Cinema e Argumento

A Hora da Escuridão

Direção: Chris Gorak

Elenco: Emile Hirsch, Max Minghella, Olivia Thirlby, Rachael Taylor, Joel Kinnaman, Veronika Ozerova, Dato Bakhtadze, Yuriy Kutsenko

The Darkest Hour, EUA/Rússia, 2011, Ação, 89 minutos

Sinopse: Quatro amigos passavam as férias de seus sonhos na Rússia, na maior curtição, mas a população começa viver um incrível pesadelo. É quando Sean (Emile Hirsch), Natalie (Olivia Thirlby), Ben (Max Minghella) e Anne (Rachael Taylor) descobrem que seres de outro planeta invadiram a Terra. Só que ninguém consegue ver o inimigo, que se alimenta de energia, e tem planos de destruir a humanidade. Agora, eles precisam encontrar uma maneira de eliminá-los, antes que seja tarde. (Adoro Cinema)

Já foram produzidos tantos filmes sobre o fim do mundo que, de certa forma, a temática se configurou como um gênero cinematográfico. Até certo tempo atrás, o assunto era sucesso garantido. Hoje, no entanto, está em decadência. A exemplo de 2012, um filme magnífico no que se refere aos efeitos especiais, mas completamente tolo e amador na forma como conduz sua história, vários outros filmes, atualmente, prenderam-se a um formato. O esquema é muito simples: jovens felizes no início, situações inusitadas que anunciam uma tragédia, o desespero de presenciar a ameaça real e, por fim, o convívio nesse mundo que precisa urgentemente ser salvo. A Hora da Escuridão segue exatamente todos esses passos, mas é desprovido da grandiosidade hollywoodiana que, normalmente, costuma tornar tudo pelo menos divertido. Parece um filme B, que, se não fosse por Hirsch, seria lançado diretamente nas locadoras.

Dirigido por Chris Gorak, que já trabalhou com grandes cineastas como Steven Spielberg e David Fincher, A Hora da Escuridão, como o próprio diretor declarou, não planeja ser um filme focado no fim do mundo em si, mas no cotidiano daqueles que sobreviveram ao desastre e se encontram num cenário completamente devastado. Uma jogada interessante, cujo exemplo mais recente que se beneficia de tal abordagem é A Estrada, mas que aqui não recebe consistência suficiente para chamar a atenção. Gorak, na realidade, encontra nessa decisão um dos maiores problemas de sua história: a falta de ação. Se, nos primeiros minutos, conseguimos entrar no sombrio clima de uma Rússia deserta e até mesmo ameaçadora, aos poucos o longa se perde em discussões bobas sobre como a equipe de jovens deve agir ou como  derrotar a tal ameaça – que, por sinal, não desperta sensação alguma e nunca é explicada de forma convincente, limitando-se apenas a indicar que luz é sinônimo de perigo.

É uma pena, portanto, constatar que o talentoso Emile Hirsch, que fez um belo trabalho em Na Natureza Selvagem, tenha emprestado o seu nome a um filme tão inexpressivo. Hirsch, que, recentemente, parou de atuar para trabalhar em uma jornada humanitária no Congo, no Zimbábue e no topo do monte Kilimanjaro, poderia ser a salvação, mas ele próprio não consegue rivalizar com um texto tão pobre, onde há sentimentos, situações e explicações verbalizados a todo momento. Seu personagem, além de óbvio, é um heroi que nunca convence, especialmente quando, de uma hora para a outra, consegue persuadir militares e explicar, por exemplo, teorias de metais que conduzem eletricidade. Hirsch merecia um retorno muito melhor.

Com efeitos especiais de Timur Bekmambetov, de O Procurado e Guardiões da NoiteA Hora da Escuridão está fadado ao fracasso não apenas por ser completamente inconsistente em conflitos e resoluções, mas também porque não possui o apelo e, principalmente, o estilo pipoca para contagiar as plateias. Repetitivo e frequentemente sem ritmo, parece colocar momentos de ação aleatórios para trazer algum tipo de tensão. E não consegue. O uso do 3D também não ajuda, já que a tecnologia é utilizada com desleixo – e, o pior de tudo, pouco consegue ser aproveitada em função da fotografia excessivamente escura (afinal, mais da metade do filme é encenado durante a noite). A Hora da Escuridão perde a chance de ser um entretenimento despretensioso. Que tivesse pelo menos um pouquinho mais de barulho para espantar o tédio e a falta de personalidade…

FILME: 4.0

As indicações ao Oscar de… Alexandre Desplat

Hoje, todo cinéfilo conhece o francês Alexandre Desplat. Entretanto, até cinco anos atrás, poucos sabiam de sua existência. Indicado para quatro Oscars, esse francês de 50 anos é o compositor que mais trabalha atualmente, além de ser extremamente eclético, fazendo trilha para blockbusters, dramas, animações e suspenses. O melhor de Desplat é que ele nunca perde o ritmo e, mesmo que, de vez em quando, apresente trabalhos reciclados, está sempre dando provas de originalidade. Confira, abaixo, breves análises das quatro vezes em que o compositor foi indicado ao Oscar:

2007 – Melhor Trilha Sonora

Javier Navarrete (O Labirinto do Fauno)

Philip Glass (Notas Sobre Um Escândalo)

Alexandre Desplat (A Rainha)

Gustavo Santaolalla (Babel)

Thomas Newman (O Segredo de Berlim)

Pouco interessa se Alexandre Desplat merecia estar nessa lista com A Rainha ou com O Despertar de Uma Paixão, filme que lhe rendeu um merecido Globo de Ouro. As duas trilhas são ótimas e foram perfeitas introduções do compositor para o público que até então não tinha muito conhecimento de sua obra (ela já incluía bons trabalhos como Reencarnação e Moça Com Brinco de Pérola). Desplat poderia sim ter vencido o prêmio logo de cara, uma vez que a segunda estatueta para o subestimado Gustavo Santaolalla foi apenas uma consolação para Babel, filme que era um dos favoritos daquela cerimônia e que não poderia sair da festa de mãos abanando. Além de um merecido reconhecimento para A Rainha, seria também um importante voto de confiança para esse compositor que não deixaria de dar constantes provas de talento a partir daí. Se não fosse Desplat, que pelo menos tivessem premiado a bela trilha de O Labirinto do Fauno, ou, então, a de Notas Sobre Um Escândalo, para corrigir as injustiças absurdas que já cometeram com o mestre Philip Glass, que, pasmem, não tem Oscar até hoje.

2009 – Melhor Trilha Sonora

Alexandre Desplat (O Curioso Caso de Benjamin Button)

A.R. Rahman (Quem Quer Ser Um Milionário?)

Thomas Newman (WALL-E)

James Newton Howard (Um Ato de Liberdade)

Danny Elfman (Milk – A Voz da Igualdade)

Obra-prima de Alexandre Desplat, a trilha de O Curioso Caso de Benjamin Button não conseguiu rivalizar com a de Quem Quer Ser Um Milionário?, do indiano A.R. Rahman – um sujeito que, assim como Santaolalla, é bastante superestimado. O trabalho de Desplat era, claramente, o mais consistente entre todos, criando uma atmosfera impecável para o filme de David Fincher. Estranho ver a Academia se rendendo ao trabalho de Rahman, já que a trilha é basicamente composta por canções (três delas indicadas ao prêmio em sua respectiva categoria). 2009 também foi um ano de gigantes, onde ainda concorriam outros profissionais que até hoje não sentiram o gosto do que é vencer um Oscar, como Thomas Newman (inspirado em sua trilha para WALL-E, outro que merecia mais reconhecimento), James Newton Howard e Danny Elfman. Rahman, cujo prêmio foi mais pela empolgação exacerbada com o filme de Danny Boyle, realizou sim um trabalho muito interessante, mas que, hoje, já não fica tanto na memória quanto O Curioso Caso de Benjamin Button, de Alexandre Desplat.

2010 – Melhor Trilha Sonora

Michael Giacchino (Up – Altas Aventuras)

Alexandre Desplat (O Fantástico Sr. Raposo)

Hans Zimmer (Sherlock Holmes)

James Horner (Avatar)

Marco Beltrami & Buck Sanders (Guerra ao Terror)

No ano em que Marco Beltrami e Buck Sanders foram inexplicavelmente lembrados pela trilha de Guerra ao Terror (mais um caso de indicação só para bajular um filme) e que Abel Korzeniowski não foi citado por seu perfeito trabalho em Direito de Amar, poderíamos esperar qualquer loucura para o vencedor. Desplat, por O Fantástico Sr. Raposo, não tinha qualquer chance de vencer, pois Michael Giacchino era, merecidamente, o favorito por seu ótimo trabalho em Up – Altas Aventuras. Era mesmo o ano da Pixar nessa categoria, porque os já consagrados Hans Zimmer e James Horner dificilmente venceriam por seus respectivos trabalhos. Vale lembrar, claro, que Desplat, seguindo o seu padrão de alta quantidade de trilhas por ano, ainda tinha dois excelentes trabalhos elegíveis: Coco Antes de Chanel e Chéri. Trabalhos, inclusive, que eram mais merecedores do que o próprio indicado do francês.

2011 – Melhor Trilha Sonora

Trent Reznor & Atticus Ross (A Rede Social)

Hans Zimmer (A Origem)

Alexandre Desplat (O Discurso do Rei)

John Powell (Como Treinar o Seu Dragão)

A.R. Rahman (127 Horas)

Desplat não seria Desplat se não se envolvesse com os projetos certos. Entre tantos trabalhos, eis que ele foi parar no grande vencedor do ano de 2011. E, se num primeiro momento, pode até parecer que o compositor foi indicado apenas pelo buzz de O Discurso do Rei, logo percebemos que não é bem assim: a trilha, simpática e com uma música-tema muito interessante, merecia mesmo estar ali. Mas não para vencer. Assim como o próprio filme de Tom Hooper, era o indicado “clássico” e sem ousadias de sua categoria. Se O Discurso do Rei conseguiu bater seus rivais na categoria principal, Desplat não alcançou tal feito, até mesmo porque os vencedores, Trent Reznor e Atticus Ross, mereceram a estueta pelo trabalho contemporâneo e diferente. Outro cotadíssimo desse ano era Hans Zimmer, que criou composições emblemáticas para o grandioso A Origem. Entre as ausências, Daft Punk, por Tron – O Legado. A dupla merecia figurar entre os cinco selecionados, fazendo par com A Rede Social. As duas trilhas têm muito em comum.

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No próximo post: George Clooney.

Brasil ficou devendo em 2011: “Jane Eyre”

I know you. You’re thinking. Talking is of no use, you’re thinking how to act.

Os tempos são difíceis para filmes de época. De todos os últimos lançamentos do estilo, são poucos os que realmente conseguiram ir além da excelência do lado técnico e do Oscar para os figurinos. A verdade é que os filmes de época já estabeleceram um certo parâmetro e não querem abandoná-lo. Jane Eyre, estrelado pela jovem Mia Wasikowska, não foge à regra, mas, pelo menos, apresenta pequenas diferenças que podem agradar os espectadores que esperam algo além do básico.

Ao contrário de outros exemplares, Jane Eyre não apresenta exuberância técnica. Claro que os figurinos estão ok e a direção de arte idem, mas não temos aqui as grandiosidades (ou exageros, como preferirem) de Elizabeth – A Era de Ouro nem a milimétrica preocupação com a perfeição estética de Maria Antonieta. Podemos dizer que esse é um filme mais contido nesse aspecto. O diretor Cary Fukunaga parece mais interessado em contar uma história do que propriamente chamar a atenção com o lado técnico – algo que, como já dito, é muito corriqueiro no gênero.

Apoiado por uma belíssima trilha do italiano Dario Marianelli, o roteiro de Jane Eyre chama a atenção por não apostar num romance meloso ou sequer idealizado. A principal abordagem, sem dúvida, é em relação ao comportamento da protagonista, que tem personalidade forte e avançada para sua época; uma espécie de anti-heroína. Wasikowska que, depois de arrasar no seriado In Treatment, amargou críticas negativas em Alice no País das Maravilhas e indiferença em Minhas Mães e Meu Pai, alcança aqui o seu melhor momento no cinema. Ela segura o filme com competência – o que é de se admirar, uma vez que o filme tem, no elenco, outros talentosos atores como Judi Dench, Sally Hawkins e Michael Fassbender.

Jane Eyre, então, consegue se diferenciar em muitos aspectos, mas, infelizmente, não em todos. O longa, em certos momentos, é mais previsível do que suas intenções necessitam e, ao final, dá para perceber o comodismo do diretor ao realizar um desfecho que atenda o desejo da plateia desse tipo de filme. E isso é uma pena, já que, durante toda a história, acompanhamos um filme de época que é mais eficiente do que o normal. O que faltou foi coragem de fugir do óbvio em todas as decisões, e não apenas em determinados aspectos. Se não tivesse medo de afastar o público, fugiria do lugar-comum. Dessa vez, ficou no quase.

FILME: 7.5

As formas do amor

Toda Forma de Amor está longe de ser um filme simplista. O sentimento que dá título ao filme de Mike Mills não é retratado de forma melodramática ou previsível. Ao invés de construir romances comuns, o longa-metragem está mais preocupado em mostrar como os relacionamentos podem mudar vidas – para o bem ou para o mal. Na realidade, Toda Forma de Amor procura explorar a dramaticidade do amor. Logo no início, conhecemos Oliver (Ewan McGregor), um sujeito que, como dizem no próprio filme, quer estar em um relacionamento, mas simplesmente não consegue fazer parte de um. Essa percepção torna Oliver solitário – até o dia em que conhece a irreverente Anna (Mélanie Laurent), uma moça que, talvez, possa mudar sua perspectiva sobre as relações.

A vida de Oliver, no entanto, também está marcada por memórias que ainda não foram superadas. E a maior delas é a de seu pai, Hal (Christopher Plummer), que faleceu recentemente em função de um câncer. Hal, quando descobriu a doença, resolveu assumir a sua homossexualidade, envolvendo-se com um homem muito mais novo. Ou seja, paralelo aos problemas de Oliver, ainda acompanhamos, através de flashbacks, como esse relaciomento gay ajudou (ou atrapalhou) Hal em seus últimos dias de vida.

Em sua primeira metade, Toda Forma de Amor não consegue conquistar o espectador. Demorando para mostrar as verdadeiras intenções dramáticas do filme, o roteiro só começa a funcionar de verdade na segunda parte, quando acompanhamos os personagens de McGregor e Plummer em momentos de maior intensidade emocional. Portanto, aquele filme que começou sem ritmo e narrado de forma quase estranha (os cortes abruptos podem afastar muita gente) termina de forma sensível. Ou seja, quando a história se encontra, Toda Forma de Amor envolve, especialmente em função da performance dos atores.

Ewan McGregor, que estava há anos sem um desempenho de destaque, apresenta aqui o seu melhor momento recente, conduzindo com competência um papel que não é tão fácil como aparenta. Quem rouba a cena, porém, é o veterano Christopher Plummer. A performance do ator é segura, especialmente por causa da curiosidade que sua caracterização desperta e da dedicação corajosa do ator ao papel – afinal, encontrar um ator com mais de 80 anos que aceitasse beijar outro homem em cena não deve ter sido tarefa simples. Quando aparece, Plummer é o destaque (e, por sinal, o filme poderia ter aproveitado mais isso, uma vez que os flashbacks envolvendo o personagem são breves e não tão aprofundados como poderiam ser).

FILME: 8.0


Dez cenas do cinema em 2011

A perfeição de Nina (Natalie Portman), em Cisne Negro.

A sequência final de Um Sonho de Amor.

Kermit relembra o passado cantando Pictures in My Head, em Os Muppets.

O desfecho de Melancolia.

Uxbal (Javier Bardem) pede que a filha nunca o esqueça, em Biutiful.

Emily (Julianne Moore) inventa uma desculpa e liga para Cal (Steve Carell), em Amor a Toda Prova.

O passado de Snape (Alan Rickman) no flashback de Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2.

“Já conheço os passos dessa estrada. Sei que não vai dar em nada”, em As Canções.

All the Lovers encerra Aphrodite: Les Folies, show de Kylie Minogue gravado em 3D especialmente para os cinemas.

Discussão final + créditos de Namorados Para Sempre.