Cinema e Argumento

E o Oscar da Vera Drake?

Como todos podem notar, eu ando meio sem assunto aqui no blog. Então decidi fazer alguns posts sobre opiniões minhas que raramente coincidem com as de outros blogueiros – e que raramente alguém concorda comigo. E eu sou cheio delas. Começo então falando de um caso na minha categoria favorita no prêmio da Academia, a categoria de melhor atriz. Não é que eu tenha problemas com os atores, mas eu sempre vejo nas mulheres uma melhor capacidade (e facilidade) de expressar emoções em seus papéis.O assunto desse post é referente ao ano em que Hilary Swank venceu pela segunda vez a estatueta dourada.

Pra começo de conversa, digo que não desmereço de forma alguma o prêmio que a Hilary Swank recebeu por seu trabalho em Menina de Ouro. Mas, convenhamos, ela precisava ter duas estatuetas em casa? A primeira vitória dela por Meninos Não Choram é simplesmente incontestável, mas essa segunda foi descartável. Tudo bem, ela se empenhou bastante no seu papel (principalmente no que se diz ao empenho físico), mas ela não é dona de uma carreira exemplar para ser reconhecida como uma atriz que venceu duas vezes o Oscar. Tem um monte de atriz por aí que nem Oscar tem! Tomemos com exemplo a maravilhosa Glenn Close. O prêmio por Menina de Ouro não foi injusto; simplesmente ela não era a melhor da categoria. Naquele ano também tinha a Kate Winslet em um momento inspiradíssimo em Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, a Annette Bening em mais uma atuação contundente (mas muito teatral para o meu gosto) e uma nada-mais-que-sortuda Catalina Sandino Moreno, que teve sorte em Maria Cheia de Graça, já que até hoje ela não trouxe mais nada de consistente para o seu currículo.

Restou então a minha favorita absoluta na categoria daquele ano, a inglesa Imelda Staunton. Fui ver O Segredo de Vera Drake sem qualquer expectativa, e até com uma pulga atrás da orelha, já que o Mike Leigh teria supostamente “roubado” a indicação de Marc Forster por Em Busca da Terra do Nunca aquele ano. Para a minha surpresa, fiquei encantado com o resultado do filme, que conseguiu me tocar através de seu drama humano e emocionante. Todo mundo sabe que o filme é muito simples – tanto, que nem existe trilha sonora e o longa foi filmado de forma bem precária devido ao limitadíssimo orçamento. Estranhamente é aí que está a força de O Segredo de Vera Drake, no seu conteúdo. O roteiro não cria emoções enfadonhas e consegue lidar muito bem com o drama que tem em mãos. Tudo muito simples, mas incisivo.

Se não bastasse isso, temos uma protagonista fenomenal. A até então desconhecida atriz inglesa chamada Imelda Staunton dá um show de atuação como a ingênua e bondosa Vera Drake do título. Cada olhar e cada palavra sussurada por aquela senhora desesperada por ter cometido um crime (que não imaginava ser crime) transmite para o espectador uma sensação de agonia. Dá vontade de entrar na tela e proteger aquela pobre criatura, que não sabia o que estava fazendo. Um trabalho impecável em todos os aspectos, sem nada a ser acrescentado ou retirado. Na medida. Uma atriz excelente (que também depois criou a figura mais cruel da série Harry Potter), que trabalha as palavras de forma muito especial e encanta com uma única expressão de tristeza. Sem esforço, ela me conquistou por completo. E é por isso que eu acho que ela merecia o Oscar. Só eu acho que ela merecia ter vencido?

Encontros do Destino

Encontros do Destino, de Rose Troche

Com Glenn Close, Patricia Clarkson e Dermot Mulroney

É complicado quando um filme tenta reproduzir um estilo de narrativa e não consegue. Encontros do Destino quer contar histórias de famílias problemáticas que se unem em determinados instantes do roteiro. Pena que faz isso de forma relaxada e desperdiça bons nomes do elenco. A figura mais interessante é a ótima Glenn Close, que vive uma mãe que tem que lidar com o filho adolescente inválido que sofreu um grave acidente de carro. Esse filho estava mantendo um namoro com a personagem da Patricia Clarkson, uma mãe separada que tem dificuldade em criar os filhos. Esse fato só vai ser revelado na metade do longa e tenta unir as personagens. Mas nada acontece de verdade e essas conexões são meras citações do roteiro – em instante algum vamos ver uma concreta interação entre as duas personagens. Portanto, essa narrativa de conexão ao estilo de Crash e Babel é uma grande bobagem que foi formulada de forma boba. Felizmente, as histórias de Glenn e Patricia funcionam muito bem individualmente. Os dramas delas são trabalhados de forma digna, principalmente quando temos duas excelentes atrizes como elas representando. O elenco também tem outros nomes conhecidos do público, como Dermot Mulroney e Kristen Stewart.

O roteiro faz questão de unir humor (existe um certo garotinho que se vê apaixonado por uma boneca, que constantemente está falando com ele) e típicos dramas urbanos (como o casal que tem constantes problemas de relacionamento). Poderia ser uma mistura do humor caseiro de Desperate Housewives com as angústias que o diretor Todd Field imprimiu em seus dois longas, Entre Quatro Paredes e Pecados Íntimos. Mas não é. O filme exala banalidade e não consegue escapar daqueles desenvolvimentos que já estamos cansados de assistir em produções pequenas e que não fazem sucesso como essa. De forma alguma Encontros do Destino pode ser considerado um longa-metragem ruim, já que eu até acredito (e aceito) que algumas pessoas podem sim gostar de seu resultado. O problema é que o filme não cativa, parecendo totalmente satisfeito com a banalidade que está apresentando ao espectador. A força, então, resume-se na presença de Glenn Close e Patricia Clarkson. Duas ótimas atrizes em momentos que podem ser considerados até mesmo iluminados. O resto… É resto.

FILME: 6.0

Filmes em DVD

O Ultimato Bourne, de Paul Greengrass (revisto)

Com Matt Damon, David Strathairn e Joan Allen

Esse foi considerado por mim o melhor longa do ano passado e somente agora tive a oportunidade de rever essa maravilhosa produção que é um dos melhores filmes de ação dessa geração (se não o melhor). A entrada do competente diretor Paul Greengrass (merecidamente indicado ao Oscar por Vôo United 93) na série foi um grande acerto e aqui no desfecho da trilogia ele realiza mais um marcante trabalho na cadeira de diretor. Mas não é só ele – o setor técnico do filme é impecável, desde a ótima trilha de John Powell até a frenética fotografia. O formato de O Ultimato Bourne desagrada muita gente, mas até os membros da Academia se renderam a tal qualidade, dando merecidas três estatuetas para o filme. Outro ponto que merece nota é a participação do sempre competente David Strathairn, que fez belos momentos com a fixa Joan Allen (uma figura constante em excelência nos filmes de Bourne) e roubou a cena. Encerrando de forma empolgante ao som de uma nova versão de Extreme Ways, de Moby, O Ultimato Bourne é uma aula de como se fazer um filme de ação.

FILME: 9.5

Contos Proibidos do Marquês de Sade (revisto)

Com Geoffrey Rush, Kate Winslet e Joaquin Phoenix

Ainda estou para entender a implicância de tanta gente com esse instigante drama de época que foge dos típicos padrões apresentados nesse tipo de história. Alguns reclamam do teor sexual da história, outros da caricatura do Geoffrey Rush; já eu acho Contos Proibidos do Marquês de Sade muito bem conduzido e cheio de grandes pontos a serem considerados. Começando, claro, pelo fabuloso elenco. Rush, indicado ao Oscar, criou um personagem bem enigmático que desperta diversos tipos de sensação. Mas ele está longe de ser a única estrela do filme – fiquei bastante satisfeito com o Joaquin Phoenix, que está em um momento bem inspirado de sua carreira. Kate Winslet e Michael Caine estão corretos e satisfatórios. A fotografia escura e a direção de arte exaltam o mundo sujo e cheio de corrupções em que a história acontece, dando um retrato bem realista da insanidade. O longa perde pontos em sua resolução, onde fica histérico demais.

FILME: 8.0

Quebra de Confiança, de Billy Ray

Com Ryan Phillippe, Laura Linney e Chris Cooper

Um filme de investigação envolvendo o FBI que não apela para tiros, momentos finais exagerados ou gente malvada criando planos mirabolantes. Esse é o mérito de Quebra de Confiança: ser um excelente exemplar do gênero sem utilizar aquelas típicas bobagens que encontramos no gênero. Fico resistente com a escolha de Ryan Phillippe para interpretar o protagonista – o tempo não fez bem a ele, que não tem mais nenhum carisma para sustentar um longa sozinho. Sorte que temos Laura Linney e Chris Cooper no elenco, atores fantásticos e que realizam trabalhos excelentes nesse longa. A princípio não se sabe quem é mocinho ou quem é bandido na história, e o roteiro faz questão com que o espectador veja os dois lados da moeda de cada ser humano. Utilizando uma estrutura bem banal mas que estranhamente funciona de maneira bem efetiva, mantendo o interesse necessário, Quebra de Confiança é uma ótima surpresa que merece ser conferida.

FILME: 8.0

Contatos Imediatos do Terceiro Grau, de Steven Spielberg

Com Richard Dreyfuss, Melinda Dillon e Teri Garr

Contatos Imediatos do Terceiro Grau é aquele tipo de filme que sempre vai ser atual, já que a questão de vida extraterrestre está longe de ser resolvida. Por mais que esse tema já tenha sido tão explorado pelo cinema (e muito satirizado inclusive) e isso prejudique a visão de um cinéfilo mais novo em relação a esse longa de 1977, é impossível ficar indiferente com a grande qualidade da produção e principalmente com a seriadade que o tema é tratado. Possui, sem dúvida, ao menos duas cenas inesquecíveis – a primeira é quando uma dona de casa vê o seu filho sendo levado pelas “luzes” que atacam sua casa (essa, a cena mais arrepiante) e o desfecho memorável. Steven Spielberg comanda de forma habilidosa, visto que está no típico gênero de filme em que tem talento de sobra. Contatos Imediatos do Terceiro Grau dá uma derrapada depois de sua metade, onde perde boa parte do suspense que apresentou em seu começo. Todavia, retoma suas qualidades em seus momentos finais. O valor cinematográfico do filme é maior do que o filme em si. Deve ter intrigado e marcado muita gente na sua época.

FILME: 8.0

A Cor Púrpura, de Steven Spielberg

Com Whoopi Goldberg, Danny Glover e Oprah Winfrey

Muitos veneram essa consagrada produção (nada menos que 11 indicações para o Oscar) e se emocionam bastante com a história cheia de sofrimento e desgraça da protagonista. Eu não consegui entrar na onda e acabei ficando só com pena da pobre coitada da personagem da Whoopi Goldberg, a única do longa que consegue passar algum tipo de simpatia. Todos os outros personagens são tipos detestáveis e que me desmotivavam a continuar acompanhando a história. A Cor Púrpura é um filme que demora a engrenar (só começa mesmo a criar conflitos interessantes depois de transcorrida uma hora de projeção) e quando finalmente consegue cativar, já está se aproximando do final. É um filme esperançoso e com uma bonita mensagem que é passada de forma verossímil pela excelente Whoopi. Contudo, é a direção sem personalidade de Steven Spielberg – que está visualmente fora de seu habitual terreno cinematográfico – que prejudica o resultado. Se tivessemos uma mão dramática mais efetiva, certamente tudo seria mais amplo.

FILME: 7.0

Paranóia, de D.J. Caruso

Com Shia LaBeouf, Carrie Anne-Moss e David Morse

Um suspense tolo e que não deve ser levado a sério, justamente como outro filme do diretor D.J. Caruso: o guilty pleasure chamado Roubando Vidas, com Angelina Jolie. Mas esse perde na qualidade em relação ao filme com Jolie simplesmente por ser dirigido ao público teen, utilizando-se de situações sobre garotas gostosas e adolescentes rebeldes. O suspense é idiota e a resolução mais previsível impossível. Contudo, é aquele tipo de longa que dá pra se assistir tranqüilamente quando o senso crítico é deixado de lado. Paranóia se sustenta no carisma de Shia LaBeouf, que já havia demostrado ser um bom protagonista no péssimo Transformers e aqui tem maiores chances de demonstrar seu talento. Uma diversão para um público mais jovem.

FILME: 6.5

A Pessoa é Para o Que Nasce, de Roberto Berliner

Com Maria, Regina e Conceição

Maria, Regina e Conceição são as três famosas cegas que empolgam com suas canções nas ruas do nordeste. Depois de aparecerem na TV e em alguns festivais, o diretor Roberto Berliner decidiu falar sobre elas nesse documentário A Pessoa é Para o Que Nasce. Eu pensei que o filme ia fazer uma abordagem mais pessoal das três mulheres e relatar as dificuldas que elas sofreram na vida até conseguirem o reconhecimento popular. Não foi o que eu vi. O passado delas foi mostrado de forma muito tímida e o foco foi praticamente todo em cima da música que elas fazem e o que isso traz para as suas vidas. Claro que isso era fundamental, mas não deveria ter sido tão destacado – tanto, que em certos momentos o filme parece apenas uma narração dos diversos shows que elas fizeram. Perde-se muito tempo com esses momentos e não se humaniza direito as figuras que enxergamos na tela. Porém, quando isso acontece, o longa acerta em cheio. O resultado, no entanto, é irregular e cansativo.

FILME: 6.0

A Estrela da Comédia Televisiva

Já se foi o tempo em que Tina Fey era apenas um nome e um rosto escondido na excelente comédia teen chamada Meninas Malvadas. Por mais que ela tenha investido na carreira do cinema, é na televisão que está a fonte de sucesso de Tina. Para alguns profissionais, a televisão é uma maldição, mas não para ela. Egressa do Satudarday Night Live, resolveu criar um seriado onde ela mesma seria a protagonista, além de roteirizar os episódios. À primeira vista, estaríamos diante de uma figura egocêntrica (já não nos cansamos de ver figuras que querem comandar toda uma produção e retumbam ao fracasso?). Contudo, Tina Fey tem talento. E isso foi decisivo para que ela se tornasse a maior estrela da atual comédia televisiva.

Chegando em tempos difíceis para a comédia no mundo da televisão, 30 Rock foi inesperado sucesso – tanto que, logo em sua primeira temporada, levou o Emmy na categoria principal. Ajudado também por um grande sucesso de público, o seriado “egocêntrico” de Tina Fey mostrou-se como o melhor produto da comédia recentemente. E algo se confirmou – Tina é cheia de talento, uma raridade que deve ser preservada. Se nos roteiros ela consegue ser excepcional em suas comédias, também tem uma incrível e surpreedente simpatia como atriz. Um magnetismo difícil de explicar e que só lhe traz benefícios. Um ano se passou e 30 Rock reinou absolutamente no Emmy desse ano novamente. Tina recebeu três estatuetas (série, roteiro e atriz) e ainda de quebra o seriado também concedeu um prêmio para Alec Baldwin, outra grande surpresa do casting. Embalada com todo esse sucesso, Tina só parece crescer. O sucesso não lhe sobe à cabeça e ela não erra. Um nome para se guardar, sem dúvida alguma!