Cinema e Argumento

Brasil ficou devendo em 2011: “Jane Eyre”

I know you. You’re thinking. Talking is of no use, you’re thinking how to act.

Os tempos são difíceis para filmes de época. De todos os últimos lançamentos do estilo, são poucos os que realmente conseguiram ir além da excelência do lado técnico e do Oscar para os figurinos. A verdade é que os filmes de época já estabeleceram um certo parâmetro e não querem abandoná-lo. Jane Eyre, estrelado pela jovem Mia Wasikowska, não foge à regra, mas, pelo menos, apresenta pequenas diferenças que podem agradar os espectadores que esperam algo além do básico.

Ao contrário de outros exemplares, Jane Eyre não apresenta exuberância técnica. Claro que os figurinos estão ok e a direção de arte idem, mas não temos aqui as grandiosidades (ou exageros, como preferirem) de Elizabeth – A Era de Ouro nem a milimétrica preocupação com a perfeição estética de Maria Antonieta. Podemos dizer que esse é um filme mais contido nesse aspecto. O diretor Cary Fukunaga parece mais interessado em contar uma história do que propriamente chamar a atenção com o lado técnico – algo que, como já dito, é muito corriqueiro no gênero.

Apoiado por uma belíssima trilha do italiano Dario Marianelli, o roteiro de Jane Eyre chama a atenção por não apostar num romance meloso ou sequer idealizado. A principal abordagem, sem dúvida, é em relação ao comportamento da protagonista, que tem personalidade forte e avançada para sua época; uma espécie de anti-heroína. Wasikowska que, depois de arrasar no seriado In Treatment, amargou críticas negativas em Alice no País das Maravilhas e indiferença em Minhas Mães e Meu Pai, alcança aqui o seu melhor momento no cinema. Ela segura o filme com competência – o que é de se admirar, uma vez que o filme tem, no elenco, outros talentosos atores como Judi Dench, Sally Hawkins e Michael Fassbender.

Jane Eyre, então, consegue se diferenciar em muitos aspectos, mas, infelizmente, não em todos. O longa, em certos momentos, é mais previsível do que suas intenções necessitam e, ao final, dá para perceber o comodismo do diretor ao realizar um desfecho que atenda o desejo da plateia desse tipo de filme. E isso é uma pena, já que, durante toda a história, acompanhamos um filme de época que é mais eficiente do que o normal. O que faltou foi coragem de fugir do óbvio em todas as decisões, e não apenas em determinados aspectos. Se não tivesse medo de afastar o público, fugiria do lugar-comum. Dessa vez, ficou no quase.

FILME: 7.5

As formas do amor

Toda Forma de Amor está longe de ser um filme simplista. O sentimento que dá título ao filme de Mike Mills não é retratado de forma melodramática ou previsível. Ao invés de construir romances comuns, o longa-metragem está mais preocupado em mostrar como os relacionamentos podem mudar vidas – para o bem ou para o mal. Na realidade, Toda Forma de Amor procura explorar a dramaticidade do amor. Logo no início, conhecemos Oliver (Ewan McGregor), um sujeito que, como dizem no próprio filme, quer estar em um relacionamento, mas simplesmente não consegue fazer parte de um. Essa percepção torna Oliver solitário – até o dia em que conhece a irreverente Anna (Mélanie Laurent), uma moça que, talvez, possa mudar sua perspectiva sobre as relações.

A vida de Oliver, no entanto, também está marcada por memórias que ainda não foram superadas. E a maior delas é a de seu pai, Hal (Christopher Plummer), que faleceu recentemente em função de um câncer. Hal, quando descobriu a doença, resolveu assumir a sua homossexualidade, envolvendo-se com um homem muito mais novo. Ou seja, paralelo aos problemas de Oliver, ainda acompanhamos, através de flashbacks, como esse relaciomento gay ajudou (ou atrapalhou) Hal em seus últimos dias de vida.

Em sua primeira metade, Toda Forma de Amor não consegue conquistar o espectador. Demorando para mostrar as verdadeiras intenções dramáticas do filme, o roteiro só começa a funcionar de verdade na segunda parte, quando acompanhamos os personagens de McGregor e Plummer em momentos de maior intensidade emocional. Portanto, aquele filme que começou sem ritmo e narrado de forma quase estranha (os cortes abruptos podem afastar muita gente) termina de forma sensível. Ou seja, quando a história se encontra, Toda Forma de Amor envolve, especialmente em função da performance dos atores.

Ewan McGregor, que estava há anos sem um desempenho de destaque, apresenta aqui o seu melhor momento recente, conduzindo com competência um papel que não é tão fácil como aparenta. Quem rouba a cena, porém, é o veterano Christopher Plummer. A performance do ator é segura, especialmente por causa da curiosidade que sua caracterização desperta e da dedicação corajosa do ator ao papel – afinal, encontrar um ator com mais de 80 anos que aceitasse beijar outro homem em cena não deve ter sido tarefa simples. Quando aparece, Plummer é o destaque (e, por sinal, o filme poderia ter aproveitado mais isso, uma vez que os flashbacks envolvendo o personagem são breves e não tão aprofundados como poderiam ser).

FILME: 8.0


Dez cenas do cinema em 2011

A perfeição de Nina (Natalie Portman), em Cisne Negro.

A sequência final de Um Sonho de Amor.

Kermit relembra o passado cantando Pictures in My Head, em Os Muppets.

O desfecho de Melancolia.

Uxbal (Javier Bardem) pede que a filha nunca o esqueça, em Biutiful.

Emily (Julianne Moore) inventa uma desculpa e liga para Cal (Steve Carell), em Amor a Toda Prova.

O passado de Snape (Alan Rickman) no flashback de Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2.

“Já conheço os passos dessa estrada. Sei que não vai dar em nada”, em As Canções.

All the Lovers encerra Aphrodite: Les Folies, show de Kylie Minogue gravado em 3D especialmente para os cinemas.

Discussão final + créditos de Namorados Para Sempre.

A trilha sonora de… A Dama de Ferro

Thomas Newman é um grande compositor e, assim como Alexandre Desplat, Philip Glass, Clint Mansell e James Newton Howard, um verdadeiro injustiçado por nunca ter vencido um Oscar sequer. Dono de grandes trabalhos como Beleza Americana ou, então, Angels in America (sua obra-prima), Newman é o compositor de dois filmes que terão certo destaque na próxima temporada de premiações. O primeiro é Histórias Cruzadas, com Emma Stone e Viola Davis. O segundo é A Dama de Ferro, cinebiografia de Margaret Thatcher estrelada por uma das favoritas ao Oscar de melhor atriz (mais uma vez), Meryl Streep. A boa notícia é que, dessa vez, o compositor está longe de apresentar a reciclagem que ouvimos em Foi Apenas Um Sonho, por exemplo. Seu trabalho no filme de Phyllida Lloyd é bem acima da média.

O esperado para um longa como A Dama de Ferro seria uma trilha que remetesse ao trabalho que Alexandre Desplat apresentou em A Rainha ou em O Discurso do Rei. Ou seja, algo mais clássico e previsível (não que isso signifique algo ruim), seguindo o padrão de filmes sobre a realeza/política britânica. E, verdade, Newman, em diversos momentos, entrega-se a esse comodismo, como em The Great in Great Britain e Discord and Harmony (ainda que seja uma faixa bem orquestrada). Só que, na medida em que escutamos a trilha de A Dama de Ferro, percebemos que o compositor tomou várias liberdades, não limitando o álbum a apenas um estilo. Podemos encontrar muitas variações, desde ecos de Desplat até sonoridades que não se parecem com as de um filme desse estilo (o que não é preocupante aqui, mas, se mal utilizadas no filme, podem trazer resultado negativo).

Thomas Newman, então, cria uma trilha que apresenta sim aspectos previsíveis, mas que aqui ou ali, apresenta momentos que podemos chamar de inspirados. Se Swing Parliament é quase a mesma durante todo o tempo para depois tomar ritmo mais frenético em seus momentos finais, outras como Steady the Buffs (com um ótimo uso de violino) e Comunnity Charge já preferem apostar no diferencial. A Dama de Ferro, portanto, pode se considerar um filme bem sucedido no setor de trilha sonora, já que, Newman, ao misturar fatores clássicos com outros mais inovadores para o gênero, consegue um resultado que não cai na mesmice. Em um ano de grandes compositores (John Williams com Cavalo de Guerra, Howard Shore com Hugo e Abel Korzeniowski com W.E.) não seria nenhuma injustiça ver Thomas Newman sendo lembrado por este trabalho. Se Desplat foi por O Discurso do Rei, por que não Newman?

1. Soliders Of The Queen
2. MT
3. Grocer’s Daughter
4. Grand Hotel
5. Swing Parliament
6. Eyelash
7. Shall We Dance? (From “The King & I”)
8. Denis
9. The Great in Great Britian
10. Aire Neave
11. Discord and Harmony
12. The Twins
13. Nation of Shopkeepers
14. Fiscal Responsibility
15. Crisis of Confidence
16. Community Charge
17. Casta Diva (From “Norma”)
18. The Difficult Decisions
19. Exclusion Zone
20. Statecraft
21. Steady the Buffs
22. Prelude No. 1 in C major, BWV 846

So long, farewell, 2011!

Dizem que 2011 não foi um grande ano para o cinema. Bom, eu vi Almodóvar em alto estilo, Lars Von Trier apresentando sua obra-prima, Harry Potter encerrando a série com chave de ouro, Coutinho emocionando mais uma vez, Aronofsky criando momentos antológicos… Estou satisfeito!

Mais do que tudo isso, também vi o Cinema e Argumento amadurecer muito. Não só por alcançar uma média diária de visitas que me deixa muito orgulhoso (um recorde foi batido: 1.057 em um único dia!), mas também por conquistar boa quantidade de posts, leitores cativos e exclusividades, como os inéditos filmes do Festival de Cinema de Gramado.

Entre posts sobre estreias, Oscar, trilhas e desabafos, encerro 2011 comemorando tudo o que alcancei com o blog e também com tantas outras vitórias profissionais e pessoais que tive ao longo desse ano. Que 2012 tenha tudo isso e muito mais!

Espero contar com a presença de vocês para essa nova etapa.

Um abraço a todos,

Matheus Pannebecker