by Stearns in Dual is efficient, in which the tones of the photography signed by Michael Ragen are appropriately icy and the characters act with few emotions. This is an excellent contrast to an idea of  future that the film builds with realism and characters that already carry almost robotic traits in their behavior. Stearns has a good pulse to drive this style, and the protagonist Karen Gillan is interesting in reproducing the central tonic of the universe in question. The highlight, therefore, is the moment when Sarah, absorbed in an anesthetized life, suddenly realizes that her boyfriend and her mother prefer the clone, forcing her to act with emotions, and no longer mechanically.

By putting the main character in confrontation with feelings and situations that call for some kind of reaction, Dual becomes instigating and intriguing, since the central conflict is rich to the point of putting us in Sarah’s shoes and making us wonder what she will do with such a unique conflict. But the film follows another path when it mysteriously transfers the focus to Sarah’s physical and strategic preparation towards the long-awaited duel. The introduction of a coach played by Aaron Paul brings some expectation, but the interaction between the two does not hold any surprises. The strange decision to sideline existential discussions to rehearse an insipid game of life and death is an explicable one and ends up undermining even a conclusion that could be really efficient if Dual had understood the true essence of his vocation.

After Yang review

The same problem does not exist in After Yang, a drama shown for the first time in the Un Certain Regard section of Cannes Film Festival. There is no doubt that director Kogonada, based on the short story “Saying Goodbye to Yang”, released by Alexander Weinstein in 2016, knows very well where he wants to go with this story starring Colin Farrell. He values ​​the film’s cohesion even when the premise is unfolded at a low boil, with a measured tone and without major catharsis or revelations. This discipline is admirable and makes the difference in a plot that proposes existential reflections on the possible human behavior of a robot.

In After Yang, Jake’s family is shaken by the sudden breakdown of Yang, a robot acquired many years ago by them and treated by everyone as a real human being, especially by his youngest daughter. Yang, like the little sister, is oriental and was produced with such characteristics so that the adopted girl could identify with him. From the beginning of the script, Kogonada establishes the consolidated relationship of the family, which is illustrated with immense charisma in a very fun opening credits sequence. The delicacy used to connect the moments between those characters is another important factor for our closeness to the story.

Kogonada was born in Seoul, South Korea, and raised in Kentucky, United States, maintaining a very private personal life. Although based in North America, he brings a lot of oriental cinema to After Yang, with a contemplative rhythm and an extremely human approach. There is no exaggeration in the film, and Kogonada finds great value in the study of characters’ behavior. This doesn’t come as a surprise if we take a quick look back at the director’s career, who has made countless shorts and documentaries in essay format, highlighting meditations on filmmakers such as Ingmar Bergman, Richard Linklater and Yasujiro Ozu. In other words, the human layers are Kogonada’s real objects of interest.

The majority of the film focuses on the robot’s memories revisited by Colin Farrell’s character. As he tries to fix Yang, knowing he is a very important affection for the family, Jake discovers much more than Yang’s point of view for what they once lived together: what emerges are unfamiliar gestures and attitudes from the robot, including stories that he kept secret and that, instead of being treated as screenplay gimmicks or petty catharsis, say a lot about his humanity. So much focus on Yang’s memories makes the film reiterative here and there, but it reveals an integral and subtle look at a future that should increasingly interest us: the one behind the algorithms and capable of valuing what truly connects us as human beings.