Cinema e Argumento

Medo da Verdade

Medo da Verdade, de Ben Affleck

Com Casey Affleck, Michelle Monaghan e Amy Ryan

3

Ben Affleck deixou de atterorizar os cinéfilos com suas péssimas atuações e resolveu investir em um trabalho atrás das câmeras, obtendo resultado muito mais benéficos para si mesmo. Se como ator Affleck é uma completa desgraça, ao menos como diretor ele apresenta maior qualidade – mas vale ressaltar que ainda tem muito o que aprender nesse cargo. Sua direção tem várias falhas e a condução dessa dramática história não tem o devido impacto emocional que deveria ter justamente por causa do trabalho um pouco perdido atrás das câmeras. Affleck quer misturar as angústias dos personagens envolvidos na investigação (algo que Clint Eastwood fez com maestria em Sobre Meninos e Lobos) com o habitual thriller que envolve esse tipo da história. E não consegue grande êxito. Medo da Verdade não chega a ser insitigante em seu suspense e a força reside em sua dramaticidade.

A coadjuvante Amy Ryan fez com que o filme fosse lembrado na festa do Oscar. Como a drogada mãe que tem a filha raptada, Ryan aproveita muito bem cada uma de suas pouquíssimas cenas. Sua indicação foi meio duvidosa, pois seu desempenho é passageiro e não muito marcante. Contudo, a categoria era pouco concorrida e isso de certa forma valida sua nomeação (ainda que eu preferisse a Meryl Streep por Leões e Cordeiros ou a Imelda Staunton por Harry Potter e a Ordem da Fênix, por exemplo). Assim como Ryan, o resto do elenco apresenta desempenhos regulares. Casey Affleck, o melhor coadjuvante do ano passado por O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford, consegue encabeçar tranquilamente o elenco ao lado de Michelle Monaghan. Muitas pessoas ficaram bastante satisfeitas com o resultado de Medo Da Verdade; eu faço parte daqueles que acharam o longa apenas satisfatório. Com o material que tinha em mãos, o filme poderia ter apresentado um argumento mais consistente e momentos mais memoráveis. De qualquer forma, é uma boa experiência. Só que deve ser vista sem expectativas ou maiores exigências.

FILME: 7.0

Filmes em DVD

Adeus, Lenin!, de Wolfang Becker (revisto)

Com Daniel Brühl, Katrin Saas e Maria Simon

Precisei rever esse longa alemão pra confirmar se eu tinha gostado tanto dele de verdade, já que eu o assisti há muito tempo atrás e apenas uma vez. E tudo se confirmou – continuo apaixonado pelo filme, que é a minha produção estrangeira favorita. Achei estranho a Academia não ter se lembrado nele na respectiva categoria, já que é um filme muito bem produzido e com uma dramaticidade sempre competente. Político, engraçado, crítico e emotivo, Adeus, Lenin! prima por conseguir unir todas essas características de forma harmoniosa. A bela trilha de Yann Tiersen (que também fez a de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain) e a montagem original conferem ao filme alemão um ar de competência que poucos estrangeiros conseguem. Talvez eu o superestime, mas Adeus, Lenin! é um dos meus filmes “de coração”.

FILME: 9.0

Interiores, de Woody Allen

Com Diane Keaton, Geraldine Page e Mary Beth Hurt

Não sou fã de carteirinha do Woody Allen. Suas comédias são boas e seus dramas também, mas sinceramente acho que todos eles possuem a mesma estrutura. Foi só de uns tempos pra cá, com Match Point e O Sonho de Cassandra, que ele alterou o seu estilo. Interiores é o primeiro trabalho do senhor excêntrico de óculos que me conquistou completamente – talvez isso seja pelo fato de que esse tipo de histórias sobre famílias cheias de feridas escondidas me agrade bastante. Mas não creio que tenha sido somente por isso – o longa é muito bem escrito (o mais introspectivo e denso já realizado por Allen), dando dimensões instigantes para cada personagem. O elenco dá um show a parte, em especial Diane Keaton e Mary Beth Hurt, como as irmãs que competem o tempo inteiro para ver quem é a melhor na vida. Interiores é o meu filme favorito de Woody, um drama simples mas que aos poucos vai entrando na mente e hipnotizando com suas temáticas realistas. Recebeu cinco merecidas indicações ao Oscar e é um verdadeiro marco na carreira do diretor. Pena que não seja conhecido.

FILME: 8.5

O Casamento de Muriel, de P.J. Hogan

Com Toni Collette, Rachel Griffiths e Daniel Lapaine

Pra quem desconhece o longa, O Casamento de Muriel pode parecer uma variação de O Casamento do Meu Melhor Amigo só que menor, uma vez que também é dirigido por P.J. Hogan. O fato é que um filme não tem nada a ver com o outro. Enquanto o que é estrelado por Julia Roberts foi um hit romântico, O Casamento de Muriel é um drama sobre pessoas isoladas e insatisfeitas, que anseiam por coisas boas na vida. Toni Collette realiza um trabalho excepcional como a triste Muriel do título e apresenta o melhor trabalho de sua filmografia. Quem também merece destaque é a coadjuvante Rachel Griffiths, já demonstrando muito talento antes de sua indicação ao Oscar de coadjuvante por Hilary & Jackie. As músicas do ABBA servem como pano de fundo para essa história de mudanças e sobre a força que existe dentro de cada um de nós.

FILME: 8.5


Um Amor Verdadeiro, de Carl Franklin (revisto)

Com Renée Zellweger, Meryl Streep e William Hurt

Se não fosse pelo competente elenco, Um Amor Verdadeiro seria uma produção qualquer sobre alguém que tem câncer e que passa os últimos dias da vida ao lado da família. O roteiro não foge dos habituais clichês do gênero (pessoas brigadas fazendo as pazes nesse momento difícil e lições de vida são alguns exemplos), mas a dupla Renée Zellweger e Meryl Streep validam uma espiada nesse filme que é bastante sincero e consegue até mesmo emocionar. Streep conseguiu uma duvidosa indicação ao Oscar de protagonista; duvidosa porque claramente é Renée Zellweger o nome principal do filme. Mas a nomeação se deve justamente ao difícil trabalho fisíco que a atriz realizou para dar verossimilhança na situação da personagem. Um pouco esticado demais (não precisava exceder duas horas de duração para narrar uma história tão simples) e óbvio, mas triste e emotivo.

FILME: 8.0

Atração Fatal, de Adrian Lyne

Com Michael Douglas, Glenn Close e Anne Archer

Atração Fatal é um filme que envelheceu com o tempo. Hoje é um filme completamente batido e que tem uma trama clichê. Antes era até ousado para sua época. Tentei fugir um pouco desses “clichês” da história adquiridos com o tempo e tentar aproveitar o que o longa de Adrian Lyne tinha para me oferecer. Confesso que gostei do resultado e fiquei até tenso com esse guilty pleasure. Deixando de lado a tensão da simples a história, a verdadeira força de Atração Fatal se situa nas atuações do elenco. Michael Douglas está em um de seus melhores momentos, mas é ofuscado pela marcante Glenn Close, naquele típico ótimo papel de uma mulher que enlouquece cada vez mais com o desenrolar dos fatos. Atração Fatal recebeu seis indicações ao Oscar, incluindo melhor filme (!). Se você for capaz de entrar no túnel do tempo e voltar para a época que o filme foi exibido, o resultado é satisfatório.

FILME: 7.0

Uma Rua Chamada Pecado, de Elia Kazan

Com Vivien Leigh, Marlon Brando e Kim Hunter

Sou fã incondicional de Vivien Leigh, mesmo que Uma Rua Chamada Pecado tenha sido apenas o segundo film que assisto com ela. Impressionante como ela consegue atuar com notável tranqüilidade e excelência, transmitindo verossimilhança a todo momento. Esse seu primeiro trabalho antes do grandioso sucesso de E O Vento Levou é ótimo e Vivien é a que mais se destaca no longa, mesmo competindo com o galã Marlon Brando (o único que não levou o Oscar por sua atuação, já que os outros três membros do elenco – Kim Hunter, Vivien Leigh e Karl Malden – sairam vitoriosos). O longa, na realidade, não tem nada de sensual como o título indica; aliás, é bem recatado. Uma Rua Chamada Pecado se torna um retrato sobre a moralidade, centrando-se na figura de Vivien Leigh, interpretando uma mulher que, à primeira vista, é pura e querida, mas que esconde um passado pecaminoso e uma alma dissimulada. A direção de Elia Kazan não segura o ritmo, tornando o filme em uma experiência pouco marcante e sem maiores momentos.

FILME: 7.0

A estrela máxima do cinema.

Streep é técnica demais e é possível ver as engrenagens fazendo ‘click, click, click’ em sua cabeça conforme ela atua.”. A consagrada atriz Katherine Hepburn vai ter que me desculpar, mas fazer essa afirmãção foi um verdadeiro erro. Além de demonstrar uma visível inveja, não condiz em nada com a qualidade dos trabalhos realizados por Mary Louise Streep. Meryl Streep, para o cinema. Possivelmente a maior estrela viva, Streep é um grande exemplo de como conduzir uma carreira – nada de projetos catastróficos, atuações ruins, exibicionismo diante da mídia ou declarações desnecessárias em entrevistas. Extremamente reservada (alguém vê seu nome em revista de fofocas?), sua presença é toda voltada para o cinema, e tal dedicação com a sétima arte fica evidente a cada novo trabalho.

Mesmo sendo considerada por muitos como uma atriz da “antiga geração” (quem já não ouviu expressões do tipo “Kate Winslet é a Meryl Streep da nova geração.”?), esse título não lhe cabe. Perto de completar 60 anos de idade, Streep ainda hoje impressiona com a vitalidade de suas constantes aparições no cinema. De quebra, cria personagens memoráveis (precisa dizer quem é a dona da expressão “that’s all”?) e continua a aumentar seu número de indicações ao Oscar. Falando em Oscar, ela é a recordista absoluta em número de indicações e sua última nomeação foi ano passado, com O Diabo Veste Prada. Chegando em 2008 com Mamma Mia!, musical onde ela é o maior atrativo, essa linda senhora mostra grande vitalidade ao pular, cantar, dançar e fazer comédia no musical de Phyllida Lloyd. Para ano que vem, tem o polêmico Doubt. É impossível negar o talento dela e, desculpem-me, quem faz isso não entende de cinema. E para você, qual o melhor desempenho dela? Fico com o belíssimo As Pontes de Madison. No próximo post, mais uma atriz merecedora de elogios =)

Elizabeth – A Era de Ouro

Direção: Shekar Kapur

Elenco: Cate Blanchett, Clive Owen, Geoffrey Rush, Samantha Morton, Eddie Redmayne

Sinopse: Inglaterra, 1585. Elizabeth I (Cate Blanchett) está quase há três décadas no comando da Inglaterra, mas ainda precisa lidar com a possibilidade de traição em sua própria família. Simultaneamente a Europa passa por uma fase de catolicismo fundamentalista, que tem como testa-de-ferro o rei Felipe II (Jordi Mollá), da Espanha. Apoiado pelo Vaticano e armado com a Inquisição, Felipe II planeja destronar a “herege” Elizabeth I, que é protestante, e restaurar o catolicismo na Inglaterra. Preparando-se para entrar em guerra, Elizabeth busca equilibrar as tarefas da realeza com uma inesperada vulneabilidade, causada por seu amor proibido com o aventureiro Sir Walter Raleigh (Clive Owen).

Essa continuação do primeiro Elizabeth é um produto bastante reciclado, mas ainda assim possui bastante características a serem elogiadas – em especial o belíssimo lado técnico. E Cate Blanchett, claro.”

Fui assistir Elizabeth – A Era de Ouro cheio de pedras nas mãos e já me preparando para uma verdadeira bomba. Depois de fracassar nas bilheterias americanas e passar em branco nas salas de cinema brasileiras, a continuação da saga da rainha Elizabeth recebeu críticas devastadoras durante sua caminhada nas telonas. Mas até que eu gostei do resultado do filme e estou até agora tentando entender o porquê de tanta má vontade com a produção. Okay, está evidente que é um filme perdido no tempo (alguém consegue me citar um filme de época atual que seja original ou fuja das habituais estruturas do gênero?) e muito desnecessário, visto que o filme anterior nem dava qualquer margem para uma continuação. É aquela velha história: já que foi feito, demos uma chance.

Dificilmente consigo gostar de filmes de época, e eu não tinha me empolgado muito com o primeiro Elizabeth. Essa continuação, que tem como subtítulo A Era de Ouro, é muito mais grandiosa (até demais) e parece bem mais cuidada em seu setor técnico. Os figurinos – merecidamente premiados com o Oscar desse ano – são visualmente exagerados, mas o grande mérito da figurinista está justamente nesse ponto : estudar toda a grandiloqüência do estilo daquela época e reproduzir nas diversas roupas presentes no épico. Um trabalho previsível? Sem dúvida. Mas muito bem realizado. A direção de arte também é grandiosa e é de se estranhar que ela não tenha sido lembrada pelos votantes da Academia. Muita gente também reclamou da gritante trilha sonora composta por Craig Armstrong e A.R. Rahman; acredito que ela seja bem coerente com a grandiosidade da produção.

Tirando a excelência do setor técnico, outro fator positivo é, sem dúvida, a presença da sempre bem-vida Cate Blanchett. É ela quem segura as pontas do longa, especialmente quando ele resolve seguir por caminhos tortuosos e tediosos. Pena que uma história tão interessante como a de A Era de Ouro tenha sido escrita de forma tão irregular. O roteiro se caracteriza por dar uma grande humanidade para a protagonista, que fica vulnerável diante de grandes ameças e principalmente diante de seu flerte com um homem interpretado pelo Clive Owen. Junte alguns conflitos religiosos e políticos e você teria uma trama adequada para o estilo. Não é o que acontece. Tudo se estica demais e sem necessidade, tornando tudo muito maçante e cansativo. Ainda assim, tem bons momentos dramáticos (ou seriam os atores que tornam esses momentos bons?) e consegue ser uma produção aceitável no gênero. Talvez tenha sido vítima das expectativas.

FILME: 7.0

3

Mamma Mia!

Direção: Phyllida Lloyd

Elenco: Meryl Streep, Amanda Seyfried, Pierce Brosnan, Christine Baranski, Julie Walters, Colin Firth, Stellan Skarsgard, Dominic Cooper

EUA, 2008, Musical, 95 minutos, Livre.

Sinopse: Na ilha grega de Kalokairi, a menina Sophie (Amanda Seyfried) está prestes a se casar quando resolve enviar três convites da cerimônia para três homens – Sam Carmichael (Pierce Brosnan), Bill Anderson (Stellan Skarsgard) e Harry Bright (Colin Firth) –, acreditando que um deles é seu pai. De diferentes partes do mundo, os três resolvem voltar à ilha. Quando chegam, a mãe de Sophie, Donna (Meryl Streep), se surpreende ao ficar cara-a-cara com os ex-namorados que nunca conseguiu esquecer. E, enquanto eles inventam desculpas por estar ali, ela se pergunta qual deles é, realmente, o pai de Sophie.

Muito se fala sobre a expansão dos musicais no mundo cinematográfico, devido ao inúmero sucesso deles nos últimos tempos, mas é fato que até hoje não é um gênero que se consolidou e que muito menos garante sucesso. Todavia, não podemos negar que esses filmes têm os seus fãs garantidos, e Mamma Mia! vem aos cinemas não só com o público dos musicais garantido reconhecimento ao longa, mas também com os fãs do ABBA. Ambos encontram no tom bastante teatral adotado pela direção de Phyllida Lloyd uma sensação de improviso e espontaneidade que só faz bem ao filme. Assim como o já citado longa de Adam Shankman, Mamma Mia! não tem particularidades que saltem aos olhos como muitos dos musicais marcantes de diferentes gerações, mas é justamente com a sua simplicidade que ele irradia.

Minha maior preocupação era que as músicas ficassem desconexas com o filme. Realmente, algumas delas ficam um pouco avulsas e perdidas, como é o caso de Voulez-Vous, Souper Trouper e Gimme! Gimme! Gimme!. Contudo, é fácil perdoar esses deslizes quando vemos Meryl Streep entoando a canção-tema e The Winner Takes It All (a parte mais emocionante). É esse lado musical de Mamma Mia! que define se o espectador vai gostar ou não do resultado – o longa é inteiramente musicalizado e são poucos os minutos sem algum número. Inseridas em praticamente todas as situações, as canções podem ser o ponto alto assim como também podem atrapalhar. Depende de como você curte o gênero.

Como sempre, fui conquistado pelo elenco. A escolha da jovem Amanda Seyfried para ser a noiva é um acerto, assim como Christine Baranski é divertidíssima em cena. Porém, como era de se esperar, é Meryl Streep quem rouba a cena. Não por suas tiradinhas engraçadas que eram constantemente realçadas em todos os trailers, mas pela sua impressionante vitalidade. Prestes a completar sessenta anos de idade (!), ela mostra um vigor assustador em momentos que exigem total empenho vocal, como no momento de The Winner Takes It All. Cena essa, em que Meryl gravou em uma única tomada, sem qualquer interrupção. É a verdadeira estrela do musical.

Por outro lado, Mamma Mia! carece de um roteiro mais interessante e de conflitos consistentes, defeitos esses que são compensados por todas as qualidades citadas nesse texto. Não chega a ser um espetáculo de primeira classe, culpa em parte do fato de Phyllida Lloyd ser uma profissional dos palcos e não ter carreira no cinema, o que limita suas escolhas criativas na telona. Entretanto, duvido que alguém não saia do cinema com um sorriso querendo ouvir logo as canções do longa novamente. Inofensivamente Mamma Mia! faz rir, além de contagiar com um elenco que, aqui ou ali desafine, parece, assim como boa parte do público, se divertir à beça.

FILME: 8.0

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