Cinema e Argumento

Filmes em DVD

Um Sonho Sem Limite, de Gus Van Sant

Com Nicole Kidman, Matt Dilon e Joaquin Phoenix

Mais um trabalho correto demais do irregular Gus Van Sant na cadeira de direção (mas não sem personalidade como Gênio Indomável), cuja inércia é totalmente compensada por seu impecável elenco, todos em seus devidos lugares. No entanto, é Nicole Kidman quem comanda o espetáculo, em uma de suas melhores interpretações no cinema. Injustamente lembrada apenas pelo Globo de Ouro (onde venceu na categoria de melhor atriz), Kidman mescla muito bem a inocência e ambição de uma personagem difícil, mas que no desenrolar do longa metragem vai conquistando o espectador. Um Sonho Sem Limite é aquele tipo de filme que começa pelo final-catástrofe e que utiliza disso para manter a atenção do espectador, que fica preso até o fim para saber como tudo se sucedeu. Nada de brilhante, mas muito bem produzido e atuado.

FILME: 8.0

Touro Indomável, de Martin Scorsese

Com Robert De Niro, Joe Pesci e Cathy Moriarty

Muita gente considera esse filme a obra-prima do superestimado diretor Martin Scorsese. Eu ainda prefiro o excelente Taxi Driver. Mas, ainda assim, Touro Indomável é um dos melhores exemplares da carreira do diretor. Mesmo que eu continue implicando com alguns tiques do diretor, fui bastante envolvido nessa produção que tem como principal destaque a transformação física que o ator Robert De Niro sofreu para viver o protagonista, que por sinal é um personagem bem complicado (não dá pra se identificar com ele), mas que De Niro conseguiu conduzir com maestria. Tal excelência lhe rendeu um Oscar de melhor ator. Outro destaque é a bela coadjuvante Cathy Moriarty e a impressionante montagem (também premiada com o troféu da Academia).

FILME: 8.0

A Felicidade Não Se Compra, de Frank Capra

Com James Stewart, Dona Reed e Lionel Barrymore

Nos dias de hoje, mensagens de paz e que “a vida é bela” já não funcionam mais como antigamente. Contudo, se você ainda conseguir entrar nesse espírito feliz, é bem provável que você aprove completamente o resultado de A Felicidade Não Se Compra – obra cheia de inocência e muito pura em suas intenções. É exatamente aí que reside o charme da obra de Frank Capra, que apresenta uma sociedade que já não existe mais. O grande ato do filme se concentra apenas no final, onde o protagonista vai participar de uma viagem de aprendizado que mudará sua vida, mas durante todo o roteiro o filme se equilibra entre boas atuações e uma história muito bem narrada. Cinema antigo e de qualidade.

FILME: 8.0

Dança Com Lobos, de Kevin Costner

Com Kevin Costner, Graham Greene e Mary McDonnell

Superestimado? Sem dúvida alguma. O filme não merecia metade do reconhecimento que teve, mas ainda assim é extremamente competente e agradável. Lembra muito a trilogia literário O Tempo e o Vento de Érico Veríssimo aqui do Sul, onde duas raças passam a conviver juntas e aprendem muito sobre a vida compartilhada. É louvável a dedicação de Kevin Costner, que teve momentos brilhantes de direção no longa – a cena, por exemplo, onde ele persegue uma manada de búfalos é surpreendente – e que cria um épico interessantíssimo. Pena que Dança Com Lobos tenha sido vítima daquelas louvações em exagero da Academia. Nada mais é que uma história bem feita e com ótimos momentos. Mas nada digno de tanto sucesso.

FILME: 8.0

Mentiras Sinceras, de Julian Fellowes (revisto)

Com Tom Wilkinson, Emily Watson e Rupert Everett

Não entendo a tamanha implicância com esse longa que, apesar de não ser nem metade do que poderia ser, é até bem produzido. A força do longa, claro, reside nos desempenhos de Tom Wilkinson e Emily Watson. Ele competente sempre e ela eficiente como de hábito. A história de traição é meio improvável, principalmente porque fica difícil acreditar nas atitudes dos personagens. Contudo, por alguma razão misteriosa, o filme me conquista com seu charme ingês de fazer cinema e não me desagrada. Falho? Com certeza. Mas nem por isso ruim.

FILME: 7.5

Doutor Jivago, de David Lean

Com Omar Sharif, Julie Christie e Geraldine Chaplin

Esse filme tem uma legião de admiradores e é encaixado em diversas listas dos melhores filmes de todos os tempos. Doutor Jivago é um épico grandioso e incrivelmente bem produzido (quem não se impressiona com aquelas paisagens maravilhosas e a fotografia belíssima?), com uma marcante trilha sonora que é impossível esquecer. Porém, ao contrário de outras maravilhosas produções como E O Vento Levou, falta sentimento ao longa, que não se preocupa em criar emoções ou momentos mais contundentes para os personagens. O romance entre Yuri (Omar Shariff, impecável) e Lara (Julie Christie, lindíssima, mas que precisava de um pouco mais de tempo em cena) fica em segundo plano e não tem o devido efeito. Reclamo daqueles habituais defeitos da duração excessiva e da narrativa repetitiva. Mas não nego que há muita coisa a se admirar no filme. Ele só não me atingiu.

FILME: 7.0

As Chaves de Casa, de Gianni Amelio

Com Kim Rossi Stuart, Andrea Rossi e Charlotte Rampling

Alguns filmes de deficientes têm um problema que me incomoda bastante – sempre o enfermo principal é mais esperto, engraçadinho ou inteligente que os outros a sua volta. Foi o caso da Sigourney Weaver em Um Certo Olhar e é o caso de Andrea Rossi nesse As Chaves de Casa. Esse detalhe faz o filme perder um pouco da humanidade que poderia ter, uma vez que nos emocionamos mais com os coadjuvantes do que com o próprio protagonista. Esse longa italiano foi elogiado por conta de sua humanidade, mas eu não vi nada de muito novo que já não tenha sido mostrado antes. Na realidade, As Chaves de Casa é um retrato meio que didático de pessoas com deficiência, limitando-se apenas a narrar as dificuldades de um tratamento para pessoas com essse tipo de dificuldade. Contudo, é Kim Rossi Stuart e Charlotte Rampling que validam a experiência, ambos impecáveis em seus papéis, fazendo aquilo que o roteiro não conseguiu fazer com muito êxito – tocar o espectador.

FILME: 7.0

A Força da Amizade

Direção: Christopher N. Rowley

Elenco: Jessica Lange, Kathy Bates, Joan Allen, Christine Baranski, Tom Skerritt, Tom Wopat, Laura Park

Bonneville, EUA, 2008, Drama, 92 minutos, Livre.

Sinopse: Quando a vida de Arvilla (Jessica Lange) vira do avesso ela decide chamar suas duas melhores amigas, Margene (Kathy Bates) e Carol (Joan Allen), para viajar pela estrada a bordo de seu Bonneville conversível. A dupla aceita o convite e, durante a viagem, elas conhcem paisagens deslumbrantes, aventuras inesperadas e o simpático caminhoneiro Emmett (Tom Skerritt), que logo se torna um pretendente.

Realizado de forma sem personalidade, A Força da Amizade é um longa que não funciona nem como um clichê do gênero – tem visual pobre e atuações desperdiçadas.”

Praticamente ninguém viu A Força da Amizade, retumbante fracasso nos Estados Unidos que não chegou a faturar nem 500 mil (sim, mil!) nas bilheterias. Também não é pra menos, o longa de estréia do diretor Christopher N. Rowley é um amontoado de clichês e situações incrivelmente repetitivas, que nunca conseguem sequer emocionar com seu drama enfadonho. Se o tema já é algo saturado (um road movie onde os personagens aprendem mais sobre a vida e sobre si mesmos), poderíamos ao menos assistir a um produto agradável dentro de certas limitações; mas não é o que acontece aqui. É fato que esse gênero é complicado por conta de suas constantes releituras, entretanto, ainda temos bons exemplares dele – como o maravilhoso Transamérica, por exemplo. A Força da Amizade não faz a mínima questão de ter um pingo de originalidade, e isso prejudica totalmente o seu resultado.

Se já é difícil compreender o porquê de tamanha bobagem descartável ter sido feita, mais difícil ainda é entender como nomes tão talentosos foram parar nesse projeto. Jessica Lange (com um rosto estranhamente desfigurado por causa de cirurgias plásticas) tem o ingrato papel da protagonista que acaba de perder o marido. Com as habituais cenas previstas para a personagem, Lange faz o que pode, mas não vemos qualquer profundidade ou uma emoção mais concreta em sua aparição. É nula a sua presença, assim como a neutralidade existente em Kathy Bates e Joan Allen, desperdiçadas durante todo o longa. Ainda podemos ver uma pequena participação de Christine Baranski, que recentemente divertiu em Mamma Mia! e de Tom Skerritt, o patriarca do seriado Brothers & Sisters.

Tomando um passo lento (os 92 minutos de duração aparentam muito mais), A Força da Amizade tem algumas boas passagens, especialmente aquelas em que estamos diantes das belas paisagens naturais da viagem e quando o roteiro exalta a amizade entre as personagens, embaladas por canções adequadas. Todavia, é muito pouco. Incrivelmente pouco. Falta personalidade e, principalmente, força.

FILME: 5.0

2

O Sonho de Cassandra

Direção: Woody Allen

Elenco: Ewan McGregor, Colin Farrell, Tom Wilkinson, Sally Hawkins, Hayley Atwell

Cassandra’s Dream, Inglaterra, 2007, Drama, 95 minutos.

Sinopse:Ian (Ewan McGregor) e Terry (Colin Farrell) são irmãos que decidem comprar o barco “Cassandra’s Dream”, apesar dos problemas financeiros que ambos atravessam. Terry trabalha em uma oficina, mas é viciado no jogo e sempre está às voltas com novas dívidas. Já Ian trabalha no restaurante do pai (John Benfield), mas sonha em largar o negócio para alçar vôos mais altos. Ambos moram com os pais, com a família sendo auxiliada financeiramente pelo tio Howard (Tom Wilkinson). Um dia Howard aparece para uma visita, o que anima Ian e Terry. Eles pretendem pedir dinheiro ao tio, para que possam realizar os sonhos que têm para suas vidas. Howard aceita ajudá-los, mas o que exige em troca muda para sempre a vida dos irmãos.

Se em Match Point a mudança de ares foi excelente para o diretor Woody Allen, aqui nesse O Sonho de Cassandra o resultado é decepcionante. Allen conduz de forma óbvia uma história previsível, que só vale ser conferida por causa de sua dupla de protagonistas.”

Desde um grande sucesso chamado Match Point, Woody Allen se modificou completamente. Deixou de lado suas habituais características e adotou um tom mais sério e trágico. Se essa nova estrutura foi um acerto imenso em Macth Point, nesse O Sonho de Cassandra não é. É de se admirar que Woody Allen tenha selecionado uma história tão óbvia como esse e nem sequer ter colocado um pingo de originalidade no roteiro. Tudo é linear do início ao fim e nem mesmo o desfecho consegue ter a surpresa e o impacto que deveriam ter. É o roteiro que faz com que O Sonho de Casssandra seja um filme aquém do esperado, enquanto diversos outros fatores do longa são bem aceitáveis.

Para protagonizar a história, foram escolhidos dois atores que andavam um pouco apagados nos últimos tempos. O primeiro é o talentoso Ewan McGregor, que ultimamente só aprece em pequenas produções e não apresenta nada de significativo desde Moulin Rouge! – Amor Em Vermelho. O segundo é o estranho Colin Farrell, um ator perdido no mundo do cinema e que até hoje não mostrou ao que veio. Ambos realizam excelentes trabalhos no longa e acabam por ser o aspecto mais positivo de todo o filme. Também citaria o sempre ótimo Tom Wilkinson, mas a sua aparição é tão limitada, que mal dá para lhe dar um crédito maior.

O compositor Philip Glass aparece com uma trilha contundente (o tema principal é maravilhoso), mas que é uma completa variação do seu trabalho anterior: Notas Sobre Um Escândalo. Woody Allen criou em O Sonho de Cassandra o típico filme “ame-o ou deixe-o”, já que a crítica se dividiu bastante. Com certeza não é um longa ruim (longe da monotonia de Melinda e Melinda e da bobagem previsível de Scoop – O Grande Furo), é apenas desnecessário, com aquela forte sensação de que “já vi isso antes”.

FILME: 6.5

3

TOP 10

Respondendo a corrente passada pelo Cinéfila Por Natureza, um top 10 de atrizes que fazem a minha cabeça, seja por causa de seu talento para a atuação ou por causa de suas qualidades físicas. Quem ainda não recebeu o convite, sinta-se convidado – pois é difícil selecionar aqueles que ainda não receberam a proposta ;)

1. Meryl Streep

Recordista de indicações ao Oscar que se supera a cada dia em suas escolhas cinematográficas. Nunca teve sequer uma atuação ruim e é a estrela com maior status do cinema. Fui até ao cinema ver Terapia do Amor só por causa dela. E não me arrependi. Além de tudo, o tempo parece não passar para ela, que está jovem e bela no recente Mamma Mia! Streep dispensa maiores discursos e já é uma estrela eterna do cinema, que será sempre lembrada.

2. Susan Sarandon

Minha antiga atriz favorita, que perdeu o posto por causa de suas inúmeras escolhas equivocadas. De qualquer forma, Sarandon ainda me instiga para ver seus filmes. Mesmo quando são bobagens que eu nem preciso ver pra saber que não vou gostar (Tudo Acontece Em Elizabethtown, por exemplo), quero conferir por causa dela. Grande atriz que no passado fez maravilhas. E como diz o fofoqueiro do Rubens Ewald Filho: “Sarandon é uma das poucas atrizes que nunca fez plástica e que continua maravilhosamente humana“. Sua participação em Alfie – O Sedutor comprova a beleza atual da atriz.

3. Rachel Griffiths

Não, não é por causa de Six Feet Under. Quer dizer, também é, principalmente. Depois da Brenda Chenowith eu conheci mais a carreira dela e fiquei impressionado. Atriz talentosa e versátil, com talento pra drama e comédia. Recebeu uma merecidíssima indicação ao Oscar por Hilary & Jackie (e merecia até vencer) e fez um trabalho super competente no ótimo O Casamento de Muriel. Sem falar de sua iluminada personagem no atual seriado Brothers & Sisters. A cada projeto dela anunciado, já me prontifico a conhecer.

4. Jodie Foster

Suas aparições são raras e seus projetos são muito seletos. Não é uma atriz que você vê constantemente e com certeza é uma atriz que você não vai ver atuando mal. Jodie Foster exala competência e tem dois merecidos Oscar em casa. Mesmo quando faz filmes banais (O Quarto do Pânico e Plano de Vôo são alguns exemplos), não deve nada pra ninguém. Arrasa e se afirma como uma estrela maior e dotada de grande talento.

5. Laura Linney

Dia desses descobri o passado negro dela (eu estava vendo TV e vi que ela é protagonista de Congo, um filme sobre um macaco falante), mas pouco me importei. Laura Linney é uma daquelas atrizes que ninguém duvida do talento e que um dia vai subir ao palco do Kodak Teather para receber sua estatueta dourada. Uma das melhores atrizes de sua geração, além de ser absurdamente simpática.

6. Kate Winslet

Sabe que eu já nem me empolgo tanto quando a Kate Winslet chega anunciando algum novo trabalho? Isso se deve ao fato de que eu sei que ela sempre entrega uma boa atuação. Então, independente de qualquer coisa, confio nela incondicionalmente. Atriz de respeito e que nunca desaponta, tem também uma grande beleza a seu favor (e que vá pro inferno quem acha que ela é “gorda”!). Simplesmente maravilhosa.

7. Cate Blanchett

Sensação dos últimos tempos (dois anos seguidos indicada ao Oscar, e esse ano duplamente), Cate Blanchett é de um talento raro; e, assim como Kate Winslet, é uma constante de excelência. Mesmo que tenha alguns deslizes em sua carreira, sempre tem grande presença e ainda vai longe com o seu nome. Cate é rara e uma grande atriz, inquestionavelmente.

8. Julianne Moore

Uma das atrizes mais irregulares dessa minha lista, mas ainda assim incrivelmente maravilhosa em tudo que faz no cinema. Julianne Moore tem um passado de glória e qualquer projeto dela hoje em dia já desperta curiosidade justamente por causa de sua presença. Mesmo quando estamos diante de catástrofes… Mas Ensaio Sobre a Cegueira está aí pra provar que ela continua excelente.

9. Nicole Kidman

Outra belíssima atriz que admiro mais por causa do passado glorioso. Tudo bem que hoje ela anda bem em baixa, mas continua linda e ainda consegue fazer com que eu veja um filme só por causa dela, caso de A Pele e Invasores. Esse ano deve voltar em grande estilo com Australia, onde parece estar estupenda, retomando a parceria com de Moulin Rouge! – Amor Em Vermelho com o diretor Baz Luhrmann.

10. Diane Keaton

Não dá pra entender bem o que a Diane Keaton fez com a sua carreira. Vencedora do Oscar, ex-musa de Woody Allen e capaz de grandes performances cômicas (Alguém Tem Que Ceder) e dramáticas, Keaton tem se entregado a projetos bobocas e parece nem se importar mais com sua reputação. Uma pena, já que ela ainda é uma das veteranas que mais me instiga com a sua presença em projetos.

Ensaio Sobre a Cegueira

Direção: Fernando Meirelles

Elenco: Julianne Moore, Mark Ruffalo, Gael García Bernal, Danny Glover, Alice Braga, Sandra Oh

Blindness, EUA, 2008, Drama, 118 minutos, 16 anos.

Sinopse: Uma inédita e inexplicável epidemia de cegueira atinge uma cidade. Chamada de “cegueira branca”, já que as pessoas atingidas apenas passam a ver uma superfície leitosa, a doença surge inicialmente em um homem no trânsito e, pouco a pouco, se espalha pelo país. À medida que os afetados são colocados em quarentena e os serviços oferecidos pelo Estado começam a falhar as pessoas passam a lutar por suas necessidades básicas, expondo seus instintos primários. Nesta situação a única pessoa que ainda consegue enxergar é a mulher de um médico (Julianne Moore), que juntamente com um grupo de internos tenta encontrar a humanidade perdida.

Mesmo que tenha pouquíssimos longas em seu currículo, o diretor Fernando Meirelles mais uma vez prova que é a melhor figura brasileira trabalhando no exterior. Ele surpreende com um longa diferente na sua estética e que não deve nada ao trabalho de José Saramago.

O título acusa um filme sobre cegueira, mas ele não é bem isso. Não é apenas isso. Ensaio Sobre a Cegueira é uma história sobre a degradação da sociedade, os limites do ser humano, a falta de moralidade e o desespero atordoante. A doença misteriosa que atinge os seres humanos de uma população é mero pretexto para que uma análise do mundo em que vivemos seja feita. Ao mesmo tempo em que os personagens perdem a visão, o lado obscuro de suas respectivas almas vem à tona. Devido a essa temática difícil e a outros inúmeros fatores, o livro homônimo de José Saramago era considerado impossível de ser filmado, e as expectativas em torno do longa de Meirelles eram imensas. É um alívio, ao fim da sessão, constatar que o produto que acabamos de assistir é muito mais que uma missão cumprida, é uma história que ganhou vida própria em uma estética inovadora e diferente.

Depois de comprovar competência com direções arrebatadoras nos longas Cidade de Deus e O Jardineiro Fiel – esse último injustiçado nas premiações na categoria de direção – Fernando Meirelles mais uma vez dá orgulho. Em certas partes se limita apenas a fazer o básico e em outras consegue surpreender (a cena do estupro, apesar de reduzida, consegue mexer com os nervos do espectador), dando literalmente vida aos momentos que Saramago criou em sua obra. Mas óbvio que os méritos técnicos não são apenas do diretor. A fotografia branca de César Charlone (ainda bem que colocaram legendas amarelas!) tem sim seus momentos de irregularidade. Contudo, eu quero que alguém me diga quando foi a última vez que uma fotografia tão intrigante como essa foi apresentada? Temos também a bonita trilha de Marcos Antônio Guimarães, que faz lembrar bastante a sonoridade da canção Proven Lands que Jonny Greenwood compôs para Sangue Negro. Eu esperava mais desse setor de Ensaio Sobre a Cegueira, que podia ter criado passagens mais inspiradas como o trailer sugeria.

Ensaio Sobre a Cegueira também é o esperado retorno de Julianne Moore após tantos erros desde sua última aparição no Oscar. Não podia ter um retorno mais recompensador, fazendo com que nós esqueçamos todas as bobagens que ela fez nos seus últimos caminhos. Julianne não cai em excessos, representando a “esperança” do longa da forma mais adequada possível. Nada de berros ou choros compulsivos, a  grande presença dela no longa está em cada olhar triste, em cada expressão de desespero. Ela é a estrela do filme e nenhum outro ator do elenco alcança a mesma qualidade. Eles não têm momentos individuais muito marcantes, mas como um todo funcionam de forma excelente. Danny Glover tem um pouco mais de presença por ter uma ou outra narração. Narrações, aliás, que foram reduzidas. Mas mesmo assim ficaram fora de contexto no longa, não representando muita coisa.

O escritor do livro ficou emocionado ao fim da sessão quando assistiu ao longa. Nada mais justificável. Eu estaria completamente realizado se eu tivesse visto um filme tão competente que foi baseado em uma obra minha. O roteiro segue exatamente o livro, sem grandes liberdades mas ainda excepcional em sua narrativa. É visível que o longa é comprido (são duas notáveis horas), entretanto, é algo necessário para que a história seja contada da forma mais fluente possível. O livro de Saramago está ali, em um filme que não deve nada para a obra. Desde já, um dos melhores do ano.

FILME: 8.5

4