Cinema e Argumento

Na coleção… Angels in America

Arrisco a dizer que Angels in America foi a minissérie mais bem sucedida de toda a história da TV norte-americana. Não só porque, realmente, foi um excelente trabalho, mas porque também levou todos os prêmios por onde passou. Meryl Streep, Al Pacino, Mary-Louise Parker e Jeffrey Wright foram consagrados no Emmy e em outras premiações por seus desempenhos e ainda a minissérie abocanhou todas as importantes categorias. Gostanto ou não, você não pode dizer que Angels in America é algo banal realizado na TV. A produção é impecável e a estética tem até jeito de longa-metragem.

Se não bastasse o quarteto vencedor do Emmy, ainda temos na equipe outros nomes conhecidos como Emma Thompson, Patrick Wilson, James Cromwell e Michael Gambon. A direção ficou a cargo do sempre ótimo Mike Nichols. Angels in America é produto de arte – ou seja, não vai ser qualquer pessoa que conseguirá entrar nas viagens do roteiro ou nas imaginações dos personagens. É um roteiro muito figurativo e que, a cada revisão, torna-se mais compreensível e admirável. Mas, mesmo sendo tão alegórico, o texto dialoga com naturalidade.

Acompanhamos aqui a vida de várias pessoas que, de um jeito ou de outro, precisam conviver com a homossexualidade (seja a própria ou a de algum parente ou amigo) e, mais especificamente, com a AIDS. Possivelmente, o maior feito de Angels in America é não cair no melodrama. Aliás, passa longe disso. A temática da minissérie é apenas uma deixa para uma boa análise de relacionamentos, preconceitos e sociedade. Não chega a ser emocionante ou sequer mais empolgante. No entanto, é fácil reconhecer o ótimo resultado alcançado.

Em uma análise final, fica a certeza de que Angels in America é uma sucessão de acertos. Na útima cena, não é só a belíssima trilha de Thomas Newman (o melhor trabalho da carreira do compositor) que fica com o espectador, a minissérie também fica. Pode até não ter sido aquele projeto emocionante ou aquela produção impecável. Mas, sem dúvida, é um produto de maior grandeza. Uma aula de como se produzir uma minissérie dramática para a TV sem apelar para artifícios desnecessários. Vale a pena conhecer Angels in America.

FILME: 8.5


A Estrada

Direção: John Hillcoat

Elenco: Viggo Mortensen, Kodi Smit-McPhee, Charlize Theron, Guy Pearce, Robert Duvall, Molly Parker, Bob Jennings

The Road, EUA, 2009, Drama/Suspense, 111 minutos, 16 anos

Sinopse: O planeta terra foi totalmente devastado por um evento cataclísmico. Milhares de pessoas foram erradicadas por incêndios, inundações, e outras morreram de fome e desespero. Um pai (Viggo Mortensen) e seu filho (Kodi Smit-McPhee) resolvem partir em uma longa viagem pela América destruída, em direção ao oceano, em uma épica jornada de sobrevivência nesse mundo pós-apocalíptico. Os dois devem permanecer unidos, contando com uma imensa força de vontade que mantém suas esperanças vivas, não importa a qual custo, para enfrentar todos os obstáculos, desde as condições adversas de temperatura até uma gangue de caçadores canibais.

Sou muito fã de filmes apocalípticos com clima dramático. Principalmente, daqueles que retratam uma humanidade devastada, vazia e obscura. No gênero de suspense já vimos isso milhares de vezes, mas é impressionante como esse tipo de história fica bem mais interessante quando narrada sob uma forma dramática. A Estrada não é um grande filme – e até possui bastante falhas – mas consegue, com muita facilidade, criar um perfeito clima de fim de mundo na tela.

A bela fotografia de Javier Aguirresarobe é o que existe de melhor na construção visual do filme. Ela nos leva para dentro da história, como se estivéssemos vagando com os personagens e participando da agonia deles. Um trabalho que merecia reconhecimento. A direção de arte impecável é outro aspecto bem interessante, já que A Estrada não faz questão de representar um mundo destroçado e sim um mundo bagunçado, vazio e sem esperança.

Se isso não fosse o bastante, ainda existe uma espetacular trilha sonora de Nick Cave e Warren Ellis (a dupla que realizou a também ótima de trilha de O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford). Portanto, todo o setor técnico realiza um trabalho espetacular em todos os sentidos. É a técnica e o ótimo trabalho de Viggo Mortensen (um ator que, ultimamente, tem se mostrado muito versátil) que tornam a situação de A Estrada tão plausível e verdadeira. Mas se por um lado o filme de John Hillcoat tem pleno êxito em sua parte técnica, comete o erro de escorregar diversas vezes no roteiro.

O ritmo é lento e a história muito dramática. Os maiores conflitos que existem são o desespero dos dois personagens principais. Ambos não conseguem enxergar esperança no vazio mundo em que vivem. É um mundo onde a comida é escassa, as pessoas são perigosas e até uma moradia fixa é difícil de manter. O roteiro, de vez em quando, resolve colocar um suspense. Ao meu ver, não se sai feliz nessa tentativa – as cenas de tensão, apesar de funcionarem, parecem avulsas e sem muito propósito. Outro problema é a insistência de usar flashback para mostrar a personagem de Charlize Theron. Outra tentativa frustrada de causar impacto.

A Estrada tem vários problemas sequenciais no roteiro e com muita frequência não varia o que está sendo mostrado em tela. Tudo parece uma variação dos mesmos questionamentos e conflitos. Não li o livro de Cormac McCarthy, no qual o filme foi baseado, mas o roteiro se perde um pouco nesse ponto. Contudo, o mais importante aqui é que A Estrada conseguiu criar uma ambientação perfeita e um mundo que nos suga para a sua realidade. Acho que é aí que está o maior mérito: o filme pode até não envolver em seus conflitos, mas ao menos consegue nos deixar a par de tudo o que as figuras do filme estão passando.

FILME: 7.5


 

Poucas Cinzas

Direção: Paul Morrison

Elenco: Robert Pattinson, Javier Beltrán, Marina Gatell, Matthew McNulty, Sue Flack, Ferran Audí, Diana Gómez, Adrian Devant

Little Ashes, EUA/Espanha, 2008, Drama, 14 anos

Sinopse: Em 1922, Madri se vê em plena revolução cultural por conta das mudanças de valores provocadas pelo jazz, as ideias de Freud e a avant-garde . Nesse mesmo ano, aos 18 anos, Salvador Dalí (Robert Pattinson) entra para a faculdade determinado em se tornar um grande artista. Sua incomum mistura de timidez e exibicionismo faz com que a elite social da universidade volte suas atenções ao jovem estudante, como Federico Garcia Lorca (Javier Beltran) e Luis Buñuel (Matthew McNulty). O filme acompanha a relação travada entre esses tão importantes artistas contemporâneos.

Muito frequentemente tenho uma necessidade (mórbida?) de ver algum filme de péssima qualidade. Não sei se é porque tenho uma certa safisfação ao falar mal de uma produção ou se é porque me divirto muito ao assistir uma tragédia cinematográfica. Dia desses, quando tive essa vontade, logo me veio à cabeça um nome já carimbado na filmografia de filmes ruins do cinema atual: Robert Pattinson. Seja na saga Crepúsculo ou em longas “alternativos” como o desastre Uma Vida Sem Regras, o jovem ator sempre se mete em roubadas. Poucas Cinzas é outro exemplo de como Pattinson não sabe o que faz.

Imagine a audácia: colocar um ator ruim como Pattinson à frente de um projeto sobre a vida de grandes nomes como Fererico García Lorca e Luis Buñuel. E, mais do que isso, o Edward Cullen de Crepúsculo ainda faz o papel do histórico Salvador Dalí. O filme não tem ninguém famoso além dele, foi produzido em 2008 e até agora não teve uma distribuição decente (aqui no Brasil, por exemplo, ainda não tem destino nem previsão). A falta de repercussão com público e com a crítica não ajudou. Poucas Cinzas, além de ser péssimo, está fadado ao eterno esquecimento – incluindo com as crepusculetes fãs de Pattinson, que nunca ouviram falar desse longa.

O roteiro não poderia ser mais perdido. É aquele típico caso em que o texto atira para todos os lados. Poucas Cinzas quer falar de política, revolução cultural, relações homossexuais reprimidas, arte, sexo… Não consegue discursar com qualidade sobre nenhum desses assuntos. Muitas abordagens e muita superficialidade. O ritmo é lento, o que dificulta demais um possível envolvimento com a história. A grande cruz que o filme tem que carregar, entretanto, é o péssimo elenco. Todos estão deslocados e mal trabalhados. Se Poucas Cinzas estivesse nas mãos de um diretor mais competente e não na de amadores, talvez não fosse a bobagem que é. Mas, como não está, fica esse péssimo resultado mesmo.

FILME: 4.0


Caso 39

“Everybody has fears… now, what scares you?”

Direção: Christian Alvart

Elenco: Renée Zellweger, Ian McShane, Bradley Cooper, Adrian Lester, Jodelle Ferland, Kerry O’Malley, Georgia Craig

Case 39, EUA, 2009, Suspense, 109 minutos, 14 anos

Sinopse: Uma assistente social (Renée Zellweger) salva uma garota de 10 anos de idade (Jodelle Ferland) de seus pais. Porém, ela descobre que a história da menina é mais complicada do que parece.

Observem bem a foto acima. Agora me digam: Renée Zellweger está chorando, morrendo de medo ou sorrindo? Por via das dúvidas, você vai dizer que ela está com medo, já que o gênero do filme é suspense. E você está mais do que correto. Mas em vários momentos de Caso 39 não dá para adivinhar. Zellweger é uma de tantas atrizes que estragou o seu rosto com plásticas. Nos últimos tempos, ela provou que tantas mudanças estéticas em seu rosto lhe incapacitaram de fazer qualquer outro tipo de filme que não seja comédia (e isso porque, vai saber o motivo, tem gente que adora as caras e bocas “engraçadas” dela).

Defendi Zellweger até onde pude – afinal, em algum lugar remoto do passado, ela foi boa. Mas, hoje, já desisti e faço parte do grupo que aproveita qualquer oportunidade para falar mal dela. Caso 39, tal como Recém Chegada, é mais um filme que consegue me dar essa deixa para difamar a atriz. Pelas mais diversas razões. Primeiro, quem se entrega a um filme desses, está assinando seu atestado de óbito cinematográfico. Segundo, Renée foge completamente de seu estilo e o resultado de sua atuação é uma lástima. E, finalmente, terceiro, o filme é uma verdadeira porcaria. Mais um daqueles longas totalmente previsíveis em seu suspense e que não adiciona nada para o gênero – bem pelo contrário, enfraquece ainda mais o estilo.

Se a escalação da protagonista fosse o único problema, poderíamos até levar numa boa. O que acontece é que Caso 39 é uma sucessão de escolhas erradas. E, talvez, a mais grave seja o enredo. Não sei o que enxergam nessas tramas de crianças endiabradas e maquiavélicas – gênero esse que já saturou. O filme fica rodeando esse tipo de tensão envolvendo a criancinha maquiavélica o tempo inteiro. Quando decide fazer isso, cai em diversos clichês: a criança fica sozinha no mundo e uma bondosa alma caridosa resolve adotá-la, só a burra da protagonista não enxerga a maldade da pequenina, todos que tentam desvendar o mistério morrem e por aí vai…

Mas, antes fosse só isso. O filme ainda comete alguns grandes exageros (chega a ser ridículo, por exemplo, a protagonista atear fogo na própria casa por livre e espontânea vontade como se isso fosse a coisa mais natural do mundo) e não faz a mínima questão de explicar essa origem bizarra da criança. Zellweger oscila entre vozes irritantes, expressões irreconhecíveis e gritos que soam constrangedores. A menina beira o banal e o elenco coadjuvante também não tem nada de especial. Caso 39 funciona tranquilamente para pessoas que gostam de histórias assim. Mas, no final, fica aquela velha questão: até quando vamos ver produções ruins e banais como essas? A resposta é simples: quando vier outro tipo de suspense que seja copiado em todos os cantos. O estilo Atividade Paranormal teria encerrado essa fase e iniciado outro ciclo?

FILME: 4.0


Na coleção… Um Amor Verdadeiro

Tenho um grande fraco por filmes que retratam histórias de câncer. Mas, também, não pode ser qualquer filme. Considero inadmissíveis essas produções insuportavelmente clichês e que nem atores bons possuem para trazer algum tipo de emoção. Lembro, diretamente, daquele péssimo filme com o casal Amanda Peet e Dermot Mulroney, O Amor Pode Dar Certo. Agora, quando só uma atuação acerta de forma contundente, já é o suficiente para me emocionar. E, convenhamos, a maioria dos bons filmes com essa temática são assim: não passam de um ótimo trabalho de elenco.

Um Amor Verdadeiro não se difere dos seus irmãos nessa temática. Entretanto, o que faz o diferencial aqui é que todos os atores estão em ótimos momentos. A beneficiada poderia ser apenas Meryl Streep, já que ela é a vítima da doença. Não é o que acontece. Renée Zellweger, William Hurt e Tom Everett Scott também estão impecáveis como a família que, de repente, tem que aprendar a lidar com o câncer da matriarca. A sinopse é exatamente essa e não existe muito o que se dizer: Um Amor Verdadeiro trata sobre as feridas sentimentais que ficam expostas quando as estruturas de uma família ficam fargilizadas após a doença de alguém. O que existe aqui é uma grande sinceridade – que é transmitida com muita competência pelos atores.

Meryl Streep (em uma duvidosa indicação ao Oscar de melhor atriz, já que, claramente, não é a protagonista) dá um nó em nossos corações com cenas totalmente avassaladoras – especialmente naquelas em que está aniquilada pela doença. Renée Zellweger, em ótimo momento (possivelmente, o meu favorito da atriz), representa a força da família – uma vez que é a filha que voltou para casa apenas para cuidar da mãe, já que os o pai e o outro filho não conseguem lidar direito com isso. William Hurt, como o patriarca que, a princípio, parece relapso e sem coração, entrega outro excelente desempenho ao passo que Tom Everett Scott se sai muito bem em suas poucas cenas.

Um Amor Verdadeiro é longo em demasia (chega a ultrapassar duas horas de duração para narrar uma história que poderia ser contada de forma mais objetiva) e tem vários clichês – o Natal não poderia faltar, claro. Contudo, é um desses filmes de câncer que dá muito certo. Entramos de corpo e alma na história e conseguimos sofrer junto com aquela família. E, também, notamos que não é mérito apenas de uma dedicada Meryl Streep que sofre o tempo inteiro. É mérito de uma equipe de atores e de um roteiro que sabem que existe uma linha muito tênue entre o emocionante e o forçado. Um Amor Verdadeiro pode até apelar para as formas mais convencionais, mas nunca soa forçado ou sequer incômodo por ser formulaico. E, por isso mesmo, é um ótimo longa.

FILME: 8.5