In Memoriam

ELIZABETH TAYLOR
1932 – 2011

Direção: Steve Antin
Elenco: Christina Aguilera, Cher, Stanley Tucci, Cam Gigandet, Eric Dane, Alan Cumming, Peter Gallagher, Kristen Bell, Glynn Turman
EUA, 2010, Musical, 119 minutos
Sinopse: Ali (Christina Aguilera) deixou sua pequena cidade natal em busca do sucesso em Los Angeles. Logo ao chegar ela conhece a boate Burlesque, especializada em shows musicais de belas mulheres, que sempre se apresentam usando playback. O local é gerenciado por Tess (Cher), que nega uma chance a Ali. Ela insiste e consegue ser contratada como garçonete, graças à ajuda do balconista Jack (Cam Gigandet). Ali passa a acompanhar todos os shows, decorando as canções e coreografias. Quando Tess e seu braço-direito Sean (Stanley Tucci) realizam uma audição em busca de novas bailarinas, Ali aproveita a chance para mostrar do que é capaz.

Burlesque assume que não quer ser levado a sério. Também pudera: cafona do início ao fim, o filme aposta nos mais variados tipos de clichês envolvendo a história da garota pobre que tem uma vez poderosa e quer alcançar o sucesso. Além disso, tem sua trama desenvolvida praticamente toda em um cenário, além de trazer muitos figurinos brilhantes e várias coregrafias. Aí vem Christina Aguilera com aquela voz que chega a ser fake de tão perfeita para uma garotinha desempregada e “sem talento”, Cher pagando a diva com visual de Mortícia cheia de botox da Família Addams e Stanley Tucci gay sendo o amigo best dela.
Ou seja, como dá para perceber, Burlesque só é para aqueles que sabem como funciona esse tipo de filme. Não dá para levar a sério. Isso, claro, já está evidente nos primeiros minutos do longa. No entanto, os problemas de Burlesque estão além das cafonices ou das bobeiras do roteiro. O principal problema dele reside na direção de Steve Antin. Aplicando um tom completamente antiquado para a história (tudo parece ser de décadas atrás), a direção torna Burlesque um produto mofado. Cada aspecto é ultrapassado além da conta. Pode até ser uma homenagem ao jeito antigo de fazer musical. Mas, se for, Antin não foi habilidoso o suficiente para deixar transparecer essa intenção.
Para piorar a situação, o musical faz questão de copiar descaradamente os novos musicais do cinema. Dá até para se indignar quando versões pioradas de All That Jazz de Chicago ou Sparkling Diamonds de Moulin Rouge! aparecem encenadas sem qualquer vergonha na cara. Ok, se inspirar em outros musicais dá para engolir. Mas, sério, copiar? Incluindo alguns movimentos de câmera e focos idênticos? Desnecessário. Infinitamente previsível e com uma solução de problema mais imbecil que a outra, Burlesque, além de ultrapassado, não deixa o espectador se divertir com outra coisa a não ser a parte musical. Interpretações e conteúdo beiram o inexpressivo.
Com um ou outro momento mais notável (e Cher chorando as pitangas em You Haven’t Seen the Last of Me é um deles), Burlesque permanece como um entretenimento aceitável, mesmo que repleto de falhas. É aquela velha situação em que os problemas do filme precisam ser perdoados para um melhor aproveitamento. Foi assim com o divertido Mamma Mia!. Só que esse tinha Meryl Streep, ABBA, Grécia… Burlesque tem Cher cheia de botox com voz de Roberta Miranda, Christina Aguilera incorporando o estrelismo de sua personagem, personagens presos em um único ambiente e muitos coadjuvantes desnecessários com draminhas que nada acrescentam. Nada trágico ou sequer ruim, mas não custaria um pouquinho de frescor, não é mesmo?
FILME: 6.0

It had never occurred to me that our lives, so closely interwoven, could unravel with such speed. If I’d known, maybe I’d have kept tighter hold of them.

Direção: Mark Romanek
Elenco: Carey Mulligan, Andrew Garfield, Keira Knightley, Sally Hawkins, Charlotte Rampling, Ella Purnell, Charlie Rowe, Izzy Meikle-Small
Never Let Me Go, EUA/Inglaterra, 2010, Drama, 103 minutos
Sinopse: Quando crianças, Ruth (Keira Knightley), Kathy (Carey Mulligan) e Tommy (Andrew Garfield), passaram a sua infância aparentemente idílica em um internato Inglês. À medida que tornam-se jovens adultos, eles acham que têm de chegar a um acordo com a força do amor que sentem um pelo outro, enquanto se preparam para a realidade assustadora que os espera.

Poucas vezes na minha vida cinematográfica fiquei tão em dúvida se estava amando ou odiando um filme. Pois foi exatamente assim que eu me senti enquanto assistia a Não Me Abandone Jamais. Conseguia sentir o que me incomodava e o que me agradava, mas simplesmente não conseguia definir qual era o meu real posicionamento em relação a esse filme de Mark Romanek. No final das contas, o lado positivo prevaleceu e, na última cena, percebi que tinha gostado de verdade do filme. Contudo, não consigo deixar de levar em consideração os pontos negativos.
Vamos, primeiro, ao que incomoda. Possivelmente, o único aspecto negativo (e que pode quase anular as chances do filme conquistar o espectador) é a história absurda. O enredo é o seguinte: numa tradicional escola no interior da Inglaterra, crianças fazem parte de uma escola que “incentiva as artes”. Mas, na realidade, elas estão sendo preparadas para serem doadoras de órgãos. No futuro, quando crescerem, essas crianças serão obrigadas a doarem órgãos vitais de seus corpos para ajudar a ciência a encontrar cura para certas doenças e, assim, alcançar a tão almejada média de vida de 100 anos de idade. Não existe escolha: essas crianças doarão órgãos, não importando se existe a possibilidade de falecimento.
É uma trama completamente absurda pela falta de noção. Que ausência de humanidade é essa de um mundo em que crianças são condenadas à morte porque precisam doar órgãos para ajudar a ciência? Contudo, o mais revoltante em Não Me Abandone Jamais é a passividade com que os personagens lidam com isso. Mesmo quando percebem o horror das suas vidas, aceitam como se não tivessem escolha. Ninguém se revolta com a situação. Os personagens simplesmente aceitam o fato de que estão sendo obrigados a morrer para ajudar a ciência. Ninguém foge, ninguém luta e ninguém se indigna com a situação. Inclusive, em certos momentos, o roteiro tenta encenar como se ela representasse um ato nobre.
Além da história absurda, o texto nunca deixa muito claro o que está acontecendo. Para aquele público que for assistir Não Me Abandone Jamais sem qualquer conhecimento da trama (como foi o meu caso), fica difícil compreender a verdadeira situação dos personagens. O texto não explicita de forma satisfatória os fatos e desenvolve tudo com descaso, não fazendo muita questão de esmiuçar o porquê daquele mundo ser desse jeito ou o que motiva esses personagens aceitarem tudo com tranquilidade. Ou seja, o mundo em que as figuras da trama estão inseridos demora para ficar claro – e, inclusive, posso apostar que muitos continuarão com dúvidas após assistir.
Agora vamos aos pontos que fizeram com que o lado postivo do filme me conquistasse mais. Por mais que não dê para acreditar nos pretextos insatisfatórios para estruturar o drama, é fácil se envolver com as consequências dessa história maluca. Não Me Abandone Jamais é um exercício emocional bem construído sobre vidas interrompidas. Os personagens, que sempre estão com uma expressão de melancolia, trasmitem para o espectador a sensação de vidas perdidas, amores não realizados e chances não aproveitadas. É o relato de pessoas que o destino não quis que elas vivessem. Isso é o que está maravilhosamente bem pontuado pelo roteiro. Nós sentimos o pesar dos personagens e como a impossibilidade de ter um futuro aniquila com a felicidade de suas vidas.
O elenco também possui a sua parcela de vitória nessa dramaticidade bem sucedida de Não Me Abandone Jamais. Ainda tenho minhas implicâncias, por exemplo, com Carey Mulligan, que, depois de Educação, se tornou uma atriz de um tipo só. Ela está sempre com aquela cara de menina enjoada que fica choramingando o tempo inteiro. Também tenho minhas restrições com Keira Knightley, uma profissional de caras e bocas. Contudo, esse jeito comentado de Mulligan cai como uma luva para seu papel, ao passo que Keira controla seus tiques e está bem aqui. O garoto Andrew Garfield, recente destaque em A Rede Social, acompanha a qualidade de suas colegas. O ponto alto do elenco, porém, é a pequena participação de Sally Hawkins – que tem um papel muito promissor, mas subutilizado.
Em suma, existe uma regra essencial que precisa ser cumprida para um bom aproveitamento de Não Me Abandone Jamais. É impossível perceber o que existe de bom na melancolia do filme se você ficar se importando com o absurdo da trama. É mais do que fundamental se desligar desse detalhe e tentar enxergar o que existe no triste clima que envolve os personagens. Ajudado pela fotografia e pela trilha igualmente melancólica, o texto de Não Me Abandone Jamais ganha mais sentido e consegue acertar em cheio o espectador quando analisado sem a interferência dos esdrúxulos pretextos do enredo. Basta ver o filme como uma obra sobre vidas incompletas e infelizes que o resultado será bem proveitoso.
FILME: 8.0


Réquiem Para Um Sonho, de Darren Aronofsky
Com Ellen Burstyn, Jared Leto e Jennifer Connelly

Réquiem Para Um Sonho é uma experiência única. Darren Aronosfky realizou um filme que desperta várias sensações no espectador. Transitando entre o drama e o suspense psicológico, Aronofsky traz angústia, repulsa, medo e emoção com o resultado final. Fazendo uma parceria extraordinária com a emblemática trilha de Clint Mansell e com os grandes desempenhos (em especial o de Ellen Burstyn), o filme alcança um resultado no mínimo obrigatório para qualquer cinéfilo. O problema é saber quem vai conseguir mergulhar nesse filme pessimista e perturbador. Eu, por exemplo, apesar de ter adorado tudo, não tenho intenções de revê-lo. Precisarei ter muita força e disposição para embarcar novamente nessa verdadeira viagem perturbadora construída por Aronofsky.
FILME: 8.5

Vaidosa, de Vincent Sherman
Com Bette Davis, Claude Rains e Richard Waring

Bette Davis é a minha Meryl Streep do passado: quando penso que não posso mais me surpreender com seu desempenho, eis que surge mais uma pérola. É o caso de Vaidosa, que traz mais uma marcante interpretação de Davis. O melhor de tudo é perceber que ela é apenas uma parte de um filme repleto de acertos que trabalha muito bem a sua proposta principal. Os conflitos são interessantes, os personagens bem explorados e a parte técnica está na medida exata. Mas, não adianta, o show mesmo é de Davis, interpretando uma das muitas mulheres de sua carreira que um dia foram lindas e populares mas que precisam aprender a lidar com o esquecimento e o fracasso. Excelente!
FILME: 8.5

Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada, de Peter Hedges (revisto)
Com Steve Carell, Juliette Binoche e Dianne Wiest

Sabe aquele tipo de história agridoce, agradável e que traz uma sensação muito boa? Pois é, assim é Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada. Apesar do título bobo, o filme nem de perto aposta nas típicas soluções e situações de habituais comédias românticas. Além de trazer, possivelmente, o melhor desempenho da carreira de Steve Carell (mais contido e eficiente do que nunca, provando também funcionar como um sujeito sério e melancólico), temos no elenco a simpatia de Juliette Binoche e as presenças das eficientes Dianne Wiest e Alison Pill. Um filme a ser descoberto!
FILME: 8.5

Lembranças de Hollywood, de Mike Nichols (revisto)
Com Meryl Streep, Shirley MacLaine e Dennis Quaid

Quem pensa que Meryl Streep só foi soltar a voz em Mamma Mia! deveria assistir Lembranças de Hollywood. Comandada por Mike Nichols, Meryl cantou e apresentou mais um excelente desempenho nesse filme bem simples. É, Lembranças de Hollywood não tem grandes atrativos. O destaque mesmo é Meryl e, claro, Shirley MacLaine. Ambas ótimas e melhores ainda quando estão juntas em cena. Os momentos musicais funcionam (a cena final com I’m Cheking Out é ótima) e tudo está no seu devido lugar. Seria um pouco melhor caso não apostasse em conflitos banais da complicada relação mãe/filha e em um romance passageiro que nada acrescenta ao enredo.
FILME: 8.0

Deixe Ela Entrar, de Tomas Alfredson
Com Kare Hedebrant, Lina Leandersson e Per Ragnar

Tinha uma ideia completamente diferente de Deixe Ela Entrar. Não esperava encontrar um longa-metragem de ritmo lento e que apostasse mais em dramas do que em suspense. Ainda assim, foi um filme que funcionou para mim, mesmo que não seja tudo o que estavam dizendo por aí) O melhor de tudo é que todo o mistério e o sobrenatural envolvendo a natureza de uma personagem não está representado de forma explícita. É tudo bem disfarçado e sutil, sem exageros. Interpretado com qualidade (especialmente pelos jovens protagonistas), Deixe Ela Entrar é uma boa surpresa. Só deveria ser vendido de outra maneira, já que é um exemplar dramatizado de um tema que normalmente é cheio de firulas no cinema comercial.
FILME: 8.0

Lágrimas Amargas, de Stuart Heisler
Com Bette Davis, Starling Hayden e Natalie Wood

De todas as produções estreladas por Bette Davis que falam de mulheres decadentes (o melhor, sem dúvida, é o divertidíssimo O Que Terá Acontecido a Baby Jane?), essa é a mais óbvia. Lágrimas Amargas é convencional e, de certa forma, previsível. Mas quem se importa com isso quando temos uma Bette Davis bebendo litros de álcool, falando sozinha com um Oscar, indo para a cadeia e até mesmo roubando perfumes? Ela é a força desse filme que não tem muita inspiração e que é certinho demais. Sem ela, Lágrimas Amargas seria apenas uma experiência cinematográfica corriqueira na carreira da atriz.
FILME: 7.5
Só a Bruna poderia ter chegado a essa conclusão. Nunca a Raquel. Se um dia eu sair dessa vida, quero sair como eu entrei: assumindo que foi uma escolha que eu fiz.

Direção: Marcus Baldini
Elenco: Deborah Secco, Cássio Gabus Mendes, Drica Moraes, Fabiula Nascimento, Cristina Lago, Guta Ruiz, Clarisse Abujamra
Brasil, Drama, 109 minutos
Sinopse: Raquel (Deborah Secco) era uma jovem da classe média paulistana, que estudava num colégio tradicional da cidade. Um dia ela tomou uma decisão surpreendente: virar garota de programa. Com o codinome de Bruna Surfistinha, Raquel viveu diversas experiências “profissionais” e ganhou destaque nacional ao contar suas aventuras sexuais e afetivas num blog, que depois acabou virando um livro e tornou-se um best seller.

O sexo está presente em todo o desenvolvimento de Bruna Surfitinha. Isso era esperado? Claro. Ninguém deve assistir a esse filme achando que o diretor Marcus Baldini vai pegar leve. Pelo contrário. Sexo – e dos mais variados tipos – é o que mais tem no filme. Entretanto, o que não passou pela minha mente era que esse filme adaptado do livro O Doce Veneno do Escorpião fosse, de certa forma, maduro narrativamente. Bruna Surfistinha, apesar do título comercial (o do livro era muito melhor), não tem a intenção de ser gratuito. A vontade de contar uma história está em evidência.
Uma história que, por sinal, nunca julga sua protagonista. Pelo contrário. Em determinado momento, Bruna (Deborah Secco) diz que entrou no mundo da prostituição por escolha própria e que assume essa decisão. O roteiro está pouco preocupado em mostrar sexo gratuitamente. Ele quer apenas mostrar os altos e baixos do emocional de uma personagem que começa de um jeito e termina de outro completamente diferente. A transição de mocinha de classe média para prostituta sem pudor é muito bem apresentada.
Tudo isso, claro, não seria possível sem o surpreendente trabalho de Deborah Secco. Nunca fui muito fã da atriz, mas tenho que confessar a minha surpresa com o trabalho dela. Por mais que Secco precise melhorar em certos aspectos (nas tomadas mais densas dramaticamente ela faz sempre o mesmo tipo de mulher descabelada com cigarrinho na mão e olhos cheios de lágrimas), ela segura muito bem o filme. Alternando sensualidade, fragilidade camuflada e o espírito decidido de uma garota que não se arrepende de nada, Secco alcançou resultado digno de reconhecimento.
A parte final de Bruna Surfistinha aposta em algumas bobeiras como “você transa com vários mas só eu me importo com você” ou nas histórias clichês de sucesso-decadência-drogas-falência que tanto assombram filmes de pessoas famosas. É na tentativa de obedecer a esse batido formato que o filme perde a força. A história chega ao final fugindo um pouco da qualidade que apresentou durante todo o resto. Mas nada que apague a boa surpresa que Bruna Surfistinha é. Livre-se de preconceitos e dê uma chance para esse filme que é, no mínimo, eficiente.
FILME: 8.0
