Cinema e Argumento

Namorados Para Sempre

I didn’t want to be somebody’s husband and I didn’t want to be somebody’s dad. That wasn’t my goal in life. But somehow it was.

Direção: Derek Cianfrance

Elenco: Michelle Williams, Ryan Gosling, Faith Wladyka, John Doman, Mike Vogel, Marshall Johnson, Jen Jones, Maryann Plunkett, James Benatti

Blue Valentine, EUA, 2010, Drama, 112 minutos

Sinopse: Casados há vários anos e com uma filha, Cindy (Michelle Williams) e Dean (Ryan Gosling) passam por um momento de crise, vendo o relacionamento ser contaminado por uma série de incertezas. Dispostos a seguir em frente, os dois tentam superar os problemas, buscando no passado e no presente os motivos que o mantiveram unidos até este momento e os fizeram se apaixonar um pelo outro.

Quem escolheu o título Namorados Para Sempre para representar Blue Valentine no Brasil deveria ser processado. Sério. Das péssimas versões brasileiras para os nomes originais desse ano, essa é a mais absurda de todas. Essa história está longe de ser romântica ou de falar sobre a felicidade de um relacionamento a dois. Pelo contrário, Namorados Para Sempre traz um olhar desesperançoso e amargo do amor, onde o roteiro está preocupado em mostrar o cotidiano de um casal que está desmoronando um pouco mais a cada dia.

Nem mesmo o início do relacionamento do casal chega a ter um teor muito romântico ou feliz. Namorados Para Sempre é negativo do início ao fim. Como fã convicto desse tipo de tratamento, aprovei completamente o estilo adotado pelo diretor Derek Cianfrance. Ele cria um filme que não traz questionamentos inéditos, mas que consegue fazer dramaticidade mais do que satisfatória com o que está trabalhando. O resultado se afasta do enganoso título brasileiro e apresenta um longa-metragem independente dirigido ao público adulto que está disposto a acompanhar uma história de amor problemático.

Mesmo que o roteiro seja bom, não existe outro aspecto tão interessante como a ótima sintonia entre o casal Ryan Gosling e Michelle Williams. Ela, indicada ao Oscar por seu desempenho, tem o papel de mais destaque – e também o mais difícil. Muito humana e verdadeira, Williams consegue ser até superior ao seu colega Gosling (que já provou ser um ator incontestável em longas como A Garota Ideal). A química entre os dois é ótima e, mais do que nunca, isso é muito importante, já que eles estão representando uma história de amor dolorosa. Eles, junto com o roteiro, entregam um bom filme que está sendo vendido da maneira errada e com muito descaso. Merecia uma divulgação melhor.

FILME: 8.0

 

A Garota da Capa Vermelha

If you love her, you’ll let her go.

Direção: Catherine Hardwicke

Elenco: Amanda Seyfried, Gary Oldman, Julie Christie, Virginia Madsen, Shiloh Fernandez, Max Irons, Lukas Haas, Shauna Kain, Michael Hogan

Red Riding Hood, EUA, 2011, Suspense, 100 minutos

Sinopse: Idade Média. Valerie (Amanda Seyfried) é uma jovem que vive em um vilarejo aterrorizado por um lobisomem. Ela é apaixonada por Peter (Shiloh Fernandes), mas seus pais querem que se case com Henry (Max Irons), um homem rico. Diante da situação, Valerie e Peter planejam fugir. Só que os planos do casal vão por água abaixo quando a irmã mais velha de Valerie é assassinada pelo lobisomem que ronda a região.

Há muito tempo já podemos notar que o cinema está vivendo uma forte crise de personalidade. Contudo, desde o ano passado, a situação está se agravando. Nunca vimos continuações tão desnecessárias, adaptações que nada acrescentam ou até mesmo longas com ideias novas, mas ruins. Um dos expoentes dessa fase sem inspiração da sétima arte é o pavoroso A Garota da Capa Vermelha, uma catastrófica interpretação do conto de Chapeuzinho Vermelho com clima de Crepúsculo e A Vila. Dirigido pela perdida Catherine Hardwicke, que um dia conseguiu nos enganar com o bom Aos Treze, o filme é um amontoado de escolhas erradas.

Capaz de causar dor de cabeça até no mais paciente dos espectadortes, A Garota da Capa Vermelha não acerta em nenhuma investida. Se tenta fazer qualquer referência ao conto de Chapeuzinho Vermelho, cai no ridículo – a cena de Julie Christie com dentes, olhos e boca grande como lobo mau no sonho da protagonista é constrangedora. Quando aposta no romance, desenvolve mal os personagens e ainda apresenta um triângulo amoroso formado por jovens sem qualquer carisma. Na hora do suspense, cria uma tensão pobre e clichê sobre “em quem devo confiar?”. Ou seja, A Garota da Capa Vermelha tenta ser um pouco de tudo, mas, no final, não consegue ser absolutamente nada.

Carente de ritmo, o roteiro desperdiça até mesmo as chances do elenco. Ao passo que Amanda Seyfried já mostrou que é atriz de um tipo só, coadjuvantes como Julie Christie e Gary Oldman (esse sofrendo com o personagem caricato e vilanizado do jeito mais exagerado possível) permanecem como figuras sem qualquer eficiência. É uma pena que nem o clima do vilarejo faça uma boa ambientação (algo que M. Night Shyamalan realizou com maestria em A Vila)… No final, A Garota da Capa Vermelha ainda apresenta resoluções pífias e um romantismo barato para solocionar a paixonite da protagonista. O horror, o horror!

FILME: 1.0

Na coleção… O Dia Depois de Amanhã

Quando assisti a 2012, pensei: “Céus, o que aconteceu com Rolland Emmerich?”. Esse último longa do diretor nada mais era do uma descontrolada bobagem atolada de clichês e uma interminável história sem qualquer qualidade além dos efeitos visuais. A minha indignação era tanta em função da minha grande empolgação com outro trabalho de Emmerich, O Dia Depois de Amanhã – que é, possivelmente, o filme-catástrofe que melhor define a ideia de entretenimento nas clichês produções que encenam o fim do mundo.

Assim como em qualquer outro filme de Emmerich e em também qualquer outro exemplar do gênero (incluindo Guerra dos Mundos, por exemplo, de Steven Spielberg), é fácil adivinhar que o protagonista não vai morrer, que os coadjuvantes malvados vão encontrar o fim da vida em uma catástrofe e que  os personagens sempre sairão ilesos das mais mirabolantes cenas criadas em efeitos especiais. Mas o interessante é que O Dia Depois de Amanhã administra muito bem essas previsibilidades com um clima interessante de “fim do mundo”.

Claro que os impecáveis efeitos especiais ajudam, mas temos também um bom trabalho de fotografia e, acima de tudo, uma temática que torna tudo muito mais plausível. Os mais críticos vão dizer que todas as catátrofes climáticas acontecem de forma exagerada num curto espaço de tempo. No entanto, se formos parar e pensar, hoje em dia não dá para duvidar de mais nada. Parece que O Dia Depois de Amanhã, assim como Uma Verdade Inconveniente, de certa forma, alertava para o triste futuro dos grandes danos causados pelo homem no meio ambiente.

Os pontos fracos estão ali presentes, especialmente no elenco (Jake Gyellenhaal ainda estava com aquela cara de moleque com muito a aprender e Dennis Quaid não é a melhor das opções) e nas resoluções enfadonhas. Mas nada mais previsível para um longa-metragem que estava fadado a cometer os mesmos erros de tantos outros filmes. Só que, ao contrário de 2012, Emmerich conseguiu fazer tudo com uma habilidade notável. É entretenimento bem produzido e um filme-catástrofe acima da média. Quero esse diretor de volta.

FILME: 8.5

G.P. do Cinema Brasileiro 2011

Se as pessoas já reclamam das cerimônias do Oscar, Globo de Ouro e afins, imagina, então, o que não devem falar do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro… Mas, excetuando qualquer comparação com as premiações norte-americanas (até porque aqui não rola o mesmo dinheiro que lá), o G.P. ainda tem muito o que evoluir no quesito cerimônia. A começar pelo cenário sem atrativos, total falta de glamour e aquele velho clima de mera formalidade. Formalidade que ficava ainda mais presente no formato adotado para anunciar os vencedores. Às vezes, apresentavam três categorias ao mesmo tempo, falando 15 indicados e depois chamando todos os vencedores para o palco.

Outro problema é a desorganização. Teve convidado que anunciu o vencedor antes de sequer falar os indicados, apresentadores perdidos caminhando em direções erradas e completa falta de harmonia entre os depoimentos – enquanto alguns falavam por cerca de 20 segundos, outros falavam em minutos intermináveis sem qualquer intervenção da equipe organizadora. Bruno Mazzeo e Fabíula Nascimento, a dupla estilo Anne Hathaway e James Franco, bem que tentaram animar a situação com piadinhas (a maioria não causava nem um sorriso amarelo na plateia) e trazer desenvoltura para a cerimônia. Em vão. Eles, principalmente Mazzeo, falharam em todas as suas tentativas.

Quanto aos prêmios, podemos nos dar por satisfeitos. O bom senso reinou e Tropa de Elite 2 foi o grande vencedor, batendo o queridinho Daniel Filho. A coroação foi justa, uma vez que o filme de José Padilha, ao contrário de Chico Xavier, não foi só sucesso de bilheteria, mas também quase uma unânimidade entre a crítica. Nas atuações, se o prêmio de Cássia Kiss parece incompreensível (aqueles poucos minutos dela em cena não justificam prêmio algum), pelo menos o de Glória Pires parece justificável: ela é a luz e o ponto alto do fracassado Lula – O Filho do Brasil. Minha torcida era para Christiane Torloni, mas o prêmio para Glória foi justo e também uma espécie de consolo por ela ter perdido ano passado por É Proibido Fumar.

Ou seja, o G.P. do Cinema Brasileiro 2011 estava satisfatório em termos de prêmios – com exceção, claro, de algumas loucuras, como o empate na categoria de ator coadjuvante, por exemplo – mas perdeu qualquer chance de salientar as justas vitórias de Tropa de Elite 2 e suas boas escolhas em função de sua festa mecânica e sem brilho. Faltou organização, boas ideias, bom senso (colocar a premiação na terça-feira não é uma boa ideia) e, principalmente, presença dos vencedores. Vários deles estavam ausentes. Fora a satisfação de ter seu trabalho reconhecido, não devem ter perdido muita coisa nesse evento que se propõe ser, como dizem, o “Oscar brasileiro”. Não exijo o mesmo espetáculo técnico dos norte-americanos, mas pelo menos a organização e o carisma. Só que é difícil esperar isso de uma premiação cuja lista de indicados que já apontava bagunça…

OS VENCEDORES:

Melhor Curta-Metragem Animação: Tempestade
Melhor Curta-Metragem Documentário: Geral
Melhor Curta-Metragem Ficção: Recife Frio
Melhor Longa-Metragem Estrangeiro: O Segredo dos Seus Olhos
Melhores Efeitos Visuais: Nosso Lar
Melhor Longa-Metragem Infantil: Eu e Meu Guarda-Chuva
Melhor Figurino: Quincas Berro D’Água
Melhor Maquiagem: Chico Xavier
Melhor Direção de Arte: Quincas Berro D’Água
Melhor Som: Tropa de Elite 2
Melhor Trilha Sonora: O Homem Que Engarrafava Nuvens
Melhor Trilha Sonora Original: Olhos Azuis
Melhor Montagem Ficção: Tropa de Elite 2
Melhor Montagem Documentário: Dzi Croquettes
Melhor Direção de Fotografia: Tropa de Elite 2
Melhor Longa-Metragem Documentário: O Homem Que Engarrafava Nuvens
Melhor Atriz Coadjuvante: Cássia Kiss (Chico Xavier)
Melhor Ator Coadjuvante: André Mattos (Tropa de Elite 2) e Caio Blat (As Melhores Coisas do Mundo)
Melhor Roteiro Original: Tropa de Elite 2
Melhor Roteiro Adaptado: Chico Xavier
Melhor Atriz: Glória Pires (Lula – O Filho do Brasil)
Melhor Ator: Wagner Moura (Tropa de Elite 2)
Melhor Direção: José Padilha (Tropa de Elite 2)
Melhor Longa-Metragem de Ficção: Tropa de Elite 2
Voto popular – Melhor longa-metragem estrangeiro: A Rede Social
Voto popular – Melhor longa-metragem documentário: Dzi Croquettes
Voto popular – Melhor longa-metragem nacional: Tropa de Elite 2

Esposa de Mentirinha

Direção: Dennis Dugan

Elenco: Adam Sandler, Jennifer Aniston, Brooklyn Decker, Nicole Kidman, Nick Swardson, Bailee Madison, Griffin Gluck, Dave Matthews, Kevin Nealon

Just Go With It, EUA, 2011, Comédia, 117 minutos

Sinopse: Danny Maccabee (Adam Sandler) queria um relacionamento sério, mas foi infeliz em sua tentativa de casamento. Para driblar a carência, passa a vivenciar somente namoricos e transas sem o menor compromisso. Assim, ele toca sua vida como cirurgião plástico bem sucedido, tendo sua melhor amiga Katherine (Jennifer Aniston), mãe solteira de um casal de pirralhos, como fiel escudeira. Mas um dia ele conhece a jovem Palmer (Brooklyn Decker) e a paixão toma conta de ambos. Disposto a se casar com ela, Danny pisa na bola quando, para conquistá-la, inventa que é marido da amiga, pai das crianças e que vai se separar. Começa então uma verdadeira aventura amorosa recheada de confusões de todos os tipos.

Nem me lembrava da última vez que assisti a um filme de Adam Sandler. Gostava dele quando tinha meus 13 anos de idade e adorei, por exemplo, Como Se Fosse a Primeira Vez. O tempo passou, eu cresci e pude perceber que Adam Sandler é  um péssimo sujeito. Não só tem o dom de fazer sempre o mesmo tipo de filme como também consegue tornar quase que insuportável um longa que, talvez, seria diferente sem a sua presença. Porque, sejamos sinceros, Esposa de Mentirinha é um filme perdido – mas, certamente, seria mais assistível caso Sandler não estivesse presente.

Partindo da velha premissa de um protagonista que começa contando uma pequena mentira, mas que, aos poucos, está cada vez mais submerso nesse mundo, Esposa de Mentirinha tenta de tudo para ser uma boa comédia. Excetuando fatos absurdos e irrelevantes para o gênero (o protagonista é infinitamente rico e ninguém parece perceber que ele é um completo imbecil), o diretor Dennis Dugan tenta fazer um feel good movie de férias com personagens excêntricos. Dá para fazer com qualidade? Claro qie sim,  até o episódio especial de Chaves em Acapulco conseguiu provar isso! Mas muita coisa dá errada em Esposa de Mentirinha…

A principal delas é não saber qual o limite da excentricidade. Dá para engolir personagens sem noção, mas é difícil conviver com figuras que, de tão bizarras, chegam a ser ridículas – em especial o insuportável personagem de Nick Swardson. De resto, podemos citar situações bobas (até respiração boca-a-boca com uma ovelha!), falta de conexão entre as cenas e por aí vai… Jennifer Aniston está ali fazendo o que pode – e ela é um ponto positivo, vale ressaltar – assim como Nicole Kidman aparece bem à vontade em cena, fazendo um papel diferente do que lhe é oferecido. O destaque também vai para a garota Bailee Madison, sempre impagável toda vez que aparece.

No entanto, nada é capaz de apagar a inconveniência de Adam Sandler. Ele, que hoje tem 45 anos de idade, interpreta sempre o mesmo tipo e já demonstra estar batido (ou seria “velho”?) para histórias assim. Exagerado, sem carisma e inconvicente, ele coloca quase tudo a perder em Esposa de Mentirinha. Sem ele, o filme seria uma bobagem assistível repleta de defeitos perdoáveis – aquela comédia com exageros e que aposta no romance para concluir a história.  Contudo, a presença de Sandler faz questão não apenas de evidenciar esses defeitos, mas também de maximizá-los.

FILME: 5.5