Cinema e Argumento

Star Trek

Direção: J.J. Abrams

Elenco: Chris Pine, Zachary Quinto, Bruce Greenwood, Zoe Saldana, Leonard Nimoy, Eric Bana, Karl Urban, Tyler Perry

EUA, 2009, Aventura/Ficção, 114 minutos, 12 anos

Sinopse: James Tiberious Kirk (Chris Pine) é um jovem rebelde inconformado com a morte de seu pai. Certo dia, recebe convite para fazer parte da formação de novos cadetes para a Frota Estelar. Uma vez lá, conhece Spock (Zachary Quinto), um vulcano que optou por deixar seu planeta porque é metade humano e discordava do preconceito. Durante o treinamento, e também na primeira missão, os dois vivenciam novas experiências provocadas por seus estilos diametralmente opostos. Assim, Spock, o cerebral, e Kirk, o passional, viverão uma grande aventura ao lado de outros tradicionais integrantes da tripulação da U.S.S. Enterprise, a mais avançada nave espacial da época.

A principal missão na hora de ressuscitar uma série cinematográfica de sucesso é apenas uma: trazer para os fãs tudo aquilo que fez determinado produto virar sucesso e, ao mesmo tempo também atrair o público dos dias de hoje, que desconhece a história do que está prestes a ver. É com muito sucesso que Star Trek se sai muito bem nessa missão – tornando-se um filme que não é apenas envolvente para quem já conhece os personagens e as sagas, mas para os leigos também. Isso é um grande feito, ao meu ver, e tal façanha se deve ao roteiro, que possivelmente foi construído com essa intenção.

Mais do que isso, o longa de J.J. Abrams possui o mérito de também ser um blockbuster independente das tramas ou do formato da série: a aventura tem personalidade própria e cria um formato que pode muito bem ser usado em possíveis continuações. Star Trek impressiona com sua qualidade técnica e, além de ser uma trama bem arquitetada, também vai agradar os olhos e os ouvidos dos públicos que procuram por grandioso entretenimento. Os efeitos impecáveis – e mais um exemplo de como, a cada dia, o cinema se supera na tecnologia – e o departamento sonoro impressionam a cada minuto e tornam impactante a impressão técnica que o filme impõe.

Também podemos observar uma boa escolha de elenco, onde os protagonistas Chris Pine e Zachary Quinto conseguem segurar as pontas – aliás, também vão além do básico, já que a dualidade que existe entre os seus personagens, que estão constantemente competindo para ver quem é mais inteligente ou mais competente, é o que cria a base para o carisma dos dois atores. Claro que Star Trek não está isento de falhas, mas fica impróprio mencioná-las aqui se o que importa, na realidade, é que o filme é um dos maiores acertos do ano até agora.

FILME: 8.5

4

Filmes em DVD

thelmalouise

Thelma & Louise, de Ridley Scott (revisto)

Com Susan Sarandon, Geena Davis e Brad Pitt

4

É gratificante assistir Thelma & Louise, um filme que é muito bem balanceado. Podemos começar elogiando a ótima direção de Ridley Scott, que utiliza muito bem os dramas das protagonistas, as aventuras vividas por elas e as belas paisagens das estradas percorridas. Temos também duas atrizes excepcionais encabeçando o elenco: Susan Sarandon e Geen Davis – ambas indicadas ao Oscar – estão impecáveis. O roteiro é outro aspecto muito interessante, que nos brinda com um desfecho simplesmente memorável. Thelma & Louise pode até ser um pouco longo e ter alguns personagens que não se encaixam, mas o filme é tão envolvente que quase nem dá pra notar esses problemas.

FILME: 8.5

livesofothers

A Vida dos Outros, de Florian Henckel Von Donnersmarck

Com Ulrich Mühe, Martina Gedeck e Sebastian Koch

35

É algo que acontece com certa frequência: eu achar um filme muito respeitável e de qualidade mas não ser necessariamente envolvido por ele. É o caso de A Vida dos Outros, um dos longas mais densos e de qualidade que já vi da Alemanha. O filme em si já tem toda uma ambientação de seriedade, mas o maior mérito do filme de Florian Henckel Von Donnersmarck é falar sobre um assunto muito corriqueiro sobre a história alemã sem cair nos clichês do gênero. Na realidade, o roteiro aposta em uma história que foca mais nos dramas nos personagens, podendo até ser considerada intimista. Entretanto, como disse, não foi um resultado que me empolgou, talvez pela direção um pouco gélida. A Vida dos Outros fez muito sucesso no circuito de arte e nas premiações. Dá pra entender o porquê.

FILME: 8.0

getsmart

Agente 86, de Peter Segal

Com Steve Carell, Anne Hathaway e Alan Arkin

35

Agente 86 é um excelente exemplo de como se fazer um filme comum mas que também sabe divertir muito, sem ser apelativo ou usar humor grotesco. Peter Segal apostou na simplicidade e no carisma dos personagens para construir o humor de seu longa e o resultado alcançado foi bem satisfatório. Temos aqui a definição de entretenimento, representada de uma forma muito divertida. Agente 86 pode até não ser uma maraviha ou ter genialidades, mas funciona como aventura e comédia na medida exatada. Créditos também devem ser dados aos protagonistas. Steve Carell – no tom perfeito – e Anne Hathaway (linda e iluminada) seguram tranquilamente a história.

FILME: 8.0

goya

Sombras de Goya, de Milos Forman

Com Javier Bardem, Natalie Portman e Stellan Skarsgard

35

Até determinado ponto, Sombras de Goya é um notável filme histórico que discute a corrupção da igreja e os conflitos éticos das classes sociais na época da Revolução Francesa. Depois, cai nas típicas armadilhas de filmes desse gênero – se torna lento e pouco interessante, focando-se demais nos acontecimentos  históricos. Mas isso não chega a estragar o resultado do longa de Milos Forman, que conta com os excelentes Javier Bardem (já demonstrando talento para interpretar figuras do mal antes de Onde Os Fracos Não Têm Vez) e Stellan Skarsgard. Num conjunto geral, Sombras de Goya é interessante e merece ser conferido.

FILME: 8.0

ironweed

Ironweed, de Hector Babenco

Com Jack Nicholson, Meryl Streep e Carroll Baker

3

O conjunto prometia: Jack Nicholson e Meryl Streep – ambos indicados ao Oscar pelos trabalhos aqui – como um casal pobre que vive nas ruas. Sem falar dos problemas de bebida que afetam os dois. Pena que a direção e o roteiro tenham minimizado a história para um monótono relato que só é validado por causa dos dois atores. Mas que, mesmo assim, estão longe de estarem marcantes. O filme nunca chega a proporcionar maiores momentos e, no final das contas, Ironweed acaba ficando muito longe daquilo que prometia. Quem sabe um diretor mais competente não tivesse feito muito mais que o mediano resultado de Hector Babenco?

FILME: 6.5

hereyes

Sem Medo de Morrer, de Vadim Perelman

Com Uma Thurman, Evan Rachel Wood e Brett Cullen

25

O talento de Vadim Perelman como diretor é inquestionável: ele sabe utilizar ótimos enquadramentos, conduzir a estética visual e auditiva de forma instigante e criar um clima muito interessante. Mas não adianta ter uma notável direção se o roteiro não ajuda. Perelman teve a sorte de ter um grande texto em mãos no longa Casa de Areia e Névoa, mas em Sem Medo de Morrer ele deu azar. O filme quase não tem história, resolve dar uma de David Lynch e fica dando voltas em torno de um acontecimento envolvendo a protagonista durante todo o tempo. O que acaba levando o roteiro para um vai-e-vem no tempo que fica desinteressante. Se não fosse por Perelman e as talentosas Thurman e Rachel Wood, seria completamente descartável.

FILME: 6.0

Opinião – A verdade sobre Hanna Schmitz

Atenção! Se você ainda não assistiu o filme “O Leitor”, não continue a ler o texto, pois ele possui spoilers.

Não me recordo onde, mas li recentemente um texto que falava sobre o filme O Leitor e que debatia a seguinte questão: será que se Hanna Shmitz (Kate Winslet, soberba) soubesse ler, ela cometeria os crimes que cometeu durante o Holocausto? Pra começo de conversa, não é nem um pouco fácil interpretar a personagem de Kate Winslet. Alguns não a compreendem (minha avó, por exemplo, ficou indignada que a peronagem não admitiu que era analfabeta), outros acham que ela é digna de pena e uma outra parcela fica enojada de sua figura.

Conhecemos, no filme, pouco sobre a intimidade de Hanna Schmitz. São pouquíssimos os momentos em que vemos ela interagindo sozinha – na maioria das vezes, ela sempre está acompanhada do jovem Michael Berg (o ótimo David Kross). E é até por isso que eu considero a personagem coadjuvantes. De qualquer forma, se já é difícil entrar no mundo da figura de Hanna, imagina então compreender os atos que ela cometeu durante o Holocauso – assassinando centenas de mulheres ao mantê-las presas dentro de um incêndio em uma igreja – e as razões que a levaram a fazer isso.

Voltando a pergunta que fiz no início, não consigo dizer com certeza absoluta se Hanna teria ou não cometido aquelas barbáries. Se ela soubesse ler, talvez não tivesse que ter abandonado seu emprego por vergonha de ser analfabeta – assim, portanto, não teria aceitado o trabalho nos campos de concentração. Mas, aí vem outra pergunta: porque ela aceitou logo esse trabalho? Ela não sabia o que se passava ou estava a par e simplesmente simpatizava com os ideais do nazismo? Ela poderia ter escolhido um outro trabalho.

A crítica Isabela Boscov, da revista Veja, deu uma boa análise da situação: “É uma mulher bonita e jovem que, no entanto, é uma mulher gasta, que apanhou da vida. É uma mulher que passa dificuldades e que também cria dificuldades para ela mesma. Vive de uma maneira muito estranha e que o menino de 15 anos nunca seria capaz de entender. E, quando ele entende, ele fica enojado com o fato de ter se envolvido com uma mulher que ele achava maravilhosa e que, na verdade, era alguém muito diferente. Mas, o menino nunca vai conseguir, pro resto da vida, deixar de gostar dela como um indivíduo e nem de puni-la pelo que ela representa”.

A confusão em relação a personagem não estava somente na cabeça de Michael Berg. Eu, particularmente, não sei bem o que pensar dela. E eis que fica a dualidade da personagem: ela merece nossa compaixão ou a nossa repulsa? Afinal de contas, ela cometeu aqueles crimes consciente do que estava fazendo ou por que não tinha saída? É complicado entender a vergonha que ela sente por ser analfabeta. Mas, mais complicado ainda é entender como alguém se deixa a levar a extremos por causa de um segredo. Mas, como o próprio pôster pergunta, e você? How far would you go to protect a secret?

E aí, algum tema interessante que você gostaria de ver debatido aqui? Se sim, só colocar nos comentários =)

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Confira outras opiniões:

A culpa do Padre Flynn, em Dúvida

A escolha de Francesca, em As Pontes de Madison

O segredo da vila, em A Vila

Últimas Trilhas Sonoras

Boogie Nights, por Vários

4

O álbum de Boogie Nights é outro exemplo de como se fazer uma excelente coletânea, podendo muito bem se igualar aos brilhantismos de Tarantino com Kill Bill, por exemplo. Embalado por canções conhecidas do público como a contagiante Jesse’s Girl até outras que são desconhecidas, o resultado da trilha de Boogie Nights não é menos do que excelente. Perfeito para ter em casa e ouvir sempre que possível. O único problema é que a versão completa (a que chegou nas lojas brasileiras não tem todas as canções) fica cansativa em determinado ponto…

Up, por Michael Giacchino

4

Se depender da trilha de Michael Giacchino, Up é outro acerto memorável da Pixar. Aprecio a versatilidade do compositor, mas nunca fui grande fã dele. Com esse álbum mudei a minha visão e passei a gostar mais de Giacchino. Alternando momentos de melancolia – com a bela Stuff We Did – e outros de pura correria e alucinação, o trabalho é digno para o nome da Pixar e desde já um dos melhores desse ano. E agora um comentário bem aleatório: adorei o nome de uma canção: Memories Can Weigh You Down… Pixar, né?! Trilha excelente! E que trabalho mais brilhante esse do visual do álbum…

King Kong, por James Newton Howard

4

James Newton Howard seguiu a grandiosidade do majestoso filme de Peter Jackson e realizou uma trilha nos mesmos moldes. O álbum de King Kong é uma compilação bem sucedida de faixas que transmitem exatamente essa sensação: de que estamos de um produto auditivo feito para um longa de grandes proporções. Howard acerta em praticamente todas as suas composições, mesmo quando elas não são tão originais assim, como nos cinco atos de Beauty Killed the Beast. Mas isso é mero detalhe dessa excelente trilha sonora.

Bandits, por Vários

35

A coletânea de Vida Bandida exerce a mesma diversão que o filme de Barry Levinson. Existem algumas músicas muito bregas, como Total Eclipse of the Heart e Holding Out for a Hero – ambas de Bonnie Tyler – mas elas são tão divertidas que dá até pra entrar no clima. De resto, temos ainda canções de Jimmy Page, Robert Plant e Aretha Franklin. Mas o detaque mesmo fica com a bela Superman (It’s Not Easy), interpretada pelo Five for Fighting e que depois ganhou uma terrível versão brasileira na voz de Júnior, do Sandy e Júnior. Socorro.

The Brave One, por Dario Marianelli

3

O italiano Dario Marianelli já comprovou ser um artista genial, com ótimas trilhas como as de Desejo e Reparação (que lhe rendeu o Oscar) e Orgulho e Preconceito. Mas ele também já realizou trabalhos menores e mais óbvios, como em The Brave One, ou Valente aqui no Brasil. O filme em si é bem irregular – mas válido por causa da presença de Jodie Foster – e a trilha até que consegue dar certo tom. O problema é que é muito pouco para a credibilidade de um compositor tão bom como ele. A trilha, portanto, é satisfatória, mas nenhuma faixa do álbum chega a marcar ou empolgar.

Presságio

Direção: Alex Proyas

Elenco: Nicolas Cage, Rose Byrne, Chandler Cunterbury, Lara Robinson, Nadia Townsend, Alan Hopgood, Joshua Long

Knowing, EUA, 2009, Suspense, 120 minutos, 14 anos

Sinopse: 1959. Um grupo de alunos faz alguns desenhos sobre como imaginam que será o futuro. Eles serão guardados em uma cápsula do tempo, que apenas será aberta daqui a 50 anos. Um deles, feito por uma garota, traz uma série de números aleatórios, que ela alega terem sido ditos por alguém que não vê. Meio século depois a cápsula é aberta e este desenho chega às mãos de Caleb Koestler (Chandler Canterbury). O pai dele, o professor de astrofísica John Koestler (Nicolas Cage), percebe que trata-se de uma mensagem codificada que prediz as datas e os números de mortos de cada uma das grandes tragédias ocorridas nos últimos 50 anos. John passa a investigar melhor o desenho e descobre que ele prevê mais três catástrofes ainda não ocorridas, a última delas de proporções globais.

O histórico de filmes com mistérios numéricos nessa década não é lá muito atraente. A Profecia e Número 23, por exemplo, são exemplos de produções com essa temática que não deram certo. Presságio segue os mesmos passos, ainda que em uma escala não tão ruim. O novo filme de Alex Proyas (do bom Eu, Robô) é estrelado por Nicolas Cage, um ator que perdeu sua credibilidade faz horas, e ainda conta com a participação coadjuvante de Rose Byrne, a Ellen Parsons do seriado Damages. Ambos não seguram a trama e  também contriubuem para o resultado irregular.

Até determinado ponto, Presságio é um filme bem interessante: temos um suspense bem desenvolvido (apesar de óbvio), uma trilha de Marco Beltrami que funciona e uma abientação que aplica o tom certo para o que se está vendo na tela. Os efeitos especiais também merecem ser ressaltados, simplesmente ótimos. Mas, por causa da longa duração, o filme vai perdendo a sua força aos poucos e a trama que, no início dava propulsão para um bom encaminhamento, vai se tornando um empecilho para o roteiro. As ideias vão se esgotando e Presságio cai no previsível. E, na tentativa de dar uma reviravolta nos momentos finais, cria um final muito questionável e que causa até indignação.

É um filme irregular mas que também sabe esconder isso com habilidade, especialmente porque o diretor Alex Proyas sabe criar boas cenas com os efeitos e também com o suspense. Dá pra levar o filme tranquilamente com o seu estilo interessante. O problema mesmo é o roteiro, que não sabe segurar o filme durante as duas horas de projeção. Nicolas Cage (ainda que não esteja ruim como nos terríveis O Vidente e O Sacrifício) e Rose Byrne (que não sei de onde tiraram que é boa atriz) aparecem apáticos e não têm muito o que fazer em cena. Presságio é um passatempo de qualidade técnica e que vai fazer sucesso nas noites da Globo. Quem conseguir enxergar o filme assim, vai aprovar o resultado. O problema é que eu tenho dificuldade em fazê-lo.

FILME: 6.0

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