Cinema e Argumento

Opinião – O segredo da vila

Atenção! Se você ainda não assistiu o filme “A Vila”, não continue a ler o texto, pois ele possui spoilers.

Pra começo de conversa, declaro que sou um defensor ferrenho de A Vila. Acho o melhor filme da carreira de M. Night Shyamalan – o mais bem conduzido, que traz uma atmosfera perfeita e que tem grande habilidade narrativa. Detestado por inúmeros cinéfilos, o filme talvez teria sido mais bem apreciado caso fosse o primeiro da carreira de Shyamalan, e não um filme pós-badalação de O Sexto Sentido. Pra falar a verdade, o filme estrelado por Bryce Dallas Howard e Joaquin Phoenix é criticado mais pelo desfecho do que pelo conjunto em si. Mas por que criticar um desfecho que discute um tema tão atual e urgente?

A principal razão para os moradores da vila viverem naquelas condições é revelada a partir dos segredos escondidos dentro de uma caixa que fica escondida na casa da personagem de Sigourney Weaver. As figuras do filme escolheram viver naquela condição: isolados do mundo, vivendo na simplicidade da vida, longe da realidade que cada vez mais corrompe o ser humano. Mas, o mais importante de tudo: querem viver longe da violência, que trouxe dor para muitas das pessoas que habitam aquele lugar. “Minha irmã morreu antes de completar 23 anos, um grupo de homens a estuprou e a matou. Eles a jogaram em uma lixeira”. Quando começamos a ouvir os depoimentos dos moradores, nos damos conta do que realmente se passa na história.

Muita gente pode não admitir, mas tenho certeza que parte do público não aprova o filme porque esperavam alguma reviravolta como a de O Sexto Sentido ou a tensão explícita de Sinais. Terminaram se deparando sim com uma reviravolta, mas uma reviravolta complexa e que está longe de ser um mero acontecimento para surpreender. É um desfecho complexo, que exige reflexão. A intenção de Shyamalan certamente não foi comercial e sim artística. A Vila foi realizado como cinema para se pensar, não para deixar o cérebro de lado como um desses suspenses quaisquer que rondam os cinemas. A escolha dos moradores foi válida. Afinal, quem não quer morar em um mundo livre da violência e das maldades causadas pelos seres humanos?

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Opiniões anteriores:

A culpa do padre Flynn, em Dúvida

A escolha de Francesca, em As Pontes de Madison

Ensina-Me a Viver

Baseada no filme Ensina-Me a Viver (Harold and Maude), de 1971, a peça de mesmo nome é estrelada por Glória Menezes, que está de volta aos palcos de Porto Alegre para representar Maude. O espetáculo é dirigido por João Falcão (diretor do longa-metragem A Máquina) e segue fielmente o texto do filme de Hal Ashby. Ainda no elenco temos nomes como Arlindo Lopes, Ilana Kaplan, Fernanda de Freitas e Antônio Fragoso.

Harold é um adolescente que tem problemas emocionais. Com uma mãe excessivamente controladora e manias mórbidas, ele tem  o hábito de frequentar funerais de desconhecidos. Maude é uma senhora apaixonada pela vida, que não tem medo de arriscar e sempre vê com muita irreverência as situações da vida. Ela também frequenta funerais de desconhecidos, mas com um valor terapêutico diferente do jovem garoto. Quando ambos notam um ao outro em diversos funerais, surge então uma amizade muito especial e que, mais tarde, vai originar um inesperado romance entre os dois.

Assim como o filme – que é considerado cult por muitos (e é o romance favorito da personagem de Cameron Diaz em Quem Vai Ficar Com Mary?) – a peça não chega a ser memorável. Os personagens são simpáticos e a história inusitada, mas em momento algum consegue se sobressair em determinado aspecto ou ser de maior significância. Contudo, é a presença da veterana Glória Menezes que faz o espetáculo valer a pena. Extremamente à vontade e iluminada no papel, Glória surge radiante, construindo uma adorável figura. A mesma competência pode ser dita do seu companheiro de cena: o jovem Arlindo Lopes apresenta talento o suficiente para representar ao lado de Glória.

Ensina-Me a Viver, portanto, pode não ser espetacular, mas consegue ter alguns excelentes aspectos. Além do elenco dar verossimilhança para a história que está sendo encenada, contamos com algumas cenas cômicas bem interessantes e que dão ritmo para o desenrolar da história. Sem falar da boa direção de João Falcão. Misturando comédia e humor, o espetáculo pode até emocionar os mais sensíveis e divertir os menos exigentes. É uma experiência válida.

60 anos de Streep

Hoje, a estrela favorita desse blog completa sessenta anos de vida. Nada mais justo do que um post dedicado a ela. Parabéns, Meryl! Para não ficar aqui falando novamente tudo o que eu acho dela, resolvi colocar abaixo outras celebridades falando sobre a recordista de indicações ao Oscar.

Uma atriz de tremenda importância da nossa geração. Ela é históricamente importante.” – William Hurt

As indicadas dessa categoria são: Meryl Streep, Meryl Streep e… Meryl Streep. E adivinha quem é a vencedora? Não existe filme ruim com ela, não existem falhas. Que Deus abençoe Meryl Streep, assim como ela vem nos abençoando.”Jim Carrey

Ela se tornou o grande gênio da minha geração.”Diane Keaton

Quando conversei com Scott Rudin sobre o elenco de “As Horas”, ele me perguntou: “O que você acha de Meryl Streep?”. E eu disse que morreria para trabalhar com ela.”Stephen Daldry

Meryl Streep sempre foi para mim um exemplo de pessoa e profissional, a atriz mais extraordinária de sua geração.” – Nicole Kidman

“Ela consegue desaparecer na alma de qualquer outra pessoa. A cada papel novo, ela se torna um ser humano totalmente novo.” – Sidney Pollack

Tive a oportunidade fazer apenas uma cena com Meryl em “As Horas” e vou ser eternamente feliz por causa disso, por estar com ela em alguma coisa.”Julianne Moore

Dirigir Meryl Streep é como se apaixonar. Você sempre vai se lembrar de ser algo mágico e criativo, mas também cercado de mistérios.”Mike Nichols

O poeta que venceu o Oscar

Vasculhando alguns vídeos pela internet, fui encontrar o curta-metragem de animação The Danish Poet. Tive a oportunidade de conferir esse curta alguns anos atrás, no festival de Gramado e adorei o resultado. O curta venceu o Oscar na sua respectiva categoria. Fica aí, então, minha dica para vocês: The Danish Poet, um curta animado simplesmente adorável!

priscila.nica@hotmail.com

Recém Chegada

Direção: Jonas Elmer

Elenco: Renée Zellweger, Frances Conroy, J.K. Simmons, Harry Connick Jr., Siobhan Fallon, Mike O’Brien, James Durham

New in Town, EUA, 2009, Comédia, 96 minutos, 12 anos

Sinopse: Miami. Lucy Hill (Renée Zellweger) é uma executiva ambiciosa. Ela imediatamente aceita uma oferta de trabalho temporário em uma fábrica que passa por um processo de reestruturação, ao perceber que pode ser uma grande chance para uma carreira promissora. Só que ao iniciar o trabalho ela percebe que nada é da forma que lhe prometeram.

Já virou moda falar mal de Renée Zellweger. Tudo bem que ultimamente ela interpreta sempre o mesmo tipo com suas caras e bocas, mas vale lembrar que a atriz já teve seus momentos de méritos. Recém Chegada pode até não ser um momento de inspiração dela, mas aqui Zellweger cumpre o seu papel de dar carisma para a personagem. Na realidade, ela provavelmente é o ponto alto desse filme todo errado, que parece aquelas comédias sem sentido que passam na Sessão da Tarde.

Estou até agora tentando entender quem foi a mente brilhante que escreveu esse roteiro primoroso – atenção, isso foi uma ironia. Olha que história mais brilhante: moça da cidade e cheia dos luxos vai trabalhar no interior, onde praticamente não existe vida social e as pessoas parecem um bando de doentes mentais de tão ingênuos. Imagine algumas situações bobinhas envolvendo a adaptação da personagem na cidade, um romance previsível daqueles em que os opostos se atraem e mais algumas situações constragedoras e você terá Recém Chegada.

Porém, o filme não é de todo ruim. Dá até pra levar como uma bobagem passageira… Isso se estivesse passando na TV. É complicado ter boa vontade com um filme óbvio, que praticamente não tem história e que não prima por acontecimentos interessantes. Pra piorar a situação, o elenco de suporte é lamentável. Até a adorável Frances Conroy aparece péssima em seu papel. Renée Zellweger, portanto, leva o longa-metragem nas costas. E, ainda que ela não seja uma Meryl Streep da vida para salvar o filme, consegue trazer algo de positivo para o resultado.

Recém Chegada é uma péssima experiência, que declina exatamente por exagerar em algumas coisas (o elenco de coadjuvantes) e se intimidar em outras (a história limitada e fraca). É necessária muita boa vontade para tirar algo de muito proveitoso daqui, especialmente quando se trata de um filme estrelado por uma atriz supostamente boa. Zellweger exagera sim em seus trabalhos, às vezes; mas até então nunca tinha demonstrado grande falta de cuidado em seus projetos. Será que a decadência começou aqui?

FILME: 5.0

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