Cinema e Argumento

Opinião – O sucesso de Atividade Paranormal

Desde a estréia de Atividade Paranormal, me senti compelido a fugir do filme. Alguns podem dizer que eu estava com medo dos sustos do filme. Não é verdade. Gosto de ficar tenso e de ser assustado com produções de suspense. Tanto, que sinto até uma certa satisfação em dar pulos da cadeira quando algo me pega de surpresa. No entanto, esse gênero de falso-documentário está tão saturado nos dias de hoje que não tenho a mínima vontade de chegar perto de histórias assim. E, além do mais, Atividade Paranormal fez um imenso rebuliço. Como já aprendi a lição de que o público adora fazer muito barulho por nada, não queria me dar ao trabalho de, mais uma vez perder meu tempo com algo assim e me decepcionar.

Ora, não é verdade absoluta que eu desgosto de todos os filmes que são cultuados pelas grandes massas. Existem alguns casos que eu até entendo o porquê do sucesso, mesmo que eu não aprecie muito o resultado. É o caso de Atividade Paranormal. O debut astronomicamente bem sucedido de Oren Peli bebe de uma fonte muito frutífera: o imaginário. M. Night Shyamalan, no seu tempo genial, sabia usar o implícito como ninguém. Atividade Paranormal é mais ou menos assim: mostra pouca coisa e consegue resultado. Mas vai além, mexe com um medo extremamente cultivado na nossa sociedade: o escuro.

É nesse aspecto que o filme acerta. Ele mexe com o medo e ainda se utiliza de inúmeros sustos para trazer reações no espectador. E consegue. Atividade Paranormal, nos seus picos, causa bastante medo – justamente porque, como já dito, cutuca em uma paranóia humana tão incentivada em todos nós. O longa foi mega sucesso de bilheteria e causou muito burburinho. Ainda assim, não conseguiu agradar tanto uma certa parcela e ainda foi alvo de fortes críticas de outros. Por um motivo, novamente, bem explicável. Dar sustos é uma história, causar suspense é outra.

Atividade Paranormal, ao menos para mim, causa sustos. Mas, é extremamente falho na tentativa de criar suspense. Para o diretor do filme, parece que, colocando uma cena de susto aqui e outra ali, teremos um resultado digno de roer as unhas. Não é assim que se faz um filme tenso. Como aprovar uma produção que consegue bom resultado quando quer causar susto mas não no resto? Quando não aposta nas cenas “noturnas”, Atividade Paranormal é uma enrolação sem fim – e, inclusive, consegue ser até tedioso.

No final das contas, dá pra entender o porquê do sucesso. O filme traz exatamente o que o público gosta de assistir em um filme desse gênero. Entretanto, na minha opinião, não é uma experiência válida para quem espera algo mais bem construído. Oren Peli não realizou um filme de verdade e sim um experimento de alguém que resolveu se divertir dando susto nos outros. Atividade Paranormal não tem história e mesmo que seus pontos altos sejam interessantes, não conseguem compesar as outras falhas. Sustos eu até vi. Cinema não.

A trilha sonora de… A Estrada

Para quem não se lembra, a dupla Nick Cave e Warren Ellis fez a ótima trilha de O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford. Foram esnobados, injustamente, pelos grandes prêmios. Os compositores foram novamente deixados de lado com A Estrada. Só que, dessa vez, o absurdo foi maior, já que Cave e Ellis, realmente, fizeram um trabalho genial. Mas dá para levar a sério a lista do Oscar, que também ignorou a perfeita trilha de Direito de Amar?

A trilha sonora segue o estilo do filme – ou seja, não temos aqui uma sonoridade típica de filmes sobre o fim do mundo. As composições de A Estrada podem até ter os seus momentos de suspense, mas são, em sua grande parte, essencialmente dramáticas. Algumas, chegam até mesmo a arrepiar com tanta melancolia. As faixas The Road e The Far Road, ao utilizaram o triste piano, alcançam resultados fenomenais. É um álbum imperdível e que, desde já, fica, com muita segurança, entre os melhores do ano.

Para fazer o download, clique aqui.

01. Home
02. The Road
03. Storytime
04. The Cannibals
05. Water ad Ash
06. The Mother
07. The Real Thing
08. Memory
09. The House
10. The Far Road
11. The Church
12. The Journey
13. The Cellar
14. The Bath
15. The Family
16. The Beach
17. The Boy

Na coleção… Angels in America

Arrisco a dizer que Angels in America foi a minissérie mais bem sucedida de toda a história da TV norte-americana. Não só porque, realmente, foi um excelente trabalho, mas porque também levou todos os prêmios por onde passou. Meryl Streep, Al Pacino, Mary-Louise Parker e Jeffrey Wright foram consagrados no Emmy e em outras premiações por seus desempenhos e ainda a minissérie abocanhou todas as importantes categorias. Gostanto ou não, você não pode dizer que Angels in America é algo banal realizado na TV. A produção é impecável e a estética tem até jeito de longa-metragem.

Se não bastasse o quarteto vencedor do Emmy, ainda temos na equipe outros nomes conhecidos como Emma Thompson, Patrick Wilson, James Cromwell e Michael Gambon. A direção ficou a cargo do sempre ótimo Mike Nichols. Angels in America é produto de arte – ou seja, não vai ser qualquer pessoa que conseguirá entrar nas viagens do roteiro ou nas imaginações dos personagens. É um roteiro muito figurativo e que, a cada revisão, torna-se mais compreensível e admirável. Mas, mesmo sendo tão alegórico, o texto dialoga com naturalidade.

Acompanhamos aqui a vida de várias pessoas que, de um jeito ou de outro, precisam conviver com a homossexualidade (seja a própria ou a de algum parente ou amigo) e, mais especificamente, com a AIDS. Possivelmente, o maior feito de Angels in America é não cair no melodrama. Aliás, passa longe disso. A temática da minissérie é apenas uma deixa para uma boa análise de relacionamentos, preconceitos e sociedade. Não chega a ser emocionante ou sequer mais empolgante. No entanto, é fácil reconhecer o ótimo resultado alcançado.

Em uma análise final, fica a certeza de que Angels in America é uma sucessão de acertos. Na útima cena, não é só a belíssima trilha de Thomas Newman (o melhor trabalho da carreira do compositor) que fica com o espectador, a minissérie também fica. Pode até não ter sido aquele projeto emocionante ou aquela produção impecável. Mas, sem dúvida, é um produto de maior grandeza. Uma aula de como se produzir uma minissérie dramática para a TV sem apelar para artifícios desnecessários. Vale a pena conhecer Angels in America.

FILME: 8.5


A Estrada

Direção: John Hillcoat

Elenco: Viggo Mortensen, Kodi Smit-McPhee, Charlize Theron, Guy Pearce, Robert Duvall, Molly Parker, Bob Jennings

The Road, EUA, 2009, Drama/Suspense, 111 minutos, 16 anos

Sinopse: O planeta terra foi totalmente devastado por um evento cataclísmico. Milhares de pessoas foram erradicadas por incêndios, inundações, e outras morreram de fome e desespero. Um pai (Viggo Mortensen) e seu filho (Kodi Smit-McPhee) resolvem partir em uma longa viagem pela América destruída, em direção ao oceano, em uma épica jornada de sobrevivência nesse mundo pós-apocalíptico. Os dois devem permanecer unidos, contando com uma imensa força de vontade que mantém suas esperanças vivas, não importa a qual custo, para enfrentar todos os obstáculos, desde as condições adversas de temperatura até uma gangue de caçadores canibais.

Sou muito fã de filmes apocalípticos com clima dramático. Principalmente, daqueles que retratam uma humanidade devastada, vazia e obscura. No gênero de suspense já vimos isso milhares de vezes, mas é impressionante como esse tipo de história fica bem mais interessante quando narrada sob uma forma dramática. A Estrada não é um grande filme – e até possui bastante falhas – mas consegue, com muita facilidade, criar um perfeito clima de fim de mundo na tela.

A bela fotografia de Javier Aguirresarobe é o que existe de melhor na construção visual do filme. Ela nos leva para dentro da história, como se estivéssemos vagando com os personagens e participando da agonia deles. Um trabalho que merecia reconhecimento. A direção de arte impecável é outro aspecto bem interessante, já que A Estrada não faz questão de representar um mundo destroçado e sim um mundo bagunçado, vazio e sem esperança.

Se isso não fosse o bastante, ainda existe uma espetacular trilha sonora de Nick Cave e Warren Ellis (a dupla que realizou a também ótima de trilha de O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford). Portanto, todo o setor técnico realiza um trabalho espetacular em todos os sentidos. É a técnica e o ótimo trabalho de Viggo Mortensen (um ator que, ultimamente, tem se mostrado muito versátil) que tornam a situação de A Estrada tão plausível e verdadeira. Mas se por um lado o filme de John Hillcoat tem pleno êxito em sua parte técnica, comete o erro de escorregar diversas vezes no roteiro.

O ritmo é lento e a história muito dramática. Os maiores conflitos que existem são o desespero dos dois personagens principais. Ambos não conseguem enxergar esperança no vazio mundo em que vivem. É um mundo onde a comida é escassa, as pessoas são perigosas e até uma moradia fixa é difícil de manter. O roteiro, de vez em quando, resolve colocar um suspense. Ao meu ver, não se sai feliz nessa tentativa – as cenas de tensão, apesar de funcionarem, parecem avulsas e sem muito propósito. Outro problema é a insistência de usar flashback para mostrar a personagem de Charlize Theron. Outra tentativa frustrada de causar impacto.

A Estrada tem vários problemas sequenciais no roteiro e com muita frequência não varia o que está sendo mostrado em tela. Tudo parece uma variação dos mesmos questionamentos e conflitos. Não li o livro de Cormac McCarthy, no qual o filme foi baseado, mas o roteiro se perde um pouco nesse ponto. Contudo, o mais importante aqui é que A Estrada conseguiu criar uma ambientação perfeita e um mundo que nos suga para a sua realidade. Acho que é aí que está o maior mérito: o filme pode até não envolver em seus conflitos, mas ao menos consegue nos deixar a par de tudo o que as figuras do filme estão passando.

FILME: 7.5


 

Poucas Cinzas

Direção: Paul Morrison

Elenco: Robert Pattinson, Javier Beltrán, Marina Gatell, Matthew McNulty, Sue Flack, Ferran Audí, Diana Gómez, Adrian Devant

Little Ashes, EUA/Espanha, 2008, Drama, 14 anos

Sinopse: Em 1922, Madri se vê em plena revolução cultural por conta das mudanças de valores provocadas pelo jazz, as ideias de Freud e a avant-garde . Nesse mesmo ano, aos 18 anos, Salvador Dalí (Robert Pattinson) entra para a faculdade determinado em se tornar um grande artista. Sua incomum mistura de timidez e exibicionismo faz com que a elite social da universidade volte suas atenções ao jovem estudante, como Federico Garcia Lorca (Javier Beltran) e Luis Buñuel (Matthew McNulty). O filme acompanha a relação travada entre esses tão importantes artistas contemporâneos.

Muito frequentemente tenho uma necessidade (mórbida?) de ver algum filme de péssima qualidade. Não sei se é porque tenho uma certa safisfação ao falar mal de uma produção ou se é porque me divirto muito ao assistir uma tragédia cinematográfica. Dia desses, quando tive essa vontade, logo me veio à cabeça um nome já carimbado na filmografia de filmes ruins do cinema atual: Robert Pattinson. Seja na saga Crepúsculo ou em longas “alternativos” como o desastre Uma Vida Sem Regras, o jovem ator sempre se mete em roubadas. Poucas Cinzas é outro exemplo de como Pattinson não sabe o que faz.

Imagine a audácia: colocar um ator ruim como Pattinson à frente de um projeto sobre a vida de grandes nomes como Fererico García Lorca e Luis Buñuel. E, mais do que isso, o Edward Cullen de Crepúsculo ainda faz o papel do histórico Salvador Dalí. O filme não tem ninguém famoso além dele, foi produzido em 2008 e até agora não teve uma distribuição decente (aqui no Brasil, por exemplo, ainda não tem destino nem previsão). A falta de repercussão com público e com a crítica não ajudou. Poucas Cinzas, além de ser péssimo, está fadado ao eterno esquecimento – incluindo com as crepusculetes fãs de Pattinson, que nunca ouviram falar desse longa.

O roteiro não poderia ser mais perdido. É aquele típico caso em que o texto atira para todos os lados. Poucas Cinzas quer falar de política, revolução cultural, relações homossexuais reprimidas, arte, sexo… Não consegue discursar com qualidade sobre nenhum desses assuntos. Muitas abordagens e muita superficialidade. O ritmo é lento, o que dificulta demais um possível envolvimento com a história. A grande cruz que o filme tem que carregar, entretanto, é o péssimo elenco. Todos estão deslocados e mal trabalhados. Se Poucas Cinzas estivesse nas mãos de um diretor mais competente e não na de amadores, talvez não fosse a bobagem que é. Mas, como não está, fica esse péssimo resultado mesmo.

FILME: 4.0