Cinema e Argumento

Depois de Glass, James Horner

Meses atrás, meu notebook pifou e tive que comprar um novo. Como não pude salvar o que nele havia, comecei a minha jornada para recuperar tudo. O mais difícil, certamente, é conseguir ter de volta aquela minha infinita coletânea de trilhas sonoras. Mas não é que essa minha trajetória teve alguns aspectos positivos? Ora, assim, fui obrigado a ouvir novamente cada trilha que recuperava (tenho aquela mania de avaliar com estrelas no Widows Media Player cada canção) e, no meio disso tudo, passei a admirar ainda mais James Horner.

Depois de Philig Glass (claro, ninguém supera Glass), Horner é, possivelmente, meu compositor favorito. Mestre não apenas em atribuir excelentes nomes para suas composições (Unable to Stay, Unwilling to Leave e We Have Traveled So Far, it is Time to Return to Our Path são meus títulos favoritos), Horner tem a rara habilidade de conseguir transitar entre todos os estilos de filmes. Vencedor do Oscar pelo grandioso Titanic, mas igualmente contundente na obra-prima Casa de Areia e Névoa, o norte-americano destaca-se como um dos grandes expoentes no ramo das trilhas sonoras.

Curiosamente, os trabalhos de James Horner que menos me encantam são aqueles de filmes mais ambiciosos (leia-se filmes de James Cameron). Adoro o trabalho dele para Titanic, mas a trilha, quando ouvida separada, torna-se um pouco repetitiva. O mesmo pode ser dito de Avatar, que considero o trabalho menos inspirado de Horner nos últimos anos. Os trabalhos dele para longas de menor escala são mais interessantes, a exemplo de O Menino do Pijama Listrado. Abaixo, uma pequena síntese das trilhas de Horner que ouvi recentemente e o que achei delas:

– THE FORGOTTEN: Mais um ponto positivo desse perdido filme estrelado por Julianne Moore. Gosto da produção e acho que só o final destroi tudo… Entretanto, vale a pena prestar a atenção no que James Horner realizou para Os Esquecidos. Alternando entre o suspense e o drama com um simples piano e sonoridades mais “misteriosas”, o compositor realizou uma pequena grande trilha. Eclética e efetiva (dentro ou fora do filme), merece ser conhecida!

– TITANIC: A clássica música de Rose e a emoção de Unable to Stay, Unwilling to Leave são o ponto alto dessa trilha. O problema é que, apesar de competente e bem realizada, não é aquele tipo de trabalho para ser ouvido constantemente. Composições como Death of Titanic e The Sinking podem até transmitir a grandiosidade do filme de James Cameron, mas são mais efetivas dentro do longa. Particularmente, não é uma trilha que chego a colocar entre as minhas favoritas de Horner…

– HOUSE OF SAND AND FOG: Aqui está, sem dúvida, o momento mais inspirador/impactante da carreira de Horner. Alguns podem se incomodar com a longa duração de algumas faixas (The Shooting/A Payment for Our Sins tem 15 minutos de duração!), mas nada que dilua a extraordinária impressão que a trilha de Casa de Areia e Névoa deixa. Melancólica e também emocionante (impossível não lembrar das grandes cenas do longa), é daquele tipo para se ter na coleção!

– THE BOY IN THE STRIPED PYJAMAS: Só Remembrance, Remambrance já justificaria tudo em relação a trilha sonora de O Menino do Pijama Listrado. Com uma beleza singular no uso do piano, as composições esbanjam beleza a todo momento. Além de serem essenciais para a construção dramática do filme, funcionam como mais um belo atestado de que James Horner merece não só ser apreciado nos filmes, mas também fora deles.

– A BEAUTIFUL MIND: Essa é uma trilha que dialoga demais com outra de Horner e que seria lançada posteriormente, Casa de Areia e Névoa. Ambas são cheias de pequenos detalhes que formam um grande resultado. Ainda prefiro o trabalho do compositor para o filme estrelado por Jennifer Connelly, mas nada que apague esse outro momento inspiradíssimo dele. Totalmente condizente com o filme, a trilha de Uma Mente Brilhante não fica nada atrás da excelente qualidade do longa de Ron Howard.

Capturing Mary

The worst of all possible thoughts: what might have been.

Direção: Stephen Poliakoff

Elenco: Maggie Smith, David Williams, Ruth Wilson, Danny Lee Wynter, Gemma Arterton, Michael Byers, Max Dowler, Jack Berkeley, Rebecca Bottone

Inglaterra, 2007, Drama, 98 minutos

Sinopse: Um jovem (Danny Lee Wynter) leva uma velha senhora (Maggie Smith) a uma profunda exploração de seu passado, para um época quando, ainda jovem e famosa escritora, conheceu um estranho que afetou a sua vida para sempre.

Quando menos esperamos, surge um certo alguém em nossas vidas que muda toda a nossa história. Pode ser aquele amigo especial ou, então, um grande amor. Para Mary (Maggie Smith), a situação não é bem assim. A vida dela foi transormada, é verdade. Porém, ela faz parte daquela parcela que tem sua vida afetada por pessoas “negativas”. Depois que conheceu um homem numa festa de elite, ela nunca mais foi a mesma. Mary teve bloqueio criativo, perdeu empregos e viveu com ansiedade por muito tempo após um único encontro com esse homem. Ele era misterioso e encantador, mas não no bom sentido.

Capturing Mary, então, faz o retrato de uma vida interrompida. A Mary de Maggie Smith nunca conseguiu viver em paz em função desse sujeito que a assombrou durante tantos anos a sua memória. O problema é que esse telefilme não define muito bem as razões da protagonista sentir-se tão incomodada com o outro personagem. Afinal, ela estava apaixonada, fragilizada ou escandalizada?  Então, acompanhamos com interesse o que se sucedeu na vida de Mary, mas nunca compreendemos muito bem a razão dos sentimentos da personagem.

Adotando aquele clássico estilo da velhinha que conta uma história de sua juventude para um personagem mais novo, Capturing Mary é uma produção da TV inglesa que recebeu destaque em função de Maggie Smith (indicada ao Emmy de melhor atriz por sua interpretação aqui). Não é todo dia que temos a honra de assistir a um trabalho dessa excelente veterana. Assim, é, no mínimio, recompensador acompanhar Capturing Mary por causa de Maggie. É certo que o filme não lhe dá grandes chances (ela nada mais é do que uma narradora de fatos). Entretanto, a atriz tem aquela humanidade que é transmitida com um simples olhar. Sua presença basta.

Elegante em seu trabalho técnico (destaque especial para os ótimos figurinos), Capturing Mary traz aquela habitual qualidade britânica no que se refere ao seu formato – tanto na técnica quanto na narrativa. A belíssima trilha de Adrian Johnston (vencedora do BAFTA) também é outro atestado de qualidade. Capturing Mary, no balanço final, tem saldo positivo. A ressalva é que, se tivesse explorado melhor as motivações sentimentais de sua protagonista e se não apresentasse um formato tão limitado dramaticamente para Maggie Smith, teria sido um filme mais interessante.

FILME: 7.5

Uma história roubada?

Quem não assistiu pelo menos deve conhecer o enredo da novela Mulheres de Areia, exibida pela rede Globo nos anos 90. Se o título não está nem perto de trazer qualquer lembrança, podemos definir a novela de Wolf Maya da seguinte maneira: duas irmãs gêmeas (uma boa e outra má) se apaixonam pelo mesmo homem. A má leva a melhor e fica com o mocinho só que, anos depois, as duas irmãs se envolvem em um acidente, onde a má “morre” e a boa, ao tentar socorrer a irmã, fica apenas com o anel de noivado em mãos. A partir daí a boa, para conseguir viver o romance que lhe foi roubado, assume a identidade da irmã.

Alguns também podem dizer que esse enredo é uma variação da clássica novela exibida pelo SBT, A Usurpadora, que ficou conhecida pelas impagáveis maldades da vilã Paola Bracho. Eis que levo uma surpresa quando pesquiso alguns filmes de Bette Davis e descubro que até ela já foi protagonista desses enredos de irmãs gêmeas boas e más! Em Uma Vida Roubada, Bette interpreta Patricia e Kate Bosworth, que vivem a mesma história que foi apresentada décadas depois em Mulheres de Areia. Uma Vida Roubada também foi baseado em outro material com essa história, o livro Uloupeny Zivot, de Karel J. Benes. Ou seja, impossível saber quando se originou a ideia dessa trama de gêmeas ladras de identidades…

Assim que fui assistir Uma Vida Roubada, já estava me preparando para assistir mais uma novela mexicana (talvez no bom sentido, como A Usurpadora). Foi bom estar enganado! O filme de Curtis Bernhardt está longe de apresentar caricaturas ou traços mais novelescos envolvendo esse assunto. Sim, a irmã boa e a irmã má estão ali, mas nunca vemos extremos em suas personalidades. A boa não é uma panaca ingênua e a má também não apresenta aquela personalidade dissimulada e cruel. Uma é boa (leia-se virtuosa e alegre) e a outra é má (leia-se competitiva e invejosa). Nada além disso. Nada de exageros. Ponto positivo!

Ao invés de direcionar o foco principal para a inversão de identidades (que só acontece depois de transcorrida mais da metade do filme), o roteiro tem maior preocupação em construir o perfil psicológico das personagens, em especial a de Kate (a boa), que é a protagonista. É no cotidiano dela e na forma como a outra irmã influencia a sua vida que Uma Vida Roubada ganha ritmo e vários destaques. A produção encontra o tom correto para as situações e, claro, acerta na forma como encena a inversão de vida das personagens. O pecado está apenas no final, onde Uma Vida Roubada termina de forma repentina e pouco convincente, apostando num desfecho que destoa um pouco do que estava sendo trabalhado.

Agora, tudo isso não seria possível sem a extraordinária Bette Davis. Esnobada pelas premiações (o longa recebeu apenas indicação para o Oscar de efeitos especiais), a atriz apresenta um trabalho cheio de detalhes. Incrível como Bette consegue transitar entre as duas personagens sem nunca se perder. Sutileza é a palavra-chave. É o tom de voz, um gesto diferente ou alguma expressão mais contida… Nada de Bette Davis geniosa ou difícil como em tantos outros filmes. É um trabalho muito digno e que, sem dúvida, está entre os momentos mais interessantes da carreira dela. Mais uma vez, Bette uniu uma ótima interpretação com um filme excelente. Presente de uma atriz eternamente insubstituível!

Como Você Sabe

Happiness in life is about finding out what you want and learning how to ask for help to get what you want.

Direção: James L. Brooks

Elenco: Reese Witherspoon, Paul Rudd, Owen Wilson, Jack Nicholson, Kathryn Hahn, Mark Linn-Baker, Lenny Venito, Molly Price, Ron McLarty

How Do You Know, EUA, 2010, 121 minutos

Sinopse: Lisa Jorgenson (Reese Witherspoon) reencontrou o amigo de longa data George (Paul Rudd) no meio de uma crise em seu relacionamento com Manny (Owen Wilson). Enquanto Manny pelo coração de sua amada, George encara um tremendo problema financeiro, que só serve para temperar ainda mais esse complicado e divertido triângulo amoroso.

James L. Brooks é um sujeito que conquista as pessoas com um talento que poucos possuem. Vejam só: ele cria histórias completamente comuns sobre personagens do dia-a-dia e, a partir de uma abordagem linear e previsível, faz interessantes análises sobre relacionamentos humanos. Laços de Ternura e Melhor é Impossível comprovam esse estilo do diretor. No entanto, em alguns casos, uma mesma fórmula não dá certo a vida inteira. Espanglês já foi um aviso disso e, agora, Como Você Sabe aponta que, talvez, o momento do diretor abandonar esse estilo já chegou.

Para um filme estrelado por dois atores reconhecidos da comédia, Como Você Sabe tem muito pouco de humor. É uma propaganda enganosa. Se você pensa que encontrará uma história divertida e com piadas “comerciais”, pode mudar de ideia. O longa de James L. Brooks, na verdade, é interminável (ele sempre tem a chata mania de levar mais de duas horas para contar uma história), sem sal, inexpressivo e monótono. Não dei uma risada o filme inteiro e acompanhava com muita impaciência esse enredo fraquíssimo estrelado por personagens desprovidos de carisma.

Portanto, Como Você Sabe já começa errando na história, que é totalmente sem força (afinal, a principal abordagem é a comédia, o triângulo amoroso ou o drama?). Além disso, os pers0nagens são mal desenvolvidos, unilaterais, sem grandes variações e apáticos. Tudo isso resulta em desperdício de elenco, roteiro e diretor. Em suma, é um filme que tenta ser uma comédia com reflexões e dramas pessoais, mas nada dá certo. Falta ritmo e carisma para esse trabalho pobre em argumentos e criatividade. Nada acontece em Como Você Sabe. E essa é a pior sensação que pode existir em um filme.

Não sei qual público vai conseguir apreciar esse resultado bocejante. De verdade. A inexpressividade é tanta que não dá nem para definir a quem Como Você Sabe é dirigido. Aos fãs de James L. Brooks? Aos que gostam de comédias contidas? Ao público de Reese Witherspoon, Paul Rudd, Owen Wilson e Jack Nicholson? Não sei. O filme é corretinho e tudo mais (lamento ver um elenco satisfatório envolvido nesse projeto), mas nunca dá sinais de que está sequer perto de decolar. Tedioso, Como Você Sabe é para ser esquecido de tão irrelevante. Atenção, mr. Brooks, hora de trocar o disco!

FILME: 4.5


“Oceanos” em imagens

Oceanos é um documentário francês inteiramente sustentado por imagens e trilhas. Em termos de documentário, não chega a ser um grande exemplar do gênero, mas que imagens ele nos traz! São elas que valem a pena. Para se ver na maior tela, com a melhor qualidade possível!