Cinema e Argumento

Marlene

Marlene Dietrich foi uma das atrizes mais desejadas de sua geração. Sexualmente e profissionalmente. Os homens se impressionavam com a sua sensualidade e beleza. Os diretores disputavam a atriz para os filmes. Pra ser bem sincero, nunca assisti nenhum filme com a atriz. Portanto, na última noite de terça-feira fui assistir ao documentário Marlene, de Maximilian Schell, sem ter conhecimento algum sobre ela. Na realidade, fui assistir o longa por motivos profissionais, já que estou realizando uma reportagem sobre documentários para a faculdade e a diretora Liliana Sulzbach (vencedora em Gramado por O Cárcere e a Rua) estava apresentando esse longa em uma sessão seguida de debate.

Não posso dizer que achei o longa particularmente notável ou original, mas existe algo dentro dele que despertou a minha curiosidade: a estrela principal do documentário não aparece em momento algum. Marlene Dietrich concordou em realizar o filme, mas com a condição de que não teria o seu rosto mostrado. Sua última aparição no cinema foi em 1978, em uma participaçao muito tímida, onde mal dava para ver o seu rosto, no longa Just a Gigolo. Porém, a última vez em que realmente teve participação efetiva em um filme foi em 1961, com O Julgamento de Nuremberg. Portanto, 23 anos se passaram desde o último trabalho de grande aparição dela até a realização do documentário.

A idade, querendo ou não, é mais cruel com as mulheres do que com os homens. E, talvez, por essa razão, Marlene não tenha aceitado aparecer diante das câmeras. Ela queria permanecer na mente dos cinéfilos como aquela linda mulher que encantou olhares em filmes como O Anjo Azul e não como uma senhora em fim de vida. Exímia cantora e atriz de inúmeras habilidades, Dietrich viveu em uma época muito conturbada. Portanto, é louvável o grande reconhecimento que ela obteve durante toda a sua carreira. Saí da sessão – e do debate pós-filme – encantado com essa figura que, apesar de difícil e rabugenta, era um ser humano fabuloso. Ela faleceu com 91 anos em Paris, no ano de 1992 e foi indicada apenas uma vez ao Oscar. Dietrich é um  belo exemplo de como hoje em dia não se fazem mais estrelas como antigamente…

O melhor de 2009 (até agora)

O ano já chega na sua metade e quase toda a sua qualidade ainda se encontra nos filmes do Oscar. Abaixo, uma lista com cinco tópicos do que vi de melhor até agora em 2009. Lembrando que alguns tópicos podem não se referir necessariamente ao filme que está sendo discutido, e sim a uma característica dele.

O Harvey Milk de Sean Penn

Não é novidade para ninguém aqui que eu não sou fã de Milk – A Voz da Igualdade, o filme mais superestimado do Oscar 2009. Posso até considerar um absurdo o filme receber prêmio por um roteiro óbvio e  ser ovacionado por outras tantas outras coisas que reclamo do longa de Gus Van Sant, mas é impossível negar o brilhantismo de Sean Penn. Encabeçando o bom elenco do filme, Penn entrega uma das melhores atuações da década, que foi  merecidamente consagrada com o Oscar.

Os dois momentos de Kate Winslet

As duas atuações de Kate Winslet embaralharam a cabeça de muita gente. Alguns acham que ela é coadjuvante em O Leitor, outros acham que a grande atuação dela de leading role está em Foi Apenas Um Sonho. O que importa é que Winslet foi celebrada por esses seus dois ótimos trabalhos,  que são totalmente distintos. Seja como a sofrida e misteriosa Hanna Schmitz ou como a frustrada e infeliz April Wheeler, a atriz inglesa se firmou – novamente – como a grande atriz de sua geração.

A harmonia de Dúvida

O filme de John Patrick Shanley foi a produção mais subestimada da safra de premiações esse ano. Só colecionou indicações – apesar do SAG para Meryl Streep – e foi rejeitado por conta de sua estética teatral. Contudo, a verdade é que Dúvida é um verdadeiro show de harmonia. O elenco esplêndido e o roteiro impecável traçam um interessante debate sobre moral e, claro, sobre as dúvidas do ser humano. Quem sabe com o tempo o filme não ganhe o seu merecido reconhecimento?

A estética de O Curioso Caso de Benjamin Button

Outro que muitos cinéfilos enxergam como uma obra-prima, mas que eu não consigo apreciar na mesma proporção. A história só me conquista mesmo a partir do ato em que Benjamin (Brad Pitt) e Daisy (Cate Blanchett) se reencontram quando adultos. Excetuando isso, a produção é um primor esteticamente. A começar pela fabulosa trilha sonora de Alexandre Desplat. Daí podemos citar a impressionante maquiagem, a bonita direção de arte, os minuciosos efeitos especiais…

O sopro de originalidade de Quem Quer Ser Um Milionário?

Grande vencedor das premiações de 2009, Quem Quer Ser Um Milionário? traz uma onda muito positiva para o cinema. Em tempos que filmes pessimistas dominam o circuito, o longa de Danny Boyle narra uma história  de certa forma também triste de um garoto favelado, mas que aos poucos vai encontrando amor e felicidade na sua jornada. Dirigido excepcionalmente e com uma atmosfera vibrante, o longa conquista com suas boas intenções que nunca soam falsas e cativa com seu espírito.

W.

Direção: Oliver Stone

Elenco: Josh Brolin, James Cromwell, Elizabeth Banks, Thandie Newton, Toby Jones, Ellen Burstyn, Jeffrey Wright, Richard Dreyfuss, Ioan Gruffudd

EUA, 2008, Drama, 123 minutos, 12 anos

Sinopse: George W. Bush (Josh Brolin) entra na faculdade seguindo a tradição de seu pai, George Bush (James Cromwell), um influente político. Apelidado de W pelos amigos, ele vive sob a sombra paterna e deseja apenas curtir a vida. Sem rumo definido na carreira, decide entrar para a política ao concorrer para a Câmara dos Representantes pelo Texas, estado onde vivia desde criança. Na campanha conhece Laura (Elizabeth Banks), com quem posteriormente se casa. W perde a disputa, mas se envolve de vez com a política ao ajudar seu pai na campanha presidencial de 1988, o qual sai vitorioso.

“Irregular no tratamento de sua história e em algumas interpretações, W. tem como mérito um excelente Josh Brolin”

Existe um pouco de Jogos do Poder na narrativa de W., o mais novo filme de Oliver Stone. Ambos os longas apostam em um clima satírico para narrar os bastidores da política norte-americana. A diferença é que a produção estrelada por Josh Brolin é sobre uma figura atual para todos nós; atual e  também polêmica. Em consequência, o roteiro tenta humanizar George W. Bush, mostrando que ele também é uma pessoa como todos nós: humano e cheio de obstáculos em sua vida. O problema é que, até a metade da história, essa tal humanização é feita de uma maneira muito incorreta: o clima satírico (também expresso em uma trilha sonora meio cômica) não coincide com o que estamos vendo em tela. Ou seja, vemos um problemático George W. Bush com um péssimo relacionamento com o pai e lidando com problemas de alcoolismo enquanto tudo isso é embalado por um tom desnecessariamente excêntrico.

Contudo, a partir do momento em que mostra a subida de Bush no poder – quando ele resolve se candidatar para a presidência dos Estados Unidos – o filme começa a se recuperar dos pequenos desastres estruturais do primeiro ato. Ainda assim é pouco e W. acaba sem muita graça, deixando a sensação de que o longa não cumpriu a sua missão. Primeiro porque o diretor Oliver Stone não faz nada além de mostrar a vida do personagem. Fica neutro em suas opiniões e longe das polêmicas do governo do presidente. E segundo porque a vida pessoal dele não tem nada de interessante. O roteiro é até bem construído – excetuando o que já foi citado sobre o tratamento da narrativa – e não chega a ser muito falho. O que acontece é a falta de assunto, já que em alguns momentos ficamos vários minutos em uma única tomada com os personagens discutindo a guerra do Iraque, por exemplo.

A boa notícia é que W. não chega a ser um filme ruim. É aquela típica situação em que simplesmente o resultado não superou as expectativas. Mas se existe algo que deve ser reconhecido no produto final é o desempenho de Josh Brolin – essa sim a aparição mais notável dele ano passado e não Milk – A Voz da Igualdade.  Ele realmente ficou parecido com Bush. Entretanto, o mais importante de tudo não é o visual em si, mas a caracterização que ele fez: condizente e sem exageros. O total oposto dele em cena é Thandie Newton, completamente infeliz em sua aparição. Sim, parece que estamos vendo Condoleeza Rice em cena, mas não passa disso. Newton é uma completa figurante que não faz nada além de acenar a cabeça com uma cara de retardada (desculpem-me o radicalismo) concordando com o que os outros personagens dizem. Deplorável.

No mais, W. é um longa-metragem competente, especialmente no que se diz a respeito das imagens documentais, que se misturam com grande habilidade com aquelas filmadas pelos atores. O diretor Oliver Stone foi novamente criticado por sua direção – pela terceira vez consecutiva depois dos fracassos chamados Alexandre e As Torres Gêmeas (que não são necessariamente ruins). Não é nada alarmante. Stone pode até fazer um trabalho bem óbvio atrás das câmeras, mas o que importa é que não chega a comprometer o resultado. Mas é pouco para um diretor como ele. W., portanto, encontra o seu principal empecilho no roteiro neutro. É exatamente isso que rebaixa o longa a uma cotação de apenas mediano.

FILME: 6.5

3

Filmes em DVD

boogienights

Boogie Nights – Prazer Sem Limites, de Paul Thomas Anderson

Com Mark Wahlberg, Julianne Moore e Burt Reynolds

45

Outro trabalho notável do grande Paul Thomas Anderson e que, novamente, foi ignorado pelas premiações. Difícil entender como um trabalho tão bem matizado como esse não recebeu o reconhecimento que merecia – mas tem grande apreço dos cinéfilos. Poderia ser um filme chocante e que teria grandes chances de se perder na sua história, mas não é que acontece. Anderson conduz a história com maestria, ajudado por um elenco simplesmente impecável e uma memorável trilha sonora. Mark Wahlberg, Julianne Moore – mais linda do que nunca – e Burt Reynolds são os destaques entre os atores. Não é um trabalho necessariamente empolgante; entretanto, é fácil admirar cada quesito desse ótimo filme.

FILME: 9.0

anewhope

Star Wars – Episódio IV: Uma Nova Esperança, de George Lucas

Com Mark Hamill, Harrison Ford e Carrie Fisher

4

Impressionante como esses capítulos antigos empolgam bem mais que as recentes refilmagens. Uma Nova Esperança, apesar de ser datado cronologicamente como o quarto capítulo da saga, é o filme que conta a origem de toda a aventura de Star Wars nos cinemas. E não poderia começar de forma mais interessante – uma literal aventura onde tudo é mostrado com muita sinceridade e competência. Desde os atores, o lado técnico e os revolucionários efeitos. Uma Nova Esperança abre a série de forma excelente!

FILME: 8.5

bountiful

O Regresso Para Bountiful, de Peter Masterson

Com Geraldine Page, John Heard e Rebecca De Mornay

35

A sincera interpretação de Geraldine Page – vencedora do Oscar de melhor atriz por seu desempenho aqui – é o principal destaque desse singelo filme. O Regresso Para Bountiful narra uma história saudosista, onde uma senhora tem o sonho de regressar para a cidade de Bountiful, lugar onde foi mais feliz em toda a sua vida. Basicamente o filme de Peter Masterson não tem história, já que assistimos apenas a protagonista tentando retornar para a sua cidade. No entanto, é tudo tão humilde e sincero, que o longa funciona exatamente por causa disso. Geraldine está impecável e consegue até emocionar nos momentos finais, ainda que a produção em si não tenha tantos atrativos.

FILME: 8.0

whitepalace

Loucos de Paixão, de Luis Mandoki

Com Susan Sarandon, James Spader e Kathy Bates

35

Loucos de Paixão é um filme estranho. Começa com um certo suspense envolvendo a identidade maluca da protagonista e tem algumas pitadas de sexo. Depois, vira um drama sobre a complicada relação de um jovem com uma mulher mais velha e no final (especialmente na última cena) aposta na obviedade de um romance. O filme de Luis Mandoki parece um filme B, com cara de filme das madrugadas da Globo, mas nem por isso deixa de ser bom. Sarandon, indicada ao Globo de Ouro por essa produção, é o principal atrativo. Loucos de Paixão, então, é um longa interessante e bem narrado, mas longe de ser original.

FILME: 8.0

hp5f

Harry Potter e a Ordem da Fênix (revisto)

Com Daniel Radcliffe, Rupert Grint e Emma Watson

35

Até então a série estava em constante evolução. Esse A Ordem da Fênix pode ser considerado um retrocesso. Longe de ser empolgante como os outros ou tão interessante quanto, o filme de Richard Yates tem várias falhas. E a maioria estão no roteiro que, apesar de condensar bem a obra de J.K. Rowling, não transformou a história em um produto cinematográfico de grande interesse. Contudo, também é fácil apontar pontos positivos – como a brilhante Imelda Staunton (que rouba a cena e merecia até uma indicação ao Oscar), a ótima trilha de Nicholas Hooper e a encantadora direção de arte.

FILME: 8.0

gandhi

Gandhi, de Richard Attenborough

Com Ben Kingsley, Candice Bergen e Edward Fox

3

É uma experiência quase que torturante assistir Gandhi. São mais de três horas e que foram as mais intermináveis de toda a minha vida cinematográfica. Isso é o que mais prejudica esse grandioso trabalho do diretor Richard Attenborough. O que mais se destaca aqui é o trabalho de Ben Kingsley, totalmente imerso na alma do protagonista. A bela fotografia dá um tom único de grandiosidade para o filme e é outro ponto a ser ressaltado. Se não fosse a torturante duração, Gandhi seria um produto memorável; já que, eu, ao menos, não acho que a produção seja especial.

FILME: 6.5