Cinema e Argumento

Sexo Sem Compromisso

You know, I don’t want to freak you out, but I’d love to hang out with you in the daytime sometime.

Direção: Ivan Reitman

Elenco: Ashton Kutcher, Natalie Portman, Kevin Kline, Cary Elwes, Greta Gerwig, Lake Bell, Ludachris, Olivia Thirlby

No Strings Attached, EUA, 2011, Comédia Romântica, 108 minutos

Sinopse: Adam (Ashton Kutcher) ainda sente o fato de ter sido chutado por Vanessa (Ophelia Lovibond), sua namorada por oito meses. Para piorar a situação, descobre que ela é a nova namorada de seu pai, Alvin (Kevin Kline), um astro da TV. Desejando esquecê-la e seguir em frente, ele fica bêbado e, em seguida, liga para todas as mulheres que tem no celular, no intuito de encontrar companhia. Quem responde o apelo é Emma (Natalie Portman), uma jovem médica com quem encontrou algumas vezes, anos atrás. Adam vai à casa dela e eles acabam transando. Como Emma não deseja ter um relacionamento sério, já que teme sofrer, propõe a Adam que se encontrem tendo o sexo como único objetivo. Ele topa mas, com o tempo, novos sentimentos florescem.

Não é muito difícil imaginar o resultado de Sexo Sem Compromisso, principalmente se você teve a chance de assistir ao trailer. Ora, tudo o que está na prévia resume o longa-metragem, desde os acontecimentos clichês até os personagens bobos. Isso não é novidade na carreira de Ashton Kuthcer, que já está acostumado a fazer esse tipo de filme. O estranho mesmo é ver Natalie Portman envolvida no projeto. No final das contas, é ela quem sai perdendo nesse irregular filme de Ivan Reitman.

Sexo Sem Compromisso, na realidade, já começa errando na forma como constrói a vivência entre os dois protagonistas, uma vez que os saltos no tempo são mal elaborados e as situações não convencem. Então, o filme já peca por não conseguir fazer o espectador acreditar que o destino quis juntar aquelas duas pessoas. No resto, não fica muito diferente. O roteiro transita entre inúmeros clichês, tomando resoluções muito fáceis e abordagens pra lá de batidas, além de ser um pouco bagunçado nas suas principais intenções e na organização de abordagens.

No meio de tudo isso, ainda existem aqueles coadjuvantes estereotipados que fazem piadas a todo momento. Um coadjuvante, por sinal, é vivido por Kevin Kline, que poderia ter passado sem esse filme em sua carreira. Kutcher, por outro lado, já se acostumou com essas produções bobocas, mas aqui ele apresenta um de seus piores momentos, principalmente porque contracena com Natalie Portman. Portman, no entanto, não combina com o filme e, junto com Kutcher, deixa evidente que eles não possuem química alguma – e muito menos aquela intimidade que Jake Gyllenhaal e Anne Hathaway apresentaram em Amor e Outras Drogas.

Todavia, é difícil ser tão impiedoso com um filme que desde sempre anunciou ser insatisfatório. Esperar qualquer coisa de Sexo Sem Compromisso é bobagem e nem dá para se surpreender com esse resultado apático. É mais uma daquelas comédias românticas insatisfatórias que não chegam a ofender ninguém, mas que tampouco poussuem qualquer motivo para serem lembradas ou sequer recomendadas. Agora, resta a você escolher: é melhor assistir a esse longa de forma despreocupada já sabendo que ele não é nada ou assistir se dando ao trabalho de perceber todo e qualquer defeito?

FILME: 5.5

O som das trilhas

127 Hours, por A.R. Rahman

As parcerias do compositor indiano A.R. Rahman com o diretor Danny Boyle sempre funcionam. Em 127 Horas não é diferente. Só que, dessa vez, ao contrário de Quem Quer Ser Um Milionário?, o resultado está muito longe de empolgar. As composições de Rahman funcionam no filme, mas, num geral, soam recicladas e repetitivas. Quem conhece o trabalho do indiano não vai se surpreender em momento algum na trilha de 127 Horas. Se existem alguns acertos (destaco a canção interpretada por Rahman e Dido, If I Rise), no geral, a trilha fica apenas no meio termo. Satisfatória, mas para se avaliar sem grandes expectativas.

Black Swan, por Clint Mansell

Realizar uma obra-prima a cada trabalho é questão de talento. E isso Clint Mansell tem de sobra. Se já não bastasse o inesquecível resultado de Réquiem Para Um Sonho, Fonte da Vida e, até mesmo, Lunar, eis que ele nos presenteia com Black Swan. Ora, que a Academia vá para o inferno por desclassificar trilhas só porque são “adaptadas”. Pouco me interessa se Clint Mansell construiu todo o álbum baseado em Tchaikovsky. O que eu ouvi foi um verdadeiro marco nas trilhas dos últimos tempos. Com algumas composições que são literalmente impecáveis, como Perfection, e transitando entre o suspense e as melodias de ballet, o que Clint Mansell fez em Black Swan é para ficar na memória.

The Special Relationship, por Alexandre Desplat

Não existem muitas novidades na trilha de The Special Relationship. Quem já teve a oportunidade de conferir o que Alexandre Desplat fez em A Rainha vai notar que o resultado é quase uma reprodução do que o francês apresentou no filme estrelado por Helen Mirren. É basicamente o mesmo estilo. No entanto, Desplat sempre sabe se reciclar com muita qualidade. E, apesar da trilha parecer repetitiva, tem saldo positivo como qualquer trabalho do compositor. Faixas como Tony Meets Bill comprovam isso.

Nosso Lar, por Philip Glass

Ainda não entendi o porquê do mestre Philip Glass ter se envolvido nesse péssimo filme. Sei lá se ele é espírita ou não, mas não vejo outra razão para ele ter tido interesse nesse projeto. De qualquer forma, a trilha de Glass é um dos pontos altos do filme. As referências a outros trabalhos do compositor estão evidentes (algumas composições são muito parecidas com as de Sob a Névoa da Guerra e Notas Sobre Um Escândalo). Mas Glass é sempre Glass. Satisfatório mesmo quando não está inspirado. Nosso Lar está longe de ser um grande momento dele. Contudo, traz a habitual competência do compositor que considero o mais singular do cinema.

The Social Network, por Trent Reznor & Atticus Ross

Merecidamente vencedora do Oscar 2011 em sua respectiva categoria, a trilha da dupla Trent Reznor e Atticus Ross para A Rede Social deu o tom certo para o filme de David Fincher. Utilizando muitas sonoridades eletrônicas e um estilo bem contemporâneo, foi até surpreendente uma trilha tão atual ter sido premiada pelo conservadorismo da Academia. Possuindo, no mínimo, uma composição brilhante (Hand Covers Bruise é de arrepiar), a trilha de A Rede Social é, desde já, uma das melhores do ano.

L’Illusioniste, por Sylvain Chomet & The Britoons

A trilha de O Mágico reproduz muito bem todo o estilo visual e narrativo do longa de Sylvain Chomet. O diretor, por sinal, é o compositor da trilha, que também traz músicas do grupo The Britoons. Chomet, apostando no puro e simples piano, cria composições que variam entre o melancólico e a alegria. Simplicidade, tanto no filme quanto na trilha, é o que mais chama atenção. E, no final do álbum, com Ilussioniste Finale, ficamos exatamente com essa impressão.

Burlesque

Direção: Steve Antin

Elenco: Christina Aguilera, Cher, Stanley Tucci, Cam Gigandet, Eric Dane, Alan Cumming, Peter Gallagher, Kristen Bell, Glynn Turman

EUA, 2010, Musical, 119 minutos

Sinopse: Ali (Christina Aguilera) deixou sua pequena cidade natal em busca do sucesso em Los Angeles. Logo ao chegar ela conhece a boate Burlesque, especializada em shows musicais de belas mulheres, que sempre se apresentam usando playback. O local é gerenciado por Tess (Cher), que nega uma chance a Ali. Ela insiste e consegue ser contratada como garçonete, graças à ajuda do balconista Jack (Cam Gigandet). Ali passa a acompanhar todos os shows, decorando as canções e coreografias. Quando Tess e seu braço-direito Sean (Stanley Tucci) realizam uma audição em busca de novas bailarinas, Ali aproveita a chance para mostrar do que é capaz.

Burlesque assume que não quer ser levado a sério. Também pudera: cafona do início ao fim, o filme aposta nos mais variados tipos de clichês envolvendo a história da garota pobre que tem uma vez poderosa e quer alcançar o sucesso. Além disso, tem sua trama desenvolvida praticamente toda em um cenário, além de trazer muitos figurinos brilhantes e várias coregrafias. Aí vem Christina Aguilera com aquela voz que chega a ser fake de tão perfeita para uma garotinha desempregada e “sem talento”, Cher pagando a diva com visual de Mortícia cheia de botox da Família Addams e Stanley Tucci gay sendo o amigo best dela.

Ou seja, como dá para perceber, Burlesque só é para aqueles que sabem como funciona esse tipo de filme. Não dá para levar a sério. Isso, claro, já está evidente nos primeiros minutos do longa. No entanto, os problemas de Burlesque estão além das cafonices ou das bobeiras do roteiro. O  principal problema dele reside na direção de Steve Antin. Aplicando um tom completamente antiquado para a história (tudo parece ser de décadas atrás), a direção torna Burlesque um produto mofado. Cada aspecto é ultrapassado além da conta. Pode até ser uma homenagem ao jeito antigo de fazer musical. Mas, se for, Antin não foi habilidoso o suficiente para deixar transparecer essa intenção.

Para piorar a situação, o musical faz questão de copiar descaradamente os novos musicais do cinema. Dá até para se indignar quando versões pioradas de All That Jazz de Chicago ou Sparkling Diamonds de Moulin Rouge! aparecem encenadas sem qualquer vergonha na cara. Ok, se inspirar em outros musicais dá para engolir. Mas, sério, copiar? Incluindo alguns movimentos de câmera e focos idênticos? Desnecessário. Infinitamente previsível e com uma solução de problema mais imbecil que a outra, Burlesque, além de ultrapassado, não deixa o espectador se divertir com outra coisa a não ser a parte musical. Interpretações e conteúdo beiram o inexpressivo.

Com um ou outro momento mais notável (e Cher chorando as pitangas em You Haven’t Seen the Last of Me é um deles), Burlesque permanece como um entretenimento aceitável, mesmo que repleto de falhas. É aquela velha situação em que os problemas do filme precisam ser perdoados para um melhor aproveitamento. Foi assim com o divertido Mamma Mia!. Só que esse tinha Meryl Streep, ABBA, Grécia… Burlesque tem Cher cheia de botox com voz de Roberta Miranda, Christina Aguilera incorporando o estrelismo de sua personagem, personagens presos em um único ambiente e muitos coadjuvantes desnecessários com draminhas que nada acrescentam. Nada trágico ou sequer ruim, mas não custaria um pouquinho de frescor, não é mesmo?

FILME: 6.0

Não Me Abandone Jamais

It had never occurred to me that our lives, so closely interwoven, could unravel with such speed. If I’d known, maybe I’d have kept tighter hold of them.

Direção: Mark Romanek

Elenco: Carey Mulligan, Andrew Garfield, Keira Knightley, Sally Hawkins, Charlotte Rampling, Ella Purnell, Charlie Rowe, Izzy Meikle-Small

Never Let Me Go, EUA/Inglaterra, 2010, Drama, 103 minutos

Sinopse: Quando crianças, Ruth (Keira Knightley), Kathy (Carey Mulligan) e Tommy (Andrew Garfield), passaram a sua infância aparentemente idílica em um internato Inglês. À medida que tornam-se jovens adultos, eles acham que têm de chegar a um acordo com a força do amor que sentem um pelo outro, enquanto se preparam para a realidade assustadora que os espera.

Poucas vezes na minha vida cinematográfica fiquei tão em dúvida se estava amando ou odiando um filme. Pois foi exatamente assim que eu me senti enquanto assistia a Não Me Abandone Jamais. Conseguia sentir o que me incomodava e o que me agradava, mas simplesmente não conseguia definir qual era o meu real posicionamento em relação a esse filme de Mark Romanek. No final das contas, o lado positivo prevaleceu e, na última cena, percebi que tinha gostado de verdade do filme. Contudo, não consigo deixar de levar em consideração os pontos negativos.

Vamos, primeiro, ao que incomoda. Possivelmente, o único aspecto negativo (e que pode quase anular as chances do filme conquistar o espectador) é a história absurda. O enredo é o seguinte: numa tradicional escola no interior da Inglaterra, crianças fazem parte de uma escola que “incentiva as artes”. Mas, na realidade, elas estão sendo preparadas para serem doadoras de órgãos. No futuro, quando crescerem, essas crianças serão obrigadas a doarem órgãos vitais de seus corpos para ajudar a ciência a encontrar cura para certas doenças e, assim, alcançar a tão almejada média de vida de 100 anos de idade. Não existe escolha: essas crianças doarão órgãos, não importando se existe a possibilidade de falecimento.

É uma trama completamente absurda pela falta de noção. Que ausência de humanidade é essa de um mundo em que crianças são condenadas à morte porque precisam doar órgãos para ajudar a ciência? Contudo, o mais revoltante em Não Me Abandone Jamais é a passividade com que os personagens lidam com isso. Mesmo quando percebem o horror das suas vidas, aceitam como se não tivessem escolha. Ninguém se revolta com a situação. Os personagens simplesmente aceitam o fato de que estão sendo obrigados a morrer para ajudar a ciência. Ninguém foge, ninguém luta e ninguém se indigna com a situação. Inclusive, em certos momentos, o roteiro tenta encenar como se ela representasse um ato nobre.

Além da história absurda, o texto nunca deixa muito claro o que está acontecendo. Para aquele público que for assistir Não Me Abandone Jamais sem qualquer conhecimento da trama (como foi o meu caso), fica difícil compreender a verdadeira situação dos personagens. O texto não explicita de forma satisfatória os fatos e desenvolve tudo com descaso, não fazendo muita questão de esmiuçar o porquê daquele mundo ser desse jeito ou o que motiva esses personagens aceitarem tudo com tranquilidade. Ou seja, o mundo em que as figuras da trama estão inseridos demora para ficar claro – e, inclusive, posso apostar que muitos continuarão com dúvidas após assistir.

Agora vamos aos pontos que fizeram com que o lado postivo do filme me conquistasse mais. Por mais que não dê para acreditar nos pretextos insatisfatórios para estruturar o drama, é fácil se envolver com as consequências dessa história maluca. Não Me Abandone Jamais é um exercício emocional bem construído sobre vidas interrompidas. Os personagens, que sempre estão com uma expressão de melancolia, trasmitem para o espectador a sensação de vidas perdidas, amores não realizados e chances não aproveitadas. É o relato de pessoas que o destino não quis que elas vivessem. Isso é o que está maravilhosamente bem pontuado pelo roteiro. Nós sentimos o pesar dos personagens e como a impossibilidade de ter um futuro aniquila com a felicidade de suas vidas.

O elenco também possui a sua parcela de vitória nessa dramaticidade bem sucedida de Não Me Abandone Jamais. Ainda tenho minhas implicâncias, por exemplo, com Carey Mulligan, que, depois de Educação, se tornou uma atriz de um tipo só. Ela está sempre com aquela cara de menina enjoada que fica choramingando o tempo inteiro. Também tenho minhas restrições com Keira Knightley, uma profissional de caras e bocas. Contudo, esse jeito comentado de Mulligan cai como uma luva para seu papel, ao passo que Keira controla seus tiques e está bem aqui. O garoto Andrew Garfield, recente destaque em A Rede Social, acompanha a qualidade de suas colegas. O ponto alto do elenco, porém, é a pequena participação de Sally Hawkins – que tem um papel muito promissor, mas subutilizado.

Em suma, existe uma regra essencial que precisa ser cumprida para um bom aproveitamento de Não Me Abandone Jamais. É impossível perceber o que existe de bom na melancolia do filme se você ficar se importando com o absurdo da trama. É mais do que fundamental se desligar desse detalhe e tentar enxergar o que existe no triste clima que envolve os personagens. Ajudado pela fotografia e pela trilha igualmente melancólica, o texto de Não Me Abandone Jamais ganha mais sentido e consegue acertar em cheio o espectador quando analisado sem a interferência dos esdrúxulos pretextos do enredo. Basta ver o filme como uma obra sobre vidas incompletas e infelizes que o resultado será bem proveitoso.

FILME: 8.0