Cinema e Argumento

Em Paris

Em Paris, de Christophe Honoré

Com Romain Duris, Louis Garrel e Joana Preiss

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Sempre vi o cinema francês como uma constante. Os resultados de seus filmes são sempre bons e raramente desapontam. Quando um furacão chamado Piaf – Um Hino Ao Amor e uma cultuada animação chamada Persépolis fizeram o país europeu brilhar novamente no mundo da sétima arte, uma pequena produção chamada Em Paris passou despercebida. Não é digna de premiações, mas é um satisfatório exemplar vindo da França, que trabalha relacionamentos; principalmente os familiares. Não, aqui não temos nenhuma situação onde uma família cura feridas do passado, lágrimas sendo derramadas por arrependimentos ou diálogos enfatizando a força dos laços familiares. Em Paris fala de relacionamentos sem ser explícito quanto a isso. E com essa estrutura temos a sustentabilidade do roteiro.

Ao mesmo tempo em que encontramos esse fator positivo, vemos que nada na história do filme é algo que já não tenhamos visto previamente em outras produções. A força vai ser centrada nos seus dois talentosos atores. O protagonista, Romain Duris, já havia provado ter competência suficiente para encabeçar um longa – fez sucesso com O Albergue Espanhol e Bonecas Russas. Aqui não é diferente, Duris apresenta mais um bom desempenho. Contudo, seu personagem perde bastante para o de Louis Garrel (o menos conhecido de Os Sonhadores) que cria uma figura muito mais interessante dentro do contexto do roteiro. Não estamos diante de uma produção original ou memorável, mas de um produto bem produzido e satisfatório. O que já justifica uma espiada.

FILME: 7.5

Jogos do Poder

Direção: Mike Nichols

Elenco: Tom Hanks, Julia Roberts, Philip Seymour Hoffman, Amy Adams, Emily Blunt, Brian Markinson, Jud Tylor.

Charlie Wilson’s War, EUA, 2008, Comédia, 115 minutos, 14 anos.

Sinopse:Início dos anos 80. A União Soviética invade o
Afeganistão, o que chama a atenção de políticos norte-americanos. Um
deles é Charlie Wilson (Tom Hanks), um homem mulherengo e polêmico que
não tem grande relevância política, apesar de ter sido eleito 6 vezes
para o cargo. Com o apoio de Joanne Herring (Julia Roberts), uma das
mulheres mais ricas do estado que o elege, e do agente da CIA Gust
Avrakotos (Philip Seymour Hoffman), Wilson passa a negociar uma aliança
entre paquistaneses, egípcios, israelenses e o governo norte-americano,
de forma que os Estados Unidos financiem uma resistência que possa
impedir o avanço soviético no local.

Extremamente confuso – e também restrito – Jogos do Poder é uma jogada mal realizade do diretor Mike Nichols, que dessa vez não consegue agradar com o estilo e nem mesmo com o elenco.”

Mike Nichols é um grande diretor, principalmente quando se trata da sua forma de conduzir um elenco. Ele dirigiu o telefilme mais emocionante que já tive a oportunidade de ver (Uma Lição de Vida, que traz uma estupenda atuação de Emma Thompson), criou uma memorável minissérie (Angels In America, vencedora de vários Emmy, incluindo prêmios para Meryl Streep e Al Pacino) e provou ser um grande maestro ao orquestrar diálogos excepcionais (como em Closer – Perto Demais e Quem Tem Medo de Virginia Woolf?). É estranho ver a sua mudança de gênero com esse Jogos do Poder, onde se lança em um terreno que pouco trabalhou – a comédia. Além de tudo, resolveu usar a política como engrenagem para construir o humor.

Se a estrutura já limita a aceitação do público, o roteiro não fez a mínima questão de tornar a história mais atraente ou original; Jogos do Poder é completamente político e puramente falado. Na minha visão isso resulta em tédio. E foi exatamente o que eu senti durante todo o filme. Em momento algum eu fui envolvido pela história, que é cheia de detalhes e nula em conflitos dramáticos. Normalmente, quando temos um bom elenco em mãos, os defeitos são parcialmente recompensados. Aqui não é o caso. Por mais que ótimos nomes estejam no casting, nenhum consegue sustentar o longa. Tom Hanks, que há um bom tempo vem brincando com a sua carreira, mais uma vez não convence. Julia Roberts, depois de um tempo desaparecida, mal tem presença significativa em cena. E se existe um alguém que se salva, esse é Philip Seymour Hoffman, excelente! Amy Adams também tem aparição radiante.

Entendo quem aprecia o resultado do longa, que tem várias críticas e um humor inteligente, mas dessa vez Mike Nichols pisou na bola. Por alguma razão misteriosa o Globo de Ouro se encantou com o resultado (dando, inclusive, cinco absurdas indicações para o filme), mas isso não aconteceu comigo. Fiquei bastante decepcionado com o tedioso produto que assisti. A requintada produção e alguns rostos do elenco demonstram eforço, mas é difícil quando um roteiro foi construído para atingir só certa parcela do público total.

FILME: 5.5

2

Filmes em DVD

Louca Obsessão, de Rob Reiner (revisto)

Com Kathy Bates, James Caan e Lauren Bacall

Filme que rendeu um merecidíssimo Oscar de melhor atriz para a espetacular Kathy Bates, que é a grande estrela desse Louca Obsessão. A variação de humor e personalidade que sua personagem sofre através dos acontecimentos é representada de maneira assustadora por ela, que cria uma figura marcante. Se não fosse por ela, Louca Obsessão talvez não teria metade de sua excelência já que estamos diante de um suspense bem simples. O mais importante aqui é o estudo sobre a loucura que o roteiro faz, adaptado da obra Misery de Stephen King. O filme prende a atenção até o último minuto e nunca desanda para exageros, mantendo-se linear e interessante.

FILME: 8.0

Extermínio 2, de Juan Carlos Fresnadillo

Com Robert Carlyle, Rose Byrne e Amanda Walker

Pra começo de conversa já devo ressaltar que o primeiro Extermínio não me conquistou como a maioria. Sim, eu me diverti, mas não vi muita coisa interessante. Já nesse segundo volume, fui pego de surpresa. Fazia bastante tempo que o cinema não apresentava um filme tão bem produzido sobre zumbis. Aumentando exponencialmente a tensão e o suspense de seu antecessor, Extermínio 2 surpreende pela direção competente (lembrando-me bastante o estilo frenético de Paul Greengrass) e pelas inúmeras cenas de ação. Se existe um porém em toda a excelência do longa, esse é o seu segundo ato falho. Quando se encaminha para o final, repete-se bastante (ainda que culmine em um final perturbador). Sem contar que faltou, por exemplo, um James Newton Howard na trilha sonora para o setor ser melhor.

FILME: 8.0

Carne Trêmula, de Pedro Almodóvar

Com Javier Bardem, Liberto Rabal e Francesca Neri

Uma das melhores produções do espanhol Pedro Almodóvar, mas estranhamente não muito marcante. Ao contrário do que o título e a sinopse indicam, falta maior impacto na trama de Carne Trêmula, que se beneficia por ter personagens enxtremamente bem construídos e dilemas emocionais interessantes. A história é sobre uma tragédia acidental que dá novos rumos na vida para as pessoas envolvidas nela. Não tem um quê de Crash ou Babel, conseguindo ter uma estrutura própria que revela ser o maior triunfo de filmes – nada de situações desnecessárias ou conflitos maximizados. Carne Trêmula é um bom exemplar da carreira do diretor, que dessa vez foi ofuscado pelo excelente elenco que dirigiu.

FILME: 8.0

Livre Para Voar, de Paul Greengrass

Com Kenneth Branagh, Helena Bonham Carter e Ray Stevenson

Paul Greengrass é aquele diretor que só faz filmes com câmera na mão e seqüências de tensão eletrizantes, certo? Errado. Esse Livre Para Voar é um desconhecido filme dele que não tem absolutamente nada das características que o tornaram famoso – estamos diante de um drama humano que é pontuado por boas atuações de Kenneth Branagh. E justamente o longa não é melhor por causa de Greengrass; é visível que ele está fora de seu gênero e se a história tivesse sido conduzida por um diretor mais sensível, teria mais impacto. Mesmo assim o trabalho de direção é bem regular, desenvolvendo tudo com muita naturalidade. Os fatos são um pouco surreais em alguns momentos, mas nada que os atores não possam resolver. Especialmente Helena.

FILME: 7.5

Manhattan, de Woody Allen

Com Woody Allen, Diane Keaton e Meryl Streep

Se Woody Allen tem seus momentos de originalidade, ele também tem suas crises de idéias. Manhattan se encaixa nessa segunda opção. O longa é um interessante estudo de relacionamentos – até superior ao realizado em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, já que aqui temos temas muito mais sérios e densos – mas nunca alcança ritmo para que possamos nos envolver com a história. Assistimos os encontros e desencontros dos personagens, mas nunca torcemos ou simpatizamos com eles. Culpa do roteiro, indicado ao Oscar, que se preocupa mais em dizer frases pseudo-cômicas do que desenvolver as dimensões psicológicas. Se existe um ponto em que não posso reclamar de Allen, esse é a sua direção de elenco. Mesmo que ele apareça um pouco egocêntrico como protagonista (será que só sou eu que acho que ele faz sempre o mesmo tipo de papel?), convence. Suas coadjuvantes são mais interessantes, como a Diane Keaton. Curiosamente, quando ambos contracenam em cena, o filme ganha mais vida. Minha única reclamação é Meryl Streep, desperdiçada pelo roteiro em um papel interessante – como a ex-mulher do protagonista que agora é lésbica e está escrevendo um livro sobre o relacionamento e a separação deles.

FILME: 7.0

Studio 54, de Mark Christopher

Com Ryan Phillippe, Salma Hayek e Mike Myers

Eu entendo a implicância de tanta gente com esse filme – ele é batido (e eu nunca fui muito fã desses filmes de discoteca, nem mesmo Os Embalos de Sábado à Noite), frio, vazio e até apelativo. E ainda assim consegue ser um ótimo guilty pleasure embalado por boas canções e um roteiro sem enrolação. Consegui me divertir com a história e com os personagens sem nenhum problema; o único porém do elenco foi o Mike Myers, terrível e destoando de todo o resto como o dono do Studio 54 do título do filme. Ryan Phillippe foi indicado ao Framboesa de Ouro de pior ator por seu desempenho aqui. Injustiça. Mesmo que não apresente muita força para segurar sozinho um filme, esse é o seu trabalho de maior destaque. Até mais que Segundas Intenções.

FILME: 7.0

Últimos Dias, de Gus Van Sant

Com Michael Pitt, Asia Argento e Lukas Haas

A primeira experiência que tive com o diretor Gus Van Sant foi o espetacular Elefante. Depois comecei a duvidar dele com a terrível refilmagem de Psicose e o totalmente sem-graça Gênio Indomável. Com esse Últimos Dias, não acho mais que ele seja um diretor tão bom. Gus Van Sant quer criar um filme cult a todo momento e com isso termina por criar um longa estranho e que não diz muita coisa. Silencioso demais e lento em seu desenvolvimento, Últimos Dias é uma decepção em quase todos os sentidos. A exceção é Michael Pitt, ator que nunca tinha chamado minha atenção, e que aqui está na sua melhor fase. Reconheço algumas passagens originais, mas simplesmente não consegui ser cativado.

FILME: 6.0

Últimas Trilhas Sonoras

The Village, por James Newton Howard

Sou um grande defensor dessa maravilhosa obra de M. Night Shyamalan. Sei que o filme nutre ódio de bastante gente, mas se existe um fator do longa que em hipótese alguma merece ser criticado esse é a trilha sonora de James Newton Howard, que compôs aqui a sua melhor trilha. Misturando perfeitamente tensão e uma linda estética musical baseada nos solos da participação especial da violinista Hilary Hahn, Howard fez uma trilha de suspense que também pode ser classificada como uma trilha de drama (Will You Help Me? e What Are You Asking Me? são dois bons exemplos). O álbum foi indicado ao Oscar de melhor trilha sonora e não levou a estatueta. Uma pena a Academia não ter premiado o melhor momento de Howard.

Magnolia, por Aimee Mann

Aimee Mann conseguiu uma indicação ao Oscar pela sua bela canção Save Me. Contudo, todo o álbum de Magnólia é de uma beleza única, devido ao grande empenho de Aimee ao formular as canções. Assim como a música já citada, Wise Up é um outro excelente exemplo da competência do setor musical da obra-prima do diretor Paul Thomas Anderson. Um álbum memorável para se ouvir sempre que possível. Essa trilha foi sugestão da Kamila.

Le Fabuleux Destin D’Amélie Poulain, por Yann Tiersen

Depois de eu ter ouvido o maravilhoso trabalho de Yann Tiersen na trilha de Adeus, Lênin!, saí a procurar outros trabalhos do compositor e me deparei com a surpresa de que foi ele quem compôs a parte musical de O Fabuloso Destino De Amélie Poulain. Tudo bem, esse seu trabalho não alcança o brilhantismo das composições do filme alemão; contudo, Yann capturou todo o charme das típicas músicas francesa e inseriu no fabuloso mundo de Amélie Poulain. Ainda que repetitivo em algumas partes, o cd é altamente recomendável por causa de sua grande qualidade. Palmas para Tiersen.

The Dark Knight, por Hans Zimmer & James Newton Howard

Filme de ação não é de verdade se não tiver uma trilha sonora competente. Hans Zimmer e James Newton Howard – ambos grandes compositores, diga-se de passagem – trazem a melhor trilha do gênero dos últimos tempos com The Dark Knight. Se em Batman Begins eles já havia realizado um bom trabalho, conseguem ampliar tudo aquilo que já existia de bom nessa continuação de Christopher Nolan. Não é uma coletâne inesquecível, ou brilhante – é direta, efetiva e ajustada no filme. Se o tema do Coringa, Why So Serious?, poderia ter sido ao menos mais original, outras composições alcançam grande qualidade, como a estupenda Introduce a Little Anarchy (a melhor que já ouvi no gênero).

Donnie Darko, por Vários

Pensei que eu fosse gostar mais dessa trilha sonora (que inclui as músicas do longa mais as composições instrumentais de Michael Andrews), já que eu tinha adorado o resultado dela no longa-metragem. Ainda que eu não tenha apreciado tanto, não há dúvidas que é um trabalho muito satisfatório, especialmente na seleção das canções. A música de maior destaque é aquela que pontua a emoção do longa – Mad World, lindamente entoada por Gary Jules e que fica na memória durante um bom tempo. A trilha de Donnie Darko é cult e merece essa rotulação, mais que o filme. A trilha foi sugestão do Wally.

Eternal Sunshine Of The Spotless Mind, por Jon Brion

Não são apenas as canções de Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças que fazem com que a trilha seja recomendável. Por mais que seja difícil resistir a Everybody’s Gotta Learn Sometimes (a música que pontua o momento mais emocionante do longa) e Light & Day (excelente!), as composições de Jon Brion também têm o seu valor. Elas refletem tudo aquilo que o filme é – diferente e inovador. O álbum, no geral, não é especial e a inspiração está presente em poucos momentos, mesmo assim estamos diante de um trabalho competente. Só não alcançou a qualidade que Michel Gondry conseguiu alcançar.

Half Light, por Brett Rosenberg

Desculpem-me aqueles qe gostam desse filme, mas eu acho que ele é uma completa porcaria. No entanto, é inegável a grande qualidade do setor musical do longa, supervisionado por Brett Rosenberg. A duração da trilha é um pouco exagerada e certas canções são repetitivas, mas os solos de piano (que sempre me conquistam) são irresistíveis, conseguindo manter uma boa linearidade na qualidade do álbum. Pena que esse bom trabalho tenha sido desperdiçado em um filme tão insatisfatório.

O Som do Coração

O Som do Coração, de Kirsten Sheridan

Com Freddie Highmore, Jonathan Rhys Meyers e Robin Williams

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O Som do Coração é um exercício de paciência e também um desafio. Ganha quem agüentar por mais tempo tanto clichê meloso. São tantos encontros e desencontros improváveis, personagens puros demais (alguém caiu na bobagem de que a música cura qualquer infelicidade da vida?) e filosofias saturadas, que fica difícil ter boa vontade com o filme. O mais estranho de tudo é que a culpa não é da diretora, ao menos pra mim. Kirsten Sheridan tem excelentes momentos atrás das câmeras – como o concerto final – e demonstra aptidão para o cargo que exerce. A culpa mesmo fica com o roteiro, que parece ter se baseado em todos aqueles dramas enfadonhos da Sessão da Tarde para compôr sua história.

Mas O Som do Coração não é só reclamações. É bom ver um elenco esforçado (ainda que não seja suficiente para suprir os deslizes do longa) tentando trazer alguma verossimilhança para o espectador. A começar pelo garoto Freddie Highmore. Ele nasceu para o cinema com seu espetacular desempenho em Em Busca da Terra Do Nunca e mostrou ser um dos maiores talentos mirins recentes. Contudo, perdeu-se em suas escolhas. Highmore é sempre competente, mas o papel de “criança coitadinha” já não cola mais e O Som do Coração prova isso. Mesmo simpático, ele já não tem mais carisma nesse tipo de papel para segurar um filme. A melhor é Keri Russel, seguida pelo Robin Williams.

O setor musical é bom, mas nada justifica a indicação ao Oscar para a brega canção Raise It Up, que passa totalmente despercebida no filme. O Som do Coração é cheio de boas intenções e não é uma produção ruim. Seu problema é querer emocionar a todo custo e não conseguir. Algo que já não tinha funcionado anteriormente em outros filmes como O Amor Pode Dar Certo. O resultado não é catastrófico como o do filme citado, só resta saber se ainda existem pessoas dispostas a assistirem e a gostarem desse tipo de história clichê como a de O Som do Coração.

FILME: 6.0