Cinema e Argumento

“Better Days”

Ryan Murphy não é um sujeito de muita sorte. Criou Nip/Tuck (que só deu certo no início e depois sucumbiu a total decadência), dirigiu Correndo Com Tesouras (um ótimo filme, mas que a grande maioria subestima) e agora está alcançando reconhecimento com o seriado Glee (e, mesmo assim, tem vários detratores). Julia Roberts também é outra profissional que não teve muito êxito em suas últimas escolhas. Desde Closer – Perto Demais, ela não conseguiu emplacar um trabalho mais notável ou sequer um sucesso de bilheteria…

Apesar de tudo isso, algo que não consigo identificar desperta muito a minha simpatia nas prévias de Comer, Amar, Rezar. Não sei se é porque parece ser um feel good movie ou se é um desses filmes com viagens onde a personagem principal descobre as belezas da vida. Não sei. A verdade é que essa música de Eddie Vedder, Better Days, e todas as locações e a fotografia me conquistaram completamente. Sem falar, claro, que tem Javier Bardem e Richard Jenkins no elenco. Comer, Rezar, Amar, pode até não ser um grande um filme – e duvido muito que seja – mas, certamente, parece ser algo muito agradável de se assistir.

Filmes em DVD

A Dança das Paixões, de Pat O’Connor

Com Meryl Streep, Michael Gambon e Catherine McCormack

A Dança das Paixões é um dos filmes menos conhecidos da carreira de Meryl Streep. E, também, um dos mais subestimados. É de se lamentar que um filme tão especial como esse não tenha o devido reconhecimento. Quer dizer, A Dança das Paixões está longe de ser um filme grandioso, mas tem pequenas sutilezas e tantos momentos sinceros que, no final, fica difícil não se envolver com a história. Não é só Meryl que está muito verdadeira e natural (parece, de verdade, que ela é uma irlandesa), mas também todo o elenco. A sinceridade passada por todos os atores é o que também confere para A Dança das Paixões um tom de pura verossimilhança. Um filme a ser descoberto, mas que pode não despertar tanta apreciação justamente por ser calcado em pequenos momentos.

FILME: 8.5

Duas Mulheres, de Vittorio De Sica

Com Sophia Loren, Eleonora Brown e Carlo Ninchi

Sophia Loren foi a primeira atriz de língua não-inglesa a vencer o Oscar de melhor atriz. E mesmo que sua nacionalidade seja apenas um detalhe (já que, no filme, ela fala inglês), Loren mereceu todas as honrarias que recebeu por seu desempenho em Duas Mulheres. Muito bela e radiante, a italiana encontra um equilíbrio maravilhoso entre a sutileza e a veracidade, fazendo um belo retrato da maternidade sofrida mas também inabalável. Vittorio De Sica realizou um filme interessante, que nunca se deixa eclipsar pelo ótimo momento de Loren. Afinal, Duas Mulheres vai além de uma interpretação especial. É um filme que também chama atenção em outros aspectos.

FILME: 8.0

Infâmia, de William Wyler

Com Audrey Hepburn, Shirley MacLaine e James Garner

Infâmia trata de uma temática que aprecio bastante: o poder da palavra e como uma mentira pode destruir vidas. Se Desejo e Reparação foi um dos melhores exemplares desse tipo de história recentemente, Infâmia foi um marco dos anos 60. Não só por “endiabrar” uma criança (que origina todos os conflitos do filme), mas, também, por tocar no delicado assunto de como a sociedade condenava homossexualidade naquela época. Apesar de beber bastante de uma fonte teatral (e, em certos momentos, parece samba de uma nota só), traz um notável trabalho de elenco, em especial das protagonistas Audrey Hepburn e Shirley MacLaine. Infâmia, portanto, pode até parecer datado em certos momentos, mas nunca perde o brilho e sempre deixa transparecer competência narrativa.

FILME: 8.0

Chico Xavier, de Daniel Filho

Com Nelson Xavier, Christiane Torloni e Tony Ramos

Ao contrário do que se pode imaginar, Chico Xavier está longe de ser um filme caça-níquel. E se é, consegue não deixar essa sensação. Na realidade, é um longa-metragem mais autoral de Daniel Filho (se é que podemos encaixar o diretor nesse estilo), com uma história mais humana e menos superficial. Ainda assim, fica claro que Daniel Filho não consegue se livrar de algumas manias “comerciais”. Por exemplo, o uso desnecessário da trilha sonora para criar suspense nos momentos “espíritas”, que é bastante incômodo. Mas, o principal problema do filme é que o roteiro só engrena a partir da metade, quando o protagonista já é uma celebridade. Antes disso, tem pouco a dizer e só encena determinados momentos para cumprir as típicas formalidades de cinebiografias. Além dos atores que interpretaram Chico Xavier, destaco, também, a ótima atuação de Christiane Torloni. Ela é uma ótima atriz e merecia muito mais tempo em cena, já que rouba a cena quando aparece.

FILME: 7.0

Maluca Paixão, de Phil Traill

Com Sandra Bullock, Bradley Cooper e Thomas Haden Church

Maluca Paixão traz, possivelmente, o papel mais imbecil de toda a carreira de Sandra Bullock. O único prêmio que ela merecia ter vencido nessa temporada era o de pior atriz por esse filme, que é pura vergonha alheia. Para falar bem a verdade, ela é apenas um dos inúmeros problemas lastimáveis desse longa. Se a escalação de elenco e as atuações dos atores já começam erradas (e nisso incluo, também, a canastrice de Thomas Haden Church e a ineficiência de Bradley Cooper), tudo piora com o roteiro. A história simplesmente não convence (até porque é difícil simpatizar com uma protagonista tão lesada mentalmente) e todo e qualquer conflito chega a ser impressionante de tão sem noção. Se um filme bobo desse fosse ao menos simpático, teríamos algo mais aceitável. Mas nem isso Maluca Paixão consegue ser. É chato, fora da casinha e totalmente descartável.

FILME: 4.0

Par Perfeito

Direção: Robert Luketic

Elenco: Ashton Kutcher, Katherine Heigl, Tom Selleck, Catherine O’Hara, Kevin Sussman, Katheryn Winnick, Casey Wilson, Rob Riggle

Killers, EUA, 2010, Aventura, 93 minutos

Sinopse: Jen (Katherine Heigl), conhece o homem perfeito. Seu nome é Spencer (Ashton Kutcher), ele é bonito, educado e inteligente. Mas o que Jen não sabe é que Spencer ganha a vida como matador de aluguel, contratado pelo governo. Eles vivem o casamento dos sonhos até que em uma bela manhã, o casal descobre que Spencer é o alvo de um golpe milionário. Mas, tudo se transforma num jogo de vida ou morte, enquanto eles tentam lidar com sogros, sogras, casamento, manter as aparências e ainda sobreviver.

Par Perfeito reúne várias características de outros filmes. Temos, para começar, uma estrutura bem parecida com a do recente Uma Noite Fora de Série: um casal que, de repente, está envolvido num jogo de vida ou morte e que, durante os acontecimentos, vai reavaliar alguns aspectos da relação. Mas, esse novo filme de Robert Luketic se parece bem mais com Sr. & Sra Smith. Ou seja, dois atores populares e bonitos participando de uma trama de ação cheia de exageros e tiroteios, mas que também tem doses de comédia e um pouco de romance.

Tem algo de novo? Não, absolutamente nada. É o velho formato já aplicado nesses filmes citados. Por que, então, assistir a um longa desses? Ora, é muito simples: mesmo que com falhas e cheio de bobagens, é aquele entretenimento pipoca para se ver num dia à tarde com os amigos. Quanto ao filme em si, Robert Luketic, que já fez algumas produções muito sem graça, parece ter se encaixado nesse gênero. Luketic soube dousar aventura e comédia numa mistura que nunca fica irritante. Ajudado pela boa trilha de Rolke Kent, o diretor sai com certo saldo positivo.

Créditos também devem ser dados ao casal Ashton Kutcher e Katherine Heigl. Ok, eles não são Tina Fey e Steve Carell nem Angelina Jolie e Brad Pitt, mas para um filme desse estilo e dessa abordagem, não precisa muita coisa, não é mesmo? Afinal, bastou a desenvoltura de Kutcher e Heigl para podermos notar a boa dinâmica entre os dois. Ainda que Heigl fique fora de tom em vários momentos (especialmente quando resolve gritar) e que Kutcher ainda precise melhorar em alguns aspectos em alguns aspectos, os dois funcionam.

Par Perfeito, então, além do título insatisfatório, é mais um daqueles filmes que todo mundo sabe como vai acabar. Ninguém vai se surpreender com nada que seja mostrado. Mas, assim como todos os longas desse estilo, dá para se divertir e entrar no clima. Basta não ser crítico e assistir sem qualquer expectativa. Porque, convenhamos, com um pôster desse e uma sinopse desse gênero, fica meio difícil achar que vai sair algo de extraordinário daqui, não é mesmo?

FILME: 7.0


Opinião – A (falta de) polêmica em “Do Começo ao Fim”

Recentemente, comentei que De Repente, Califórnia é um filme gay que foge da responsabilidade de discutir a sua principal temática. Inclusive, disse que a história tinha medo de discutir o relacionamento gay entre os dois personagens. Isso é porque eu ainda não tinha assistido Do Começo ao Fim, que é, possivelmente, a produção mais covarde e sem noção da verdade já realizada sobre a homossexualidade.

O pôster do filme diz que “para entender esse amor é preciso virar o mundo pelo avesso”.  Nem os responsáveis pela publicidade se deram conta do que estavam vendendo. Se o pôster diz que o romance entre Francisco (João Gabriel Vasconcellos)  e Thomás (Rafael Cardoso) é complicado, não é nada disso que assistimos no filme. Na realidade, é a coisa mais normal do mundo dois irmãos serem gays e namorados. Todo mundo aceita e o preconceito é inexistente no mundo criado pelo diretor e roteirista Aluisio Abranches.

Inclusive, temos uma absurda cena onde a mãe (Júlia Lemmertz, um acerto), quando questionada pelo pai de um dos garotos sobre a intimidade excessiva deles, afirma que ela percebe o que está acontecendo, mas que não pode dizer para eles que “isso” é errado. Realmente, ser homossexual não é errado. Mas, quer dizer, então, que namorar o irmão também não é? E assim seguem outras inúmeras cenas onde os dois irmãos explicitam o relacionamento e ninguém diz absolutamente nada. Para os personagens da história, o relacionamento é perfeitamente normal.

Mais do que isso, Do Começo ao Fim ainda romantiza incansavelmente a história dos dois da forma mais “bonita” possível e  parece que nem está tratando de um incesto. Muitas declarações de amor, diálogos bonitinhos e uma melação sem fim. Problemas não existem para os dois – nem entre eles nem para quem está na volta. O maior conflito que existe em todo o filme é que, em certo ponto, os dois precisam morar longe só porque um deles foi selecionado para treinar na Rússia para as próximas Olimpíadas.

Qualquer pessoa com bom senso não vai levar a sério o mundo fantasioso apresentado em Do Começo ao Fim. Nada daquilo existe. Peço desculpas para quem discorda. Mas, num país onde o preconceito ainda existe, é impossível uma situação tão delicada como aquela ser tratada por tanta gente com a naturalidade mostrada. Talvez, Aluisio Abranches tenha percebido que não tinha capacidade para lidar com um tema tão perigoso e difícil. Assim, resolveu apelar para o comercial, mas descambou para o erro.

Comercial no sentido de que o filme é vendido em função de sua temática promissora/polêmica e apela para muitas cenas de nudez entre os atores (que, claro, foram escolhidos com o propósito de serem atraentes e causarem alvoroço com o público-alvo) e para um romance idealizado e açucarado. Ou seja, sacanagem para quem curte e romance sonhador para quem é sentimental.  As cenas de nudez, inclusive chegam a doer de tão constrangedoras. Quando não existe uma pavorosa trilha de fundo (os brasileiros continuam sem saber usar direito esse setor), então aparece uma cafona cena de tango onde os dois atores dançam sem roupa alguma. É lamentável.

No final das contas, Do Começo ao Fim criou uma grande polêmica antes de seu lançamento e não cumpriu nem um milésimo da promessa que foi cultivada. É de se lamentar, portanto, que os dois atores e Júlia Lemmertz – todos bem enquadrados em seus respectivos papéis e funcionando dentro do possível – tenham parado em um filme tão mal resolvido e covarde como esse. Um filme cafona, cheio de problemas narrativos e fora da realidade.  É a legítima situação de uma obra que poderia ter causado alguma revolução mas se perdeu dentro de alguns ideais. Ou não teria sido na falta deles?

A Origem

Dreams feel real while we’re in them. It’s only when we wake up that we realize something was actually strange.

Direção: Christopher Nolan

Elenco: Leonardo DiCaprio, Ellen Page, Joseph Gordon-Levitt, Marion Cotillard, Ken Watanabe, Cillian Murphy, Tom Hardy, Michael Caine

Inception, EUA, 2010, Ficção/Ação/Drama, 148 minutos

Sinopse: Dom Cobb (Leonardo DiCaprio) é um experiente ladrão capaz de penetrar no íntimo e infinito universo dos sonhos e, assim, roubar valiosos segredos dos subconscientes das pessoas enquanto elas estão dormindo. A rara habilidade de Cobb o tornou um invejável jogador neste universo de espionagem, ao mesmo tempo em que o transformou em um fugitivo internacional e lhe custou tudo o que ama.

Eu estava fugindo da missão de escrever um texto sobre A Origem. Assim que assisti o filme pela primeira vez, não sabia nem até que ponto eu tinha apreciado esse novo trabalho de Christopher Nolan. A minha mente estava exausta após o filme e era tanta coisa a ser absorvida que não conseguia nem saber o que esse longa-metragem tinha significado para mim. Numa revisão, logo no dia seguinte, consegui ter um melhor panorama e, finalmente, fiquei mais seguro para escrever algo. Assim é A Origem, um filme tão diferente e inovador que chega a desnortear.

Chegou a vez de Christopher Nolan realizar sua obra-prima. Antes, Nolan já demonstrava ser um profissional extremamente competente. Além de ter reinventado a saga de Batman, ele ainda encontrava espaço para trabalhos mais pessoais, como O Grande Truque. Entretanto, em A Origem ele encontra o seu ápice como diretor. Por mais que Nolan preserve bastante da estrutura de seus filmes anteriores – principalmente no que se refere ao desempenho da trilha e da fotografia – aqui ele vai para um outro nível.

A direção do britânico apresenta uma maturidade impressionante. O que assistimos em A Origem é um dos trabalhos mais espetaculares de direção dos últimos anos – e, facilmente, o melhor de 2010. Nolan une a linguagem visual com o conteúdo de forma brilhante, em momentos que chegam a causar arrepios. E o mais incrível de tudo é que não é só na ação que ele comanda tudo com grande habilidade, mas também na parte emocional – a cena final de Marion Cotillard e o último momento do filme são belos exemplos de emoções bem orquestradas. Mas, claro que é a adrenalina que mais chama a atenção.

Os momentos em que o personagem de Joseph Gordon-Levitt fica sem gravidade e com o cenário fazendo uma rotação genial já podem ficar na lista das cenas mais inspiradas do cinema contemporâneo. Nolan arrebenta nesses momentos e, junto com a ótima trilha de Hans Zimmer (que, vale lembrar, só merece elogios dentro do filme, já que, separadamente, não funciona muito), deixa todo e qualquer espectador de boca aberta. Assim como também vimos esse ano em Direito de Amar, a direção une, com segurança, o visual e o conteúdo. E se, em ambos os casos, o fetiche visual parece se sobrepôr ao que realmente está acontecendo de vez em quando, em ambas as direções podemos relevar esse pequeno detalhe. Afinal, um visual espetacular não faz mal algum.

Já em outros aspectos, A Origem não consegue ser tão impecável. Ainda assim, é cheio de méritos. O elenco é um exemplo. Leonardo DiCaprio esteve melhor em Ilha do Medo, mas ele se mostra um profissional que cada vez mais sabe se envolver com os projetos certos e tirar o melhor dessas oportunidades. No elenco de suporte, encontramos uma Ellen Page melhor do que o habitual, Joseph Gordon-Levitt mostrando que tem versatilidade para se  diferenciar daquele sonhador visto em (500) Dias Com Ela, Cillian Murphy novamente em excelente momento e Marion Cotillard unindo beleza e talento como sempre, em um papel pequeno, mas marcante e de vital importância.

Não sei nem se chega a ser um defeito, mas A Origem possui muitas complexidades. É fácil sair da sessão com a sensação de que muita coisa não foi entendida e que uma revisão é mais do que necessária. Nolan realizou um filme que exige toda a concentração do espectador – aquele tipo de concentração em que não se pode piscar os olhos. É necessário estar grudado na história e prestando atenção em cada mínimo detalhe. A Origem está longe de ser um entretenimento fácil e tantas complexidades de narrativa, às vezes, dificultam que o espectador consiga curtir o filme sem ficar se preocupando em entender ou não tudo o que está acontecendo.

Ou seja, A Origem é um filme de ficção e ação, mas que só vai funcionar para quem conseguir captar a essência da trama. Claro que ninguém consegue absorver em uma única sessão tudo o que o roteiro quer passar, mas é essencial ao menos entender o básico dos fatos. Nolan sempre foi um diretor que me chamou a atenção, ainda que eu não considere nenhum de seus outros filmes como produções quinta grandeza. A Origem consegue o feito de ser um filme com f maiúsculo. Contudo, novamente, Nolan não chegou a realizar aquele tipo de filme que fica entre os meus favoritos – ainda que eu aprecie bastante.

Isabela Boscov, da VEJA, disse que A Origem tem cenas memoráveis, mas que o filme é apenas uma brincadeira. Ela comenta que não existe nada ali além disso, já que a história nem chega a ser um retrato dos nossos sonhos. Entendo o que ela dizer. Fiquei exatamente com a mesma sensação. A Origem me impressionou, é verdade. Mas tudo o que deve ser entendido nas complexidades do filme é em relação à forma com que a trama é desenvolvida. O conteúdo não é complexo. A forma é que tem essa característica.  Existe aí uma certa “enganação”, que pode deixar muitos com a sensação deu que existe uma “mensagem”. Só que nenhuma mensagem existe. Não ao meu ver. Talvez, seja isso que eu não tenha compreendido logo quando saí do filme pela primeira vez e achei que algo faltava ali…

FILME: 8.5

NA PREMIAÇÃO 2010 DO CINEMA E ARGUMENTO: