Cinema e Argumento

Trilogia “Pânico”

A trilogia Pânico representou uma verdadeira revolução no modo do cinema contemporâneo de fazer filmes de suspense e terror. Não só trouxe a moda de assassinar adolescentes como também virou sensação entre esse público. A repercussão foi tanta que, inclusive, surgiu a famosa série de comédia Todo Mundo em Pânico, que parodiou o filme e tantos outros exemplares famosos do cinema naquela época. Mas, afinal, os longas realmente justificam tanto sucesso?

Se formos levar em consideração apenas o primeiro filme, é fácil dizer por que a história se tornou sensação no ano de lançamento. Muito mais do que um guilty pleasure dos anos 90, Pânico conseguia apostar em suspense e sangue sem nunca partir para o exagero. Tudo era muito harmônico e o desenvolvimento dos personagens também era satisfatório. Os personagens, inclusive, beiram ao caricatural (principalmente a jornalista sedenta por sucesso interpretada por Courteney Cox), mas o roteiro nunca permite que eles sejam prejudicados por isso. Pelo contrário, a caricatura de cada um deles é um alívio narrativo dentro do suspense.

De certo modo, a revelação final de quem era o assassino mascarado não tem tanta relevância quanto o próprio suspense criado durante o filme. É mais divertido acompanhar quem será a próxima vítima ou qual será a próxima cena de tensão do que, de fato, tentar adivinhar quem é o possível responsável por tudo. Pânico, no final das contas, se tornou um filme que, além de cumprir o que promete dentro do gênero, também traz diversão. Algo meio raro de se encontrar nos dias de hoje.

Como todo produto de sucesso, Pânico teve outras duas continuações, uma de 1997 e outra de 2000. As sequências, apesar de igualmente bem realizadas e com propostas quase que sem alterações, já não funcionam tão bem como o primeiro volume. O principal obstáculo é que o roteiro simplesmente tenta reproduzir o que deu certo antes. O mesmo formato e o mesmo desenvolvimento. Ou seja, mais do mesmo e sem novidades. Se é pra ser assim, mais fácil rever o primeiro capítulo da história.

Mas, se todos pensavam que a série tinha terminado no terceiro capítulo, eis que o diretor Wes Craven resolve ressuscitar a história. Com o elenco original de volta e ainda com novos rostos na história como Anna Paquin, Rory Culkin, Adam Brody e Mary McDonnell, Pânico 4 tem sua estreia prevista nos cinemas norte-americanos para abril de 2011. Agora, era mesmo necessário um quarto filme para a série?

Guerra Sem Cortes

Direção: Brian De Palma

Elenco: Izzy Dias, Rob Devaney, Ty Jones, Daniel Stewart Sherman, Anas Wellman, Mike Figueroa, Kel O’Neill, Patrick Carroll

Redacted, EUA/Canadá, 2007, Drama, 90 minutos

Sinopse: História baseada em um recente acontecimento da Guerra no Iraque, no qual quatro soldados americanos estupraram e mataram uma garota de 14 anos, além de matar mais três membros da família.

É preciso ter muita coragem para realizar um filme que, desde antes do seu lançamento, já está fadado a passar em branco por cinemas e locadoras. Mesmo sabendo que Guerra Sem Cortes não seria reconhecido e muito menos alcançaria êxito nas bilheterias, o diretor Brian De Palma resolveu ir em frente com o projeto. Mas, não foi diferente: o projeto estagnou na arrecadação e, pelo mundo, também não teve sucesso. Aqui no Brasil foi exibido apenas nos festivais do Rio de Janeiro e de São Paulo. Afinal, quem iria exaltar, em plena era Bush (o projeto é de 2007), um filme que faz uma forte denúncia sobre as atrocidades cometidas pelo exército norte-americano no Iraque?

Se tantos outros filmes falharam no relato dessa guera ou, então, foram completamente superestimados (como é o caso do vencedor do último Oscar, Guerra ao Terror, que é apenas bom), o trabalho de Brian De Palma em Guerra Sem Cortes foi o mais injustiçado. De todos os retratos que o cinema já fez sobre o Iraque, esse é, sem sombra de dúvida, o mais contundente. De Palma não juntou imagens reais e nem formou uma espécie de documentário,  mas escreveu o roteiro baseado em situações que aconteceram de verdade e, simplesmente, transferiu cada situação da realidade para a encenação. Ou seja, tudo o que acontece no filme foi alguma situação relatada por soldados ou outros envolvidos. Por isso, frequentemente, o longa parece um pouco encenado demais e menos natural do que deveria transparecer.

É perceptível a vontade do diretor de querer chocar e emocionar, principalmente em cenas mais pesadas de violência. Tanto o uso da trilha sonora quanto a interpretação do elenco evidenciam isso. Podemos encontrar, também, o tradicional delineamento de quem é mocinho ou bandido. Para alguns, o filme pode parecer fake por todas essa escolhas do diretor de encenar a realidade com atores. Para mim, não foi assim. Por mais que seja fácil perceber esses elementos, em momento algum considerei o filme prejudicado por eles. Pelo contrário, toda a emoção funciona e a denúncia tem um êxito digno.

Se, logo nos créditos iniciais, Guerra Sem Cortes não anunciasse que as imagens são encenadas – e, talvez, seja em função disso que possamos perceber uma clara dramatização na história – seria fácil acreditar que estamos diante de um documentário (afinal, as imagens são filmadas com câmera digital, como se fosse um relato pessoal feito por um dos soldados). E a boa notícia é que o resultado final deixa uma excelente impressão: Guerra Sem Cortes funciona como drama e, também, como documentário. É de se lamentar que o filme melhor executado sobre a guerra do Iraque tenha sido, justamente, aquele que menos teve reconhecimento. Uma pena.

FILME: 8.5


That Evening Sun

Direção: Scott Teems

Elenco: Hal Holbrook, Mia Wasikowska, Carrie Preston, Ray McKinnon, Walton Goggins, Barry Corbin, Dixie Carter, Barlow Jacobs

EUA, 2009, Drama, 110 minutos

Sinopse: Depois de envelhecer um fazendeiro (Hal Holbrook) retorna à sua antiga propriedade e tem que lidar com traições na família, com o reaparecimento de um inimigo e com prejuízos e perdas em suas terras.

Não é necessariamente proposital, mas That Evening Sun tem o poder de fazer o espectador se lembrar de outros dois filmes. O primeiro é O Regresso Para Bountiful, pois trata da história de amor de um protagonista pela terra onde sempre viveu e de onde tem boas lembranças. O segundo é Casa de Areia e Névoa, onde a disputa por uma determinada propriedade traz consequências conflituosas para todos os personagens. Mas, as semelhanças ficam só na teoria, já que, na prática, That Evening Sun não tem nada de cópia.

Esse longa-metragem dirigido por Scott Teems sequer foi lançado em circuito comercial e, até o momento, só teve exibições em festivais. Ainda assim, conseguiu duas indicações ao Independent Spirit Awards para os coadjuvantes Ray McKinnon e Mia Wasikowska (que ainda só me conquista em papéis mais fortes e problemáticos, como a de Sophie, no seriado In Treatment). O devido reconhecimento não foi dado ator Hal Holbrook, que é a verdadeira razão para se assistir a esse filme. Holbrook, que possui uma humanidade muito presente em suas representações (e isso pode ser comprovado no desempenho apresentado em Na Natureza Selvagem), conduz a história com competência, sendo o principal atrativo.

Não é certo dizer que That Evening Sun se resume apenas ao ator, mas é bem compreensível quem define dessa maneira. Digo isso porque o resultado é convencional e não transparece momentos de inovações de narrativa ou sequer grandes originalidades. Nós já vimos em outras produções o que acontece em That Evening Sun e o filme não se diferencia nesse aspecto. Contudo, é uma história assistível e que vai ter a simpatia de muitas pessoas exatamente por ter um ator tão experiente e competente no comando. Nada de atuação excepcional, mas suficientemente boa para segurar as pontas.

A cena final, que despertou a minha atenção por ser  melancólica (até em função da trilha sonora) é aquele sopro de sentimentalismo que faltou durante o filme. Por que aquele homem queria tanto de volta aquela terra? Qual era a razão da tumultuada relação dele com o filho? O que aconteceu com a sua esposa? Perguntas que não são respondidas diretamente e que, se fossem baseadas naquela simples, porém efetiva, última cena, certamente trariam algo de mais especial para That Evening Sun. Como isso não aconteceu, ficamos apenas no regular.

FILME: 7.5


Na coleção… Cantando na Chuva

Don Lockwood (Gene Kelly) e Lina Lamont (Jean Hagen) são dois dos astros mais famosos da época do cinema mudo em Hollywood. Mas, uma novidade no mundo do cinema chega para mudar totalmente a situação de ambos no mundo da fama: o cinema falado, que logo se torna a nova moda entre os espectadores. Decidido a produzir um filme falado com o casal mais famoso do momento, Don e Lina precisam entretanto superar as dificuldades do novo método de se fazer cinema, para conseguir manter a fama conquistada.

Ainda que não seja um dos meus grandes musicais ou aquele tipo de filme que me deixa com as canções na cabeça, posso dizer, com a maior certeza, que Cantando na Chuva é um dos musicais mais bem executados que o cinema já teve o prazer de ver. Não só pela maravilhosa cena clássica que ilustra esse post, mas como também por tantos outros aspectos que o tornam um filme cheio de ótimos aspectos.  O longa, na época, teve duas míseras indicações ao Oscar.

Coreografado de forma brilhante, Cantando na Chuva possui um lado musical admirável. Tanto as encenações de cada número como a inserção deles na narrativa da história é trabalhada de forma exemplar. Sem falar, claro, que o impecável elenco sempre ajuda cada uma dessas cenas. Portanto, esse longa-metragem de Stanley Donen e Gene Kelly (que também atua aqui) pode até não ser um dos filmes da minha vida – mas, certamente, tem grande valor cinematográfico. Isso, por si só, já o torna obrigatório.

FILME: 8.5


As indicações ao Oscar de… Tom Hanks

1989 – MELHOR ATOR

Dustin Hoffman (Rain Man)

Edward James Olmos (Stand and Deliver)

Gene Hackman (Mississipi em Chamas)

Tom Hanks (Quero Ser Grande)

Max Von Sydow (Pelle, o Conquistador)

Conseguindo sua primeira indicação por um tipo de filme que normalmente não é reconhecido pela Academia, Tom Hanks parece ter a simpatia dos votantes. No entanto, ele não tinha chances contra o grande favorito Dustin Hoffman. O veterano ator ganhou sua segunda estatueta por várias razões, entre elas por fazer parte de um filme datadoque fez sucesso entre os prêmios e também por fazer aquele velho tipo de papel de pessoa com problemas mentais que a Academia adora reconhecer. Hanks, portanto, teve que se contentar com uma indicação.

1994 – MELHOR ATOR

Daniel Day-Lewis (Em Nome do Pai)

Tom Hanks (Filadélfia)

Liam Neeson (A Lista de Schindler)

Laurence Fishburne (What’s Love Got to do With It)

Anthony Hopkins (Vestígios do Dia)

Nessa que, talvez, seja a interpretação mais completa de sua carreira, Hanks deu um show. Além de Filadélfia ser um filme sobre luta, preconceito e coragem, também consegue ser muito humano no retrato que faz do seu protagonista. Portanto, prêmio mais do que merecido para uma atuação emblemática e cheia de ótimos momentos – que, claro, são ajudados por um filme muito bem realizado e até emotivo (quem não se emociona na cena final ao som de Philadelphia, do Neil Young?). Os outros concorrentes também tinham nomes de peso, como Anthony Hopkins e Daniel Day-Lewis (esse em desempenho muito competente, mas que tinha contra si o fato de já ter uma estatueta em casa). No páreo ainda tinha Liam Neeson no clássico A Lista de Schindler. No entanto, o ano era de Hanks mesmo.

1995 – MELHOR ATOR

Tom Hanks (Forrest Gump – O Contador de Histórias)

John Travolta (Pulp Fiction – Tempo de Violência)

Morgan Freeman (Um Sonho de Liberdade)

Nigel Hawthorne (As Loucuras do Rei George)

Paul Newman (O Indomável)

Se Tom Hanks perdeu na sua primeira indicação ao Oscar para um vencedor que representava uma pessoa com problemas mentais, foi a vez Hanks ganhar o Oscar com um papel desses. Não sou admirador de Forrest Gump, mas devo reconhecer a ótima composição do ator para o filme. De fato, era o melhor entre os indicados, ainda que rivalizasse com John Travolta em um dos melhores momentos de sua carreira em Pulp Fiction. Morgan Freeman também tinha sua credibilidade, mas deveria ter vencido o prêmio anteriormente por Conduzindo Miss Daisy, onde ele estava impecável ao lado de Jessica Tandy. Mas, em função do buzz em torno do filme e de seu ótimo desempenho, Hanks levou, merecidamente, pela segunda vez.

1999 – MELHOR ATOR

Tom Hanks (O Resgate do Soldado Ryan)

Ian McKellen (Deuses e Monstros)

Roberto Benigni (A Vida é Bela)

Edward Norton (A Outra História Americana)

Nick Nolte (Temporada de Caça)

Ano muito polêmico para a categoria. Tem gente que despreza por completo o prêmio para Roberto Benigni (alguns, inclusive, definem o ator como o Didi italiano), mas A Vida é Bela estava em alta aquele ano e o ator ajudava a construir a emoção desse ótimo filme. Era meio improvável – e até meio exagerado – que Tom Hanks levasse um terceiro Oscar por O Resgate do Soldado Ryan. Principalmente por um trabalho que não merecia tanto reconhecimento. Era mais fácil, por exemplo, Ian McKellen vencer por Deuses e Montros. Mesmo que, na época, muita gente considerasse Hanks como uma forte possibilidade, ao meu ver, ele era carta fora do baralho.

2001 – MELHOR ATOR

Ed Harris (Pollock)

Tom Hanks (Náufrago)

Geoffrey Rush (Contos Proibidos do Marquês de Sade)

Russell Crowe (Gladiador)

Javier Bardem (Antes do Anoitecer)

Não seria nada injusto Tom Hanks receber um prêmio por sua dedicada e notável performance em Náufrago. Contudo, o ano, claramente, pertencia aos atores que ainda não possuiam a estatueta. Se Ed Harris e Geoffrey Rush tinham papéis biográficos, Javier Bardem vinha cheio de vitalidade em Antes do Anoitecer e Russel Crowe estava começando a trilhar seus melhores momentos com Gladiador (ainda assim, seu trabalho em Uma Mente Brilhante é mais interessante). Não tenho um cadidato favorito, mas todos estavam em ótimo momento.