Cinema e Argumento

Entrando Numa Fria Maior Ainda Com a Família

Yeah, well I have eyes too, so I’ll be watching you… watching me.

Direção: Paul Weitz

Elenco: Ben Stiller, Robert De Niro, Blythe Danner, Jessica Alba, Teri Polo, Owen Wilson, Barbra Streisand, Dustin Hoffman, Laura Dern, Daisy Tahan

Little Fockers, EUA, 2010, Comédia, 98 minutos

Sinopse: Pam (Teri Polo) e Greg (Ben Stiller) vivem felizes e são pais dos gêmeos Henry e Ashley Focker, de cinco anos. Quando todo o clã de Greg e Pam – incluindo o ex-apaixonado de Pam, Kevin (Owen Wilson) – se reúne para a festa de aniversário dos gêmeos, Greg tem que provar para o cético Jack (Robert De Niro) que ele é inteiramente capaz de ser o homem da casa. E o desafio põe Greg numa enrascada: ou ele prova para todos que vai assumir o lugar de Jack e conduzir a família ou quebra o “círculo de confiança” para sempre.

Não existe qualquer justificativa plausível que explique essa segunda continuação de Entrando Numa Fria. O primeiro foi bem divertido, mas o segundo já não trazia o mesmo vigor (ainda que trouxesse novos personagens e certa “razão” para existir). O terceiro filme, por outro lado, traz um enredo completamente comum e que, em nenhum momento, demonstra qualquer motivo para que essa história tenha sido contada.

O problema já começa pelo tom das piadas. Agora a equipe inventou que vômito, arroto e ereções são os ingredientes para uma  boa comédia. Não sei qual a quantidade de amor próprio de Robert De Niro, mas, a julgar por Entrando Numa Fria Maior Ainda Com a Família, podemos dizer que é quase zero. Ok, nos outros filmes ele se divertia e tudo mais… Mas será mesmo que o ator de marcantes atuações como O Franco Atirador e Touro Indomável precisava se rebaixar em, por exemplo, cenas de socos e pontapés com Ben Stiller numa piscina de bolinhas?

Em suma, o vigor já não é mais o mesmo – e não só no que se refere a Robert De Niro ou a todo o elenco (nem Ben Stiller parece mais se divertir com a brincadeira), mas também ao enredo. A rivalidade entre os personagens principais já saturou e todas as piadas possíveis já foram exploradas. Constata-se, então, que Entrando Numa Fria virou uma típica comédia pastelão norte-americana: comercial, com piadas bobas e conflitos ainda mais bobocas.

Para não me acusarem de rabugento, digo que até existem momentos de descontração (vindos, claro, do elenco – afinal, não podemos nos esquecer que os atores são bons). No entanto, fica complicado ter boa vontade com uma franquia que já esgotou suas ideias e que faz uma segunda continuação sem uma história que, de fato, sustente um filme. Os acontecimentos de Entrando Numa Fria Maior Ainda Com a Família são fracos, assim como o produto final. Espero que parem por aqui, sinceramente.

FILME: 5.5


Cópia Fiel

Direção: Abbas Kiarostami

Elenco: Juliette Binoche, William Shimell, Jean-Claude Carrière, Agathe Natanson, Gianna Gianchetti, Adrian Moore, Angelo Barbagallo

Copie Conforme, França, 2010, Drama, 106 minutos

Sinopse: James Miller (William Shimell) é um filósofo inglês que vai a uma pequena cidade da Toscana apresentar seu livro sobre o valor da cópia na arte. Chegando lá, encontra Elle (Juliete Binoche), uma francesa que é dona de uma galeria de arte há muitos anos, que vive com seu filho pré-adolescente (Adrian moore). Eles passam a tarde juntos. Ao mesmo tempo em que vão se conhecendo, começam a desenvolver um complexo jogo de interpretação de personagens.

Sei que vou despertar iras descontroladas após esse comentário, mas devo dizer que Cópia Fiel é um filme admirado por um número significativo de cinéfilos pedantes. Ou seja, é filme de arte, que fala sobre arte e que questiona arte. Portanto, todo mundo tem que adorar. Caso contrário, você  não entende nada de cinema e muito menos compreendeu o que o diretor quis dizer. Então, é com muito receio que escrevo sobre esse Cópia Fiel, um longa-metragem cheio de altos e baixos e que funciona melhor na teoria do que na prática. O filme recebeu maior destaque mundial por ter vencido a Palma de Ouro de melhor atriz em Cannes para a francesa Juliette Binoche.

Partindo do mesmo argumento que o documentarista brasileiro Eduardo Coutinho utilizou em Jogo de Cena (o jogo entre ficção e realidade), o filme de Abbas Kiarostami demora para mostrar ao público quais são as suas reais intenções. O resultado chega a ser particularmente torturante até a metade, onde longas cenas tomam forma com milhares de diálogos sobre crítica, arte e afins. Ok, isso é necessário para preparar o espectador para o que o filme está prestes a colocar em debate, mas precisava ocupar tanto tempo e apostar em conversas tão cansativas?

A partir do momento em que os personagens param em uma cafeteria da Itália, a situação de tédio é revertida. Nesse momento, o clima de Cópia Fiel fica muito mais instigante e o filme passa a fluir com mais dinamismo. Portanto, a ótima química entre Juliette Binoche e William Shimell passa a ser instrumento fundamental para situar o espectador na misteriosa situação em que os personagens estão envolvidos. Afinal, os personagens estão representando ou, de fato, falando sobre uma história deles próprios?

Binoche, claro, sai beneficiada por ter o papel mais sentimental e expressivo. Shimell não fica muito atrás, mas o brilho é quase todo de Binoche, que já sai ganhando por ter uma sinceridade muito grande em suas expressões. A francesa sempre foi uma atriz que passa muita humanidade e aqui não é diferente. Binoche e Shimell são vitoriosos na hora de transmitir para o espectador tudo aquilo que o roteiro tem certa dificuldade em passar em vários momentos.

Cópia Fiel, como já citado, torna-se um produto cinematográfico muito mais interessante na teoria do que na prática. As discussões geradas pelo diretor Kiarostami são intrigantes. O filme nem tanto. Na realidade, não é aquele tipo de história que necessita de revisões para ser melhor analisado, como Dúvida, por exemplo. Cópia Fiel é objetivo no que deseja passar (leia-se questionamentos), mas não é brilhante nos meios que utiliza para alcançar isso. O resultado, afinal, está longe de ser o que dizem por aí. Filme para se debater, não necessariamente para se admirar. E aí, devo ser levado em menor consideração só por causa disso?

FILME: 6.5


Na coleção… Crash – No Limite

De todos os filmes da última década, Crash – No Limite deve ser aquele que mais desperta o amor e ódio dos cinéfilos. Cheio de defensores e detratores, o filme de Paul Haggis ficou conhecido como uma das maiores surpresas da história do Oscar. Antes do prêmio, pouco era comentado. Depois, passou a ser debatido em todos os cantos do planeta. Mas, afinal, será mesmo que esse filme merecia tanta polêmica por ter tirado o Oscar das mãos de O Segredo de Brokeback Mountain?

Tal questão já foi discutida exaustivamente e, recentemente, quando revi Crash – No Limite reafirmei o meu posicionamento de que o filme está longe de representar esse endeusamento dos admiradores, assim como também está muito distante de ser o horror apontado por quem o odeia. Crash – No Limite, pelo menos para mim, é um filme satisfatório e com algumas virtudes – mas, claro, não isento de falhas.

O exagero está presente (a trilha de Mark Isham, por exemplo, é bastante manipuladora, mesmo que efetiva), mas nada que apague os surpreendentes efeitos causados por um roteiro repleto de cenas tensas e marcantes. Existem pelo menos dois momentos fenomenais – e não vou nem descrevê-los para não estragar a surpresa de quem ainda não conferiu o longa. Em tantas cenas explosivas, quem mais se destaca é Thandie Newton, que chegou a vencer o BAFTA por seu ótimo desempenho.

Celebrado por ser um excelente retrato da violência em Los Angeles, hoje Crash – No Limite deve parecer batido. Contudo, devemos nos lembrar que essa onda de filmes com histórias interligadas surgiu após o trabalho de Paul Haggis. Crash é o original. E, no que se propõe, consegue ser muito acima da média. As ressalvas não comprometem o ritmo efetivo e contundente dessa obra controversa e que será questionada até o fim dos tempos. Não amo nem odeio. Só defendo um filme injustamente massacrado por causa de um Oscar.

FILME: 8.0


Sexo Sem Compromisso

You know, I don’t want to freak you out, but I’d love to hang out with you in the daytime sometime.

Direção: Ivan Reitman

Elenco: Ashton Kutcher, Natalie Portman, Kevin Kline, Cary Elwes, Greta Gerwig, Lake Bell, Ludachris, Olivia Thirlby

No Strings Attached, EUA, 2011, Comédia Romântica, 108 minutos

Sinopse: Adam (Ashton Kutcher) ainda sente o fato de ter sido chutado por Vanessa (Ophelia Lovibond), sua namorada por oito meses. Para piorar a situação, descobre que ela é a nova namorada de seu pai, Alvin (Kevin Kline), um astro da TV. Desejando esquecê-la e seguir em frente, ele fica bêbado e, em seguida, liga para todas as mulheres que tem no celular, no intuito de encontrar companhia. Quem responde o apelo é Emma (Natalie Portman), uma jovem médica com quem encontrou algumas vezes, anos atrás. Adam vai à casa dela e eles acabam transando. Como Emma não deseja ter um relacionamento sério, já que teme sofrer, propõe a Adam que se encontrem tendo o sexo como único objetivo. Ele topa mas, com o tempo, novos sentimentos florescem.

Não é muito difícil imaginar o resultado de Sexo Sem Compromisso, principalmente se você teve a chance de assistir ao trailer. Ora, tudo o que está na prévia resume o longa-metragem, desde os acontecimentos clichês até os personagens bobos. Isso não é novidade na carreira de Ashton Kuthcer, que já está acostumado a fazer esse tipo de filme. O estranho mesmo é ver Natalie Portman envolvida no projeto. No final das contas, é ela quem sai perdendo nesse irregular filme de Ivan Reitman.

Sexo Sem Compromisso, na realidade, já começa errando na forma como constrói a vivência entre os dois protagonistas, uma vez que os saltos no tempo são mal elaborados e as situações não convencem. Então, o filme já peca por não conseguir fazer o espectador acreditar que o destino quis juntar aquelas duas pessoas. No resto, não fica muito diferente. O roteiro transita entre inúmeros clichês, tomando resoluções muito fáceis e abordagens pra lá de batidas, além de ser um pouco bagunçado nas suas principais intenções e na organização de abordagens.

No meio de tudo isso, ainda existem aqueles coadjuvantes estereotipados que fazem piadas a todo momento. Um coadjuvante, por sinal, é vivido por Kevin Kline, que poderia ter passado sem esse filme em sua carreira. Kutcher, por outro lado, já se acostumou com essas produções bobocas, mas aqui ele apresenta um de seus piores momentos, principalmente porque contracena com Natalie Portman. Portman, no entanto, não combina com o filme e, junto com Kutcher, deixa evidente que eles não possuem química alguma – e muito menos aquela intimidade que Jake Gyllenhaal e Anne Hathaway apresentaram em Amor e Outras Drogas.

Todavia, é difícil ser tão impiedoso com um filme que desde sempre anunciou ser insatisfatório. Esperar qualquer coisa de Sexo Sem Compromisso é bobagem e nem dá para se surpreender com esse resultado apático. É mais uma daquelas comédias românticas insatisfatórias que não chegam a ofender ninguém, mas que tampouco poussuem qualquer motivo para serem lembradas ou sequer recomendadas. Agora, resta a você escolher: é melhor assistir a esse longa de forma despreocupada já sabendo que ele não é nada ou assistir se dando ao trabalho de perceber todo e qualquer defeito?

FILME: 5.5

O som das trilhas

127 Hours, por A.R. Rahman

As parcerias do compositor indiano A.R. Rahman com o diretor Danny Boyle sempre funcionam. Em 127 Horas não é diferente. Só que, dessa vez, ao contrário de Quem Quer Ser Um Milionário?, o resultado está muito longe de empolgar. As composições de Rahman funcionam no filme, mas, num geral, soam recicladas e repetitivas. Quem conhece o trabalho do indiano não vai se surpreender em momento algum na trilha de 127 Horas. Se existem alguns acertos (destaco a canção interpretada por Rahman e Dido, If I Rise), no geral, a trilha fica apenas no meio termo. Satisfatória, mas para se avaliar sem grandes expectativas.

Black Swan, por Clint Mansell

Realizar uma obra-prima a cada trabalho é questão de talento. E isso Clint Mansell tem de sobra. Se já não bastasse o inesquecível resultado de Réquiem Para Um Sonho, Fonte da Vida e, até mesmo, Lunar, eis que ele nos presenteia com Black Swan. Ora, que a Academia vá para o inferno por desclassificar trilhas só porque são “adaptadas”. Pouco me interessa se Clint Mansell construiu todo o álbum baseado em Tchaikovsky. O que eu ouvi foi um verdadeiro marco nas trilhas dos últimos tempos. Com algumas composições que são literalmente impecáveis, como Perfection, e transitando entre o suspense e as melodias de ballet, o que Clint Mansell fez em Black Swan é para ficar na memória.

The Special Relationship, por Alexandre Desplat

Não existem muitas novidades na trilha de The Special Relationship. Quem já teve a oportunidade de conferir o que Alexandre Desplat fez em A Rainha vai notar que o resultado é quase uma reprodução do que o francês apresentou no filme estrelado por Helen Mirren. É basicamente o mesmo estilo. No entanto, Desplat sempre sabe se reciclar com muita qualidade. E, apesar da trilha parecer repetitiva, tem saldo positivo como qualquer trabalho do compositor. Faixas como Tony Meets Bill comprovam isso.

Nosso Lar, por Philip Glass

Ainda não entendi o porquê do mestre Philip Glass ter se envolvido nesse péssimo filme. Sei lá se ele é espírita ou não, mas não vejo outra razão para ele ter tido interesse nesse projeto. De qualquer forma, a trilha de Glass é um dos pontos altos do filme. As referências a outros trabalhos do compositor estão evidentes (algumas composições são muito parecidas com as de Sob a Névoa da Guerra e Notas Sobre Um Escândalo). Mas Glass é sempre Glass. Satisfatório mesmo quando não está inspirado. Nosso Lar está longe de ser um grande momento dele. Contudo, traz a habitual competência do compositor que considero o mais singular do cinema.

The Social Network, por Trent Reznor & Atticus Ross

Merecidamente vencedora do Oscar 2011 em sua respectiva categoria, a trilha da dupla Trent Reznor e Atticus Ross para A Rede Social deu o tom certo para o filme de David Fincher. Utilizando muitas sonoridades eletrônicas e um estilo bem contemporâneo, foi até surpreendente uma trilha tão atual ter sido premiada pelo conservadorismo da Academia. Possuindo, no mínimo, uma composição brilhante (Hand Covers Bruise é de arrepiar), a trilha de A Rede Social é, desde já, uma das melhores do ano.

L’Illusioniste, por Sylvain Chomet & The Britoons

A trilha de O Mágico reproduz muito bem todo o estilo visual e narrativo do longa de Sylvain Chomet. O diretor, por sinal, é o compositor da trilha, que também traz músicas do grupo The Britoons. Chomet, apostando no puro e simples piano, cria composições que variam entre o melancólico e a alegria. Simplicidade, tanto no filme quanto na trilha, é o que mais chama atenção. E, no final do álbum, com Ilussioniste Finale, ficamos exatamente com essa impressão.