Cinema e Argumento

007 – Quantum of Solace

Direção: Marc Forster

Elenco: Daniel Craig, Judi Dench, Mathieu Almaric, Olga Kurylenko, Jeffrey Wright, Giancarlo Gianinni

EUA, 2008, Ação, 107 minutos, 14 anos.

Sinopse: James Bond (Daniel Craig) e M (Judi Dench) realizam o interrogatório do sr. White (Jesper Christensen), responsável pelos eventos do filme anterior da série. Porém uma traição faz com que White seja morto. Para investigar o caso Bond parte rumo ao Haiti, onde conhece Camille (Olga Kurylenko), uma bela e perigosa mulher que possui ligações com Dominic Greene (Mathieu Amalric). Greene tem planos para a Bolívia, incluindo a deposição do atual governo, o que faz com que Bond entre em seu caminho.

James Bond continua com o mesmo formato que fez Cassino Royale virar sucesso, mas não soube se reinventar. O roteiro atrapalha e não consegue com que o filme flua como deveria, baixando a qualidade da série.”

É estranho constatar que, mesmo com tantos pontos mais fortes que o volume anterior, o novo filme de James Bond é muito inferior a Cassino Royale. Todavia, é fácil diagnosticar o erro de Quantum of Solace. Em primeira mão, o acusado seria o diretor Marc Forster, que até então só tinha produzido dramas que não tinham nenhuma conexão com o gênero de ação. O que faz com que essa seqüência seja até mesmo frustrante, é o roteiro pouco atraente, onde os fatos trabalhados não permitem que o filme decole. Quantum of Solace, portanto, resulta em uma aventura mais longa do que realmente é, carente de um fator essencial nas aventuras de James Bond – tensão. As facetas psicológicas que os personagens recebiam também desapareceram.

Se antes eu ainda tinha muita implicância com Daniel Craig – que, apesar de ser ideal para filmes de ação, não tem nada de 007 – agora eu já me acostumei com a sua presença. Novamente ele cumpre bem o seu papel e deve prosseguir durante um bom tempo como a estrela da série para a nova geração. O mesmo pode-se dizer de Judi Dench, ótima, cada vez mais com uma essência cômica. Com a saída de Eva Green (que, ao meu ver, era uma figura bela mas inexpressiva em Cassino Royale), entrou uma desconhecida chamada Olga Kurylenko, com beleza exótica e impecável para seu papel. O vilão da vez é Mathieu Almaric (o protagonista de O Escafandro e a Borboleta), com a perfeita expressão fria necessária, um ponto a ser muito ressaltado no longa.

Quantum of Solace pode até desapontar em seu conteúdo, ao menos consegue acertar em cheio na ação. Claramente temos grande influência de O Ultimato Bourne nesse setor (Bond corre por telhados, participa de corridas alucinantes de carro e luta corpo a corpo com muita violência), imprimindo toda aquela verossimilhança que o filme de Paul Greengrass conseguiu apresentar. O diretor Marc Forster acertou muito ao fazer isso, já que nesse setor o filme supera bastante o anterior. A ação está ali, competente e muito satisfatória. Além disso, é ajudada por outro excelente ponto, o sonoro. Tanto a mixagem/edição de som como a trilha sonora de David Arnold são exemplares.

É uma pena que um filme tão bem produzido soe tão desnecessário. É uma aventura bem feita, com locações em diversos pontos do mundo e competente na direção. Mas faltou história, uma trama que envolvesse mais o espectador. Sinto em dizer isso, mas Quantum Of Solace acaba e depois de alguns minutos você já esqueceu dele, pois é carente de momentos marcantes. Nem mesmo a nova canção-tema (a fraca Another Way To Die, interpretada por Alicia Keys e Jack White) fica na memória para se cantarolar. É verdade que James Bond se reinventou para as platéias atuais, mas suas continuações precisam ter o mesmo teor de novidade que o capítulo anterior. Fazer tudo às pressas pra se ganhar dinheiro nunca é uma boa jogada. Quantum Of Solace é, de certa forma, vítima dessa síndrome das continuações apressadas.

FILME: 7.0

3

Nação Fast Food

Nação Fast Food, de Richard Linklater

Com Greg Kinnear, Catalina Sandino Moreno e Paul Dano

2

Anos atrás, um certo diretor chamado Morgan Spurlock abriu os olhos do mundo para a verdadeira realidade das famosas fast foods em seu documentário indicado ao Oscar, Super Size Me – A Dieta do Palhaço. Agora o interessante diretor Richard Linklater (Antes do Amanhecer, Antes do Pôr-do-Sol e Escola de Rock) volta a tocar no tema com Nação Fast Food, que dá um tratamento mais dramático para o assunto. O projeto tem um grande número de estrelas como outro atrativo, desde jovens talentos (Paul Dano, de Pequena Miss Sunshine) até rostos mais conhecidos do público (Bruce Willis).

É uma pena que tudo seja desperdiçado de uma forma muito estranha no resultado final de nação Fast Food. Nada consegue dar ritmo para a história pobre, que não consegue decidir se aposta em um tom mais documental ou nas histórias que envolvem os personagens que tem a rede fast food em comum. O balanceamento irregular confere ao filme um tom muito estranho, que não atinge o espectador. É bem verdade que como produto informativo o trabalho de Linklater alcança níveis instigantes em alguns momentos – e isso está centrado na figura de Greg Kinnear que, aos poucos, vai descobrindo cada vez mais sobre a irregularidade dessa rede de alimentos – porém, peca por não ter nenhum conflito competente.

O elenco é uma pobreza sem fim, todos inexpressivos e sem qualquer presença maior na tela. Ninguém confere algum momento mais forte. Unido a isso, temos uma montagem mal resolvida, que não consegue alternar as histórias em uma boa constante. É decepcionante ver nomes talentosos em um projeto tão sem vida como esse, que até se torna um “soco no estômago”, mas não tem vida. Faltou cinema. Se for pra ver mais desse assunto de fast foods, é melhor ir na locadora e alugar novamente o Super Size Me – A Dieta do Palhaço. Com certeza não será tempo perdido como Nação Fast Food.

FILME: 5.0

Cenas Favoritas.

A ordem é totalmente aleatória e as cenas possuem spoilers. A escolha das cenas foi feita baseada nas emoções que elas me causaram, sem falar do sentimento que eu tenho por cada um dos filmes. Por isso, cenas clássicas ficaram de fora.

Ao ler a carta de Ndugu, Warren Schmidt (Jack Nicholson) descobre que fez diferença na vida de alguém na cena final de As Confissões de Schmidt.

Francesca (Meryl Streep) faz a escolha de sua vida em As Pontes de Madison.

O final de As Horas.

A decisão de “continuar” no desfecho de Thelma & Louise.

O momento final de Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças.

O incidente envolvendo Daniel (Michael Peña) e sua filha (Ashlyn Sanchez) em Crash – No Limite.

James (Johnny Depp) apresenta a Terra do Nunca para Sylvia (Kate Winslet) em Em Busca da Terra do Nunca.

O “final feliz” de Jack (Leonardo DiCaprio) e Rose (Kate Winslet) em Titanic.

Christian (Ewan McGregor) e sua declaração de amor ao som de Your Song, em Moulin Rouge! – Amor Em Vermelho.

Frank (Al Pacino) dança tango em Perfume de Mulher.

Senhores do Crime

Senhores do Crime, de David Cronenberg

Com Naomi Watts, Viggo Mortensen e Vincent Cassel

3

Confesso que por alguma razão que desconheço, eu estava querendo fugir desse Senhores do Crime. O material de divulgação do longa não havia chamado a minha atenção e a sinopse também não. A única razão pela qual eu queria assistir o filme era pela presença da bela e talentosa Naomi Watts. Nem o diretor Cronenberg era um atrativo para mim, já que acho aquele Marcas da Violência um pouco superestimado (mas com certeza é superior a esse seu novo trabalho). Não tive repugnância a Senhores do Crime por causa do tom pesado como eu achei que ia ter. Imaginava uma obra muito mais violenta e difícil de se assistir.

Recebeu uma indicação ao Oscar de melhor ator para o desempenho de Viggo Mortensen (injustamente; apesar do trabalho corajoso, preferia muito mais que o Emile Hirsch fosse indicado, por exemplo) e teve repercussão tímida. A obra não é nada demais mesmo, com uma história simples, sem grandes surpresas. Dentro do que podia realizar com a interessante história, fez muito pouco. Ficou devendo um desenvolvimento mais envolvente. A boa trilha sonora de Howard Shore cria o bom clima russo e, junto com o satisfatório elenco, termina por ser o melhor que existe no linear Senhores do Crime.

FILME: 7.0

Filmes em DVD

Desejo e Reparação, de Joe Wright (revisto)

Com Keira Knightley, James McAvoy e Saoirse Ronan

Apesar de Desejo e Reparação não ser mais o meu filme favorito do ano, continua sendo o mais belo e poético. Cada vez que tenho a oportunidade de rever esse longa, fico cada vez mais encantado com a impecável produção – desde a bela direção de arte, a linda fotografia e os elegantes figurinos. Sem falar da perfeita trilha sonora do Dario Marianelli (o Oscar não foi um prêmio de consolação). Continuo tendo um certo problema com o segundo ato, quando Robbie (James McAvoy, evoluindo a cada trabalho) vai para a guerra, que é quando o roteiro perde o seu ritmo; mas é igualmente apreciável, especialmente por causa da seqüência sem cortes que o diretor Joe Wright fez mostrando os horrores da guerra. Alguém me explica como ele não foi indicado a melhor diretor e Jason Reitman foi?! O elenco é um acerto e todas as atrizes que interpretam Briony Tallis – a revelação Saoirse Ronan, a ótima Romola Garai e a veterana Vanessa Redgrave – deixaram grande marcas. Com um final surpreendentemente emocionante (ao menos para mim, que não tinha conhecimento da obra de Ian McEwan), Desejo e Reparação pode ser considerado um filme ultrapassado e formulaico para muitos. Eu vi uma obra brilhante e linda, que merecia um pouquinho mais de reconhecimento do público.

FILME: 9.0

Onde Os Fracos Não Têm Vez, de Joel e Ethan Coen (revisto)

Com Josh Brolin, Javier Bardem e Tommy Lee Jones

O grande vencedor do Oscar desse ano é um filme extremamente eficiente – envolve, cria tensão e é ágil em sua narrativa. Mas, por alguma razão, não é memorável e não deixa maiores impressões depois da sessão.  Principalmente se comparado com os seus outros concorrentes no Oscar. Por isso, muita gente estranhou que a Academia tenha premiado um filme tão diferente como esse. Onde Os Fracos Não Têm Vez parece um filme sem mensagem, mas não é; ela está implícita, é um estudo sobre a violência e seus limites. Basta prestar bem a atenção para perceber. Cru e seco, o longa dos irmãos Coen é um belo exercício de tensão e uma grata surpresa desse ano. Muito bem produzido e com um ar de produção independente, tem inúmeros aspectos positivos, como a bela montagem e a fotografia. Mas existe algo que brilha mais do que tudo. E esse algo é a marcante interpretação do espanhol Javier Bardem (o grande vencedor de prêmios da temporada), enigmático e literalmente um vilão de dar medo. Nem Heath Ledger conseguiu ser mais vilão do que ele.

FILME: 8.5

O Auto da Compadecida, de Guel Arraes

Com Matheus Nachtergaele, Selton Mello e Fernanda Montenegro

Baseado no texto do escritor Ariano Suassuna, O Auto da Compadecida é um dos maiores sucessos do cinema brasileiro – até porque já foi reprisado exaustivamente na televisão. Eu nunca havia conferido o longa, portanto, estava livre daqueles preconceitos que se criam em torno dessas obras irritantementes repetidas na telinha. Acabei me divertindo bastante o resultado, que tem praticamente toda a sua excelência calcada no talento de seus atores e na inteligência dos rápidos diálogos. A direção de arte é outro excelente ponto de O Auto da Compadecida, auxiliando na ótima comédia que é apresentada para o espectador. Pena que a Fernanda Montenegro só vá aparecer nos últimos atos (que são os mais fracos), com uma participação não muito marcante. De qualquer forma, é um longa a ser apreciado.

FILME: 8.0

Do Luto à Luta, de Evaldo Mocarzel

Documentário

As pessoas portadoras da síndrome de down são e sempre foram vítimas do preconceito. O documentário Do Luto à Luta, consagrado com o prêmio especial do júri no festival de Gramado, não se preocupa em dissecar os dramas que essas pessoas vivem e muito menos em apelar para emoções baratas. O longa quer mostrar que, mesmo com tantos problemas, existe esperança para essas pessoas e que as dificuldades são meros obstáculos – elas podem dançar, estudar, andar a cavalo, transar e namorar. Basta ter empenho. Nesse sentido, Do Luto à Luta é um belo retrato sobre a humanidade dos portadores da síndrome de down e os envolvidos (principalmente os pais). Como cinema, o filme não foge daqueles principais problemas que tanto me incomodam em documentários, especialmente a repetição à exaustão do tema. Porém, o filme tem em seu benefício uma curta duração e um tema interessante.

FILME: 7.5

Minha Adorável Lavanderia, de Stephen Frears

Com Gordon Warnecke, Daniel Day-Lewis e Rita Wolf

Primeiro filme do diretor Stephen Frears (um dos meus favoritos) que não conseguiu me cativar em nenhum momento. Acho que o principal erro de Minha Adorável Lavanderia está em seu roteiro, que não parece se decidir muito bem em sua proposta. Ele tenta criar uma história de amor homossexual ao mesmo tempo em que trabalha o cotidiano de uma família oriental e o grande empenho de um garoto para tentar ser independente no mundo dos negócios. As situações são milimetricamente divididas e fica difícil entender qual a principal trama da história. Contudo, Frears conduz todo o longa de forma competente como sempre, mantendo o interesse e a agilidade da trama. O destaque fica com a dupla Gordon Warnecke e Daniel Day-Lewis, ambos dando muita verossimilhança aos seus personagens.

FILME: 7.5

Se Eu Fosse a Minha Mãe, de Gary Nelson

Com Jodie Foster, Barbara Harris e John Astin

Esse é o filme que deu origem para o recente Sexta-Feira Muito Louca, com Lindsay Lohan e Jamie Lee Curtis. As produções são bem diferentes, e a nova versão se deu a liberdade de inventar coisas que não existiam nesse original. Se Eu Fosse a Minha Mãe é uma comédia muito sincera com aquela velha premissa que todo mundo conhece sobre uma mãe que troca de corpo com a filha durante um dia inteiro. Jodie Foster, muito jovem e em início de carreira, é a protagonista; e desde já mostrava grande talento e simpatia (seu trabalho até lhe rendeu uma indicação ao Globo de Ouro de melhor atriz comédia/musical). Barbara Harris, como a mãe, não fica nem um pouco atrás, brilhante. O filme de Gary Nelson não traz nada de novo e nem vai fazer o espectador dar risadas, mas cada minuto é de uma humildade única, tudo singelo e nostálgico. Para a época, devia ter sido uma bela diversão. Destaque para a música de abertura, I’d Like To Be You For a Day.

FILME: 7.5

Sobre Café e Cigarros, de Jim Jarmusch

Com Cate Blanchett, Bill Murray e Alfred Molina

União de vários curtas de mesmo tema bem ao estilo de Paris, Te Amo, só que em menor quantidade que o longa francês. São eles: Strange To Meet You, Twins, Those Things’ll Kill Ya, Jack Shows Meg His Tesla Coil, Somewhere In California, Renée, No Problem, Cousins, Cousins?, Delirium e Champagne. O diretor Jim Jarmusch é uma pessoa estranho – metido a cult, realiza longas sempre do mesmo estilo. Eu, que não gostei de Flores Partidas, não esperava muita coisa desse Sobre Café e Cigarros. O resultado é até interessante, pena que a proposta não foi tratado com originalidade. Era pra ser uma coletânea de histórias sobre pessoas conversando diversos assuntos enquanto tomam café e fumam cigarros em cafeterias. Certas histórias funcionam só por causa dos atores – é o caso de Delirium, com Bill Murray – e outras funcionam também por causa do roteiro. Destaco bastante Cousins, com Cate Blanchett inspiradíssima contracenando com ela mesma e Cousins? onde Alfred Molina interpreta… Alfred Molina! Sobre Café e Cigarros tem todos aquele clima “quero ser cult” de Jim Jarmusch, que até fotografia preto-e-branco resolveu usar! E aqui o clima funciona. É uma boa diversão, e só. Para um público bem seleto.

FILME: 7.0